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Livro: A Mente Milionária | Dr. Thomas J. Stanley | Primeiro Capítulo

O Dr. Thomas J. Stanley é Ph.D. em Administração pela Universidade da Geórgia e especialista no estudo das características que levam as pessoas a alcançar a independência financeira.

Livros A Mente Milionaria Thomas J Stanley BooksLivro: A Mente Milionária

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Moram em casas magníficas localizadas em bairros sofisticados. Equilíbrio é o conceito com que encaram a vida. São financeiramente independentes e ainda gozam a vida; não são pessoas do tipo “só trabalho, diversão zero”. A maioria tornou-se milionária em uma única geração. Nem o estilo de vida, nem a riqueza que possuem vieram de uma significativa alavancagem financeira. Não são viciados em tomar empréstimos. Como conseguiram isso? Como conseguiram equilibrar a necessidade de ficarem ricos e serem economicamente produtivos com a necessidade de aproveitar a vida?

No começo de minha jornada de estudos sobre pessoas ricas, tive uma pequena noção desse segmento da população milionária. Em 1983, solicitaram que eu entrevistasse 60 milionários de Oklahoma. O que aprendi com eles foi simples, mas a mensagem teve um impacto duradouro em mim: você não consegue aproveitar a vida sendo consumista e acumulando dívidas. Os milionários de Oklahoma agiam de maneira completamente oposta, como demonstrado por um grupo de estudo formado por dez deles. Todos esses dez eram empresários, executivos ou profissionais experientes. Todos ricos de primeira geração. Alguns precisaram de empréstimo no início da carreira, mas posteriormente encontraram a luz no final do túnel. Eles tomaram uma decisão radical e quebraram o ciclo de tomar emprestado para consumir, gastar tudo o que ganhavam e tomar, cada vez mais, dinheiro emprestado. Outros jamais foram viciados em empréstimos, nem sentiram a necessidade de exibir o próprio sucesso.

Todos os dez eram multimilionários. Viviam em casas sofisticadas e em bairros tradicionais e respeitados. Dirigiam carros americanos. Aproveitavam a vida e não eram workaholics. Passavam bastante tempo com os familiares e amigos, tomavam pouco dinheiro emprestado e a maioria deles havia enriquecido antes dos 45 anos. Minha entrevista com eles estava programada para durar cerca de duas horas, mas durou quase quatro. Só precisei fazer algumas perguntas — os participantes se divertiam contando como haviam enriquecido. Se existisse uma calçada da fama para grupos de estudo, esses dez milionários certamente fariam parte dela desde o princípio.

Dentre os vários comentários importantes sobre como alguém se torna milionário, o de Gene foi o que mais me chamou a atenção. Ele mencionou que todos aqueles que “dependem de empréstimo” são, na verdade, controlados por um outro alguém, ou seja, alguma instituição.

Gene já estava avançado na casa dos 40 anos nessa época. Declarou que sua ocupação era a de “proprietário de um negócio de recuperação”. Ele comprava ou “recuperava” imóveis de várias instituições financeiras. Essas instituições “tinham empréstimos em atraso… de seis meses ou mais”.

Semanas antes da entrevista, Gene “recuperou” 68 casas, um shopping center e cinco condomínios de apartamentos de uma instituição financeira com a qual já havia negociado muitas vezes. Imediatamente após a assinatura do contrato, o funcionário de liberação de crédito da instituição fez sinal para que Gene o acompanhasse até a grande janela do escritório do último andar. Tratava-se de um edifício alto, do qual se podiam avistar quilômetros e quilômetros da cidade. Havia milhares de prédios comerciais ao redor. Gene podia avistar até alguns bairros residenciais no horizonte.

Enquanto ele olhava pela janela, o funcionário apontava para os edifícios, casas, escritórios, estacionamentos e lojas; e proferiu as palavras que causaram a impressão mais duradoura em Gene:

Nós, donos do crédito, possuímos tudo (…) tudo isso. E quanto aos negócios disponíveis por aí? (…) Vocês, aqueles que tomam empréstimos, apenas gerenciam esses negócios para nós (…) Vocês é que cuidam deles para nós, as instituições financeiras.

Quantas pessoas hoje, nos Estados Unidos, dirigem “seus negócios”, “suas práticas profissionais”, mas, na realidade, estão trabalhando para os que concedem empréstimos ou estão sendo controladas por eles? Quantas vivem em casas luxuosas, mas são obrigadas a trabalhar arduamente para pagar o dono da hipoteca? Quantas se importam com seus automóveis, na verdade alugados dos verdadeiros donos? Pessoas demais. Mas Gene não era uma dessas pessoas, nem tampouco algum dos outros membros do grupo de estudo. Todos possuíam em comum a mente milionária. Nenhum deles tinha um gerente de crédito pessoal para cuidar de seus empréstimos. Todos viviam em casas sofisticadas, mas nenhum tinha uma “hipoteca mastodôntica”.

A lição que aprendi com Gene foi repetida várias vezes pelos milionários entrevistados para a composição deste livro.

Todos eles acreditam ser possível aproveitar a vida e, ainda assim, enriquecerem. Acreditam que a independência financeira e muito do sucesso econômico estão ao alcance de todos sem que haja a necessidade de se adotar um estilo espartano de vida. Mas há certas restrições, como será discutido posteriormente neste livro.

Algumas pessoas não são controladas por instituições de crédito. Pelo contrário, são governadas pela cobiça; são avarentas. Conseguem até ser desleais com o cônjuge e os filhos. Fazem do dinheiro seu deus. Elas não têm a mente milionária. Um outro milionário que tinha uma perspectiva apropriada disse:

Ensinei a meus filhos que não se deve tratar o dinheiro como um deus. Você o controla (…) não o contrário!

A maioria das pessoas descritas neste livro se tornou bem-sucedidas economicamente em uma única geração. Elas começaram do zero. A maioria não herdou dinheiro. Nunca tiveram rendas imobiliárias ou rendimentos de aplicações financeiras. Como conseguiram então? Digo mais uma vez: elas têm mentes milionárias.

Talvez você nunca consiga gerar as consideráveis entradas de capital que muitos desses milionários receberam. Você pode não se tornar multimilionário em poucos anos, mas, ainda assim, poderá se beneficiar compreendendo como essas pessoas conseguem manter um agradável estilo de vida e, ao mesmo tempo, acumular riquezas. Somente poucas pessoas, mesmo aquelas com alta renda, sabem como conseguir isso. Os que possuem mentes milionárias sabem, e são deles os perfis delineados nesta obra.

A BUSCA

A pesquisa que fiz para meu livro anterior, O Milionário Mora ao Lado, e os resultados lá relatados aprofundaram meus conhecimentos sobre as características das pessoas mais ricas dos Estados Unidos. Decidi ampliar o tamanho e a extensão do meu próximo estudo para incluir um número maior de participantes a partir de uma população-base significativamente mais rica. O novo levantamento focalizou também um conjunto diferente de atributos e estilos de vida, projetados para obterem uma prospecção mais abrangente e profunda da mente dos milionários. Os resultados desse estudo serão apresentados nos capítulos seguintes.

É muito mais fácil traçar o perfil das características das pessoas com mente milionária do que encontrá-las. Por que não incluir no levantamento todos os domicílios dos Estados Unidos? Simplesmente porque somente 4,9% dos domicílios americanos, aproximadamente, detêm um patrimônio líquido de US$ 1 milhão ou mais. Nem é possível considerar todos os que vivem em residências luxuosas, pois com freqüência esses “proprietários de mansões” são o que eu chamo de Ricos na Declaração de Renda. Possuem altas rendas, grandes residências, grandes dívidas, mas baixa liquidez. São peritos em preparar pedidos de empréstimo, cuja maioria não pergunta sobre o grau de liquidez do indivíduo.

Em contraste marcante, existem os que eu chamo de Ricos no Balanço Patrimonial. São os da mente milionária, aqueles que objetivam o acúmulo de riquezas. Seus bens excedem em muito suas dívidas. Freqüentemente têm saldo bancário discreto ou saldo credor em aberto.

Se eu tivesse entrevistado as pessoas que vivem em casas sofisticadas em todo o país, qual teria sido o resultado? Um número demasiado de respostas seria proveniente dos Ricos na Declaração de Renda. Todavia, creio que certos tipos de bairro atraem o tipo dos Ricos no Balanço Patrimonial e retêm os de mente milionária, e esses mesmos bairros podem não ser atraentes para os Ricos na Declaração de Renda. Minha hipótese foi confirmada pelos resultados do levantamento que fiz para este livro.

Tendo em vista a obtenção de uma amostra representativa dos Ricos no Balanço Patrimonial, procurei ouvir os conselhos do meu amigo e sócio Jon Robbin. Ele é a autoridade máxima em geodemografia, termo empregado para descrever o estudo das características de pessoas que vivem em áreas geográficas definidas. Freqüentemente essas áreas podem ser localizadas pelo CEP, mas meu levantamento pedia um detalhamento maior e optei pelo grupamento de quarteirões ou bairros, alguns com menos de 50 casas.

Contei a Jon meu problema e ele o resolveu imediatamente. Jon é um matemático formado pela Harvard e um brilhante pesquisador; sua base de dados geodemográficos é extraordinária. Ele desenvolveu um modelo matemático sofisticado capaz de estimar as características do patrimônio líquido da maioria dos grupos de quarteirões/bairros nos Estados Unidos.

Jon descobriu que alguns bairros possuem alta concentração de pessoas com significativa renda proveniente de investimentos e, portanto, provavelmente com as características típicas da mente milionária. Ele selecionou então 2.487 bairros de sua base nacional de 226.399. Seu modelo matemático previu que estes seriam bairros densamente habitados por pessoas realmente ricas, ao contrário daquelas que possuíam mansões, enormes hipotecas, mas baixa liquidez. Foi gerada uma amostra nacional mediante a seleção aleatória de 5.063 residências daqueles bairros e, para cada uma dessas residências, foi enviado um questionário.

Dos 1.001 questionários respondidos por completo, 733 provinham de milionários, cada qual com um patrimônio líquido igual ou superior a US$ 1 milhão. Esse levantamento nacional de 733 milionários forneceu uma parte considerável da base empírica para esta obra. A maioria das pessoas que respondeu vivia em bairros de classe média alta e tradicionais, em casas construídas na década de 1950, ou mesmo de 1940 e anteriores. O quê? Nada de casas com cinco banheiras de hidromassagem? O quê? Nada de novos bairros da moda ou mansões em bairros habitados por ricaços? Será que os que possuem a mente milionária não “seguem a moda” quando se trata de escolher casas e bairros? Parece ser esse o caso. E mais: a maioria dos que responderam tinha pequena dívida remanescente sobre a hipoteca de suas casas, ou não tinha hipoteca alguma.

A metodologia de cada indivíduo, selecionado aleatoriamente, que respondeu ao questionário foi descrita em um artigo (Thomas J. Stanley e Murphy A. Sewall, “The Response of Affluent Consumers to Mall Surveys” [“Resposta dos Consumidores Ricos às Pesquisas dos Shopping Centers”], Journal of Advertising Research, junho-julho 1986, p. 55-58).

O questionário de nove páginas continha 277 questões. Esse projeto foi o mais abrangente dentre os que já tive a oportunidade de empreender. Os dados foram coletados e tabulados por uma das mais importantes organizações de pesquisas dos Estados Unidos, a Survey Research Center, do Institute for Behavioral Research, da Universidade da Geórgia. Esse centro de pesquisas também executou análises de dados por computador com uma única variável ou com múltiplas variáveis.

O questionário e a metodologia do levantamento foram previamente testados em uma amostragem ad hoc de 638 milionários. Todos tinham características das declarações de renda e de balanço patrimonial que os qualificariam para uma hipoteca mastodôntica. Esse levantamento pré-teste foi realizado pelo autor e sua equipe.

