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Trecho do Livro: Uma Bagunça Perfeita – Como Aproveitar as Vantagens da Desordem | Eric Abrahamson e David H. Freedman

Livros Uma Bagunca Perfeita Eric Abrahamson David H Freedman A Perfect Mess BooksLivro: Uma Bagunça Perfeita
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Há um local na Broadway, em Manhattan, no qual havia antigamente duas lojas de revistas, uma de frente para a outra. Uma das lojas exibia prateleiras ordenadas com perfeição, cobertas de revistas impecavelmente arrumadas, e qualquer edição delas podia ser rastreada no computador. Na outra loja, as revistas estavam às vezes espalhadas quase ao acaso, com a Cosmopolitan ao lado da Fortune, a Real Simple ao lado da Jet, e a Smithsonian disputando o espaço com a Psychotronic. Não era de causar espanto: Essam, o dono e gerente da loja mais bagunçada, não tinha um sistema informatizado de estoque para lhe dizer o que tinha vendido ou que revistas precisavam ser reabastecidas. Ele e o seu assistente, Zak, operavam baseados na memória, e arrumavam as coisas da melhor forma que podiam no final do dia.

É compreensível que a primeira loja atraísse mais clientes e tivesse um negócio mais dinâmico, vendendo mais revistas do que a de Essam. O que é igualmente compreensível é que somente uma das lojas continua aberta até hoje, pois a outra fechou por ter prejuízo. Mas o desfecho é interessante: a loja de Essam é a que continua a prosperar. Ele não vendia tantas revistas quanto o seu antigo concorrente, mas ganhava mais dinheiro. O simples motivo é que ele evitou alguns dos custos devoradores de lucro associados ao pessoal adicional que o seu concorrente considerava necessário para manter as prateleiras arrumadas e aos sistemas de estoque computadorizados fundamentais para rastrear as revistas. Levando-se em conta que o lucro, sem mencionar a sobrevivência, é um critério razoável da eficácia de um negócio, é legítimo afirmar que quaisquer benefícios que a outra loja possa ter obtido por ser mais arrumada e organizada foram sobrepujados pelos custos. Em outras palavras, uma das razões pelas quais a loja alcançou mais êxito foi o fato de ser mais bagunçada.

Não é muito difícil entender como Essam conseguiu lucrar, em certo sentido, com a bagunça. Talvez o fato nem mesmo pareça particularmente extraordinário depois de assinalado. No entanto, imagine que as lojas de revistas não sejam apenas uma curiosidade interessante. E se os custos de ser metódico e bem organizado frequentemente sobrepujarem os benefícios? E se o fato de sermos um tanto ou quanto desorganizados, em um sentido mais amplo, for melhor negócio?

Parece quase ridículo sugerir que o mundo em geral despreze a idéia relativamente óbvia de que ser metódico e organizado implica um custo. Imaginaríamos que a primeira pergunta que as pessoas e as empresas fariam a si mesmas antes de tomar a iniciativa de arrumar as coisas e ser mais organizadas seria a seguinte: o que pretendo fazer valerá o que mais custar em tempo e em outros recursos? Afinal de contas, a idéia de que a organização nem sempre compensa teria que surgir como uma notícia atordoante para os escritórios que têm tudo arquivado na mais perfeita ordem, escolas com currículos e padrões rigidamente detalhados, mente rígida, empresas que detalham ao extremo os procedimentos administrativos e operacionais, militares que mantêm rígidos agrupamentos, e para os administradores das cidades que geram uma enorme quantidade de leis e normas.

Na verdade, o método e a organização podem custar caro, o que é muito mal compreendido. Ou então, expondo a situação de outra maneira, com freqüência é possível reduzir os custos se tolerarmos certo nível de bagunça e desordem. No entanto, este livro vai mostrar que a lacuna é ainda mais impressionante. Não se trata apenas do fato de que as vantagens de ser metódico e organizado são tipicamente superadas pelos custos. Acontece que as próprias vantagens costumam ser ilusórias. Embora essa afirmação contrarie uma sabedoria quase universalmente aceita, as pessoas, as instituições e os sistemas moderadamente desorganizados com freqüência revelam-se mais eficientes, flexíveis, criativos e, em geral, mais competentes do que os altamente organizados. Assim como o custo da ordem foi desconsiderado, o mesmo aconteceu com os possíveis benefícios de alcançar o nível e o tipo adequado de bagunça. Embora a desordem beneficia possa não ser a regra, tampouco é uma exceção.

