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Trecho do Livro: John Lennon – A Vida | Philip Norman

Livros John Lennon Vida Philip Norman BooksLivro: John Lennon – A Vida

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John Lennon nasceu com um dom para a música e a comédia que o levariam muito mais longe de suas raízes do que poderia ter sonhado. Quando jovem, foi atraído para longe das ilhas Britânicas pelo glamour e a oportunidade aparentemente infinitos do outro lado do Atlântico. Alcançou o feito raro para um artista britânico de apresentar música americana para os americanos e tocá-la de modo tão convincente quanto um profissional nativo, ou ainda melhor. Durante vários anos, seu grupo excursionou pelo país, deleitando platéias em cidade após cidade com seus ternos berrantes, cabelos engraçados e contagiantes sorrisos de felicidade.

Este, naturalmente, não era o Beatle John Lennon, mas o seu avô paterno homônimo, mais conhecido como Jack, nascido em 1855. Lennon é um sobrenome irlandês – de O’Leannain ou O’Lonain – e Jack costumava dizer que havia nascido em Dublin, embora existam indícios de que, algum tempo antes, sua família tivesse atravessado o mar da Irlanda para se tornar parte da extensa comunidade hibérnica de Liverpool. Ali ele começou a ganhar a vida como escriturário, mas na década de 1880 seguiu um impulso comum entre seus compatriotas e emigrou para Nova York. Enquanto a cidade transformava outros imigrantes irlandeses em operários ou policiais, Jack virou membro da trupe Coloured Operatic Kentucky Minstrels (Menestréis Operáticos de Cor do Kentucky), de Andrew Roberton.

Por mais breve ou informal que tenha sido seu envolvimento, isto fez dele parte da primeira leva transatlântica de música popular. As trupes americanas de menestréis, em que brancos enegreciam o rosto, usavam colarinhos enormes e pantalonas listradas e entoavam refrões sentimentais sobre o Velho Sul, eram imensamente populares no final do século XIX, seja como intérpretes seja como criadores de canções de sucesso. Quando os Coloured Operatic Kentucky Minstrels excursionaram pela Irlanda em 1897, o Limerick Chronicle os chamou de “os consagrados mestres mundiais da refinada arte dos menestréis”, enquanto o Dublin Chronicle os considerou o melhor desses grupos que por lá passara. Um almanaque da época registra que a trupe contava cerca de trinta integrantes, incluía artistas negros genuínos entre os fictícios e se distinguia pelo fato de desfilar pelas ruas de cada cidade onde se apresentava.

Para esse John Lennon, ao contrário do neto que ele jamais conheceria, a música não trouxe fama mundial, mas foi um mero interlúdio exótico, cujos detalhes, em sua maioria, jamais chegariam aos ouvidos de seus descendentes. Em torno da virada do século, ele largou para sempre a estrada, voltou para Liverpool e retomou a antiga vida como escriturário, desta vez na companhia de navegação Booth. Com ele veio sua filha, Mary, único fruto de um primeiro casamento que não sobrevivera ao seu mergulho temporário no mundo da maquiagem com rolha queimada, música de banjo e aplausos.

Quando Mary o deixou para trabalhar como empregada doméstica, uma velhice solitária parecia estar reservada para Jack. Este, porém, escapou de tal destino ao casar com sua empregada, uma jovem irlandesa de Liverpool com o nome afortunadamente coincidente de Mary Maguire. Embora vinte anos mais moça e analfabeta, Mary – mais conhecida como Polly – se revelou uma perfeita esposa vitoriana, prática, trabalhadora e abnegada. Moravam em uma casa minúscula num conjunto de residências geminadas em Copperfield Street, em Toxteth, uma área da cidade apelidada de “Dickenslândia”, tão numerosas eram ali as ruas batizadas com nomes dos personagens do escritor. Um tanto como Micawber em David Copperfield, Jack às vezes falava em voltar à vida de menestrel e ganhar o suficiente para que sua jovem esposa pudesse, como ele dizia, “peidar na seda”. No entanto, dali em diante, sua atividade musical se restringiria aos pubs locais e ao seu próprio círculo familiar.

O casamento de Jack com Polly proporcionou-lhe uma segunda família com oito filhos. Dois morreram ainda bebês, o que a supersticiosa Polly atribuiu ao fato de terem sido batizados como católicos. Os outros seis receberam batismos protestantes e todos sobreviveram: cinco meninos – George, Herbert, Sydney, Alfred e Charles – e uma menina, Edith. Polly teve um trabalho heróico para alimentar a todos com o modesto salário de Jack. Mas sua dieta principalmente de pão, margarina, chá forte e lobscouse – um ensopado de carne e biscoito que faria com que os liverpudlianos ficassem conhecidos como scouses – carecia cronicamente de nutrientes essenciais. Isto afetou sobretudo o quarto menino, Alfred, nascido em 1912, que pouco depois de começar a andar contraiu raquitismo, o que prejudicou o desenvolvimento de suas pernas. O único tratamento conhecido pelos pediatras naqueles tempos era encaixar as pernas em suportes de ferro, na esperança de que o peso adicional promovesse o crescimento e o fortalecimento dos membros. Todavia, apesar dos anos que passou com o fardo dos suportes metálicos, as pernas de Alf permaneceram débeis e curtas, e ele não cresceu mais do que 1,62 metro. Ainda assim, era um rapaz bonito, com abundantes cabelos escuros, olhos alegres e o nariz característico da família Lennon, um bico fino virado para baixo com fendas acentuadas sobre as narinas.

O talento musical de Jack foi transmitido aos seus filhos em graus distintos. George, Herbert, Sydney, Charles e Edith eram cantores passáveis, e os meninos tocavam gaitas-de-boca, o único instrumento acessível a jovens naquelas circunstâncias. Alf, porém, revelava habilidade de ordem bem mais elevada, aliada ao que seu irmão Charlie (nascido em 1918) chamava de uma “vontade de se mostrar”. Dava conta de todas as canções do teatro de variedades e das óperas ligeiras que freqüentavam a parada de sucessos da Primeira Guerra; sabia recitar baladas, contar anedotas e fazer imitações. Sua especialidade era Charlie Chaplin, o pequeno vagabundo anárquico cujos filmes cômicos haviam criado o fenômeno sem precedentes de um artista famoso no mundo inteiro. Em reuniões de família, Alf sentava-se no colo do pai com suas pernas de ferro e os dois cantavam juntos “Ave Maria”, com lágrimas de emoção escorrendo pelo rosto.

Jack morreu de doença do fígado, provavelmente causada pelo alcoolismo, em 1921. Incapaz de sobreviver com a pensão de viúva proporcionada pelo Estado, de cinco xelins semanais por filho, Polly não teve outra saída senão lavar roupa para fora. Esse era um trabalho de quebrar as costas e escaldar as mãos: desde as quatro da manhã até o anoitecer, ela esfregava a roupa suja de cama e mesa de estranhos numa tábua de lavar e depois espremia os rolos de pano ensopado em uma pesada calandra de ferro. Ainda assim, lembra sua neta Joyce Lennon, a casa pequena e apertada estava sempre imaculada com “assoalhos nos quais dava para comer”, o fogão e o forno religiosamente engrafitados toda segunda de manhã, a soleira na porta de entrada brunida até ficar quase branca e depois delineada em vermelho com uma lasca de arenito. Polly comandava seus cinco filhos como a sra. Joe em Grandes esperanças, não hesitando em castigá-los com uma correia de couro mesmo quando eram quase homens feitos. Como muitos liverpudlianos mais simples, ela tinha seu lado místico, acreditando ser médium, capaz de ler o futuro em cartas de baralho ou nos desenhos formados pelas folhas de chá no fundo de uma xícara.

