Trecho do Livro: A Profecia Celestina | James Redfield

Livros A Profecia Celestina James Redfield BooksLivro: A Profecia Celestina

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Dirigi até o restaurante, estacionei e me recostei no banco para pensar um pouco. Sabia que Charlene já estaria lá dentro, me esperando para conversar. Mas por quê? Eu não ouvira uma palavra dela em seis anos. Por que teria aparecido agora, logo agora, que eu me isolara na mata por uma semana?

Saltei da caminhonete e segui para o restaurante. Às minhas costas, o último fulgor do poente mergulhava no ocidente, lançando clarões de um âmbar dourado sobre o estacionamento molhado. Um rápido aguaceiro encharcara tudo uma hora antes, e agora o entardecer de verão parecia fresco e renovado, e, devido à luz que se esvaía, quase surreal. Uma meia-lua pairava acima.

Enquanto eu andava, velhas imagens de Charlene me inundavam a mente. Ainda estaria bonita, intensa? Como o tempo a teria mudado? E que pensar do tal manuscrito de que ela falara — um antigo artefato descoberto na América do Sul, sobre o qual mal podia esperar para me contar?

— Tenho uma espera de duas horas no aeroporto — ela dissera ao telefone. — Pode se encontrar comigo para jantar? Vai adorar o que diz este manuscrito: é simplesmente o seu tipo de mistério.

Meu tipo de mistério? Que queria dizer com aquilo?

Dentro, o restaurante estava lotado. Vários casais esperavam mesas. Quando encontrei a gerente, ela me disse que Charlene já se sentara e me conduziu para uma área no terraço acima do salão principal de jantar.

Subi a escada e notei várias pessoas em torno de uma das mesas. Na multidão, dois policiais. De repente, os policiais se viraram, passaram por mim correndo e desceram a escada. Enquanto o resto se dispersava, pude ver a pessoa que parecia ter sido o centro das atenções — uma mulher, ainda sentada à mesa… Charlene!

Aproximei-me rapidamente dela.

— Charlene, que é que há? Algum problema?

Ela jogou a cabeça para trás com fingida exasperação e se levantou, lampejando seu famoso sorriso. Reparei que talvez tivesse o cabelo diferente, mas o rosto era exatamente como eu lembrava: traços delicados, boca grande, uns olhos azuis imensos.

— Você não vai acreditar — ela disse, puxando-me num abraço amistoso. — Fui ao banheiro há alguns minutos, e enquanto estive ausente alguém roubou minha pasta.

— O que tinha dentro dela?

— Nada de importante, só alguns livros e revistas que eu ia levar comigo na viagem. Que loucura. As pessoas nas outras mesas me disseram que alguém simplesmente entrou, pegou a pasta e saiu. Deram uma descrição à polícia, e os guardas disseram que iam vasculhar a área.

— Talvez fosse melhor eu ajudá-los a procurar?

— Não, não. Deixa pra lá. Não tenho muito tempo e preciso conversar com você.

Assenti e Charlene sugeriu que nos sentássemos. Um garçom se aproximou, olhamos o cardápio e pedimos. Depois disso, passamos uns dez ou 15 minutos jogando conversa fora. Eu tentava minimizar meu auto-imposto isolamento, mas Charlene percebeu minhas incertezas. Curvou-se para mim e tornou a me dar aquele sorriso.

— Então, que é que há mesmo com você? — perguntou.

Olhei os olhos dela, a maneira intensa como me olhava.

— Quer logo a história toda, não é?

— Sempre — ela respondeu.

— Bem, a verdade é que estou tirando algum tempo para mim mesmo no momento, e passando uma temporada no lago. Tenho trabalhado muito e estou pensando em mudar os rumos da minha vida.

— Me lembro que você falava desse lago. Achei que você e sua irmã iam ter de vendê-lo.

— Ainda não, mas o problema são os impostos territoriais. Como a região é muito perto da cidade, não param de subir.

Ela balançou a cabeça.

— E que vai fazer depois?

— Ainda não sei. Alguma coisa diferente.

Ela me lançou um olhar intrigante.

— Parece tão nervoso quanto todo mundo.

