Trecho do Livro: Uma Crença Silenciosa em Anjos | R. J. Ellory

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Rumores, boatos, folclore. Fosse qual fosse a forma como uma pluma branca pousasse ou descansasse, diziam que indicava a visita de um anjo.

Na manhã de quarta-feira, 12 de julho de 1939, eu vi uma. Era comprida e fina, diferente de qualquer tipo de pluma que eu já tivesse visto. Rodeou a quina da porta quando abri, quase como se tivesse aguardado pacientemente para entrar, e a correnteza do corredor a carregou para o meu quarto. Peguei-a, segurei-a com cuidado, depois a mostrei a minha mãe. Ela disse que era de um travesseiro. Fiquei um bom tempo pensando naquilo. Fazia sentido travesseiro ser recheado de plumas de anjos. Era daí que vinham os sonhos — das lembranças dos anjos se infiltrando na cabeça da gente quando dormimos. A pluma me deixou pensando nessas coisas. Coisas como Deus. Coisas como Jesus morrendo na cruz por nossos pecados, sobre as quais ela tantas vezes me contava. Jamais gostei da idéia, nunca fui um garoto religioso. Mais tarde, anos depois, eu entenderia a hipocrisia. Era como se minha infância fosse infestada de gente que dizia uma coisa e fazia outra. Até nosso ministro, que percorria a paróquia a cavalo para fazer suas pregações, o reverendo Benedict Rousseau, era hipócrita, um charlatão, uma fraude: uma das mãos indicando o Caminho dos Livros Sagrados, a outra, perdida nas pregas sem fim da saia da irmã. Naquela época, quando eu era criança, nunca via realmente essas coisas. As crianças, embora perspicazes, têm visão seletiva. Vêem tudo, não se discute, mas escolhem interpretar o que vêem de uma forma que convenha às suas sensibilidades. E assim foi com a pluma: nada demais, mas, de alguma forma, um presságio, um agouro. Meu anjo viera me visitar. Eu estava plenamente convencido, então os acontecimentos do dia pareceram, todos, ainda mais disparatados e incongruentes. Pois esse foi um dia em que tudo mudou.

A morte chegou naquele dia. Profissional, metódica, indiferente aos costumes e às conveniências; sem respeitar Páscoa, Natal, práticas religiosas ou qualquer tradição. A morte chegou — fria e insensível, a coletora dos impostos da vida, o pagamento devido pelo ato de respirar. E quando a Morte chegou eu estava no quintal no meio da terra solta e seca, cercado de molugos, cerástios e gaulthérias. Ela veio pela High Road, acho eu, acompanhando a divisa entre a terra do meu pai e a dos Kruger. Acho que caminhava, porque mais tarde, quando olhei, não havia rastro de cavalo, nem marca de bicicleta, e a menos que a Morte pudesse andar sem tocar o chão, presumi que tivesse vindo a pé.

A morte veio para buscar meu pai.

O nome do meu pai era Earl Theodore Vaughan. Ele nasceu em 27 de setembro de 1901, em Augusta Falls, Geórgia, quando Roosevelt era presidente — daí seu nome do meio. Ele fez o mesmo comigo, deu-me o nome de Coolidge em 1927, e lá estava eu — Joseph Calvin Vaughan, filho de meu pai —, parado no meio dos molugos, quando a morte veio fazer uma visita no verão de 39. Mais tarde, depois do choro, do funeral e do velório sulino, amarramos a camisa de algodão dele a um galho de sassafrás e tocamos fogo. Ficamos vendo aquilo se consumir totalmente, a fumaça representando a alma dele passando desta terra mortal para um plano mais elevado, mais justo e mais eqüitativo. Então, minha mãe me pegou de lado, e com seus olhos inchados e marcados de olheiras contou-me que meu pai morrera de reumatismo no coração.

