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Trecho do Livro: Segurança em PHP | Márcio Pessoa

Livros Seguranca em PHP Marcio Pessoa BooksLivro: Segurança em PHP

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No primeiro capítulo serão abordados alguns conceitos de desenvolvimento visando à segurança do projeto de um modo geral. Não serão explorados aspectos específicos do PHP; o objetivo deste capítulo é explicar de forma simples os princípios de segurança em um projeto, independente de linguagens de programação ou sistemas operacionais.

Ao concluir este capítulo, o leitor estará familiarizado com os seguintes tópicos:

  • Conceitos básicos de segurança relacionados à programação.
  • Definição de usabilidade de um sistema.
  • Razões para realizar a programação visando a usuários ilegítimos.
  • Considerações sobre desempenho.
  • Limites de acesso.

1.1 Segurança

Levando em consideração as boas linguagens de programação, elas por si só não podem ser consideradas seguras ou inseguras; a segurança de sua aplicação depende, sobretudo, de todo o projeto e, mais especificamente, do código do programa.

Nenhum esforço isolado é suficiente para evitar problemas de segurança de computadores. Com toda certeza o leitor já deparou com frases como:

  • “Nossa política de segurança é à prova de falhas.”
  • “A tecnologia usada neste DVD para evitar pirataria é absolutamente confiável.”
  • “Este sistema é totalmente seguro!”

Certamente não é necessário mencionar que essas frases foram muito mal sucedidas, pois a segurança não pode ser medida de forma absoluta; a segurança de um sistema deve ser aferida, não devendo ser tratada como uma característica do mesmo.

A segurança de um sistema deve ser balanceada com o custo e a usabilidade do projeto. De modo geral, um projeto com algum nível de segurança implementado tem um custo superior a um projeto sem nenhum requinte de segurança. Esses custos dizem respeito à contratação de pessoal especializado, maior tempo para confecção do projeto e outros itens que acarretam maior custo financeiro:

Custo

  • Tempo de projeto, pesquisa, programação e testes.
  • Profissionais mais bem-qualificados.
  • Hardware específico ou mais poderoso.
  • Mais banda de internet para suportar maior interação com o usuário e/ou criptografia.

Usabilidade

  • Facilitar ou complicar.
  • Cartões de acesso (tokens).
  • Tempo de sessão.
  • Senhas, chaves etc.

Para não tornar o projeto um bicho de sete cabeças, o nível de segurança desejado deve ser definido com cautela para não tornar o projeto economicamente impraticável ou até mesmo tão complicado que não possa ser utilizado.

Outro item muito importante a ser levado em consideração é que a segurança deve fazer parte do design do projeto. Muitos programas têm sua parte de segurança implementada depois que está pronto. Isso, além de implicar na existência de uma implementação problemática dos recursos de segurança, implica aumentar muito o tempo do projeto e conseqüentemente os custos deste.

O último, porém não menos importante, recurso que citarei é a informação – é fundamental estar sempre atualizado. Existem inúmeros recursos disponíveis na internet, que vão desde websites especializados em segurança até listas de discussão.

1.2 Usabilidade versus segurança

Quanto mais recursos de segurança forem implementados no sistema, mais complicado será o seu uso.

Existe um tipo de sistema muito popular que pode exemplificar isso muito bem – o Internet Banking. Tal sistema precisa ser muito fácil de usar, mas necessita contar com recursos de segurança muito confiáveis.

Os bancos têm usado os mais diversos e criativos artifícios de segurança para garantir a legitimidade dos usuários autenticados no sistema. Para tanto, usam recursos como:

  • Login (geralmente número da agência e da conta)
  • Senha
  • Palavra secreta ou contra-senha
  • Número sorteado do cartão de chaves de acesso (token)
  • Posição da seqüência dos números de segurança impressos no cartão de débito

Certamente tem se tornado cada vez mais complicado trabalhar com Internet Banking, o que tem feito que as pessoas prefiram ir até as agências bancárias para não terem de aprender a usar ou por não confiarem nessa tecnologia.

Alguns bancos até fizeram softwares específicos para os clientes acessarem os serviços remotamente, mas isso exigia muito mais do que simplesmente distribuir um disquete com o programa; envolvia custos com suporte técnico e treinamento dos clientes para trabalhar com um programa que nem sempre era amigável.

O desenvolvedor precisa usar de sensatez ao implementar recursos de segurança em seu sistema. Leve em consideração os seguintes itens:

– Valor da informação manipulada

– Perfil do usuário

  • Faixa etária
  • Nível de instrução
  • Finalidade do sistema (lazer ou trabalho)

– Hardware usado

1.3 Postura de defesa

É importante manter uma constante postura de defesa, a qual consiste em procurar manter informações protegidas. Ainda que uma informação não tenha relevância ou não seja confidencial, terceiros não devem tomar conhecimento dela para não tirar proveito de alguma forma. Isso é conhecido também como método da ignorância – quanto menos alguém sabe sobre você, mais privacidade você terá e, conseqüentemente, mais segurança.

Em termos práticos isso se resume em atitudes muito simples, afinal, se você não ganha nada em divulgar o sistema operacional que usa, não há então necessidade de divulgar. O mesmo se aplica à linguagem de programação, bancos de dados e demais recursos.

1.4 Desempenho

Ao desenvolver programas, esteja certo de que sempre é possível fazer melhor. Um bom programa deve fazer tudo o que foi planejado e ainda ter as seguintes características:

  • Consumir o mínimo de tempo de CPU para ser executado.
  • Alocar a menor quantidade possível de memória.
  • Gravar todos os dados necessários usando o menor espaço em disco possível.
  • Utilizar a rede interna e a internet de forma econômica e racional.

Procurar medir os recursos que são utilizados para execução do programa é uma prática extremamente importante, pois já temos em mente que os programas devem sempre consumir o mínimo de recursos do sistema. Dessa forma, o processador terá tempo livre para executar outras tarefas.

Se uma página web dinâmica consome poucos recursos do servidor para ser gerada, então o servidor poderá atender tranqüilamente múltiplas requisições.

Na concepção de um projeto é importante usar temporizadores, trechos de código que devem ser inseridos no corpo do script para medir o tempo total de execução do programa e, além disso, é de suma importância aferir os recursos disponíveis no servidor. Isso pode ser feito com a ajuda de softwares específicos para essa tarefa. No Apêndice A, será possível encontrar uma visão geral de alguns métodos de temporização e, no Apêndice B, serão abordadas algumas técnicas de monitoração.

1.5 Usuários ilegítimos

Geralmente programadores definem a estrutura de um programa baseando-se nos usuários legítimos do sistema. É necessário mudar esse conceito. O programador que escreve sistemas com responsabilidade deve desenhar a estrutura do sistema pensando sempre em primeiro lugar no usuário ilegítimo e posteriormente no usuário real do sistema.

De fato é uma técnica muito simples, mas, depois que o projeto é definido dessa forma, a programação ganha muito em velocidade, e, como já sabemos, tempo é dinheiro.

1.6 Filtro de dados

Tão importante quanto beber água para evitar a desidratação é filtrar as variáveis de entrada do programa, pois tudo que vem de alguma fonte externa deve ser minuciosamente inspecionado. Dados digitados pelos usuários, coletados de arquivos, enviados por um formulário, ou até interações feitas com servidores de bancos de dados devem passar por um crivo.

Os filtros de dados podem ser considerados como a forma mais significativa de implementar segurança em uma aplicação.

Um deslize muito comum que faz programadores perderem os cabelos é realizar checagens de consistência de dados apenas usando JavaScript. Esses scripts são excelentes para melhorar a interface com o usuário, em que os campos de um formulário podem ser testados sem haver o recarregamento da página. O problema é que o JavaScript pode ser desativado no browser, ou ainda o formulário pode ser preenchido por um “robô” (programa que busca por informações em um formulário) funcionando como browser e passando despercebido pelo JavaScript. Dessa forma, é importante realizar a checagem de consistência de dados no servidor também.

1.7 Manipulação de erros

Tão comum quanto ver aves no céu é ver websites de grandes instituições exibindo informações confidenciais quando apresentam problemas. Todos que navegam pela internet já tiveram a experiência de entrar em um site e o mesmo estar indisponível.

A falha nesse caso não é o fato de estar indisponível, afinal problemas realmente acontecem. A gravidade consiste em, quando da ocorrência de problemas, informações como endereço do servidor de banco de dados, variáveis do sistema e outras informações serem exibidas pelo browser, de modo que pessoas mal intencionadas podem tirar proveito dessas informações para prejudicar o seu sistema.

Por essa razão, é importante manipular exceções geradas pelo sistema e garantir que mensagens de erro sejam registradas somente em arquivos de log.

É de suma importância então permanecer atento aos logs gerados pelo sistema, pelo servidor web e pelos outros recursos do sistema operacional.