— Acho que sim — eu disse. — Por que pergunta?

— Está no Manuscrito.

Houve um silêncio, enquanto eu devolvia o olhar dela.

— Me fale desse Manuscrito — pedi.

Ela se recostou na cadeira como para organizar as idéias, depois me olhou nos olhos mais uma vez.

— Acho que falei ao telefone que deixei o jornal há vários anos e entrei numa empresa de pesquisa que investiga mudanças demográficas e culturais para as Nações Unidas. Meu último trabalho foi no Peru.

“Enquanto estava lá, concluindo uma pesquisa na Universidade de Lima, vivia ouvindo rumores sobre um velho Manuscrito que fora descoberto, só que ninguém conseguia me dar nenhum detalhe, nem mesmo nos departamentos de arqueologia e antropologia. Quando entrei em contato com o governo para pedir informações sobre esse assunto, eles negaram qualquer conhecimento.

“Uma pessoa me disse que o governo na verdade estava tentando suprimir o documento, por algum motivo. Embora, também neste caso, ele não tivesse nenhum conhecimento direto.

“Você me conhece”, ela prosseguiu. “Eu sou curiosa. Quando acabou minha tarefa, decidi ficar por lá uns dois dias para ver o que conseguia descobrir. No início, toda pista que eu seguia se revelava mais um beco sem saída, mas então, quando almoçava num café nos arredores de Lima, notei um padre me observando. Passados alguns minutos, ele se aproximou e admitiu que tinha me ouvido fazendo perguntas sobre o Manuscrito, antes, naquele dia. Não quis me revelar seu nome, mas concordou em responder a todas as minhas perguntas.”

Ela hesitou um instante, ainda me olhando intensamente.

— Ele me disse que o Manuscrito remonta a cerca de 600 a.C. Prevê uma enorme transformação na sociedade humana.

— A partir de quando? — perguntei.

— Das duas últimas décadas do século XX.

— Agora?!

— É, agora.

— Que tipo de transformação deve ser? — perguntei.

Ela pareceu embaraçada um instante, depois respondeu com energia.

— O padre me disse que é uma espécie de renascer da consciência, que se dá muito devagar. Não é de natureza religiosa, mas espiritual. Estamos descobrindo alguma coisa nova sobre a vida humana neste planeta, sobre o sentido de nossa existência e, segundo o padre, esse conhecimento vai modificar sensacionalmente a cultura humana.

Ela fez uma nova pausa, depois acrescentou:

— O padre me disse que o Manuscrito se divide em partes, ou capítulos, cada um dedicado a uma determinada compreensão da vida. O Manuscrito prevê que nessa época os seres humanos vão começar a assimilar essas compreensões em seqüência, uma após a outra, como se a gente passasse de onde está agora para uma cultura completamente espiritual na Terra.

Eu balancei a cabeça e ergui uma sobrancelha, cinicamente.

— Você acredita mesmo nisso?

— Bem — ela respondeu. — Eu acho…

— Olhe em volta — interrompi, apontando as pessoas sentadas no salão abaixo de nós. — Este é o mundo real. Vê alguma coisa se modificando aí?

No momento em que eu dizia isso, ouviu-se uma observação furiosa numa mesa junto à parede mais distante, uma observação que não consegui entender, mas que fora dita alto o suficiente para emudecer todo o salão. A princípio achei que o distúrbio se devia a outro roubo, mas depois percebi que era só um bate-boca. Uma mulher aparentando uns 30 anos levantou-se encarando o homem sentado do outro lado da mesa com indignação.

— Não — berrou. — O problema é que este relacionamento não está saindo do jeito que eu queria! Entende? Não está saindo! — Recompôs-se, jogou o guardanapo na mesa e foi-se embora.

Charlene e eu nos fitamos, chocados com o fato de a explosão ter ocorrido no mesmo instante em que discutíamos as pessoas abaixo de nós. Por fim, ela indicou com a cabeça a mesa onde o homem ficara sozinho e disse.

— É o mundo real mudando.

— Como? — perguntei, ainda desconcertado.

— A transformação está começando com a Primeira Visão, e segundo o padre essa visão sempre aflora inconscientemente a princípio, com uma profunda sensação de inquietação.