Todavia, por mais que Polly trabalhasse duro, a tarefa de sustentar a prole de seis estava além de suas forças. Felizmente, encontrou-se um jeito de tirar Alf e Edith de suas mãos sem desagregar a família ou magoar seu feroz amor-próprio. Foram oferecidas a ambos vagas em regime de internato no Bluecoat Hospital, uma escola de caridade fundada em 1714 na Church Road, em Wavertree, nas proximidades de uma então obscura via pública chamada Penny Lane. Os alunos do Bluecoat ainda envergavam o uniforme adotado no século XVIII, de casaca azul com botões dourados, calções amarrados nos joelhos, meias e plastrão. O nível educacional era alto, a disciplina não era inclemente e qualquer criança ali admitida era considerada afortunada. A despeito disso, foi traumático para Alf e Edith deixar o lar confortável e limpo em Copperfield Street e a mãe adorada. Dos dois, o jovial Alf ajustou-se melhor à vida da instituição: saía-se bem nas lições, tornou-se o mascote do time de futebol e divertia os companheiros de dormitório com os mesmos esquetes de canto e dança e de Charlie Chaplin que costumava fazer para a família e os vizinhos.

Desde a mais tenra infância, seu desejo era seguir o pai na vida artística. Certa noite, já com catorze anos, isso quase se tornou realidade quando o irmão Sydney o levou ao Teatro Empire em Lime Street para ver uma trupe juvenil de canto e dança chamada Will Murray’s Gang. Terminado o espetáculo, Alf, na base da conversa, entrou nos bastidores e fez uma apresentação improvisada para Will Murray, o diretor da trupe, que imediatamente lhe ofereceu um emprego. Quando seus irmãos Herbert e George, agora in loco parentis, se recusaram a aceitar a idéia, Alf fugiu do Bluecoat Hospital e juntou-se à Gang, que estava a caminho de Glasgow para a apresentação seguinte. Mas um professor do Bluecoat foi atrás dele, levou-o de volta e o submeteu a um ritual de humilhação diante de todos os colegas reunidos.

Um ano depois, o Bluecoat o jogou no mundo, equipado com uma boa formação, assim como dois ternos de calças compridas para confirmar seu ingresso no mundo adulto. Ele passou algumas semanas infelizes como contínuo antes de se dar conta de que uma carreira muito melhor – algo, na verdade, quase comparável a subir no palco – estava debaixo do seu nariz. Pois aquela era a época dourada dos transatlânticos de carreira, quando Liverpool competia com Southampton como o porto de passageiros mais movimentado da Grã-Bretanha. Enormes vapores com várias chaminés diariamente entravam pelo rio Mersey ao encontro de trens de luxo vindos de Londres, repletos de gente abastada, que chegava com casacos de pele e baús de viagem. Em Ranelagh Place, o esplêndido Hotel Adelphi acabara de ser construído para assegurar uma transição indolor entre a terra firme e o navio, com seu pátio de palmeiras com dimensões titânicas, seus quartos parecidos com apartamentos de luxo, suas fundas piscinas com trampolins, suas cabeleireiras e massagistas.

Assim, Alf se fez ao mar como mensageiro no S.S. Montrose. Era, como cedo descobriu, uma vida à qual parecia ter sido destinado. Sua natureza amistosa e jovial o tornou popular entre os passageiros e os oficiais superiores, e o manteve no lado certo da máfia homoss_xual que dirigia os departamentos de comidas e bebidas do navio. “Lennie” – assim era conhecido a bordo – logo foi promovido a garçom de restaurante nos navios de cruzeiro que faziam a rota entre Liverpool e o Mediterrâneo. Nas horas de folga, divertia os colegas com canções e imitações nas apertadas e fétidas cabines comunais ou no bar da tripulação, conhecido em cada navio como “o Porco e o Apito”. Sua especialidade (que seu pai Jack sem dúvida teria apreciado) era enegrecer o rosto com graxa de sapato e “fazer” Al Jolson, o genial menestrel cujas versões piegas de “Mammy” e “Dixie” vendiam milhões de discos na década de 1920 e no início da seguinte.

De certa forma, ele podia considerar que sempre estava sob os refletores, tanto ao servir pratos requintados para os grã-finos com reluzente jaqueta e luvas de garçom, como ao cantarolar “Sonny Boy”, de Al Jolson, apoiado num joelho, com as palmas das mãos juntas, para deleite dos colegas de bordo impregnados de cerveja, ou voltando para casa em Copperfield Street carregado das iguarias contrabandeadas do navio que são a dádiva divina de todo garçom de bordo. Entre viagens, também, num ou noutro bar junto às docas, sempre podia encontrar uma audiência ansiosa para se regalar com histórias sobre os lugares e povos exóticos que ele tinha visto e a picante vida a bordo de um jovem garçom solteiro.

Apesar de todas as suas histórias de aventuras a bordo e animadas folgas em terra, parece que só existiu uma mulher para Alf Lennon. A certa altura de 1928, não muito depois de ter deixado o Bluecoat Hospital, ele passeava por Sefton Park, resplandecente num dos seus dois ternos novos, envergando um imenso chapéu-coco e fumando um barato Wild Woodbine elegantemente preso na ponta de uma piteira. Sentada sozinha num banco ao lado do lago ornamental estava uma garota com cabelos ruivos fofos e a estrutura facial óssea de uma jovem Marlene Dietrich. Quando Alf se aproximou para puxar conversa com ela, foi recebido com rajadas de risos zombeteiros. Percebendo que seu exagerado chapéu-coco era a causa, ele o arrancou da cabeça e o mandou chapinhando para dentro do lago. Assim começou seu longo e conturbado relacionamento com Julia Stanley.

Em Julia – conhecida alternadamente como “Juliet”, “Judy” ou “Ju” – o destino emparelhou Alf com uma personagem que, em seu desejo de glamour e ânsia de divertir, quase se igualava a ele. Também Julia possuía uma voz de cantora acima da média e, ao contrário de Alf, tinha prática como instrumentista. Seu avô, outro escriturário de Liverpool tomado pelo vírus do palco, lhe ensinara a tocar banjo; além disso, ela sabia se safar no acordeão e no uquelele.

O talento musical, a personalidade e a graça encantadora de Julia faziam dela uma óbvia candidata ao palco profissional. Mas a dura caminhada exigida por uma carreira sobre as tábuas não era para ela. Quando deixou a escola aos quinze anos, foi meramente para assumir um emprego tedioso numa gráfica. Rapidamente o largou e se tornou lanterninha no cinema mais luxuoso de Liverpool, o Trocadero, em Camden Street. Tal como o trabalho de Alf no mar, era uma vida de glamour por procuração, circulando entre tapetes espessos e luzes mortiças, vestida num atraente uniforme com jaqueta de botões trespassados e chapéu pequeno quadrado.

Sua bela estampa atraiu muitos admiradores, e até o gerente do Trocadero, um personagem magnífico que usava traje a rigor o dia inteiro, também fizera várias tentativas para cortejar sua lanterninha favorita, deixando meias ou chocolates de presente no armário dela. Para uma sereia dessas, Alf Lennon, com seu chapéu e suas pernas curtas de Chico Marx não parecia uma grande presa.
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Trecho do Livro: Vale Tudo – Tim Maia | Nelson Motta

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O Sonho Americano, 1959, 75 kg.

Fulminado por um câncer na próstata, seu Altivo resistiu poucos meses e morreu em fevereiro de 1959, deixando Tim tristíssimo, mas também se sentindo mais livre para lutar por seu sonho de ir para os Estados Unidos.