Além disso, estudos de casos importantes foram desenvolvidos a partir de uma série de entrevistas pessoais e de grupos de estudo. Esses casos estão detalhados ao longo do livro e fornecem uma peça importante do quebra-cabeça. Não é fácil compreender inteiramente a mente milionária. Os resultados resumidos neste livro têm o objetivo de ajudar as pessoas a desenvolver uma compreensão e uma apreciação maior do significado de um estilo de vida equilibrado.

UM ESBOÇO DEMOGRÁFICO

A seguir, será apresentada uma visão geral dos resultados do levantamento. A fim de desenvolver e ampliar o perfil dos milionários que venceram na vida pelo próprio esforço, temos aqui um esboço em primeira pessoa dos homens e mulheres mais produtivos economicamente dos Estados Unidos.

UMA FAMÍLIA TRADICIONAL

• Sou um homem de 54 anos. Estou casado com a mesma mulher há 28 anos. Em cada quatro de nós, um permanece em companhia da mesma esposa por 38 anos ou mais.

• Temos, em média, três filhos.

• A maioria de nós, 92%, é casada. E, dos casados, 95% têm filhos.

• Apenas 2% de nós não nos casamos.

RIQUEZA, RENDA E ALGUNS OBJETOS DE CONSUMO

• Estamos bem, financeiramente. Nosso patrimônio líquido gira em torno de US$ 9,2 milhões. O patrimônio líquido típico ou médio é de US$ 4,3 milhões. A curva do patrimônio dos que responderam possuir níveis de riqueza muito elevados mostra tendência ascendente.

• Nossa renda familiar anual total é de US$ 749 mil. A renda média é de US$ 436 mil. Aqueles dentre nós que possuem receitas iguais ou superiores a US$ 1 milhão ou mais (20%) deslocam a média para cima.

• Mesmo com essa ordem de riqueza e receita, um típico membro de nosso grupo nunca pagou mais de US$ 41 mil por um automóvel ou gastou mais de US$ 4,5 mil em um anel de noivado. Nem nossos cônjuges, nem nós nunca gastamos mais de US$ 38 (incluindo a gorjeta) por um corte de cabelo. Um de cada quatro de nós nunca gasta mais do que US$ 24 em um corte de cabelo, US$ 340 mil em uma casa, US$ 30,9 mil em um veículo automotor ou US$ 1,5 mil em um anel de noivado. Alguns de nós, cerca de 7% dos casados, não tivemos de comprar um anel de noivado. Herdamos o anel de um parente.

SOBRE A RIQUEZA HERDADA

• Vivemos em casas excelentes em bairros de alto padrão, mas apenas 2% de nós herdaram toda ou parte das casas e propriedades.

• Alguns de nós recebemos uma parte da riqueza como herança. Aproximadamente 8% herdaram 50% ou mais do patrimônio líquido que possuem. Em contraste marcante, 61% nunca receberam herança, presentes financeiros ou auferiram receita proveniente de imóvel ou fundo de investimentos.

ALGUNS NOMES E LUGARES

• Podemos ser encontrados em mais de dois mil bairros tradicionais e respeitados, em pequenas e grandes cidades, tais como: Shawnee Mission, Kansas; New Canaan, Connecticut; Richmond, Virgínia; Pittsburgh, Pensilvânia; Fort Worth, Texas; Kenilworth, Illinois; Columbus, Ohio; Atlanta, Geórgia; Summit, Nova Jersey; Englewood, Colorado e Tulsa, Oklahoma.

ESTILO DE CASA

• Quase todos nós (97%) somos proprietários.

• Há cerca de 12 anos compramos nossa casa atual por um preço médio de US$ 558.718. O preço era de US$ 435 mil. Ficamos muito satisfeitos com a valorização de nossas residências. Atualmente, o valor médio está em torno de US$ 1.381.729. O valor médio atual é de US$ 750 mil. Portanto, lucramos e aumentamos nosso patrimônio líquido pela valorização das casas.

• Apesar do alto valor de nossas residências, geralmente temos pequenos valores de quitação de hipotecas.

• A maioria de nós (61%) mora em casas que valem mais de US$ 1 milhão atualmente. Apenas um de cada quatro (25%) pagou US$ 1 milhão ou mais por suas residências atuais.

• Um dentre dez comprou uma casa nos três anos seguintes da queda da Bolsa de Valores em 1987. Muitos dos que o fizeram estavam procurando execuções hipotecárias.

• Vivemos em uma casa construída em média há 40 anos. Um dentre quatro de nós vive em casas construídas antes de 1936. Somente cerca de 10% vivem em residências construídas nos últimos dez anos.

• A maior parte (53%) não se mudou nos últimos dez anos. Somente 23% do nosso grupo mudou-se duas ou mais vezes durante o mesmo período.

• Apenas uma minoria de 27% construiu sua própria casa algum dia, independentemente do tipo. Nós, que temos uma mente milionária, acreditamos ser melhor comprar uma casa pronta do que entrar no ramo da construção. Consome muito menos tempo e, provavelmente, custa muito menos comprar casas “diretamente de um inventário já existente”.

• Quem de nós é o menos provável em mandar construir as próprias casas? Os advogados! Ficamos sem saber por que eles são tão reticentes em construir.

NOSSAS ATIVIDADES PROFISSIONAIS

• Cerca de um em cada três (32%) tem seu próprio negócio ou é empresário. Praticamente um em cinco (16%) é alto executivo de empresas. Um em dez (10%) do nosso grupo é constituído por advogados e praticamente a mesma proporção (9%) por médicos.

• O terço remanescente de nossa população compõe-se de aposentados, gerentes de nível médio, contadores, profissionais de vendas ou funcionários de desenvolvimento de novos negócios, engenheiros, arquitetos, professores e donas-de-casa.

• Os donos do próprio negócio geralmente são os mais ricos do nosso grupo, mas os altos executivos, freqüentemente, alinham-se entre as fileiras dos multimilionários. Eles correspondem a 16% dos milionários, mas a quase 26% dos decamilionários, aqueles com um patrimônio líquido igual ou superior a US$ 10 milhões.

• Perto de 50% de nossas esposas não trabalham fora. As que estão empregadas são donas do próprio negócio ou empresárias (7%), profissionais de vendas (5%), gerentes de nível médio (4%), advogadas (4%), professoras (3%), altas executivas de empresas (3%) e médicas (2%). Aproximadamente 16% das esposas que trabalhavam fora estão aposentadas atualmente.

• Cerca de dois terços de nós, decamilionários, relataram que as esposas não trabalham fora. Aproximadamente a metade das esposas que o fazem trabalha em tempo parcial.

EDUCAÇÃO

• Temos bom nível de educação, 90% com diploma universitário e mais da metade (52%) com pós-graduação concluída.

UM VISLUMBRE DA MENTE MILIONÁRIA

Além das características demográficas listadas anteriormente, meu levantamento fornece uma rápida percepção da mente milionária. Os capítulos que se seguem expandem essa percepção chegando a um quadro mais detalhado.

• Somos financeiramente independentes, mas cuidamos para ter um estilo de vida confortável e sem extravagâncias.

• Muitos de nós nos concentramos em certos bairros de classe média alta por todos os Estados Unidos. Vivemos em casas sofisticadas, mas temos poucas ou nenhuma dívida. Preferimos comprar propriedades quando muitos outros estão vendendo.

• Quase todos nós somos casados e temos filhos. Na realidade, muitos acreditam que possuir complementos da vida familiar não compete com o processo de construir riquezas.

• Somos ricos por nosso próprio esforço.

• Tiramos férias e viajamos para o exterior, em média, a cada dois anos.

• Poucos de nós temos emblemas da fraternidade Phi Beta Kappa ou conseguimos 1.400 ou mais nos testes SATs, aqueles feitos para ingressar nas faculdades (SAT é a prova de proficiência do 2º grau, e GPA é a média geral das médias anuais, calculada no fim da graduação).

• A maioria de nós ama as carreiras escolhidas ou, parafraseando um dos nossos membros mais ricos, “não é um trabalho, é um labor de amor”.

• Poucos de nós acham necessário sair da cama às 3 ou 4 horas da manhã todos dias úteis para amealhar riquezas.

• Muitos jogam golfe ou tênis regularmente. Na realidade, existe forte correlação entre jogar golfe e o nível do patrimônio líquido.

• Devemos admitir que não estamos entre os que praticam o “faça você mesmo”. Aqueles afeitos a isso tendem a ter significativamente menos riqueza do que a média do nosso grupo.

• Nós nos tornamos ricos sem comprometer nossa integridade. Na realidade, creditamos à integridade uma parcela importante do nosso sucesso.

• Não somos workaholic, passamos muito tempo em atividades sociais com nossos amigos e com a família. Quando trabalhamos, trabalhamos pra valer. Concentramos nossa energia procurando maximizar o retorno pelos nossos esforços.

• Passamos bastante tempo planejando nossos investimentos e, freqüentemente, pedimos conselhos aos nossos consultores fiscais. Muitos dentre nós encontramos tempo também para participar de cultos religiosos, atuando de forma proativa no levantamento de fundos para causas nobres.

• Acreditamos ser plenamente possível conciliar as metas financeiras individuais com um agradável estilo de vida. Existe uma correlação positiva entre o número de atividades ligadas a um estilo de vida saudável e o nível de patrimônio líquido.

• Muitas vezes nosso estilo de vida nos coloca em contato com pessoas que, posteriormente, se transformam em nossos clientes, consumidores, pacientes, fornecedores ou grandes amigos.

• Para muitas atividades descobrimos ser verdadeiro o velho adágio: as melhores coisas na vida são gratuitas, ou, pelo menos, têm preços razoáveis. Não custa muito assistir à participação de seu filho na competição da escola, visitar um museu ou jogar cartas com os amigos. Custa muito menos do que uma ida ao bingo.

FATORES DE SUCESSO

No Capítulo 2, “Fatores de Sucesso”, os milionários discorrem sobre os fatores que consideram muito importantes para explicar o próprio sucesso. Seus pontos de vista podem surpreender algumas pessoas, porque aquilo que valorizam parece estranho quando confrontado com muitas noções populares. Seus pontos de vista são diferentes dos perfis estereotipados retratados como realidade por Hollywood: a boa aparência e o aspecto de supermodelo nunca foram mencionados nem mesmo por um único milionário que respondeu ao questionário. Nem uma única vez.

Muitos pais bem-intencionados, mentores, professores e até alguns dos melhores gurus de Wall Street não concordam com as opiniões defendidas pela maioria dos milionários. E isso sem falar nos anúncios de prêmios acumulados da loteria e da Publishers Clearing House. Os milionários têm uma explicação diferente para seu sucesso.

Quais são os cinco fatores principais mais freqüentemente mencionados por milionários como sendo importantes na explicação de seu sucesso econômico? Depois de lê-los, pegue um pequeno pedaço de papel e escreva esses cinco elementos de sucesso financeiro. Mantenha a lista na bolsa ou na carteira e pregue uma cópia na tevê. Da próxima vez que aparecer um anúncio de prêmio acumulado na loteria, na corrida de cavalos ou sorteios no bingo, dê uma olhada nessa cópia. Os anúncios apregoam que você pode ganhar um desses grandes prêmios, mas o que lhe diz a lista dos cinco pontos?

As pedras fundamentais do sucesso financeiro são:

• Integridade: seja honesto com todas as pessoas.

• Disciplina: exerça o autocontrole.

• Sociabilidade: procure se dar bem com todos.

• Procure contar com o apoio de seu parceiro em todas as situações.

• Trabalhe com dedicação, muito mais do que a maioria das pessoas.