— Inquietação?

— É.

— Que é que estamos procurando?

— É exatamente isso! No início, não temos certeza. Segundo o Manuscrito, estamos começando a vislumbrar uma forma de experiência alternativa… momentos em nossas vidas que parecem de algum modo diferentes, mais intensos e inspirados. Mas não sabemos o que é essa experiência, nem como fazer com que dure, e quando ela termina somos deixados insatisfeitos e inquietos com uma vida que mais uma vez parece comum.

— Você acha que era essa inquietação que estava por trás da raiva da mulher?

— Acho, sim. Ela é como todos nós. Estamos todos em busca de maior realização em nossas vidas, e não toleramos nada que pareça nos puxar para baixo. Essa busca inquieta é o que está por trás da atitude de “primeiro-eu” que caracterizou as últimas décadas, e está afetando todo mundo, de Wall Street às gangues de rua.

Ela me olhou diretamente.

— E quando se trata de nossas relações, ficamos tão exigentes que as estamos tornando quase impossíveis.

Essa observação trouxe de volta a lembrança de meus dois últimos relacionamentos. Ambos haviam começado intensamente, e fracassado um ano depois. Quando voltei a me concentrar em Charlene, ela esperava com paciência.

— O que é, exatamente, que estamos fazendo com nossos relacionamentos amorosos? — perguntei.

— Eu conversei um longo tempo com o padre sobre isso — ela respondeu. — Ele disse que quando os dois parceiros num relacionamento são exigentes demais, quando cada um espera que o outro viva no seu mundo, que sempre esteja ali tomando parte nas atividades que ele ou ela prefere, surge inevitavelmente uma guerra de egos.

O que ela dizia me atingiu. Meus dois últimos relacionamentos haviam de fato degenerado em brigas de poder. Nas duas situações, nós nos descobrimos num conflito de compromissos. O ritmo era demasiado rápido. Tínhamos muito pouco tempo para coordenar nossas diferentes idéias sobre o que fazer, aonde ir, que interesses seguir. No final, a questão de quem ia liderar, quem ia dar as diretivas do dia, tinha se tornado um problema insolúvel.

— Devido a essa batalha pelo controle — continuou Charlene —, o Manuscrito diz que vamos achar muito difícil ficar com a mesma pessoa por qualquer período de tempo.

— Isso não parece lá muito espiritual — comentei.

— Foi exatamente o que eu disse ao padre — ela respondeu. — Ele me aconselhou a lembrar que embora a maioria dos males recentes da sociedade possa ser identificada com essa inquietação e busca, o problema é temporário e deixará de existir. Estamos finalmente tomando consciência do que buscamos de fato, do que é de fato essa outra experiência, mais satisfatória. Quando a compreendermos totalmente, teremos alcançado a Primeira Visão.

Nosso jantar chegou, e por isso fizemos uma pausa de vários minutos, para o garçom servir mais vinho, e para provarmos a comida um do outro. Quando esticou o braço sobre a mesa para tirar um naco de salmão do meu prato, Charlene franziu o nariz e deu um risinho. Compreendi como era descontraído estar com ela.

— Tudo bem — eu disse. — O que é essa experiência que estamos buscando? Que é a Primeira Visão?

Ela hesitou, como se não soubesse por onde começar.

— É difícil explicar — disse. — Mas o padre pôs as coisas assim. Disse que a Primeira Visão ocorre quando nos tornamos conscientes das coincidências em nossas vidas.

Curvou-se para mim.

— Alguma vez você já teve um palpite ou intuição sobre uma coisa que quisesse fazer? Um rumo que quisesse dar à sua vida? E se perguntou como isso poderia ocorrer? E então, depois de quase ter esquecido o assunto e se concentrado em outras coisas, de repente encontrou alguém, ou leu alguma coisa, ou foi a algum lugar que levou àquela mesma oportunidade que tinha vislumbrado?

“Bem”, ela continuou, “segundo o padre essas coincidências têm ocorrido com freqüência cada vez maior, e quando ocorrem nos parecem superar o que se poderia esperar do puro acaso. Parecem destinadas, como se nossas vidas tivessem sido guiadas por uma força inexplicável. A experiência causa uma sensação de mistério e excitação, e em conseqüência nos sentimos mais vivos.