O pai era antiamericanista ferrenho, detestava tudo que era americano, vivia dizendo que Tim tinha de conhecer o Brasil primeiro. Dona Maria também não gostava nada da idéia, ele não tinha nem 17 anos. Aconselhava-o a tentar a vida em Brasília, que estava sendo construída e cheia de oportunidades.

Com o rock decadente e sem chances de se integrar ao mundinho Zona Sul da bossa nova, Tim se sentia mais gordo e pobre do que nunca. Lembrou-se de conversas com o produtor Jacy Campos, na TV Tupi, nos tempos do “Clube do Rock”, sobre cursos de televisão nos Estados Unidos, como o que Jacy havia feito graças a uma bolsa de estudos. Voltou ao Cassino da Urca, procurou-o e conseguiu na Embaixada americana alguns folhetos de cursos de televisão. Queria ser diretor, gostava de som e de imagens, de novas tecnologias, de mandar. Claro, seria também o apresentador e artista principal de seu programa musical.

O único problema, além dos textos em inglês, era conseguir uma bolsa de estudos. O inglês foi resolvido por frei Cassiano, da igreja dos Capuchinhos. As condições e exigências, somadas a seu péssimo histórico escolar, reduziam suas esperanças de conseguir uma bolsa a zero. Restava-lhe tentar a vida nos Estados Unidos com a cara, a coragem e um dinheirinho arrecadado com os parentes e com a venda de tudo que tinha, inclusive o violão.

Certamente por intervenção da providência divina, a Arquidiocese do Rio de Janeiro conseguiu da agência de viagens Camilo Khan grandes descontos para levar um grupo de sacerdotes e paroquianos aos Estados Unidos. Assim que foi informado, frei Cassiano chamou Tim, encorajou-o e foi o primeiro a fazer uma doação para a viagem. Era preciso agir rápido, o avião partiria dentro de um mês. Mesmo com grandes descontos, a passagem, só de ida, custava muito dinheiro — e era pouco o tempo para Tim arrancá-lo de onde pudesse. Começou uma campanha em casa e durante duas semanas pediu qualquer dinheiro a qualquer pessoa que, por alguma obscura razão, se dispusesse a doá-lo ao ex-baterista dos Tijucanos do Ritmo.

Milagrosamente, por intermédio de frei Cassiano, que fechou a conta com uma doação extra do próprio bolso, Tim conseguiu pagar a passagem três dias antes da data fatal. No Divino e nas redondezas, o ex-marmiteiro anunciava a partida, se despedia e contava orgulhoso que faria um curso de televisão na New York University e moraria na casa de amigos de sua família, uma brasileira casada com um americano.

Prometia apaixonadamente a Marlene que ficaria famoso nos Estados Unidos, ganharia dinheiro e mandaria buscá-la para que fosse operada com as novas tecnologias americanas e pudesse voltar a andar.

Restava arranjar uma graninha para a chegada e para se agüentar nos primeiros dias. Na família, tinha conseguido três daquelas notas verdinhas de um dólar, que ele via pela primeira vez. Nas vésperas da viagem, encontrou Erasmo no Divino e ficou sabendo que a noite seria de chumbo grosso.

Uma velha casa de cômodos da rua do Matoso ia ser demolida. O último inquilino já havia saído, o pardieiro estava vazio e caindo aos pedaços e, como era muito antigo, todos os encanamentos eram de chumbo — e o chumbo valia 35 cruzeiros o quilo numa lojinha na Leopoldina. Não seria a primeira vez. Os garimpeiros de chumbo dividiam a casa por áreas e cada um ficava com a sua, para não ter briga. Só os canos de uma privada, tubos imensos de chumbo, garantiam uma semana de vida mansa e, para garotos pobres da Tijuca, farta.

Depois daquela noite, toda a turma comprou roupas novas na Ducal e Tim conseguiu mais 9 dólares, trocando os cruzeiros do chumbo a peso de ouro numa joalheria da Haddock Lobo. Achou que era pouco dólar para muito chumbo.

No dia 13 de agosto, uma sexta-feira, com 16 anos, 12 dólares no bolso e uma carta para a Sra. Cardoso, sem falar uma palavra de inglês, Tim embarcou num quadrimotor do Lóide Aéreo para uma longuíssima viagem até Nova York.

Tim evitava pensar na crendice popular que atribuía mau agouro à presença de padres a bordo, talvez por ligá-los à expectativa de uma extrema-unção momentos antes da queda fatal. Afinal, eles seriam inevitáveis em um vôo promovido pela Arquidiocese.

O dia já havia começado mal para ele no aeroporto do Galeão, quando chegara para o embarque. Despachou sua mala no balcão do Lóide, despediu-se da mãe e dos irmãos e seguiu para a fila de embarque apenas com uma pasta de couro marrom, presente do irmão Antonio. Tinha recusado a ridícula maletinha de lona azul e fecho ecler oferecida pela agência de viagem, que dava um ar de excursão escolar ao grupo.

Na sala de embarque encontrou três padres e um bispo, todos com as maletinhas de lona da Camilo Khan. Quando se encaminhava para a escada do avião, talvez por ser o mais jovem do grupo e o único que não carregava uma maleta azul, um dos sacerdotes lhe pediu que levasse a do bispo. E Tim subiu as escadas bufando com a pesadíssima, talvez cheia de Bíblias, maldita maleta azul do bispo.

O vôo foi atribulado, com o avião sacudido por fortes turbulências, pessoas vomitando, carrinhos de comida virando. Tim só se livrou da abominável maleta quando chegou a Nova York e o bispo entrou num táxi amarelo com os padres e se despediu:

“Obrigado, meu filho, que Deus o abençoe.”

Ia mesmo precisar. Ao contrário do que imaginara, sonhara e contara para todo mundo, não havia nenhuma família americana o esperando no aeroporto de Idlewild. De tanto contar e aumentar as suas histórias, acabara acreditando nelas e estava profunda e sinceramente decepcionado por não haver ninguém à sua espera.

Também não havia nenhum curso e nem qualquer amigo ou conhecido americano ou brasileiro, nem mesmo o frio que ele esperava encontrar no hemisfério norte. Estava um calor do cão, como na Tijuca em fevereiro, e um bafo quente o fazia suar em bicas e empapar a camisa e o paletó. Às onze da manhã, Tim pegou um táxi e repetiu algumas vezes o endereço da Sra. Cardoso até que o motorista jamaicano o entendesse. Ou quase.

Duas horas depois ainda rodavam pelas ruas de Terryton, uma área do Brooklyn — a mais de 40 quilômetros de distância da cidadezinha de Tarrytown, no condado de Westchester, onde morava a Sra. Cardoso — para onde o taxista o havia levado por engano, ou sotaque. Desesperado, vendo o taxímetro disparar e seu coração acelerar, sem encontrar o maldito endereço, Tim acabou batendo boca com o motorista, cada um xingando em sua língua. Terminou de mala na mão numa avenida do Brooklyn, louco de fome, de calor e de raiva e com menos 7 dólares no bolso.

Estava em um ponto de ônibus, com uma expressão tão apalermada e carente que atraiu a compaixão de uma senhora que esperava na fila e tentou descobrir de onde vinha e que estranha língua falava aquele jovem. Quando viu seu passaporte, foi até uma cabine telefônica e ligou 411 para informações, escreveu um endereço num papel e colocou Tim num ônibus que cruzaria o East River e o deixaria a duas quadras do Consulado do Brasil, na Quinta Avenida. E ainda lhe deu o dinheiro da passagem e explicou ao motorista onde ele deveria saltar. Tim cruzou a ponte do Brooklyn com o coração aos pulos e desceu na esquina da rua 42 com a Quinta Avenida. Caminhou algumas quadras olhando para cima, deslumbrado com a altura dos edifícios, assustado com a quantidade de carros na rua e de gente na calçada.