Em que posição fica o elemento sorte? Ele está perto do final da lista dos 30 fatores de sucesso, ocupando a 27ª posição. Mas, nesse contexto, os milionários referiram-se notadamente a fatores incontroláveis, como os econômicos, capazes de provocar impacto no patrimônio líquido de uma pessoa. Nenhum dos milionários entrevistados fez qualquer observação favorável aos jogos de azar. Uma discussão mais detalhada sobre o hábito de jogar ou não se encontra no Capítulo 9, “O Estilo de Vida dos Milionários: Real Versus Imaginário”.

Alguns podem argumentar que muitas pessoas — e não apenas os milionários dos Estados Unidos — têm os cinco elementos de sucesso citados anteriormente, embora não sejam milionários hoje. Esses cinco são os elementos básicos. E o que acontece se faltar um ou mais desses elementos? De acordo com a grande amostra de milionários estudados, as chances são contra a possibilidade de que você obtenha sucesso econômico. Entretanto, contando com esses e com alguns outros fatores, há chances de uma pessoa ficar rica no futuro, caso não seja rica ainda. Vejamos uma vez mais o que dizem os próprios milionários:

• Como se tornaram milionários em uma única geração? A maioria de nós consegue ver a oportunidade econômica ignorada por outros, e temos a propensão de assumir riscos financeiros caso exista perspectiva de bom retorno. Isso é especialmente verdadeiro para os que são donos do próprio negócio. Mas sabemos que existe uma correlação forte entre a vontade de assumir riscos financeiros e o nível de riqueza alcançado. Trata-se menos de investir no mercado de ações e mais em investir em nós mesmos, em nossas carreiras, em nossas práticas profissionais, em nossos negócios privados e assim por diante.

• A maioria concorda com a afirmativa de que possuímos qualidades de liderança marcantes. Temos capacidade para vender nossas idéias a empregados e fornecedores, bem como para apresentar produtos a um público-alvo cuidadosamente escolhido.

• Por que a economia dos Estados Unidos tem sido tão generosamente compensadora? Isto ocorre porque fornecemos um produto ou serviço com forte demanda mas com poucos fornecedores capazes de atendê-la. Não seguimos a multidão. Isso se aplica tanto ao que queremos vender quanto ao objeto de nossos investimentos.

NASCIDOS INTELECTUAIS?

Os milionários são superdotados intelectualmente? Todos se graduaram advindos da fraternidade Phi Beta Kappa em faculdades de primeira linha? É comum a crença de que pessoas intelectualmente superdotadas possuem elevada inteligência analítica. Por sua vez, a inteligência analítica é supostamente mensurada por “testes” padronizados de QI. Em vez de usar a pontuação pelo QI, empreguei a pontuação nos testes SAT no meu levantamento, por estarem mais prontamente disponíveis. Existe correlação positiva entre esses dois sistemas de pontuações. Descobri também que as auto-avaliações dos milionários sobre as respectivas inteligências analíticas, desempenho no SAT e notas de faculdade estão relacionados.

Os milionários acreditam que possuem inteligência superior? Mais basicamente ainda, qual a importância da inteligência na explicação de diferentes sucessos econômicos? Estas e muitas outras questões relacionadas são detalhadas no Capítulo 2, “Fatores de Sucesso”, e no Capítulo 3, “Na Época de Escola”. Considere os seguintes fatos sobre milionários como introdução a esses tópicos:

• Ter tido bom nível educacional não quer dizer que fomos todos graduados com honras quando saímos da faculdade. O geral das médias anuais durante a graduação superior foi de 7,3 em uma escala de 10,00.

• Nossa pontuação no SAT foi de 1.190, significativamente acima da usual, sem ser, entretanto, suficientemente alta para conquistar a admissão nas faculdades reconhecidamente seletivas ou competitivas. A maioria de nós não freqüentou essas faculdades, nem indicou, quando indagada durante o questionário, que a graduação em uma faculdade de renome era importante para explicar nosso respectivo sucesso econômico. Mas até mesmo a pontuação de 1.190 no SAT pode estar um pouco inflacionada. Praticamente 90% dos integrantes de nosso grupo que eram alunos nota 10 no colegial lembraram-se de citar suas pontuações no SAT. Ironicamente, apenas metade do grupo que era composto por alunos nota 7 foi capaz de lembrar de sua pontuação no SAT. Sabe-se que as pontuações no SAT e as médias ponderadas GPA são correlacionadas. E se a pontuação de 1.190 fosse ajustada para refletir a pontuação no SAT daqueles alunos nota 7, quem não se lembraria dela? Estima-se que pelo menos 100 pontos poderiam ser diminuídos da média 1.190!

• A maioria de nós já ouviu de alguma autoridade, ou sabe a partir de resultados de testes-padrão, que nós, os milionários, não somos:

  • Intelectualmente superdotados.
  • Qualificados para estudar direito.
  • Qualificados para estudar medicina.
  • Qualificados para fazer um MBA.
  • Suficientemente espertos para sermos bem-sucedidos.

• Freqüentemente tentamos imaginar como foi possível que nós, como grupo, pudemos ter alcançado tanto sucesso financeiro, considerando o fato de que poucos receberam algum dia o epíteto de “intelectualmente superdotado”. Portanto, questionamos se existe alguma relação entre capacidade intelectual, desempenho acadêmico e sucesso econômico. Somos bem-sucedidos apesar de nossa capacidade intelectual, ou por que sempre sentimos que tínhamos que trabalhar mais para compensar nossas deficiências?

LEITURA RECOMENDADA

É possível ampliar a compreensão sobre a fraca relação existente entre capacidade intelectual/inteligência analítica e os vários indicadores de sucesso pela leitura de Successful Intelligence, de Robert J. Sternberg (Nova York: Simon & Schuster, 1996). O dr. Sternberg, autoridade proeminente em inteligência humana, descobriu que a inteligência bem-sucedida compõe-se de três tipos, enquanto a inteligência analítica, de apenas um. Os outros tipos são a inteligência criativa e a inteligência prática, ou o bom senso. Será que a maioria dos milionários é economicamente bem-sucedida por causa da elevada criatividade e muito bom senso? Esta e outras questões relacionadas são abordadas ao longo deste livro.

NA ÉPOCA DE ESCOLA

Quais experiências de colégio e de faculdade impulsionam os milionários no sentido de tornarem-se adultos economicamente produtivos? A resposta a esta pergunta encontra-se detalhada no Capítulo 3, “Na Época de Escola”, mas é evidente que os milionários aprendem muito mais nos estudos do que lhes é oferecido nos livros. A maioria deles nos relatou que aprendeu sobre tenacidade, sobre como lidar com pessoas, ter autodisciplina e discernir situações corretamente. Uma boa parcela da população milionária constitui-se de pessoas que trabalharam arduamente na escola, mas que não se formaram com a nota máxima. Os milionários com pontuação no SAT não muito espetacular ocupam um lugar de destaque neste livro. Tracei o perfil deles sob o título de o Clube dos 900 — apenas milionários com menos de 1.000 no SAT foram admitidos. Eles dizem que:

• Alguns de nós fizemos menos do que 1.000 pontos no SAT, mas ainda assim ficamos milionários. Quais experiências de colégio e faculdade nos impulsionaram para que nos tornássemos adultos economicamente produtivos? Setenta e dois por cento dos membros do Clube dos 900 responderam que foi: Aprendendo a lutar para alcançar nossas metas porque nos foi dito que tínhamos “capacidade média ou deficitária”.

• A vasta maioria de nós acredita que nos beneficiamos da experiência educacional que tivemos. A maior parte (93%) apontou que a experiência estudantil de nível médio e superior foi: Significativa para determinar que o trabalho árduo tinha mais importância para conquistar objetivos do que uma alta capacidade intelectual de origem genética.

• A maioria de nós sentiu que a escola foi importante na determinação das habilidades para: Distribuir o tempo adequadamente e fazer julgamentos precisos acerca de pessoas.

A população milionária abrange muitas pessoas que não foram alunos nota 10, mas que aprenderam muito na escola. E não foram apenas as matérias obrigatórias que tiveram importância. As matérias “disciplina” e “persistência” básicas também constituíram relevante experiência escolar.

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Livro: A Arca Perdida da Aliança | Tudor Parfitt | Primeiro Capítulo

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A Caverna

Era um tempo de seca. Em 1987 minha casa era uma cabana de palha numa ressecada área tribal no centro do Zimbábue, no sul da África, completamente isolada do resto do mundo. Eu estivera fazendo pesquisas de campo sobre uma misteriosa tribo africana chamada Lemba. Isso era parte do meu trabalho. Na época eu era professor de hebraico no Departamento de Estudos do Oriente Próximo e Médio na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS, em inglês) da Universidade de Londres, e já fazia um tempo que esta tribo era meu principal tema acadêmico.

Como eu passava o tempo na aldeia? No calor escaldante do dia caminhava pelos morros próximos ao povoado e remexia nos restos da antiga cultura de construções de pedra, que, segundo os lembas, era trabalho de seus ancestrais distantes. Com minha pequena colher de pedreiro havia descoberto alguns ossos, pedaços de cerâmica local e um ou dois instrumentos de ferro com idade incerta. Não era muita coisa sobre a qual escrever. Depois eu lia, fazia minhas anotações e passava boa parte da noite ouvindo as narrativas dos anciãos.

Os lembas faziam uma reivindicação espantosa, de que tinham origem israelita, ainda que a presença de israelitas ou judeus na África central jamais tivesse sido atestada anteriormente. Por outro lado, desde o início da Idade Média, houvera rumores de reinos judeus perdidos na África mais escura. O que eu ouvira era que a tribo acreditava que, quando deixaram Israel, estabeleceram-se numa cidade chamada Senna — em algum local do outro lado do mar. Ninguém tinha qualquer idéia de onde, no mundo, ficava essa misteriosa Senna, nem eu. A tribo pedira que eu encontrasse sua cidade perdida, e eu havia prometido tentar.

O que eu sabia em 1987 sobre a tribo lemba, com 40 mil membros, era que eles eram negros, falavam várias línguas banto como venda ou shona, habitavam diversos locais na África do Sul e no Zimbábue, fisicamente não se diferenciavam de seus vizinhos e tinham uma quantidade de costumes e tradições idênticas às das tribos africanas entre as quais viviam.

Pareciam ser completamente africanos.

Mas, por outro lado, também tinham alguns costumes e lendas misteriosos que não pareciam africanos. Não se casavam com pessoas de outras tribos. Não comiam tradicionalmente com outros grupos. Circuncidavam os meninos. Praticavam a matança ritual de animais, usando uma faca especial; recusavam-se a comer porcos e várias outras criaturas; sacrificavam animais em locais altos como os israelitas antigos e seguiam muitas outras leis do Velho Testamento. A visão da lua nova era de importância fundamental para eles, assim como para os judeus. Os nomes dos clãs pareciam derivados do árabe, do hebraico ou de alguma outra língua semítica.

Durante os meses que eu havia passado na aldeia tentando desvendar seus segredos, jamais encontrei a prova absoluta — a arma fumegante, demonstrando que sua tradição oral, que os ligava à antiga Israel, era verdadeira. Jamais encontrei uma inscrição em pedra, um fragmento de uma oração em hebraico, um artefato do antigo Israel. Nem mesmo uma moeda ou um caco de cerâmica.

Antes de chegar ao Zimbábue eu havia passado alguns meses com as grandes comunidades lembas no país vizinho, a África do Sul. Ali, os líderes da tribo haviam me dado muitas informações. Eu esperava conseguir mais no Zimbábue e pedi que o chefe lemba local facilitasse a pesquisa. O chefe Mposi convocou uma reunião dos anciãos dos clãs lembas e, instigados por minha promessa de tentar encontrar sua cidade perdida de Senna, concordaram formalmente em permitir que eu pesquisasse sua história.