— A febre o levou — disse, a voz embargada de emoção. — A febre chegou aqui, no inverno de 29. Você era só um bebezinho, Joseph, e seu pai tinha muco e saliva suficiente para irrigar meio hectare de terra boa. Quando a febre agarra o coração da gente, ele enfraquece, não consegue mais se recuperar, e houve uma época, talvez um mês ou mais, em que só estávamos apostando quantas horas faltavam para ele morrer. Mas ele não foi nessa ocasião, Joseph. O Senhor achou por bem deixá-lo aqui por mais alguns anos; quem sabe o Senhor estivesse imaginando que ele deveria esperar até você começar a virar adulto. — Tirou um trapo cinzento do bolso do avental e enxugou os olhos, borrando de kohl metade do rosto; tinha o jeito abatido de um lutador de boxe sem luvas, desanimado e derrotado numa noite de sábado. — A febre estava no coração dele — murmurou —, e foi sorte a gente ficar com ele esses anos todos.

Mas eu sabia que o reumatismo não o tinha levado. A Morte o levou, chegando pela High Road, voltando pelo mesmo caminho, deixando somente seu rastro na terra junto à cerca.

Mais tarde, minhas lembranças de meu pai ficariam fragmentadas e ampliadas com a dor; mais tarde, eu pensaria nele como Juan Gallardo, talvez, corajoso como aquele personagem de Sangue e Areia, mas nunca inconstante, e sem a beleza de Valentino.

Ele foi sepultado num caixão largo, de pinho simples e empenado, e os fazendeiros das glebas vizinhas, Kruger, o alemão, entre eles, levaram seu corpo pela estrada do interior numa picape de carroceria aberta. Mais tarde reuniram-se, tristes e paramentados, em nossa cozinha, em meio ao cheiro de cebola frita em gordura de frango, ao aroma de bolo, ao perfume da água de lavanda num jarro de cerâmica ao lado da pia. E falaram de meu pai, expondo suas reminiscências, suas histórias, contando lendas dentro de narrativas mais amplas, cada uma enfeitada e embelezada com fatos que eram ficção.

Minha mãe estava sentada muda e vigilante, com uma expressão simples e ingênua, os olhos delineados com kohl mais fundos que poços, as pupilas dilatadas negras como piche.

— Uma vez o vi a noite toda com a égua — disse Kruger. — Ficou ali deitado até o sol nascer alimentando a pobrezinha com punhados de alétris para parar a cólica.

— Vou contar uma história sobre Earl Vaughan e Kempner Tzanck — disse Reilly Hawkins.

Inclinou-se à frente, as mãos vermelhas calejadas como pencas de alguma fruta seca exótica, movendo os olhos para cá e para lá como se sempre à cata de algo que tivesse o objetivo de evitá-lo. Reilly Hawkins cultivava uma gleba ao sul da nossa, e já lá estava bem antes de nossa chegada. Recebeu-nos logo no primeiro dia como amigos que havia muito não encontrava, levantou um celeiro com meu pai, e não aceitou nada além de uma jarra de leite pelo trabalho. A vida lhe deixara uma pátina, feições gretadas com rugas finas, escleras feito madrepérola, o tipo dos olhos lavados pelas lágrimas derramadas por amigos falecidos. Familiares também, todos mortos havia muito, e quase esquecidos; uns em guerras, incêndios ou inundações, outros em acidentes ou em fatalidades bobas. Não deixava de ser irônico o fato de momentos impulsivos — em si mesmos nada mais que esforços para animar e dar vida à existência — terminarem em morte. Como com o irmão caçula de Reilly, Levin, aos dezenove anos, na Feira Estadual da Geórgia. Havia um piloto acrobático meio bêbado e falador que tinha um Stearman ou um Curtiss Jenny e fazia fumigações quando era a época; saía para assustar a copa das árvores e dar rasantes nos telhados dos celeiros, com suas piruetas malucas e arrogantes, e Reilly tinha desafiado e seduzido Levin a voar com o homem. O diálogo entre os irmãos foi um pas de deux, uma dança a dois precisa, um tango de desafios e provocações, cada frase um passo, um pé esticado, uma inclinação do tronco, um ombro agressivo. Levin não queria ir, disse que tinha a cabeça e o coração feitos para observar do chão, mas Reilly ficou insistindo, apelou para o lado fraternal, apesar da experiência que tinha, apesar da aura de malte que envolvia o piloto, apesar do fim da luz do poente. Levin cedeu, subiu rezando para dar tudo certo por um quarto de dólar, e o piloto, bem mais corajoso do que capaz, tentou uma parabólica descendente seguida de uma manobra acrobática: um estol hammerhead. O motor morreu no ápice. Longo silêncio sem respirar, lufada de vento, depois um estrondo de choque de trator em muro. Morreram os dois. O piloto e Levin Hawkins chamuscados feito dois bichos atropelados na estrada. Espiral de fumaça de cem metros de altura e uma sombra dela persistindo até o raiar do dia. O pau para toda a obra que trabalhava com o piloto, um garoto entre dezesseis e dezessete anos, no máximo, ficou rondando horas com cara de morto, e aí também sumiu.

