Trecho do Livro: O Caminho de Nostradamus | Dominique e Jérôme Nobécourt

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Sete verdines dispostas em círculo delimitavam o acampamento montado numa clareira de carvalhos verdes e de pedras, no coração dos Alpilles. Era uma noite de paz para o povo do Vento, expulso da Espanha pelos torturadores da Inquisição.

Um dos homens reunidos no centro, em torno de um fogo de sarmentos, salmodiava um lamento flamenco, acompanhado pelas palmas dos companheiros.

Sentados um pouco afastados, face a face, havia um homem jovem e uma mulher idosa. Daenae, a phuri-dae, a maga da tribo, aproximava-se, sem dúvida, dos 50 anos, mas tinha a silhueta magra e vigorosa de uma jovem mulher. Em tons predominantemente violeta, o lenço que lhe prendia os cabelos deixava livre o rosto agudo de pele sem brilho, sulcado de pequenas rugas quase invisíveis. Sem ser bonita, Daenae possuía a beleza de um ícone antigo. Os olhos negros onde brincavam os reflexos do fogo escrutavam o rosto do homem sentado à sua frente.

Sentado sobre as pernas cruzadas, as costas muito retas, mantinha a imobilidade alerta de um gato. Cabelos castanhos meio longos, rosto de formas acentuadas, traços cinzelados, poderia passar por um adolescente. Usando bigode caído e barbicha cuidadosamente aparada, não destoava dos ciganos. De altura mediana, magro sem ser frágil, irradiava um poder sereno. No entanto, faria em breve apenas 30 anos. Era Michel de Nostredame, médico já famoso por seus remédios pouco ortodoxos.

— Não sei mais o que fazer, ou em que acreditar — murmurou com a voz esgotada. — A imagem deles me persegue.

Um ano antes, em Agen, Michel cremara os cadáveres de sua mulher e dos dois filhinhos ceifados pela peste enquanto ele tratava de outros doentes. Não soubera salvar os seus. Depois, teve de fugir, assim como seu amigo François Rabelais, para escapar das investigações do tribunal da Inquisição de Toulouse. Não havia dúvida quanto à identidade do denunciador. Tratava-se de Júlio-César Scaliger. Boticário erudito e notável, não compreendia as panacéias originais de Michel e detestava a prosa iconoclasta de Rabelais.

— Minha vida se acabará aqui, onde começou, em Saint-Rémy. Não sou talhado para essa época obscura.

— O tempo do luto passou — interrompeu-o secamente Daenae. — A estrada te espera.

Abrindo um pedaço de seda, a cigana espalhou um jogo de cartas. Michel retirou cinco, sem virá-las. Uma após outra, Daenae mostrou as longas lâminas com o verso castanho. O tilintar das pulseiras de prata pontuava cada gesto seu. As figuras fascinantes do Tarô apareceram: a Torre, o Mago, a Papisa, a Imperatriz, os Enamorados…

— Seu nome ultrapassará fronteiras e sobreviverá aos séculos… Mas você sofrerá a ponto de ter o coração despedaçado… Você se tornará o maior mago de todos os tempos, se não morrer de amor antes.

Em seguida, ela juntou o baralho, enrolou-o no pedaço de seda e o entregou a ele.

— Ofereço-o a você como uma lembrança nossa. Pegue — insistiu ela.

— Não tenho intenção de deixá-los.

Estava sendo sincero. Um dia, seguiria os passos de Jean, seu avô materno, médico em Saint-Rémy. Então, sem dúvida, se casaria de novo, já que seu dever de homem era assegurar a descendência. Uma vida decente, feliz, se tivesse sorte. Era só.

Daenae balançou a cabeça, sorrindo:

— Você partirá! Sua viagem o levará aonde nenhum humano jamais chegou. Você verá!

Um cão levantou a cabeça, as orelhas em pé, enquanto os cavalos se agitavam. O canto e as palmas cessaram instantaneamente. Os homens ergueram metade do corpo, à espreita dos ruídos da noite. Ouviram um estrondo distante transformando-se em batidas de cascos. Uma tropa a cavalo os atacava. Correram para pegar os bastões de combate e se reagruparam em círculo em torno de Daenae. Tinham fugido da Espanha por causa das perseguições que outros como aqueles lhes infligiam. Pensaram ter encontrado alívio na Provença, na outra margem do Ródano, mas os seguidores da intolerância os tinham alcançado. Daenae persuadiu Michel a evitar aquele combate que não era dele. Ele recusou. Os Filhos do Vento o tinham acolhido como um dos seus quando era menino. Tinha explorado charnecas, mato e rochedos com seus filhos, aprendido a armar laços e a rastrear com seus irmãos. Jovem adolescente, recebera ensinamentos secretos e com seus pais compreendeu o respeito pela mulher. O que importava se seus amigos eram de uma tribo diferente da de sua infância? Pertenciam ao mesmo povo, tão semelhante àquele de onde ele mesmo se originava. Daenae se enganava. Ele agarrou no ar um bastão de combate com castão esculpido, que Zoltan, o chefe da tribo, acabara de lhe lançar.

