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Trecho do Livro: Big Bang | Simon Singh

Livros Big Bang Simon Singh BooksLivro: Big Bang

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A ciência deve começar com os mitos, e com a crítica dos mitos. — Karl Popper

Não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de sentidos, de razão e de intelecto possa desejar que deixemos de usá-los. — Galileu Galilei

Viver na Terra pode ser dispendioso, mas inclui uma viagem anual gratuita em torno do Sol. — Anônimo

A física não é uma religião. Se fosse, seria muito mais fácil conseguir verbas para ela. — Leon Lederman

Nosso universo é pontilhado com mais de 100 bilhões de galáxias e cada uma contém aproximadamente 100 bilhões de estrelas. Não está claro quantos planetas orbitam essas estrelas, mas é certo que, em pelo menos um deles, a vida evoluiu. E, em especial, existe uma forma de vida que tem a capacidade e a audácia de especular sobre a origem deste vasto universo.

Os seres humanos vêm observando o espaço há milhares de gerações, mas nós temos o privilégio de fazer parte da primeira geração que alega ter uma descrição coerente, racional e respeitável para a criação e a evolução do universo. O modelo do Big Bang (Grande Explosão) oferece uma explicação elegante para a origem de tudo o que vemos no céu noturno, o que o transforma numa das maiores realizações do espírito e do intelecto humanos. Trata-se do resultado de uma curiosidade insaciável, de uma imaginação fabulosa, da observação aguçada e de uma lógica implacável.

E, o que é ainda mais maravilhoso, o modelo do Big Bang pode ser entendido por todos. Quando tomei conhecimento do Big Bang, ainda adolescente, fiquei admirado com sua beleza e simplicidade, e pelo fato de ser baseado em princípios que, em sua maior parte, não iam além da física que eu já aprendia no colégio. Exatamente como a teoria da seleção natural de Charles Darwin é ao mesmo tempo fundamental e compreensível para a maioria das pessoas inteligentes, o modelo do Big Bang pode ser explicado em termos que farão sentido para não-especialistas sem que precisem mergulhar nos conceitos-chave dos meandros da teoria.

Mas, antes de abordarmos os primeiros indícios do modelo do Big Bang, é necessário estabelecer alguns fundamentos. O modelo do Big Bang para o universo foi desenvolvido nos últimos cem anos, e isso só foi possível porque as descobertas do século XX se ergueram sobre os alicerces de uma astronomia desenvolvida nos séculos anteriores. Por sua vez, essas teorias e observações do céu foram realizadas em uma estrutura científica montada continuamente durante dois milênios. Recuando ainda mais, o método científico, como um caminho em direção a uma verdade objetiva a respeito do mundo natural, só pôde surgir quando o papel dos mitos e do folclore começou a declinar. Em resumo, as raízes do modelo do Big Bang e a busca de uma teoria científica para o universo têm suas origens no declínio da visão mitológica ancestral do mundo.

De criadores gigantes aos filósofos gregos

De acordo com um mito chinês da criação datado de 600 a.C., Phan Ku, o Criador Gigante, saiu de um ovo e começou a criar o mundo usando um cinzel para esculpir os vales e montanhas da paisagem. Em seguida ele colocou o Sol, a Lua e as estrelas no céu e morreu assim que essas tarefas tinham terminado. A morte do Criador Gigante era uma parte essencial do processo de criação, porque os fragmentos de seu próprio corpo ajudaram a completar o mundo. O crânio de Phan Ku formou a abóbada celeste, sua carne deu origem ao solo, seus ossos se transformaram nas rochas e seu sangue criou os rios e mares. Seu último suspiro produziu o vento e as nuvens, enquanto seu suor transformava-se na chuva. Seu cabelo caiu na Terra, criando a vida vegetal, e os piolhos escondidos em seus cabelos forneceram a base para a raça humana. E, como o nosso nascimento exigiu a morte de nosso criador, fomos amaldiçoados com a tristeza eterna.

Em contraste, no mito épico Prose Edda, da Islândia, a criação começou não com um ovo e sim com a Fenda Aberta. Esse vazio separou os reinos contrastantes de Muspell e Niflheim, até que um dia o calor brilhante e intenso de Muspell derreteu a neve congelante e o gelo de Niflheim, e a umidade caiu na Fenda Aberta, produzindo a vida na forma do gigante Imir. Só então a criação do mundo pôde começar.

O povo krachi, de Togo, no oeste da África, fala de outro gigante, o imenso deus azul Wulbari, mais conhecido entre nós como o céu. Houve um tempo em que ele se deitava logo acima da Terra, mas uma mulher socando grãos com um longo pau o cutucava e espetava de modo que ele se ergueu acima deste incômodo. Contudo, Wulbari permanecia ao alcance dos humanos, que usavam sua barriga como uma toalha e arrancavam fragmentos de seu corpo azul para temperarem a sopa. Gradualmente, Wulbari subiu cada vez mais alto, até que o céu azul ficou fora do alcance, e lá permaneceu desde então.

Para os iorubá, também da África ocidental, Olorum era o Dono do Céu. Quando ele olhou para baixo, para o pântano sem vida, pediu a outro ser divino que levasse uma concha de caramujo até a Terra primordial. A concha continha um pombo, uma galinha e uma pequena quantidade de solo. O solo foi salpicado sobre os pântanos da Terra e então o pombo e a galinha começaram a ciscar até que o pântano virou um terreno sólido. Para testar o mundo, Olorum enviou o Camaleão, que mudou da cor azul para o marrom enquanto ia do céu até a terra, sinalizando que a galinha e o pombo tinham completado com sucesso a sua tarefa.

No mundo inteiro, cada cultura desenvolveu seus próprios mitos sobre a origem do universo e como ele foi formado. Esses mitos da criação diferem bastante, cada um refletindo o ambiente e a sociedade onde se originou. Na Islândia, são as forças vulcânicas e meteorológicas que formam o cenário para o nascimento do Imir. Mas, de acordo com os iorubás, do oeste africano, são a galinha e o pombo familiares que dão origem à terra sólida. Não obstante, todos esses mitos da criação têm algumas características comuns. Seja Wulbari, grande, azul e machucado, ou o gigante moribundo da China, esses mitos inevitavelmente invocam pelo menos um ser sobrenatural para desempenhar um papel crucial na explicação da criação do universo. Da mesma forma, cada mito representa a verdade absoluta dentro de sua sociedade. A palavra “mito” vem do grego mythos, que pode significar “estória”, mas também significa “palavra” no sentido de “palavra final”. De fato, qualquer um que se atrevesse a questionar essas explicações estaria sujeito a acusações de heresia.

Nada mudou muito até o século VI a.C., quando houve um súbito surto de tolerância nos meios intelectuais. Pela primeira vez os filósofos ficaram livres para abandonar as explicações mitológicas aceitas para o universo e desenvolverem suas próprias teorias. Anaximandro, de Mileto, por exemplo, argumentava que o Sol era um buraco num anel cheio de fogo que circundava a Terra e girava em torno dela. De modo semelhante, ele acreditava que a Lua e as estrelas nada mais eram do que buracos no firmamento, revelando fogos de outro modo escondidos. De modo contrário, Xenófanes de Colofon acreditava que a Terra liberava gases combustíveis que se acumulavam durante a noite até atingirem uma massa crítica, quando então se incendiavam produzindo o Sol. A noite caía novamente quando a bola de gás queimara todo o seu combustível, deixando para trás apenas as poucas centelhas que chamamos de estrelas. Ele explicava a Lua de modo semelhante, com gases se acumulando e queimando num ciclo de 28 dias.

O fato de Xenófanes e Anaximandro não estarem perto da verdade não tem importância, porque o principal é que eles desenvolviam teorias que explicavam o mundo natural sem recorrer a deuses ou artefatos sobrenaturais. Teorias dizendo que o Sol é um fogo celeste visto através de um buraco no firmamento ou uma bola de gás se queimando eram qualitativamente diferentes do mito grego que explicava o Sol invocando uma carruagem dirigida através do céu pelo deus Hélio. Isso não quer dizer que a nova geração de filósofos quisesse necessariamente negar a existência dos deuses. Eles apenas se recusavam a acreditar que a interferência divina fosse responsável pelos fenômenos naturais.

