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Filme Comer, Rezar, Amar estreará em 2011 com Julia Roberts no elenco

O filme “Comer, Rezar, Amar”, baseado no livro Comer, Rezar, Amar, grande sucesso internacional de vendas da autora Elizabeth Gilbert, estreará em 2011 nos cinemas dos Estados Unidos.

A atriz Julia Roberts, vencedora do Oscar pelo seu papel no excelente filme Erin Brockovich, interpretará a escritora Elizabeth Gilbert. Até o momento também está confirmada a participação do ator Richard Jenkins, cujos últimos trabalhos foram nos filmes “Queime Depois de Ler” e “O Corajoso Ratinho Despereaux“.

O filme ainda está em pré-produção, será dirigido por Ryan Murphy (roteirista, produtor e diretor de vários episódios da série “Nip/Tuck”) e conta com o ator Brad Pitt como um dos produtores.
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Filme: Sherlock Holmes | Trailer

Sherlock Holmes, filme dirigido pelo inglês Guy Ritchie, mesmo diretor de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”, “Snatch”, “RocknRolla” e “Revólver”. Película estrelada por Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams e Mark Strong. Estréia nos cinemas brasileiros prevista para o dia 8 de Janeiro de 2010.
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Trecho do Livro: Os Delírios de Consumo de Becky Bloom | Sophie Kinsella

Livros Delirios Consumo Becky Bloom Sophie Kinsella BooksLivro: Os Delírios de Consumo de Becky Bloom

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Tudo bem. Não entre em pânico. É só uma conta do VISA. Só um pedaço de papel; alguns números. Quero dizer, que poder têm uns poucos números para nos amedrontar?

Pela janela do escritório, olho para um ônibus descendo a Oxford Street. Quero abrir o envelope branco sobre minha escrivaninha desarrumada. “É só um pedaço de papel”, repito para mim mesma pela milésima vez. E não sou burra, sou? Sei exatamente qual é o valor desta conta do VISA.

Mais ou menos.

Vai ser cerca de… 200 libras. Talvez trezentas. Sim, talvez trezentas. Trezentas e cinqüenta no máximo.

Indiferente, fecho os olhos e começo a calcular. Teve aquele tailleur na Jigsaw. E aquele jantar com Suze no Quaglino’s. E aquele lindo tapete vermelho e amarelo. O tapete foi 200 libras, imagine. Mas definitivamente valeu cada centavo — todos o admiraram. Pelo menos a Suze.

E o tailleur da Jigsaw estava em liquidação — por 30% a menos. Portanto, na verdade, foi uma economia de dinheiro.

Abro meus olhos e estico a mão para a conta. Quando meus dedos alcançam o papel, lembro-me das novas lentes de contato. Noventa e cinco libras. Um bocado. Mas, afinal, tive que comprar, não tive? O que devo fazer, andar por aí sem enxergar nada?

E precisei comprar umas loções novas, uma caixinha bonitinha e um delineador hipoalergênico. Isto eleva para… quatrocentos?

De sua mesa de trabalho na sala ao lado, Clare Edwards olha para mim. Está separando todas as suas cartas em pilhas como faz todas as manhãs. Embrulha cada uma num elástico e as classifica com dizeres do tipo “Responder imediatamente” e “Responder sem urgência”. Odeio Clare Edwards.

— Tudo bem, Becky? — diz ela.

— Tudo bem — digo com um ar leve. — Só estou lendo uma carta.

Com um ar feliz, enfio a mão no envelope, mas meus dedos não tiram a conta. Ficam grudados nela enquanto minha mente fica tomada — como acontece todo mês — por um sonho secreto.

Quer saber do meu sonho secreto? Ele se baseia numa história que li uma vez no jornal a respeito de uma confusão ocorrida num banco. Gostei tanto que recortei e fixei na porta do meu armário. Duas contas de cartão de crédito foram enviadas para pessoas erradas e — imagine só — as duas pagaram a conta errada sem perceber. Elas pagaram as contas uma da outra sem nem mesmo examiná-las.

