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Trecho do Livro: Seguros – Como Vender Mais e Melhor | André Santos

livros seguros booksLivro: Seguros – Como Vender Mais e Melhor

O que mudará em venda de seguros nos próximos anos e os novos desafios para o corretor de sucesso.

Atualmente, a empresa moderna e inteligente sabe que ouvir o cliente e solucionar seus anseios e problemas é a única maneira de continuar existindo. Para o profissional de vendas de seguros, isto não é diferente ou menos importante, pois a compreensão das tendências atuais o ajudará em vários aspectos. A começar por seu desenvolvimento profissional – indo desde seu comportamento e atitudes, até os métodos utilizados para continuar vendendo no mundo dos negócios. Por isso, é importante saber que a nova ordem em vendas pode ser definida basicamente pelos seguintes fatores:

Concorrência mais acirrada:

Existem milhares de Corretoras de Seguros prontas para oferecer uma solução a cada necessidade de um cliente potencial. Com a globalização, este universo é cada vez maior. E quando fica mais difícil vender, os concorrentes buscam o aperfeiçoamento e a melhoria contínua de suas estratégias de vendas, para vencer seus “inimigos”. O mercado, hoje, é disputado palmo a palmo. Este contexto tem forte influência no profissional de vendas, pois o obriga a se tornar cada dia melhor que seu concorrente – a uma velocidade bem maior do que em épocas anteriores.

Qual é seu diferencial?

Com esse aumento da concorrência, passa a existir uma nítida tendência de homogeneização de seguros. Uma Seguradora lança determinado serviço, sendo imediatamente seguida pelas concorrentes. Surge uma novidade e a maioria copia. Se os seguros estão ficando cada vez mais semelhantes, o que vai determinar quem irá vender mais?

Se entre as Seguradoras já é difícil encontrar diferenciais, na atividade de corretagem de seguros esse fator – diferenciação – fica ainda mais complicado. A maioria dos Corretores vende aquilo que você vende; com as mesmas condições e teoricamente podendo praticar os mesmos preços – lembrando que eles também dizem que irão atender ao cliente em caso de sinistro –, pois num mercado muito concorrido, utilizam-se os mesmos argumentos.

Quando o cliente recebe duas propostas da mesma Seguradora de dois Corretores diferentes, o produto é o mesmo e o preço também (neste momento, não estou tratando de comissões e/ou acordos comerciais diferenciados). Como convencer o cliente a comprar de você e não do seu concorrente?

Para ter a preferência do cliente, o que você pode fazer, sem demandar altos investimentos? O que você tem em suas mãos, que não necessita de nada para começar a pôr em prática? A resposta é: Atendimento.

O cliente deve perceber este atendimento diferenciado, desde o primeiro contato estabelecido com você ou com sua Corretora. Sem dúvida, o grande diferencial está nos serviços que a empresa vendedora se dispõe a prestar aos seus clientes. Quem presta um melhor atendimento levará a maior fatia do bolo. Percebe-se quem é o verdadeiro profissional de vendas quando ele não tenta vender indiscriminadamente qualquer coisa, para qualquer um. Primeiro, ele identifica as necessidades do cliente, para somente então indicar o que é mais adequado ao mesmo.

Esta nova ordem em vendas “força” as empresas Corretoras de Seguros e os que atuam neste mercado à melhoria contínua de seus processos e atitudes. Por sua vez, esses processos e atitudes começam pela mudança nos hábitos de venda, pois as antigas regras não se adaptam mais a um meio empresarial em constante evolução. Hoje em dia, é fundamental criar relacionamento com os clientes e não apenas vender seguros para eles. Esta é a única maneira de continuar vivo no mercado e ainda ganhar muito dinheiro. Para se ter sucesso, você precisa adotar o papel de solucionador de problemas e deve cultivar um relacionamento duradouro com seus clientes – o que fará com que eles comprem sempre e somente de você. O objetivo de um Corretor de Seguros campeão de vendas deve ser: “Pensou em seguro, pensou em você!”

De corretor de seguros a solucionador de problemas:

Os bons Corretores de Seguros visitam seus clientes de mente aberta, com o intuito declarado de ajudá-los a resolver seus problemas, adotando a seguinte premissa: “Não sou eu quem vendo; é você quem compra!”

Para que isso aconteça, o profissional precisa se transformar em um verdadeiro consultor. Consultor é aquele que oferece conselhos profissionais e sua atuação é percebida através de sua atitude, sua dedicação e seu compromisso com o cliente. Sem perder de vista o objetivo da realização da venda, você deverá demonstrar interesse em se tornar um recurso de apoio para o cliente, para o que será necessário desenvolver consciência dos problemas, interesses, fatos, sentimentos, necessidades, preconceitos e medos que o motivam.

Como atuar como um consultor e conseguir mais clientes, mais vendas e mais resultados:

As habilidades necessárias para o Corretor atuar como um consultor e conseguir mais clientes, mais vendas e mais resultados são:

— Acima de tudo, conhecer bem os produtos e os seus clientes;

— Ser mais um ouvinte ativo do que um falante ativo;

— Não apresentar o seguro até ter compreendido inteiramente as necessidades e objetivos do cliente;

— Sempre promover um diálogo bilateral;

— Focar a apresentação do seguro nos aspectos que tenham alguma relação de importância para o cliente, ou seja, mostrar como os benefícios do seguro são a solução para o cliente;

— Encorajar e receber positivamente as resistências dos clientes e sempre lidar com estas objeções direta e honestamente;

— Entender que você não vende seguro, e sim, solução de problemas e satisfação de necessidades.

As seis principais atitudes para ser notado como um consultor:

As seis principais atitudes para se diferenciar dos outros Corretores e ser notado como um consultor do cliente são:

1 – Seja uma fonte de informações para seus clientes;

2 – Descubra, por meio de levantamento de necessidades, quais benefícios os seguros que você vende podem trazer para o cliente;

3 – Ajude o cliente, antecipando as necessidades, que muitas vezes ele desconhece;

4 – Aumente sua credibilidade, agindo como um especialista;

5 – Esteja sempre acessível;

6 – Lembre-se: seu papel, como Corretor de Seguros, é encontrar maneiras de beneficiar seus clientes potenciais através do uso de seus seguros e serviços.

O velho estereótipo do vendedor chato e agressivo está sendo substituído pela consultoria e valorização do atendimento, transformando você realmente em parceiro no processo decisório do cliente. Confiança e integridade são de extrema importância no mercado de hoje. Seu envolvimento com os clientes reassegura que você está ali para protegê-los, e não apenas para fazer uma única e simples venda de seguro. Mais do que nunca, seu papel de Corretor de Seguros não é o de tirar pedido, mas, sim, o de orientar e descobrir soluções que agreguem valor para seus clientes. A chave para o seu sucesso é oferecer solução, ao invés de seguros.

Seja um campeão de vendas através do seu atendimento:

Sabe-se que o objetivo final de todo Corretor de Seguros de sucesso é o cliente querer comprar dele – e não apenas o que ele vende.

Invariavelmente, o cliente interessado na compra de um seguro, salvo exceções, recorre a um Corretor de Seguros e não diretamente a uma Seguradora. Sendo assim, este cliente está também comprando os serviços do Corretor e não apenas um seguro. É esse profissional que, durante o prazo de vigência da apólice, será o porta-voz do cliente junto às Seguradoras, atuando como um defensor de seus direitos no que diz respeito ao seguro contratado. Isso deve ficar claro para o cliente. Como em toda profissão, existem os bons e os maus profissionais.

Seu dever é mostrar sua competência através do seu atendimento e dos serviços que você presta. Milhares de Corretores vendem o que você vende e a diferença não está no produto ou no preço e sim, em como você vende seguros.

Veremos mais adiante, no decorrer do livro, que é fundamental agregar valor ao que se vende. Principalmente num mercado em que alguns seguros estão cada vez mais semelhantes, o seu valor está parte no produto e parte no Corretor que vende. E mais: atualmente, estamos entrando numa era em que esse equilíbrio de forças mudou. Antes, a maior parte do valor estava no produto: hoje, há mais valor no vendedor; ou seja, no Corretor de Seguros.

Portanto, se o seguro que você vende é semelhante ou quase igual ao da concorrência, caberá a você, vendedor, fazer a diferença – pelo modo como lida com o cliente e constrói relacionamentos –; pois não há outro motivo dele comprar o seu produto em vez do da concorrência, se ambos forem percebidos igualmente e atenderem da mesma maneira.

Como fazer com que seu atendimento se destaque dos demais Corretores e conseqüentemente você venda mais e melhor, é o que veremos nesse livro. Nos capítulos que se seguem, você aprenderá através de técnicas e conceitos bem práticos, como se tornar um verdadeiro Corretor de Seguros campeão de vendas. Para aqueles que já têm mais experiência no ramo, ele servirá para reciclar os conceitos e sedimentar algumas técnicas que, muitas vezes, acabam ficando adormecidas no nosso subconsciente.

Os conhecimentos, habilidades e atitudes necessários para uma excelência no atendimento serão inicialmente abordados em Marketing Pessoal, que é tratado a seguir.

Faça a diferença aplicando o marketing pessoal:

Segundo o especialista Evaldo Costa, o ato de vender é conseqüência de um processo de relacionamento ancorado pela simpatia, cordialidade, sinceridade e prazer; que ocorre segundo a seguinte lógica:

1 – O cliente terá de comprar de você – se no primeiro contato ele não simpatizar com você, pode estar certo que dificilmente ela comprará algo. Você compraria de alguém com quem antipatizou ou se sentiu pouco à vontade? Daí a importância de uma abordagem sedutora.

2 – O cliente terá de comprá-lo, profissionalmente falando – se você não for capaz de vender credibilidade, ele poderá não se sentir seguro, e irá buscar outro profissional, no qual possa confiar. Daí a importância de você conhecer bem os seguros que vende e as técnicas de venda.

3 – O cliente comprará a sua Corretora e a Seguradora que você representa – Nesse quesito, estar bem preparado para falar de sua Corretora e do seu parceiro segurador, pode ser o limite entre o fracasso e o sucesso.

4 – O objetivo final de seu cliente é comprar o seu seguro e/ou seu serviço – Portanto, não tenha pressa de ir logo falando do seguro; estabeleça uma conversa amena e um clima positivo.

O sucesso em vendas será obtido com o conjunto e com a atenção aos detalhes. Através de sua competência no atendimento, prove aos seus clientes que você é realmente o profissional habilitado e qualificado para vender seguros.

Conforme nos define Tom Coelho, “o marketing pessoal significa projetar uma imagem de marca em relação a você mesmo, tomando a si como se fosse um produto ou serviço, elevando o respeito e a credibilidade junto aos clientes e colegas de trabalho”. Para que isso ocorra, em primeiro lugar, é fundamental você prestar atenção à forma como você se apresenta e se porta diante dos clientes. Abaixo, seguem algumas dicas:

Valorize sua marca pessoal:

Sua linguagem corporal, aparência, postura e maneira de falar devem obrigatoriamente expressar confiança e auto-estima. A forma pela qual seu cliente percebe o seguro e seu serviço, está intimamente relacionada à forma como ele percebe você. Por maior e mais importante que seja uma empresa, quem transmite a primeira impressão é aquele que está diretamente em contato com o cliente. É essa pessoa a responsável por passar uma imagem positiva, de otimismo, entusiasmo, alegria e sucesso.

Lembre-se de que o seu entusiasmo contagia, mas o seu desânimo também. Vá até o espelho mais próximo. Qual é a imagem que você está passando? O de uma pessoa bem-sucedida? De alguém que adora o que faz? De alguém que tem orgulho de sua profissão, sua empresa e dos seguros que vende? Você se veste como um campeão, ou como um derrotado? Dependendo da forma como se veste, já estará passando para você mesmo e para os outros, uma definição de quem é. César Frazão, especialista em vendas, no livro “Show em Vendas”, garante que a aparência limpa e bem cuidada é fundamental para quem trabalha em vendas.

Em segundo lugar, pelo que vimos até aqui, deve ter ficado claro que o valor percebido antes da venda tem muito a ver com a imagem que o possível cliente tem a seu respeito. Você é a sua empresa nesse momento. Aprofundando mais esse raciocínio, pode-se deduzir que o valor percebido pelo possível cliente está intimamente relacionado ao orgulho que você tem dos seguros que vende. Você está convencido de que eles realmente são necessários? Você é consumidor dos seguros que vende? O preço é justo?

É imprescindível você acreditar no que vende. É muito difícil vender aquilo que não se compra, pois na primeira objeção que o cliente fizer, você sai convencido que ele tem toda razão em não comprar.

Além disso, seu trabalho como profissional de vendas não é aprender a fazer boas propostas e fechamentos – embora vender muitos seguros seja essencial. Para que seus clientes se tornem mais lucrativos, a tarefa é bem mais exigente: inclui manter o cliente em sua carteira durante o maior tempo possível e, porque não, para sempre. A melhor maneira de alcançar esse resultado é se colocar como um profissional consultivo, especialista em gestão de necessidades. Dessa forma, você transformará seus segurados em fãs.