Um brasileiro menor de idade, com 5 dólares no bolso e sem ter onde ficar era encrenca na certa. A política do vice-cônsul exigia repatriação imediata, explicou o funcionário simpático a um Tim apavorado, segurando o passaporte com as duas mãos. Ofereceu-lhe um café e um bolinho, Tim se acalmou um pouco e lhe assegurou que estava sendo esperado, que deveriam estar preocupados com sua demora. O funcionário escreveu dois cartões: um com o endereço da senhora Cardoso em Tarrytown, outro, em inglês, dizendo quem ele era, de onde vinha e o apresentando à família. E pediu-lhe para esperar alguns minutos, pois quando saísse para o almoço o colocaria num táxi para a Grand Central Station, onde deveria pegar o trem para Tarrytown.

Com o cartão na mão, conseguiu chegar ao guichê e ao trem e uma hora depois desembarcava em Tarrytown, à beira do rio Hudson e à margem da rodovia 87, para começar a vida em uma terra estranha, sem falar a língua e sem conhecer ninguém. Sua única referência era a tal senhora Cardoso, que nem mesmo Cardoso se chamava, e sim O’Meara, sobrenome de seu marido americano, e era conhecida, sim, mas de uma família que era freguesa das marmitas dos Maia. E não tinha recebido nenhum pedido para receber Tim em sua casa, nem mesmo um aviso de que alguém chegaria do Brasil. O cartão no bolso de Tim apresentava-o como estudante de televisão e pedia abrigo e proteção. Mas, ao conseguir chegar ao endereço, a senhora O’Meara não estava, não havia ninguém em casa.

Um vizinho se aproximou para ajudar e Tim mostrou-lhe os cartões. Foi levado para a YMCA — Associação Cristã de Moços — próxima à casa dos O’Meara, onde pôde tomar uma chuveirada, trocar de roupa, comer e desabar em um sofá. Acordou assustado com um americano enorme, rindo muito e sacudindo-o pelos pés. Mostrou-lhe os cartões e o gringo fez sinal de que era a pessoa certa e de que ia levá-lo para a casa dos O’Meara, a poucas quadras dali. O casal era muito simpático e sorridente, ela se chamava Lilian e falava português com um sotaque carregado por seus trinta anos na América, e o marido William só falava inglês. O gringo que fora buscá-lo se chamava Richie e era irmão de William. Ao lado do casal, estava um garoto mais ou menos de sua idade, só que muito alto e magrelo, também simpático, Douglas.

Ao mostrar seu passaporte aos O’Meara, Tim se assustou quando eles começaram a rir, a bater palmas e a gritar “Oh, no! I can’t believe it!”

Todos riam muito e a mãe explicou que a data de nascimento de Tim era exatamente a mesma, dia, mês e ano, que a de Douglas, o filho único do casal O’Meara, que falava algumas palavras de português. Tim suspirou aliviado e feliz, foi recebido como um irmão, quase um gêmeo.

Jantou com a família em silêncio e, exausto de tantas emoções, dormiu como uma pedra no colchão mais macio em que já se deitara. Acordou com o sol entrando pela janela do quarto mais bonito e confortável em que já dormira, tomou um longo banho, deu good morning à família e sentou-se à mesa para seu primeiro breakfast americano. Depois saiu com brother Douglas para dar uma volta e descobriu que Tarrytown era uma graça de lugar.

O sol brilhava sobre as colinas que cercavam a cidadezinha e refletia nas águas lentas do Hudson. Cruzando a Main Street com Tim, Douglas contava que Tarrytown tinha menos de 4 mil habitantes, espalhados por uns 8 quilômetros quadrados. Muita gente trabalhava na vizinha fábrica de automóveis da General Motors, ali todo mundo se conhecia. Como na Tijuca, pensou Tim, Tarrytown era uma Tijuca rica e silenciosa. Mais adiante, Douglas parou e mostrou orgulhoso o Music Hall, uma imponente construção de mil oitocentos e tal, que, apesar do nome e para decepção de Tim, não apresentava shows de música. Era um cinema de oitocentos lugares, o maior da região, onde os filmes estreavam junto com os cinemas de Nova York.

Tim não entendia quase nada do que Douglas dizia, em português ou inglês, mas se sentia relaxado e feliz. As casas eram tão arrumadinhas e limpinhas, com seus jardinzinhos floridos de verão, que pareciam de brinquedo. Subiram pela Orchard Street, de onde se tinha uma visão deslumbrante do rio batido de sol, da ponte de Tappan Zee com suas seis pistas cheias de carros coloridos e, nas suaves colinas que cercavam a cidade e ao longo do rio, daquilo que Douglas mostrou com um gesto largo e apresentou como “Millionaire’s Colony”.

Eram diversas grandes mansões, algumas tão grandes que pareciam castelos, com jardins que eram quase parques, cercando de luxo e opulência uma cidadezinha de brinquedo. O nome não precisava de tradução, as casas diziam tudo. Uma delas, apontou Douglas, tinha 45 quartos, era do multimilionário John Rockefeller, de quem até Tim já ouvira falar.

Enquanto o tijucano Tim descobria a América, em Detroit, o negro Berry Gordy, operário da linha de montagem da Ford, pedia 800 dólares emprestados à mãe e fundava a Motown Records, que se tornaria a plataforma de lançamento do melhor funk, soul e rhythm-and-blues da década e seria uma legenda na indústria do disco e na cultura negra dos Estados Unidos.

Tim encontrava a América em ebulição e, assim como ele, pronta para grandes transformações. A Motown era apenas a ponta do iceberg negro que sacudiria a cultura americana. Liderado por Martin Luther King, o movimento pelos direitos civis avançava sobre a América segregada.

Os Estados Unidos tinham 180 milhões de habitantes e salário mínimo de um dólar por hora, a guerra fria com a União Soviética esquentava, a possibilidade de um holocausto nuclear se tornava um pesadelo para a América próspera e conservadora.

Nas ruas do Greenwich Village, em Nova York, Tim veria pela primeira vez jovens negros com orgulhosas carapinhas eriçadas e adereços africanos, testemunharia outras demonstrações de orgulho da raça e de rebeldia que jamais imaginou na Tijuca. E sentiria na pele, muito mais do que no Brasil, a chibata da discriminação.

No Brasil, Tim sempre se acreditara e se dissera mulato, mas logo descobriu que ali não havia essas sutilezas, se não era branco, negro era. Mas o pior era quando algum branquelo — ou um negro — o chamava de “spic”, que era tão ofensivo para os hispânicos quanto “nigga” para os negros. Tim se sentia um “spic nigga”.

Se lembrou da Tijuca, da rua do Matoso e do farmacêutico Timbó, inventor da miraculosa pasta Timbolina, que alisava os cabelos duros e crespos e permitia a ele, Erasmo e Roberto capricharem nos topetões indispensáveis ao look do rock-and-roll. Sem a Timbolina, comprou um creme alisante em uma farmácia e mudou radicalmente o look. Gostou do que viu no espelho; por causa dos olhos puxados, achou que ficara parecendo um havaiano negro. Mandou um postal para Erasmo contando as novidades e, por amor à bossa nova, chamou-o de Erasmo Gilberto e assinou Tim Jobim.

No fim de setembro, o tempo começou a esfriar e Tim comemorou festivamente seu décimo sétimo aniversário junto com seu “gêmeo americano”. E quase desmaiou quando recebeu o presente dos O’Meara: uma guitarra elétrica. Seus rocks e sambas encheram o ar de alegria e esquentaram a noite dos O’Meara e dos vizinhos. As tardes silenciosas de Tarrytown nunca mais seriam as mesmas.