“O padre me disse que essa é a experiência que vislumbramos, e que agora tentamos manifestar o tempo todo. Pessoas em número cada dia maior estão convencidas de que esse movimento misterioso é concreto e significa alguma coisa, que alguma outra coisa está acontecendo por baixo de suas vidas diárias. Essa consciência é a Primeira Visão.”

Ela me olhou, expectante, mas eu não disse nada.

— Não está vendo? — ela perguntou. — A Primeira Visão é uma reconsideração do mistério inerente que cerca nossas vidas individuais neste planeta. Estamos experimentando essas coincidências misteriosas, e, mesmo não as compreendendo ainda, sabemos que são reais. Estamos sentindo de novo, como na infância, que existe um outro lado da vida que ainda temos de descobrir, alguns outros processos atuando nos bastidores.

Charlene se curvava mais em minha direção, gesticulando com as mãos ao falar.

— Está mesmo envolvida nisso, não está? — perguntei.

— Eu me lembro de uma época — ela disse com firmeza — em que você falava desse tipo de experiência.

O comentário dela me causou um impacto. Tinha razão. Houvera um período em minha vida em que eu experimentara de fato essas coincidências, e até mesmo tentara compreendê-las psicologicamente. Em algum ponto ao longo do percurso minha opinião mudara. Por algum motivo, passara a encarar essas coincidências como imaturas e irreais, e deixara até mesmo de notar.

Olhei diretamente para Charlene e disse na defensiva:

— Provavelmente eu andava lendo filosofia oriental ou misticismo cristão naquela época. É disso que você se lembra. De qualquer modo, já se escreveu muito sobre o que você chama de Primeira Visão, Charlene. Qual é a diferença agora? Como uma percepção de ocorrências misteriosas vai levar a uma transformação cultural?

Charlene baixou o olhar para a mesa um instante e tornou a erguê-lo para mim.

— Não interprete mal — disse. — Sem dúvida essa consciência já foi sentida e descrita antes. Na verdade, o padre fez questão de salientar que a Primeira Visão não era nova. Explicou que houve indivíduos que tiveram consciência dessas coincidências inexplicáveis ao longo de toda a história, que esta foi a percepção por trás de muitas grandes tentativas na filosofia e religião. Mas a diferença agora está no número. Segundo o padre, a transformação está ocorrendo hoje por causa do número de indivíduos que têm essa consciência ao mesmo tempo.

— O que é que ele quer dizer exatamente? — perguntei.

— Ele me disse que, segundo o Manuscrito, o número de pessoas conscientes dessas coincidências ia começar a aumentar sensacionalmente na sexta década do século XX. E que esse aumento ia continuar até um determinado momento no início do século seguinte, quando atingiríamos um número específico desses indivíduos; um número que eu concebo como uma massa crítica.

“O Manuscrito prevê”, ela prosseguiu, “que assim que atingirmos tal massa crítica, toda cultura começará a levar essas experiências coincidentes a sério. Vamos nos perguntar, em massa, que processo misterioso está por baixo da vida humana neste planeta. E será esta pergunta, feita ao mesmo tempo por um número suficiente de pessoas, que permitirá que as outras visões também venham à consciência, pois, segundo o Manuscrito, quando um número suficiente de indivíduos perguntar a sério o que ocorre na vida, começaremos a descobrir. As outras visões serão reveladas… uma após a outra.

Ela fez uma pausa para beliscar um pouco da comida.

— E quando atingirmos as outras visões — perguntei —, a cultura mudará?

— Foi isso que o padre me disse — ela respondeu.

Olhei-a por um instante, pensando na idéia da massa crítica, e depois disse:

— Sabe, tudo isso me parece de uma incrível sofisticação para um Manuscrito datado do ano 600 a.C.

— Eu sei — ela respondeu. — Eu mesma levantei essa questão. Mas o padre me garantiu que os estudiosos que primeiro traduziram o Manuscrito estavam absolutamente convencidos de sua autenticidade. Sobretudo porque foi escrito em aramaico, a mesma língua em que foi escrita grande parte do Velho Testamento.