Esses filósofos foram os primeiros cosmólogos, na medida em que estavam interessados no estudo científico do universo físico e de suas origens. A palavra “cosmologia” deriva da antiga palavra grega kosmeo, que significa “ordenar” ou “organizar”, refletindo a crença de que o universo pode ser entendido e merece um estudo analítico. O cosmos apresentava padrões, e era ambição dos gregos reconhecer esses padrões, esmiuçá-los e compreender o que havia por trás deles.

Seria um grande exagero chamar Xenófanes e Anaximandro de cientistas no sentido moderno do termo, e seria lisonjeiro considerar suas idéias como teorias científicas plenamente desenvolvidas. Não obstante, eles certamente contribuíram para o nascimento do pensamento científico, e seu ethos tinha muito em comum com a ciência moderna. Tal como as idéias na ciência moderna, por exemplo, as idéias dos cosmólogos gregos podiam ser criticadas e comparadas, melhoradas ou abandonadas. Os gregos adoravam uma boa discussão e assim a comunidade dos filósofos examinava as teorias, questionava o raciocínio subjacente e finalmente escolhia a mais convincente. Em contraste, os indivíduos de muitas outras culturas não se atreviam a questionar a própria mitologia. Cada mitologia era um ato de fé dentro de sua própria sociedade.

Pitágoras de Samos ajudou a consolidar os fundamentos desse novo racionalismo por volta do ano 540 a.C. Como parte de sua filosofia ele desenvolveu uma paixão pela matemática e demonstrou como os números e as equações podiam ser usados para ajudar a formular teorias científicas. Uma de suas primeiras conquistas foi explicar a harmonia da música através da harmonia dos números. O instrumento mais importante na música helênica antiga era o tetracórdio ou lira de quatro cordas, mas Pitágoras desenvolveu sua teoria fazendo experiências com um monocórdio. A corda era mantida sob tensão constante, mas seu comprimento podia ser alterado. Um certo comprimento da corda produzia uma determinada nota, e Pitágoras percebeu que dividindo pela metade o comprimento da mesma corda, ela produzia uma nota que era uma oitava mais alta e em harmonia com a nota da corda original. De fato, mudando o comprimento da corda por qualquer fração simples ou proporção, criava-se uma nota harmoniosa com a primeira. (Por exemplo, uma proporção de 3:2, agora chamada de quinta musical). Mas, se o comprimento fosse mudado numa proporção aleatória (por exemplo 15:37), o resultado seria a desarmonia.

Já que Pitágoras tinha mostrado que a matemática podia ser usada para ajudar a explicar e descrever a música, gerações subseqüentes de cientistas usaram os números para explorar todo tipo de coisas, da trajetória de uma bala de canhão aos padrões caóticos do clima. Wilhelm Röntgen, que descobriu os raios X em 1895, era um fiel adepto da filosofia pitagórica da ciência matemática e certa vez declarou: “Ao se preparar para o seu trabalho, o físico precisa de três coisas: matemática, matemática e matemática”.

O mantra de Pitágoras era “tudo é número”. Alimentado por essa crença, ele tentou descobrir as regras matemáticas que regeriam os corpos celestes. Ele afirmava que os movimentos do Sol, da Lua e dos planetas através do céu geravam notas musicais especiais, que seriam determinadas pelo comprimento de suas órbitas. E a partir daí Pitágoras concluiu que essas órbitas e notas teriam proporções numéricas específicas para que o universo permanecesse em harmonia. Isso se tornou uma teoria popular em sua época. Podemos reexaminá-la a partir de uma perspectiva moderna e ver como ela enfrenta os rigores do método científico atual. Do lado positivo, a afirmação de Pitágoras de que o universo estava repleto de música não depende de nenhuma força sobrenatural. Sua teoria também é bem simples e muito concisa, duas qualidades muito valorizadas na ciência. De modo geral, uma teoria apoiada em uma única equação, curta e bonita, é preferível a outra teoria que depende de várias equações feias e imprecisas, cheias de parênteses complicados e espúrios. Como disse o físico Berndt Matthias: “Se você vir uma fórmula na revista Physical Review que ocupe um quarto de página, pode esquecê-la. Está errada. A Natureza não é tão complicada”. Entretanto, a simplicidade e a concisão são secundárias diante da característica mais importante de qualquer teoria científica: ela deve corresponder à realidade e estar aberta à verificação. E é aí que a teoria da música celeste fracassa completamente. De acordo com Pitágoras, somos constantemente envolvidos por essa música celestial, mas não podemos percebê-la porque a ouvimos desde que nascemos e ficamos acostumados com ela. Para concluir, qualquer teoria que prevê uma música que nunca pode ser ouvida ou qualquer coisa que jamais poderá ser detectada é uma teoria científica muito pobre.

Toda teoria científica verdadeira precisa fazer uma previsão sobre o universo que possa ser observada ou medida. Se os resultados de uma experiência ou observação corresponderem à previsão teórica, teremos um bom motivo para que a teoria se torne aceita e seja incorporada à estrutura maior da ciência. Por outro lado, se a previsão teórica for imprecisa e entrar em conflito com a experiência ou a observação, então a teoria deve ser rejeitada, ou pelo menos modificada, a despeito de suas qualidades no que se refere à beleza ou à simplicidade. Esse é o desafio supremo, um desafio brutal, mas toda teoria científica deve poder ser testada e ser compatível com a realidade. No século XIX, o naturalista Thomas Huxley disse que “a grande tragédia da ciência é a morte de uma bela hipótese diante de uma feia realidade”.

Felizmente os seguidores de Pitágoras ampliaram suas idéias e aperfeiçoaram sua metodologia. Aos poucos, a ciência foi se tornando uma disciplina sofisticada e poderosa, capaz de realizações impressionantes, como a medida dos verdadeiros diâmetros do Sol, da Lua e da Terra e das distâncias que os separam. Essas medições foram marcos na história da astronomia, representando os primeiros passos vacilantes na estrada para a compreensão de todo o universo. Por isso tais medidas merecem ser descritas em detalhes.

Antes que qualquer distância celeste ou tamanho pudessem ser calculados, os antigos gregos já tinham determinado que a Terra é uma esfera. Tal noção ganhou ampla aceitação na antiga Grécia à medida que os filósofos se familiarizavam com a noção de que os navios desaparecem gradualmente no horizonte até que apenas a ponta do mastro pode ser vista. E isso só fazia sentido se a superfície do mar se curvasse, mergulhando atrás do horizonte. Se o mar tinha uma superfície curva, então, presumivelmente, a Terra também a teria, o que significava que talvez fosse uma esfera. Essa visão era reforçada pela observação dos eclipses da Lua, quando a Terra projeta uma sombra em forma de disco sobre a Lua, na forma exata que se esperaria de um objeto esférico. De significado semelhante era o fato de que todos podiam ver que a própria Lua era redonda, sugerindo que a esfera era a forma natural, o que acrescentava mais munição à hipótese de uma Terra redonda. Tudo começava a fazer sentido, incluindo os escritos do viajante e historiador grego Heródoto, que falava de pessoas no extremo norte que dormiam durante metade de um ano. Se a Terra fosse esférica, então partes diferentes do globo seriam iluminadas de modo diferente, de acordo com suas latitudes, o que naturalmente dava origem ao inverno polar e às noites que duravam seis meses.

Mas uma Terra esférica dava origem a uma pergunta que ainda incomoda as crianças hoje em dia. O que impede que as pessoas no hemisfério Sul “se desprendam” e caiam? A solução grega para esse enigma baseava-se na crença de que o universo tinha um centro e tudo seria atraído para este centro. O centro da Terra supostamente coincidiria com o centro universal hipotético, assim a Terra era estática e tudo sobre sua superfície seria puxado em direção ao centro. Portanto, os gregos ficariam presos ao chão por essa força, assim como tudo o mais no mundo, mesmo se vivesse lá embaixo.