Desde que li aquela história, tenho um sonho secreto: que o mesmo acontecerá comigo. Alguma velhinha caduca em Cornwall vai receber minha conta colossal e pagar sem nem mesmo olhar para ela. E eu receberei sua conta de três latas de comida de gato, a 59 centavos cada uma. Que, naturalmente, pagarei sem questionar. Justiça é justiça, afinal.

Um sorriso toma conta do meu rosto quando olho pela janela. Estou convencida de que este mês isto vai acontecer — meu sonho secreto está para se tornar realidade. Mas quando, finalmente, tiro a conta do envelope — irritada com o olhar curioso de Clare — meu sorriso esmaece, depois desaparece. Uma quentura bloqueia minha garganta. Acho que pode ser pânico.

A folha fica preta com a quantidade de letras. Uma série de nomes familiares passam pelos meus olhos como um shopping. Quero entender mas eles se movem muito rapidamente. Thorntons, consigo enxergar por um instante. Thorntons Chocolates? Que diabos eu estava fazendo na Thorntons Chocolates? Eu deveria estar de dieta. Esta conta não pode estar certa. Isto não pode ser meu. Não posso ter gasto todo esse dinheiro.

Não se desespere, grito por dentro. O segredo é não entrar em pânico. É só ler cada nome devagar, um por um. Inspiro profundamente e me forço para ler com calma, começando do alto da lista.

WH Smith (tudo bem. Todo mundo precisa de artigos de papelaria)

Boots (idem)

Specsavers (essencial)

Oddbins (garrafa de vinho — essencial)

Our Price (Our Price? Ah, sim. O novo CD dos Charlatans. Bem, eu precisava tê-lo, não é?)

Bella Pasta (jantar com Caitlin)

Oddbins (garrafa de vinho — essencial)

Esso (gasolina não conta)

Quaglino’s (caro — mas foi imperdível)

Pret à Manger (naquele dia eu estava sem dinheiro vivo)

Oddbins (garrafa de vinho — essencial)

Rugs to Riches (o quê? Ah sim, o tapete. Tapete danadinho)

La Senza (roupa de baixo sexy para sair com James)

Agent Provocateur (uma roupa de baixo mais sexy ainda para sair com James. Ah. Eu precisava disso)

Body Shop (aquele negócio de escovar a pele que eu preciso usar)

Next (saia branca bem sem graça — mas estava em liquidação)

Millets…

Paro ali. Millets? Eu nunca entro na Millets. Que diabos estaria eu fazendo na Millets? Intrigada fixo o olhar no extrato, franzo a sobrancelha e procuro pensar — e então, de repente, a verdade aparece. É óbvio. Alguém mais está usando meu cartão.

Ah, meu Deus. Eu, Rebecca Bloom, fui vítima de um crime.

Agora tudo faz sentido. Algum criminoso roubou meu cartão de crédito e forjou minha assinatura. Quem sabe onde mais eles o usaram? Não é para menos que meu extrato está tão preto de números! Alguém resolveu farrear por Londres à custa do meu cartão — e achou que conseguiria escapar.

Mas como conseguiram? Procuro minha carteira de dinheiro na bolsa, abro-a — e ali está meu cartão VISA me fitando. Pego e olho para ele. Alguém certamente o roubou de minha carteira, usou — e depois devolveu. Deve ser alguém que conheço. Ah, meu Deus. Quem?

Examino pelo escritório com um olhar desconfiado. Quem quer que tenha sido não prima pela inteligência. Usar meu cartão na Millets! É quase uma piada. Como se algum dia eu fosse comprar ali.

— Nunca nem entrei na Millets! — digo alto.

— Entrou sim — diz Clare.

— O quê? — viro para ela, nada contente por ter sido interrompida. — Não, não entrei.

— Você comprou o presente de despedida de Michael na Millets, não foi?

Olho para ela e sinto meu sorriso desaparecer. Ah, estraga-prazeres. Claro. O casaco azul para Michael. O casaco de neve azul brega da Millets.

Três semanas atrás quando Michael, agente de nossa editora, foi embora, voluntariei-me para comprar-lhe o presente. Levei o envelope marrom cheio de moedas e notas para a loja e escolhi um casaco de neve (acredite-me, ele é esse tipo de homem). E, no último minuto, agora me lembro, decidi pagar com o cartão e guardar o trocado para meu uso.