1.8 Limitador de acessos

Um limitador de acesso não é propriamente um programa ou uma ferramenta; trata-se de um ou mais recursos que devem ser implementados em um projeto com foco em segurança.

Um típico exemplo de um limitador de acesso é uma função no sistema que reage a tentativas mal sucedidas de login por um usuário, o que pode ser caracterizado como uma possibilidade de quebrar uma senha. Esse tipo de limitador de acesso é conhecido também como rate limit.

Outro exemplo clássico é realizar a limitação de acessos por endereço IP. Isso pode ser feito usando regras de firewall ou com o auxílio de ACLs implementadas no sistema.

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Arte: O Realismo

Movimento artístico que se manifesta na segunda metade do século XIX. Caracteriza-se pela intenção de uma abordagem objetiva da realidade e pelo interesse por temas sociais. O engajamento ideológico faz com que muitas vezes a forma e as situações descritas sejam exageradas para reforçar a denúncia social. O realismo representa uma reação ao subjetivismo do romantismo. Sua radicalização rumo à objetividade sem conteúdo ideológico leva ao naturalismo. Muitas vezes realismo e naturalismo se confundem.

Artes Plásticas: A tendência expressa-se sobretudo na pintura. As obras privilegiam cenas cotidianas de grupos sociais menos favorecidos. O tipo de composição e o uso das cores criam telas pesadas e tristes. O grande expoente é o francês Gustave Courbet (1819-1877). Para ele, a beleza está na verdade. Suas pinturas chocam o público e a crítica, habituados à fantasia romântica. São marcantes suas telas Os Quebradores de Pedra, que mostra operários, e Enterro em Ornans, que retrata o enterro de uma pessoa do povo. Outros dois nomes importantes que seguem a mesma linha são Honoré Daumier (1808-1879) e Jean-François Millet (1814-1875). Também destaca-se Édouard Manet, ligado ao naturalismo e, mais tarde, ao impressionismo. Sua tela Olympia exibe uma mulher nua que “encara” o espectador.

Literatura: O realismo manifesta-se na prosa. A poesia da época vive o parnasianismo e o simbolismo. O romance – social, psicológico e de tese – é a principal forma de expressão. Deixa de ser apenas distração e se torna veículo de crítica a instituições, como a Igreja Católica, e à hipocrisia burguesa. A escravidão, os preconceitos raciais e a sexu*alidade são os principais temas, tratados com linguagem clara e direta.

Na passagem do romantismo para o realismo, misturam-se aspectos das duas tendências. Um dos representantes dessa transição é o escritor e dramaturgo francês Honoré de Balzac, autor do conjunto de romances Comédia Humana. Outros autores importantes são os franceses Stendhal, que escreve O Vermelho e o Negro, e Prosper Merimée (1803-1870), autor de Carmen, além do russo Nicolai Gogol (1809-1852), autor de Almas Mortas.

O marco inicial do realismo na literatura é o romance Madame Bovary, do francês Gustave Flaubert (1821-1880). Outros autores importantes são o russo Fiódor Dostoiévski, cuja obra-prima é Os Irmãos Karamazov; o português Eça de Queiróz, que escreve Os Maias; o russo Leon Tolstói (1828-1910), criador de Anna Karenina e Guerra e Paz; e os ingleses Charles Dickens, autor de Oliver Twist, e Thomas Hardy (1840-1928), de Judas, o Obscuro.

A tendência desenvolve-se também no conto. Entre os mais importantes autores destacam-se o russo Tchekhov e o francês Guy de Maupassant.

Teatro: Com o realismo, problemas do cotidiano ocupam os palcos. O herói romântico é substituído por personagens do dia-a-dia e a linguagem torna-se coloquial. O primeiro grande dramaturgo realista é o francês Alexandre Dumas Filho (1824-1895), autor da primeira peça realista, A Dama das Camélias (1852), que trata da pros*tituição.

Fora da França, um dos expoentes é o norueguês Henrik Ibsen. Em Casa de Bonecas, por exemplo, trata da situação social da mulher. São importantes também o dramaturgo e escritor russo Gorki (1868-1936), autor de Ralé e Os Pequenos Burgueses, e o alemão Gerhart Hauptmann, autor de Os Tecelões.

O Realismo no Brasil

No Brasil, o realismo marca mais intensamente a literatura e o teatro.

Artes plásticas: Entre os artistas brasileiros, tem maior expressão o realismo burguês, nascido na França. Em vez de trabalhadores, o que se vê nas telas é o cotidiano da burguesia. Dos seguidores dessa linha se destacam Belmiro de Almeida (1858-1935), autor de Arrufos, que retrata a discussão de um casal, e Almeida Júnior , autor de O Descanso do Modelo. Mais tarde, Almeida Júnior aproxima-se de um realismo mais comprometido com as classes populares, como em Caipira Picando Fumo.

Literatura brasileira: O realismo teve seu início, oficialmente, com a publicação do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, que faz uma análise crítica da sociedade da época. O realismo manifesta-se na prosa. A poesia da época vive o parnasianismo e o simbolismo. O romance é a principal forma de expressão, tornando-se veículo de crítica a instituições e à hipocrisia burguesa.

Ligados ao regionalismo destacam-se Manoel de Oliveira Paiva (1861-1892), autor de Dona Guidinha do Poço, e Domingos Olímpio (1860-1906), de Luzia-Homem.

O Realismo no Brasil só entrou em declínio com o surgimento do Parnasianismo, por volta do ano de 1890.

Teatro: Os problemas do cotidiano ocupam os palcos. O herói romântico é substituído por personagens do dia-a-dia e a linguagem passa a ser coloquial. Entre os principais autores estão romancistas realistas, como Machado de Assis, que escreve Quase Ministro, e alguns românticos, como José de Alencar, com O Demônio Familiar, e Joaquim Manuel de Macedo, com Luxo e Vaidade. Outros nomes de peso são Artur de Azevedo, criador de comédias e operetas como A Capital Federal e O Dote, Quintino Bocaiúva e França Júnior (1838-1890).

Fonte: Abril

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Trecho do Livro: O Mundo de Sofia | Jostein Gaarder

Livros O Mundo de Sofia Jostein Gaarder BooksLivro: O Mundo de Sofia

Sofia Amundsen voltava da escola para casa. Percorrera a primeira parte do caminho em companhia de Jorunn, sua colega de classe. Tinham conversado sobre robôs. Jorunn considerava o cérebro humano um computador complicado. Sofia não estava bem certa se concordava com isto. O ser humano não seria algo mais do que uma máquina?

Quando passaram pelo supermercado, cada uma tomou o seu rumo. Sofia morava no final de um bairro extenso, com belas casas, e tinha que andar quase o dobro de Jorunn para voltar da escola. Sua casa parecia ficar no fim do mundo, pois atrás do quintal não havia outras casas, só a floresta.

Dobrou a rua Kløverveien. Bem no fim, a rua formava uma curva fechada, chamada de “a curva do capitão”. Só aos sábados e domingos viam-se pessoas por ali.

Era um dos primeiros dias de maio. Em alguns jardins, densas coroas de narcisos floriam sob as árvores de frutas. As bétulas pareciam vestidas de finas capas de florescências verdes. Não era curioso como nesta época do ano tudo começava a crescer e a medrar? Como se explicava que quilos e quilos da substância verde das plantas pudessem brotar da terra sem vida quando o tempo ficava mais quente e os últimos resquícios de neve desapareciam?

Sofia olhou a caixa de correio, antes de abrir o portão do jardim. Em geral havia um monte de folhetos de propaganda e alguns envelopes grandes para sua mãe. Sofia costumava colocar toda a correspondência sobre a mesa da cozinha, antes de ir para o seu quarto fazer a lição de casa.

Para o seu pai vinham às vezes só alguns extratos bancários, o que não era de se estranhar, pois afinal de contas ele não era um pai como os outros. O pai de Sofia era capitão de um petroleiro e passava quase todo o ano viajando. Quando voltava para casa por algumas semanas, ficava andando pela casa de chinelos e dedicava toda a sua atenção a Sofia e a sua mãe. Mas a proximidade desses momentos desaparecia por completo quando ele estava em serviço.

Hoje havia na grande caixa verde de correio apenas uma pequena carta — e ela era para Sofia.

“Sofia Amundsen”, estava escrito no pequeno envelope. “Kløverveien, 3.” Era tudo; não havia remetente. A carta não estava sequer selada.

Assim que Sofia entrou, abriu o envelope. Dentro encontrou apenas uma pequena folha, não maior do que o envelope que a continha. Nela estava escrito: Quem é você?

Nada mais. A mensagem não tinha qualquer fórmula de saudação, tampouco um remetente, só estas três palavras escritas a mão, seguidas de um grande ponto de interrogação. Ela olhou mais uma vez o envelope. Estava certo… a carta era mesmo para ela. Mas quem a teria colocado na caixa de correio? Sofia fechou rapidamente a porta da casa, cuja fachada era pintada de vermelho. Como de costume, o gato Sherekan conseguiu sair furtivamente do meio dos arbustos, saltar sobre o patamar da escada e enfiar-se dentro de casa, antes que Sofia conseguisse fechar a porta.