A façanha de medir o tamanho da Terra foi realizada em primeiro lugar por Eratóstenes, que nasceu em 276 a.C., em Cirene, na atual Líbia. Mesmo quando ainda era um menino parecia evidente que Eratóstenes tinha uma mente brilhante, que podia se voltar para qualquer disciplina, da poesia à geografia. Ele até mesmo recebeu o apelido de Pentatlos, o que significa um atleta que participa das cinco competições do pentatlo, numa sugestão da amplitude de seus talentos. Eratóstenes passou muito tempo como bibliotecário-chefe em Alexandria, o posto acadêmico de maior prestígio no mundo antigo. A cosmopolita Alexandria tinha tomado o lugar de Atenas como centro intelectual do Mediterrâneo, e a biblioteca da cidade era a instituição de ensino mais respeitada no mundo. Esqueça qualquer imagem de bibliotecários burocráticos, carimbando livros e sussurrando uns com os outros, porque aquele era um lugar vibrante e excitante, cheio de estudiosos inspiradores e estudantes empolgados.

Na biblioteca, Eratóstenes ficou sabendo da existência de um poço com notáveis propriedades, situado perto da cidade de Siena, no sul do Egito, perto da atual Assuã. A cada ano, ao meio-dia de 21 de junho, o dia do solstício de verão, o Sol brilhava diretamente dentro do poço e iluminava tudo até o fundo. Eratóstenes percebeu que, naquele dia em especial, o Sol deveria estar diretamente acima, algo que nunca acontecia em Alexandria, que ficava a várias centenas de quilômetros ao norte de Siena. Hoje sabemos que Siena fica perto do Trópico de Câncer, a latitude mais ao norte em que o Sol pode aparecer bem no zênite.

Ciente de que a curvatura da Terra era o motivo de o Sol não brilhar do mesmo modo acima de Siena e Alexandria ao mesmo tempo, Eratóstenes imaginou se não poderia usar isso para medir a circunferência da Terra. Ele não pensou no problema do mesmo modo como pensaríamos, já que sua interpretação da geometria e sua notação eram diferentes.
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Pedaço de madeira foi encontrado em Marte…

… ou será uma formação rochosa (ou uma peça ou o rastro da Opportunity)?

Seja lá o que for, certamente é uma imagem que ativa a boa e velha imaginação.

A foto abaixo é uma imagem oficial da NASA (National Aeronautics and Space Administration). Ela representa a junção da visão da câmera direita e esquerda do veículo de exploração Opportunity, a fim de formar uma imagem panorâmica do horizonte do planeta Marte.

Clique aqui para ampliar a imagem:
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Nasa Opportunity

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Há dois veículos de exploração em Marte, o MER-B (Mars Exploration Rover – B, ou Opportunity) e o MER-A (Mars Exploration Rover – A, ou Spirit), ambos realizando a função de explorar geologicamente o solo marciano.

A NASA sempre desenvolve um logotipo para cada missão espacial, e abaixo você pode conferir os logos da Opportunity e da Spirit:

Opportunity
NASA Opportunity logo
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Spirit
NASA Spirit logo

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Livro: A Arca Perdida da Aliança | Tudor Parfitt | Primeiro Capítulo

O Professor Tudor Parfitt foi considerado o Indiana Jones britânico pelo conceituado jornal The Wall Street Journal, devido aos perigos e as aventuras que viveu na difícil busca pela Arca da Aliança, um dos objetos mais enigmáticos da história.

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Livros A Arca Perdida da Alianca Tudor Parfitt The Lost Ark of the Covenant BooksLivro: A Arca Perdida da Aliança

A Caverna

Era um tempo de seca. Em 1987 minha casa era uma cabana de palha numa ressecada área tribal no centro do Zimbábue, no sul da África, completamente isolada do resto do mundo. Eu estivera fazendo pesquisas de campo sobre uma misteriosa tribo africana chamada Lemba. Isso era parte do meu trabalho. Na época eu era professor de hebraico no Departamento de Estudos do Oriente Próximo e Médio na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS, em inglês) da Universidade de Londres, e já fazia um tempo que esta tribo era meu principal tema acadêmico.

Como eu passava o tempo na aldeia? No calor escaldante do dia caminhava pelos morros próximos ao povoado e remexia nos restos da antiga cultura de construções de pedra, que, segundo os lembas, era trabalho de seus ancestrais distantes. Com minha pequena colher de pedreiro havia descoberto alguns ossos, pedaços de cerâmica local e um ou dois instrumentos de ferro com idade incerta. Não era muita coisa sobre a qual escrever. Depois eu lia, fazia minhas anotações e passava boa parte da noite ouvindo as narrativas dos anciãos.

Os lembas faziam uma reivindicação espantosa, de que tinham origem israelita, ainda que a presença de israelitas ou judeus na África central jamais tivesse sido atestada anteriormente. Por outro lado, desde o início da Idade Média, houvera rumores de reinos judeus perdidos na África mais escura. O que eu ouvira era que a tribo acreditava que, quando deixaram Israel, estabeleceram-se numa cidade chamada Senna — em algum local do outro lado do mar. Ninguém tinha qualquer idéia de onde, no mundo, ficava essa misteriosa Senna, nem eu. A tribo pedira que eu encontrasse sua cidade perdida, e eu havia prometido tentar.

O que eu sabia em 1987 sobre a tribo lemba, com 40 mil membros, era que eles eram negros, falavam várias línguas banto como venda ou shona, habitavam diversos locais na África do Sul e no Zimbábue, fisicamente não se diferenciavam de seus vizinhos e tinham uma quantidade de costumes e tradições idênticas às das tribos africanas entre as quais viviam.

Pareciam ser completamente africanos.

Mas, por outro lado, também tinham alguns costumes e lendas misteriosos que não pareciam africanos. Não se casavam com pessoas de outras tribos. Não comiam tradicionalmente com outros grupos. Circuncidavam os meninos. Praticavam a matança ritual de animais, usando uma faca especial; recusavam-se a comer porcos e várias outras criaturas; sacrificavam animais em locais altos como os israelitas antigos e seguiam muitas outras leis do Velho Testamento. A visão da lua nova era de importância fundamental para eles, assim como para os judeus. Os nomes dos clãs pareciam derivados do árabe, do hebraico ou de alguma outra língua semítica.

Durante os meses que eu havia passado na aldeia tentando desvendar seus segredos, jamais encontrei a prova absoluta — a arma fumegante, demonstrando que sua tradição oral, que os ligava à antiga Israel, era verdadeira. Jamais encontrei uma inscrição em pedra, um fragmento de uma oração em hebraico, um artefato do antigo Israel. Nem mesmo uma moeda ou um caco de cerâmica.

Antes de chegar ao Zimbábue eu havia passado alguns meses com as grandes comunidades lembas no país vizinho, a África do Sul. Ali, os líderes da tribo haviam me dado muitas informações. Eu esperava conseguir mais no Zimbábue e pedi que o chefe lemba local facilitasse a pesquisa. O chefe Mposi convocou uma reunião dos anciãos dos clãs lembas e, instigados por minha promessa de tentar encontrar sua cidade perdida de Senna, concordaram formalmente em permitir que eu pesquisasse sua história.

Mas depois disso não me contaram nem de longe o quanto eu esperava. Eram reservados com relação a qualquer coisa que tivesse a ver com suas práticas religiosas. Foi somente a disposição de me sentar perto deles até tarde da noite, até que meu uísque tivesse afrouxado a língua dos velhos, que me permitiu ouvir algo sobre seu culto notável.

No dia seguinte eles se arrependiam das indiscrições noturnas e murmuravam que os anciãos do clã não deveriam ter autorizado minha pesquisa, que os brancos não tinham nada que se intrometer nos assuntos deles e que eu deveria parar de tentar penetrar no manto de segredo que velava seus ritos religiosos.

Outros tentaram me amedrontar e fazer com que eu fosse embora contando histórias sinistras do que havia acontecido com gerações anteriores de pesquisadores que tinham penetrado demais em caminhos proibidos. Um deles fora circuncidado à força depois da ousadia de caminhar pela Dumghe, a montanha sagrada da tribo. Outro havia chegado perto demais de uma caverna sagrada na base da Dumghe e fora ferido com uma assegai tradicional e tremendamente espancado. Escapara com vida por pouco.