Os pais de Reilly Hawkins morreram logo depois. Ele tentou manter a fazendinha depois da morte deles, os dois arrasados com a perda de Levin, mas até os porcos pareciam olhá-lo de esguelha, como se entendessem sua culpa. Nenhuma palavra para recriminar Reilly, mas o velho Hawkins, mascando sem cessar seu fumo Heidsieck sabor champanhe, observava o irmão mais velho como se houvesse uma dívida a ser paga, e ele estivesse esperando Reilly se imolar. Contraía os olhos como ex-fumante em loja de charuto. Nenhuma palavra dita, mas a palavra sempre presente.

Reilly Hawkins nunca se casara, segundo alguns, porque não podia ter filhos, e não se envergonhava de admitir isso. Acho que Reilly nunca se casou porque teve um desgosto amoroso, e achou que um segundo o mataria. Diziam que era uma garota do condado de Berrien, bonitinha como um bebê chinês. Ele preferiu não se aventurar, pois tinha outras razões para viver. Poderia ter escolhido uma garota falastrona de uma família muito numerosa, uma garota que usasse vestido de chita, enrolasse os próprios cigarros e bebesse direto da garrafa — isso, ou a solidão. Parece que optara pela última, mas nunca falara disso abertamente, e eu nunca perguntara abertamente também. Esse era Reilly Hawkins, o pouco que eu sabia dele na época, e não dava para adivinhar seu objetivo nem seu rumo, pois em geral parecia um homem cuja teimosia superava a sensatez.

— Earl foi um lutador — disse Reilly naquele dia lá na cozinha, o dia do enterro.

Olhou para minha mãe. Ela não se mexeu muito, mas sua expressão e a forma como retribuiu o olhar dele eram uma autorização para que prosseguisse.

— Earl e Kempner foram para lá de Race Pond, até Hickox, no condado de Brantley. Foram lá falar com um homem chamado Einhorn, se não me falha a memória, um homem chamado Einhorn que tinha um alazão para vender. Pararam num lugar no caminho só para beber alguma coisa, e quando estavam descansando um brutamontes entrou e começou a gritar, como uma banshee* de cocar. (* Espírito feminino do folclore gaélico cujos gritos anunciam uma morte na família.) Era um sujeito que perturbava, perturbou os dois e irritou e enfezou o pessoal, aí Earl sugeriu que ele fosse gritar no mato, onde ninguém o ouvisse.

Reilly tornou a olhar para minha mãe, depois para mim. Não me mexi, queria ouvir o que meu pai tinha feito para acalmar aquele brutamontes perto de Hickox, no condado de Brantley. Minha mãe não levantou a mão nem a voz, e Reilly sorriu.

— Para encurtar a história, aquele brutamontes tentou derrubar Earl com um soco. Earl se esquivou e o cara voou porta afora e se estatelou na terra. Fui atrás dele, tentei chamá-lo à razão, mas o homem tinha um coração e uma cabeça agressivos e não dava para dialogar com ele. Kempner foi lá fora bem na hora em que o homem se levantou de novo e partiu para cima de Earl com uma tábua. Earl era como um daqueles acrobatas chineses de circo, dançando e rodando, os punhos parecendo pistões, e um desses pistões pegou o nariz do grandão, e deu para ouvir o osso quebrando em dez lugares. Cascata de sangue, o homem com a camisa toda ensopada, ajoelhado ali na terra gritando feito um porco ferido.