— Miau, miau, miau!

Quando a mãe de Sofia ficava irritada por algum motivo, ela às vezes dizia que sua casa parecia uma menagerie, isto é, uma espécie de zoológico particular. De fato, Sofia estava muito satisfeita com sua coleção de bichinhos. Primeiro ela ganhou um aquário com peixes ornamentais, a quem deu os nomes de Cachinhos Dourados, Chapeuzinho Vermelho e Peter, o Pretinho. Depois vieram os periquitos Tom e Jerry, a tartaruga Govinda e finalmente Sherekan, um gato malhado. Todos os bichos serviam como uma espécie de indenização por sua mãe sair sempre tão tarde do trabalho e por seu pai ficar viajando tanto pelo mundo.

Sofia jogou a mochila da escola num canto e colocou uma tigela de ração para Sherekan. Depois, segurando a carta misteriosa, largou o corpo sobre um banquinho da cozinha.

Quem é você?

Se ela soubesse! É claro que ela era Sofia Amundsen, mas quem era esta pessoa? Isto ela ainda não tinha descoberto direito.

E se tivesse outro nome? Anne Knutsen, por exemplo. Será que só por isso seria também uma outra pessoa?

De repente lembrou-se de que no começo seu pai queria que ela se chamasse Synnøve Amundsen. Sofia tentou imaginar-se estendendo a mão e apresentando-se como Synnøve Amundsen. Não, não dava. Toda vez que pensava nisso imaginava sempre outra pessoa.

Então saltou do banquinho e foi para o banheiro com a carta misteriosa na mão. Parou diante do espelho e olhou-se fixamente nos olhos.

— Sou Sofia Amundsen — disse.

Como resposta, a garota do espelho não teve a menor reação. Não importava o que Sofia fizesse, ela fazia a mesma coisa. Com um movimento rápido, Sofia tentou se antecipar à imagem do espelho; mas ela foi igualmente rápida.

— Quem é você? — perguntou Sofia.

Também desta vez não recebeu qualquer resposta; por um breve instante, porém, não teve certeza de ter sido ela ou sua imagem no espelho quem tinha feito a pergunta. Com o dedo indicador, Sofia apertou o nariz da figura do espelho e disse: — Você sou eu. E como não recebeu qualquer resposta, inverteu a sentença e disse:

— Eu sou você.

Sofia Amundsen nunca estava muito satisfeita com sua aparência. Com freqüência ouvia que tinha lindos olhos amendoados, mas provavelmente lhe diziam isto porque seu nariz era pequeno demais em relação ao tamanho da boca. O pior de tudo eram mesmo os cabelos lisos, que não tomavam forma nenhuma. Às vezes seu pai lhe acariciava os cabelos e a chamava de “a garota dos cabelos de linho”, parodiando uma composição de Claude Debussy. Para ele era fácil dizer isto; afinal, não era ele quem estava condenado a carregar a vida inteira cabelos pretos e escorridos de tão lisos. E nos cabelos de Sofia não adiantava passar nada, nem spray, nem gel.

Às vezes ela achava sua aparência tão estranha que se perguntava se não teria sido um bebê malformado. Sua mãe sempre contara que tivera um parto difícil. Mas será que era mesmo o nascimento que determinava a aparência de uma pessoa?

Não era um tanto esquisito ela não saber quem era? E também não era uma injustiça o fato de ela mesma não poder determinar sua aparência? Isto simplesmente lhe tinha sido imposto ao nascer. Seus amigos, estes sim ela talvez pudesse escolher, mas não tinha tido a chance de escolher-se a si própria. Não tinha sequer decidido ser uma pessoa.

O que era uma pessoa?

Sofia olhou de novo a moça no espelho.

— Acho que agora prefiro ir fazer minha lição de casa — disse, como que tentando se desculpar. No momento seguinte já estava no corredor.

Não, prefiro ir até o jardim, pensou.

— Miau, miau, miau!

Sofia espantou o gato para a escada de fora e fechou a porta.

Quando já estava no jardim, caminhando no passeio de saibro com a carta misteriosa na mão, experimentou subitamente uma sensação estranha. Sentiu-se como uma boneca que ganhara vida por uma varinha de condão.

Não era extraordinário estar viva naquele momento e ser personagem de uma aventura maravilhosa como a vida?

Sherekan saltou elegantemente sobre o passeio de saibro e desapareceu na groselheira, que se erguia bem ao lado. Era um gato muito vivo, cheio de uma energia vibrante que ia dos bigodes brancos até a ponta da cauda chicoteante. Ele também estava ali no jardim, mas certamente não tinha consciência disso do mesmo modo como Sofia.

Depois de pensar um pouco sobre o fato de existir, Sofia não pôde deixar de pensar também que um dia desapareceria.

Estou vivendo no mundo agora, pensou. Mas um dia terei desaparecido.

Será que havia uma vida após a morte? Também sobre esta questão o gato não fazia a menor idéia.

Há pouco tempo a avó de Sofia tinha morrido. Por mais de meio ano, Sofia sentia todos os dias a falta que sua avó lhe fazia. Não era injusto que um dia a vida tivesse um fim?

Cismada, Sofia parou um instante no passeio de saibro. Tentou concentrar todo o seu pensamento no fato de existir, a fim de esquecer que um dia deixaria de existir. Mas não conseguia. No mesmo instante em que se concentrava no fato de existir, pensava também que um dia morreria. E o mesmo ocorria ao contrário: só quando sentiu intensamente que um dia desapareceria é que pôde entender exatamente o quanto a vida era infinitamente valiosa. E quanto maior e mais clara era uma face da moeda, tanto maior e mais clara se tornava a outra. Vida e morte eram os dois lados de uma mesma coisa.

Não se pode experimentar a sensação de existir sem se experimentar a certeza que se tem de morrer, pensou. E é igualmente impossível pensar que se tem de morrer sem pensar ao mesmo tempo em como a vida é fantástica.

Sofia lembrou-se de que sua avó dissera algo semelhante no dia em que soube de sua doença. — Só agora entendo o quanto a vida é rica — foram suas palavras.

Não era triste que a maioria das pessoas tivesse primeiro que ficar doente para só então entender o quanto a vida é bela? Ou então que tivessem de encontrar uma carta misteriosa na caixa de correio?

Talvez fosse melhor verificar se não havia chegado mais alguma coisa. Sofia correu até o portão e examinou o que havia dentro da caixa de correio. E estremeceu da cabeça aos pés ao descobrir outro envelope idêntico ao primeiro. Será que ela verificara direito se a caixa estava realmente vazia da primeira vez que apanhou a correspondência?

O outro envelope também trazia o seu nome. Abriu-o e tirou uma pequena folha de papel, igual à primeira, em que estava escrito:

De onde vem o mundo?

Não faço a menor idéia, pensou Sofia. Mas também ninguém sabe! E apesar disso Sofia achou a pergunta pertinente. Pela primeira vez em sua vida ela pensava que era praticamente impossível viver num mundo sem ao menos perguntar de onde ele vinha.

Sofia estava tão perturbada com as duas cartas misteriosas que resolveu se enfiar em sua caverna. A caverna era o seu esconderijo secreto. E ela só ia para lá quando estava muito brava, muito triste ou muito alegre. Hoje ela estava muito confusa.

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Trecho do Livro: O Ladrão de Arte | Noah Charney

Livros O Ladrao de Arte Noah Charney The Art Thief BooksLivro: O Ladrão de Arte

Era quase como se ela estivesse esperando, ali parada, naquela escuridão artificial.

A pequenina igreja barroca de Santa Giuliana in Trastevere se encolhia num canto da cálida noite de Roma. As ruas estavam sombrias e sem qualquer movimento, iluminadas apenas pela luz mansa da lâmpada de um poste numa praça próxima.

Então fez-se um ruído. Dentro da igreja.

Era um ruído mínimo, produzido pelo roçar de metal sobre metal, quase imperceptível de dia, mas que àquela hora parecia o contraste entre o branco e o preto. Então parou. O som tinha sido momentâneo, mas seu eco perdurava.

Do bojo da igreja fechada um pássaro apareceu. Um pombo esvoaçou aflito pela capela sombria e arremeteu por entre as abóbadas e ao longo do transepto, esculpindo um padrão às cegas pelo interior cavernoso e sombrio.

Então o alarme soou.

Padre Amoroso despertou num sobressalto. Havia suor em sua testa, rente ao cabelo.

Ele olhou para o relógio na cabeceira da sua cama. Três e quinze. Ainda era noite do lado de fora da janela do quarto. Mas o ruído que soava em seus ouvidos não parava. Então ele percebeu que não era apenas em seus ouvidos.