À medida que minhas esperanças de encontrar a pista fundamental com relação à verdadeira identidade deles começavam a morrer, também morriam as plantações ao redor da aldeia. Não chovera nada durante meses. Havia um pouco de líquido denso e lamacento no fundo das cacimbas. Todas as manhãs as mulheres traziam água em enferrujadas latas de óleo equilibradas na cabeça. Quando isso acabasse, não teriam o que beber. A não ser a cerveja da venda, para quem tivesse dinheiro. E esses não eram muitos.

Nesta manhã, cedo, antes do nascer do sol, o chefe havia convocado uma cerimônia da chuva. O mensageiro do chefe tinha chegado assim que as pessoas da casa começavam a acordar. A fogueira de cozinhar estava sendo soprada, e era aquecida a água para o chá e para abluções, trazida todas as manhãs à minha cabana pela filha de meu gentil anfitrião, Sevias. O mensageiro disse a Sevias que a presença dele seria necessária naquela noite. Este era um último e desesperado lance de dados.

Houvera seca durante tanto tempo que os riachos que um dia haviam trazido vida e peixes ocasionais ao povoado tinham desaparecido completamente. Agora pareciam trilhas de cabras cheias de poeira funda e fina. Sem água, logo a vida na aldeia seria impossível. A tribo teria de se mudar. Mas para onde? A seca cobria toda a região.

No fim da tarde os anciãos e notáveis se reuniram na grande cabana do chefe, no centro de seu kraal — o grupo de cabanas que formavam sua propriedade. Tinham sido convidados a beber chibuku — uma cerveja de milho feita em casa, com consistência de mingau —, dançar durante toda a noite e entreter os ancestrais pedindo chuva. Isso era os confins da África mais profunda.

Sevias me convidou a acompanhá-lo. Caminhamos juntos pela terra ressequida enquanto ele me contava sobre os grandes rebanhos que já possuíra, sobre as árvores gemendo sob o peso das frutas, sobre as espigas de milho que antigamente eram grandes como abóboras.

Estávamos entre os primeiros a chegar. Sentei-me perto de Sevias num banco de barro cozido que rodeava a cabana e olhei com grande interesse os preparativos para a festa dos ancestrais. Nunca havia imaginado que teria permissão de observar qualquer coisa como aquela já que sem dúvida ela fazia parte do coração de seu culto.

Eu tinha uma máquina fotográfica, um gravador e um caderno. Tinha quase certeza de que esta noite me daria material para ao menos um artigo acadêmico, um artigo impressionante.

O chefe Mposi sentou-se sozinho. Estava com saúde ruim e parecia preocupado. Olhava o chão de terra, apoiando a cabeça no topo da bengala. Com um movimento súbito chamou as esposas para servirem cerveja.

— Ela está lá, parada, e não está fazendo bem a ninguém!

— Já vou servir — respondeu rispidamente a esposa mais velha, levantando o pote de cerveja com os braços musculosos.

— Muito tarde — resmungou ele.

O pote de chibuku foi passado de mão em mão, da direita para a esquerda, sem qualquer demonstração inadequada de pressa, como uma garrafa de vinho Madeira depois de um jantar elegante em Oxford.

O silêncio foi rompido pelo chefe chamando os nomes de suas quatro esposas. Eram singularmente diferentes uma das outras em idade, tamanho e beleza. Cada uma respondeu por sua vez, ajoelhadas lado a lado, e começaram a bater palmas. Viraram-se de costas para o chefe, levantaram-se e acenderam velas, enquanto as outras mulheres começavam a ulular e assobiar.

Uma longa trompa de chifre de antílope foi enfiada através da abertura para dentro da cabana, e um toque triunfante silenciou o som agudo das mulheres. O homem que soprava a trompa era alto e forte. Usava uma saia feita de tiras de pele preta e ao redor da cabeça tinha uma faixa de pele de leopardo. Era o feiticeiro. Seu nome era Sadiki — um dos nomes de clãs dos lembas — nome inconfundivelmente semítico cuja presença na África central era uma anomalia misteriosa. Ele comandou a cerimônia. Chocalhos magagada, feitos de cabaça, estavam amarrados aos seus tornozelos com cordas de fibra de casca de árvore. Ele batia os pés no chão de terra da cabana e soprava uma nota longa e assombrosa na trompa.

Quatro mulheres idosas sentadas juntas no banco de barro que seguia por todo o perímetro da cabana começaram a bater em tambores de madeira. Os outros convidados estavam reunidos ao redor do feiticeiro, impelidos nos movimentos curtos e estremecidos da dança pelos ritmos dos tambores e dos chocalhos magagada, praticamente sem se mexer, perdidos em concentração.

Sadiki estava parado no epicentro da tempestade de sons, direcionando seu movimento. Tinha um ar poderoso e régio, e olhava com arrogância ao redor. De modo sugestivo, mexeu um dos pés. Depois, uma das mãos. Seu corpo seguiu e, posicionando-se na frente de um dos tambores, dançou como Davi diante da Arca, parando para soprar a trompa de chifre semelhante à shofar que um dia fora tocada no Templo de Jerusalém. As tocadoras de tambor pareciam velhas e frágeis demais para produzir um som daqueles, no entanto deveriam tocar durante horas, sem pausa.

A cerveja começou a circular mais depressa. A pobreza havia dominado a aldeia. Fazia muito tempo que os potes de cerveja não eram passados com tanta liberalidade. Alguns homens, não mais acostumados a beber, já estavam inebriados.

A mulher mais velha do chefe já estava aparentemente possuída pelos espíritos dos ancestrais. Olhando de um lado para o outro, caiu no chão chorando. Olhando ao redor de modo desfocado, levantou o vestido comprido, de estilo ocidental, até tirá-lo pela cabeça. Dançou posicionando-se no espaço diante das tocadoras de tambor, que Sadiki deixara livre.

O ritmo acelerou de novo. Com o suor descendo pelo peito largo e musculoso, Sadiki pôs um adereço de penas pretas de águia na cabeça da mulher. Sevias me disse que isso era para demonstrar respeito pelos ancestrais. Ela continuou dançando, lançando grandes sombras nas paredes iluminadas por velas. Caiu de joelhos, soluçando, diante do velho chefe e pôs com ternura o adereço na cabeça dele.

O chefe estava morrendo. Todo mundo dizia isso. Parecia cinzento e doente. Fez um gesto para eu me juntar a ele. Pegou minha mão e sussurrou no meu ouvido:

— Os ancestrais vieram de Israel: vieram de Senna. Estão aqui conosco. Adeus, Mushavi. Talvez nos vejamos em Senna.

Senna era a cidade perdida de onde os lembas tinham vindo, também era o lugar aonde esperavam ir depois de morrer.

O rosto dele, iluminado pela luz trêmula das velas, era corrugado com marcas da idade e da doença; seus olhos estavam escondidos por papadas de carne clara e pintalgada. Espiou-me e depois indicou que eu deveria me levantar e deixá-lo. Entristecido e aturdido por suas palavras, voltei ao banco onde estavam meu caderno, a máquina fotográfica e o gravador.

Eu estava na aldeia havia tanto tempo que começava a me sentir em casa, como um deles. Tinha bebido um bocado de sua cerveja chibuku. Depois dos primeiros goles ela se torna mais ou menos palatável, e depois de um tempo é positivamente aceitável. Percebi que aquele não era um momento para ficar sentado num canto tomando notas e gravando música lemba. Havia coisas mais importantes a fazer. Esta era mais uma ocasião para participação do observador. Tirei a camisa para, como pensei, misturar-me aos homens e mulheres cujas sombras fantasmagóricas saltavam loucamente nas paredes e que caíam numa espécie de transe ao meu redor. A mulher mais velha do chefe atravessou a cabana, inclinou-se sobre mim, e sussurrou algo incompreensível em shona, a língua da tribo shona, dominante na região do Zimbábue onde viviam os lembas.

Comecei a dançar ao ritmo forte dos tambores. Uma das mulheres mais novas do chefe estava dançando na minha frente, oscilando, bêbada, suplicando aos ancestrais.

As tocadoras de tambor aceleraram o ritmo.

Outra mulher, num transe remelento, foi para o centro da cabana. Homens ficaram de pé ao redor, admirando seu corpo esguio, instigando-a.

