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Trecho do Livro: Doidas e Santas | Martha Medeiros

Livros Doidas e Santas Martha Medeiros BooksLivro: Doidas e Santas

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Falcatruas, alagamentos, violência urbana. Eu colocaria mais uma coisinha nessa lista de pequenas tragédias com que somos brindados diariamente: o tédio. A cada manhã, abrimos os jornais e é a mesma indecência política. Nas ruas, perdemos tempo com os mesmos engarrafamentos. Escutamos as mesmas queixas no local de trabalho. É sempre o mesmo, o mesmo. Como é bom quando algo nos surpreende.

Para quem vive na opressiva e cinzenta São Paulo, a novidade atende pelo nome de Cow Parade, a exposição ao ar livre de 150 esculturas em forma de vaca, em tamanho natural, feitas de fibra de vidro e decoradas com muita cor e insanidade por artistas plásticos, diretores de arte, designers e cartunistas. Um nonsense mais que bem-vindo, uma intervenção no nosso olhar acostumado. Espalhadas por ruas, praças, nos lugares mais inesperados, lá estão elas, vacas enormes, vacas profanas, vacas insólitas. Para quê? Para nada de especial, apenas para espantar o tédio, inspirar loucuras, lembrar que as coisas não precisam ser sempre iguais. Havia uma vaca no meio do caminho, no meio do caminho havia uma vaca. É poesia também.

Falando em poesia, há sempre uma nova e heróica coletânea sendo lançada no mercado editorial, tentando atrair aqueles leitores que evitam qualquer coisa que rime. Desta vez, não é coletânea de mulheres poetas ou de poetas do terceiro mundo, essas cortesias que nos fazem. Finalmente, o humor e a leveza baixaram no reino dos versos. O livro chama-se Veneno Antimonotonia e traz o subtítulo: Os melhores poemas e canções contra o tédio. Organizado por Eucanaã Ferraz, a antologia pretende combater o vazio, o medo, a falta de imaginação. É um convite para a vida, e um convite feito através das palavras de Drummond, Chico Buarque, Antônio Cícero, Ferreira Gullar, Adriana Calcanhotto, Armando Freitas Filho, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, João Cabral de Melo Neto e outros ilustres, sem faltar Cazuza, claro, cuja canção Todo amor que houver nesta vida – uma das minhas letras preferidas – inspirou o título da obra.

Até hoje, pergunta-se: para que serve a arte, para que serve a poesia?

Intelectuais se aprumam, pigarreiam e começam a responder dizendo “Veja bem…” e daí em diante é um blablablá teórico que tenta explicar o inexplicável. Poesia serve exatamente para a mesma coisa que serve uma vaca no meio da calçada de uma agitada metrópole. Para alterar o curso do seu andar, para interromper um hábito, para evitar repetições, para provocar um estranhamento, para alegrar o seu dia, para fazê-lo pensar, para resgatá-lo do inferno que é viver todo santo dia sem nenhum assombro, sem nenhum encantamento.

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