Acredito que todos nós carregamos um vendedor dentro de nós. Para nos tornarmos Corretores de Seguro profissionais, dependemos de capacitação para tal. Onde e como? Com muito autodidatismo, humildade para aprender com outros grandes Corretores, livros e teorias disponíveis, com a reflexão de sua prática de vendas e muita disciplina.
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Trecho do Livro: A Auto-Estrada | Stephen King

livros auto estrada stephen king booksLivro: A Auto-Estrada

Ele continuava fazendo as coisas sem se permitir pensar sobre elas. Era mais seguro assim. Era como ter um disjuntor na cabeça que era acionado sempre que parte dele tentava perguntar: Mas por que você está fazendo isso? Um pedaço da sua mente ficava escuro. Ei, Georgie, quem apagou as luzes? Ops, fui eu. Deve ser algum problema na fiação. Só um segundo. A chave é religada. As luzes voltam. Mas o pensamento desapareceu. Tudo está bem. Vamos continuar, Freddy — onde estávamos?

Ele estava andando até o ponto de ônibus quando viu a placa que dizia:

LOJA DE ARMAS DO HARVEY

REMINGTON WINCHESTER COLT SMITH & WESSON

CAÇADORES SÃO BEM-VINDOS

Nevava um pouco de um céu cinza. Era a primeira neve do ano e ela caía na calçada como punhados brancos de bicarbonato de sódio, então derretia. Ele viu um menininho com um gorro vermelho de lã passar com a boca aberta e a língua para fora, tentando pegar um floco. Vai só derreter, Freddy, pensou ele, olhando para o garoto, mas o menino continuou do mesmo jeito, com a cabeça jogada para trás, apontando para o céu.

Ele parou em frente à Loja de Armas do Harvey, hesitante. Havia uma máquina de jornais com edições de última hora na entrada, e a manchete dizia:

FRÁGIL CESSAR-FOGO CONTINUA

Abaixo dessas palavras, na máquina, havia uma placa branca suja que informava:

POR FAVOR, PAGUE PELO SEU JORNAL!
ESTA MÁQUINA É ALUGADA
O REVENDEDOR PAGA POR TODOS OS EXEMPLARES

Estava quente lá dentro. A loja era comprida, mas não muito larga. Havia apenas um corredor. Depois da porta, à esquerda, havia um mostruário de vidro cheio de caixas de munição. Ele reconheceu os cartuchos calibre 22 imediatamente, pois tivera um rifle .22 de apenas um tiro quando era criança em Connecticut. Passou três anos querendo aquele rifle e, quando enfim o ganhou, não conseguia pensar em nada para fazer com ele. Atirou em algumas latas, depois em um gaio-azul. A morte do pássaro não foi limpa. Ele ficou caído na neve, cercado por uma mancha de sangue rosa, seu bico abrindo e fechando devagar. Depois disso, ele pendurou o rifle na parede e ele ficou lá por três anos, até ser vendido para um garoto da rua por nove dólares e uma caixa de papelão de livros de piadas.

As outras munições lhe eram menos familiares. Calibre 36, .30-06 e algumas que pareciam balas de canhão em miniatura. Que tipo de animal você matava com aquilo?, ele se perguntou. Tigres? Dinossauros? Ainda assim, elas o fascinavam, paradas lá dentro do mostruário de vidro como docinhos em uma loja de artigos gerais.

O balconista ou dono estava conversando com um gordo de calças verdes e camisa do Exército também verde. Eles falavam sobre uma pistola que estava em cima de outro mostruário de vidro, desmontada. O gordo puxou o ferrolho para trás com o polegar e os dois olharam para a câmara lubrificada. O gordo disse algo e o balconista ou dono riu.

— Automáticas sempre travam? Isso você aprendeu com seu pai, Mac. Admita.

— Harry, você é um cascateiro de marca maior.

Você é um cascateiro, Fred, pensou ele. De marca maior. Sabia disso, Fred? Fred disse que sabia.

À direita, havia um mostruário de vidro que corria por toda a extensão da loja. Estava cheio de rifles pendurados. Conseguiu reconhecer as espingardas de dois canos, mas todo o resto era um mistério para ele. Ainda assim, algumas pessoas — como os dois no balcão do outro lado, por exemplo — dominavam aquele mundo com a mesma facilidade com que ele dominara contabilidade geral na faculdade.

Ele adentrou mais a loja e olhou para o interior de um mostruário cheio de revólveres. Viu algumas pistolas de ar comprimido, algumas .22, uma .38 com cabo de madeira, algumas .45 e uma arma que reconheceu como sendo uma Magnum .44, a arma que Dirty Harry carregava naquele filme. Ele tinha ouvido Ron Stone e Vinnie Mason falando sobre o filme na lavanderia, e Vinnie dissera: Nunca que eles iriam deixar um policial carregar uma arma daquelas na cidade. Dá para abrir um buraco em um homem a mais de um quilômetro e meio de distância com ela.

O gordo, Mac, e o balconista ou dono, Harry (como Dirty Harry), montaram a arma de volta.

— Me dê uma ligada quando aquela Menschler chegar — disse Mac.

— Pode deixar… mas seu preconceito contra automáticas é irracional — disse Harry. (Ele decidiu que Harry devia ser o dono — um balconista jamais chamaria um cliente de irracional.) — Você precisa daquela pistola Cobra para a semana que vem?

— Seria bom — disse Mac.

— Não posso prometer.

— Você nunca pode… mas é o melhor vendedor de armas da cidade, e sabe disso.

— Claro que sei.

Mac deu um tapinha na arma em cima do mostrador de vidro e se virou para ir embora. Esbarrou nele — Preste atenção, Mac. Sorria quando fizer uma coisa dessas — e continuou andando até a porta. O jornal estava enfiado debaixo do braço de Mac, e ele conseguia ler:

FRÁGIL CES

Harry se voltou para ele, ainda sorrindo e balançando a cabeça.

— Posso ajudá-lo?

— Espero que sim. Mas vou logo avisando, não entendo nada de armas.

Harry deu de ombros.

— E tem alguma lei que obrigue você a entender? É presente para alguém? De Natal?

— É, isso mesmo — disse ele, aproveitando a deixa. — Eu tenho um primo… Nick, é o nome dele. Nick Adams. Ele mora em Michigan e se amarra em armas. Sabe como é. Adora caçar, mas é mais que isso. É tipo um, bem, um…

— Um hobby? — perguntou Harry, sorrindo.

— É, isso. — Ele tinha quase dito fetiche. Baixou os olhos para a caixa registradora, onde um adesivo de pára-choque velho estava colado. O adesivo dizia:

SE ARMAS FOSSEM ILEGAIS, SÓ OS FORA-DA-LEI TERIAM ARMAS

Ele sorriu para Harry e disse:

— Isso é bem verdade, sabia?

— Com certeza — disse Harry. — Este seu primo…

— Bem, é meio uma questão de quem tem mais bala na agulha. Nick sabe que eu adoro andar de barco e, juro pra você, ele me deu de presente um motor Evinrude de sessenta cavalos de potência no Natal passado. Mandou pra mim por Correio Expresso. Eu dei a ele um colete de caça. Me senti o cocô do cavalo do bandido.

Harry assentiu com simpatia.

— Bem, eu recebi uma carta dele há umas seis semanas, e ele parecia uma criança que ganhara um passe livre para o circo. Parece que ele e mais uns seis amigos juntaram uma grana e compraram uma viagem para um lugar no México, tipo uma zona de tiro livre…

— Uma reserva onde a caça é liberada?

— É, isso aí. — Ele deu uma risadinha. — Você atira o quanto quiser. Eles criam os animais lá. Veados, antílopes, ursos, bisões. Tem de tudo.

— O lugar se chama Boca Rio?

— Pior que eu não me lembro. Acho que o nome era um pouco maior do que isso.

Os olhos de Harry ficaram um pouco sonhadores.

— Aquele cara que acabou de sair, eu e mais dois fomos para Boca Rio em 1965. Eu matei uma zebra. Mandei colocar a cabeça dela na sala de jogos lá de casa. Foi a coisa mais divertida que fiz na vida, sem comparação. Invejo o seu primo.

— Bem, eu conversei com a minha mulher — disse ele — e ela falou vá em frente. Tivemos um ano muito bom na lavanderia. Trabalho na lavanderia Blue Ribbon, lá em Western.

— Sim, eu sei onde fica.

Ele achou que poderia continuar conversando com Harry o dia inteiro, bordando as verdades e as mentiras em uma bela e reluzente tapeçaria. Deixe o mundo pra lá. Que se danem a falta de gasolina, o preço da carne nas alturas e o frágil cessar-fogo. Vamos conversar sobre primos que nunca existiram, certo, Fred? É isso aí, Georgie.

— Conseguimos a conta do Hospital Central este ano, além do hospício e de três novos motéis.

— O Quality Motor Court na Franklin Avenue é de vocês?

— É, sim.

— Fiquei lá algumas vezes — disse Harry. — Os lençóis estavam sempre limpinhos. Engraçado, você nunca pensa em quem lava os lençóis quando fica em um motel.

— Bem, tivemos um bom ano. E então eu pensei, talvez eu possa dar a Nick um rifle e uma pistola. Sei que ele sempre quis uma Magnum .44, lembro que ele já falou dela…

Harry pegou a Magnum e a deitou com cuidado em cima do mostruário de vidro.

Ele a apanhou. Gostou do peso dela. Parecia coisa de gente grande. Ele a colocou de volta no mostruário de vidro.

— A câmara desta… — começou a falar Harry.

Ele riu e ergueu uma das mãos.

— Nem precisa me vender. Já estou convencido. Um leigo sempre se convence sozinho. Quanta munição eu devo levar com ela?

Harry deu de ombros.

— Que tal dar dez caixas para o seu primo? Se quiser, ele sempre pode comprar mais. O preço desta arma é 289 dólares mais o imposto, mas eu lhe vendo por 280, com a munição incluída. O que você acha?

— Maravilha — disse ele, falando sério. E então, porque parecia necessário algo mais, acrescentou: — É uma bela arma.

— Se ele estiver indo para Boca Rio, vai ser bem aproveitada.

— Agora o rifle…

— O que ele tem?

Ele deu de ombros e espalmou as mãos.

— Sinto muito. Não sei mesmo. Duas ou três espingardas e algo que ele chama de automática…

— Remington? — perguntou-lhe Harry tão depressa que ele teve medo; era como se estivesse andando com água até a cintura e tivesse afundado de repente num buraco.

— Acho que sim. Posso estar errado.

— As Remington são as melhores — disse Harry, meneando a cabeça e voltando a acalmá-lo. — Até quanto você quer gastar?

— Bem, vou ser franco com você. O motor deve ter custado quatrocentos para ele. Eu gostaria de chegar pelo menos a quinhentos. Seiscentos no máximo.

— Você e esse seu primo se dão bem mesmo, hein?

— Crescemos juntos — disse ele, com sinceridade. — Acho que daria meu braço direito para Nick se ele pedisse.

— Bem, deixe-me lhe mostrar uma coisa — falou Harry. Ele pegou uma chave do molho no seu chaveiro e foi até um dos armários de vidro. Abriu-o, subiu em um banco e desceu um rifle longo e pesado com uma coronha entalhada. — Isso talvez vá um pouco além do que você quer gastar, mas é uma bela arma.

Harry a entregou para ele.

— O que é?

— Este é um Weatherbee calibre 460. Atira munição mais pesada do que eu tenho na loja no momento. Eu teria que encomendar quantos cartuchos você quisesse de Chicago. Eles chegariam daqui a mais ou menos uma semana. É uma arma perfeitamente equilibrada. O impacto dessa belezinha é de mais de três toneladas e meia… é como bater em algo com um ônibus de aeroporto. Se você atingir um veado na cabeça com ela, vai ter que levar o rabo como troféu.

— Não sei — disse ele, soando em dúvida, embora já estivesse decidido a levar o rifle. — Sei que Nick quer troféus. Faz parte do…

— É claro que faz — disse Harry, pegando o Weatherbee e abrindo a câmara. O buraco parecia grande o suficiente para caber um pombo-correio dentro. — Ninguém vai para Boca Rio atrás de carne. Então seu primo vai mirar na barriga. Com essa arma, você não precisa se preocupar em seguir o animal por 20 quilômetros de planalto, com o bicho sofrendo o tempo todo e você ainda por cima perdendo a hora da janta. Essa belezinha vai espalhar as tripas dele por um raio de 6 metros.

— Quanto?

— Bem, vou ser sincero. Não consigo repassá-la na cidade. Quem quer uma maldita de uma arma antitanque quando não há mais nada para se caçar além de faisões? E se você colocá-los na mesa, parece que está comendo fumaça de cano de descarga. No varejo, ela sai por 950 dólares, no atacado, 630. Eu vendo pra você por setecentos.

— Isso dá… quase mil pratas.

— Nós damos dez por cento de desconto em compras acima de trezentos dólares. Isso já baixa de volta para novecentos. — Ele deu de ombros. — Dê essa arma para seu primo, eu garanto que ele não tem uma. Se tiver, compro de volta por 750. Pode escrever o que eu digo, pra você ver como eu tenho certeza.

— Sério?

— Sem dúvida. Sem dúvida. Claro que, se for demais para o seu bolso, é demais para o seu bolso. Podemos olhar outras armas. Mas se ele for realmente fissurado, não devo ter mais nada que ele já não tenha em dobro.

— Entendo. — Ele colocou uma expressão pensativa no rosto. — Você tem um telefone?

— Claro, nos fundos. Quer ligar para sua esposa e conversar a respeito?

— Acho que seria melhor.

— Claro. Venha.

