Trecho do Livro: Formaturas Infernais | Stephenie Meyer

Formaturas Infernais é uma reunião de contos de terror e suspense de cinco autoras: Stephenie Meyer (Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer), Meg Cabot, Michele Jaffe, Kim Harrison e Lauren Myracle. O livro já está em pré-venda e o seu lançamento está previsto para o dia 06/05/2009. O trecho do conto abaixo é de autoria da escritora Lauren Myracle.

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Lá fora, o vento chicoteava a casa de Madame Zanzibar, fazendo com que a calha batesse contra a parede. O céu estava escuro, apesar de ainda serem 16h. Dentro da sala decorada de forma extravagante, três abajures brilhavam densamente, cada um envolto por cachecóis perolados. Um tom de rubi iluminava o rosto redondo de Yun Sun, enquanto que a luz sarapintada de roxo e azul conferia a Will um ar de morte recente.

— Está parecendo que você acabou de sair do caixão — disse eu para ele.

— Frankie — me repreendeu Yun Sun. Ela inclinou a cabeça na direção da porta fechada do escritório da Madame Z, indicando que não queria que o meu comentário fosse ouvido. Um macaco vermelho de plástico estava pendurado na maçaneta, o que significava que Madame Z estava com clientes. Nós éramos os próximos.

Will deixou que seu olhar se perdesse no vazio.

— Eu sou um alienígena — disse ele, gemendo. Ele esticou os braços na nossa direção. — Quero seus corações e fígados.

—Ai, não! Um alienígena tomou o corpo do nosso querido Will! — Apertei o braço de Yun Sun. — Rápido, dê o coração e o fígado para que ele deixe Will em paz!

Yun Sun puxou o braço.

— Isso não tem graça nenhuma — disse ela com um tom de voz melodioso e ameaçador. — E se vocês não me obedecerem, eu vou embora.

— Deixe de ser tão certinha — respondi.

— Eu e minhas coxas gigantescas vamos nos retirar. Não duvide.

Yun Sun tem achado que as suas pernas estão muito gordas, só porque o vestido super justo que ela escolheu para a formatura precisou ser um pouco afrouxado. Pelo menos ela tinha um vestido de formatura. E uma grande chance de usá-lo.

— Blablablá — eu disse de volta. O mau humor dela estava colocando o nosso plano, o único motivo para estarmos ali, em risco. A noite da formatura estava cada vez mais perto, e eu não ia ficar que nem uma infeliz sentada sozinha em casa enquanto todos estariam cheios de brilho dançando alegremente com seus saltos altos espetaculares. Eu me recusava a passar por isso, ainda mais porque eu sabia lá no fundo do coração que Will ia me chamar. Ele só precisava de um empurrão.

Abaixei o tom da voz para falar com Yun Sun e sorri para Will como se dissesse lá lá lá, conversa entre meninas, nada importante!

— Nós duas tivemos esta idéia, Yun Sun? Lembra?

— Não, Frankie, a idéia foi sua — disse ela sem abaixar a voz. — Eu já tenho o meu par, mesmo que as minhas coxas o esmaguem. Você é quem está esperando por um milagre.

— Yun Sun! — Olhei para o Will. Ele estava encabulado. Menina má, abrindo o jogo dessa forma. Má, má, e muito malcriada.

— Ai! — gritou ela depois de receber o meu tapa.

— Eu estou muito chateada com você — eu disse.

— Chega de timidez. Você realmente quer que ele chame você, não quer?

— Ai!

— Hum, meninas — disse Will. Ele estava fazendo aquela coisa fofa que ele faz quando fica nervoso. O seu pomo de Adão balança para cima e para baixo rapidamente. Na verdade… essa imagem era meio desagradável, pois ela me fazia pensar em Adão no Paraíso com Eva, e isso me lembrava maçãs, abocanhar maçãs…

Enfim, Will tinha mesmo um pomo de Adão, e quando ele movia a garganta para cima e para baixo era muito fofo. Ele ficava vulnerável.

— Ela bateu em mim — delatou Yun Sun.

— Ela mereceu — eu retruquei. Eu não queria, porém, que essa conversa continuasse. Aquela frase já havia revelado o suficiente. Achei melhor fazer carinho na perna nem um pouco gorda de Yun Sun e disse:

— Mas eu perdôo você. Agora cale a boca.

O que Yun Sun não entendia — ou, provavelmente, o que ela entendia mas não compreendia — era que nem todas as coisas precisavam ser ditas em voz alta. Sim, eu queria que Will me chamasse para o baile de formatura, e eu queria que ele fizesse isso logo, porque a “A primavera dos apaixonados” ia acontecer em duas semanas.

Tudo bem, o nome do baile era brega, mas a primavera era para os apaixonados. Isso era uma verdade inquestionável. Assim como era inquestionável que Will era o meu amor eterno e que seria bom se ele conseguisse superar a timidez e tomar uma atitude. Chega de tapinhas no ombro, risadinhas e guerras de cosquinhas! Chega de ficar se agarrando e tremendo, colocando a culpa nos filmes de terror que assistimos, como Vampiros de Almas e O Iluminado. Será que Will não via que éramos feitos um para o outro?

Ele quase fez a pergunta na semana passada, eu tive 95,5 por cento de certeza. Nós estávamos assistindo Uma linda mulher — um filme um tanto superestimado, porém divertido. Yun Sun tinha ido à cozinha para pegar biscoitos, deixando nós dois sozinhos.

— Hum, Frankie? — disse Will. Os pés dele estavam batendo no chão, e seus dedos apertaram a calça jeans. — Posso perguntar uma coisa para você?