Jogou um roupão por cima da camiseta com que dormia e enfiou os pés nas sandálias. Num segundo já tinha descido a escada e corrido a distância de poucos passos ao longo da praça até a Santa Giuliana in Trastevere, que espreitava, com suas formas que lembravam as de um tatu, como havia pensado certa vez, mas que agora vibrava com aquele som.

Padre Amoroso avançou às cegas com suas chaves e finalmente empurrou a porta antiga, inchada pela umidade. Virou-se para o dispositivo que destoava como algo anacrônico, logo na entrada, e desligou o alarme. Olhou à sua volta por um momento. Então pegou o telefone.

— Scusi, signore. Estou aqui, sim… Não sei. Provavelmente algum defeito no sistema de alarme, mas eu… Um momento…

Padre Amoroso deixou a polícia esperando enquanto inspecionava o interior. Nada se mexia. Bem comportada, a escuridão mantinha-se no entorno da igreja e a luz da lua na nave projetava sombras entre os bancos. Ele deu um passo adiante, e então, pensando melhor, mudou de idéia. Acendeu as luzes.

O interior barroco pouco a pouco ganhou vida. Holofotes apontados para as várias reentrâncias e tesouros iluminavam indiretamente os espaços vazios. Padre Amoroso avançou até o centro da nave e examinou tudo atentamente. Havia a capela de Santa Giuliana, a pintura de Domenichino retratando Santa Giuliana, o confessionário, a pia branca de mármore para água benta, os candelabros das orações com a inscrição offerte, a estátua de Sant’Agnese de autoria de Maderno, o ícone bizantino e os cálices no interior da vitrina, a pintura de Caravaggio da Anunciação acima do altar, o relicário onde estava sepultada a tíbia de Santa Giuliana sob um mar de ouro e vidro… Nada parecia estar fora do lugar.

Padre Amoroso voltou ao telefone.

— Non vedo niente… Deve ser um problema com o sistema. Desculpem, por favor. Obrigado… Boa noite… Sim… Sim, obrigado.

Pôs o telefone no gancho e desligou as luzes. A igreja que por um momento tinha adquirido vida agora voltava a adormecer mais uma vez. Armou novamente o alarme, empurrou a porta pesada, trancou-a e voltou a seu apartamento para dormir.

Padre Amoroso ergueu-se de repente na cama, os olhos arregalados. Acabara de ter um sonho terrível no qual não conseguia fazer parar a campainha soando em seus ouvidos. Por um momento atribuiu o ruído à zupa di frutti di mare do jantar no Da Saverio, mas então se deu conta mais uma vez de que o alarme não estava apenas em seus ouvidos. Todo mundo deve ter comido no Da Saverio, pensou por um instante, e então acordou completamente.

Era o alarme, mais uma vez tocando com violência. Ele olhou para o relógio de cabeceira. Três e cinqüenta. O sol ainda estava num sono profundo. E ele, por que não estava? Pôs o roupão e as sandálias e desceu mais uma vez aos tropeções para a insone noite romana.

Ainda que raramente se portasse como um homem profano, padre Amoroso murmurou entre os dentes algumas imprecações leves, enquanto manuseava desajeitadamente suas chaves, enfiava-as na pesada porta de madeira e a empurrava para abri-la, apoiando-se nos calcanhares para tomar impulso.

Isso era para ser uma igreja, não um despertador, pensou.

Lá dentro, virou-se na direção do alarme na parede, derrubando sem querer o telefone do gancho. “Dio!”, murmurou, então pensou melhor e apontou para o céu ao sussurrar:

— Scusa, signore. Estou um pouco cansado. Scusa.

Desligou o alarme e então voltou-se para o interior da igreja. As sombras pareciam zombar dele. Acendeu as luzes com satisfação. A igreja bocejou ao se iluminar. Padre Amoroso pegou o telefone.

— Si? Si, mi dispiace. Não sei… Não, isso não vai ser necessário… Um instante, por favor…

Largou o telefone e mais uma vez se dirigiu para o centro da nave. A pequenina igreja parecia boquiaberta, grande e vazia, em meio à escuridão da madrugada.

Nada aparentava estar faltando. Dessa vez padre Amoroso caminhou ao longo das paredes internas da igreja. Deslocou-se pela ardósia gasta do piso, passando ao largo de fileiras de velas apagadas, bancos entalhados em madeira e reentrâncias ainda sombrias, nas quais se escondiam figuras de santos em relevo ou pintadas a óleo. Tudo estava quieto. Ele voltou ao telefone.

— Niente. Niente di niente. Mi dispiace, ma… Certo, agora são quatro e dez da manhã… Sim, provavelmente um defeito… Sim… Mais tarde, pela manhã, sim. Não há nada a se fazer até lá. Obrigado, boa-noite… Quer dizer, bom-dia. A noite já acabou há algum tempo… Ciao.

Padre Amoroso olhou com desprezo para o alarme que havia disparado duas vezes sem motivo algum, só para debochar dele. Talvez não devesse ter olhado por tanto tempo para a Signora Materassi na missa do último domingo. Deus tem seus caminhos. Mais tarde telefonaria pedindo que o alarme fosse checado. Talvez ainda conseguisse dormir um pouco.

Padre Amoroso apagou as luzes. Ignorou o alarme vistoso ao sair porta afora, trancou-a e voltou à sua casa para capturar quaisquer minutos preciosos de sono que ainda estivessem ao seu alcance.

Um alarme disparou.

Padre Amoroso pulou da cama. Mas então se acalmou. Era o alarme do despertador na sua cabeceira. Eram sete horas, numa manhã de segunda-feira. Assim é melhor, pensou.

O sol estava presente no horizonte e o dia prometia sua habitual luminosidade romana em meio à umidade do verão. Ele bocejou despreocupadamente e esticou os braços cansados, abrindo-os em forma de cruz. Tirando sua camisa de dormir, padre Amoroso caminhou gingando até o banheiro e de lá surgiu como um novo homem, limpo e revigorado para outro dia. Vestiu suas roupas clericais e desceu para ir até a Santa Giuliana.

Estava dez minutos adiantado. Não esperavam que abrisse a igreja até que soassem as oito horas. O dia ainda não estava quente demais, e padre Amoroso decidiu dar uma escapada por um momento. Escapuliu para o bar ao lado e pediu um caffè. Admirou a luz do sol no piso antigo enquanto bebericava seu espresso, de pé, no bar. Os transeuntes passavam na rua lá fora. O turista ocasional aparecia por ali, de mapa na mão e câmera a postos.

Olhou o relógio. Sete e cinqüenta e sete. Acabou de beber e atravessou a praça rumo à sua igreja.

Com uma agradável sensação de quem gozava de uma folga, padre Amoroso manuseou lentamente as chaves e, tendo encontrado a que procurava, girou-a e empurrou a enorme porta de madeira. Quando já a tinha aberto o suficiente, travou o trinco de metal para mantê-la escorada, permitindo que o ar parado, preso lá dentro, esfriasse na brisa matinal que corria do lado de fora.

Entrou na igreja e, ao passar, lançou um olhar de desprezo para o sistema de alarme. Deus, vou ter de mandar consertar isso hoje, pensou, e então se deu conta da blasfêmia e olhou de relance para o céu pedindo perdão. Arrastou os pés pelo chão a caminho do escritório da igreja, afastou para o lado a cortina que escondia a porta e a destrancou. Virou-se e avançou para o centro da nave, parando por um momento para dobrar os joelhos quando passava diante do altar.

Estava prestes a seguir em frente quando percebeu. Não podia acreditar em seus olhos. Talvez ainda estivesse dormindo, pensou, esperançoso. Então se convenceu, e recuou aos tropeções, enquanto gritava:

— Dio mio!

O retábulo de Caravaggio havia desaparecido.

—–
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Livro: A Arca Perdida da Aliança | Tudor Parfitt | Primeiro Capítulo

O Professor Tudor Parfitt foi considerado o Indiana Jones britânico pelo conceituado jornal The Wall Street Journal, devido aos perigos e as aventuras que viveu na difícil busca pela Arca da Aliança, um dos objetos mais enigmáticos da história.

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Livros A Arca Perdida da Alianca Tudor Parfitt The Lost Ark of the Covenant BooksLivro: A Arca Perdida da Aliança

A Caverna

Era um tempo de seca. Em 1987 minha casa era uma cabana de palha numa ressecada área tribal no centro do Zimbábue, no sul da África, completamente isolada do resto do mundo. Eu estivera fazendo pesquisas de campo sobre uma misteriosa tribo africana chamada Lemba. Isso era parte do meu trabalho. Na época eu era professor de hebraico no Departamento de Estudos do Oriente Próximo e Médio na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS, em inglês) da Universidade de Londres, e já fazia um tempo que esta tribo era meu principal tema acadêmico.