Mas depois disso não me contaram nem de longe o quanto eu esperava. Eram reservados com relação a qualquer coisa que tivesse a ver com suas práticas religiosas. Foi somente a disposição de me sentar perto deles até tarde da noite, até que meu uísque tivesse afrouxado a língua dos velhos, que me permitiu ouvir algo sobre seu culto notável.

No dia seguinte eles se arrependiam das indiscrições noturnas e murmuravam que os anciãos do clã não deveriam ter autorizado minha pesquisa, que os brancos não tinham nada que se intrometer nos assuntos deles e que eu deveria parar de tentar penetrar no manto de segredo que velava seus ritos religiosos.

Outros tentaram me amedrontar e fazer com que eu fosse embora contando histórias sinistras do que havia acontecido com gerações anteriores de pesquisadores que tinham penetrado demais em caminhos proibidos. Um deles fora circuncidado à força depois da ousadia de caminhar pela Dumghe, a montanha sagrada da tribo. Outro havia chegado perto demais de uma caverna sagrada na base da Dumghe e fora ferido com uma assegai tradicional e tremendamente espancado. Escapara com vida por pouco.

À medida que minhas esperanças de encontrar a pista fundamental com relação à verdadeira identidade deles começavam a morrer, também morriam as plantações ao redor da aldeia. Não chovera nada durante meses. Havia um pouco de líquido denso e lamacento no fundo das cacimbas. Todas as manhãs as mulheres traziam água em enferrujadas latas de óleo equilibradas na cabeça. Quando isso acabasse, não teriam o que beber. A não ser a cerveja da venda, para quem tivesse dinheiro. E esses não eram muitos.

Nesta manhã, cedo, antes do nascer do sol, o chefe havia convocado uma cerimônia da chuva. O mensageiro do chefe tinha chegado assim que as pessoas da casa começavam a acordar. A fogueira de cozinhar estava sendo soprada, e era aquecida a água para o chá e para abluções, trazida todas as manhãs à minha cabana pela filha de meu gentil anfitrião, Sevias. O mensageiro disse a Sevias que a presença dele seria necessária naquela noite. Este era um último e desesperado lance de dados.

Houvera seca durante tanto tempo que os riachos que um dia haviam trazido vida e peixes ocasionais ao povoado tinham desaparecido completamente. Agora pareciam trilhas de cabras cheias de poeira funda e fina. Sem água, logo a vida na aldeia seria impossível. A tribo teria de se mudar. Mas para onde? A seca cobria toda a região.

No fim da tarde os anciãos e notáveis se reuniram na grande cabana do chefe, no centro de seu kraal — o grupo de cabanas que formavam sua propriedade. Tinham sido convidados a beber chibuku — uma cerveja de milho feita em casa, com consistência de mingau —, dançar durante toda a noite e entreter os ancestrais pedindo chuva. Isso era os confins da África mais profunda.

Sevias me convidou a acompanhá-lo. Caminhamos juntos pela terra ressequida enquanto ele me contava sobre os grandes rebanhos que já possuíra, sobre as árvores gemendo sob o peso das frutas, sobre as espigas de milho que antigamente eram grandes como abóboras.

Estávamos entre os primeiros a chegar. Sentei-me perto de Sevias num banco de barro cozido que rodeava a cabana e olhei com grande interesse os preparativos para a festa dos ancestrais. Nunca havia imaginado que teria permissão de observar qualquer coisa como aquela já que sem dúvida ela fazia parte do coração de seu culto.

Eu tinha uma máquina fotográfica, um gravador e um caderno. Tinha quase certeza de que esta noite me daria material para ao menos um artigo acadêmico, um artigo impressionante.

O chefe Mposi sentou-se sozinho. Estava com saúde ruim e parecia preocupado. Olhava o chão de terra, apoiando a cabeça no topo da bengala. Com um movimento súbito chamou as esposas para servirem cerveja.

— Ela está lá, parada, e não está fazendo bem a ninguém!

— Já vou servir — respondeu rispidamente a esposa mais velha, levantando o pote de cerveja com os braços musculosos.

— Muito tarde — resmungou ele.

O pote de chibuku foi passado de mão em mão, da direita para a esquerda, sem qualquer demonstração inadequada de pressa, como uma garrafa de vinho Madeira depois de um jantar elegante em Oxford.

O silêncio foi rompido pelo chefe chamando os nomes de suas quatro esposas. Eram singularmente diferentes uma das outras em idade, tamanho e beleza. Cada uma respondeu por sua vez, ajoelhadas lado a lado, e começaram a bater palmas. Viraram-se de costas para o chefe, levantaram-se e acenderam velas, enquanto as outras mulheres começavam a ulular e assobiar.

Uma longa trompa de chifre de antílope foi enfiada através da abertura para dentro da cabana, e um toque triunfante silenciou o som agudo das mulheres. O homem que soprava a trompa era alto e forte. Usava uma saia feita de tiras de pele preta e ao redor da cabeça tinha uma faixa de pele de leopardo. Era o feiticeiro. Seu nome era Sadiki — um dos nomes de clãs dos lembas — nome inconfundivelmente semítico cuja presença na África central era uma anomalia misteriosa. Ele comandou a cerimônia. Chocalhos magagada, feitos de cabaça, estavam amarrados aos seus tornozelos com cordas de fibra de casca de árvore. Ele batia os pés no chão de terra da cabana e soprava uma nota longa e assombrosa na trompa.

Quatro mulheres idosas sentadas juntas no banco de barro que seguia por todo o perímetro da cabana começaram a bater em tambores de madeira. Os outros convidados estavam reunidos ao redor do feiticeiro, impelidos nos movimentos curtos e estremecidos da dança pelos ritmos dos tambores e dos chocalhos magagada, praticamente sem se mexer, perdidos em concentração.

Sadiki estava parado no epicentro da tempestade de sons, direcionando seu movimento. Tinha um ar poderoso e régio, e olhava com arrogância ao redor. De modo sugestivo, mexeu um dos pés. Depois, uma das mãos. Seu corpo seguiu e, posicionando-se na frente de um dos tambores, dançou como Davi diante da Arca, parando para soprar a trompa de chifre semelhante à shofar que um dia fora tocada no Templo de Jerusalém. As tocadoras de tambor pareciam velhas e frágeis demais para produzir um som daqueles, no entanto deveriam tocar durante horas, sem pausa.

A cerveja começou a circular mais depressa. A pobreza havia dominado a aldeia. Fazia muito tempo que os potes de cerveja não eram passados com tanta liberalidade. Alguns homens, não mais acostumados a beber, já estavam inebriados.

A mulher mais velha do chefe já estava aparentemente possuída pelos espíritos dos ancestrais. Olhando de um lado para o outro, caiu no chão chorando. Olhando ao redor de modo desfocado, levantou o vestido comprido, de estilo ocidental, até tirá-lo pela cabeça. Dançou posicionando-se no espaço diante das tocadoras de tambor, que Sadiki deixara livre.

O ritmo acelerou de novo. Com o suor descendo pelo peito largo e musculoso, Sadiki pôs um adereço de penas pretas de águia na cabeça da mulher. Sevias me disse que isso era para demonstrar respeito pelos ancestrais. Ela continuou dançando, lançando grandes sombras nas paredes iluminadas por velas. Caiu de joelhos, soluçando, diante do velho chefe e pôs com ternura o adereço na cabeça dele.

O chefe estava morrendo. Todo mundo dizia isso. Parecia cinzento e doente. Fez um gesto para eu me juntar a ele. Pegou minha mão e sussurrou no meu ouvido:

— Os ancestrais vieram de Israel: vieram de Senna. Estão aqui conosco. Adeus, Mushavi. Talvez nos vejamos em Senna.

Senna era a cidade perdida de onde os lembas tinham vindo, também era o lugar aonde esperavam ir depois de morrer.

O rosto dele, iluminado pela luz trêmula das velas, era corrugado com marcas da idade e da doença; seus olhos estavam escondidos por papadas de carne clara e pintalgada. Espiou-me e depois indicou que eu deveria me levantar e deixá-lo. Entristecido e aturdido por suas palavras, voltei ao banco onde estavam meu caderno, a máquina fotográfica e o gravador.

Eu estava na aldeia havia tanto tempo que começava a me sentir em casa, como um deles. Tinha bebido um bocado de sua cerveja chibuku. Depois dos primeiros goles ela se torna mais ou menos palatável, e depois de um tempo é positivamente aceitável. Percebi que aquele não era um momento para ficar sentado num canto tomando notas e gravando música lemba. Havia coisas mais importantes a fazer. Esta era mais uma ocasião para participação do observador. Tirei a camisa para, como pensei, misturar-me aos homens e mulheres cujas sombras fantasmagóricas saltavam loucamente nas paredes e que caíam numa espécie de transe ao meu redor. A mulher mais velha do chefe atravessou a cabana, inclinou-se sobre mim, e sussurrou algo incompreensível em shona, a língua da tribo shona, dominante na região do Zimbábue onde viviam os lembas.

Comecei a dançar ao ritmo forte dos tambores. Uma das mulheres mais novas do chefe estava dançando na minha frente, oscilando, bêbada, suplicando aos ancestrais.

As tocadoras de tambor aceleraram o ritmo.

Outra mulher, num transe remelento, foi para o centro da cabana. Homens ficaram de pé ao redor, admirando seu corpo esguio, instigando-a.

— Ela está falando com os ancestrais — gritou Sevias no meu ouvido. — Logo eles vão responder. Quando as vozes deles forem ouvidas, será melhor você ir embora.

Perto da meia-noite houve uma mudança na atmosfera. Imaginei que havia chegado a hora de oferecer os sortilégios e as orações secretas do culto. Essas eram coisas muito bem guardadas. Eram os códigos orais que governavam a vida dos lembas e que sem dúvida tinham as pistas para o passado que eu estava buscando. Esses códigos e sortilégios eram para mim o âmago da questão. Era disso que eu queria fazer parte. Era para isso que eu tinha vindo.

Meus braços estavam levantados; meu rosto estava voltado para o teto de palha. O suor escorria do meu corpo. Sentia uma empolgação enorme. Eu fora aceito, era um deles. Os ancestrais iam baixar e eu estaria ali para observar o que aconteceria em seguida. Ninguém do mundo externo jamais havia observado isso. Dentro da minha cabeça podia sentir uma espécie de canal se abrindo, parecia um canal de comunicação com os ancestrais israelitas da tribo.

Eu estava me rejubilando com a eficácia de minha metodologia de pesquisa cinco estrelas quando senti um punho se chocar contra a lateral do rosto. Era o punho da mais velha e mais forte mulher do chefe. Caí no chão em cima do corpo deitado e fétido do maior bêbado dos Mposi — uma espécie de mendigo chamado Klopas, que eu conhecia e cujo cheiro havia sentido muitas vezes. Por alguns segundos, perdi a consciência. Fui arrastado para fora da cabana por alguns homens e encostado na lateral da construção.

— É… eu chateei a mulher do chefe — falei. — Lamento muito.

Não estava lamentando tanto assim. Estava me sentindo tremendamente furioso.

— Mushavi — disse Sevias, inclinado acima de mim. — Você não chateou ninguém. O soco foi apenas as boas-vindas dos ancestrais. Talvez também tenha sido um pequeno aviso. Só um pequeno aviso. Se os ancestrais não quisessem você aqui, não teriam dado um soco fraco como esse, teriam feito picadinho de você. Agora você deve ir, porque os ancestrais estão chegando entre nós. Os que não são iniciados devem sair.