Harry o conduziu até um quarto de fundos entulhado. Havia um banco e uma mesa de madeira riscada cheia de peças de armas, molas, produtos de limpeza, panfletos e frascos rotulados com balas de chumbo dentro.

— Lá está o telefone — disse Harry.

Ele se sentou, pegou o telefone e discou enquanto Harry voltava para pegar a Magnum e colocá-la na caixa.

— Obrigado por ligar para o número da previsão do tempo da WDST — disse a voz alegre, gravada. — A previsão desta tarde é de pancadas de neve que tendem a diminuir até uma neve fraca à noite…

— Alô, Mary? — disse ele. — Olhe, estou aqui na Loja de Armas do Harvey. Isso, é sobre aquele negócio do Nicky. Comprei aquela pistola de que a gente falou, sem problemas. Tinha uma bem no mostruário. Então o cara me mostrou um rifle…

— …clareando amanhã à tarde. Hoje à noite, mínima de um grau negativo a 4 graus e, amanhã, máxima de 7 a 9 graus. Probabilidade de chuva à noite…

— …então, o que você acha que eu devo fazer? — Harry estava parado no batente da porta, atrás dele; ele conseguia ver sua sombra.

— É — falou ele. — Eu sei disso.

— Obrigado por ligar para o número da previsão do tempo da WDST, e não deixe de ouvir as Notícias das Seis com Bob Reynolds, de segunda a sexta, às seis da tarde, para mais informações sobre o tempo. Até logo.

— Você não está brincando, eu sei que é muito dinheiro.

— Obrigado por ligar para o número da previsão do tempo da WDST. A previsão desta tarde é de pancadas de neve que tendem a diminuir…

— Tem certeza, querida?

— Probabilidade de chuva hoje à noite: oitenta por cento. Amanhã…

— Bem, está certo. — Ele se virou no banco, sorriu para Harry e fez um círculo com o polegar e o indicador direitos. — Ele é gente boa. Me garantiu que Nick não teria um daqueles.

— …amanhã à tarde. Hoje à noite, mínima…

— Eu também te amo, Mare. Tchau. — Ele desligou. Nossa, Freddy, você mandou bem. Eu sei, George. Eu sei.

Ele se levantou.

— Por ela tudo bem se eu disser ok. Então, ok.

Harry sorriu.

— O que você vai fazer se ele lhe der um Thunderbird?

Ele retribuiu o sorriso.

— Eu devolvo sem abrir.

Enquanto eles andavam de volta, Harry perguntou:

— Cheque ou cartão?

— American Express, se você aceitar.

— Pra mim é dinheiro.

Ele pegou seu cartão. No verso, escrito na tira especial, lia-se:

BARTON GEORGE DAWES

— Tem certeza que a munição chega a tempo para eu mandar tudo para o Fred?

Harry ergueu os olhos do formulário de compra.

— Fred?

O sorriso dele se alargou.

— Nick é Fred e Fred é Nick — disse ele. — Nicholas Frederic Adams. É uma brincadeira com o nome. De quando éramos garotos.

— Ah. — Ele sorriu com educação, como fazem as pessoas quando estão por fora da piada. — Pode assinar aqui?

Ele assinou.

Harry pegou outro livro debaixo do balcão, um livro pesado com uma corrente de aço enfiada na extremidade superior esquerda, perto da lombada.

— E o seu nome e endereço aqui, para o governo.

Ele sentiu seus dedos se apertarem em volta da caneta.

— Claro — disse ele. — Olhe só para mim, nunca comprei uma arma na vida e já sou um maníaco. — Ele escreveu seu nome e endereço no livro:

Barton George Dawes 1.241 Crestallen Street West

— Eles se metem em tudo — falou.

— Isso não é nada perto do que gostariam de fazer — disse Harry.

— Eu sei. Sabe o que eu ouvi no noticiário um dia desses? Eles querem aprovar uma lei que obriga os motociclistas a usar um protetor bucal. Um protetor bucal, onde já se viu? E por acaso é da conta do governo se um homem quiser correr o risco de arrebentar seu tratamento de canal?

— No meu modo de ver, não mesmo — disse Harry, colocando seu livro debaixo do balcão.

— Ou então essa extensão da auto-estrada que estão construindo lá em Western. Algum topógrafo metido a besta diz “Ela vai passar por aqui”, e o estado manda um monte de cartas dizendo “Sentimos muito, mas a extensão 784 vai passar por aqui. Você tem um ano para encontrar uma casa nova”.

— É uma vergonha.

— E é mesmo. O que quer dizer “domínio eminente” para alguém que viveu vinte anos na mesma droga de casa? Criou os filhos nela e voltou para ela das viagens que fez? Isso é só um termo jurídico qualquer que eles inventaram para sacanear melhor a gente.

Cuidado. Cuidado. Mas o disjuntor não foi rápido o suficiente e acabou escapando um pouco.

— Você está bem? — perguntou Harry.

— Estou. Não devia ter comido aquele sanduíche de baguete no almoço. Fico cheio de gases.

— Tome um desses — disse Harry, tirando um frasco de comprimidos do bolso da camisa. O rótulo dizia:

ANTIÁCIDOS ROLAIDS

— Obrigado — disse ele, pegando um e jogando-o para dentro da boca, ignorando o pedacinho de algodão no comprimido. Olhe para mim, estou em um comercial de tevê. Um comprimido absorve 47 vezes seu próprio peso de excesso de ácido gástrico.

— Para mim, eles sempre adiantam — disse Harry.

— Sobre a munição…

— Sim. Uma semana. No máximo duas. Vou encomendar setenta cartuchos para você.

— Bem, por que você não deixa essas armas guardadas aqui? Coloque uma etiqueta com meu nome nelas, ou algo assim. Acho que é bobagem, mas não quero que elas fiquem na minha casa. Bobagem minha, não é?

— Cada um na sua — disse Harry, sem mudar de tom.

— Ok. Vou lhe dar meu telefone do trabalho. Quando as balas chegarem…

— Cartuchos — interrompeu Harry. — Cartuchos ou projéteis.

— Cartuchos — disse ele, sorrindo. — Quando eles chegarem, me dê uma ligada. Daí eu pego as armas e tomo as providências para enviá-las. Eu posso mandar armas por Correio Expresso, não posso?

— Claro. Seu primo só vai ter que assinar para recebê-las.

Ele escreveu seu nome em um dos cartões de Harry. O cartão dizia:

Harold Swinnerton
849-6330
LOJA DE ARMAS DO HARVEY

— Ei — disse ele. — Se você é o Harold, quem é Harvey?

— Harvey era meu irmão. Ele morreu há oito anos.

— Sinto muito.

— Todos nós sentimos. Ele veio para cá um dia, abriu a loja, esvaziou a caixa registradora e então teve um infarto e morreu. Um dos homens mais gentis que você poderia conhecer. Conseguia derrubar um cervo a 200 metros de distância.

Ele estendeu o braço por cima do balcão e eles trocaram um aperto de mãos.

— Eu ligo — prometeu Harry.

— Cuide-se bem.

Ele saiu para a neve novamente, passando pelo FRÁGIL CESSAR-FOGO CONTINUA. Nevava um pouco mais forte e ele tinha deixado as luvas em casa.

O que você estava fazendo lá dentro, George?

Claque, fez o disjuntor.

Quando chegou ao ponto de ônibus, aquilo poderia ter sido um incidente sobre o qual ele lera em algum lugar. Nada mais que isso.

Crestallen Street West era uma rua longa que descia em curva e costumava oferecer uma bela vista do parque e uma vista maravilhosa do rio até o progresso intervir na forma de um programa de construção de arranha-céus. Eles tinham sido erguidos na Westfield Avenue dois anos antes e bloquearam boa parte da vista.

O número 1.241 era uma casa de vários níveis com uma garagem lateral para um carro. Tinha um longo jardim da frente que no momento estava seco e esperando que a neve — neve de verdade — o cobrisse. A entrada para carros era de asfalto, recém-aplicado na primavera anterior.

Ele entrou e ouviu a tevê ligada, o novo modelo de gabinete da Zenith que eles tinham comprado no verão. Havia uma antena motorizada no telhado que ele mesmo tinha instalado. Mary não quis que ele fizesse aquilo, por conta do que supostamente estava para acontecer, mas ele insistiu. Se ela podia ser montada, argumentara ele, também podia ser desmontada quando eles se mudassem. Bart, não seja bobo. Vai ser só uma despesa a mais… trabalho a mais para você. Mas ele a venceu pelo cansaço e ela finalmente disse que sim, só para “agradá-lo”. Era isso que ela falava nas raras ocasiões em que ele fazia questão o suficiente de algo para forçá-lo contra o melaço pegajoso das suas argumentações. Dessa vez, vou “agradar” a você.

Naquele momento, ela assistia a Merv Griffin conversando com uma celebridade. A celebridade era Lorne Greene, que falava sobre sua nova série policial, Griff. Lorne dizia a Merv como estava adorando fazer o programa. Logo uma cantora negra da qual ninguém nunca tinha ouvido falar apareceria para cantar uma música. I Left My Heart in San Francisco, talvez.

— Olá, Mary — gritou ele.

— Olá, Bart.

Correspondência na mesa. Ele a folheou. Uma carta para Mary da sua irmã ligeiramente psicopata de Baltimore. Uma fatura de cartão de crédito — 38 dólares. Um extrato bancário: 49 débitos, 9 créditos, saldo 954,47 dólares. Que bom que ele havia usado o American Express na loja de armas.

— O café está quente — gritou Mary. — Ou você quer um drinque?

— Um drinque — disse ele. — Deixe que eu pego.

Três outras correspondências: um aviso de atraso da biblioteca. Facing the Lions, de Tom Wicker. Wicker tinha dado uma palestra em um almoço no Rotary Club um mês antes. Havia anos eles não viam um palestrante tão bom.

Uma mensagem pessoal de Stephan Ordner, um dos manda-chuvas administrativos da Amroco, a corporação que passara a ser dona da Blue Ribbon quase inteira. Ordner queria que ele fosse até lá conversar sobre o negócio de Waterford — sexta estava bom, ou ele estava planejando viajar no feriado de Ação de Graças? Se estiver, me ligue. Se não, traga Mary. Carla sempre gosta de encontrá-la e blablablá, conversa fiada etc. et al. E outra carta do Departamento de Estradas.

Ele ficou um bom tempo parado olhando para ela sob a luz cinza da tarde que atravessava as janelas e então colocou toda a correspondência no aparador. Preparou um uísque com gelo e foi com ele até a sala de estar.

Merv ainda estava conversando com Lorne. A cor da nova tevê Zenith era mais do que boa; era quase sobrenatural. Ele pensou: se nossos mísseis balísticos intercontinentais forem tão bons quanto nossas televisões em cores, um dia teremos um big bang dos infernos. O cabelo de Lorne era prateado, o tom mais impossível de prateado que se pode imaginar. Ah, se eu arranco essa sua peruca, pensou ele e deu uma risadinha. Não sabia dizer por que a imagem de Lorne Greene careca era tão engraçada. Um pequeno ataque histérico tardio por conta do episódio na loja de armas, talvez.

Mary ergueu os olhos com um sorriso nos lábios.

— Qual é a graça?

— Nada — disse ele. — Coisa da minha cabeça.

Ele se sentou ao lado dela e apertou sua bochecha. Ela era uma mulher alta, de 38 anos, e naquela crise de aparência em que a beleza juvenil está decidindo o que vai ser na meia-idade. Ela comia bastante, mas seu metabolismo acelerado a mantinha magra. Não estaria apta a tremer diante da idéia de vestir um traje de banho em uma praia dali a dez anos, independente do destino que os deuses resolvessem dar ao resto do seu caso. Isso o fazia ter consciência da sua barriga de cerveja. Ora, Freddy, todo executivo tem barriga de cerveja. É um símbolo de sucesso, como um Delta 88. Isso mesmo, George. Tome cuidado com o velho coração e com os tubinhos de câncer e você chega aos 80.

— Como foi seu dia? — perguntou ela.

— Bom.

— Você foi ver o lugar novo em Waterford?

— Hoje não.

Ele não ia a Waterford desde o final de outubro. Ordner sabia — um passarinho devia ter lhe contado —, e daí a mensagem. O lugar novo era uma fábrica de tecidos vazia e o corretor irlandês espertinho encarregado da negociação não parava de ligar para ele. Temos que fechar este contrato, vivia lhe dizendo. Vocês não são os únicos em Westside de olho na propriedade. Estou indo o mais rápido que posso, disse ele ao irlandês espertinho. Você precisa ter paciência.

— E quanto àquele lugar em Crescent? — perguntou-lhe Mary. — A casa de alvenaria?

— Está cara demais pra gente — disse ele. — Estão pedindo 48 mil.

— Por aquele lugar? — perguntou ela, indignada. — Que assalto!

— Com certeza. — Ele bebeu um gole generoso do seu drinque. — O que a velha Bea de Baltimore tem para contar?

— O de sempre. Agora está fazendo hidroterapia de conscientização em grupo. É ou não é uma piada? Bart…

— Com certeza — ele se apressou a dizer.

— Bart, temos que correr. Vinte de janeiro já está chegando e vamos acabar na rua.

— Estou indo o mais rápido que posso — disse ele. — Precisamos ter paciência.

— Aquela casinha colonial na Union Street…

— …está vendida — completou ele, terminando seu drinque.

— Bem, é disso que eu estou falando — disse ela, irritada. — Ela teria servido perfeitamente para nós dois. Com o dinheiro que a Prefeitura está nos dando por esta casa e pelo terreno, poderíamos ter saído na frente.