Reilly Hawkins inclinou-se para trás e sorriu.

— Ouvi dizer que o nariz do garotão nunca mais parou de sangrar… ficou escorrendo até ele se esvair todo…

— Reilly Hawkins — disse minha mãe. — Essa história nunca foi verdade, e você sabe.

Hawkins ficou encabulado.

— Não quis ofender, minha senhora — disse, e inclinou a cabeça com deferência. — Longe de mim querer irritar a senhora num dia desses.

— A única coisa que me irrita são inverdades, meias-verdades e mentiras deslavadas, Reilly Hawkins. Você está aqui para se despedir do meu marido, que parte ao encontro do Senhor, e eu agradeceria se tomasse cuidado com seu palavreado, com seus modos, e não abrisse a boca para contar balela, especialmente na frente do menino.

Olhou para mim. Eu estava ali sentado, de olhos arregalados, admirado, mais curioso ainda para saber os detalhes sangrentos relacionados com meu pai: um homem capaz de quebrar o nariz de um brutamontes com um gancho de direita e provocar a morte por sangria.

Mais tarde eu me lembraria do enterro de meu pai. Lembraria aquele dia em Augusta Falls, condado de Charlton — uma excrescência de antes da guerra civil às margens do rio Okefenokee —, me lembraria de uma gleba que era mais pântano que terra; da maneira como a terra simplesmente sugava tudo, sempre com fome, insaciável. Aquela terra inchada absorveu meu pai, e eu o vi partir; eu com onze anos, ele apenas com trinta e sete, e minha mãe em pé com um grupo de fazendeiros ignorantes e solidários dos quatro cantos do mundo, as mangas dos paletós lhes cobrindo todo o dorso da mão, as calças de sarja grosseira deixando à mostra um bom pedaço das meias puídas. Toscos, talvez, mais simplórios que afetados, mas fortes de coração, saudáveis e generosos. Minha mãe segurou minha mão com um pouco de força demais, mas eu não disse nada nem retirei a mão. Eu era seu filho único, porque — a acreditar nas histórias, e eu não tinha motivo para duvidar delas — fora um filho difícil, resistente à expulsão, e o esforço do parto estragou os aparelhos internos que ensejariam uma família maior.

— Só você e eu, Joseph — murmurou ela depois. As pessoas haviam ido embora (Kruger e Reilly Hawkins, outros com caras conhecidas e nomes incertos) e estávamos parados lado a lado olhando pela porta da frente de nossa casa, uma casa erguida à mão à custa de suor e boa madeira. — Só você e eu de agora em diante — disse mais uma vez, e aí entramos e fechamos a porta para a noite.

Mais tarde, deitado na cama, o sono me fugindo, pensei na pluma. Quem sabe, pensei, havia anjos que entregavam e anjos que levavam.

Gunther Kruger, um homem que apareceria mais na minha vida com o passar do tempo, me disse que o Homem vinha da terra, que se não voltasse para a terra haveria um desequilíbrio universal. Reilly Hawkins disse que Gunther era alemão, e que os alemães não conseguiam ter uma visão maior das coisas. Disse que as pessoas eram espíritos.

— Espíritos? — perguntei. — Você quer dizer fantasmas? – Reilly sorriu, balançou a cabeça.

— Não, Joseph — murmurou. — Não como fantasmas… mais como anjos.

— Então meu pai virou anjo?

Hawkins ficou calado um instante, a cabeça inclinada, olhando de forma estranha.

— Seu pai, anjo? — disse, e deu um sorriso esquisito, como se um músculo tivesse se contraído num lado do seu rosto e não pudesse ser relaxado com muita facilidade. — Talvez um dia… acho que tem que trabalhar um pouco, mas, sim, talvez um dia ele vire anjo.
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