Como eu passava o tempo na aldeia? No calor escaldante do dia caminhava pelos morros próximos ao povoado e remexia nos restos da antiga cultura de construções de pedra, que, segundo os lembas, era trabalho de seus ancestrais distantes. Com minha pequena colher de pedreiro havia descoberto alguns ossos, pedaços de cerâmica local e um ou dois instrumentos de ferro com idade incerta. Não era muita coisa sobre a qual escrever. Depois eu lia, fazia minhas anotações e passava boa parte da noite ouvindo as narrativas dos anciãos.

Os lembas faziam uma reivindicação espantosa, de que tinham origem israelita, ainda que a presença de israelitas ou judeus na África central jamais tivesse sido atestada anteriormente. Por outro lado, desde o início da Idade Média, houvera rumores de reinos judeus perdidos na África mais escura. O que eu ouvira era que a tribo acreditava que, quando deixaram Israel, estabeleceram-se numa cidade chamada Senna — em algum local do outro lado do mar. Ninguém tinha qualquer idéia de onde, no mundo, ficava essa misteriosa Senna, nem eu. A tribo pedira que eu encontrasse sua cidade perdida, e eu havia prometido tentar.

O que eu sabia em 1987 sobre a tribo lemba, com 40 mil membros, era que eles eram negros, falavam várias línguas banto como venda ou shona, habitavam diversos locais na África do Sul e no Zimbábue, fisicamente não se diferenciavam de seus vizinhos e tinham uma quantidade de costumes e tradições idênticas às das tribos africanas entre as quais viviam.

Pareciam ser completamente africanos.

Mas, por outro lado, também tinham alguns costumes e lendas misteriosos que não pareciam africanos. Não se casavam com pessoas de outras tribos. Não comiam tradicionalmente com outros grupos. Circuncidavam os meninos. Praticavam a matança ritual de animais, usando uma faca especial; recusavam-se a comer porcos e várias outras criaturas; sacrificavam animais em locais altos como os israelitas antigos e seguiam muitas outras leis do Velho Testamento. A visão da lua nova era de importância fundamental para eles, assim como para os judeus. Os nomes dos clãs pareciam derivados do árabe, do hebraico ou de alguma outra língua semítica.

Durante os meses que eu havia passado na aldeia tentando desvendar seus segredos, jamais encontrei a prova absoluta — a arma fumegante, demonstrando que sua tradição oral, que os ligava à antiga Israel, era verdadeira. Jamais encontrei uma inscrição em pedra, um fragmento de uma oração em hebraico, um artefato do antigo Israel. Nem mesmo uma moeda ou um caco de cerâmica.

Antes de chegar ao Zimbábue eu havia passado alguns meses com as grandes comunidades lembas no país vizinho, a África do Sul. Ali, os líderes da tribo haviam me dado muitas informações. Eu esperava conseguir mais no Zimbábue e pedi que o chefe lemba local facilitasse a pesquisa. O chefe Mposi convocou uma reunião dos anciãos dos clãs lembas e, instigados por minha promessa de tentar encontrar sua cidade perdida de Senna, concordaram formalmente em permitir que eu pesquisasse sua história.

Mas depois disso não me contaram nem de longe o quanto eu esperava. Eram reservados com relação a qualquer coisa que tivesse a ver com suas práticas religiosas. Foi somente a disposição de me sentar perto deles até tarde da noite, até que meu uísque tivesse afrouxado a língua dos velhos, que me permitiu ouvir algo sobre seu culto notável.

No dia seguinte eles se arrependiam das indiscrições noturnas e murmuravam que os anciãos do clã não deveriam ter autorizado minha pesquisa, que os brancos não tinham nada que se intrometer nos assuntos deles e que eu deveria parar de tentar penetrar no manto de segredo que velava seus ritos religiosos.

Outros tentaram me amedrontar e fazer com que eu fosse embora contando histórias sinistras do que havia acontecido com gerações anteriores de pesquisadores que tinham penetrado demais em caminhos proibidos. Um deles fora circuncidado à força depois da ousadia de caminhar pela Dumghe, a montanha sagrada da tribo. Outro havia chegado perto demais de uma caverna sagrada na base da Dumghe e fora ferido com uma assegai tradicional e tremendamente espancado. Escapara com vida por pouco.

À medida que minhas esperanças de encontrar a pista fundamental com relação à verdadeira identidade deles começavam a morrer, também morriam as plantações ao redor da aldeia. Não chovera nada durante meses. Havia um pouco de líquido denso e lamacento no fundo das cacimbas. Todas as manhãs as mulheres traziam água em enferrujadas latas de óleo equilibradas na cabeça. Quando isso acabasse, não teriam o que beber. A não ser a cerveja da venda, para quem tivesse dinheiro. E esses não eram muitos.

Nesta manhã, cedo, antes do nascer do sol, o chefe havia convocado uma cerimônia da chuva. O mensageiro do chefe tinha chegado assim que as pessoas da casa começavam a acordar. A fogueira de cozinhar estava sendo soprada, e era aquecida a água para o chá e para abluções, trazida todas as manhãs à minha cabana pela filha de meu gentil anfitrião, Sevias. O mensageiro disse a Sevias que a presença dele seria necessária naquela noite. Este era um último e desesperado lance de dados.

Houvera seca durante tanto tempo que os riachos que um dia haviam trazido vida e peixes ocasionais ao povoado tinham desaparecido completamente. Agora pareciam trilhas de cabras cheias de poeira funda e fina. Sem água, logo a vida na aldeia seria impossível. A tribo teria de se mudar. Mas para onde? A seca cobria toda a região.

No fim da tarde os anciãos e notáveis se reuniram na grande cabana do chefe, no centro de seu kraal — o grupo de cabanas que formavam sua propriedade. Tinham sido convidados a beber chibuku — uma cerveja de milho feita em casa, com consistência de mingau —, dançar durante toda a noite e entreter os ancestrais pedindo chuva. Isso era os confins da África mais profunda.

Sevias me convidou a acompanhá-lo. Caminhamos juntos pela terra ressequida enquanto ele me contava sobre os grandes rebanhos que já possuíra, sobre as árvores gemendo sob o peso das frutas, sobre as espigas de milho que antigamente eram grandes como abóboras.

Estávamos entre os primeiros a chegar. Sentei-me perto de Sevias num banco de barro cozido que rodeava a cabana e olhei com grande interesse os preparativos para a festa dos ancestrais. Nunca havia imaginado que teria permissão de observar qualquer coisa como aquela já que sem dúvida ela fazia parte do coração de seu culto.

Eu tinha uma máquina fotográfica, um gravador e um caderno. Tinha quase certeza de que esta noite me daria material para ao menos um artigo acadêmico, um artigo impressionante.

O chefe Mposi sentou-se sozinho. Estava com saúde ruim e parecia preocupado. Olhava o chão de terra, apoiando a cabeça no topo da bengala. Com um movimento súbito chamou as esposas para servirem cerveja.

— Ela está lá, parada, e não está fazendo bem a ninguém!

— Já vou servir — respondeu rispidamente a esposa mais velha, levantando o pote de cerveja com os braços musculosos.

— Muito tarde — resmungou ele.

O pote de chibuku foi passado de mão em mão, da direita para a esquerda, sem qualquer demonstração inadequada de pressa, como uma garrafa de vinho Madeira depois de um jantar elegante em Oxford.

O silêncio foi rompido pelo chefe chamando os nomes de suas quatro esposas. Eram singularmente diferentes uma das outras em idade, tamanho e beleza. Cada uma respondeu por sua vez, ajoelhadas lado a lado, e começaram a bater palmas. Viraram-se de costas para o chefe, levantaram-se e acenderam velas, enquanto as outras mulheres começavam a ulular e assobiar.

Uma longa trompa de chifre de antílope foi enfiada através da abertura para dentro da cabana, e um toque triunfante silenciou o som agudo das mulheres. O homem que soprava a trompa era alto e forte. Usava uma saia feita de tiras de pele preta e ao redor da cabeça tinha uma faixa de pele de leopardo. Era o feiticeiro. Seu nome era Sadiki — um dos nomes de clãs dos lembas — nome inconfundivelmente semítico cuja presença na África central era uma anomalia misteriosa. Ele comandou a cerimônia. Chocalhos magagada, feitos de cabaça, estavam amarrados aos seus tornozelos com cordas de fibra de casca de árvore. Ele batia os pés no chão de terra da cabana e soprava uma nota longa e assombrosa na trompa.

Quatro mulheres idosas sentadas juntas no banco de barro que seguia por todo o perímetro da cabana começaram a bater em tambores de madeira. Os outros convidados estavam reunidos ao redor do feiticeiro, impelidos nos movimentos curtos e estremecidos da dança pelos ritmos dos tambores e dos chocalhos magagada, praticamente sem se mexer, perdidos em concentração.