— Eu não gostei dela.

— Você não parece estar gostando de muita coisa ultimamente — disse Mary, com uma amargura surpreendente. — Ele não gostou — falou ela para a tevê. A cantora negra estava na tela, cantando Alfie.

— Mary, estou fazendo todo o possível.

Ela se virou para encará-lo, séria.

— Bart, eu sei como você se sente a respeito desta casa…

— Não, não sabe — disse ele. — Nem um pouco.
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Trecho do Livro: Os Segredos da Capela Sistina | Benjamin Blech e Roy Doliner

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O que é a Capela Sistina?

No dia 18 de fevereiro de 1564, o Renascimento morreu em Roma.

Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, conhecido por todos simplesmente como “Michelangelo”, faleceu aos 89 anos em sua casa modesta, onde é hoje a Piazza Venezia. Seu corpo foi preparado para o sepultamento na vizinha Basílica dos Santos Apóstolos. Atualmente, esta igreja, cujo nome italiano é Santissimi Apostoli, é uma amálgama de várias épocas e estilos: seu andar superior data do século XIX, o do meio é do Barroco seiscentista e o andar térreo é em estilo puramente renascentista da segunda metade do século XV. Porém, o mais interessante a respeito do local proposto para o sepultamento de Michelangelo é que a parte original da igreja – a única que existia em 1564 – foi desenhada por ninguém menos que Baccio Pontelli, o mesmo homem que planejou a estrutura da Capela Sistina. O local onde Michelangelo deveria ser enterrado é importante também por outras razões.

Abaixo do andar térreo da igreja há uma cripta que abriga os túmulos de São Tiago e São Filipe, dois dos apóstolos, ou seja, da época de Jesus. Se pudéssemos escavar mais profundamente, encontraríamos logo abaixo da cripta vestígios da antiga Roma imperial, e abaixo desta, da Roma republicana, e talvez finalmente algum resquício da Roma da Idade do Bronze.

Isto faz com que a igreja seja uma metáfora de toda a Cidade Eterna: um lugar com camadas e camadas de história, de inúmeras culturas acumuladas, de confrontos entre o sagrado e o profano, entre o santo e o pagão, e de uma multiplicidade de segredos ocultos.

Entender Roma é perceber que é uma cidade repleta de segredos, com mais de três milênios de mistérios. E não há nenhuma parte de Roma que encerra mais segredos do que o Vaticano.

O próprio nome “Vaticano” tem uma origem surpreendente. Não vem do latim ou do grego, nem tem origem bíblica. Na verdade, a palavra que associamos à Igreja tem origem pagã. Há mais de 28 séculos, antes mesmo da lendária fundação de Roma por Rômulo e Remo, havia um povo chamado de etrusco. Muito do que pensamos ser da cultura e civilização romanas na verdade vem dos etruscos, e apesar de ainda estarmos tentando compreender sua língua complexa, já descobrimos muito a respeito deles. Sabemos que, assim como os hebreus e os romanos, os etruscos não enterravam seus mortos dentro dos muros de suas cidades. Por este motivo, eles construíram um cemitério enorme em uma encosta de uma colina fora dos limites de sua antiga cidade, no local que posteriormente se tornaria a cidade de Roma. O nome da deusa etrusca pagã que protegia sua necrópole, ou cidade dos mortos, era Vatika.

Vatika tem vários outros significados correlatos em etrusco antigo. Era o nome de uma uva de gosto amargo que crescia naturalmente na encosta, usada pelos camponeses na fabricação do vinho que adquiriu a má fama de ser um dos piores e mais ordinários do mundo antigo. O nome deste vinho, que também se referia à colina onde era produzido, era Vatika. Era ainda o nome de uma erva estranha que crescia naturalmente na encosta do cemitério. Quando ingerida, provocava alucinações e delírios semelhantes aos efeitos do cogumelo peiote. Por isso, vatika representava o que hoje chamaríamos de “um barato louco”, e deste modo, a palavra se incorporou ao latim como sinônimo de “visão profética”.

Bem mais tarde, no local foi construído o circus (o circo particular ou estádio) de Nero, o imperador louco. Foi neste circo, segundo a tradição da igreja, que São Pedro foi executado, crucificado de cabeça para baixo e enterrado em uma área próxima. Este local se tornou o lugar de visitação de um número tão grande de peregrinos, que o imperador Constantino, ao converter-se parcialmente ao cristianismo, fundou ali um santuário, que os romanos continuaram a chamar de colina Vaticana. Um século depois de Constantino, os papas começaram a erguer neste lugar o palácio papal.

O que significa “Vaticano” nos dias de hoje? Por causa de sua história, este nome tem conotações variadas. Pode se referir à Basílica de São Pedro; ao Palácio Apostólico dos papas, com mais de 14 mil aposentos; ao complexo dos Museus Vaticanos com mais de 2 mil salas; à hierarquia sociopolítico-religiosa, considerada a liderança espiritual de cerca de um quinto da raça humana; ou ao menor país do mundo, a Città del Vaticano (Cidade do Vaticano). É de fato estranho se pensarmos que o menor país do planeta, com uma área aproximada de um oitavo do Central Park de Nova York, abriga a maior e mais valiosa igreja do mundo, o maior e mais suntuoso palácio do planeta e um dos maiores museus da Terra.

SUBSTITUINDO O TEMPLO

O local mais fascinante de todos, porém, é provavelmente um situado dentro dos muros da antiga fortaleza da Cidade do Vaticano, cujo significado simbólico quase todos os visitantes ignoram. Sua importância teológica pode ser mais bem compreendida se percebermos que esta realização católica era algo expressamente proibido aos judeus. No Talmude, a coletânea antiga de comentários sagrados dos grandes sábios judeus que se estendem por mais de cinco séculos, a lei claramente proíbe qualquer pessoa de construir uma réplica em tamanho real do Templo Sagrado de Jerusalém em outro local que não seja o próprio monte do Templo (Tratado Megilá, 10a). Esta lei foi decretada para impedir sangrentos cismas religiosos, como os que aconteceram mais tarde no Cristianismo (entre o catolicismo romano, a ortodoxia oriental e grega e o protestantismo, e seus séculos de guerras mutuamente destrutivas) e no Islã (entre sunitas e xiitas, que tristemente continuam se matando uns aos outros em vários pontos do planeta).

Há seis séculos, porém, um arquiteto católico que não estava sob o jugo das leis talmúdicas fez exatamente o que era proibido. Ele desenhou e construiu uma incrível cópia em tamanho real do compartimento mais recôndito do templo, o Santo dos Santos, do Templo Sagrado do rei Salomão em Jerusalém – exatamente no meio da Roma renascentista. Para chegar às medidas e proporções exatas, o arquiteto estudou os escritos do profeta Samuel da Bíblia Hebraica, nos quais ele descreve o primeiro Templo Sagrado, cúbito por cúbito (1 Reis 6:2). Esta reprodução maciça do heichal, a parte posterior do primeiro Templo, ainda existe hoje. É chamada de la Cappella Sistina – a Capela Sistina. É este o destino de mais de quatro milhões de visitantes por ano, que vêm para ver os incríveis afrescos de Michelangelo e reverenciar um local sagrado do cristianismo.

Antes da criação desta réplica do templo judeu, existiu durante a Idade Média uma outra capela exatamente no mesmo local. Era chamada de la Cappella Palatina (Capela Palatina), ou Capela Palaciana. Como todos os governantes europeus tinham suas próprias capelas reais para rezar em particular com seu séquito real, julgou-se necessário que o papa também tivesse uma em seu próprio palácio. O objetivo era mostrar o poder da Igreja, que tinha de ser visto como maior que o de qualquer soberano secular. Não é nenhuma coincidência o fato de que a palavra palatina derive da colina Palatina, lar dos seres humanos mais poderosos da história ocidental naquela época – os imperadores pagãos da antiga Roma. Segundo a tradição romana, foi na colina Palatina que Rômulo fundou a cidade em 21 de abril de 753 a.C. Desde então, todos os governantes de Roma moraram na colina Palatina, construindo palácios espetaculares, um após o outro. A Igreja estava determinada a provar que era o novo poder reinante na Europa e esperava espalhar a cristandade, ou seja, o império do cristianismo, por todo o globo. Esta capela foi projetada para ser um indício da glória e do triunfo futuros, e por isso o papa desejava que sua opulência ofuscasse todas as outras capelas reais da Terra.

Além da magnífica Palatina, existia também a Niccolina, uma pequena capela particular estabelecida pelo papa Nicolau V em 1450 e decorada pelo grande pintor renascentista Fra Angelico. Esta é uma pequena sala em uma das partes mais antigas do Palácio Papal, com a capacidade de abrigar o papa e alguns de seus assessores pessoais. Por esta razão, a Palatina também era chamada de Cappella Maggiore, ou Capela Maior, porque podia abrigar toda a corte papal e seus convidados mais importantes.

A história da Capela Sistina, entretanto, teve início com um pontífice que desejou que a capela fosse ainda maior e mais suntuosa que a Cappella Palatina.

O GRANDE PLANO DO PAPA SISTO IV

O nome de batismo de Sisto era Francesco della Rovere. Nasceu em uma família humilde do noroeste da Itália, em uma cidade próxima a Gênova. O sacerdócio foi o seu caminho natural, pois quando jovem tinha inclinação intelectual, mas nenhum dinheiro. Ele se tornou um monge franciscano e aos poucos galgou os degraus da escada administrativa e educacional da Igreja, e por fim chegou a ser cardeal, em Roma no ano de 1467. Foi eleito sem muito alarde por um conclave de apenas 18 cardeais e adotou o nome de Sisto IV, o primeiro papa com este nome em mais de mil anos. Seus primeiros atos nada tiveram a ver com as várias crises que o Vaticano enfrentava: ele se ocupou inicialmente em suprir sua família com títulos, propriedades e privilégios. Ele dotou vários de seus sobrinhos de uma riqueza obscena, ordenando-os como cardeais (um deles tinha apenas 16 anos) ou casando-os com representantes de famílias nobres e ricas. Porém, isto estava longe de ser incomum. Durante a Idade Média, o Renascimento e até o final do século XVIII, os papas corruptos costumavam escolher seus sobrinhos mais decadentes para fazer todo o trabalho sujo necessário para elevar o status material de todas as suas famílias de “abastado” para “astronomicamente rico”. Em italiano medieval, a palavra para “sobrinho” é nepote, e o sistema de poder e corrupção absolutos tornou-se conhecido como nepotismo. O sobrinho mais famoso de Sisto foi Giuliano, que mais tarde se tornou o papa Júlio II, o homem que forçou Michelangelo a pintar o teto da Capela Sistina.

Quando o papa Sisto IV iniciou seu reinado em 1471, a Capela Palatina corria o risco de desmoronar. Era uma construção pesada, assentada em um local perigoso, o solo mole do antigo cemitério etrusco da encosta da colina Vaticana. Esta situação simbolizava perfeitamente a crise da própria igreja quando Sisto assumiu o poder: estava repleta de complôs, escândalos e cismas. Governantes estrangeiros, como Luís XI da França, guerreavam contra o Vaticano pelo direito de escolher e nomear cardeais e bispos. Territórios inteiros da Itália rejeitavam a jurisdição papal. O pior de tudo, porém, era a ameaça dos turcos otomanos, que estavam a caminho. Apenas 18 anos antes, Constantinopla caíra nas mãos dos muçulmanos, marcando a morte do Império Cristão Bizantino. As ondas de choque reverberaram por toda a Europa cristã. Em 1480, os otomanos invadiram a península Itálica e capturaram a cidade de Otranto na costa sudeste. Mataram o arcebispo e muitos padres na catedral, forçaram a conversão dos habitantes da cidade, decapitaram 800 que se recusaram a se converter e serraram o bispo ao meio. Depois disso, atacaram várias outras cidades da costa. Muitos temiam que Roma pudesse sofrer o mesmo destino de Constantinopla.

Apesar de todas estas ameaças à existência do cristianismo, Sisto gastou grandes quantidades do ouro do Vaticano na revitalização dos esplendores de Roma, reconstruindo igrejas, pontes, ruas, fundando a Biblioteca Vaticana e começando uma coleção de arte que se tornaria o Museu Capitolino, hoje o mais antigo do mundo em funcionamento. Seu projeto mais famoso, porém, foi a reconstrução da Capela Palatina.

Há muito sobre a história da Capela Sistina que parece obra do destino. Segundo as fontes mais confiáveis, o trabalho de renovação da capela teve início em 1475. Neste mesmo ano, na cidade toscana de Caprese, nasceu Michelangelo Buonarroti. Seus destinos se uniriam ainda mais fortemente nos anos a seguir.

A NOVA CAPELA

O papa Sisto decidiu não apenas reconstruir a capela papal decadente, mas aumentá-la e torná-la mais suntuosa. Ele contratou um jovem arquiteto florentino de nome Bartolomeo (“Baccio”) Pontelli. A especialidade de Pontelli era a construção e o reforço de fortalezas, como as das cidades de Ostia e Senigallia, ainda em boas condições. Isto era especialmente importante para Sisto, pois o pontífice tinha medo tanto dos muçulmanos turcos quanto das turbas católicas de Roma. Foi desenhado o projeto de uma capela enorme, maior que a maioria das igrejas, com um bastião de fortaleza no topo para a defesa do Vaticano.