O fato de que a bagunça e a desordem podem ser proveitosas não pareceria algo tão ilógico não fosse a tendência para a ordem programada em quase todos nós. Especificamente, as pessoas tendem a desconsiderar o custo do esmero, a não fazer caso da possibilidade de que a bagunça nem sempre pode ser removida por mais que seja combatida e não acreditam na idéia de que a bagunça pode funcionar melhor do que o método. Na verdade, este último realmente tornou-se para quase todos nós um fim em si mesmo. Quando as pessoas ficam nervosas por causa de suas casas e escritórios bagunçados ou suas rotinas desorganizadas, isso costuma acontecer não porque a bagunça e a desordem estejam causando problemas, mas sim porque as pessoas partem do princípio de que deveriam ser mais metódicas e organizadas, e sentem-se mal quando não o são.

A idéia de que a bagunça e a desordem podem ser inofensivas ou até mesmo benéficas não deveria parecer tão estranha. No entanto, quase toda discussão sobre como podemos melhorar a nossa vida, o nosso negócio e a sociedade sugerem maneiras de sermos mais ordenados ou métodos pelos quais podemos nos ordenar de um modo diferente. A hipótese de sermos desordenados – e não apenas menos ordenados – raramente é considerada. Está na hora de examinar, com a mente aberta, a bagunça de todos os aspectos de nossa vida e instituições, e refletir sobre onde ela poderia ser celebrada em vez de evitada.

As páginas que seguem compõem um passeio representativo pelo lado indevidamente apreciado do mundo da bagunça e da desordem. Entre as paradas temos: uma casa incrivelmente bagunçada, uma pré-escola na qual desmontar brinquedos faz parte do currículo, uma loja de ferragens e uma livraria que prosperam tornando difícil encontrar as mercadorias, a vida completamente desorganizada de Arnold Schwarzenegger, um hospital no qual os pacientes dão festas de pizzas, a sinfonia de Beethoven que frequentemente é tocada sem afinação, a bagunça de uma mesa que conduziu a um Prêmio Nobel, um restaurante que serve pratos fora de ordem e a cidade americana cuja bagunça a deixa comparável à histórica Paris. O objetivo do passeio não é esgotar completamente o assunto da bagunça e da desordem. Longe disso; qualquer faceta desse tema poderia facilmente preencher muitos volumes. Na verdade, a meta é simplesmente explorar e destacar algumas verdades importantes a respeito da desordem que foram em grande parte negligenciadas.

Você perceberá que o passeio dá algumas voltas inesperadas. Pelo menos é o que esperamos.

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Trecho do Livro: Emprego de A a Z | Max Gehringer

Livros Emprego de A a Z Max Gehringer BooksLivro: Emprego de A a Z
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A de Assédio Moral

Um empregado que é humilhado pelo chefe está sendo vítima de assédio moral. E isso é bem mais comum do que parece. Existe há muitos e muitos anos. Provavelmente, do dia em que o primeiro patrão contratou o primeiro empregado. Mas milênios se passaram até que, finalmente, a Justiça do Trabalho começasse a punir as empresas que toleram o mau comportamento dos chefes. A CLT, o conjunto de leis que regula as relações entre empregador e empregado, não menciona diretamente o assédio moral. Desde o final da década de 1990, a justiça vem aceitando causas por assédio moral. São as sentenças dos juízes que estão servindo de base para futuros processos.

O assédio moral ocorre quando um chefe abusa do poder de seu cargo para humilhar um subordinado, ou todos os subordinados, de maneira constante e contínua. Essas duas palavrinhas são importantes. Constante e contínua. O assédio moral não é uma única explosão de mau humor por parte do chefe. Não é algo que acontece de vez em quando. É perseguição, que ocorre praticamente todos os dias e durante bom período de tempo. Por exemplo: o chefe grita em vez de falar. O chefe chama o subordinado de burro na frente dos colegas. O chefe coloca um apelido maldoso em um subordinado. O chefe obriga sua equipe a uma situação ridícula e constrangedora quando não atinge a meta. O chefe isola um subordinado em um canto, não fala com ele, e não permite que converse com os colegas. Com o tempo, o subordinado assediado começa a ter problemas de saúde, física e mental. Sente-se envergonhado e deprimido. Seu relacionamento com a família começa a deteriorar.