Qualquer idiota entenderia o que estava por vir. Se ele quisesse que eu aumentasse o volume, ele apenas diria “Ei, Franks, aumente o volume.” Casual. Direto. Sem necessidade de perguntas preliminares. Contudo, já que houve uma pergunta preliminar… bem, que mais ele poderia querer me perguntar além de “Você vai à formatura?” A alegria eterna estava ali, a poucos segundos de mim.

E aí eu estraguei tudo. Seu nervosismo palpável me fez perder o controle, e em vez de deixar que o momento chegasse naturalmente, mudei de assunto de forma brusca. PORQUE EU SOU UMA IDIOTA.

— Tá vendo? É assim que se faz! — falei, apontando para a televisão. Richard Gere estava galopando em seu cavalo branco, que na verdade era uma limusine, até o castelo de Julia Roberts, que na verdade era um apartamento velho no terceiro andar. Na cena que assistíamos, Richard Gere aparecia no teto solar do carro e subia pelas escadas de emergência a fim de conquistar sua amada.

— Nada de papinho furado, de “eu acho que você é bonitinha” — continuei. Estava falando besteira, e eu sabia disso. — O negócio é agir, querido. O negócio é dar demonstrações de amor.

Will engoliu a saliva e murmurou um “Ah.” Ele olhou para Richard Gere com uma carinha de urso de pelúcia, pensando, certamente, que nunca conseguiria ser como ele, nunca mesmo.

Olhei para a televisão, ciente de que eu havia sabotado a minha noite de formatura com a minha própria estupidez. Eu não estava nem aí para “demonstrações de amor”; eu apenas ligava para o Will. Porém eu, brilhante que sou, o assustei. Porque no fundo, no fundo, eu estava sentindo mais medo do que ele.

No entanto, não seria mais assim — e era por isso que nós estávamos ali na Madame Zanzibar. Ela leria o nosso futuro, e, a não ser que ela fosse uma farsa, ela diria o que era óbvio para uma observadora imparcial: que eu e Will fomos feitos um para o outro. Ouvir isso de uma forma bem sóbria daria coragem a Will para tentar de novo. Ele me chamaria à formatura, e, dessa vez, eu daria espaço, mesmo que isso me deixasse nervosa.

O macaco de plástico se mexeu na maçaneta do consultório.

— Olhe, está se movendo — sussurrei.

— Ih… — disse Will.

Um homem negro com cabelo cor de neve saiu do consultório arrastando os pés. Ele não tinha os dentes, o que fazia com que a metade inferior de seu rosto ficasse muito enrugada, como uma ameixa seca.

— Crianças — disse ele, tocando em seu chapéu.

Will se levantou e abriu a porta da frente, porque ele era uma pessoa muito gentil. Uma rajada de vento quase derrubou o senhor, e Will o segurou.

— Nossa — disse Will.

— Obrigado, filho — respondeu o senhor. As palavras saíam um pouco abafadas, por causa da falta de dentes. — Melhor eu me apressar antes que a tempestade comece.

— Parece que já começou — disse Will. Do outro lado da rua, galhos se moviam violentamente, fazendo muito barulho.

— Este ventinho de nada? — disse o senhor. — Ah, convenhamos, isso é só um bebezinho querendo mamar. Vai ficar muito pior quando anoitecer, pode escrever. — Ele olhou para nós. — Inclusive, crianças, não era para vocês estarem em casa, na segurança do lar?

Era difícil ficar ofendida quando um senhor sem dentes lhe chamava de “criança” — mas por favor, era a segunda vez em vinte segundos.

— Nós estamos no primeiro ano do ensino médio — respondi, — nós sabemos nos cuidar.

A risada dele me fez pensar em folhas mortas.

— Tudo bem, então — disse ele. — Vocês que sabem. — Ele deu passinhos pequenos até a varanda. Will acenou e fechou a porta.

— Pessoa maluca — disse uma voz atrás de nós. Ao nos virarmos, vimos Madame Zanzibar na porta do consultório. Ela usava calças de moletom rosa choque da Juicy Couture com um top da mesma cor, cujo zíper estava aberto até a altura das clavículas. Seus seios eram redondos, firmes e incrivelmente enxutos, considerando que ela não estava vestindo sutiã. Ela usava um batom laranja claro que combinava com as suas unhas e com a guimba do cigarro que já estava terminando entre os seus dedos.

— Então, nós vamos entrar ou vamos ficar aqui fora? — perguntou ela para nós três. — Vamos desvendar os mistérios da vida ou deixá-los quietos onde estão?

Eu me ergui da cadeira e puxei Yun Sun comigo. Will fez o mesmo. Madame Z nos mandou entrar logo, e nós três sentamos juntos em uma poltrona estofada. Will percebeu que não cabíamos ali e foi sentar-se no chão. Me mexi para que Yun Sun me desse mais espaço.

— Viu? Elas são duas salsichas — disse ela, referindo-se as suas pernas.

— Chega para lá — comandei.

— Então — disse Madame Z, passando por nós e sentando-se atrás da mesa —, o que vocês querem?

Mordi o lábio. Como eu poderia explicar?

— Bem, você é médium, não é?

Madame Z soltou uma nuvem de fumaça.

— Nossa, Sherlock, o anúncio nas páginas amarelas lhe deu essa informação?

Fiquei encabulada, ainda que estivesse sentindo raiva. Minha pergunta havia sido uma forma de começar uma conversa. Ela tinha algum problema com inícios de conversas? Enfim, se ela realmente era médium, devia saber por que eu estava ali, certo?

— Bem… OK. Sim, claro, sei lá. Então eu acho que eu queria saber se…

— É mesmo? Fale logo.

Eu uni forças.

— Bem… eu queria saber se uma certa pessoa vai me fazer uma certa pergunta. — Não olhei para o Will, de propósito, mas ouvi a inspiração surpreendida dele. Ele não havia previsto aquilo.

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