Talvez nunca saibamos ao certo de quem foi a idéia de construir a Capela Sistina como uma cópia do Templo Sagrado dos judeus. Sisto, instruído nas Escrituras, conhecia as dimensões exatas, encontradas nos escritos sobre o profeta Samuel no segundo Livro dos Reis. Com isto em mente, ele talvez tenha se sentido ansioso para dar expressão concreta ao conceito teológico de “sucessionismo”, uma idéia que já ocupava um lugar de destaque no pensamento cristão. Sucessionismo significa que uma fé pode substituir outra anterior que deixou de ter efeito. Em termos religiosos, é comparável ao que Darwin mais tarde postularia na teoria da evolução: os dinossauros deram lugar aos homens de Neandertal, por sua vez substituídos pelo homo sapiens totalmente desenvolvido. A crença, segundo o sucessionismo, era de que as filosofias pagãs greco-romanas foram substituídas pelo judaísmo, por sua vez superado pela Igreja triunfante, a fé verdadeira que invalida todas as outras. O Vaticano pregava que os judeus, por terem matado Jesus e rejeitado seus ensinamentos, foram punidos com a perda de seu Templo Sagrado, da cidade de Jerusalém e também de sua terra natal. Além disso, foram condenados a vagar pela Terra para sempre, como um alerta divino a todos que se recusassem a obedecer a Igreja. É importante observar que este ensinamento foi rejeitado e proibido categoricamente no Segundo Concílio do Vaticano de 1962.

Baccio Pontelli não era um grande erudito religioso; entretanto, era um florentino; e naquela época, Florença se mostrava uma das cidades mais liberais e tolerantes, não só da Itália, como também da Europa. A comunidade judaica local, embora contasse com apenas algumas centenas de pessoas, era bem aceita e muito influente na pulsante vida cultural e intelectual da cidade. Pontelli deve ter conhecido muitos artistas e arquitetos habituados a incorporar temas judaicos em seus trabalhos.

Independente de quem teve a idéia, a nova Capela Palatina foi elaborada para substituir o antigo templo judeu, na qualidade de Novo Templo Sagrado da Nova Ordem Mundial da Nova Jerusalém, que a partir de então seria a cidade de Roma, a capital do cristianismo. Suas medidas são 40,93 metros de comprimento por 13,41 de largura e 20,70 de altura, exatamente como as do heichal, a seção posterior retangular e longa do primeiro Templo Sagrado completado pelo rei Salomão e seu arquiteto, o rei Hiram de Tiro (Líbano) no ano 930 a.C.

Um fato ainda mais notável, que a maioria dos visitantes não percebe, é que em conformidade com a intenção de reproduzir o local sagrado que existia na antiga Jerusalém, o santuário foi construído em dois níveis. A metade ocidental, que abriga o altar e a área particular destinada ao papa e seu séquito, tem cerca de 15 centímetros a mais de altura do que a metade oriental, originalmente reservada aos espectadores comuns. Esta seção mais alta corresponde ao recesso mais recôndito do Templo Sagrado original, o Kodesh Kodoshim, o Santo dos Santos, onde apenas o sumo sacerdote podia entrar, e somente uma vez ao ano, no Yom Kippur, o Dia da Expiação ou Dia do Perdão. O sumo sacerdote passava simbolicamente pela parochet, a cortina espessa e decorada de linho torcido, chamada pelos evangelhos de véu, para fazer as orações de grande importância pelo perdão e pela redenção do povo. Para mostrar exatamente onde este véu era localizado no Templo de Jerusalém, foi construída uma enorme parede divisória de mármore branco em forma de grade, com sete “chamas” de mármore no topo, para corresponder à menorá sagrada, o candelabro de sete braços que iluminava o santuário judeu nos templos bíblicos.

DO TETO AO CHÃO

O teto original era ilustrado com um tema simples, comum em muitas sinagogas: um céu noturno pontilhado de estrelas douradas. A cena é uma alusão ao sonho que Jacó teve enquanto dormia sob as estrelas (Gênesis 28: 11-19), logo após fugir da casa de seu pai. Esta passagem narra que Jacó teve uma visão de “uma escada pela qual anjos subiam e desciam”. Ele deu ao lugar onde dormiu o nome de Beit-el, a Casa de Deus. Segundo a tradição judaica, este teria sido o local exato onde o templo foi erigido. Ao fazer esta referência simbólica à história do sonho de Jacó, o teto expressava uma outra ligação com o Templo Sagrado de Jerusalém.

Para tornar a capela ainda mais singular, foi dada grande atenção também ao seu piso. Trata-se de uma obra-prima impressionante que geralmente passa despercebida aos olhos do visitante comum, pois sua visão é encoberta pelos pés de milhares de turistas e ignorada por causa dos afrescos do teto, mundialmente conhecidos. O piso é uma retomada no século XV do estilo medieval de mosaico cosmatesco. A família Cosmati desenvolveu sua técnica inconfundível em Roma nos séculos XII e XIII. Este estilo decorativo era uma criação imaginativa de formas geométricas e espirais em peças cortadas de mármore e vidro colorido (muitas delas “recicladas” de templos e palácios romanos pagãos). Há exemplos maravilhosos destas decorações e assoalhos cosmatescos autênticos em alguns dos conventos e das igrejas e basílicas mais antigas e belas em Roma e no sul da Itália. Um dos últimos artesãos da família Cosmati foi levado a Londres no século XIII para fazer os mosaicos místicos do assoalho da abadia de Westminster.

É de consenso geral que estes assoalhos muito especiais eram apreciados não apenas por sua beleza e riqueza de cores e materiais, que incluíam o pórfiro roxo, de valor inestimável, mas também por sua espiritualidade esotérica. Muito já se escreveu sobre estes mosaicos, e disso já se ocuparam teólogos, arquitetos e até mesmo matemáticos. Em parte, os mosaicos conferem a qualquer santuário uma sensação de espaço, ritmo e fluidez de movimento. Indubitavelmente, eles também servem como instrumento de meditação, de maneira semelhante aos labirintos comuns nas igrejas da Idade Média. Na Capela Sistina, o piso é uma variação destes assoalhos cosmatescos, pois foram elaborados dois séculos após a renomada família Cosmati finalizar o seu último projeto. Seu desenho teve como base algumas partes que restaram de uma capela anterior, mas adquiriram um estilo e um significado próprios.

O desenho do piso da Sistina foi elaborado para servir a quatro funções principais. Primeiro, embeleza a capela com uma graça toda especial. Segundo, ajuda arquitetonicamente a definir o espaço, ao mesmo tempo em que o alonga e dá a sensação de fluidez de movimento. Ela também “dirige” os movimentos e a ordem dos ritos durante uma missa da corte papal, mostrando onde o papa deve se ajoelhar, onde a procissão deve parar durante o canto de certos salmos e hinos, onde os celebrantes do serviço religioso devem ficar, onde o incenso deve ser colocado, entre outras coisas. Por fim, a função menos conhecida de todas é de instrumento de meditação cabalística, que mais uma vez conecta a capela às fontes judaicas antigas. Dentro dela, há uma gama variada de símbolos místicos: as esferas da Árvore da Vida, os caminhos da alma, as quatro camadas do universo e os triângulos de Filo de Alexandria.

Cabala significa literalmente em hebraico “aquilo que se recebe”, e se refere às tradições místicas que compreendem os segredos da Torá, as verdades esotéricas que revelam o conhecimento mais profundo do mundo, da humanidade e do Todo-Poderoso. Filo era um místico judeu de Alexandria, no Egito, que escreveu dissertações sobre a Cabala no século I da era cristã. Ele é comumente considerado o elo central entre a filosofia grega, o judaísmo e o misticismo cristão. Seus triângulos apontam para cima ou para baixo para mostrar o fluxo de energia entre a ação e a recepção, o masculino e o feminino, Deus e a humanidade, e entre o mundo inferior e o superior. Na verdade, o nome latino para este tipo de decoração com mosaicos é opus alexandrinum (obra alexandrina) por ser repleto de simbolismo cabalístico concebido originalmente por Filo de Alexandria.

Por causa deste nome latino, muitos historiadores da arte e arquitetos crêem erroneamente que o piso em estilo cosmatesco teria se originado em Alexandria, no Egito, ou que foi popularizado pelo papa Alexandre VI Borgia, no final do século XV. Entretanto, não há nenhuma prova de que este tipo de desenho tenha existido na antiga Alexandria; e quanto à alegada relação com o papa Alexandre VI, este entrou em cena mais de duzentos anos após o auge do piso cosmatesco. Acreditamos que a conclusão mais lógica é a de que foi a ligação com a Cabala alexandrina que deu o seu nome ao desenho cosmatesco.

Uma outra ligação com o templo judeu é o fato notável de que o Selo de Salomão é um símbolo recorrente nos pisos cosmatescos, e encontrado nos desenhos do piso da Capela Sistina. Este símbolo era considerado a chave para a sabedoria esotérica antiga dos judeus. O selo, composto de uma combinação dos dois triângulos de Filo sobrepostos, apontando para cima e para baixo, é chamado hoje de Magen David, ou Estrela de Davi. A estrela é praticamente um emblema universal do judaísmo, e foi escolhida para ser a figura central da bandeira do estado moderno de Israel. Porém, no final do século XV, ainda não era um símbolo representativo do povo judeu, mas de seu conhecimento místico arcano. Até mesmo Rafael escondeu um Selo de Salomão em seu afresco místico gigante A Escola de Atenas.

O entendimento do significado mais profundo do selo enquanto parte da Capela Sistina requer uma contextualização. A evidência arqueológica mais antiga do uso judeu deste símbolo é a de uma inscrição atribuída a Josué ben Asayahu no final do século VII a.C. A lenda por trás desta associação com o rei Salomão – e daí o seu outro nome, Selo de Salomão – é bastante fantasiosa e muito provavelmente falsa. Nas lendas medievais judaicas, muçulmanas e cristãs, assim como em um dos contos das Mil e Uma Noites, o Selo de Salomão, com seu formato hexagonal, era um anel-sinete mágico que supostamente pertencera ao rei e que lhe concedia o poder sobre os demônios (ou jinni), ou de falar com os animais. Segundo alguns pesquisadores, a razão pela qual este símbolo é mais comumente atribuído ao rei Davi é porque o hexagrama representa a carga astrológica da hora do nascimento de Davi ou de sua unção como rei. Porém, o significado mais profundo e certamente o mais correto é a interpretação mística que o associa ao sete, o número sagrado, com suas seis pontas ao redor de seu centro.

O número sete tem uma importância religiosa especial no judaísmo. Na Criação, temos os seis dias seguidos do sétimo, o Sabá, o dia de descanso declarado santo por Deus e dotado de uma bênção singular. Todo sétimo ano é um ano sabático, no qual a terra não pode ser cultivada, e após sete ciclos de sete anos, o ano Jubileu traz liberdade aos que tinham sido vendidos como escravos e aos que se tornaram escravos por causa de dívidas, e o retorno das propriedades aos seus donos originais. Porém, o fato mais importante de todos para a compreensão do significado do uso do número sete nos mosaicos do chão da Capela Sistina é a sua ligação com a menorá do antigo Templo, cujas sete lâmpadas de óleo se apóiam em três braços que saem de cada lado de uma haste central. Já foi sugerido enfaticamente que a Estrela de Davi se tornou um símbolo padrão nas sinagogas justamente por ser elaborada segundo o esquema 3+3+1: um triângulo para cima, um para baixo e o centro; e isto corresponde precisamente à estrutura da menorá. Esta menorá é exatamente o item representado tão vividamente no Arco de Tito, construído para celebrar a vitória do Império Romano sobre o que considerava um povo derrotado do qual nunca mais se ouviria falar.

Entretanto, graças a artistas, como os da família Cosmati e Michelangelo, o simbolismo judeu continuaria a ser conhecido cada vez mais, por meio de todas as suas obras mais famosas. O segredo mais estranho da capela mais católica do mundo é que o mosaico gigante de seu chão está repleto de Estrelas de Davi.

OS AFRESCOS ORIGINAIS DO SÉCULO XV — AS APARÊNCIAS ENGANAM

A atração principal da nova capela, porém, não era nem o seu chão nem o seu teto, mas as suas paredes. Partindo da parede frontal do altar, começam duas séries de painéis – uma sobre a vida de Moisés e outra sobre a de Jesus, duas histórias bíblicas contadas de maneira semelhante ao formato de histórias em quadrinhos.

Para pintar tantos afrescos de execução tão trabalhosa, foi trazida uma equipe formada pelos principais pintores de afrescos do século XV. Se quisermos ser mais precisos, diríamos que a equipe foi enviada. É importante saber disso por conta de quem os enviou: ninguém menos que Lorenzo de’ Medici, o homem mais rico de Florença e seu governante não-oficial. Ele foi o mesmo homem que mais tarde descobriria Michelangelo e o criaria como um de seus filhos.