Até pouco tempo atrás, esse empregado tinha apenas um caminho: baixar a cabeça e pedir a conta. Agora, começou a ser amparado pela lei para denunciar o abuso. Quem está sofrendo assédio moral deve acumular provas. Registrar datas e guardar receitas e atestados médicos. A denúncia deve ser feita à empresa. Somente depois deve ser procurado o caminho judicial.

Combater o assédio moral não é tirar do chefe o respeito que ele merece como chefe. Nenhuma empresa iria conseguir sobreviver sem hierarquia. Chefes sempre existiram e sempre vão existir. Mas o respeito tem mão dupla. O subordinado tanto deve respeitar o chefe, quanto ser respeitado por ele. Por isso, boas empresas orientam seus chefes para os riscos de assédio moral. Esse é o melhor caminho. A prevenção agora para evitar a condenação depois.

E a culpa é do café

O assédio moral ocorre sempre que um chefe, usando seu cargo hierárquico como escudo, abusa verbalmente de um funcionário bem qualificado, ou ofendendo, ou dando ordens sem sentido. Chefes assediadores fazem isso porque são inseguros, ou porque têm raiva de funcionários que conseguiram tirar os diplomas que os chefes gostariam de ter tirado, ou por qualquer outro motivo. O fato é que o abuso existe.

Minha percepção é que isso nãovai acabar tão cedo, porque há empresas que fecham os olhos e toleram o abuso. Conheço um caso desses. Um gerente machão, o Xuxão, tinha uma funcionária superqualificada, a Fernandinha. Ela era eficiente em tudo o que fazia, e o Xuxão, por algum motivo, ficava chateado com tanta eficiência. Para mostrar quem mandava, pedia à Fernandinha para que pegasse um café na cozinha. A Fernandinha ia. Certo dia, a copeira faltou e o Xuxão pediu que Fernandinha fizesse o café. Ela fez. O Xuxão provou e disse que estava amargo. A Fernandinha foi buscar o açúcar. O Xuxão provou de novo e disse que estava frio. E perguntou por que a Fernandinha tinha tanto diploma se não sabia nem fazer café direito. Delicadamente, a Fernandinha pegou a xícara, despejou o café na mesa do Xuxão e pediu a conta.

Alguns anos depois, encontrei por acaso o Xuxão. Ele estava igualzinho. O mesmo penteado anos 70, a mesma camisa desabotoada, a mesma barba por fazer. Comentei que a Fernandinha havia tido uma carreira incrível depois que deixara de trabalhar com ele. Havia tido promoções freqüentemente, viajava com constância ao exterior para fazer apresentações na matriz da empresa. E o Xuxão, o protótipo perfeito do assediador, cuja ficha não cai nunca, disse: “Pois é, imagine onde essa menina poderia ter chegado se soubesse, além de tudo, fazer um café decente”.

Comando feito sob ameaça

A batalha contra todos os tipos de assédio entrou em moda nas empresas pouco tempo atrás. O primeiro a ganhar notoriedade foi o mais óbvio deles, o sexual. É claro que muita gente exagera um pouco quando se trata desse assunto. Tive uma colega de trabalho que achava que tudo era assédio sexual. Se alguém chegasse e perguntasse: “Sônia, você viu meu pincel atômico?”, ela saía correndo para denunciar o agressor. Felizmente, as empresas já admitem que assédio sexual é crime e pronto.

Outro tipo de assédio tão antigo quanto o sexual e tão doloroso quanto é o assédio moral. Menos escandaloso que o sexual, o moral deixa também seqüelas sérias. É o caso do chefe que administra sua equipe por meio do medo, sempre ameaçando os que se atrevem a contrariá-lo. É o chefe que não permite que seus funcionários se desenvolvam.

Em empresas que toleram o assédio moral, além do ambiente de trabalho ser uma lástima, a produtividade geral é baixa, já que aquele sentimento de orgulho por estar trabalhando ali simplesmente não existe. Há, entretanto, uma sutil diferença entre o assédio moral e a pressão por resultados. A pressão existe em todo lugar e é normal. Por isso, o chefe que pressiona por melhores resultados é diferente do chefe que pressiona porque é inseguro. E a diferença é fácil de ser percebida: o chefe que pressiona também sabe reconhecer quando um trabalho está bem-feito. Não com elogios e sorrisos, porque chefes que botam pressão quase nunca têm esse estilo amigo e camarada, mas com avaliações honestas de desempenho. A Sônia, aquela minha colega de trabalho que via maldade em tudo, tinha um chefe assim. Mas ela não conseguia perceber isso. Tanto que, um dia, entrou em pânico quando o chefe disse que ela estava precisando apenas de uma cenoura.