— Aramaico na América do Sul? Como isso foi parar lá em 600 a.C.?

— O padre não sabia.

— A Igreja dele aceita o Manuscrito? — perguntei.

— Não — ela respondeu. — Ele me disse que a maioria do clero estava furiosamente tentando suprimir o Manuscrito. Por isso é que não quis me dizer seu nome. Aparentemente, só falar sobre o assunto já era muito perigoso para ele.

— Ele disse por que a maioria das autoridades da Igreja combatia o Manuscrito?

— Disse: porque contesta o caráter absoluto da religião deles.

— Como?

— Não sei com exatidão. Ele não discutiu muito isso, mas parece que as outras visões ampliam alguns dos conceitos tradicionais da Igreja de uma forma que assusta os clérigos mais velhos, que acham tudo ótimo do jeito que está.

— Entendo.

— O padre disse — continuou Charlene — que não acha que o Manuscrito solape qualquer dos princípios da Igreja. Se faz alguma coisa, é esclarecer com exatidão o que se quer dizer com essas verdades espirituais. Ele estava muito convicto de que os líderes da Igreja veriam esse fato se tentassem voltar a ver a vida como um mistério, e então passassem às outras visões.

— Ele lhe disse quantas visões havia?

— Não, mas falou na Segunda Visão. Me disse que é uma interpretação mais correta da história recente, uma interpretação que esclarece mais a transformação.

— Ele explicou isso?

— Não, não teve tempo. Me disse que precisava ir cuidar de um assunto. A gente combinou tornar a se encontrar naquela tarde, mas quando cheguei ele não estava lá. Esperei três horas, e não apareceu. Tive de partir finalmente para pegar meu vôo de volta para casa.

— Quer dizer que não conseguiu mais falar com ele?

— Isso mesmo. Nunca mais tornei a vê-lo.

— E nunca recebeu do governo qualquer confirmação sobre o Manuscrito?

— Nenhuma.

— Há quanto tempo foi isso?

— Há cerca de um mês e meio.

Durante vários minutos, comemos em silêncio. Afinal Charlene ergueu os olhos e perguntou:

— Que acha?

— Não sei — respondi. Parte de mim continuava cética em relação à idéia de que os seres humanos pudessem mudar de fato. Mas outra parte se espantava ao pensar que um Manuscrito falando nesses termos pudesse existir de verdade.

— Ele lhe mostrou alguma cópia, ou alguma coisa? — indaguei.

— Não, tenho apenas minhas anotações.

Mais uma vez ficamos calados.

— Sabe — ela disse —, eu achava que você ia ficar realmente animado com essas idéias.

Olhei-a.

— Acho que preciso de alguma prova de que o que esse Manuscrito diz é verdade.

Ela abriu de novo um grande sorriso.

— Que foi? — indaguei.

— Foi exatamente o que eu disse, também.

— A quem, ao padre?

— É.

— E o que disse ele?

— Que a experiência é a prova.

— Que quis dizer com isso?

— Que nossa experiência confirma o que diz o Manuscrito. Quando refletimos de fato em como nos sentimos dentro de nós, em como nossas vidas estão indo neste momento da história, vemos que as idéias do Manuscrito fazem sentido, que soam autênticas. — Ela hesitou. — Faz algum sentido para você?

Pensei um instante. Faz sentido? Estará todo mundo tão inquieto quanto eu? E, se estiver, resultará nossa inquietação da simples percepção — da simples consciência acumulada em trinta anos — de que há mais vida do que sabemos, mais do que podemos experimentar?

— Não sei ao certo — respondi afinal —, acho que preciso de algum tempo para pensar nisso.

Andei até o jardim ao lado do restaurante e fiquei parado atrás de um banco de cedro voltado para a fonte. À direita, via as luzes pulsantes do aeroporto e ouvia os motores roncantes de um jato pronto para decolar.

— Que belas flores — disse Charlene às minhas costas.