— Ela está falando com os ancestrais — gritou Sevias no meu ouvido. — Logo eles vão responder. Quando as vozes deles forem ouvidas, será melhor você ir embora.

Perto da meia-noite houve uma mudança na atmosfera. Imaginei que havia chegado a hora de oferecer os sortilégios e as orações secretas do culto. Essas eram coisas muito bem guardadas. Eram os códigos orais que governavam a vida dos lembas e que sem dúvida tinham as pistas para o passado que eu estava buscando. Esses códigos e sortilégios eram para mim o âmago da questão. Era disso que eu queria fazer parte. Era para isso que eu tinha vindo.

Meus braços estavam levantados; meu rosto estava voltado para o teto de palha. O suor escorria do meu corpo. Sentia uma empolgação enorme. Eu fora aceito, era um deles. Os ancestrais iam baixar e eu estaria ali para observar o que aconteceria em seguida. Ninguém do mundo externo jamais havia observado isso. Dentro da minha cabeça podia sentir uma espécie de canal se abrindo, parecia um canal de comunicação com os ancestrais israelitas da tribo.

Eu estava me rejubilando com a eficácia de minha metodologia de pesquisa cinco estrelas quando senti um punho se chocar contra a lateral do rosto. Era o punho da mais velha e mais forte mulher do chefe. Caí no chão em cima do corpo deitado e fétido do maior bêbado dos Mposi — uma espécie de mendigo chamado Klopas, que eu conhecia e cujo cheiro havia sentido muitas vezes. Por alguns segundos, perdi a consciência. Fui arrastado para fora da cabana por alguns homens e encostado na lateral da construção.

— É… eu chateei a mulher do chefe — falei. — Lamento muito.

Não estava lamentando tanto assim. Estava me sentindo tremendamente furioso.

— Mushavi — disse Sevias, inclinado acima de mim. — Você não chateou ninguém. O soco foi apenas as boas-vindas dos ancestrais. Talvez também tenha sido um pequeno aviso. Só um pequeno aviso. Se os ancestrais não quisessem você aqui, não teriam dado um soco fraco como esse, teriam feito picadinho de você. Agora você deve ir, porque os ancestrais estão chegando entre nós. Os que não são iniciados devem sair.

Os espíritos dos ancestrais não ficariam felizes em me ver ali, explicou ele. Segredos seriam compartilhados. Havia coisas que eu não deveria saber. De modo truculento, pensei que, se eu não conseguisse descobrir as coisas secretas ali, naquela noite, as chances eram de nunca saber. Era agora ou nunca.

Do lado de fora da cabana, um grupo de anciãos estava olhando ansioso para o céu noturno, esperando sinais de chuva. Sevias sentou-se ao meu lado, encostado na parede. Seu rosto com rugas gentis traía sinais de preocupação. Sua preocupação não era somente pela chuva, ou pela falta dela, se bem que esta fosse uma questão fundamental para ele, assim como para os outros — de fato sua vida e a vida de sua família dependiam disso — mas também por mim e pelo meu desapontamento ao não ser admitido nos segredos tribais. Eu já havia lhe contado que meu trabalho de campo não rendera tanto quanto eu esperava.

De cabeça inclinada, as mãos levantadas num gesto de súplica, ele perguntou com apenas uma sugestão de sorriso:

— Mushavi, você encontrou o que estava procurando no tempo que passou conosco?

Ele freqüentemente me honrava com o elogioso nome tribal de Mushavi, que os lembas geralmente só usam entre si e que eu achava que poderia estar conectado a Musawi — a forma arábica de “seguidor de Moisés (Musa)”. Talvez ele estivesse tentando me lisonjear chamando-me de Mushavi, mas o resto de sua pergunta era incompreensível. Ele sabia muito bem que, na maior parte, os segredos da tribo permaneciam intactos.

Sorri, e com o máximo de paciência que pude juntar, falei:

— Você sabe muito bem, Sevias, que ainda há muitos segredos que vocês não me contaram. E não se esqueça que os anciãos de todos os clãs concordaram que eu tivesse acesso a tudo.

— É — concordou ele, sério — mas muitas vezes expliquei a você que, não importando o que tenha sido dito na reunião dos clãs, há coisas que não podem ser contadas fora da irmandade dos iniciados. Orações, feitiços, sortilégios. Muitos dos nossos segredos não podem ser revelados. Os outros lhe disseram isso. Eles teriam de matá-lo, Mushavi, se você ficasse sabendo dessas coisas secretas. É a lei.

Seu rosto enrugado se tornou quase uma paródia de preocupação e ansiedade.

Sevias era um homem bom. Em todos os meses que eu havia passado em seu kraal, apesar da seca e da situação política insegura dentro da tribo e do país como um todo, apesar de dificuldades familiares, ele sempre fora calmo, gentil e digno. Agora eu percebi que nunca fora mais feliz na vida do que quando me sentava sob a grande árvore no kraal de Sevias.

Ele arrastou os pés descalços e calosos na terra seca.

— Mas e os segredos da tribo? — insisti. — As coisas que vocês trouxeram do norte, de Senna. Já me contaram sobre elas, mas ainda não vi nenhuma.

— É verdade. Nós trouxemos objetos de Jerusalém há muito tempo e trouxemos objetos de Senna. Objetos sagrados, importantes, de Israel e Senna.

Senna era a cidade perdida que, segundo a tribo, ela havia habitado depois de deixar a Terra de Israel. O professor M.E.R. Mathivha — o erudito líder da tribo lemba na África do Sul — já havia me contado muitas coisas sobre a lenda de Senna. A tribo viera de Senna “atravessando o mar”. Ninguém sabia onde isso ficava. Haviam atravessado “Pusela”, mas ninguém sabia onde isso ficava, também. Tinham vindo para a África, onde, por duas vezes, reconstruíram Senna. Esse era o resumo da história.

— Sevias — insisti —, você não pode ao menos me contar o que aconteceu com os objetos da tribo?

Ele examinou o céu e permaneceu calado. Depois murmurou:

— A tribo está espalhada numa grande área. Você sabe, uma vez nós violamos a lei de Deus. Comemos camundongos, que são proibidos para nós, e fomos espalhados por Deus entre as nações da África. Assim os objetos foram espalhados e escondidos em locais diferentes.

— E o ngoma? Onde você acha que pode estar?

O ngoma era um tambor de madeira usado para guardar objetos sagrados. A tribo havia seguido o ngoma, carregando-o no alto, durante a viagem pela África. Eles afirmam que o trouxeram de Israel há tantos anos que ninguém se lembra mais de quando isso aconteceu.

Segundo suas tradições orais, eles carregaram o ngoma à frente da tribo nas batalhas e ele os havia guiado na longa caminhada pelo continente. Segundo a tradição oral dos lembas, o ngoma costumava ser carregado diante do povo, em duas varas. Cada vara era inserida nos dois aros de madeira presos nos dois lados do ngoma. O ngoma era muitíssimo sagrado para a tribo, praticamente divino. Objetos sagrados do culto eram levados ali dentro. O objeto era santificado demais para ser posto no chão: no fim de um dia de marcha era pendurado numa árvore ou posto numa plataforma construída especialmente para ele. Era santo demais para ser tocado. Os únicos membros da tribo que tinham permissão de se aproximar dele eram os sacerdotes hereditários que sempre faziam parte do clã Buba. Os sacerdotes buba serviam ao ngoma e o guardavam. Qualquer um que o tocasse, não sendo os sacerdotes e o rei, seria derrubado pelo fogo de Deus que irrompia do próprio tambor. Ele era levado para a batalha e garantia a vitória. Matava os inimigos dos guardiães do ngoma.

Eu ouvira falar do ngoma pela primeira vez alguns meses antes, na África do Sul. O professor Mathivha me contara o que sabia sobre o objeto e eu recebera um relato detalhado de um velho lemba chamado Phophi, que conhecia bem a história da tribo. Phophi havia me contado sobre o tamanho do ngoma, suas principais propriedades e que tradições eram associadas a ele.