Sacrifício dos pioneiros

O assédio moral acontece quando, sem necessidade, o chefe grita, ofende, e dirige um palavrão a um funcionário. E esse tipo de comportamento é repetitivo, como se fosse um estilo de chefiar. A simples existência de um assediador é sinal evidente de que a empresa não está nem aí se o funcionário sofre humilhação. Resta a ele, então, a via legal. O processo pode ser trabalhista. Juízes do trabalho, em alguns estados, estão condenando empresas por prática de assédio moral.

Durante o processo, o juiz pode determinar uma avaliação psicológica do reclamante para entender o estrago que o assédio causou. Por exemplo, o assediado tornou-se dependente de calmantes para poder suportar o assédio. No final, a pena é uma indenização em dinheiro. Evidentemente, a empresa irá recorrer da sentença e o processo se arrastará por vários anos.

O que acontece com o funcionário que abriu o processo? É difícil dizer. Provavelmente, sairá da empresa, porque não terá ambiente para continuar nela. E poderá, ou não, ser contratado por outra. Vai depender da postura ética de cada empresa. Funcionários que movem processo contra assédio moral irão beneficiar mais as futuras gerações do que a si mesmos. Quanto mais ações na justiça, mais empresas decidirão implantar normas internas para prevenir o assédio moral. Esse sacrifício pessoal é o preço que os pioneiros terão que pagar. Mas, é bom lembrar, o progresso nunca foi feito pelos que sofrem calados.

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Trecho do Livro: Os Desafios da Terapia | Irvin D. Yalom

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Quando eu era um jovem estudante da psicoterapia em busca do caminho a seguir, o livro mais útil que li foi Neurose e desenvolvimento humano: a luta pela auto-realização (Neurosis and Human Growth: The Struggle Toward Self-Realization), de Karen Horney. E o conceito isolado mais útil desse livro foi a noção de que o ser humano possui uma propensão inata para a auto-realização. Se os obstáculos forem removidos, acreditava Horney, o indivíduo se desenvolverá e se transformará num adulto maduro plenamente realizado, assim como da bolota se desenvolverá um carvalho.

“Assim como da bolota se desenvolverá um carvalho…” Que imagem maravilhosamente libertadora e elucidativa! Mudou para sempre a minha abordagem da psicoterapia por me oferecer uma nova visão do meu trabalho: minha tarefa era remover os obstáculos que bloqueiam o caminho do meu paciente. Não precisei fazer todo o trabalho; não precisei incitar no paciente o desejo de crescer, com curiosidade, vontade, gosto pela vida, afeição, lealdade ou qualquer uma da infinidade de características que nos tornam inteiramente humanos. Não, o que tive de fazer foi identificar e remover os obstáculos. O resto se seguiria automaticamente, alimentado pelas forças de auto-realização dentro do paciente.

Lembro-me de uma jovem viúva com, segundo as suas próprias palavras, um “coração avariado” – uma incapacidade de, algum dia, voltar a amar. Pareceu assustador lidar com a incapacidade de amar. Eu não sabia como fazê-lo. Mas, e dedicar-me a identificar e desarraigar seus muitos bloqueios para amar? Isso eu poderia fazer.

Logo descobri que o amor lhe parecia traiçoeiro. Amar outro seria trair seu esposo falecido; dava-lhe a sensação de estar fincando os últimos pregos no caixão do marido. Amar outro tão profundamente quanto ela o havia amado (e ela não aceitaria nada menos que isso) significaria que o amor por ele tinha sido de alguma forma insuficiente ou imperfeito. Amar outro seria autodestrutivo porque a perda, e a dor lancinante da perda, era inevitável. Voltar a amar parecia irresponsável: ela era maligna e desafortunada, e seu beijo era o beijo da morte.

Trabalhamos com afinco durante muitos meses para identificar todos esses obstáculos que a impossibilitavam de amar outro homem. Durante meses, lutamos corpo a corpo contra um obstáculo irracional de cada vez. Mas uma vez que isso foi feito, os processos internos da paciente assumiram o controle: ela conheceu um homem, apaixonou-se, voltou a se casar. Não precisei ensiná-la a procurar, dar-se, respeitar, amar – eu não saberia como fazê-lo.