Passou seu primeiro inverno tiritando de frio e enrolado em cobertores, mas nunca se esqueceria do seu deslumbramento com a nevasca que cobriu a cidade às vésperas do Natal. O chato foi dividir com Douglas, de pá na mão, a tarefa de tirar meio metro de neve da frente da casa, para que o carro dos O’Meara pudesse sair da garagem. Mas Tim não reclamava de nada, dava graças a Deus e às preces de dona Maria Imaculada por estar ali, com aquelas pessoas que lhe davam casa, comida e a máquina de lavar roupa.

Tim logo entendeu que falar bem a língua era fundamental para a sua sobrevivência. Com a ajuda de seu brother e de seu prodigioso ouvido musical, logo estava reproduzindo o sotaque, as cadências e sonoridades do inglês de rua, embora seu vocabulário ainda fosse pequeno e grande a confusão entre pronomes e tempos verbais. Primeiro aprendeu palavrões e gírias, depois entrou para um “curso de americanização” na Sleepy Hollow High School, e o resto veio rapidamente com a televisão, a música e a rua. Em pouco tempo, falava fluentemente e quase sem sotaque, com as gírias e os erros de concordância dos jovens negros e porto-riquenhos com quem convivia. Adotou o nome de Jimmy, the Brazilian.

Jimmy teve um Merry Christmas e ganhou presentes de todo mundo. Não estava habituado a beber, mas comemorou o New Year com um porre monumental e coletivo com os O’Meara, o seu primeiro em família. E começou a entender por que o pessoal da casa sempre ria tanto. E por que sempre acabavam brigando entre eles. Desde o dia da sua chegada, quando fora acordado pelo tio Richie às gargalhadas, trocando as pernas e com um bafo de álcool, Tim notara que todos ali eram chegados a um goró. O mais engraçado era que eles chamavam goró de spirits.

Os O’Meara eram gente boa e trabalhadora. Pelo menos até o fim da tarde. Depois que começavam a encher a cara de gim e de bourbon, tudo podia acontecer. Riam, choravam, brigavam, faziam as pazes, riam de novo. Eram irlandeses sanguíneos e passionais, sujeitos a chuvas e trovoadas.

Seu primeiro emprego foi como ajudante de caixa num pequeno supermercado de Orchard Street, um tipo de loja que não existia na Tijuca nem no Brasil, onde as pessoas enchiam um carrinho com o que queriam e depois pagavam no caixa. Para ele, acostumado a feiras, quitandas e armazéns, era novidade absoluta. Colocava as compras das madames em sacolas e ganhava gorjetas levando-as até os carros.

Tim passava as tardes no caixa vendo os gringos pegando nas prateleiras o que queriam, à vontade, sem ninguém fiscalizando ou prestando atenção, e se lembrava da marcação cerrada que o portuga do armazém da Tijuca e sua mulher exerciam sobre a molecada de dedos rápidos e olho grande. E mesmo assim não conseguiam evitar que, uma vez ou outra, um chiclete ou um chocolate desaparecessem à passagem de Tim e seus amigos. Era impossível resistir àquelas prateleiras cheias do bom e do melhor dando sopa em Tarrytown.

A cena musical americana fervia em 1960, uma nova onda negra estava se formando nos subterrâneos das grandes cidades. O rock parecia perder força, embora Elvis Presley estivesse mais forte — e romântico — do que nunca, voltando triunfalmente aos Estados Unidos depois de prestar serviço militar na Alemanha. Seu grande sucesso do ano foi “It’s Now or Never”, uma versão em inglês do clássico napolitano “O sole mio”, o rock começava a virar pizza, os jovens queriam novidades. Bob Dylan explodia no Village com um novo folk rebelde e sofisticado.

O estéreo revolucionava o mundo do disco, as paradas de sucesso eram invadidas por negros como Ray Charles (“Georgia on my Mind”) e Sam Cooke (“Chain Gang”), e The Marvelettes e Smokey Robinson and The Miracles estouravam os primeiros hits da Motown.

Depois de três meses, saiu do supermercado para lavar pratos em uma lanchonete. Começava a ganhar um dinheirinho e a ficar de saco cheio dos porres e brigas dos O’Meara. Comemorou festivamente seus 18 anos junto com Douglas, com uma grande bebedeira, e tomou a péssima decisão de abandonar o aconchego, mesmo turbulento, do lar e ir morar com dois amigos em um muquifo sem aquecimento, na parte mais pobre da cidade.

Para enfrentar o inverno, ganhara um velho sobretudo de lã de Douglas, que era bem maior do que ele. Miss Lilian cortou 20 centímetros na altura e fez uma bainha, mas mesmo assim ficou muito folgado no corpo — o que se revelaria de grande utilidade para Tim em tempos mais duros, de fome e desemprego, quando fizesse suas feiras informais no supermercado: o casacão era largo o suficiente para abrigar um frango.

Embora não estivesse desempregado — pelo contrário, passara de lavador de pratos a fritador de hambúrgueres, panquecas e steaks na lanchonete — e muito menos com fome, já que comia bastante a sua própria produção, começou a empreender incursões experimentais no supermercado, nas horas de maior movimento, fazendo pequenos produtos desaparecerem nos bolsos do casacão. Passava pela caixa, cumprimentava a garota, pagava seu bubblegum — que não existia no Brasil, onde só havia goma de mascar — e saía feliz e despreocupado pelas ruas de Tarrytown fazendo bolas cor-de-rosa de chicletes.

Também não tinha nenhuma dificuldade em surrupiar um chocolate ou um bolinho e comê-lo rapidamente no local, abaixado como quem amarra os sapatos. O supermercado era um jardim das delícias para Tim, que durante meses o freqüentou com assiduidade e discrição. Até que um dia foi pego pelo gerente com a mão na massa e a boca na botija. Foi sua primeira visita a uma delegacia americana e lhe custou o emprego na cozinha da lanchonete.

Desempregado, passando frio e queimado no supermercado, foi obrigado a buscar em outras lojas das redondezas a sua sobrevivência. Mantinha contato com os O’Meara e, de vez em quando, filava uma bóia em seu antigo lar, onde bebiam e brigavam como sempre.

Apertados no muquifo gelado, todos desempregados e vivendo de biscates, a convivência era marcada pela disputa do pouco que, às vezes, havia na geladeira. Afinal, Tim conseguiu um emprego de entregador de pizza, exaustivo nos fins de semana, mas capaz de lhe garantir boas gorjetas, almoço e jantar, embora o menu fosse sempre pizza com uma Coca-Cola grande — que enchia dois copos e ainda não existia no Brasil. Pelo menos podia variar entre mussarela, calabresa e peperoni.

Mas logo se cansou das entregas e, principalmente, das pizzas. E foi trabalhar em uma fábrica de câmeras fotográficas, onde plastificava 3 mil caixas por dia. A grana era melhorzinha, mas o trabalho era mecânico e animalesco. Tim achou melhor voltar ao ramo de alimentos, como garçom de um pequeno restaurante. Começou então a procurar algum emprego que lhe garantisse, além da comida, uma casa. Talvez em uma escola, um hospital, um asilo.

Mas acabou encontrando algo melhor: um jovem casal amigo dos O’Meara precisava de alguém para tomar conta de seu filho de 3 anos, duas noites por semana. Tim se tornou baby-sitter e só teve alegrias na nova profissão: adorava crianças e desenhos animados na televisão e tinha uma farta geladeira à sua disposição.