Voltei-me e a vi aproximando-se pelo passadiço, admirando as fileiras de petúnias e begônias que ladeavam a área. Ficou parada a meu lado e eu passei o braço em torno dela. Lembranças me inundaram a mente. Anos atrás, quando ambos morávamos em Charlottesville, na Virgínia, tínhamos passado tardes inteiras juntos conversando. A maioria de nossas conversas era sobre teorias acadêmicas e crescimento psicológico. Éramos fascinados pelas conversas e um pelo outro. Contudo, me ocorreu como sempre fora platônica a nossa relação.

— Não imagina — ela disse — como é bom ver você de novo.

— Eu sei — respondi. — Ver você traz de volta muitas lembranças.

— Eu me pergunto por que não nos mantivemos em contato?

Sua pergunta me levou mais uma vez ao passado. Lembrei-me da última vez que vira Charlene. Ela se despedia de mim, em meu carro. Naquela época eu me sentia cheio de idéias novas e estava partindo de minha cidade natal para trabalhar com crianças seriamente maltratadas. Achava que sabia como tais crianças podiam superar as reações intensas, o fingimento obsessivo, que as impediam de viver suas vidas. Mas com o passar do tempo, minha visão não deu certo. Tive de admitir minha ignorância. De que modo os seres humanos poderiam libertar-se de seus passados continuava sendo um enigma para mim.

Revendo os seis anos anteriores, eu tinha agora certeza de que a experiência valera a pena. Contudo, também sentia a urgência de seguir em frente. Mas para onde? Fazer o quê? Só tinha pensado em Charlene umas poucas vezes, desde que ela me ajudara a cristalizar minhas idéias sobre trauma infantil, e agora ali estava ela de novo, de volta à minha vida — e nossa conversa era tão emocionante quanto antes.

— Acho que meu trabalho me absorveu inteiramente — eu disse.

— Eu também — ela respondeu. — No jornal, era uma matéria atrás da outra. Eu não tinha tempo de erguer a cabeça. Esqueci tudo mais.

Pus a mão no ombro dela.

— Sabe, Charlene, eu tinha esquecido como são boas as nossas conversas; parecem tão fáceis e espontâneas.

Os olhos e o sorriso dela confirmaram minha constatação.

— Eu sei — ela disse —, as conversas com você me passam muita energia.

Eu ia fazer outro comentário quando Charlene olhou fixamente a entrada do restaurante às minhas costas. Ficou com o rosto angustiado e pálido.

— O que houve? — perguntei, voltando-me para olhar naquela direção. Várias pessoas se dirigiam ao estacionamento, conversando casualmente, mas nada me pareceu fora do comum. Tornei a voltar-me para Charlene. Ela ainda parecia assustada e confusa.

— Que é que há? — repeti.

— Ali perto da primeira fila de carros. Viu aquele homem de camisa cinza?

Olhei de novo para o estacionamento. Outro grupo saía pela porta. — Que homem?

— Acho que não está mais lá — ela respondeu, esforçando-se para ver.

Olhou-me direto nos olhos.

— Quando as pessoas nas outras mesas descreveram o homem que roubou minha pasta, disseram que ele tinha cabelos ralos e barba, e vestia uma camisa cinza. Acho que acabei de vê-lo ali entre os carros… vigiando a gente.

Um nó de ansiedade formou-se em meu estômago. Eu disse a Charlene que voltava já e fui ao estacionamento dar uma olhada, tendo o cuidado de não me afastar muito. Não vi ninguém que se enquadrasse na descrição.

Quando voltei ao banco, Charlene chegou um passo mais perto de mim e disse com suavidade:

— Acha que essa pessoa pensa que eu tenho uma cópia do Manuscrito? E por isso pegou minha pasta? Estará tentando recuperá-lo?

— Não sei — respondi. — Mas vamos chamar a polícia de novo e contar o que você viu. Acho que eles devem checar também os passageiros do seu vôo.

Entramos e chamamos a polícia, e quando eles chegaram informamos o que havia ocorrido. Levaram vinte minutos inspecionando cada carro, depois explicaram que não podiam ficar mais tempo. Concordaram em checar todos os passageiros no embarque do avião em que Charlene ia viajar.