Recordo-me muito bem de ter escolhido as quatro notas de 5 libras e tê-las cuidadosamente guardado na minha carteira, separando as moedas grandes e colocando-as no compartimento de moedas, despejando o resto do trocado no fundo da bolsa. “Ah, que bom”, lembro-me de ter pensado. “Não vou precisar ir ao caixa eletrônico.” Pensei que aquelas sessenta libras durariam semanas.

Então o que aconteceu? Não posso simplesmente ter gasto sessenta libras sem perceber, posso?

— Por que está perguntando afinal? — diz Clare inclinando-se para mim. Seus olhos de raios X brilhando atrás dos óculos. Ela sabe que estou olhando para minha conta do VISA.

— Nenhuma razão — digo eu e, de uma forma brusca, virando para a segunda folha do extrato.

Mas algo me interrompe. Em vez de fazer o de sempre — fixar os olhos no valor do Pagamento Mínimo e ignorar completamente o total — me vejo fixando o número no pé da página.

Novecentas e quarenta e nove libras, sessenta e três centavos. Em branco-e-preto bem nítido.

Em silêncio, contemplo durante trinta segundos, logo depois empurro a conta de volta para dentro do envelope. Naquele momento sinto como se aquele pedaço de papel não tivesse nada a ver comigo. Talvez se, por algum descuido, o deixasse cair no chão atrás do meu computador, ele desaparecesse. O pessoal da limpeza o varrerá e eu poderei dizer que nunca o recebi. Não podem me cobrar por uma conta que nunca recebi, podem?

Já estou redigindo uma carta mentalmente. “Prezado Gerente do cartão VISA. Sua carta confundiu-me. A que conta está se referindo precisamente? Nunca recebi nenhuma conta de sua parte. Não gostei do tom de sua carta e devo avisá-lo de que estou escrevendo para Anne Robinson da Watchdog.”

Ou sempre existe a opção de me mudar para o exterior.

— Becky? — Levanto a cabeça abruptamente e vejo Clare olhando para mim.

— Você já terminou o texto sobre o Lloyds?

— Quase — minto. Como ela está me observando, sinto-me forçada a trazê-lo para a tela do meu computador só para mostrar força de vontade. Mas a chata ainda está me observando.

“Quem economiza pode beneficiar-se do acesso instantâneo” — digito no computador, copiando diretamente de um release à minha frente. — “A conta também está oferecendo taxas de juros diferenciadas para quem investe mais de 5.000 libras.”

Digito um ponto final, tomo um gole de café e viro para a segunda página do release.

É isto que faço, por falar nisso. Sou jornalista de uma revista financeira. Sou paga para dizer às outras pessoas como administrar seu dinheiro.

Não é a carreira que eu sempre quis, claro. Ninguém que escreve sobre finanças pessoais jamais pensou em fazê-lo. Todos dizem que “caíram” nas finanças pessoais. Estão mentindo. O que eles querem dizer é que não conseguiram um emprego para escrever sobre nada que fosse mais interessante. Querem dizer que se candidataram para empregos em The Times, no Express, na Marie-Claire, na Vogue, na GQ e na Loaded, mas só receberam um fora.

Começaram então a candidatar-se para a Metalwork Monthly (uma publicação mensal do setor de metalurgia), a Cheesemakers Gazette (revista dos fabricantes de queijo) e a What Investment Plan? (publicação sobre investimentos), foram admitidos como assistentes editoriais insignificantes ganhando muito pouco, e ficaram agradecidos. E continuaram escrevendo sobre metalurgia, queijo ou poupança desde então — porque é tudo o que sabem. Eu comecei na revista com o título cativante de Personal Investment Periodical (publicação sobre investimentos pessoais). Aprendi como copiar um release, acenar com a cabeça em entrevistas coletivas e fazer perguntas de forma a parecer que sabia do que estava falando. Depois de um ano e meio — acredite se quiser — fui convidada para trabalhar na Successful Saving (uma publicação sobre investimentos bem-sucedidos).