Algumas palavras sobre Karen Horney: seu nome não é familiar à maioria dos jovens terapeutas. Uma vez que o período em que os teóricos eminentes permanecem em circulação em nosso campo tem sido cada vez mais curto, deverei, de tempos em tempos, recair em reminiscências – não meramente como uma homenagem, mas para enfatizar o argumento de que o nosso campo reúne uma longa história de colaboradores incrivelmente capazes que erigiram alicerces profundos para o nosso trabalho terapêutico atual.

Uma contribuição singularmente americana para a teoria psicodinâmica é personificada pelo movimento “neofreudiano” – um grupo de clínicos e teóricos que reagiu contra o foco original de Freud sobre a teoria da pulsão, isto é, a noção de que o indivíduo em desenvolvimento é basicamente controlado pelo desenrolar e expressão das pulsões inatas.

Em vez disso, os neofreudianos enfatizavam que deveríamos considerar a vasta influência do ambiente interpessoal que envolve o indivíduo e que, durante toda a vida, molda a estrutura do caráter. Os teóricos interpessoais mais conhecidos, Harry Stack Sullivan, Erich Fromm e Karen Horney, estavam tão profundamente integrados e assimilados à nossa linguagem e prática terapêutica que todos somos, sem sabê-lo, neofreudianos. Isso me fez lembrar de Monsieur Jourdain, de O burguês fidalgo, de Molière, que, ao ouvir a definição de “prosa”, exclama maravilhado:“E pensar que durante toda a minha vida falei em prosa sem saber.”

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Trecho do Livro: O Menino do Pijama Listrado | John Boyne

Livros O Menino do Pijama Listrado John Boyne Boy in the Striped Pajamas BooksLivro: O Menino do Pijama Listrado
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Bruno Faz Uma Descoberta

Certa tarde, quando Bruno chegou em casa vindo da escola, surpreendeu-se ao ver Maria, a governanta da família – que sempre mantinha a cabeça abaixada e jamais levantava os olhos do tapete -, de pé no seu quarto, tirando todos os seus pertences do guarda-roupa e arrumando-os dentro de quatro caixotes de madeira, até mesmo aquelas coisas que ele escondera no fundo e que pertenciam somente a ele e não eram da conta de mais ninguém.

“O que você está fazendo?”, ele perguntou tão educadamente quanto pôde, pois, embora não estivesse contente por chegar em casa e descobrir alguém remexendo nas suas coisas, sua mãe sempre lhe dissera para tratar Maria com respeito e não simplesmente imitar a maneira com que seu pai a tratava. “Tire as mãos das minhas coisas.”

Maria sacudiu a cabeça e apontou para a escada atrás dele, onde a mãe de Bruno acabara de aparecer. Era uma mulher alta, de longos cabelos ruivos, presos numa espécie de rede atrás da cabeça; ela estava retorcendo as mãos em sinal de nervosismo, como se houvesse algo que ela não quisesse falar ou alguma coisa em que não quisesse acreditar.

“Mãe”, disse Bruno, marchando em direção a ela, “o que está acontecendo? Por que a Maria está mexendo nas minhas coisas?”

“Ela está fazendo suas malas”, a mãe explicou.

“Fazendo minhas malas?”, ele perguntou, repassando rapidamente os eventos dos últimos dias para avaliar se fora um mau menino ou se dissera em voz alta as palavras que ele sabia não poder dizer e, por isso, estava sendo mandado embora. Mas não conseguiu pensar em nada que justificasse tal pensamento. Na verdade, durante os últimos dias ele se comportara de maneira perfeitamente decente com todos e não conseguia se lembrar de ter criado nenhuma confusão. “Por quê?”, ele perguntou então. “O que eu fiz?”

A mãe já havia entrado em seu próprio quarto a essa altura, mas Lars, o mordomo, estava lá, fazendo as malas dela também. Ela suspirou e jogou as mãos para o ar em sinal de frustração antes de marchar de volta à escada, seguida por Bruno, que não ia deixar o assunto morrer sem uma explicação satisfatória.

“Mãe”, ele insistiu. “O que está havendo? Estamos de mudança?”