Os espíritos dos ancestrais não ficariam felizes em me ver ali, explicou ele. Segredos seriam compartilhados. Havia coisas que eu não deveria saber. De modo truculento, pensei que, se eu não conseguisse descobrir as coisas secretas ali, naquela noite, as chances eram de nunca saber. Era agora ou nunca.

Do lado de fora da cabana, um grupo de anciãos estava olhando ansioso para o céu noturno, esperando sinais de chuva. Sevias sentou-se ao meu lado, encostado na parede. Seu rosto com rugas gentis traía sinais de preocupação. Sua preocupação não era somente pela chuva, ou pela falta dela, se bem que esta fosse uma questão fundamental para ele, assim como para os outros — de fato sua vida e a vida de sua família dependiam disso — mas também por mim e pelo meu desapontamento ao não ser admitido nos segredos tribais. Eu já havia lhe contado que meu trabalho de campo não rendera tanto quanto eu esperava.

De cabeça inclinada, as mãos levantadas num gesto de súplica, ele perguntou com apenas uma sugestão de sorriso:

— Mushavi, você encontrou o que estava procurando no tempo que passou conosco?

Ele freqüentemente me honrava com o elogioso nome tribal de Mushavi, que os lembas geralmente só usam entre si e que eu achava que poderia estar conectado a Musawi — a forma arábica de “seguidor de Moisés (Musa)”. Talvez ele estivesse tentando me lisonjear chamando-me de Mushavi, mas o resto de sua pergunta era incompreensível. Ele sabia muito bem que, na maior parte, os segredos da tribo permaneciam intactos.

Sorri, e com o máximo de paciência que pude juntar, falei:

— Você sabe muito bem, Sevias, que ainda há muitos segredos que vocês não me contaram. E não se esqueça que os anciãos de todos os clãs concordaram que eu tivesse acesso a tudo.

— É — concordou ele, sério — mas muitas vezes expliquei a você que, não importando o que tenha sido dito na reunião dos clãs, há coisas que não podem ser contadas fora da irmandade dos iniciados. Orações, feitiços, sortilégios. Muitos dos nossos segredos não podem ser revelados. Os outros lhe disseram isso. Eles teriam de matá-lo, Mushavi, se você ficasse sabendo dessas coisas secretas. É a lei.

Seu rosto enrugado se tornou quase uma paródia de preocupação e ansiedade.

Sevias era um homem bom. Em todos os meses que eu havia passado em seu kraal, apesar da seca e da situação política insegura dentro da tribo e do país como um todo, apesar de dificuldades familiares, ele sempre fora calmo, gentil e digno. Agora eu percebi que nunca fora mais feliz na vida do que quando me sentava sob a grande árvore no kraal de Sevias.

Ele arrastou os pés descalços e calosos na terra seca.

— Mas e os segredos da tribo? — insisti. — As coisas que vocês trouxeram do norte, de Senna. Já me contaram sobre elas, mas ainda não vi nenhuma.

— É verdade. Nós trouxemos objetos de Jerusalém há muito tempo e trouxemos objetos de Senna. Objetos sagrados, importantes, de Israel e Senna.

Senna era a cidade perdida que, segundo a tribo, ela havia habitado depois de deixar a Terra de Israel. O professor M.E.R. Mathivha — o erudito líder da tribo lemba na África do Sul — já havia me contado muitas coisas sobre a lenda de Senna. A tribo viera de Senna “atravessando o mar”. Ninguém sabia onde isso ficava. Haviam atravessado “Pusela”, mas ninguém sabia onde isso ficava, também. Tinham vindo para a África, onde, por duas vezes, reconstruíram Senna. Esse era o resumo da história.

— Sevias — insisti —, você não pode ao menos me contar o que aconteceu com os objetos da tribo?

Ele examinou o céu e permaneceu calado. Depois murmurou:

— A tribo está espalhada numa grande área. Você sabe, uma vez nós violamos a lei de Deus. Comemos camundongos, que são proibidos para nós, e fomos espalhados por Deus entre as nações da África. Assim os objetos foram espalhados e escondidos em locais diferentes.

— E o ngoma? Onde você acha que pode estar?

O ngoma era um tambor de madeira usado para guardar objetos sagrados. A tribo havia seguido o ngoma, carregando-o no alto, durante a viagem pela África. Eles afirmam que o trouxeram de Israel há tantos anos que ninguém se lembra mais de quando isso aconteceu.

Segundo suas tradições orais, eles carregaram o ngoma à frente da tribo nas batalhas e ele os havia guiado na longa caminhada pelo continente. Segundo a tradição oral dos lembas, o ngoma costumava ser carregado diante do povo, em duas varas. Cada vara era inserida nos dois aros de madeira presos nos dois lados do ngoma. O ngoma era muitíssimo sagrado para a tribo, praticamente divino. Objetos sagrados do culto eram levados ali dentro. O objeto era santificado demais para ser posto no chão: no fim de um dia de marcha era pendurado numa árvore ou posto numa plataforma construída especialmente para ele. Era santo demais para ser tocado. Os únicos membros da tribo que tinham permissão de se aproximar dele eram os sacerdotes hereditários que sempre faziam parte do clã Buba. Os sacerdotes buba serviam ao ngoma e o guardavam. Qualquer um que o tocasse, não sendo os sacerdotes e o rei, seria derrubado pelo fogo de Deus que irrompia do próprio tambor. Ele era levado para a batalha e garantia a vitória. Matava os inimigos dos guardiães do ngoma.

Eu ouvira falar do ngoma pela primeira vez alguns meses antes, na África do Sul. O professor Mathivha me contara o que sabia sobre o objeto e eu recebera um relato detalhado de um velho lemba chamado Phophi, que conhecia bem a história da tribo. Phophi havia me contado sobre o tamanho do ngoma, suas principais propriedades e que tradições eram associadas a ele.

Eu também sabia que, cerca de quarenta anos antes, um antigo ngoma fora encontrado por um estudioso alemão chamado von Sicard numa caverna junto ao Limpopo, o rio infestado de crocodilos que marca a fronteira entre o Zimbábue e a África do Sul. Ele o havia fotografado e a foto fora incluída num livro que escreveu sobre o assunto, mas aparentemente desde então o ngoma havia desaparecido sem deixar vestígios. Mathivha, Phophi e outros anciãos lembas haviam me contado que o artefato encontrado pelo alemão em sua caverna remota era sem dúvida o ngoma original que os lembas haviam trazido do norte.

Uma noite, algumas semanas antes da dança da chuva, sentado até tarde junto ao fogo com Sevias e outros anciãos, ouvi um pouco mais sobre a lenda do ngoma.

— O ngoma veio do grande templo de Jerusalém — disse Sevias. — Nós o carregamos até aqui, pela África, usando as varas. À noite, ele ficava numa plataforma especial.

De repente me ocorreu que, na forma, no tamanho e na função, o ngoma lungundu era semelhante à bíblica Arca da Aliança, a famosa arca perdida que fora procurada sem sucesso através dos tempos. A descrição bíblica do objeto, que eu conhecia desde os anos em que estudava hebraico clássico em Oxford, estava gravada na minha mente.

Uma arca de madeira de shittim; o seu comprimento será de dois côvados e meio, e a sua largura de um côvado e meio, e de um côvado e meio a sua altura (…) e fundirás para ela quatro argolas de ouro, e as porás nos quatro cantos dela, duas argolas num dos lados, e duas argolas noutro lado. E farás varas de madeira de shittim, e as cobrirás com ouro. E colocarás as varas nas argolas, aos lados da arca, para se levar com elas a arca. As varas estarão nas argolas da arca, não deverão ser tiradas dela. Depois porás na arca o testemunho, que eu te darei.

A Arca, como o ngoma, tinha poderes sobrenaturais. Jamais poderia tocar o chão. Era praticamente divina. Como o ngoma, era levada para a batalha e garantia a vitória. Objetos sagrados, inclusive as tábuas em que foram inscritos os Dez Mandamentos e a vara mágica de Arão, irmão de Moisés, eram guardados ali dentro. Qualquer um que ao menos olhasse para ela seria derrubado por seu poder espantoso. Uma casta sacerdotal fundada por Arão, irmão de Moisés, guardava a Arca. O clã sacerdotal dos Buba, fundado por um indivíduo chamado Buba, que supostamente teria guiado os lembas para fora de Israel, guardava o ngoma.

As semelhanças funcionais eram marcantes. Mas as diferenças na forma eram significativas. Aparentemente a Arca era uma espécie de caixa, cofre ou baú, ao passo que o ngoma — apesar de também carregar coisas dentro — era um tambor. A Arca era feita de madeira, mas coberta com folhas de ouro; o ngoma era simplesmente feito de madeira.

De modo mais fundamental, não havia conexão nos tempos antigos entre o mundo da Bíblia e esse canto remoto do interior da África. E não havia absolutamente nenhuma prova, de modo algum, de que os guardiães lembas do ngoma tivessem ancestralidade judaica. Mesmo assim, a sobreposição entre esses objetos aparentemente muito diferentes me atraía e levou minha mente em direção à estranha história da Arca da Aliança. Era uma comparação interessante mas, pensava eu, nada mais do que isso.

Do lado de fora da cabana do chefe, com o ruído tumultuoso dos tambores suplantando todos os sons da noite, encostei-me na parede de barro e palha e senti lentamente a dor do soco ir sumindo. Sevias parecia pouco à vontade. Segurou meu braço e fez com que eu me levantasse, levando-me mais para longe dos grupos de homens que estavam de pé ao redor, desfrutando do ar noturno antes de retornar ao frenesi da dança.

— Falar do ngoma e das coisas que foram trazidas de Israel é perigoso demais, Mushavi. Isso faz parte dos conhecimentos secretos da tribo. Não posso lhe contar sobre isso mais do que já contamos. Contamos que nós nos chamamos de Muzungu ano-ku bva Senna, “os brancos que vieram de Senna”. Contamos que o ngoma veio conosco de Senna. Contamos o que era o ngoma. E contamos que o ngoma não é visto por homens há muitos, muitos anos.

Sevias já ia se virar quando hesitou e pôs a mão no meu braço.

— Os velhos dizem que foi o ngoma que nos guiou até aqui, e algumas pessoas dizem que quando chegar a hora certa o ngoma virá nos levar de volta. As coisas estão piorando neste país. Talvez a hora esteja chegando.

— Sevias — eu disse —, sei que este é um dos maiores segredos de sua tribo e sei que há muitos na tribo que não desejam compartilhar os segredos comigo. Mas partirei em breve. Não quero voltar de mãos vazias. Poderia simplesmente me contar, por favor, se tem alguma idéia de onde pode estar o ngoma lungundu?

Sevias parou, olhou ao redor e ficou em silêncio. Olhou para o céu noturno de uma limpidez frustrante, e de novo arrastou os pés na poeira fina do kraal.

— Onde está agora, não sei. Mas há alguns anos os homens muito velhos costumavam dizer que ele estava escondido na caverna abaixo da montanha Dumghe. Está em segurança lá. É protegido por Deus, pelo rei e pelo “pássaro do céu”, por cobras de duas cabeças e pelos leões, “os guardiães do rei”. Foi levado para lá, segundo dizem os velhos, pelos Buba de Mberengwe. Eles formam o clã dos sacerdotes lembas e naqueles tempos havia alguns deles que ficavam do lado de Mberengwe. Mas, como você sabe, esse é o único lugar aonde você não deve ir. À montanha Dumghe.

Ele me deu boa-noite e voltou rapidamente para se juntar aos anciãos.

Peguei Tagaruze, o policial que fora instruído pelo quartel da polícia local para atuar como meu guarda-costas (e ficar de olho em mim), e caminhei os quase quatro quilômetros de volta até o kraal de Sevias.