Obviamente ainda não sei nada sobre finanças. As pessoas no ponto de ônibus sabem mais sobre esse assunto do que eu. As crianças nas escolas sabem mais do que eu. Há três anos desenvolvo essa atividade e ainda estou esperando que alguém me contrate para outro lugar.

Naquela tarde Philip, o editor, chama meu nome e eu pulo de medo.

— Rebecca? — diz ele. — Uma palavrinha. — E me chama à sua mesa. Sua voz parece mais baixa, quase num tom conspirador, e ele sorri para mim como se estivesse pronto para dar-me uma boa notícia.

Ah, meu Deus, penso. Promoção. Deve ser. Ele sabe que não é justo eu ganhar menos que Clare, então vai promover-me para o nível dela. Ou talvez acima. E está me dizendo discretamente para que Clare não fique enciumada.

Um sorriso amplo enfeita meu rosto, levanto e ando cerca de três metros ou coisa parecida até sua mesa, procurando ficar calma mas já planejando o que vou comprar com meu aumento salarial. Vou comprar aquele casaco trançado na Whistles. E umas botas pretas de salto da Pied à Terre. Talvez saia de férias. E pagarei aquela abominável conta do VISA de uma vez por todas. Sinto-me contente e aliviada. Eu sabia que tudo daria certo…

— Rebecca? — Ele joga um cartão para mim. — Não vou poder ir a esta entrevista coletiva — diz ele. — Mas talvez seja bem interessante. Você pode ir? É na Brandon Communications.

Percebo minha expressão alegre escorrer do meu rosto como geléia. Ele não está me promovendo. Não estou recebendo um aumento de salário. Sinto-me traída. Por que sorriu para mim daquele jeito? Devia saber que estava aumentando minhas esperanças. Seu sacana.

— Alguma coisa errada? — pergunta Philip.

— Não — murmuro. Mas não consigo sorrir. Na minha frente vejo meu novo casaco trançado e minhas botas de salto alto sumirem como num passe de mágica. Nenhuma promoção. Só uma entrevista coletiva sobre… Volto os olhos para o cartão de relance. Sobre uma nova cota de fundo. Como alguém consegue chamar aquilo de interessante?

— Poderá escrever sobre isso para a revista — diz Philip.

— Está bem — encolho os ombros num sinal de aceitação e me afasto.
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Trecho do Livro: O Rei da Noite | João Ubaldo Ribeiro

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– Eu disse que nunca mais punha os pés na rua, nunca mais ia a festinhas, nunca mais entrava num bar, eu disse!

– É, você disse. Você sempre diz isso. No dia seguinte você sempre diz isso.

– Então? Então? Então você devia levar isso em conta. Quando eu disser “hoje vou sair”, você diz “não vai”, pronto. Basta isso, eu atendo, você sabe que eu atendo.

– Você nem ouve, quanto mais atender. Você entrou em casa cantando “Rio Babilônia”, parou na porta, deu uns remelexos meio tipo Elvis Presley e gritou com o mesmo olhar com que às vezes fica na praia: “Mulher, vamos pra festa do Neville! Rio Babilôoooonia!”

– É, eu me lembro. Você foi sarcástica, muito sarcástica. Não é preciso ser tão sarcástica comigo e meus amigos.

– Eu, sarcástica? Eu só perguntei se você tinha certeza de que podia entrar mulher grávida.

– E então? Só porque era a festa do meu amigo Neville tinha de ser uma esbórnia, não foi isso que você quis insinuar?

– Absolutamente. Quem insinuou foi você, com aqueles seus… seus meneios aí na porta e com aquele olhar que não permitiriam na novela das oito.

– Eu não fiz olhar nenhum!

– Fez. E continuou a fazer praticamente a noite inteira. Mas acho que não tem importância, seus amigos já estão acostumados. Uma coisa de que ninguém pode lhe acusar é falta de coerência. Você faz invariavelmente as mesmas coisas.

– Eu beijei Ivan Chagas Freitas outra vez?

– Não, desta vez não, mas isto é um pormenor. E de mais a mais você chegou com ele, não acredito que o beijo se justificasse.

– Eu fui com ele? Claro, fui com ele. Lembro muito bem. Aliás, lembro muitíssimo bem, lembro de tudo. Chegamos juntos, o Ivan elegantíssimo, de smoking…

– Ivan não estava de smoking.