“Venha comigo até o andar de baixo”, disse ela, levando-o até a ampla sala de jantar onde o Fúria estivera para comer com eles na semana anterior. “Conversaremos lá embaixo.”

Bruno desceu as escadas correndo e até a ultrapassou na descida, de maneira que já estava esperando pela mãe na sala de jantar quando ela chegou. Ele observou-a sem dizer nada por um momento e pensou consigo que ela não devia ter aplicado corretamente a maquiagem naquela manhã, pois as órbitas dos olhos estavam mais avermelhadas do que de costume, como os seus próprios olhos ficavam quando ele criava confusão e se metia em encrenca e acabava chorando.

“Veja, Bruno, não há motivo para se preocupar”, disse a mãe, sentando-se na cadeira na qual se sentara a bela mulher loira que viera jantar acompanhando o Fúria e que acenara para ele quando o pai fechou a porta. “Na verdade, acho que será uma grande aventura.”

“Que aventura?”, ele perguntou. “Estão me mandando embora?”

“Não, não é apenas você”, ela disse, parecendo que ia abrir um sorriso momentâneo, mas mudando de idéia. “Todos nós vamos embora. Seu pai e eu, Gretel e você. Todos os quatro.”

Bruno pensou a respeito e franziu o cenho. Não o incomodava em especial se Gretel fosse mandada embora, porque ela era um Caso Perdido e só o metia em encrencas. Mas parecia um pouco injusto que todos tivessem que acompanhá-la.

“Mas para onde?”, ele perguntou. “Aonde vamos exatamente? Por que não podemos ficar aqui?”

“É o trabalho do seu pai”, explicou a mãe. “Sabe como isto é importante, não sabe?”

“Sim, é claro”, disse Bruno, acenando com a cabeça, pois sempre havia na casa muitos visitantes – homens em uniformes fantásticos, mulheres com máquinas de escrever das quais ele deveria manter longe as mãos sujas -, e eram todos sempre muito educados com o pai e diziam que ele era um homem para ser observado e que o Fúria tinha grandes planos para ele.

“Bem, às vezes, quando uma pessoa é muito importante”, prosseguiu a mãe, “o homem que o emprega lhe pede que vá a outro lugar, porque lá há um trabalho muito especial que precisa ser feito.”

“Que tipo de trabalho?”, perguntou Bruno, porque, se fosse honesto consigo mesmo – e ele sempre tentava ser -, teria de admitir que não sabia ao certo qual era o trabalho do pai.

Na escola todos conversaram um dia sobre seus pais, e Karl dissera que seu pai era quitandeiro, o que Bruno sabia ser verdade, porque o homem cuidava da quitanda no centro da cidade. E Daniel dissera que seu pai era professor, o que Bruno sabia ser verdade, porque o homem ensinava aos meninos maiores, dos quais era sempre melhor manter distância. E Martin dissera que seu pai era chef de cozinha, o que Bruno sabia ser verdade, porque, nas vezes em que o homem vinha buscar Martin na escola, sempre vestia bata branca e avental xadrez, como se tivesse acabado de deixar a cozinha.

Mas, quando perguntaram a Bruno o que seu pai fazia, ele abriu a boca para dizer-lhes e então percebeu que ele próprio não sabia. Só era capaz de dizer que seu pai era um homem para ser observado e que o Fúria tinha grandes planos para ele. Ah, e que ele também tinha um uniforme fantástico.

“É um trabalho muito importante”, disse a mãe, hesitando por um momento. “Um trabalho que precisa ser feito por um homem muito especial. Você consegue entender isso, não é?”

“E todos nós temos que ir também?”, indagou Bruno.

“Claro que sim”, disse a mãe. “Você não gostaria que seu pai fosse até o novo trabalho e se sentisse solitário lá, gostaria?”

“Acho que não”, disse Bruno.

“Papai sentiria muito a nossa falta se não fôssemos com ele”, ela acrescentou.

“De quem ele sentiria mais saudade?”, perguntou Bruno. “De mim ou de Gretel?”

“Ele teria saudades de ambos igualmente”, disse a mãe, que era partidária da opinião de não escolher favoritos, o que Bruno respeitava, especialmente porque sabia que, na verdade, era ele o favorito dela.

“Mas e quanto à nossa casa?”, perguntou Bruno. “Quem vai cuidar dela enquanto estivermos longe?”