Eu também sabia que, cerca de quarenta anos antes, um antigo ngoma fora encontrado por um estudioso alemão chamado von Sicard numa caverna junto ao Limpopo, o rio infestado de crocodilos que marca a fronteira entre o Zimbábue e a África do Sul. Ele o havia fotografado e a foto fora incluída num livro que escreveu sobre o assunto, mas aparentemente desde então o ngoma havia desaparecido sem deixar vestígios. Mathivha, Phophi e outros anciãos lembas haviam me contado que o artefato encontrado pelo alemão em sua caverna remota era sem dúvida o ngoma original que os lembas haviam trazido do norte.

Uma noite, algumas semanas antes da dança da chuva, sentado até tarde junto ao fogo com Sevias e outros anciãos, ouvi um pouco mais sobre a lenda do ngoma.

— O ngoma veio do grande templo de Jerusalém — disse Sevias. — Nós o carregamos até aqui, pela África, usando as varas. À noite, ele ficava numa plataforma especial.

De repente me ocorreu que, na forma, no tamanho e na função, o ngoma lungundu era semelhante à bíblica Arca da Aliança, a famosa arca perdida que fora procurada sem sucesso através dos tempos. A descrição bíblica do objeto, que eu conhecia desde os anos em que estudava hebraico clássico em Oxford, estava gravada na minha mente.

Uma arca de madeira de shittim; o seu comprimento será de dois côvados e meio, e a sua largura de um côvado e meio, e de um côvado e meio a sua altura (…) e fundirás para ela quatro argolas de ouro, e as porás nos quatro cantos dela, duas argolas num dos lados, e duas argolas noutro lado. E farás varas de madeira de shittim, e as cobrirás com ouro. E colocarás as varas nas argolas, aos lados da arca, para se levar com elas a arca. As varas estarão nas argolas da arca, não deverão ser tiradas dela. Depois porás na arca o testemunho, que eu te darei.

A Arca, como o ngoma, tinha poderes sobrenaturais. Jamais poderia tocar o chão. Era praticamente divina. Como o ngoma, era levada para a batalha e garantia a vitória. Objetos sagrados, inclusive as tábuas em que foram inscritos os Dez Mandamentos e a vara mágica de Arão, irmão de Moisés, eram guardados ali dentro. Qualquer um que ao menos olhasse para ela seria derrubado por seu poder espantoso. Uma casta sacerdotal fundada por Arão, irmão de Moisés, guardava a Arca. O clã sacerdotal dos Buba, fundado por um indivíduo chamado Buba, que supostamente teria guiado os lembas para fora de Israel, guardava o ngoma.

As semelhanças funcionais eram marcantes. Mas as diferenças na forma eram significativas. Aparentemente a Arca era uma espécie de caixa, cofre ou baú, ao passo que o ngoma — apesar de também carregar coisas dentro — era um tambor. A Arca era feita de madeira, mas coberta com folhas de ouro; o ngoma era simplesmente feito de madeira.

De modo mais fundamental, não havia conexão nos tempos antigos entre o mundo da Bíblia e esse canto remoto do interior da África. E não havia absolutamente nenhuma prova, de modo algum, de que os guardiães lembas do ngoma tivessem ancestralidade judaica. Mesmo assim, a sobreposição entre esses objetos aparentemente muito diferentes me atraía e levou minha mente em direção à estranha história da Arca da Aliança. Era uma comparação interessante mas, pensava eu, nada mais do que isso.

Do lado de fora da cabana do chefe, com o ruído tumultuoso dos tambores suplantando todos os sons da noite, encostei-me na parede de barro e palha e senti lentamente a dor do soco ir sumindo. Sevias parecia pouco à vontade. Segurou meu braço e fez com que eu me levantasse, levando-me mais para longe dos grupos de homens que estavam de pé ao redor, desfrutando do ar noturno antes de retornar ao frenesi da dança.

— Falar do ngoma e das coisas que foram trazidas de Israel é perigoso demais, Mushavi. Isso faz parte dos conhecimentos secretos da tribo. Não posso lhe contar sobre isso mais do que já contamos. Contamos que nós nos chamamos de Muzungu ano-ku bva Senna, “os brancos que vieram de Senna”. Contamos que o ngoma veio conosco de Senna. Contamos o que era o ngoma. E contamos que o ngoma não é visto por homens há muitos, muitos anos.

Sevias já ia se virar quando hesitou e pôs a mão no meu braço.

— Os velhos dizem que foi o ngoma que nos guiou até aqui, e algumas pessoas dizem que quando chegar a hora certa o ngoma virá nos levar de volta. As coisas estão piorando neste país. Talvez a hora esteja chegando.

— Sevias — eu disse —, sei que este é um dos maiores segredos de sua tribo e sei que há muitos na tribo que não desejam compartilhar os segredos comigo. Mas partirei em breve. Não quero voltar de mãos vazias. Poderia simplesmente me contar, por favor, se tem alguma idéia de onde pode estar o ngoma lungundu?

Sevias parou, olhou ao redor e ficou em silêncio. Olhou para o céu noturno de uma limpidez frustrante, e de novo arrastou os pés na poeira fina do kraal.

— Onde está agora, não sei. Mas há alguns anos os homens muito velhos costumavam dizer que ele estava escondido na caverna abaixo da montanha Dumghe. Está em segurança lá. É protegido por Deus, pelo rei e pelo “pássaro do céu”, por cobras de duas cabeças e pelos leões, “os guardiães do rei”. Foi levado para lá, segundo dizem os velhos, pelos Buba de Mberengwe. Eles formam o clã dos sacerdotes lembas e naqueles tempos havia alguns deles que ficavam do lado de Mberengwe. Mas, como você sabe, esse é o único lugar aonde você não deve ir. À montanha Dumghe.

Ele me deu boa-noite e voltou rapidamente para se juntar aos anciãos.

Peguei Tagaruze, o policial que fora instruído pelo quartel da polícia local para atuar como meu guarda-costas (e ficar de olho em mim), e caminhei os quase quatro quilômetros de volta até o kraal de Sevias.

Senti uma pontada de tristeza porque logo estaria deixando aquele belo lugar com seus morros ásperos e grandes pedras redondas, moldados por eras de vento e chuva, sol e seca.

No dia seguinte estava planejando ir para o norte em direção ao Malawi e à Tanzânia, seguindo a trilha da passagem dessa tribo enigmática através da África, em busca de sua cidade perdida de Senna. Parecia uma busca longa e solitária, e de repente senti saudade de casa.

Tinha recebido uma carta de Maria, minha voluptuosa namorada latino-americana, dançarina de salsa. Era uma carta amorosa, porém firme. Ela queria que eu voltasse, que deixasse essa busca comodista do que ela chamava de Senna inexistente. Queria que eu me casasse com ela e levasse uma vida normal, a vida convencional e sedentária de erudito e professor universitário. Se eu não quisesse casar com ela, havia um monte de homens que iriam querer.

“Os homens”, escreveu ela, “existem aos milhões. Você é um imbecil se não aproveitar a chance agora, quando ela existe. Outros aproveitariam.”

E era verdade. Cada vez que ela andava pela rua, poucos homens deixavam de notá-la. Maria tinha um jeito especial de andar. Tentei afastá-la do pensamento. Ela esperaria. Provavelmente.

Ainda estava me sentindo tonto por causa do chibuku. Se o que Sevias havia dito estava correto, talvez houvesse alguma chance de eu encontrar seu ngoma lungundu. Isso talvez revelasse alguma coisa sobre de onde a tribo viera. Talvez me ajudasse a encontrar a cidade perdida de Senna. Talvez houvesse alguma coisa escrita nele, objetos sagrados dentro, que pudessem me ajudar na busca. Eu só precisava ir para a Dumghe.

Senti um tremor de empolgação. A montanha sagrada dos lembas situa-se a pouco menos de quatro quilômetros do kraal de Sevias. Era um belo monte arredondado, virado para o leste e coberto com as características pedras redondas da região, e esparsamente coberto de mato. Havia um terreno aberto entre o kraal e a montanha Dumghe. Não havia povoados nem kraals — nem cachorros barulhentos para alertar à tribo sobre minhas atividades. Não havia animais selvagens perigosos, a não ser bandos de chacais e algum leopardo ocasional, e eu estava bêbado demais para me preocupar muito com isso.