Sadiki estava parado no epicentro da tempestade de sons, direcionando seu movimento. Tinha um ar poderoso e régio, e olhava com arrogância ao redor. De modo sugestivo, mexeu um dos pés. Depois, uma das mãos. Seu corpo seguiu e, posicionando-se na frente de um dos tambores, dançou como Davi diante da Arca, parando para soprar a trompa de chifre semelhante à shofar que um dia fora tocada no Templo de Jerusalém. As tocadoras de tambor pareciam velhas e frágeis demais para produzir um som daqueles, no entanto deveriam tocar durante horas, sem pausa.

A cerveja começou a circular mais depressa. A pobreza havia dominado a aldeia. Fazia muito tempo que os potes de cerveja não eram passados com tanta liberalidade. Alguns homens, não mais acostumados a beber, já estavam inebriados.

A mulher mais velha do chefe já estava aparentemente possuída pelos espíritos dos ancestrais. Olhando de um lado para o outro, caiu no chão chorando. Olhando ao redor de modo desfocado, levantou o vestido comprido, de estilo ocidental, até tirá-lo pela cabeça. Dançou posicionando-se no espaço diante das tocadoras de tambor, que Sadiki deixara livre.

O ritmo acelerou de novo. Com o suor descendo pelo peito largo e musculoso, Sadiki pôs um adereço de penas pretas de águia na cabeça da mulher. Sevias me disse que isso era para demonstrar respeito pelos ancestrais. Ela continuou dançando, lançando grandes sombras nas paredes iluminadas por velas. Caiu de joelhos, soluçando, diante do velho chefe e pôs com ternura o adereço na cabeça dele.

O chefe estava morrendo. Todo mundo dizia isso. Parecia cinzento e doente. Fez um gesto para eu me juntar a ele. Pegou minha mão e sussurrou no meu ouvido:

— Os ancestrais vieram de Israel: vieram de Senna. Estão aqui conosco. Adeus, Mushavi. Talvez nos vejamos em Senna.

Senna era a cidade perdida de onde os lembas tinham vindo, também era o lugar aonde esperavam ir depois de morrer.

O rosto dele, iluminado pela luz trêmula das velas, era corrugado com marcas da idade e da doença; seus olhos estavam escondidos por papadas de carne clara e pintalgada. Espiou-me e depois indicou que eu deveria me levantar e deixá-lo. Entristecido e aturdido por suas palavras, voltei ao banco onde estavam meu caderno, a máquina fotográfica e o gravador.

Eu estava na aldeia havia tanto tempo que começava a me sentir em casa, como um deles. Tinha bebido um bocado de sua cerveja chibuku. Depois dos primeiros goles ela se torna mais ou menos palatável, e depois de um tempo é positivamente aceitável. Percebi que aquele não era um momento para ficar sentado num canto tomando notas e gravando música lemba. Havia coisas mais importantes a fazer. Esta era mais uma ocasião para participação do observador. Tirei a camisa para, como pensei, misturar-me aos homens e mulheres cujas sombras fantasmagóricas saltavam loucamente nas paredes e que caíam numa espécie de transe ao meu redor. A mulher mais velha do chefe atravessou a cabana, inclinou-se sobre mim, e sussurrou algo incompreensível em shona, a língua da tribo shona, dominante na região do Zimbábue onde viviam os lembas.

Comecei a dançar ao ritmo forte dos tambores. Uma das mulheres mais novas do chefe estava dançando na minha frente, oscilando, bêbada, suplicando aos ancestrais.

As tocadoras de tambor aceleraram o ritmo.

Outra mulher, num transe remelento, foi para o centro da cabana. Homens ficaram de pé ao redor, admirando seu corpo esguio, instigando-a.

— Ela está falando com os ancestrais — gritou Sevias no meu ouvido. — Logo eles vão responder. Quando as vozes deles forem ouvidas, será melhor você ir embora.

Perto da meia-noite houve uma mudança na atmosfera. Imaginei que havia chegado a hora de oferecer os sortilégios e as orações secretas do culto. Essas eram coisas muito bem guardadas. Eram os códigos orais que governavam a vida dos lembas e que sem dúvida tinham as pistas para o passado que eu estava buscando. Esses códigos e sortilégios eram para mim o âmago da questão. Era disso que eu queria fazer parte. Era para isso que eu tinha vindo.

Meus braços estavam levantados; meu rosto estava voltado para o teto de palha. O suor escorria do meu corpo. Sentia uma empolgação enorme. Eu fora aceito, era um deles. Os ancestrais iam baixar e eu estaria ali para observar o que aconteceria em seguida. Ninguém do mundo externo jamais havia observado isso. Dentro da minha cabeça podia sentir uma espécie de canal se abrindo, parecia um canal de comunicação com os ancestrais israelitas da tribo.

Eu estava me rejubilando com a eficácia de minha metodologia de pesquisa cinco estrelas quando senti um punho se chocar contra a lateral do rosto. Era o punho da mais velha e mais forte mulher do chefe. Caí no chão em cima do corpo deitado e fétido do maior bêbado dos Mposi — uma espécie de mendigo chamado Klopas, que eu conhecia e cujo cheiro havia sentido muitas vezes. Por alguns segundos, perdi a consciência. Fui arrastado para fora da cabana por alguns homens e encostado na lateral da construção.

— É… eu chateei a mulher do chefe — falei. — Lamento muito.

Não estava lamentando tanto assim. Estava me sentindo tremendamente furioso.

— Mushavi — disse Sevias, inclinado acima de mim. — Você não chateou ninguém. O soco foi apenas as boas-vindas dos ancestrais. Talvez também tenha sido um pequeno aviso. Só um pequeno aviso. Se os ancestrais não quisessem você aqui, não teriam dado um soco fraco como esse, teriam feito picadinho de você. Agora você deve ir, porque os ancestrais estão chegando entre nós. Os que não são iniciados devem sair.

Os espíritos dos ancestrais não ficariam felizes em me ver ali, explicou ele. Segredos seriam compartilhados. Havia coisas que eu não deveria saber. De modo truculento, pensei que, se eu não conseguisse descobrir as coisas secretas ali, naquela noite, as chances eram de nunca saber. Era agora ou nunca.

Do lado de fora da cabana, um grupo de anciãos estava olhando ansioso para o céu noturno, esperando sinais de chuva. Sevias sentou-se ao meu lado, encostado na parede. Seu rosto com rugas gentis traía sinais de preocupação. Sua preocupação não era somente pela chuva, ou pela falta dela, se bem que esta fosse uma questão fundamental para ele, assim como para os outros — de fato sua vida e a vida de sua família dependiam disso — mas também por mim e pelo meu desapontamento ao não ser admitido nos segredos tribais. Eu já havia lhe contado que meu trabalho de campo não rendera tanto quanto eu esperava.

De cabeça inclinada, as mãos levantadas num gesto de súplica, ele perguntou com apenas uma sugestão de sorriso:

— Mushavi, você encontrou o que estava procurando no tempo que passou conosco?

Ele freqüentemente me honrava com o elogioso nome tribal de Mushavi, que os lembas geralmente só usam entre si e que eu achava que poderia estar conectado a Musawi — a forma arábica de “seguidor de Moisés (Musa)”. Talvez ele estivesse tentando me lisonjear chamando-me de Mushavi, mas o resto de sua pergunta era incompreensível. Ele sabia muito bem que, na maior parte, os segredos da tribo permaneciam intactos.

Sorri, e com o máximo de paciência que pude juntar, falei:

— Você sabe muito bem, Sevias, que ainda há muitos segredos que vocês não me contaram. E não se esqueça que os anciãos de todos os clãs concordaram que eu tivesse acesso a tudo.

— É — concordou ele, sério — mas muitas vezes expliquei a você que, não importando o que tenha sido dito na reunião dos clãs, há coisas que não podem ser contadas fora da irmandade dos iniciados. Orações, feitiços, sortilégios. Muitos dos nossos segredos não podem ser revelados. Os outros lhe disseram isso. Eles teriam de matá-lo, Mushavi, se você ficasse sabendo dessas coisas secretas. É a lei.

Seu rosto enrugado se tornou quase uma paródia de preocupação e ansiedade.

Sevias era um homem bom. Em todos os meses que eu havia passado em seu kraal, apesar da seca e da situação política insegura dentro da tribo e do país como um todo, apesar de dificuldades familiares, ele sempre fora calmo, gentil e digno. Agora eu percebi que nunca fora mais feliz na vida do que quando me sentava sob a grande árvore no kraal de Sevias.

Ele arrastou os pés descalços e calosos na terra seca.

— Mas e os segredos da tribo? — insisti. — As coisas que vocês trouxeram do norte, de Senna. Já me contaram sobre elas, mas ainda não vi nenhuma.

— É verdade. Nós trouxemos objetos de Jerusalém há muito tempo e trouxemos objetos de Senna. Objetos sagrados, importantes, de Israel e Senna.