Senti uma pontada de tristeza porque logo estaria deixando aquele belo lugar com seus morros ásperos e grandes pedras redondas, moldados por eras de vento e chuva, sol e seca.

No dia seguinte estava planejando ir para o norte em direção ao Malawi e à Tanzânia, seguindo a trilha da passagem dessa tribo enigmática através da África, em busca de sua cidade perdida de Senna. Parecia uma busca longa e solitária, e de repente senti saudade de casa.

Tinha recebido uma carta de Maria, minha voluptuosa namorada latino-americana, dançarina de salsa. Era uma carta amorosa, porém firme. Ela queria que eu voltasse, que deixasse essa busca comodista do que ela chamava de Senna inexistente. Queria que eu me casasse com ela e levasse uma vida normal, a vida convencional e sedentária de erudito e professor universitário. Se eu não quisesse casar com ela, havia um monte de homens que iriam querer.

“Os homens”, escreveu ela, “existem aos milhões. Você é um imbecil se não aproveitar a chance agora, quando ela existe. Outros aproveitariam.”

E era verdade. Cada vez que ela andava pela rua, poucos homens deixavam de notá-la. Maria tinha um jeito especial de andar. Tentei afastá-la do pensamento. Ela esperaria. Provavelmente.

Ainda estava me sentindo tonto por causa do chibuku. Se o que Sevias havia dito estava correto, talvez houvesse alguma chance de eu encontrar seu ngoma lungundu. Isso talvez revelasse alguma coisa sobre de onde a tribo viera. Talvez me ajudasse a encontrar a cidade perdida de Senna. Talvez houvesse alguma coisa escrita nele, objetos sagrados dentro, que pudessem me ajudar na busca. Eu só precisava ir para a Dumghe.

Senti um tremor de empolgação. A montanha sagrada dos lembas situa-se a pouco menos de quatro quilômetros do kraal de Sevias. Era um belo monte arredondado, virado para o leste e coberto com as características pedras redondas da região, e esparsamente coberto de mato. Havia um terreno aberto entre o kraal e a montanha Dumghe. Não havia povoados nem kraals — nem cachorros barulhentos para alertar à tribo sobre minhas atividades. Não havia animais selvagens perigosos, a não ser bandos de chacais e algum leopardo ocasional, e eu estava bêbado demais para me preocupar muito com isso.

Seguindo uma ânsia súbita inspirada pelo chibuku, decidi caminhar até a caverna sagrada, o lugar onde a tribo me havia proibido de ir. Uma área interdita. No passado, qualquer um que ousasse ir lá e não fosse iniciado, seria punido com a morte.

Os anciãos estariam dançando e bebendo nas próximas horas, pensei. O resto da tribo estava dormindo. Ninguém saberia que eu estive lá. Eu sabia que a caverna era situada na base de duas rochas enormes que haviam se separado de um penhasco que formava o lado leste da montanha. Era coberta por grandes pedras lisas e arredondadas, moldadas durante milênios pela erosão dos ventos. As rochas atrás do local onde se escondia a caverna haviam sido apontadas para mim uma vez, e tinham me dito que atrás da caverna sagrada havia outra passagem, mais sagrada ainda do que a primeira. Talvez fosse ali que o ngoma estivesse protegido, como diziam, por seus leões e cobras policéfalas.

Eram cerca de duas da madrugada quando cheguei — junto com Tagaruze, meu forte policial guarda-costas — à grande árvore meshunah onde eu havia encontrado o guardião lemba da Dumghe nos meus primeiros dias na aldeia. A partir da árvore, todos os caminhos que levavam à caverna seriam visíveis. O guardião oficial supostamente estaria sempre de serviço, mas era difícil acreditar nisso e, de qualquer modo, nesta ocasião, eu tinha pouca coisa com que me preocupar, porque o tinha visto na festa da chuva, bêbado como todos os outros.

Paramos um momento e depois subimos pela lateral da montanha, em direção à trilha íngreme que levava à caverna. De um dos lados o caminho se grudava à face da rocha; do outro havia uma queda íngreme de doze metros no vazio. Era uma descida traiçoeira e as pedras ficavam caindo no abismo.

Até Tagaruze ficou amedrontado. Naquela noite ele estava indo muito além do dever. Sentia-se tão fascinado pelas histórias dos lembas quanto eu. Mas começava a se arrepender de ter concordado em me acompanhar até ali. Não era muito dado a palavras, mas finalmente murmurou:

— Por que estamos fazendo isso? O que estamos procurando?

Eu também estava apavorado e não respondi.

Pensei ter escutado um barulho nas árvores e nos arbustos acima da face de pedra da Dumghe. Ficamos em silêncio. Alguns dias antes, um dos anciãos tinha visto um leão, um leão branco, segundo ele, na montanha. Os anciãos tinham me contado que o ngoma era sempre protegido por leões. Eram os leões de Deus, os guardiães do rei. Fomos em frente, escorregando pela descida que levava à caverna na base das rochas, parando de vez em quando para prestar atenção a sinais de perigo. Tagaruze tirou sua arma do coldre e enfiou no cinto. Havia um cheiro úmido e acre no ar. Minhas mãos estavam molhadas de suor devido ao esforço da caminhada e do medo.

De repente o caminho sumiu sob meus pés e foi somente a rapidez de Tagaruze ao agarrar meu braço que me impediu de desaparecer pela borda. Pedras soltas caíram do penhasco numa avalanche respeitável. Um eco chapado ecoou sob nós. Paramos e olhamos a ravina abaixo. Dava para vislumbrar a silhueta do estágio final da descida pelo penhasco do outro lado da grande parede de rocha.

Com cuidado continuamos descendo. Num momento houve um estalo de galhos; em outro, o som de um grande pássaro e uma corrente de ar depois; silêncio. Imaginei se aquele seria o “pássaro do céu”, a criatura que Sevias dissera ser um dos protetores da Dumghe.

Chegamos à base de duas grandes rochas. Houve outro som de galho se partindo. Talvez os lembas realmente mantivessem alguém ali o tempo todo, para guardar seus tesouros, afinal de contas. Havia apenas espaço para andarmos em fila. Fui na frente, apontando a lanterna ao redor até chegarmos ao que parecia a entrada da caverna. Aquele lugar, pensei, devia ser o mais sagrado para os lembas. Entre a pedra e a face do penhasco havia um monte de seixos soltos. Pus ali meu pé calçado com a bota para deserto, segurando a lanterna com uma das mãos e apoiando a outra na lateral de uma pedra. Não havia nada a ser visto. Encorajado, passei pela entrada estreita e apontei a lanterna em frente. Tudo que vi foi uma parede de pedra.

Mas pude ouvir uma coisa; uma espécie de som ofegante, uma tosse ou um rosnado, e então um som mais alto — uma fungada, talvez, que se transformou num rugido ensurdecedor ricocheteando na face de rocha ao redor. Minha mão apertou a lanterna, cheia de terror. Minhas pernas viraram geléia. A arma, pensei, atire no que quer que isso seja. Tagaruze estava com a arma, mas quando me virei percebi que Tagaruze não estava mais atrás de mim. Tagaruze havia desaparecido. Eu estava sozinho.

Recuei pela abertura, de costas, mantendo o rosto virado para o som, depois subi a trilha estreita atrás dele e fugi pelas encostas cobertas de mato da montanha Dumghe. O ruído nos acompanhou, subindo pelo fosso natural formado pelas grandes rochas, montanha acima. Era um som aterrorizante — poderia ser um leão, um leopardo ou qualquer outra coisa. Não esperamos para descobrir. Corremos o mais depressa que pudemos até chegarmos à árvore meshunah.

Sentamo-nos ofegantes na base da árvore. Enquanto meu traseiro batia no chão senti algo deslizando de baixo de mim e indo para o mato rasteiro. Estremecendo, levantei-me depressa.

— Que diabo foi isso? — perguntei.

— Só uma cobra — disse Tazaruze, sem jeito.

Meu sangue ficou gelado e senti vontade de vomitar. Haviam me dito que um dos guardiães do ngoma era uma cobra de duas cabeças. Eu sentia um milhão de vezes mais medo até mesmo da cobra menor e mais inofensiva do que de qualquer felino, pequeno ou grande, na face da terra.

Estremeci.

— E aquela coisa na caverna?

— Devia ser um ancestral dos lembas no corpo de um leopardo ou um leão. Ou seriam os protetores do ngoma, os leões do Todo-poderoso, os guardiães do rei. Todo mundo sabe que eles rondam nesta montanha. Foi um erro terrível, enorme.

O que o policial dissera era indubitavelmente verdadeiro. Foi um erro. Eu lamentaria esse equívoco em muitos anos seguintes. Não encontramos o esquivo e misterioso ngoma lungundu, o estranho artefato que representava um papel tão importante na imaginação dessa remota tribo africana, mas os acontecimentos daquela noite mudariam minha vida e me colocariam numa busca que só seria solucionada muitos, muitos anos depois.

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Livro: A Chave de Sarah | Tatiana de Rosnay | Primeiro Capítulo

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Paris, julho de 1942.

A menina foi a primeira a ouvir as fortes pancadas na porta. Seu quarto era o mais próximo à entrada do apartamento. No início, entorpecida pelo sono, pensou que era seu pai, subindo do esconderijo no porão. Ele havia esquecido suas chaves e estava impaciente porque ninguém ouvira sua primeira e tímida batida. Mas depois vieram as vozes, fortes e brutais no silêncio da noite, que não tinham nada a ver com seu pai.

— É a polícia! Abram a porta! Agora!

As pancadas recomeçaram, desta vez mais fortes. Elas ecoavam até a medula dos ossos. O irmão mais novo, adormecido na cama ao lado, agitou-se.

— É a polícia! Abram a porta! Abram a porta!

Que horas eram? Ela espiou pelas cortinas. Ainda estava escuro lá fora.

Ficou com medo. Lembrou-se das recentes conversas sussurradas que havia escutado, tarde da noite, quando seus pais pensavam que estava dormindo. Ela havia caminhado silenciosamente até a porta da sala de estar para ouvir e olhar através de uma pequena fresta. A voz nervosa de seu pai. O rosto ansioso da mãe. Eles conversavam em sua língua materna, que a menina compreendia, embora não fosse fluente como eles. Seu pai havia sussurrado que os tempos que estavam por vir seriam difíceis. Que eles teriam que ser corajosos e muito cuidadosos. Ele pronunciava palavras estranhas, desconhecidas: “campos”, “batida policial, uma grande batida policial”, “prisões de manhã cedo”, e a menina ficava imaginando o que tudo aquilo poderia significar. Seu pai havia murmurado que nem as mulheres nem as crianças estavam em perigo, somente os homens, e que ele ficaria escondido no porão todas as noites.

De manhã, o pai havia explicado à menina que seria mais seguro se ele dormisse lá embaixo durante algum tempo. Até “que as coisas voltassem a ficar mais seguras”. Que “coisas”, exatamente?, pensou a menina. O que significava “seguras”? Quando as coisas voltariam a ficar “seguras”? Ela queria descobrir o que ele quisera dizer com “campos” e “batida policial”, mas ficou preocupada em admitir que havia escutado seus pais conversando às escondidas diversas vezes. Então, não ousou perguntar a ele.

— Abram a porta! É a polícia!

E se os policiais houvessem encontrado seu pai no porão?, ela se perguntava. Era essa a razão por que estavam aqui, a polícia tinha vindo para levar Papa para os lugares que ele havia mencionado durante aquelas conversas sussurradas no meio da noite: “os campos”, longe, fora da cidade?

Com passos surdos, a menina percorreu rapidamente o caminho até o quarto da mãe, no fim do corredor. Sua mãe acordou no instante em que sentiu a mão sobre seu ombro.

— É a polícia, mamãe — a menina sussurrou. — Eles estão esmurrando a porta.