A mãe suspirou e olhou o quarto ao redor, como se nunca mais fosse vê-lo novamente. Era uma casa muito bonita e tinha ao todo cinco andares, se incluirmos o porão, onde o cozinheiro preparava toda a comida e Maria e Lars sentavam-se à mesa discutindo um com o outro e chamando-se de nomes que não se deviam empregar. E se considerássemos o pequeno quarto no topo da casa, que tinha as janelas oblíquas através das quais Bruno conseguia ver até o outro lado de Berlim, se ficasse na ponta dos pés e segurasse firme no parapeito.

“Teremos que fechar a casa por enquanto”, disse a mãe. “Mas voltaremos algum dia.”

“Mas e quanto ao cozinheiro?”, perguntou Bruno. “E Lars? E Maria? Eles não vão ficar morando aqui na casa?”

“Eles vêm conosco”, explicou a mãe. “Mas agora basta de perguntas. Talvez seja melhor você subir e ajudar Maria a fazer as malas.”

Bruno levantou-se da cadeira mas não foi a lugar nenhum. Havia apenas mais algumas perguntas que ele precisava fazer, antes que pudesse deixar o assunto de lado.

“É muito longe?”, ele perguntou. “O emprego novo, quero dizer. Fica a mais de um quilômetro de distância?”

“Oh, céus”, disse a mãe, rindo, embora fosse uma risada estranha porque ela não parecia feliz e se virou como se não quisesse que Bruno visse seu rosto. “Sim, Bruno”, disse ela. “Fica a mais de um quilômetro de distância. Bem mais que isso, na verdade.”

Os olhos de Bruno se arregalaram e a boca fez o formato de um O. Ele sentiu os braços pendendo estendidos ao seu lado, como costumavam ficar quando alguma coisa o surpreendia. “Você não quer dizer que iremos deixar Berlim, não é?”, ele perguntou, sem fôlego, esforçando-se para proferir as palavras.

“Temo que sim”, disse a mãe, acenando tristemente com a cabeça. “O trabalho de seu pai é…”

“Mas e quanto à escola?”, disse Bruno, interrompendo-a, algo que ele sabia que não podia fazer, mas que pensou ser perdoável naquela ocasião. “E quanto a Karl, e Daniel e Martin? Como eles saberão onde eu estarei quando quisermos fazer alguma coisa juntos?”

“Você terá que se despedir dos seus amigos, por enquanto”, disse a mãe. “Mas estou certa de que você os verá novamente com o tempo. E não interrompa sua mãe quando ela estiver falando, por favor”, acrescentou, pois, apesar das notícias estranhas e desagradáveis, decerto não havia necessidade de Bruno quebrar as regras de boa educação que lhe foram ensinadas.

“Despedir-me deles?”, ele perguntou, encarando-a com surpresa. “Despedir-me deles?”, repetiu, cuspindo as palavras como se a boca estivesse cheia de bolachas que ele mastigara mas ainda não engolira. “Despedir-me de Karl e Daniel e Martin?”, prosseguiu Bruno, a voz se aproximando perigosamente do grito, o que não era permitido dentro de casa. “Mas eles são os três melhores amigos da minha vida toda!”

“Ah, você fará novas amizades”, disse a mãe, acenando com a mão no ar, como se dispensasse o assunto, supondo que, para um menino, fazer três grandes amizades para a vida toda fosse coisa fácil.

“Mas nós tínhamos planos”, protestou ele.

“Planos?”, perguntou a mãe, erguendo uma sobrancelha. “Que tipo de planos?”

“Bem, eu não posso entregar o jogo”, disse Bruno, que não podia revelar a natureza exata dos planos – os quais incluíam criar muita confusão, especialmente dentro de algumas semanas, quando a escola fechasse para as férias de verão e eles não precisassem mais passar todo o tempo apenas fazendo os planos, mas pudessem, finalmente, colocá-los em prática.

“Sinto muito, Bruno”, disse a mãe, “mas os seus planos terão que esperar. Não há escolha quanto a isso.”

“Mas, mãe!”

“Já chega, Bruno”, disse ela, agora ríspida, se levantando para indicar-lhe que tinha falado sério quando disse que já bastava. “Francamente, na semana passada você estava reclamando do quanto as coisas mudaram por aqui nestes últimos tempos.”

“Bem, eu não gosto dessa história de apagar todas as luzes quando chega a noite”, admitiu ele.