Senna era a cidade perdida que, segundo a tribo, ela havia habitado depois de deixar a Terra de Israel. O professor M.E.R. Mathivha — o erudito líder da tribo lemba na África do Sul — já havia me contado muitas coisas sobre a lenda de Senna. A tribo viera de Senna “atravessando o mar”. Ninguém sabia onde isso ficava. Haviam atravessado “Pusela”, mas ninguém sabia onde isso ficava, também. Tinham vindo para a África, onde, por duas vezes, reconstruíram Senna. Esse era o resumo da história.

— Sevias — insisti —, você não pode ao menos me contar o que aconteceu com os objetos da tribo?

Ele examinou o céu e permaneceu calado. Depois murmurou:

— A tribo está espalhada numa grande área. Você sabe, uma vez nós violamos a lei de Deus. Comemos camundongos, que são proibidos para nós, e fomos espalhados por Deus entre as nações da África. Assim os objetos foram espalhados e escondidos em locais diferentes.

— E o ngoma? Onde você acha que pode estar?

O ngoma era um tambor de madeira usado para guardar objetos sagrados. A tribo havia seguido o ngoma, carregando-o no alto, durante a viagem pela África. Eles afirmam que o trouxeram de Israel há tantos anos que ninguém se lembra mais de quando isso aconteceu.

Segundo suas tradições orais, eles carregaram o ngoma à frente da tribo nas batalhas e ele os havia guiado na longa caminhada pelo continente. Segundo a tradição oral dos lembas, o ngoma costumava ser carregado diante do povo, em duas varas. Cada vara era inserida nos dois aros de madeira presos nos dois lados do ngoma. O ngoma era muitíssimo sagrado para a tribo, praticamente divino. Objetos sagrados do culto eram levados ali dentro. O objeto era santificado demais para ser posto no chão: no fim de um dia de marcha era pendurado numa árvore ou posto numa plataforma construída especialmente para ele. Era santo demais para ser tocado. Os únicos membros da tribo que tinham permissão de se aproximar dele eram os sacerdotes hereditários que sempre faziam parte do clã Buba. Os sacerdotes buba serviam ao ngoma e o guardavam. Qualquer um que o tocasse, não sendo os sacerdotes e o rei, seria derrubado pelo fogo de Deus que irrompia do próprio tambor. Ele era levado para a batalha e garantia a vitória. Matava os inimigos dos guardiães do ngoma.

Eu ouvira falar do ngoma pela primeira vez alguns meses antes, na África do Sul. O professor Mathivha me contara o que sabia sobre o objeto e eu recebera um relato detalhado de um velho lemba chamado Phophi, que conhecia bem a história da tribo. Phophi havia me contado sobre o tamanho do ngoma, suas principais propriedades e que tradições eram associadas a ele.

Eu também sabia que, cerca de quarenta anos antes, um antigo ngoma fora encontrado por um estudioso alemão chamado von Sicard numa caverna junto ao Limpopo, o rio infestado de crocodilos que marca a fronteira entre o Zimbábue e a África do Sul. Ele o havia fotografado e a foto fora incluída num livro que escreveu sobre o assunto, mas aparentemente desde então o ngoma havia desaparecido sem deixar vestígios. Mathivha, Phophi e outros anciãos lembas haviam me contado que o artefato encontrado pelo alemão em sua caverna remota era sem dúvida o ngoma original que os lembas haviam trazido do norte.

Uma noite, algumas semanas antes da dança da chuva, sentado até tarde junto ao fogo com Sevias e outros anciãos, ouvi um pouco mais sobre a lenda do ngoma.

— O ngoma veio do grande templo de Jerusalém — disse Sevias. — Nós o carregamos até aqui, pela África, usando as varas. À noite, ele ficava numa plataforma especial.

De repente me ocorreu que, na forma, no tamanho e na função, o ngoma lungundu era semelhante à bíblica Arca da Aliança, a famosa arca perdida que fora procurada sem sucesso através dos tempos. A descrição bíblica do objeto, que eu conhecia desde os anos em que estudava hebraico clássico em Oxford, estava gravada na minha mente.

Uma arca de madeira de shittim; o seu comprimento será de dois côvados e meio, e a sua largura de um côvado e meio, e de um côvado e meio a sua altura (…) e fundirás para ela quatro argolas de ouro, e as porás nos quatro cantos dela, duas argolas num dos lados, e duas argolas noutro lado. E farás varas de madeira de shittim, e as cobrirás com ouro. E colocarás as varas nas argolas, aos lados da arca, para se levar com elas a arca. As varas estarão nas argolas da arca, não deverão ser tiradas dela. Depois porás na arca o testemunho, que eu te darei.

A Arca, como o ngoma, tinha poderes sobrenaturais. Jamais poderia tocar o chão. Era praticamente divina. Como o ngoma, era levada para a batalha e garantia a vitória. Objetos sagrados, inclusive as tábuas em que foram inscritos os Dez Mandamentos e a vara mágica de Arão, irmão de Moisés, eram guardados ali dentro. Qualquer um que ao menos olhasse para ela seria derrubado por seu poder espantoso. Uma casta sacerdotal fundada por Arão, irmão de Moisés, guardava a Arca. O clã sacerdotal dos Buba, fundado por um indivíduo chamado Buba, que supostamente teria guiado os lembas para fora de Israel, guardava o ngoma.

As semelhanças funcionais eram marcantes. Mas as diferenças na forma eram significativas. Aparentemente a Arca era uma espécie de caixa, cofre ou baú, ao passo que o ngoma — apesar de também carregar coisas dentro — era um tambor. A Arca era feita de madeira, mas coberta com folhas de ouro; o ngoma era simplesmente feito de madeira.

De modo mais fundamental, não havia conexão nos tempos antigos entre o mundo da Bíblia e esse canto remoto do interior da África. E não havia absolutamente nenhuma prova, de modo algum, de que os guardiães lembas do ngoma tivessem ancestralidade judaica. Mesmo assim, a sobreposição entre esses objetos aparentemente muito diferentes me atraía e levou minha mente em direção à estranha história da Arca da Aliança. Era uma comparação interessante mas, pensava eu, nada mais do que isso.

Do lado de fora da cabana do chefe, com o ruído tumultuoso dos tambores suplantando todos os sons da noite, encostei-me na parede de barro e palha e senti lentamente a dor do soco ir sumindo. Sevias parecia pouco à vontade. Segurou meu braço e fez com que eu me levantasse, levando-me mais para longe dos grupos de homens que estavam de pé ao redor, desfrutando do ar noturno antes de retornar ao frenesi da dança.

— Falar do ngoma e das coisas que foram trazidas de Israel é perigoso demais, Mushavi. Isso faz parte dos conhecimentos secretos da tribo. Não posso lhe contar sobre isso mais do que já contamos. Contamos que nós nos chamamos de Muzungu ano-ku bva Senna, “os brancos que vieram de Senna”. Contamos que o ngoma veio conosco de Senna. Contamos o que era o ngoma. E contamos que o ngoma não é visto por homens há muitos, muitos anos.

Sevias já ia se virar quando hesitou e pôs a mão no meu braço.

— Os velhos dizem que foi o ngoma que nos guiou até aqui, e algumas pessoas dizem que quando chegar a hora certa o ngoma virá nos levar de volta. As coisas estão piorando neste país. Talvez a hora esteja chegando.

— Sevias — eu disse —, sei que este é um dos maiores segredos de sua tribo e sei que há muitos na tribo que não desejam compartilhar os segredos comigo. Mas partirei em breve. Não quero voltar de mãos vazias. Poderia simplesmente me contar, por favor, se tem alguma idéia de onde pode estar o ngoma lungundu?

Sevias parou, olhou ao redor e ficou em silêncio. Olhou para o céu noturno de uma limpidez frustrante, e de novo arrastou os pés na poeira fina do kraal.

— Onde está agora, não sei. Mas há alguns anos os homens muito velhos costumavam dizer que ele estava escondido na caverna abaixo da montanha Dumghe. Está em segurança lá. É protegido por Deus, pelo rei e pelo “pássaro do céu”, por cobras de duas cabeças e pelos leões, “os guardiães do rei”. Foi levado para lá, segundo dizem os velhos, pelos Buba de Mberengwe. Eles formam o clã dos sacerdotes lembas e naqueles tempos havia alguns deles que ficavam do lado de Mberengwe. Mas, como você sabe, esse é o único lugar aonde você não deve ir. À montanha Dumghe.

Ele me deu boa-noite e voltou rapidamente para se juntar aos anciãos.

Peguei Tagaruze, o policial que fora instruído pelo quartel da polícia local para atuar como meu guarda-costas (e ficar de olho em mim), e caminhei os quase quatro quilômetros de volta até o kraal de Sevias.

Senti uma pontada de tristeza porque logo estaria deixando aquele belo lugar com seus morros ásperos e grandes pedras redondas, moldados por eras de vento e chuva, sol e seca.