Sua mãe girou as pernas, empurrando-as para fora dos lençóis, e afastou os cabelos dos olhos. A menina achou que ela parecia cansada, velha, muito mais velha do que seus 30 anos.

— Eles vieram para levar Papa embora? — suplicou a menina, com as mãos nos braços da mãe. — Eles vieram buscá-lo?

A mãe não respondeu. Novamente, as vozes em altos brados no fim do corredor. A mãe rapidamente vestiu um penhoar por cima da camisola, pegou a menina pela mão e dirigiu-se à porta. Sua mão estava quente e pegajosa, como a de uma criança, a menina pensou.

— Pois não? — sua mãe disse timidamente, sem abrir o ferrolho.

Uma voz de homem. Ele berrou o nome dela.

— Sim, Monsieur, sou eu — ela respondeu. Seu sotaque saiu forte, quase desagradável.

— Abra a porta. Imediatamente. Polícia.

A mãe levou a mão à garganta e a menina notou como ela estava pálida. Parecia esgotada, paralisada. Como se não pudesse mais se mexer. A menina jamais havia visto aquele medo no rosto da mãe. Sentiu sua boca ficar seca de angústia.

Os homens bateram na porta novamente. A mãe a abriu com dedos trêmulos e desajeitados. A menina estremeceu, esperando ver ternos verde-acinzentados.

Havia dois homens lá. Um era policial, usando sua capa azul-escura até os joelhos e um quepe alto e redondo. O outro usava uma capa de chuva bege. Ele tinha uma lista nas mãos. Mais uma vez, disse o nome da mulher. E o nome do pai. Falava francês perfeitamente. Então estamos seguros, pensou a menina. Se eles são franceses e não alemães, não estamos em perigo. Se eles são franceses, não vão nos fazer mal.

A mãe puxou a menina para perto de si. Ela podia ouvir o coração da mulher batendo através do penhoar. Queria empurrar a mãe. Queria que ela se aprumasse e olhasse para os homens com coragem, que parasse de se curvar de medo, que impedisse seu coração de bater daquela maneira, como o de um animal apavorado. Ela queria que sua mãe fosse corajosa.

— Meu marido… não está aqui — gaguejou a mãe. — Eu não sei onde ele está. Eu não sei.

O homem com a capa de chuva bege adentrou o apartamento impetuosamente.

— Apresse-se, Madame. Vocês têm dez minutos. Pegue algumas roupas. O suficiente para alguns dias.

A mãe não se mexeu. Ela olhava para o policial com os olhos arregalados. Ele estava de pé sobre a plataforma entre dois lances de escada, com as costas voltadas para a porta. Parecia indiferente, entediado.

Ela pôs uma das mãos sobre sua manga azul-marinho.

— Monsieur, por favor… — ela começou.

O policial se virou, afastando a mão dela com uma expressão dura e vazia nos olhos.

— A senhora me ouviu. Vocês virão conosco. Sua filha também. Faça exatamente o que estamos mandando.
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*****
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Paris, maio de 2002.

Bertrand estava atrasado, como sempre. Tentei não me importar com isso, mas me importei. Zoë estava encostada indolentemente contra a parede, entediada. Parecia tanto com o pai que às vezes me fazia sorrir. Mas não hoje. Olhei para o prédio alto e antigo. A casa de Mamé. O velho apartamento da avó de Bertrand. E nós iríamos morar lá. Iríamos sair do Boulevard du Montparnasse, com seu tráfego barulhento, com as ambulâncias incessantes por causa de três hospitais na vizinhança, com seus cafés e restaurantes, para esta rua estreita e tranqüila à margem direita do Sena.

O Marais não era um arrondissement com o qual eu estava familiarizada, embora admirasse sua beleza antiga caindo aos pedaços. Será que eu estava feliz com a mudança? Não tinha certeza. Bertrand não havia realmente pedido a minha opinião. Não havíamos conversado muito sobre isso. Como era seu estilo, ele havia tomado a dianteira da coisa toda. Sem mim.

— Lá está ele — disse Zoë. — Apenas meia hora atrasado.

Observamos Bertrand subir a rua, passeando, com seu característico andar sensual. Esguio, moreno, transpirando sensualidade, o arquétipo do homem francês. Ele estava ao telefone, como sempre. Arrastando-se atrás dele estava Antoine, seu colega de trabalho, barbudo e de rosto rosado. Seu escritório ficava na rue de l’Arcade, bem atrás da Madeleine.

Bertrand tinha feito parte de uma firma de arquitetura durante muito tempo, desde antes do nosso casamento, mas abriu seu próprio negócio com Antoine cinco anos atrás. Bertrand acenou para nós e depois apontou para o telefone, baixando as sobrancelhas e fazendo uma careta.

— Como se ele não conseguisse se livrar da pessoa ao telefone — zombou Zoë. — Com certeza.

Zoë tinha apenas 11 anos, mas às vezes parecia que já era uma adolescente. Primeiro por sua altura, que fazia com que todas as suas amigas parecessem anãs — assim como seus pés, ela acrescentaria austeramente —, e, depois, por uma lucidez precoce que muitas vezes me deixava sem fôlego. Havia algo de adulto em seu olhar solene, cor de avelã, e no modo pensativo como levantava o queixo. Ela sempre foi assim, mesmo quando pequena. Calma, madura, às vezes madura demais para sua idade.

Antoine veio nos cumprimentar enquanto Bertrand continuava em sua conversa, alta o bastante para que a rua inteira ouvisse, agitando as mãos no ar, fazendo mais caretas, virando-se de vez em quando para certificar-se de que estávamos captando cada palavra.

— Um problema com outro arquiteto — explicou Antoine com um sorriso discreto.

— Um concorrente? — indagou Zoë.

— É, um concorrente — respondeu Antoine.

Zoë suspirou.

— O que significa que podemos passar o dia todo aqui — ela disse.

Tive uma idéia.

— Antoine, por acaso você está com a chave do apartamento de madame Tézac?

— Sim, Julia, estou com ela — ele disse, sorrindo. Antoine sempre me respondia em inglês quando eu falava em francês com ele. Suponho que ele tinha a intenção de ser gentil, mas, secretamente, isso me deixava chateada. Eu sentia como se meu francês ainda não fosse bom, mesmo depois de estar morando aqui durante todos esses anos.

Antoine exibiu a chave. Decidimos subir, nós três. Zoë digitou a senha com vigor e dedos hábeis. Caminhamos pelo pátio frondoso e fresco que levava ao elevador.

— Odeio esse elevador — observou Zoë. — Papa deveria fazer algo sobre isso.

— Querida, ele só está reformando a casa de sua bisavó — observei. — Não o prédio todo.

— Bem, ele deveria — respondeu ela.

Enquanto esperávamos pelo elevador, meu celular começou a tocar o tema de Darth Vader. Examinei o número que piscava no visor. Era Joshua, meu chefe.

Atendi.

— Sim?

Joshua foi direto ao ponto. Como sempre.

— Preciso que você volte às três. Estamos fechando a pauta de julho. Câmbio final.

— Putz! — respondi atrevidamente. Ouvi uma risadinha no outro lado da linha antes que ele desligasse. Joshua sempre parecia gostar quando eu dizia “putz”. Talvez isso o fizesse lembrar-se de sua juventude. Antoine parecia se divertir com minhas gírias fora de moda. Eu o imaginava colecionando-as e depois tentando repeti-las com seu sotaque francês.

O elevador era uma daquelas inimitáveis geringonças parisienses com uma cabine diminuta, uma grade de ferro manual e portas duplas de madeira que inevitavelmente batiam na sua cara. Espremida entre Zoë e Antoine — que exagerou ligeiramente com seu perfume de vetiver —, dei uma olhada no meu rosto no espelho enquanto deslizávamos para o alto. Eu parecia tão desgastada quanto o elevador que rangia. O que havia acontecido com a beldade cheia de frescor que veio de Boston, Massachusetts? A mulher que me encarava de volta estava na temida idade entre os 45 e os 50, a terra de ninguém cheia de flacidez, com a chegada das rugas e a furtiva aproximação da menopausa.

— Eu também odeio esse elevador — comentei secamente.

Zoë sorriu e beliscou minha bochecha.

— Mamãe, até mesmo Gwyneth Paltrow ficaria horrorosa nesse espelho.

Eu tive de sorrir. Era um comentário típico de Zoë.
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*****
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A mãe começou a soluçar, baixinho no início, e depois mais alto. A menina olhava para ela, atordoada. Em todos os seus 10 anos de idade, ela jamais vira a mãe chorar. Horrorizada, observava as lágrimas deslizarem pelo rosto pálido e amarrotado da mãe. Queria dizer à mãe para parar de chorar. Não conseguia agüentar a vergonha de ver sua mãe naquela choradeira na frente desses estranhos. Mas os homens não estavam prestando atenção às lágrimas da mãe. Eles disseram a ela que se apressasse. Não havia tempo a perder.

No quarto, o menino continuava a dormir.

— Mas para onde vocês vão nos levar? — suplicou sua mãe. — Minha filha é francesa, ela nasceu em Paris, por que vocês a querem também? Para onde estão nos levando?

Os homens não disseram mais nada. Eles eram vultos assomando-a, enormes, ameaçadores. Os olhos da mãe estavam brancos de terror. Ela foi para o quarto e afundou na cama. Depois de alguns segundos, endireitou as costas e se virou para a menina. Sua voz era um sussurro, seu rosto uma máscara de tensão.

— Acorde seu irmão. Vistam-se, os dois. Pegue algumas roupas para ele e para você. Depressa! Depressa, agora!

Seu irmão ficou mudo de terror quando espiou pela porta e viu os homens. Ele viu sua mãe despenteada, soluçando, tentando arrumar a mala. Reuniu toda a força que seu corpo de 4 anos de idade possuía. Recusou-se a se mover. A menina tentou persuadi-lo. Ele não ouvia. Ficou ali, sem se mover, com seus bracinhos dobrados sobre o peito.

A menina tirou a camisola, apanhou uma blusa de algodão e uma saia. Enfiou os pés dentro dos sapatos. Seu irmão a observava. Eles podiam ouvir a mãe chorando em seu quarto.

— Vou para o nosso lugar secreto — ele sussurrou.

— Não! — ela respondeu num ímpeto. — Você vai conosco, você tem que ir.

Ela o agarrou, mas ele conseguiu escapar do aperto e se esgueirou para dentro do armário longo e profundo escondido na superfície da parede do quarto. Aquele dentro do qual eles brincavam de esconde-esconde. Eles se escondiam ali a toda hora, como se fosse a própria casinha deles. Maman e Papa sabiam sobre ele, mas sempre fingiam que não. Eles os chamavam pelos nomes. Falavam alto, com suas vozes alegres: “Mas aonde foram essas crianças? Que estranho, elas estavam aqui agora mesmo!” E ela e o irmão davam risadinhas divertidas.

Eles tinham uma lanterna lá dentro e algumas almofadas, brinquedos e livros, e até mesmo uma garrafa d’água que Maman enchia todos os dias. Seu irmão ainda não sabia ler, então a menina lia alto para ele Um Bom Diabrete. Ele amava o conto do órfão Charles e a aterrorizante Madame Mac’miche, e como Charles se vingou dela por toda sua crueldade. Ela lia para ele repetidamente.

A menina podia ver o rostinho do irmão espreitando-a através da escuridão. Ele estava agarrado a seu ursinho favorito, e não tinha mais medo. Talvez ficasse a salvo lá, no fim das contas. Tinha água e a lanterna. Ele podia ver as figuras no livro da Condessa de Ségur. Sua preferida era a da magnífica vingança de Charles. Talvez ela devesse deixá-lo lá por enquanto. Os homens jamais o encontrariam. Ela voltaria para pegá-lo mais tarde quando eles tivessem autorização para ir para casa novamente. E Papa, ainda no porão, saberia onde o menino estava escondido, caso subisse.