Uma noite o garoto dormiu e Tim levou um susto quando viu na televisão a data de 28 de setembro. Era o dia de seu aniversário. Estava perdendo a noção do tempo, fazendo 19 anos sozinho em uma terra estranha, trabalhando como babá. Teve vontade de chorar e se sentiu profundamente triste e deprimido.

Uma tarde estava saindo do Music Hall depois de ver um filme e se assustou quando alguém tocou no seu ombro e chamou “Sebastião, Sebastião”, um nome que havia anos ele não ouvia. Era alguém que vira sua foto no jornalzinho brasileiro de Nova York, publicada pelo jornalista brasileiro Louis Serrano, que fora procurado por sua irmã Luzia, a pedido da mãe, quando dava uma entrevista no programa de rádio de Luís de Carvalho. Dona Maria estava desesperada, dez meses sem notícias do filho, não sabia se estava vivo ou morto, se tinha enlouquecido como suas duas avós, e o jornalista se dispusera a procurá-lo com uma mensagem aflita de sua mãe. Tim se arrependeu amargamente de seu descaso e escreveu uma longa carta para dona Maria Imaculada, contando suas aventuras americanas e lhe pedindo desculpas e a sua bênção.

No final de 1961, conheceu o ítalo-americano Felix De Masi, também músico e cantor, e começaram a fazer planos de um conjunto vocal. Felix trouxe seu amigo Roger Bruno e Tim chamou Cornelius, um jovem negro que conhecera cantando num bar. Nasciam The Ideals, dois brancos e dois pretos cantando rhythm-and-blues, com vocais à Four Tops.

A temporada de ensaios no muquifo de Tim foi longa e barulhenta, pontuada por brigas no conjunto e reclamações de vizinhos. Mas o som estava ficando bom, as garotas começaram a aparecer, atraídas pelo look italiano e o som negro. Os ensaios foram se transformando em festas e logo Tim foi obrigado a se mudar, e os Ideals passaram a ensaiar na garagem da casa de Felix.

Os gringos, tanto os pretos como os brancos, gostavam de ouvir Tim tocar e cantar sambas e bossas nos ensaios. Com ele o som dos Ideals ganhava um tempero tropical e um ritmo contagiante. Começaram a se apresentar em bares e festas de Tarrytown, ganhando 10, 15 dólares, mas comendo, bebendo e se divertindo. Tim reforçava o orçamento cantando em festinhas de amigos de Douglas, onde ficava fazendo fundo musical enquanto a garotada dançava e fazia o making-out. O pessoal se agarrando no escurinho e Tim cantando “Olê mulé rendeira, olê mulé rendá”.

Logo Tarrytown estava pequena demais para Tim, e ele se mudou para Nova York, onde teria 19 endereços diferentes nos dois anos seguintes.

Morou em hotéis piolhentos e em abrigos para homeless cheios de bêbados e loucos, onde todo mundo roubava todo mundo. Dormiu em hospedarias com e sem travesseiro, em vãos de escada, sótãos, depósitos e até em apartamentos carpetados e com aquecimento. No verão, ainda dava para dormir no parque, mas no inverno, com 10 graus abaixo de zero e o vento cortante do rio, era impossível ficar pela rua. Os vagões do metrô eram aquecidos e Tim podia passar a noite viajando sem destino, só pelo calorzinho, mas só quando tinha os 10 cents do bilhete. Ao contrário dos cobradores dos bondes da Tijuca, as catracas do metrô nova-iorquino eram implacáveis.

Afinal, conseguiu um ótimo emprego: faxineiro em um asilo de velhinhos, onde tinha casa, comida, 40 dólares por semana e muita sujeira e porcaria para limpar. Mas podia se dedicar mais à música, a tocar violão, a ouvir discos nas lojas e a freqüentar bares do Village e do Harlem e os shows do legendário Apollo Theater, na rua 125.

Mas a vida na América não era apenas soul e R&B. O ex-bossa-novista Tim viu a bossa nova de Tom Jobim e João Gilberto ser aclamada nos Estados Unidos, no histórico e caótico concerto no Carnegie Hall. Tim leu as notícias e mentiu para os amigos que tinha assistido ao show do balcão graças a um ingresso milagroso. Estava orgulhoso da música brasileira, que começava a ser gravada por muitos jazzistas importantes como Stan Getz, Gerry Mulligan e Miles Davis.

No verão de 1963, Tim estava muito feliz, contava em cartas para Erasmo. Finalmente arranjara uma namorada: Jeannie, filha de um pastor presbiteriano, uma moreninha animada que era fã dos Ideals. Aos domingos, namorava e comia peru na casa do pastor. Apaixonado, compôs a bossa-soul “New Love”, em parceria com Roger Bruno, e começou a ensaiá-la com o grupo, reforçado pelo baterista Milton Banana. Seria a primeira gravação dos Ideals:

“Yes I loved, more than I was supposed to love…”

Mas o inverno estava chegando, o frio e o vento cortavam, Nova York congelava. Com três amigos, decidiu correr atrás do sol e do calor. Num carro roubado, fazendo pequenos furtos em uma cidade e vendendo em outra, cruzaram o país e passaram por nove estados.

Negro e latino ao mesmo tempo, Tim já sentira na pele o preconceito e a discriminação quando tentava alugar um apartamento em Nova York. Pelo telefone, com seu sotaque perfeito e educado, tudo corria bem. Mas quando se apresentava no local, a pia estava sempre entupida, o cano furado, o apartamento já havia sido alugado. Em estados sulistas, como Geórgia, Alabama, Mississippi, havia banheiros para brancos e coloreds e lugares separados em restaurantes.

A viagem foi marcada por muitas garrafas, cinco prisões, três ligeiras, por brigas, desacatos e bebedeiras, e uma de dez dias, por roubo de gasolina em um posto. E terminou mal, na penitenciária agrícola de Daytona, na Flórida, onde os quatro foram trancafiados depois de presos pela polícia rodoviária e condenados pelo juiz por “felonious possession of illegal substances and car theft”, com a perspectiva de uma longa etapa atrás das grades, ou pior: era a quinta anotação no seu criminal record.

Trancado na cela, cercado de bandidos, Tim se desesperava. Se envolveu em uma briga braba com outro detento, que terminou com ele mordendo ferozmente a orelha do adversário, que lhe apertava o saco com mão de ferro, um não largava do outro e os dois urravam de dor quando finalmente foram separados. Em setembro, quando fez 21 anos, foi transferido para outro pavilhão, com comida razoável e roupa lavada duas vezes por semana. E conheceu pelo rádio a música sensacional do fenômeno Little Stevie Wonder, de 12 anos. Mas ninguém lhe dizia nada, lhe deram um advogado que não fazia nada. Ele se preparava para o pior. E, na Flórida, o pior era a cadeira elétrica, tremia de pensar.

Depois de um inverno infernal, mourejando nas plantações de sol a sol, como um escravo de E o vento levou, um dia o carcereiro gritou “Maia”, e Tim tremeu. Acompanhou-o até a sala do diretor como um prisioneiro que vai para o corredor da morte.

Mas não foi mandado para a cadeira elétrica, apenas deportado para o Brasil.