No dia seguinte estava planejando ir para o norte em direção ao Malawi e à Tanzânia, seguindo a trilha da passagem dessa tribo enigmática através da África, em busca de sua cidade perdida de Senna. Parecia uma busca longa e solitária, e de repente senti saudade de casa.

Tinha recebido uma carta de Maria, minha voluptuosa namorada latino-americana, dançarina de salsa. Era uma carta amorosa, porém firme. Ela queria que eu voltasse, que deixasse essa busca comodista do que ela chamava de Senna inexistente. Queria que eu me casasse com ela e levasse uma vida normal, a vida convencional e sedentária de erudito e professor universitário. Se eu não quisesse casar com ela, havia um monte de homens que iriam querer.

“Os homens”, escreveu ela, “existem aos milhões. Você é um imbecil se não aproveitar a chance agora, quando ela existe. Outros aproveitariam.”

E era verdade. Cada vez que ela andava pela rua, poucos homens deixavam de notá-la. Maria tinha um jeito especial de andar. Tentei afastá-la do pensamento. Ela esperaria. Provavelmente.

Ainda estava me sentindo tonto por causa do chibuku. Se o que Sevias havia dito estava correto, talvez houvesse alguma chance de eu encontrar seu ngoma lungundu. Isso talvez revelasse alguma coisa sobre de onde a tribo viera. Talvez me ajudasse a encontrar a cidade perdida de Senna. Talvez houvesse alguma coisa escrita nele, objetos sagrados dentro, que pudessem me ajudar na busca. Eu só precisava ir para a Dumghe.

Senti um tremor de empolgação. A montanha sagrada dos lembas situa-se a pouco menos de quatro quilômetros do kraal de Sevias. Era um belo monte arredondado, virado para o leste e coberto com as características pedras redondas da região, e esparsamente coberto de mato. Havia um terreno aberto entre o kraal e a montanha Dumghe. Não havia povoados nem kraals — nem cachorros barulhentos para alertar à tribo sobre minhas atividades. Não havia animais selvagens perigosos, a não ser bandos de chacais e algum leopardo ocasional, e eu estava bêbado demais para me preocupar muito com isso.

Seguindo uma ânsia súbita inspirada pelo chibuku, decidi caminhar até a caverna sagrada, o lugar onde a tribo me havia proibido de ir. Uma área interdita. No passado, qualquer um que ousasse ir lá e não fosse iniciado, seria punido com a morte.

Os anciãos estariam dançando e bebendo nas próximas horas, pensei. O resto da tribo estava dormindo. Ninguém saberia que eu estive lá. Eu sabia que a caverna era situada na base de duas rochas enormes que haviam se separado de um penhasco que formava o lado leste da montanha. Era coberta por grandes pedras lisas e arredondadas, moldadas durante milênios pela erosão dos ventos. As rochas atrás do local onde se escondia a caverna haviam sido apontadas para mim uma vez, e tinham me dito que atrás da caverna sagrada havia outra passagem, mais sagrada ainda do que a primeira. Talvez fosse ali que o ngoma estivesse protegido, como diziam, por seus leões e cobras policéfalas.

Eram cerca de duas da madrugada quando cheguei — junto com Tagaruze, meu forte policial guarda-costas — à grande árvore meshunah onde eu havia encontrado o guardião lemba da Dumghe nos meus primeiros dias na aldeia. A partir da árvore, todos os caminhos que levavam à caverna seriam visíveis. O guardião oficial supostamente estaria sempre de serviço, mas era difícil acreditar nisso e, de qualquer modo, nesta ocasião, eu tinha pouca coisa com que me preocupar, porque o tinha visto na festa da chuva, bêbado como todos os outros.

Paramos um momento e depois subimos pela lateral da montanha, em direção à trilha íngreme que levava à caverna. De um dos lados o caminho se grudava à face da rocha; do outro havia uma queda íngreme de doze metros no vazio. Era uma descida traiçoeira e as pedras ficavam caindo no abismo.

Até Tagaruze ficou amedrontado. Naquela noite ele estava indo muito além do dever. Sentia-se tão fascinado pelas histórias dos lembas quanto eu. Mas começava a se arrepender de ter concordado em me acompanhar até ali. Não era muito dado a palavras, mas finalmente murmurou:

— Por que estamos fazendo isso? O que estamos procurando?

Eu também estava apavorado e não respondi.

Pensei ter escutado um barulho nas árvores e nos arbustos acima da face de pedra da Dumghe. Ficamos em silêncio. Alguns dias antes, um dos anciãos tinha visto um leão, um leão branco, segundo ele, na montanha. Os anciãos tinham me contado que o ngoma era sempre protegido por leões. Eram os leões de Deus, os guardiães do rei. Fomos em frente, escorregando pela descida que levava à caverna na base das rochas, parando de vez em quando para prestar atenção a sinais de perigo. Tagaruze tirou sua arma do coldre e enfiou no cinto. Havia um cheiro úmido e acre no ar. Minhas mãos estavam molhadas de suor devido ao esforço da caminhada e do medo.

De repente o caminho sumiu sob meus pés e foi somente a rapidez de Tagaruze ao agarrar meu braço que me impediu de desaparecer pela borda. Pedras soltas caíram do penhasco numa avalanche respeitável. Um eco chapado ecoou sob nós. Paramos e olhamos a ravina abaixo. Dava para vislumbrar a silhueta do estágio final da descida pelo penhasco do outro lado da grande parede de rocha.

Com cuidado continuamos descendo. Num momento houve um estalo de galhos; em outro, o som de um grande pássaro e uma corrente de ar depois; silêncio. Imaginei se aquele seria o “pássaro do céu”, a criatura que Sevias dissera ser um dos protetores da Dumghe.

Chegamos à base de duas grandes rochas. Houve outro som de galho se partindo. Talvez os lembas realmente mantivessem alguém ali o tempo todo, para guardar seus tesouros, afinal de contas. Havia apenas espaço para andarmos em fila. Fui na frente, apontando a lanterna ao redor até chegarmos ao que parecia a entrada da caverna. Aquele lugar, pensei, devia ser o mais sagrado para os lembas. Entre a pedra e a face do penhasco havia um monte de seixos soltos. Pus ali meu pé calçado com a bota para deserto, segurando a lanterna com uma das mãos e apoiando a outra na lateral de uma pedra. Não havia nada a ser visto. Encorajado, passei pela entrada estreita e apontei a lanterna em frente. Tudo que vi foi uma parede de pedra.

Mas pude ouvir uma coisa; uma espécie de som ofegante, uma tosse ou um rosnado, e então um som mais alto — uma fungada, talvez, que se transformou num rugido ensurdecedor ricocheteando na face de rocha ao redor. Minha mão apertou a lanterna, cheia de terror. Minhas pernas viraram geléia. A arma, pensei, atire no que quer que isso seja. Tagaruze estava com a arma, mas quando me virei percebi que Tagaruze não estava mais atrás de mim. Tagaruze havia desaparecido. Eu estava sozinho.

Recuei pela abertura, de costas, mantendo o rosto virado para o som, depois subi a trilha estreita atrás dele e fugi pelas encostas cobertas de mato da montanha Dumghe. O ruído nos acompanhou, subindo pelo fosso natural formado pelas grandes rochas, montanha acima. Era um som aterrorizante — poderia ser um leão, um leopardo ou qualquer outra coisa. Não esperamos para descobrir. Corremos o mais depressa que pudemos até chegarmos à árvore meshunah.

Sentamo-nos ofegantes na base da árvore. Enquanto meu traseiro batia no chão senti algo deslizando de baixo de mim e indo para o mato rasteiro. Estremecendo, levantei-me depressa.

— Que diabo foi isso? — perguntei.

— Só uma cobra — disse Tazaruze, sem jeito.

Meu sangue ficou gelado e senti vontade de vomitar. Haviam me dito que um dos guardiães do ngoma era uma cobra de duas cabeças. Eu sentia um milhão de vezes mais medo até mesmo da cobra menor e mais inofensiva do que de qualquer felino, pequeno ou grande, na face da terra.

Estremeci.

— E aquela coisa na caverna?

— Devia ser um ancestral dos lembas no corpo de um leopardo ou um leão. Ou seriam os protetores do ngoma, os leões do Todo-poderoso, os guardiães do rei. Todo mundo sabe que eles rondam nesta montanha. Foi um erro terrível, enorme.

O que o policial dissera era indubitavelmente verdadeiro. Foi um erro. Eu lamentaria esse equívoco em muitos anos seguintes. Não encontramos o esquivo e misterioso ngoma lungundu, o estranho artefato que representava um papel tão importante na imaginação dessa remota tribo africana, mas os acontecimentos daquela noite mudariam minha vida e me colocariam numa busca que só seria solucionada muitos, muitos anos depois.

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