O papa Sisto IV odiava Lorenzo e sua família, e lutara contra eles por muitos anos. Sisto desejava tomar o controle de Florença, capital do livre-pensamento, e de sua grande riqueza, para que pudesse então assumir o controle de toda a Itália central. Em 1478, o papa tentou eliminar Lorenzo e todo o clã de’ Medici de uma vez por todas. Sisto deu início a uma primeira versão de assassinato mafioso. A única diferença é que esta conspiração em particular era algo que nem mesmo o Poderoso Chefão ousaria empreender. Sisto planejou assassinar Lorenzo e seu irmão Giuliano na Catedral de Florença, em frente ao altar principal, durante a missa de Páscoa. Um elemento ainda mais blasfemo do plano era o sinal escolhido para marcar o momento da matança: a elevação da hóstia. Até mesmo assassinos profissionais de sangue frio recusaram este trabalho, e o papa teve de contar com a ajuda de um padre e do arcebispo de Pisa. Estes dois tramaram os detalhes juntamente com Girolamo Riario, o sobrinho mais corrupto de Sisto. O papa se recusou a ouvir os pormenores, dizendo de maneira evasiva: “Façam o que for necessário, contanto que ninguém seja morto”. Entretanto, ele ordenou a seu líder militar Federico da Montefeltro, o duque de Urbino, que reunisse 600 soldados nas colinas ao redor de Florença e esperasse pelo sinal da morte de Lorenzo. O ataque vergonhoso seguiu conforme o planejado… até certo ponto. Giuliano de’ Medici morreu no local, ferido com 19 punhaladas. Lorenzo, embora ferido gravemente, conseguiu escapar por um túnel secreto e sobreviveu. O sinal para a invasão de Florença nunca foi dado. Os florentinos enfurecidos, ao invés de se levantar contra o clã de’ Medici, como Sisto esperava, assassinaram os conspiradores. Foi necessário que o próprio Lorenzo intercedesse pessoalmente para que os cidadãos não matassem o cardeal Raffaele Riario, outro sobrinho do papa que não tivera nenhum envolvimento no golpe. Dois anos mais tarde, o papa cedeu e o Vaticano e Florença declararam uma trégua. Foi exatamente nesta ocasião que a nova capela estava pronta para ser redecorada.

Por que então Lorenzo enviou seus pintores mais talentosos para decorar a capela, glorificando o homem que matara seu amado irmão e tentara também assassiná-lo? Segundo as fontes oficiais, este gesto foi uma “oferta de paz”, um ato de perdão e reconciliação. Porém, a explicação oficial é equivocada. O motivo real é essencial para se entenderem as mensagens dos afrescos, de conteúdo nem um pouco conciliatório.

Lorenzo de fato enviou a elite artística: Sandro Botticelli, Cosimo Rosselli, Domenico Ghirlandaio, que mais tarde seria professor de Michelangelo por um breve período, e Perugino, pintor da Umbria, que posteriormente seria mestre de Rafael. Além de ter de revestir todas as quatro paredes da capela com as séries de painéis sobre a vida de Moisés e a de Jesus, eles foram encarregados de acrescentar uma faixa superior de pinturas retratando os primeiros trinta papas e também um grande afresco da Assunção da Virgem Maria ao Céu na parede frontal do altar, entre as duas janelas. Com tantos afrescos a executar, a equipe de artistas posteriormente trouxe Pinturicchio, Luca Signorelli, Biagio d’Antonio e alguns assistentes. Este grupo compõe a lista do “Quem é quem” dos principais pintores de afrescos da pintura italiana do século XV. Todos eles eram florentinos orgulhosos, com exceção de Perugino e seu pupilo Pinturicchio.

O papa planejara o seu próprio desenho com várias camadas de simbolismo para a capela. Este tinha o objetivo de ilustrar o sucessionismo para o mundo, provando que a Igreja era a herdeira legítima do monoteísmo, por substituir o judaísmo. Para atingir este intento, cada painel da história de Moisés foi emparelhado com um da história de Jesus. A série de painéis de afrescos da parte norte narra a vida de Jesus, de esquerda para direita, na ordem cristã. A série da parte sul conta a história de Moisés, mas da direita para a esquerda, na ordem hebraica. Esta disposição resultou em oito “pares”:

A descoberta de Moisés bebê no Nilo | O nascimento de Jesus na manjedoura

A circuncisão do filho de Moisés | O batismo de Jesus

A ira de Moisés e sua fuga do Egito | As tentações de Jesus

A separação das águas do mar Vermelho | O milagre de Jesus caminhando sobre as águas

Moisés no monte Sinai | O sermão da montanha de Jesus

A revolta de Coré | Jesus entregando as chaves a Pedro

O último discurso e morte de Moisés | A última ceia de Jesus

Anjos defendendo o túmulo de Moisés | Jesus ressurgido do túmulo

Algumas das “conexões” requerem um esforço de imaginação, mas a idéia era demonstrar que a vida de Moisés serviu apenas para prenunciar a vida de Jesus.

Um outro objetivo do papa era promover o culto da Virgem Maria. Sisto IV queria dedicar a capela à Assunção de Maria ao Céu, celebrada todos os anos no calendário católico no dia 15 de agosto. Por este motivo, Perugino pintou o afresco gigante da subida de Maria ao Céu na parede do altar, retratando o próprio papa Sisto IV ajoelhado diante dela.

O último desejo do papa – e provavelmente o mais caro de seu coração – era glorificar e solidificar a sua própria autoridade suprema e a de sua família, os della Rovere. O papado ainda se refazia de séculos de cismas, escândalos, antipapas, intrigas e assassinatos. Havia apenas cinquenta anos que a corte pontifícia retornara a Roma, após o assim chamado “exílio babilônico” dos papas em Avignon, na França. O papa Sisto estava ansioso para demonstrar não só a supremacia do cristianismo sobre o judaísmo e da autoridade divina dos papas sobre o mundo cristão, como também a sua superioridade pessoal sobre todos os papas que o precederam. Foi por esta razão que, por sua ordem, Aarão, o primeiro sumo sacerdote dos judeus, e Pedro, o primeiro papa, foram vestidos de roupas azuis e douradas, as cores heráldicas da família della Rovere. É por isso também que a capela está repleta de desenhos de carvalhos e bolotas em todos os cantos: “rovere” significa “carvalho”, e esta árvore é o símbolo do brasão da família. Pelo mesmo motivo, Sisto também colocou o seu próprio retrato acima da série de pinturas dos primeiros trinta papas, bem no centro da parede frontal, junto à Virgem Maria no Céu.

Com isto em mente, voltemos à nossa questão: por que Lorenzo enviou seus melhores artistas a Roma para executar este trabalho de auto-engrandecimento para o homem que tramara contra ele e sua família? Conforme demonstraremos, a resposta é muito simples: para sabotar a amada capela de Sisto.

Muito provavelmente, foi Botticelli o agitador e coordenador do grupo do projeto de pintura dos afrescos. Os textos oficiais sobre a Capela Sistina apontam Perugino como o líder, mas uma análise rápida demonstra que ele – o único que não era de Florença – não fazia parte da trama. Seu estilo e esquema de cores são completamente diferentes de todos os outros painéis, e seu simbolismo não contém nenhuma mensagem antipapal; ao passo que, por toda a capela, os outros artistas parecem livres para dar vazão às suas críticas.

Cosimo Rosselli tinha um cachorrinho branco que se tornou o mascote dos artistas da Toscana. Não sabemos se permitiam que o cachorro brincasse dentro da capela enquanto os pintores trabalhavam, mas podemos vê-lo fazendo travessuras em todos os painéis de afrescos, exceto os de Perugino, da Umbria. Na Última Ceia, ele aparece saltando junto aos pés de seu dono. No afresco Adoração do Bezerro de Ouro, ele parece na verdade estar saindo do painel e entrando na capela.

Temos que admitir que a presença de um cachorro no santuário não é um grande insulto, e não é mais que uma possível impureza ritual. Porém, os florentinos inseriram imagens bem mais fortes em seus trabalhos para seu ajuste de velhas contas com o papa. Botticelli era quem tinha o maior ressentimento. Após a execução dos conspiradores que atacaram os irmãos de’ Medici, Botticelli fizera um afresco mostrando seus cadáveres pendurados na catedral para exibição pública. Esta pintura continha legendas sarcásticas atribuídas ao próprio Lorenzo de’ Medici. Como parte do tratado de paz oficial entre o Vaticano e Florença em 1480, Sisto insistiu para que este afresco fosse totalmente destruído. Botticelli certamente não estava inclinado a esquecer ou perdoar isso. Por esta razão, em seu painel da Fuga de Moisés do Egito, ele inseriu um carvalho – o símbolo da família della Rovere – acima das cabeças dos arruaceiros pagãos que Moisés afugenta. Perto dos carneiros inocentes e da visão sagrada da Sarça Ardente, entretanto, ele colocou uma laranjeira com um cesto de laranjas, o símbolo da família florentina de’ Medici. Na Revolta de Coré, Botticelli vestiu o rebelde Coré de azul e dourado, as cores do clã della Rovere, e bem ao fundo retratou dois barcos: um naufragado, representando Roma, e um outro navegando tranquilamente, com a bandeira de Florença orgulhosamente tremulando em seu topo. No quadro das Tentações de Cristo, ele inseriu o amado carvalho de Sisto em dois lugares: um junto a Satanás quando este é desmascarado, e outro cortado e pronto para ser queimado no Templo.

Biagio d’Antonio, outro filho orgulhoso de Florença, não queria ser deixado para trás. Em seu painel, a Separação das Águas do Mar Vermelho, ele mostra o mau faraó usando as cores da família della Rovere e uma construção de aparência suspeita, semelhante à própria capela, sendo tragada pelas águas vermelhas revoltas.

A nova capela, ainda chamada de Palatina, foi consagrada na festa da Assunção de Maria em 15 de agosto de 1483. O papa, orgulhoso, oficiou a cerimônia. Ele estava contente e totalmente alheio à grande quantidade de insultos secretos contra ele.

Sisto IV podia ser tudo, menos um grande estrategista ou diplomata. Ele fez várias alianças precipitadas e conflituosas, e estava claramente mais preocupado em aumentar a riqueza e o poder de sua família do que em fortalecer a Igreja. Felizmente, a invasão muçulmana da Itália chegou a um fim inesperado. Maomé II, o sultão do Império Otomano, morreu na primavera de 1481, mas Sisto tomou os créditos do fim da invasão para si. Ele faleceu um ano mais tarde, feliz e sem saber que Lorenzo conseguira ridicularizar sua intenção de fazer da capela um serviço à sua egolatria.

Visto em retrospecto, é surpreendente notar o quanto os primeiros artistas puderam agir livremente dentro da Capela Sistina. Entretanto, o verdadeiro mestre das mensagens ocultas surgiria uma geração mais tarde… e com muito mais a dizer.
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Trecho do Livro: Marcada | PC Cast e Kristin Cast

Marcada é o primeiro volume da famosa série The House of Night, sucesso de vendas nos Estados Unidos e em vários países.

livros marcada booksLivro: Marcada

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Justo quando eu achava que meu dia não tinha como piorar, vi o cara parado perto do meu armário. Kayla estava falando sem parar as baboseiras de sempre e nem reparou nele. De início, agora que parei para pensar de verdade, ninguém havia reparado nele antes que começasse a falar, o que reforça tragicamente minha esdrúxula incapacidade de me encaixar no grupo.

– Não, Zoey, juro por Deus que Heath não ficou tão bêbado depois do jogo. Você não devia ser tão dura com ele.

– É – disse eu distraidamente. – Claro – então tossi. Outra vez me senti um lixo. Eu devia estar sofrendo daquilo que o senhor Wise, meu “mais insano que o normal” professor de biologia do curso preparatório, chamava de Praga Adolescente.

Será que se eu morresse conseguiria escapar da prova de geometria de amanhã? A esperança é a última que morre.

– Zoey, por favor. Você está ouvindo? Acho que ele só tomou umas quatro, sei lá, cinco cervejas, e talvez umas três doses de licor. Mas isso não vem ao caso. Ele provavelmente nem teria bebido nada se os seus pais não a tivessem feito voltar para casa logo depois do jogo.

Trocamos um longo olhar de resignação e de total concordância em relação à última injustiça cometida contra mim por minha mãe e pelo infeliz do meu padrasto, com quem ela se casara há três longos anos. Então, após mal parar para respirar, K. continuou a tagarelar.

– Além do que, ele estava comemorando. Ou seja, nós derrotamos o Union! – K. sacudiu meu ombro e levou o rosto para perto do meu. – Hello! Seu namorado…

– Meu quase-namorado – eu a corrigi, tentando ao máximo não tossir sobre ela.

– Que seja. Heath é nosso zagueiro, então é claro que ele ia comemorar. Fazia um milhão de anos que o Broken Arrow não derrotava o Union.

– Dezesseis – sou um desastre em matemática, mas K. me faz parecer um gênio.

– Mais uma vez, que seja. A questão é: ele estava feliz. Você devia dar um desconto para o garoto.

– A questão é que ele estava bêbado pela quinta vez na semana. Desculpe, mas não quero sair com um cara cujo principal foco na vida passou de jogar futebol no time do colégio a enxugar uma caixa de cerveja sem engasgar. Para não mencionar que ele vai ficar gordo com tanta cerveja – tive de fazer uma pausa para tossir. Estava me sentindo meio tonta e forcei-me a respirar lenta e profundamente quando passou a crise de tosse. Não que a tagarela da K. tivesse reparado.

– Eca! Heath gordo! Tô fora desse visual.

Eu dei um jeito de ignorar outra vontade de tossir.

– Beijá-lo é como beijar um pudim de cachaça.

K. fez uma careta.

– Tá certo, sua doente. Pena que ele é tão gostoso.

Eu revirei os olhos sem fazer questão de esconder minha irritação com sua típica superficialidade.