Depois que a polícia se foi, ela e eu nos descobrimos de novo parados sozinhos junto à fonte.

— De que é que estávamos falando mesmo? — ela perguntou. — Antes de eu ver aquele homem?

— Da gente — respondi. — Charlene, por que pensou em entrar em contato comigo para falar sobre tudo isso?

Ela me lançou um olhar de perplexidade.

— Lá no Peru, enquanto o padre me falava do Manuscrito, você não saía do meu pensamento.

— É mesmo?

— Não pensei muito nisso então — ela continuou —, porém mais tarde, depois que voltei para a Virgínia, todas as vezes que eu pensava no Manuscrito, me lembrava de você. Comecei a discar para você várias vezes, mas sempre alguma coisa me distraía. Depois, recebi essa tarefa em Miami, para onde estou indo agora, e descobri, após entrar no avião, que ia fazer uma escala aqui. Quando desembarquei, procurei seu número. Sua secretária eletrônica dizia para só procurar você no lago em caso de emergência, mas decidi que seria bom ligar.

Olhei um instante para ela, sem saber o que pensar.

— Claro — respondi por fim. — Estou feliz que tenha ligado.

Charlene deu uma olhada em seu relógio.

— Está ficando tarde. É melhor eu voltar para o aeroporto.

— Levo você de carro.

Fomos para o terminal principal e andamos até a área de embarque. Eu vigiava com cuidado, atento para qualquer coisa incomum. Quando chegamos, o pessoal já estava embarcando, e um dos policiais que encontráramos observava cada passageiro. Quando nos aproximamos dele, disse que checara todos a bordo e nenhum correspondia à descrição do ladrão.

Agradecemos a ele e, depois que se foi, Charlene se voltou e sorriu para mim.

— Acho melhor eu ir — disse, estendendo o braço para meu pescoço. — Aqui estão meus números de telefone. Desta vez vamos manter contato.

— Escuta — eu disse. — Quero que tome cuidado. Se vir alguma coisa estranha, chame a polícia!

— Não se preocupe comigo — ela respondeu. — Vou ficar bem.

Durante um momento nos entreolhamos no fundo dos olhos.

— Que vai fazer em relação ao tal Manuscrito? — perguntei.

— Não sei. Esperar notícias pela imprensa, acho.

— Como, se foi proibido?

Ela me deu outro de seus generosos sorrisos.

— Eu sabia — ela disse. — Você mordeu a isca. Eu disse que você ia adorar. Que vai fazer você a respeito?

Dei de ombros.

— Ver se posso descobrir mais alguma coisa sobre ele, provavelmente.

— Ótimo. Se descobrir, me conte.

Despedimo-nos de novo e ela se foi. Fiquei olhando quando ela se virou uma vez e acenou, e depois desapareceu no túnel de embarque. Fui andando até a caminhonete e voltei ao lago, parando apenas para pôr gasolina.

Quando cheguei, saí para a varanda protegida com tela e me sentei numa das cadeiras de balanço. A noite vibrava com ruídos de grilos e rãs, e eu ouvia ao longe uma ave noturna. Do outro lado do lago, a lua baixara mais no oeste e mandava pela superfície da água uma esteira de reflexo ondulado em minha direção.

A noite tinha sido interessante, mas eu continuava cético em relação a toda aquela idéia de transformação cultural. Como muita gente, me sentira atraído pelo idealismo social dos anos 1960 e 1970, e até mesmo pelas preocupações espirituais dos anos 1980. Mas era difícil julgar o que acontecia de fato. Que tipo de informação nova seria capaz de alterar todo o mundo humano? Tudo soava demasiado idealista e exagerado. Afinal, os seres humanos vivem neste planeta há muito tempo. Por que iríamos de repente adquirir uma percepção da existência agora, tão tardiamente? Fiquei olhando a água lá fora mais alguns minutos, depois apaguei as luzes e fui para o quarto ler.

Na manhã seguinte acordei sobressaltado, com um sonho ainda vívido na mente. Durante um ou dois minutos fiquei com os olhos presos no teto do quarto, lembrando-o inteiramente.