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Vidas: Profeta Gentileza (José Datrino)

José da Trino – ou Datrino – (1917–1996), começou a pregar a gentileza como uma alternativa de paz e lucidez para a cidade do Rio de Janeiro e para a humanidade. Seu impacto nas camadas populares foi grande, a ponto de ser chamado de “Profeta Gentileza” (ou “José Agradecido”).
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jose datrino gentileza foto gentileza

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Como todo profeta, Gentileza sentiu um chamado divino, dentro de um determinado contexto histórico. Tinha uma pequena empresa de transporte de carga na zona norte do Rio de Janeiro. Vivia como qualquer trabalhador das classes populares até que, no dia 17 de dezembro de 1961, ocorreu um incêndio criminoso no Gran Circus Norte-Americano, no outro lado da Baía de Guanabara, em Niterói, onde cerca de 500 pessoas morreram queimadas, a maioria delas crianças. A tragédia abalou José Datrino. Seis dias após o incêndio irrompeu a vocação profética, entre meio-dia e uma hora da tarde, quando entregava mercadorias com o seu caminhão. Ele mesmo testemunhou que recebeu um chamamento divino, confirmado três vezes, de que deveria deixar tudo e entregar-se ao consolo das vítimas do circo. Às vésperas do Natal, tomou seu caminhão, comprou uma certa quantidade de vinho, foi a Niterói e lá, junto às barcas, o distribuiu em copos de papel para todos que o desejassem, anunciando: “Quem quiser tomar vinho não precisa pagar nada, é só pedir por gentileza, é só dizer agradecido”.
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jose agradecido profeta gentileza profeta gentileza amor 46

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Depois se instalou por quatro anos no local do incêndio. Cercou-o e transformou-o num jardim cheio de flores. Colocou dois portões, um de entrada e outro de saída, com as inscrições: “Bem-vindo ao Paraíso da gentileza. Entre, não fume, não diga palavras obscenas porque esse local se tornou agora um campo santo”. Consolava a todos que ali chegavam desesperados, dizendo: “Seu papai, sua mamãe, sua filha, seu filho, não morreram; morreu o corpo, o espírito não. Deus chamou. Até o pior pecador se salvou porque Deus não é vingativo. Eu fui enviado por Deus e vim consolar vocês”. Os que vinham e escutavam a sua mensagem sentiam-se consolados.
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gentileza mural 18

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José Datrino também peregrinou por outras cidades. Em uma de suas viagens, na cidade de Aquidauana (Mato Grosso do Sul), o Profeta Gentileza foi preso e humilhado, o seu cabelo foi cortado e o seu estandarte foi quebrado. O motivo para tal atitude teria sido o fato de ele estar pregando sem uma bíblia nas mãos o que, para alguns, remetia ao desrespeito contra a fé cristã e até mesmo ao charlatanismo. Os jornais da época relataram este episódio com imensa indignação. Em Campo Grande, um dos jornais locais estampou a manchete:

Que mal fez este homem?

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Em resposta a esta pergunta que a muitos incomodava, Gentileza criou uma frase singular:

Quem é mais inteligente, o livro ou a sabedoria?

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Esta e outras frases do Gentileza, assim como certas circunstâncias pertinentes a sua vida, foram posteriormente abordadas pela cantora Marisa Monte na canção Gentileza, do álbum Memórias, Crônicas e Declarações de Amor. A canção também trata das pinturas (murais) que José Datrino fez em mais de cinquenta pilastras de viaduto. Com o passar dos anos pichadores e vândalos deterioraram os murais, e mais tarde as pinturas foram cobertas com tinta cinza.
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caricatura profeta gentileza glen batoca

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Com a ajuda da Universidade Federal Fluminense, da Prefeitura do Rio de Janeiro e de outras entidades e empresas, os murais foram restaurados e o patrimônio cultural produzido pelo Profeta Gentileza foi preservado. (Veja as imagens das pinturas do Gentileza no blog de David Wilson, site dedicado a José Datrino).
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auto retrato gentileza jose datrino profeta gentileza

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Assim como os profetas bíblicos, o Profeta Gentileza via nos acontecimentos a manifestação de um sentido profundo. O circo lhe sugere o mundo como um circo, como teatro e representação. Sua destruição é uma metáfora da destruição de um tipo de mundo construído na falta de gentileza e gratuidade. Claramente diz: “A derrota de um circo queimado em Niterói é um mundo representado, é isso que aconteceu; e o mundo é redondo e o circo arredondado; por esse motivo, então, o mundo foi acabado”. A alternativa a esse mundo reside na vivência da gentileza e da atitude de agradecimento.

José Datrino faleceu em maio de 1996, aos 79 anos de idade, na cidade de seus familiares (Mirandópolis-SP).
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Fonte: UFPR / profetadegentileza.blogspot.com

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Gentileza | Marisa Monte
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Trecho do Livro: A Cabeça de Steve Jobs | Leander Kahney

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É fato conhecido que no início dos anos 1980 Jobs morou em uma mansão com pouquíssimos móveis porque ele não suportava mobiliário abaixo do padrão. Ele dormia em um colchão, rodeado por algumas fotografias gigantescas. Mais tarde comprou um piano de cauda alemão, embora não tocasse, porque admirava seu design e o esmero de sua construção. Quando o ex-CEO da Apple, John Sculley, visitou Jobs, ficou chocado com a aparência desleixada da casa. Parecia abandonada, principalmente em comparação com os palácios meticulosamente cuidados que a circundavam. “Desculpe por eu não ter muita mobília”, justificou-se Jobs a Sculley. “Ainda não tive tempo para isto.”

Sculley disse que Jobs não estava disposto a aceitar nada que não fosse o melhor. “Lembro-me de ter ido à casa de Steve e ele não tinha móveis, só tinha uma foto de Einstein, que ele admirava muito, e uma luminária da Tiffany, uma cadeira e uma cama”, disse-me Sculley. “Ele simplesmente não acreditava em ter muitas coisas por perto, mas era incrivelmente cuidadoso com o que escolhia.”

Jobs tem muita dificuldade em fazer compras. Não consegue se decidir quanto a um telefone celular. “Acabo não comprando muitas coisas”, disse ele ao responder a uma pergunta sobre os aparelhos e tecnologias que compra, “porque eu as acho ridículas”.

Quando finalmente vai às compras, o processo pode ser trabalhoso. Procurando uma nova máquina de lavar e uma secadora, ele prendeu sua família inteira em um debate durante duas semanas sobre que modelo escolher. A família Jobs não baseou sua decisão em uma rápida olhada nas funções e no preço, como a maioria das famílias faria. Em vez disso, a discussão girou em torno do design americano versus o europeu, a quantidade de água e detergente consumida, a velocidade da lavagem e a longevidade das roupas.

“Gastamos algum tempo na nossa família falando sobre qual concessão desejávamos fazer. Acabamos conversando bastante sobre design, mas também sobre nossos valores. O mais importante para nós seria que nossa roupa fosse lavada em uma hora em vez de uma hora e meia? Ou o mais importante seria que nossas roupas ficassem bem macias e durassem mais? Seria importante usar apenas um quarto da água? Passamos cerca de duas semanas falando sobre isso toda noite à mesa do jantar. Sempre voltávamos para aquela velha discussão sobre a máquina de lavar e a secadora. E a conversa era sobre design.”

No final, Jobs optou por aparelhos alemães, que ele achou que eram “caríssimos” mas que lavavam bem as roupas com pouca água e pouco detergente. “Eles são, com certeza, maravilhosamente bem-feitos e são alguns dos poucos produtos que compramos nos últimos anos com que estamos todos realmente contentes”, disse Jobs. “Esse pessoal realmente pensou muito no processo. Fizeram um grande trabalho o projeto dessas lavadoras e secadoras. Fiquei mais entusiasmado com elas do que com qualquer exemplar de alta tecnologia em muitos anos.”

O grande debate da máquina de lavar parece exagerado, mas Jobs leva os mesmos valores — e o mesmo processo — para a tarefa de desenvolver produtos na Apple. O desenho industrial na empresa não é tratado como o verniz final de um produto que já está com sua engenharia pronta, como ocorre em muitas outras. Um número enorme de companhias trata o design como a pele colada por fora no último minuto. Na verdade, em muitas companhias, o design é totalmente terceirizado. Uma firma separada irá tratar da aparência do produto — assim como uma firma separada provavelmente irá tratar da fabricação.