– Como não estava? Claro que estava, eu não sou maluco, vi perfeitamente. Eu até fiz uma brincadeira, falei: “Ivan, este smoking de teu pai caiu muito bem, muito bem.”

– Isso foi a foto do Ivan na festa do Ibrahim. Você viu a foto do Ivan de smoking.

– A foto? Bem, certo, mas o fato é que eu vi o Ivan de smoking, eu lembro de tudo perfeitamente. Nós entramos, abraçamos o Neville e aí batemos um papo com a Tônia Carrero, gostei muito dela.

– É, este foi um problema. A Tônia Carrero não estava lá.

– Como não estava? É claro que estava!

– Não. Estava uma senhora lá que você ficou chamando o tempo todo de “Tônia, mas veja você, Tônia, mas ora, Tônia”. Ela tentou avisar algumas vezes, mas você só dizia “querida Tônia, mas que mot d’esprit, que boutade, ha-ha-ha!”

– Não era a Tônia? Mas era a cara!

– Espero que a Tônia nunca saiba desta sua opinião. De qualquer forma, isso não teve importância, porque você elogiou muito a senhora, ela deve ter ficado satisfeita. Aliás, você elogiou todo mundo.

– Elogiei? Ah, elogiei? Bem, ótimo que eu elogiei, quer dizer que não tem vexame para lembrar.

– Nada, vexame nenhum. É bem verdade que você fez alguns elogios agressivos, mas todo mundo já deve conhecer a sua exuberância. Quer dizer, não sei se o Renato Machado ficou muito feliz, não tenho certeza.

– O Renato Machado? O que é que eu fiz com o Renato Machado? Eu não elogiei?

– Aos murros. Você fazia um elogio – “aí, Renatão!” – e dava um murrozinho afetuoso nele. Acho que deve ter dado uns seis ou sete; você estava muito entusiasmado com ele. “Que pronúncia, que pronúncia!”, dizia você. Até que ele se sentou e alegou nocaute e aí você parou.

– Mas é interessante, eu tenho a recordação completa de que sentamos direitinho, junto com o Ivan, a Dora e o Paulo César Saraceni e a Ana Maria, foi ou não foi?

– Mais ou menos. O Paulo César e a Ana Maria já estavam lá, ficaram sentados defronte da gente.

– Então? Lembro de tudo!

– E você ficava piscando o olho e jogando beijinhos para ela.

– Mentira! Na cara do Paulo César? Mentira! O Paulo César é meu amigo, eu jamais faria uma coisa dessas! Você quer solapar o meu relacionamento com os amigos! Mentira! Eu não faço essas coisas com ninguém, quanto mais com as mulheres de meus amigos!

– Mas é só isso que você faz. Agora, elas não ligam, eles também não. Afinal, quem é que vai ligar para um amigo que fica piscando um olho como se estivesse tendo um espasmo muscular, jogando beijinhos bicudos e escondendo a cara atrás do balde de gelo?

– Atrás do balde de gelo?

– Pois é, tenho a impressão de que você achava que assim disfarçava. Juntou gente em torno da mesa, para ver você disfarçando. Você se curvava todo, chamava “Aniiinha!”, piscava o olho e mergulhava a cara atrás do balde ligeirinho.

– Que horror!

– Horror nada, foi tudo muito divertido, um sucesso. Tanto assim que você só parou quando chegou o Daniel Filho.

– O Daniel? Não! Eu chorei outra vez?

– Não, vocês dançaram.

– Nós dançamos?

– Dançaram e cantaram. Cantaram uma musiquinha em inglês que dizia “wake up, wake up!” e que vocês achavam engraçadíssima, embolavam de rir. Até que houve o incidente com o pessoal da casa, na hora em que você exigiu que evacuassem a pista para que o Daniel pudesse dar uma demonstração do passo Tom Mix.

– O passo Tom Mix?