Seguindo uma ânsia súbita inspirada pelo chibuku, decidi caminhar até a caverna sagrada, o lugar onde a tribo me havia proibido de ir. Uma área interdita. No passado, qualquer um que ousasse ir lá e não fosse iniciado, seria punido com a morte.

Os anciãos estariam dançando e bebendo nas próximas horas, pensei. O resto da tribo estava dormindo. Ninguém saberia que eu estive lá. Eu sabia que a caverna era situada na base de duas rochas enormes que haviam se separado de um penhasco que formava o lado leste da montanha. Era coberta por grandes pedras lisas e arredondadas, moldadas durante milênios pela erosão dos ventos. As rochas atrás do local onde se escondia a caverna haviam sido apontadas para mim uma vez, e tinham me dito que atrás da caverna sagrada havia outra passagem, mais sagrada ainda do que a primeira. Talvez fosse ali que o ngoma estivesse protegido, como diziam, por seus leões e cobras policéfalas.

Eram cerca de duas da madrugada quando cheguei — junto com Tagaruze, meu forte policial guarda-costas — à grande árvore meshunah onde eu havia encontrado o guardião lemba da Dumghe nos meus primeiros dias na aldeia. A partir da árvore, todos os caminhos que levavam à caverna seriam visíveis. O guardião oficial supostamente estaria sempre de serviço, mas era difícil acreditar nisso e, de qualquer modo, nesta ocasião, eu tinha pouca coisa com que me preocupar, porque o tinha visto na festa da chuva, bêbado como todos os outros.

Paramos um momento e depois subimos pela lateral da montanha, em direção à trilha íngreme que levava à caverna. De um dos lados o caminho se grudava à face da rocha; do outro havia uma queda íngreme de doze metros no vazio. Era uma descida traiçoeira e as pedras ficavam caindo no abismo.

Até Tagaruze ficou amedrontado. Naquela noite ele estava indo muito além do dever. Sentia-se tão fascinado pelas histórias dos lembas quanto eu. Mas começava a se arrepender de ter concordado em me acompanhar até ali. Não era muito dado a palavras, mas finalmente murmurou:

— Por que estamos fazendo isso? O que estamos procurando?

Eu também estava apavorado e não respondi.

Pensei ter escutado um barulho nas árvores e nos arbustos acima da face de pedra da Dumghe. Ficamos em silêncio. Alguns dias antes, um dos anciãos tinha visto um leão, um leão branco, segundo ele, na montanha. Os anciãos tinham me contado que o ngoma era sempre protegido por leões. Eram os leões de Deus, os guardiães do rei. Fomos em frente, escorregando pela descida que levava à caverna na base das rochas, parando de vez em quando para prestar atenção a sinais de perigo. Tagaruze tirou sua arma do coldre e enfiou no cinto. Havia um cheiro úmido e acre no ar. Minhas mãos estavam molhadas de suor devido ao esforço da caminhada e do medo.

De repente o caminho sumiu sob meus pés e foi somente a rapidez de Tagaruze ao agarrar meu braço que me impediu de desaparecer pela borda. Pedras soltas caíram do penhasco numa avalanche respeitável. Um eco chapado ecoou sob nós. Paramos e olhamos a ravina abaixo. Dava para vislumbrar a silhueta do estágio final da descida pelo penhasco do outro lado da grande parede de rocha.

Com cuidado continuamos descendo. Num momento houve um estalo de galhos; em outro, o som de um grande pássaro e uma corrente de ar depois; silêncio. Imaginei se aquele seria o “pássaro do céu”, a criatura que Sevias dissera ser um dos protetores da Dumghe.

Chegamos à base de duas grandes rochas. Houve outro som de galho se partindo. Talvez os lembas realmente mantivessem alguém ali o tempo todo, para guardar seus tesouros, afinal de contas. Havia apenas espaço para andarmos em fila. Fui na frente, apontando a lanterna ao redor até chegarmos ao que parecia a entrada da caverna. Aquele lugar, pensei, devia ser o mais sagrado para os lembas. Entre a pedra e a face do penhasco havia um monte de seixos soltos. Pus ali meu pé calçado com a bota para deserto, segurando a lanterna com uma das mãos e apoiando a outra na lateral de uma pedra. Não havia nada a ser visto. Encorajado, passei pela entrada estreita e apontei a lanterna em frente. Tudo que vi foi uma parede de pedra.

Mas pude ouvir uma coisa; uma espécie de som ofegante, uma tosse ou um rosnado, e então um som mais alto — uma fungada, talvez, que se transformou num rugido ensurdecedor ricocheteando na face de rocha ao redor. Minha mão apertou a lanterna, cheia de terror. Minhas pernas viraram geléia. A arma, pensei, atire no que quer que isso seja. Tagaruze estava com a arma, mas quando me virei percebi que Tagaruze não estava mais atrás de mim. Tagaruze havia desaparecido. Eu estava sozinho.

Recuei pela abertura, de costas, mantendo o rosto virado para o som, depois subi a trilha estreita atrás dele e fugi pelas encostas cobertas de mato da montanha Dumghe. O ruído nos acompanhou, subindo pelo fosso natural formado pelas grandes rochas, montanha acima. Era um som aterrorizante — poderia ser um leão, um leopardo ou qualquer outra coisa. Não esperamos para descobrir. Corremos o mais depressa que pudemos até chegarmos à árvore meshunah.

Sentamo-nos ofegantes na base da árvore. Enquanto meu traseiro batia no chão senti algo deslizando de baixo de mim e indo para o mato rasteiro. Estremecendo, levantei-me depressa.

— Que diabo foi isso? — perguntei.

— Só uma cobra — disse Tazaruze, sem jeito.

Meu sangue ficou gelado e senti vontade de vomitar. Haviam me dito que um dos guardiães do ngoma era uma cobra de duas cabeças. Eu sentia um milhão de vezes mais medo até mesmo da cobra menor e mais inofensiva do que de qualquer felino, pequeno ou grande, na face da terra.

Estremeci.

— E aquela coisa na caverna?

— Devia ser um ancestral dos lembas no corpo de um leopardo ou um leão. Ou seriam os protetores do ngoma, os leões do Todo-poderoso, os guardiães do rei. Todo mundo sabe que eles rondam nesta montanha. Foi um erro terrível, enorme.

O que o policial dissera era indubitavelmente verdadeiro. Foi um erro. Eu lamentaria esse equívoco em muitos anos seguintes. Não encontramos o esquivo e misterioso ngoma lungundu, o estranho artefato que representava um papel tão importante na imaginação dessa remota tribo africana, mas os acontecimentos daquela noite mudariam minha vida e me colocariam numa busca que só seria solucionada muitos, muitos anos depois.

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Planeta é fotografado além do Sistema Solar

Pela primeira vez após anos de busca um planeta orbitando uma estrela fora do nosso sistema solar foi fotografado pelas lentes especiais do telescópio Gemini North, do observatório Gemini, situado no Havaí. A descoberta foi feita pelos cientistas David Lafrenière, Ray Jayawardhana e Marten H. van Kerkwijk, da Universidade de Toronto (Canadá).

1RXS J160929.1-210524

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O objeto que ainda não foi oficialmente classificado como planeta está a cerca de 500 anos-luz do nosso Planeta Terra, ou seja, é necessário viajar durante 500 anos a velocidade de 300.000 km/s (quilômetros por segundo) para cobrir tal distância.

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Trecho do Livro: Isto é Biologia | Ernst Mayr

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O que significa “vida”?

Os humanos primitivos viviam perto da natureza. Todos os dias eles se viam às voltas com plantas e animais, como coletores, caçadores ou pastores. E a morte — de bebês e velhos, de mulheres no parto, de homens na guerra — estava sempre presente. Certamente nossos primeiros ancestrais pelejaram com a eterna pergunta: “O que é a vida?”.

Talvez a princípio eles não fizessem distinção entre a vida num organismo e o espírito num objeto natural não-vivo. A maioria dos povos primitivos acreditava que um espírito pudesse residir em uma montanha ou uma nascente, assim como em uma árvore, um animal ou uma pessoa. Essa visão animista da natureza acabou se desfazendo, mas a crença de que “alguma coisa” numa criatura viva a distinguia da matéria inanimada e deixava o corpo no momento da morte continuou firme. Na Grécia antiga, essa alguma coisa nos seres humanos foi denominada “sopro vital”. Mais tarde, em especial na religião cristã, ela foi chamada de alma.