Em minha busca, eu me via em inúmeras situações em que me sentia totalmente perdido e desnorteado, incapaz de decidir o que fazer. Incrivelmente, em cada um desses momentos surgia uma pessoa do nada, como de propósito, para esclarecer aonde eu deveria ir em seguida. Eu jamais soube do objeto de minha busca, mas o sonho me deixou inacreditavelmente exaltado e confiante.

Sentei-me na cama e notei um raio de sol entrando pela janela e atravessando o quarto. Cintilava com as partículas suspensas de poeira. Fui até lá e abri as cortinas. Fazia um dia glorioso: céu azul, sol brilhante. Uma brisa constante balançava as árvores. O lago estaria ondulado e resplandecente àquela hora do dia, e o vento, gelado na pele úmida do nadador.

Saí e dei um mergulho. Voltei à tona e nadei até o meio do lago, virando-me de costas para olhar as conhecidas montanhas. O lago ficava num vale profundo, onde convergiam três cristas de montanha, a paisagem lacustre perfeita descoberta por meu avô na juventude.

Fazia já uma centena de anos que ele, garoto explorador, escalara aquelas cristas, um prodígio a surgir num mundo ainda selvagem, com pumas, javalis e índios Creek, que viviam em cabanas rudimentares na montanha norte. Ele jurara então que um dia moraria naquele vale perfeito, com suas enormes árvores velhas e suas sete nascentes, e acabara construindo um lago e uma cabana, e dando longas caminhadas com um neto jovem. Jamais entendi direito a fascinação de meu avô por aquele vale, mas sempre tentara preservar a terra, mesmo quando a civilização a invadira, e depois a envolvera.

Do meio do lago, eu via uma determinada rocha aflorando perto da crista norte. Na véspera, na tradição de meu avô, eu subira até aquele penhasco, tentando encontrar um pouco de paz na paisagem, nos aromas e na maneira como o vento rodopiava nas copas das árvores. E sentado ali em cima, examinando o lago e a densa folhagem no vale lá embaixo, fora me sentindo aos poucos melhor, como se a energia e a perspectiva dissolvessem algum bloqueio em meu pensamento. Poucas horas depois, estava conversando com Charlene e ouvindo falar do Manuscrito.

Voltei nadando e subi no ancoradouro de madeira defronte à cabana. Sabia que tudo aquilo era demais para ser crível. Quer dizer, ali estava eu me escondendo naqueles morros, me sentindo inteiramente desencantado com minha vida, e de repente aparece Charlene e explica a causa de minha inquietação — citando um certo manuscrito antigo que promete o segredo da existência humana.

Mas também sabia que a chegada de Charlene era exatamente uma daquelas coincidências de que falava o Manuscrito, a coincidência que parecia demasiado improvável para ser resultado de um simples acaso. Poderia aquele antigo documento estar certo? Teríamos estado nós a formar lentamente, apesar de nossa negação e cinismo, uma massa crítica de pessoas conscientes daquelas coincidências? Estariam os seres humanos agora em posição de compreender esse fenômeno, e portanto de entender afinal o objetivo por trás da própria vida?

Que seria, eu me perguntava, essa nova compreensão? Iriam as visões restantes no Manuscrito nos responder, como dissera o padre?

Eu estava diante de uma decisão. Por causa do Manuscrito, sentia que uma nova direção se abria para minha vida, um novo ponto de interesse. A questão era: o que fazer agora? Eu podia ficar ali ou encontrar uma maneira de pesquisar mais. Veio-me à mente a questão do perigo. Quem teria roubado a pasta de Charlene? Seria alguém agindo para suprimir o Manuscrito? Como eu poderia saber?

Pensei muito tempo no risco possível, mas acabou prevalecendo meu estado de espírito de otimismo. Decidi não me preocupar. Teria cuidado e iria devagar. Entrei e telefonei para a agência de viagens de maior anúncio nas páginas amarelas. O agente com quem falei disse que podia, sim, marcar uma viagem ao Peru. Na verdade, por sorte, havia um cancelamento que eu poderia pegar — um vôo com reserva já confirmada num hotel em Lima. Disse que eu teria todo o pacote com desconto… se pudesse partir em três horas.

Três horas.
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