– Você fica tão irritadiça quando está doente. Enfim, você não faz idéia da cara de cachorrinho abandonado de Heath depois que você o ignorou no almoço. Ele nem conseguia…

Então eu vi o cara novamente. Morto. Tudo bem, eu logo me dei conta que ele não estava tecnicamente “morto”. Ele era um morto-vivo. Ou não humano. Sei lá. Os cientistas diziam uma coisa, as pessoas diziam outra, mas no final era sempre a mesma coisa. Não havia dúvida do que ele era, e mesmo se eu não tivesse sentido o poder e a escuridão que irradiavam dele, não havia como deixar de perceber sua Marca, a lua crescente azul-safira em sua testa e a tatuagem adicional de um nó entrelaçado que lhe emoldurava os olhos igualmente azuis. Ele era um vampiro, e pior… ele era um Rastreador.

Bem, bobagem! Ele estava ao lado do meu armário.

– Zoey, você não está ouvindo nada do que estou dizendo!

Então o vampiro falou e suas palavras cerimoniosas deslizaram pelo espaço entre nós, perigosas e sedutoras, como sangue misturado a chocolate derretido.

– Zoey Montgomery! Fostes escolhida pela Noite; tua morte será teu nascimento. A Noite te chama; preste atenção para escutar Sua doce voz. Teu destino aguarda por ti na Morada da Noite!

Ele ergueu um dedo longo e branco e apontou para mim. Minha testa explodia de dor e Kayla abriu a boca e gritou.

Quando as manchas brilhantes finalmente sumiram de minha visão eu levantei os olhos e vi o rosto pálido de K. me olhando fixamente.

Como de costume, eu disse a primeira coisa ridícula que me veio à cabeça.

– K., seus olhos estão pulando para fora de sua cabeça como os de um peixe.

– Ele Marcou você. Ah, Zoey! Você está com o desenho daquela coisa na sua testa! – então ela apertou a mão trêmula contra os lábios brancos, tentando, sem sucesso, suprimir o choramingo.

Eu me sentei e tossi. Estava com uma dor de cabeça de matar e esfreguei a marca deixada entre minhas sobrancelhas. Era como se eu tivesse sido picada por uma abelha; a dor descia irradiando ao redor dos olhos, chegando às maçãs do rosto. Senti que ia vomitar.

– Zoey! – K. agora estava chorando de verdade, falando entre pequenos soluços.

– Ah… Meu… Deus… Aquele cara era um Rastreador – um vampiro Rastreador!

– K. – pisquei os olhos com dificuldade, tentando fazer desaparecer a dor de minha cabeça –, pare de chorar. Você sabe que eu odeio quando você chora – estiquei o braço para tentar reconfortá-la com um tapinha nos ombros, mas ela automaticamente se encolheu e afastou-se de mim.

Eu não conseguia acreditar naquilo. Ela se encolheu mesmo, como se estivesse com medo de mim. Ela deve ter visto nos meus olhos que fiquei magoada, pois imediatamente começou a soltar um monte de suas típicas baboseiras.

– Ah, meu Deus, Zoey! O que você vai fazer? Você não pode ir àquele lugar. Não pode ser uma daquelas coisas. Isso não pode estar acontecendo! Com quem irei aos nossos jogos de futebol?

Percebi que ela não se aproximou nem um pouquinho de mim enquanto tagarelava. Reprimi as sensações de enjoo e mágoa que ameaçavam me levar às lágrimas. Meus olhos secaram instantaneamente. Eu era boa em esconder lágrimas. Era para ser mesmo; tive três anos de treino para ficar boa nisso.

– Tudo bem. Vou dar um jeito. Deve ser algum… algum erro bizarro – menti.

Eu não estava realmente falando; estava apenas soltando palavras pela boca. Ainda fazendo careta de dor de cabeça, levantei-me. Olhei ao redor e senti um leve alívio por K. e eu sermos as únicas pessoas na sala de matemática, e então tive de engolir uma gargalhada que eu sabia ser de nervoso. Se eu não estivesse totalmente maluca por causa daquela maldita prova de geometria, marcada para o dia seguinte, e tivesse corrido até meu armário para pegar meu livro e tentar obsessiva e inutilmente estudar à noite, o Rastreador teria me encontrado em frente à escola, em meio à maioria dos 1.300 garotos e garotas que deixavam naquele momento o Colégio Broken Arrow, esperando o que a idiota da minha irmã “clone de Barbie” gostava de chamar, toda metida, de “grandes limusines amarelas”. Eu tenho carro, mas ficar junto dos menos afortunados que tinham de pegar ônibus é uma tradição respeitada, além de ser uma excelente maneira de ver quem está dando em cima de quem. Supostamente, só havia outro garoto na sala de matemática – um nerd alto e magro de dentes estragados que eu, infelizmente, pude ver bem demais, pois ele estava lá parado com a boca escancarada, olhando para mim como se eu tivesse dado à luz uma ninhada de porcos voadores.

Tossi de novo, desta vez uma tosse bem molhada e nojenta. O nerd fez um barulhinho rangente e saiu correndo em direção à sala da senhora Day, apertando uma tábua de xadrez contra o peito esquelético. Acho que haviam mudado o encontro do clube de xadrez para segunda-feira depois da escola.

Vampiros jogam xadrez? Vampiros eram nerds? E vampiras chefes de torcida estilo Barbie? Algum vampiro tinha banda? Será que os vampiros eram emos esquisitos do tipo que usam calças de garotas e aquelas franjas tenebrosas que cobrem metade da cara? Ou seriam todos que nem aqueles góticos que não gostam de tomar banho? Será que eu ia virar gótica? Ou pior, será que eu ia virar emo? Eu não gostava muito de usar preto, pelo menos não o tempo todo, nem estava sentindo súbita aversão por água e sabão, e nem estava com nenhuma vontade obsessiva de mudar o estilo do meu cabelo e exagerar no delineador.

Tudo isso girava em um turbilhão em minha mente quando senti novamente a vontade de gargalhar e deixar escapar o nervoso que estava preso em minha garganta. Quase agradeci por ter saído apenas como tosse.

– Zoey? Você está bem? – a voz de Kayla soou tão alta, como se alguém a estivesse beliscando, e ela deu mais um passo para trás, afastando-se de mim.

Eu suspirei e senti minha primeira faísca de raiva. Eu não havia pedido por nada disso. K. e eu éramos melhores amigas desde a terceira série e agora ela estava olhando para mim como se eu tivesse virado um monstro.

– Kayla, sou eu. A mesma de dois segundos atrás e duas horas atrás e dois dias atrás – fiz um gesto de frustração em direção à minha cabeça latejante. – Isto não muda quem eu sou!

Os olhos de K. ficaram molhados de novo, mas felizmente o telefone celular dela começou a tocar Material Girl, de Madonna. Automaticamente, ela deu uma olhada para ver quem estava ligando. Pela cara de espanto dela, eu podia jurar que era Jared, seu namorado.

– Vá – eu disse com voz cansada e inexpressiva – pegue carona para casa com ele.

Seu olhar de alívio foi como um tapa na minha cara.

– Ligue para mim – disse ela, olhando rapidamente para trás e batendo em retirada pela porta ao lado.

Fiquei olhando enquanto ela saiu correndo pelo gramado leste em direção ao estacionamento. Deu para ver que ela estava com o celular grudado na orelha e conversando toda animadinha com Jared. Tenho certeza que ela já estava contando a ele que eu estava virando um monstro.

O problema, claro, era que me transformar em monstro era a mais luminosa dentre minhas duas opções. Opção número um: eu viro vampira, o que significa monstro na cabeça de praticamente todo ser humano. Opção número dois: meu corpo rejeita a mudança e eu morro. Para sempre.

Então a boa notícia é que eu não teria que fazer a prova de geometria amanhã.

A má notícia é que eu teria que me mudar para a Morada da Noite, um internato no centro de Tulsa que era conhecido entre todos os meus amigos como Escola de Aperfeiçoamento de Vampiros, onde durante os próximos quatro anos eu passaria por transformações bizarras e mudanças físicas indescritíveis, bem como uma total, permanente e drástica mudança de vida. Isso se o processo todo não me matasse.

Ótimo. Eu não queria fazer nenhuma das duas coisas. Só queria tentar ser normal, apesar do fardo de meus pais mega-conservadores, do ogro do meu irmão mais novo e da minha irmã tão perfeitinha. Eu queria passar em geometria. Queria manter minhas notas altas para ser aceita no curso de veterinária da Universidade de Oklahoma e queria cair fora de Broken Arrow, Oklahoma. Mas o que mais queria era me encaixar – ao menos na escola. Em casa era esperança perdida, de modo que tudo que me restou foram meus amigos e minha vida longe da família.

Agora isso também estava sendo tirado de mim.

Eu esfreguei a testa e me descabelei até cobrir parcialmente meus olhos e, com sorte, a marca que aparecera sobre eles. Mantendo a cabeça abaixada, corri até a porta que dava para o estacionamento dos alunos.

Mas parei pouco antes de sair. Pelas janelas abertas que ladeavam as portas de aparência institucional pude ver Heath. As garotas se aglomeravam ao redor dele, fazendo pose e jogando os cabelos, enquanto os caras do lado de fora faziam manobras ridículas em suas enormes picapes, tentando (mas geralmente não conseguindo) parecer descolados. Não dá para entender como eu escolheria isso para me atrair? Não, para ser justa comigo mesma, devo lembrar que Heath costumava ser incrivelmente doce, e ainda agora ele tinha seus momentos. Principalmente quando se dava ao trabalho de se manter sóbrio.

Os risinhos histéricos e agudos das garotas voaram rapidamente do estacionamento até mim. Ótimo. Kathy Richter, a maior cachorra da escola, estava fingindo que dava um tapa em Heath. Até mesmo de onde eu estava ficava óbvio que ela achava que bater nele era algum tipo de ritual de acasalamento. Como sempre, o sem-noção do Heath só ficou parado, rindo. Ora, que inferno, pelo jeito meu dia não ia melhorar em nada. E meu fusca 1966 azul-ovo-de-pintarroxo estava bem no meio deles. Não, eu não podia ir até lá. Não podia caminhar no meio de todos eles com este troço na minha testa. Jamais conseguiria ser parte deles outra vez. Já sabia muito bem o que eles fariam. Lembrei-me do último garoto que um Rastreador escolhera na escola.

Acontecera no começo do ano letivo passado. O Rastreador chegara antes da escola começar suas atividades e escolheu o garoto como alvo quando ele estava caminhando para sua primeira aula. Eu não vi o Rastreador, mas depois vi o garoto, só por um segundo, depois que ele largou os livros e saiu correndo do edifício com sua nova Marca brilhando na testa pálida e com suas bochechas muito brancas lavadas por lágrimas. Jamais me esqueci como os corredores estavam cheios naquela manhã e como todo mundo se afastou quando ele tentou fugir pela porta da frente da escola, como se ele tivesse alguma doença contagiosa. Eu fui uma das que recuou e ficou olhando quando ele passou, apesar de sinceramente sentir muito por ele. Só não queria ser rotulada como uma daquelas “garotas amigas de esquisitos”. Meio irônico, não é?

Ao invés de ir para o meu carro, fui para o toalete mais próximo que, felizmente, estava vazio. Havia três cabines – sim, eu conferi duas vezes para ver se via os pés de alguém. Em uma das paredes havia duas pias, sobre as quais estavam pendurados dois espelhos de tamanho médio. Em frente às pias havia uma parede coberta por um enorme espelho sob o qual existia uma prateleira para colocar escovas, maquiagem e qualquer outra coisa. Pus minha bolsa e meu livro de geometria sobre ela, respirei fundo e, com um só movimento, levantei a cabeça e escovei meus cabelos para trás.

Era como olhar para o rosto de um estranho familiar. Sabe aquela pessoa que você vê no meio da multidão e jura que conhece, mas não conhece? Agora esta pessoa era eu: a estranha conhecida.

Ela tinha os meus olhos, que ostentavam o mesmo tom de avelã que parecia indeciso entre o verde ou o castanho. Mas meus olhos nunca foram tão grandes e redondos. Ou foram? Ela tinha os meus cabelos – longos e lisos e quase tão escuros quanto os de minha avó antes de começarem a ficar grisalhos. A estranha tinha as minhas pronunciadas maçãs do rosto, nariz longo e lábios fartos – mais traços de vovó e seus antepassados Cherokee. Mas meu rosto jamais fora tão pálido… talvez apenas parecesse pálido em comparação com o desenho azul-escuro de uma lua crescente perfeitamente posicionada no meio de minha testa. Ou quem sabe fosse aquela horrenda luz fluorescente. Torci para que fosse a luz.

Olhei fixo para a exótica tatuagem. Misturada às minhas feições Cherokee, parecia uma marca de bestialidade… como se eu pertencesse a tempos ancestrais, quando o mundo era maior… mais bárbaro.