Na época de Descartes e da Revolução Científica, os animais (juntamente com as montanhas, os rios e as árvores) perderam o direito de ter alma. Mas uma cisão dualista entre o corpo e a alma nos seres humanos continuou a ser aceita quase universalmente, e até hoje muita gente acredita nela. A morte era um problema intrigante para um dualista: por que essa tal alma haveria de morrer ou deixar o corpo de repente? Se a alma saía mesmo do corpo, será que ela ia para algum lugar específico, como um nirvana qualquer ou o céu? Somente quando Charles Darwin desenvolveu sua teoria da evolução por meio da seleção natural foi que uma explicação racional e científica da morte se tornou possível. August Weismann, um seguidor de Darwin do final do século XIX, foi o primeiro autor a explicar que uma sucessão rápida de gerações fornece o número de novos genótipos necessário para lidar permanentemente com um ambiente que se modifica. Seu ensaio sobre a morte e o morrer foi o começo de uma nova era no nosso entendimento do significado da morte.

Quando os biólogos e filósofos falam da “vida”, no entanto, eles não estão se referindo à vida (quer dizer, ao viver) em oposição à morte, e sim da vida em oposição à falta dela em um objeto inanimado. Elucidar a natureza dessa entidade chamada “vida” tem sido um dos principais objetivos da biologia. O problema, aqui, é que “vida” remete a alguma “coisa” — uma substância ou uma força — e, durante séculos, os filósofos e os biólogos tentaram, em vão, identificar essa força ou substância vital. Na realidade, o substantivo “vida” é meramente uma reificação do processo de viver. Ela não existe como entidade independente. É possível lidar cientificamente com o processo de viver, algo impossível de fazer com a entidade abstrata “vida”. É possível descrever, e mesmo definir, o que é viver; é possível definir o que é um organismo vivo; e é possível tentar estabelecer uma fronteira entre vivo e não-vivo. Mais ainda, é possível até tentar explicar como a vida, enquanto processo, pode ser o produto de moléculas que não são, elas próprias, vivas.

O que é vida, e como explicar os processos vivos, tem sido objeto de acalorada controvérsia desde o século XVI. Para resumir, a situação era a seguinte: sempre houve um campo alegando que os organismos vivos não eram, na verdade, nada diferentes da matéria inanimada; algumas vezes essas pessoas foram chamadas de mecanicistas, mais tarde de fisicalistas. E sempre houve um campo oposto — os chamados vitalistas — reivindicando, por sua vez, que os organismos vivos possuíam propriedades que não poderiam ser encontradas na matéria inerte e que, portanto, conceitos e teorias biológicos não poderiam ser reduzidos às leis da física e da química. Em alguns períodos e centros intelectuais, os fisicalistas pareciam vencer o debate, e em outras épocas e locais os vitalistas pareciam prevalecer. No século XX ficou claro que ambos os lados estavam parcialmente certos e parcialmente errados.

Os fisicalistas acertaram ao insistir em que não há um componente metafísico da vida e que, no nível molecular, ela pode ser explicada de acordo com os princípios da física e da química. Ao mesmo tempo, os vitalistas estavam certos ao afirmar que, ainda assim, os organismos não são a mesma coisa que a matéria inerte, mas possuem diversas características autônomas, em particular seu programa genético historicamente adquirido, algo que não se conhece na matéria inanimada. Os organismos são sistemas multiordenados, bem diferentes de qualquer coisa encontrada no mundo inanimado. A corrente filosófica que terminou por incorporar os melhores princípios tanto do fisicalismo quanto do vitalismo (após descartar os excessos de ambos) ficou conhecida como organicismo, e é o modelo dominante hoje.

Os fisicalistas

As primeiras tentativas de produzir uma explicação natural (em oposição à sobrenatural) do mundo aconteceram na filosofia de vários pensadores gregos, entre eles Platão, Aristóleles, Epicuro e muitos outros. Esse começo promissor, no entanto, foi em grande parte esquecido em séculos posteriores. A Idade Média foi dominada pela adesão estrita aos ensinamentos das Escrituras, que atribuíam tudo na natureza a Deus e às Suas leis. Mas o pensamento medieval, particularmente no folclore, também era caracterizado por uma crença em todo tipo de forças ocultas. Esse pensamento animista, mágico, foi enfim reduzido, se não eliminado, por uma nova forma de olhar para o mundo que foi apropriadamente batizada de “desencantamento do mundo” (Maier, 1938).

As influências que levaram ao desencantamento do mundo foram várias. Elas incluíam não apenas os filósofos gregos, transmitidos ao Ocidente pelos árabes juntamente com a redescoberta dos seus escritos originais, mas também desenvolvimentos tecnológicos do fim da era medieval e do começo da Renascença. Havia grande fascínio por relógios e outros autômatos — na verdade, por quase todo tipo de máquina. Isso culminou na afirmação de Descartes de que todos os organismos, à exceção dos seres humanos, não eram nada senão máquinas.

Descartes (1596-1650) se tornou o porta-voz da Revolução Científica, que, com sua sede de objetividade e precisão, não podia aceitar idéias vagas, embebidas em metafísica e no sobrenatural, como a de uma alma em animais e plantas. Ao restringir aos humanos a posse da alma, e ao declarar que os animais não são nada mais que autômatos, Descartes cortou o nó górdio, por assim dizer. Com a mecanização da alma animal, ele completou o desencantamento do mundo.

É um tanto difícil entender por que o conceito de organismo como máquina teve uma popularidade tão duradoura. Afinal, nenhuma máquina jamais se construiu sozinha, replicou-se, programou-se ou foi capaz de buscar a própria energia. A semelhança entre um organismo e uma máquina é por demais superficial. No entanto, esse conceito perdurou por boa parte do século XX.

O sucesso de Galileu, Kepler e Newton em usar a matemática para reforçar suas explicações do cosmo também contribuiu para a mecanização da visão do mundo. Galileu (1623) capturou sucintamente o prestígio da matemática na Renascença quando declarou que o livro da natureza “não pode ser entendido a não ser que primeiro se aprenda a compreender a linguagem e ler os caracteres em que está composto. Ele está escrito na linguagem da matemática, e seus caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas sem as quais é humanamente impossível entender uma palavra que seja dele; sem eles, vagamos em um labirinto escuro”.

O rápido desenvolvimento da física logo depois levou a Revolução Científica um passo adiante, transformando o mecanicismo mais genérico do período anterior em um fisicalismo mais específico, baseado em leis concretas sobre o funcionamento dos céus e da Terra.

O movimento fisicalista teve o enorme mérito de refutar grande parte do pensamento mágico que caracterizara os séculos anteriores. Seu maior tento talvez tenha sido fornecer uma explicação natural dos fenômenos físicos e eliminar, dessa forma, grande parte da confiança no sobrenatural que antes era aceita por quase todo mundo. Se o mecanicismo, em particular o fisicalismo, sua cria, foi longe demais em alguns aspectos, isso era inevitável em se tratando de um movimento novo e enérgico. Mas, por causa de seu unilateralismo e de seu fracasso em explicar qualquer um que fosse dos fenômenos e processos específicos do organismo vivo, o fisicalismo induziu a uma rebelião. Esse contramovimento é geralmente descrito sob o termo guarda-chuva vitalismo.

Desde Galileu até os tempos modernos, tem havido na biologia um movimento de gangorra entre explicações estritamente mecanicistas da vida e as mais vitalistas. O cartesianismo chegou a seu ápice com a publicação de L’homme machine (1748), de De la Mettrie. O que se seguiu depois foi um florescimento vigoroso do vitalismo, particularmente na França e na Alemanha, mas triunfos posteriores da física e da química no meio do século XIX inspiraram uma ressurgência fisicalista na biologia. Esta ficou em grande parte confinada à Alemanha, o que talvez não chegue a ser surpreendente, já que em nenhum outro lugar a biologia prosperou tanto no século XIX como na Alemanha.

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