– Sim, é um passo que ele dá sacando dois revólveres e rodopiando. É até interessante. Mas o pessoal não quis atender ao seu pedido, apesar de você gritar “jogo-lhe a Rede Globo em cima, canalha!”. De qualquer forma, você conseguiu que o Daniel fizesse o passo no andar de cima e ainda imitasse Michael Jackson e Ney Matogrosso. A de Michael Jackson é até bastante boa, a do Ney…

– Disso eu me lembro, fiquei ali conversando com a Márcia enquanto ele dançava.

– Conversando não, ficou dizendo “Marcinha, você sabe que eu imito Ney Matogrosso muito melhor do que esse cara aí com quem você vive saindo e sou melhor diretor de televisão que ele e tenho um telão maior do que ele e…”

– Ele se aborreceu?

– Claro que não, inclusive ele sabe que você não imita lhufas e não tem telão nenhum.

– Nem sou diretor de tevê.

– Ah, isso não sei. Não foi isso o que você falou à Danuza Leão. Você disse a ela que estava realizando um especial sobre ela de duas horas e depois gritou: “Quero arrojar-me a teus pés!”

– E me arrojei?

– Quase. Ivan segurou você e a Danuza deu uns passinhos rápidos para trás, não houve maiores problemas e já estávamos mesmo na saída.

– Nunca mais eu saio, nunca mais boto os pés fora de casa, nunca mais entro num bar, nunca mais!

– Sim, querido. Mas não sei por quê. Todo mundo acha você o rei da noite, querido.

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Trecho do Livro: Doidas e Santas | Martha Medeiros

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Falcatruas, alagamentos, violência urbana. Eu colocaria mais uma coisinha nessa lista de pequenas tragédias com que somos brindados diariamente: o tédio. A cada manhã, abrimos os jornais e é a mesma indecência política. Nas ruas, perdemos tempo com os mesmos engarrafamentos. Escutamos as mesmas queixas no local de trabalho. É sempre o mesmo, o mesmo. Como é bom quando algo nos surpreende.

Para quem vive na opressiva e cinzenta São Paulo, a novidade atende pelo nome de Cow Parade, a exposição ao ar livre de 150 esculturas em forma de vaca, em tamanho natural, feitas de fibra de vidro e decoradas com muita cor e insanidade por artistas plásticos, diretores de arte, designers e cartunistas. Um nonsense mais que bem-vindo, uma intervenção no nosso olhar acostumado. Espalhadas por ruas, praças, nos lugares mais inesperados, lá estão elas, vacas enormes, vacas profanas, vacas insólitas. Para quê? Para nada de especial, apenas para espantar o tédio, inspirar loucuras, lembrar que as coisas não precisam ser sempre iguais. Havia uma vaca no meio do caminho, no meio do caminho havia uma vaca. É poesia também.

Falando em poesia, há sempre uma nova e heróica coletânea sendo lançada no mercado editorial, tentando atrair aqueles leitores que evitam qualquer coisa que rime. Desta vez, não é coletânea de mulheres poetas ou de poetas do terceiro mundo, essas cortesias que nos fazem. Finalmente, o humor e a leveza baixaram no reino dos versos. O livro chama-se Veneno Antimonotonia e traz o subtítulo: Os melhores poemas e canções contra o tédio. Organizado por Eucanaã Ferraz, a antologia pretende combater o vazio, o medo, a falta de imaginação. É um convite para a vida, e um convite feito através das palavras de Drummond, Chico Buarque, Antônio Cícero, Ferreira Gullar, Adriana Calcanhotto, Armando Freitas Filho, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, João Cabral de Melo Neto e outros ilustres, sem faltar Cazuza, claro, cuja canção Todo amor que houver nesta vida – uma das minhas letras preferidas – inspirou o título da obra.

Até hoje, pergunta-se: para que serve a arte, para que serve a poesia?

Intelectuais se aprumam, pigarreiam e começam a responder dizendo “Veja bem…” e daí em diante é um blablablá teórico que tenta explicar o inexplicável. Poesia serve exatamente para a mesma coisa que serve uma vaca no meio da calçada de uma agitada metrópole. Para alterar o curso do seu andar, para interromper um hábito, para evitar repetições, para provocar um estranhamento, para alegrar o seu dia, para fazê-lo pensar, para resgatá-lo do inferno que é viver todo santo dia sem nenhum assombro, sem nenhum encantamento.

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