— Você está com medo aí dentro? — perguntou baixinho, ao mesmo tempo que os homens as chamavam.

— Não — ele respondeu. — Não estou com medo. Você me tranca aqui dentro. Eles não vão me pegar.

Ela fechou a porta diante do rostinho pálido do irmão e girou a chave na fechadura. Depois, colocou a chave no bolso. A fechadura ficava escondida por um dispositivo em forma de um interruptor de luz que girava em torno de si mesmo. Era impossível ver o contorno do armário no apainelamento da parede. Sim, ele estaria seguro ali. Ela tinha certeza.

A menina murmurou o nome dele e encostou a palma da mão sobre o painel de madeira.

— Volto mais tarde para buscar você. Prometo.

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Livro: Feliz Ano Velho | Marcelo Rubens Paiva | Primeiro Capítulo

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14 de Dezembro de 1979. 17 horas. Sol em conjunção com Netuno e em oposição a Vênus.

Subi numa pedra e gritei:

— Aí, Gregor, vou descobrir o tesouro que você escondeu aqui embaixo, seu milionário disfarçado.

Pulei com a pose do Tio Patinhas, bati a cabeça no chão e foi aí que ouvi a melodia: biiiiiiin. Estava debaixo d’água, não mexia os braços nem as pernas, somente via a água barrenta e ouvia: biiiiiiin. Acabara toda a loucura, baixou o santo e me deu um estado total de lucidez: “Estou morrendo afogado.” Mantive a calma, prendi a respiração, sabendo que ia precisar dela para boiar e agüentar até que alguém percebesse e me tirasse dali. “Calma, cara, tente pensar em alguma coisa.” Lembrei que sempre tivera curiosidade em saber como eram os cinco segundos antes da morte, aqueles em que o bandido com vinte balas no corpo suspira…

— Sim, Xerife, o dinheiro do banco está enterrado na montanha azul.

Por que o cara não manda todo mundo tomar no … e morre em paz?

O fôlego tava acabando, “devem pensar que estou brincando”. Era estranho não estar mexendo nada, não sentia nenhuma dor e minha cabeça estava a mil por hora. “Como é que vai ser? Vou engolir muita água? Será que vai vir uma caveira com uma foice na mão?”

— Venha, bonecão, vamos fazer um passeio para o mundo do além, uuuaaaaaaa!

Será que vou pro céu? Acho que não, as últimas missas a que fui eram as de sétimo dia dos tios e avós. Depois, não sei se Deus gosta de jovens que, vez em quando, dão uma bola, gostam de rock. Pelo menos não é isso o que os seus representantes na Terra demonstram. É, meu negócio vai ser com o diabo, vou ganhar chifrinhos, um rabinho em forma de flecha, e ficar peladinho, curtindo uma fogueira.

De repente estava respirando, alguém me virou.

— Você tá bem? — Era o professor Urtiga, que me carregava no colo.

Sem saber o que dizer, pedi uma respiração boca a boca. Ele me olhou assustado e foi me levando pra margem fazendo a respiração. Já em chão firme, os bêbados e loucos falavam:

— Ei, Marcelo, levanta!

— Que é isso, Paiva?

— E aí, tinha muito ouro?

— Levanta, que ele fica bom logo, é só dar uma chacoalhada.

— Isso, me levanta, eu devo estar meio bêbado.

Me levantaram, mas não deu em nada. Todos ficaram impressionados, logo começaram a tran*sar uma ida a um hospital qualquer: uma cabeça mágica arrumou uma tábua.

Deitaram-me e fomos até onde estavam os carros. Não havia dúvidas de que a Kombi era o melhor deles. Entraram Urtiga, Florência, Marcinha, Gregor e não sei mais quem. Urtiga foi cantando em castelhano, imaginei que fosse algum ritual maia, já que ele é mexicano. Gregor foi cutucando meu pé e chamou seu deus que até hoje não sei quem é, a Marcinha apelou pro Pai-Nosso e a Florência só chorava. O caminho tava demorando, mas eu nem me importava, tava gostoso ali, deitado, ouvindo o canto maia, com a certeza de que nada de grave havia acontecido. No hospital me dariam uma injeção qualquer e tudo bem. Urtiga começou a passar a mão na minha cabeça. Reparei que ele tava preocupado, olhei pra sua mão e vi que estava toda ensangüentada. Só poderia ser de algum corte da minha cabeça.

Chegando no pronto-socorro, percebi que o negócio era sério: maca, oxigênio, enfermeiros, médicos, maca correndo, teto branco, todo mundo olhando, mesa de raio X.

— Sente aqui?

— Não.

— E aqui?

— Só acima do pescoço.

— Ih, meu Deus…

Veio uma mulher: disse calmamente meu nome e pedi para avisar minha família em São Paulo.

— Ah! Avisa também o Dr. Miguel aqui em Campinas. O telefone dele é 29045.

Não sei como consegui lembrar o telefone do pai da minha ex-girl. Comecei a pensar nela, doce Lalá, faz quase dois anos e não teve outra paixão igual. Lembrei-me de que sempre a gente ia jantar fora, pedíamos vinho e ficávamos tão bêbados que todas as privadas de bares campineiros estavam registradas com meu vômito.

— Não, moça, não corte minha unha, é que eu toco violão e vou fazer uma gravação neste fim de semana.

Seria a primeira vez que ia entrar num estúdio profissional.

— Guarda esse colar, que ele é muito especial.

— Pô, meu cabelo não, é que eu sou muito vaidoso.

Me deixaram carequinha, carequinha. Apaguei.

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Livro: Como Investir em Ações | Eduardo Alves da Costa | Primeiro Capítulo

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Afinal, o que são ações?

Este capítulo apresenta alguns conceitos fundamentais para as primeiras de muitas decisões requeridas de um investidor, além de explicar por que o mercado de ações vem atraindo tantos novos investidores para a Bolsa de Valores.

Ações e a divisão dos lucros:

Ações são direitos à propriedade de uma empresa, ou seja, uma ação confere a seu dono uma fração da propriedade da empresa. Você tem direito a uma parte dos imóveis, das máquinas, dos lucros, das marcas e de todos os demais direitos da empresa. Você e todos os demais acionistas são os donos da empresa. Seu percentual de participação na propriedade da empresa dependerá da quantidade de ações que possuir.

As ações são negociadas nas Bolsas de Valores. Compradores e vendedores vendem-nas e compram-nas das empresas. No passado, esse sistema acontecia com operadores gritando o preço para outros operadores no pregão. Hoje em dia, o sistema é computadorizado. As ordens de compra e venda são inseridas na Mega Bolsa, o sistema de negociação da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).

As notícias que afetam a empresa se refletem no preço das ações, pois indicam uma mudança no valor daquela. Para uma pequena indústria, as notícias sobre o crescimento econômico, a greve dos empregados do concorrente e a entrada em vigor de leis que afetam o setor são exemplos de notícias que mudam a expectativa dos lucros futuros da empresa. Veremos no Capítulo 6 que o valor da ação é o valor atual dos lucros esperados para a empresa no futuro.

Observe que não são todas as empresas que possuem ações na Bolsa. No Brasil, temos três tipos básicos de empresas:

  • Empresa individual: formada por uma única pessoa. Geralmente, seus proprietários são profissionais liberais, como engenheiros, consultores, advogados, médicos etc. A responsabilidade legal e financeira da empresa envolve a responsabilidade dos bens do proprietário.
  • Empresa limitada: é aquela formada por uma sociedade. Cada sócio possui um número definido de cotas. Esse é o tipo de empresa normalmente adotado por pequenos e médios negócios.
  • Empresa de sociedade anônima: nesse caso, a responsabilidade dos sócios fica limitada ao valor de sua ação. Se a empresa falir e ficar devendo a fornecedores, a empregados e ao governo, os acionistas não serão chamados para cobrir o prejuízo. O risco máximo para um acionista dessa empresa é perder totalmente o valor pago pela ação, mas não mais que isso.

Dos três tipos, a única que pode abrir o capital e negociar suas ações é a empresa de sociedade anônima. Abrir o capital é um processo no qual os proprietários de uma empresa de sociedade anônima decidem vender parte da empresa para os investidores em geral. A empresa, antes chamada de “capital fechado”, passa a negociar suas ações na Bolsa.

Por que investir em ações?

Possuir ações é acreditar no futuro da empresa. É acreditar que será bem-sucedida e terá lucros, além de crer que os lucros com a propriedade das ações serão maiores do que se a aplicação tivesse sido feita em outros investimentos, como imóveis e juros. Possuir ações também é acreditar no sistema capitalista. É crer que o sistema de livre mercado, apesar de suas falhas, ainda é a melhor maneira que a humanidade encontrou para distribuir bens e serviços de qualidade a preços competitivos. As empresas que não conseguem tal intento são eliminadas pela própria competição entre si.

Historicamente, o investimento em ações tem superado todas as demais aplicações em longo prazo até agora. Existem períodos que podem durar vários anos, em que as ações perdem para os juros. Para os brasileiros, tal fato parece mais verdadeiro do que nunca. Há alguns anos, nossa taxa de juros era alta o suficiente para desestimular qualquer investimento substancial em ações. Por que alguém investiria com a expectativa de ganhar 15% ao ano, se poderia aplicar em um fundo DI rendendo 22%?

Felizmente, a estabilização da inflação permitiu a redução gradual da taxa de juros. Esta, representada pela taxa Selic, tem um impacto fortíssimo no desempenho das empresas. Isso acontece por dois motivos principais: porque as empresas tomam dinheiro emprestado para financiar suas operações e investimentos e porque a taxa de juros tem o poder de incentivar, ou não, o consumo. Uma taxa de juros alta desestimula o consumo das famílias e estimula a poupança. Para as empresas, isso significa menos vendas e menos lucros.

Se uma taxa de juros baixa ajuda as empresas, gera investimentos, fomenta a criação de novos empregos e reduz o endividamento público, então, o governo deveria mantê-la o mais baixa possível, certo?

Não necessariamente. O problema é que uma taxa de juros baixa aquece a economia e gera inflação. E nós sabemos bem o que a inflação ocasiona. As pessoas perdem poder de compra, a concentração de renda aumenta, a moeda perde valor, os investimentos de longo prazo migram para países mais estáveis e ocasionam muitos outros problemas. Por isso, o governo precisa dosar bem a taxa de juros. Se erra para mais, gera recessão, se erra para menos, inflação.

As ações passaram por maus bocados na época dos juros altos, mas se olharmos por um período maior, veremos que as ações batem todos os outros tipos de investimento: juros, dólar, euro, imóveis, ouro. A capacidade de as ações superarem outros tipos de investimento tem sido constatada em diferentes Bolsas de Valores ao redor do globo, onde o capitalismo não sofre tanta intromissão estatal.

Atualmente, o investimento em ações no Brasil está em franca expansão. Nos últimos anos, a valorização do Ibovespa (principal índice de medição da valorização das ações no Brasil) chegou a mais de 600%. Milhares de novos investidores começaram a investir em ações. O maior volume de recursos vem dos investidores institucionais, como fundos de investimento, instituições financeiras e fundos de pensão. Mas a maior quantidade dos novos investidores na Bolsa é constituída de pessoas físicas.

A Bovespa é responsável pela negociação de ações no Brasil. Apesar de sua participação na América Latina ser dominante, com cerca de 70% dos negócios, seu peso no mundo é pequeno: cerca de 0,5%. No entanto, esse percentual deve aumentar, uma vez que países em desenvolvimento têm ampliado sua participação no cenário econômico mundial.

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