“É triste e frustrante que estejamos rodeados de produtos que parecem ser provas de uma completa falta de cuidado”, disse Ive, o afável britânico que lidera a pequena equipe de design da Apple. “É isso que é interessante em um objeto. Um objeto diz muitas coisas sobre a empresa que o produziu, sobre seus valores e prioridades.”

A Apple terceiriza a maior parte da sua fabricação, mas não o design de seus produtos. Exatamente ao contrário. Os desenhistas industriais da Apple estão intimamente envolvidos desde a primeira reunião.

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Trecho do Livro: O Outro Lado de Mim | Sidney Sheldon

Livros O Outro Lado de Mim Sidney Sheldon BooksLivro: O Outro Lado de Mim

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O ano era 1934, e a América atravessava uma crise devastadora. Houvera o crash da Bolsa e milhares de bancos faliram. Negócios fechavam por toda parte. Mais de treze milhões de pessoas tinham perdido seus empregos e estavam desesperadas. Salários tinham baixado para cinco cents a hora. Um milhão de andarilhos perambulava pelo país, inclusive duzentas mil crianças. Estávamos sob o domínio de uma depressão desastrosa. Ex-milionários cometiam suicídio e executivos vendiam maçãs nas ruas.

O mundo estava desolado, o que se ajustava perfeitamente ao meu humor. Eu tinha alcançado o fundo do desespero. Achava minha existência sem pé nem cabeça. Sentia-me deslocado e perdido. Estava infeliz e desejava, desesperadamente, algo obscuro, que eu não fazia a menor idéia do que era.

Morávamos perto do lago Michigan, a algumas quadras apenas da margem, e uma noite fui até lá para me acalmar. Era uma noite de vento forte, e o céu estava coberto de nuvens.

Olhei para cima e disse: “Se Deus existe, apareça para mim.”

E fiquei olhando fixamente para o céu, as nuvens se fundiram umas nas outras formando um rosto imenso. Houve um clarão repentino de relâmpagos que conferiu ao rosto olhos fulgurantes. Corri de volta para casa, em pânico.

Eu vivia com minha família em um pequeno apartamento, no terceiro andar, em Rogers Park. O grande showman Mike Todd dizia que estava duro muitas vezes, mas nunca se sentia pobre. Eu me sentia pobre o tempo todo, porque vivíamos um tipo degradante de pobreza: no inverno gelado, tínhamos de manter o aquecedor desligado para economizar dinheiro e aprendíamos a desligar a luz quando não a estávamos usando. Espremíamos as últimas gotas de ketchup e o restinho da pasta de dente. Mas eu estava prestes a escapar disso tudo.

Quando cheguei ao nosso melancólico apartamento, ele estava deserto. Meus pais já haviam partido e meu irmão tinha ido para a casa de um amigo. Não tinha ninguém para impedir o que eu pretendia fazer.

Fui para o pequeno quarto que Richard e eu dividíamos e, com cuidado, retirei o pacote de soníferos que tinha escondido debaixo da cômoda. Em seguida, fui para a cozinha, peguei uma garrafa de bourbon na prateleira em que meu pai a mantinha e a levei para o quarto. Olhei para os comprimidos e o bourbon, e me perguntei quanto tempo levariam para surtir efeito. Verti um pouco de uísque no copo e o levei à boca. Não quis pensar no que estava fazendo. Bebi um gole, e o gosto acre me engasgou. Peguei um punhado de comprimidos e fiz menção de levá-los à boca, quando uma voz falou:

— O que está fazendo?

Virei-me, derramando um pouco do uísque e deixando cair alguns comprimidos.

Meu pai estava na porta do quarto. Aproximou-se.

— Não sabia que você bebia.

Olhei para ele, atônito.

— Achei… pensei que você tinha ido.

— Esqueci uma coisa. Vou perguntar de novo. O que está fazendo? — Tirou o copo de uísque da minha mão.

Minha cabeça estava a mil.

— Nada… nada.

Ele franziu o cenho.

— Você não é assim, Sidney. Qual é o problema? — Ele viu a pilha de comprimidos. — Meu Deus! O que está acontecendo? O que é isso?

Não me ocorreu nenhuma mentira plausível. Respondi, desafiadoramente:

— São soníferos.

— Por quê?

— Vou… me suicidar.

Houve um silêncio. Então, meu pai disse:

— Eu não fazia idéia de que você era tão infeliz.

— Não vai poder me impedir. Se me impede agora, farei amanhã.

Ele ficou ali, me observando.

— A vida é sua. Pode fazer com ela o que quiser — hesitou. — Se não está com pressa demais, por que não saímos para dar uma voltinha?

Eu sabia exatamente o que ele estava pensando. Meu pai era vendedor. Tentaria me dissuadir, mas não tinha a menor chance. Eu sabia o que ia fazer. Respondi:

— Está bem.

— Vista um casaco. Pode se resfriar.

A ironia disso me fez rir.

Cinco minutos depois, meu pai e eu descemos ruas varridas pelo vento e vazias de pedestres por causa da baixa temperatura.

Depois de um longo silêncio, ele disse:

— Fale-me disso, filho. Por que quer se suicidar?

Por onde começar? Como podia explicar como me sentia solitário e sem saída? Eu queria desesperadamente alguma coisa — alguma coisa que eu não sabia nem mesmo denominar. Queria um futuro maravilhoso e não existia nenhum futuro maravilhoso. Tinha grandes sonhos, mas, no fim do dia, era um entregador trabalhando numa drogaria.

Minha fantasia era ir para a universidade, mas não havia dinheiro para isso. Meu sonho tinha sido ser escritor. Escrevera dezenas de contos e os enviara para as revistas Story, Colliers e para o Saturday Evening Post, mas foram recusados. Finalmente, decidira que não podia passar o resto da minha vida nessa miséria sufocante.

Meu pai estava falando comigo.

— …e há tantos lugares bonitos no mundo que você não viu…

Ignorei-o. Se ele partir hoje à noite, prosseguirei com meu plano.

— Você adoraria Roma.

Se ele tentar me impedir agora, farei quando ele partir. Estava ocupado com meus pensamentos, mal escutando o que ele estava dizendo.

— Sidney, você me disse que queria ser escritor mais do que qualquer outra coisa no mundo.

De repente, ele prendeu a minha atenção.

— Isso foi ontem.

— E amanhã?

Olhei para ele, intrigado.

— O quê?

— Não sabe o que pode acontecer amanhã. A vida é como um romance, não é? Está cheia de suspense. Você não faz idéia do que vai acontecer até virar a página.

— Eu sei o que vai acontecer: nada.

— Você não sabe, sabe? Cada dia é uma página diferente, Sidney, e que pode estar cheia de surpresas. Nunca vai saber o que virá a seguir até que a veja.

Pensei a respeito disso. O que ele estava dizendo era verdade. Cada amanhã era como a página seguinte de um romance.

Dobramos a esquina e descemos uma rua deserta.

— Se quer realmente se suicidar, Sidney, eu compreendo. Mas odeio vê-lo fechar o livro tão cedo e perder toda a emoção da página seguinte, a página que você vai escrever.

Não encerre o livro tão cedo… Eu o estava encerrando cedo demais? Alguma coisa maravilhosa poderia acontecer amanhã.

Ou meu pai era um excelente vendedor ou eu não estava completamente determinado a me suicidar, pois, no final da quadra seguinte, tinha decidido adiar meu plano.

Mas pretendia deixar minhas opções abertas.

Entretanto, não estava ansioso para retornar à vida miserável que estivera prestes a abandonar.

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