Depois deste dia minha vida nunca mais seria a mesma. E por um momento – só por um instante – me esqueci do horror de ser excluída e senti um chocante estouro de prazer, enquanto internamente regozijava o sangue do povo de minha avó.

setab Leia o 1° capítulo de Traída, continuação de MarcadaLivro Traida

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Trecho do Livro: A Lei de Parkinson | Cyril Northcote Parkinson

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A Lei de Parkinson ou A Pirâmide que Cresce

O trabalho aumenta de modo a preencher o tempo disponível para sua conclusão. A prova disso está na expressão proverbial de que “os mais atarefados é que têm tempo disponível.” Assim, uma ociosa senhora de idade pode passar o dia inteiro para escrever e remeter um cartão-postal a sua sobrinha em Bognor Regis. Uma hora será gasta procurando o cartão; outra, caçando os óculos; meia hora para achar o endereço; uma e um quarto na redação e vinte minutos para decidir se carrega ou não o guarda-chuva para ir à caixa do correio na rua próxima. O esforço total, que para um homem atarefado ocuparia três minutos, pode deixar outra pessoa prostrada após um dia de dúvidas, ansiedade e fadiga.

Admitindo-se que o trabalho (e especialmente o trabalho com papéis) é elástico na sua exigência de tempo, é claro que haverá pequena ou nenhuma relação entre o trabalho a ser feito e a quantidade de pessoas a executá-lo. A falta de atividade não significa lazer, nem é a indolência que revela, necessariamente, a falta de trabalho. As coisas a serem feitas aumentam de importância e complexidade em proporção com o tempo a ser gasto. Esse fato é largamente reconhecido. Mas, pouca atenção foi dispensada às suas amplas implicações, mais especialmente no campo da administração pública. Políticos e contribuintes acreditam piamente (com fases ocasionais de dúvida) que um aumento do número de empregados públicos deve refletir um aumento do serviço a ser feito. Cínicos, questionando essa crença, imaginaram que a multiplicação de funcionários deve ter deixado alguns deles desocupados ou todos eles em condições de trabalhar horas mais curtas.

Mas esse é um assunto no qual a fé e a dúvida parecem estar igualmente deslocadas. O fato é que o número de funcionários e a quantidade de serviço não guardam relação entre si. O aumento do total dos empregados é governado pela Lei de Parkinson; e seria o mesmo, quer o volume de serviço aumentasse, diminuísse, ou mesmo desaparecesse. A importância da Lei de Parkinson reside no fato de que é uma lei de crescimento baseada numa análise dos fatores pelos quais esse crescimento é controlado.

A validade desta Lei recentemente descoberta apóia-se, principalmente, em provas estatísticas que se seguirão. Ao leitor comum, o que interessa é a explicação dos fatores que alicerçam a tendência geral definida por essa Lei. Abandonando detalhes técnicos, que são muitos, podemos distinguir, de início, duas “forças-motivo” que podem ser representadas por duas verdades quase axiomáticas:

1. “Um funcionário quer aumentar o número de seus subordinados, desde que não sejam seus rivais” e

2. “Funcionários inventam trabalho uns para os outros.”

Para compreendermos o Fator 1, precisamos imaginar um funcionário público que chamaremos A e que se acha com excesso de trabalho. Que esse excesso de trabalho seja real ou imaginário, não vem ao caso. Lembremo-nos de que essa sensação (ou ilusão) poderia ser ocasionada por uma diminuição das energias de A. Um sintoma normal da meia-idade. Para esse mal real ou imaginário existem três possíveis soluções: A poderá se afastar; A poderá dividir o seu trabalho com um colega, a quem chamaremos B; A poderá pedir dois subordinados, que chamaremos C e D.

Provavelmente não há caso na história em que a escolha de A não seja admitir dois subordinados. Se ele se afastar, perderá o direito à pensão; se consentir em dividir o trabalho com um colega do mesmo nível hierárquico, estará criando um rival que poderá ser promovido em vez dele, quando W (finalmente!) se aposentar. Portanto, A escolherá C e D, dois jovens que trabalharão para ele. Além disso, dividindo o trabalho em duas categorias, entre C e D, ele passará a ser o único homem capaz de compreender os dois. Precisamos notar que C e D têm que ser inseparáveis. Admitir apenas C seria impossível. Por quê? Porque C sozinho iria dividir o trabalho com A, e, conseqüentemente, assumiria um status de igualdade, o que foi recusado a B logo de saída. Este status ficaria mais destacado ainda, porquanto C seria o único sucessor possível de A. Os subordinados devem ser sempre dois ou mais, cada um mantido sob controle por medo da promoção do outro. Quando C, por sua vez, queixar-se de excesso de trabalho (e isso irá acontecer certamente), A recomendará, com a concordância de C, a admissão de dois ajudantes para C, mas A, para evitar aborrecimentos, será obrigado a recomendar também dois ajudantes para D. Com o recrutamento de E, F, G e H, a promoção de A é agora praticamente certa.

Temos então sete funcionários fazendo o trabalho que antes era feito por um. É quando o Fator 2 entra em operação. Pois esses sete criam tanto trabalho uns para os outros que todos vivem ocupadíssimos, e A então está trabalhando mais do que nunca. Qualquer documento que entre poderá eventualmente ser examinado por todos eles. O funcionário E conclui que o assunto é da competência de F, que rascunha uma resposta para C, que a modifica drasticamente antes de consultar D, que por sua vez pede a G para tratar do caso. Mas, a esta altura, G sai de férias e entrega a pasta a H, que prepara a minuta que D assina e devolve a C, que revisa devidamente o texto e entrega a nova versão a A.

A, por sua vez, poderia assinar em cruz, pois está trabalhando como nunca na sua vida. Sabendo que deverá suceder W no ano seguinte, A tem que decidir quem será seu sucessor: C ou D. Ele concordou com a ausência de G, apesar de este ainda não ter direito a férias. Está preocupado se não seria H quem deveria ter saído por motivo de saúde. H, ultimamente anda meio pálido e abatido por motivos (mas não só) de ordem particular. Além disso, existe o problema de salário extra para F na época das conferências e o pedido de transferência que E fez, para o Ministério das Aposentadorias. A ouviu dizer que D está apaixonado por uma datilógrafa casada e que G e F não se falam, ninguém sabe por quê. Então, A se vê tentado a assinar o memorando preparado por C e liquidar o assunto. Mas A é homem de consciência. Cercado como está de problemas criados por seus colegas para eles mesmos e para ele – criados pelo simples fato de existirem os funcionários – não é homem de fugir ao dever. Lê e estuda com cuidado o memorando, corta os parágrafos desnecessários incluídos por C e H e restabelece a forma primitiva adotada por F, sujeito capaz (posto que brigão). Corrige a redação – nenhum desses rapazes sabe escrever gramaticalmente – e por fim ele mesmo faz a resposta que teria escrito se os funcionários C até H não tivessem nascido.

Muito mais gente levou muito mais tempo para produzir o mesmo resultado. Ninguém ficou parado. Todos fizeram tudo o melhor que podiam.

E já é tarde da noite quando A enfim deixa o escritório a caminho de casa no subúrbio. As últimas luzes se apagam no crepúsculo que marca o fim de outra jornada cheia de trabalho administrativo. Entre os últimos a sair, A reflete que trabalho além do expediente e cabelos grisalhos fazem parte das penalidades do êxito.

Da descrição acima dos fatores em ação, o estudante de ciência política reconhecerá que administradores são mais ou menos fadados a se multiplicar. Nada foi dito ainda sobre o tempo que provavelmente escoará entre a nomeação de A e a aposentadoria de H. Vastas quantidades de dados foram cotejados estatisticamente e foi desses dados que se deduziu a Lei de Parkinson. O espaço não permite análise detalhada, mas interessará ao leitor saber que a pesquisa começou nas estimativas orçamentárias da Marinha Britânica. A escolha deveu-se a que as responsabilidades do Almirantado são mais facilmente mensuráveis que, digamos, as do Ministério do Comércio. É uma simples questão de números e tonelagem. Eis alguns dados típicos: O efetivo da Marinha em 1914 era de 146 mil oficiais e marinheiros, 3.249 funcionários e escriturários e 57 mil operários de docagem e estaleiros. Em 1928, havia apenas 100 mil oficiais e marinheiros e 62.439 operários, mas o pessoal administrativo das docas e estaleiros aumentou para 4.558. Quanto às belonaves, o poderio em 1928 era uma pequena fração do que fora em 1914 – menos de 20 grandes navios contra 62. No mesmo período, o funcionalismo do Almirantado aumentara de 2 mil para 3.569, criando uma “magnífica Marinha de terra,” como notou alguém.

A crítica da época centrou-se na razão entre o efetivo disponível para o combate e o disponível para administração. Mas essa comparação não é o nosso propósito. Note-se que os 2 mil funcionários de 1914 passaram a 3.569 em 1928, e que este aumento não teve relação com qualquer possível aumento de serviço. A Marinha naquele período diminuíra 1/3 em pessoal e 2/3 em navios.

Tampouco, a partir de 1922, sequer se esperava alguma expansão; pois seu total de navios (mas não o de funcionários) foi limitado pelo Acordo Naval de Washington daquele ano. Temos aqui, então, um aumento de 78% num período de 14 anos; média de 5,6% de aumento por ano no pessoal que lidava com papel. Se formos examinar em detalhe, veremos que o aumento não foi regular. Mas a nós só interessa, no momento, a comparação dos dois períodos.

Como pode o aumento contínuo de funcionários ser explicado, a não ser pelo fato de que tal crescimento sempre se dará de acordo com uma lei própria? Devemos salientar que este período foi de um rápido desenvolvimento em técnica e engenharia naval. Nessa época o avião já começava a deixar de ser um “negócio de doidos,” os aparelhos elétricos já se estavam aperfeiçoando, os submarinos já eram tolerados, se não aprovados, e os técnicos começavam a ser considerados como seres quase humanos.

Em tal época revolucionária, poderíamos esperar que os almoxarifados tivessem inventários mais complicados para fazer. Não seria de admirar que tivéssemos, na folha de pagamento, mais projetistas, técnicos e cientistas. Entretanto, essa classe dos estaleiros aumentou apenas 40%, enquanto o pessoal de escritório do ministério aumentou 80%. Cada engenheiro novo em Portsmouth implicava a admissão de dois auxiliares de escritório em Londres. Isso poderia ser uma tentação para concluirmos que o aumento dos funcionários da administração deve ser o dobro do aumento dos técnicos, num momento em que o efetivo realmente de combate naval (neste caso, de marinheiros) era reduzido em 31,5%. Entretanto, está provado estatisticamente que esta última percentagem é irrelevante. Os funcionários da administração aumentariam nas mesmas proporções mesmo que não existissem marinheiros combatentes nos navios.

Seria interessante prosseguir o estudo e descobrir por que os 8.118 funcionários do Almirantado de 1935 se transformaram nos 33.788 de 1954. Mas o funcionalismo do Ministério das Colônias oferece um campo de estudo melhor, durante um período de declínio imperial. As estatísticas do Almirantado são complicadas por fatores como a Força Aérea Naval, que torna a comparação difícil entre um ano e o seguinte. O crescimento do Ministério das Colônias é mais significativo pelo fato de ser mais puramente burocrático.

Antes de mostrar a taxa de aumento, devemos observar que as responsabilidades deste ministério não foram constantes durante esses 20 anos. Os territórios coloniais não se alteraram muito em área e população entre 1935 e 1939. Diminuíram consideravelmente em 1943, tendo caído certas áreas em mãos inimigas. Aumentaram de novo em 1947. Mas, desde então, encolheram de ano para ano, à medida que sucessivas colônias adquiriram independência. Seria lógico supor que essas mudanças no escopo do Império se refletissem no tamanho de sua administração central. Mas basta uma olhada nos números para ver que os totais da equipe representam apenas etapas de um crescimento inevitável. E esse crescimento, ainda que relacionado com o que se observa noutros departamentos, nada tem a ver com o tamanho – ou mesmo com a existência – do Império. Quais são as percentagens do aumento? Devemos ignorar, para esse fim, o rápido aumento de pessoal que acompanhou a diminuição das responsabilidades durante a Segunda Guerra Mundial.

Melhor anotar o aumento em tempo de paz: mais de 5,24% entre 1935e 1939 e 6,55% entre 1947e 1954. Dá um aumento médio de 5,89% por ano, marcadamente similar ao já encontrado no aumento do funcionalismo do Almirantado entre 1914 e 1928.

Um maior número de estatísticas comparadas seria impróprio nesta obra. Entretanto, esperamos chegar a uma conclusão no que se refere ao tempo que deve passar entre a nomeação de um funcionário e a nomeação de seus dois ou mais assistentes. Tratando o problema da pura acumulação de funcionários, todas as nossas pesquisas revelam um aumento médio de 5,75% ao ano. Estabelecido esse fato, torna-se possível determinar a Lei de Parkinson em fórmula matemática.

A descoberta desta fórmula e dos princípios gerais em que ela se apóia não tem qualquer valor político. Nenhuma tentativa foi feita de descobrir se os departamentos precisam crescer em tamanho. Quem sustenta que esse crescimento é essencial a fim de alcançar o pleno emprego tem total direito a sua opinião. Os que duvidam da estabilidade de uma economia baseada na leitura de memorandos uns dos outros também têm direito à opinião. Provavelmente seria prematura neste estágio qualquer pesquisa para determinar o quociente que deve existir entre administradores e administrados. Admitido, porém, que exista uma razão máxima, breve deveria ser possível determinar pela matemática quantos anos se passarão até que essa razão, em qualquer comunidade dada, seja atingida. A previsão desse resultado também não tem valor político. Nunca será demais reafirmar que a Lei de Parkinson é uma descoberta puramente científica, inaplicável, exceto em teoria, à política em vigor no dia. Não é assunto do cientista botânico eliminar as ervas daninhas. Já é o bastante que nos diga com que rapidez elas crescem.
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