“Todos têm que fazer isso”, disse a mãe. “É para a nossa segurança. E quem sabe, talvez seja menos perigoso se nos mudarmos daqui. Agora eu quero que você suba as escadas e vá ajudar a Maria a arrumar suas malas. Não temos tanto tempo quanto gostaríamos para fazer os preparativos, graças a certas pessoas.”

Bruno acenou e saiu cabisbaixo, sabendo que “certas pessoas” era uma expressão que os adultos usavam para “pai”, e que ele próprio não podia usar.

Ele foi vagarosamente até as escadas, segurando o corrimão com uma das mãos, e se perguntou se a casa nova, onde seria o novo trabalho, tinha um corrimão tão bom de escorregar quanto aquela. Pois o corrimão daquela casa vinha desde o andar mais alto – começava do lado de fora do pequeno quarto onde, se ele ficasse na ponta dos pés e segurasse firme no parapeito da janela, era possível ver até o outro lado de Berlim – até o piso térreo, bem diante das duas enormes portas de carvalho. E o que Bruno mais gostava de fazer era subir a bordo do corrimão no andar de cima e escorregar pela casa toda, fazendo barulho de vento ao longo do caminho.

Descia do andar de cima até o próximo, onde estavam o quarto do pai e da mãe e o grande banheiro, e onde ele não deveria ficar de maneira nenhuma.

Descia até o próximo andar, onde ficavam o seu próprio quarto e o de Gretel e o banheiro menor, que ele deveria utilizar com freqüência maior do que de fato fazia.

Descia até o térreo, onde caía do final do corrimão e tinha de aterrissar equilibrado nos dois pés, ou então perdia cinco pontos e tinha de começar tudo outra vez.

O corrimão era a melhor coisa da casa – além do fato de vovô e vovó morarem tão perto -, e quando pensou nisso ele se perguntou se eles também viriam até o emprego novo e acreditou que sim, pois seria impossível deixá-los para trás. Ninguém precisava muito de Gretel, porque ela era um Caso Perdido – seria bem mais fácil se ela ficasse para tomar conta da casa -, mas vovô e vovó? Aí já era outra história.

Bruno subiu devagar as escadas até seu quarto; porém, antes de entrar, olhou para trás e para baixo na direção do piso térreo e viu a mãe entrando no escritório do pai, que dava de frente para a sala de jantar – e onde era Proibido Entrar em Todos os Momentos Sem Exceção -, e escutou-a falando alto com ele, até que o pai falou mais alto do que a mãe era capaz, e isso terminou com a conversa entre eles. Então a porta do escritório se fechou, e, como Bruno não conseguiu mais ouvir nada, pensou que seria boa idéia voltar ao seu quarto e assumir a tarefa de fazer as malas, porque senão Maria era capaz de retirar todos os seus pertences do guarda-roupa sem o devido cuidado e consideração, até mesmo as coisas que ele escondera no fundo e que pertenciam somente a ele e não eram da conta de mais ninguém.

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Ficção

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03. A CIDADE DO SOL
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04. AS MEMÓRIAS DO LIVRO
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05. O SILÊNCIO DOS AMANTES
Lya Luft . leia um trecho do livro

06. O GUARDIÃO DE MEMÓRIAS
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07. A SOMBRA DO VENTO
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08. CREPÚSCULO
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09. ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
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10. UMA VIDA INVENTADA
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Livros COMER REZAR AMAR Elizabeth Gilbert EAT PRAY LOVE Books

Não-Ficção

01. COMER, REZAR, AMAR
Elizabeth Gilbert . leia um trecho do livro

02. O SEGREDO
Rhonda Byrne

03. 1808
Laurentino Gomes . leia um trecho do livro

04. O MAGO (PAULO COELHO)
Fernando Morais . leia um trecho do livro

05. UMA BREVE HISTÓRIA DO MUNDO
Geoffrey Blainey . leia um trecho do livro

06. A LIÇÃO FINAL
Randy Pausch . leia um trecho do livro

07. O MONGE E O EXECUTIVO
James C. Hunter . leia um trecho do livro

08. INVESTIMENTOS INTELIGENTES
Gustavo Cerbasi . leia um trecho do livro

09. MARLEY E EU
John Grogan . leia um trecho do livro

10. BEM-VINDO À BOLSA DE VALORES
Marcelo C. Piazza . leia um trecho do livro

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