Aproximadamente da altura de um homem, com uma das extremidades mais espessa, aquele bastão poderia se tornar uma arma temível. Habituados desde a infância aos perigos dos grandes caminhos, os ciganos o manejavam com competência. Tinham ensinado suas sutilezas a Michel.

Algumas mulheres reuniram as crianças, que despertaram assustadas, e as carregaram para um abrigo nas rochas. Os outros fizeram o mesmo com os cavalos.

De repente, luzes rasgaram as trevas: tochas levadas pelos inquisidores. E eles surgiram da noite, silhuetas fantasmagóricas, usando vestes brancas, cobertos por capuzes de penitentes, que as chamas tingiam de reflexos alaranjados. À frente da matilha, Michel reconheceu um monge dominicano. Descoberto, descabelado, o rosto emaciado, os olhos loucos. Essa visão o fez estremecer. Pouco tempo depois de sua fuga de Agen, começara a perceber uma ameaça sem conseguir defini-la. Eis que ela acabava de se materializar.

— Pela fé, soldados de Deus! — urrou Ochoa, investindo contra os homens a pé.

Apesar da habilidade no manejo do bastão, Michel e os ciganos nada podiam contra os assaltantes montados em cavalos a galope. Conseguiram aparar alguns golpes, não devolveram o suficiente, e o círculo se rompeu enquanto Daenae lançava uma maldição em língua rom. Ochoa levou a montaria até ela, agarrou-a e a jogou atravessada na sela.

— Peguei a feiticeira!

Deu de rédea e esporeou. Seus capangas mascarados o imitaram. Meteram-se na noite e desapareceram.

Quando Michel e os amigos acabaram de levantar as verdines derrubadas, as mulheres lhes trouxeram os cavalos cujos cascos elas tinham enrolado em trapos. Lançaram-se sob a chefia de Zoltan, um rastreador sem-par. Por nada no mundo abandonariam a phuri-dae nas mãos dos fanáticos. Ela representava para eles a mãe, a guia e a memória.

Amarrada ao tronco de uma árvore, no cume de uma pequena colina pedregosa dominando um charco podre, Daenae via apontar sua última aurora. A cigana não tinha medo. Nenhuma bravata nessa atitude. Simplesmente a aceitação do inelutável. Todos morriam um dia. Como, pouco importava. Apenas os sobreviventes sofriam.

Os fanáticos amontoavam lenha ao pé da fogueira improvisada, alegrando-se por antecipação com o belo fogo onde tostaria a criatura de Satã. Contudo, ninguém ousava sustentar o brilho de seus olhos de ônix.

Michel e os amigos esconderam-se nos caniços. Tinham de percorrer 50 metros a descoberto para alcançar os homens armados que defendiam o acesso à colina do suplício. Um assalto frontal parecia fadado à derrota. Michel notou, porém, que os homens de Ochoa não estavam verdadeiramente armados. Empunhavam foice, maça de ferreiro, enxada, foicinho: instrumentos que denunciavam o ofício de cada um deles. Mostraram-se, na verdade, menos corajosos desmontados em pleno dia do que tinham sido à noite, de surpresa e a cavalo.

Erguendo os olhos para o céu, ele constatou que a crista das nuvens começava a se esfiapar ao sopro de um vento de altitude. E as nuvens se movimentaram, ganhando velocidade a olhos vistos. No mesmo instante, uma lufada correu pela superfície das águas estagnadas, e os caniços estremeceram. Michel se virou para Zoltan e sussurrou:

— Vocês não ficarão de luto esta noite.

O chefe da tribo cigana concordou e se virou para seus homens.

— Preparem-se!

Os homens de Zoltan espreitavam o vento. Foi de repente, como um mugido nascido do fundo do espaço. O vento mistral se desencadeou violento, caindo das nuvens, carregando tudo em seu sopro gelado.

A fogueira de madeira seca amontoada se deslocou, se espalhou, derrubada pela rajada. Brasas voaram para todos os lados, pondo fogo nas vestes brancas e nos capuzes dos penitentes. As chamas, que eles acreditaram a serviço de sua demência imbecil, vingavam-se.

— Agora! — gritou Zoltan.

Michel e os ciganos saltaram sobre os cavalos e picaram rumo à colina.

Todas as vezes que se encontrava em situação crítica durante sua jovem vida, Michel tinha a impressão de se desdobrar. Em vez de deixar o medo reduzir-lhe o fôlego e paralisar-lhe os músculos, relaxava. Seu espírito parecia elevar-se acima do corpo para analisar os acontecimentos em seus mínimos detalhes com uma acuidade que conferia a ilusão de uma dilatação do tempo, enquanto o corpo continuava agindo da forma mais natural.

Ochoa viu aproximar-se a carga dos ciganos. Em vão tentou reunir seus homens. Quis desembainhar a espada que levava. Seu gesto se interrompeu. Para seu grande pavor, sentiu-se como que paralisado, impotente tanto para puxar a arma quanto para fugir. Pregado no lugar, via abater-se sobre ele aquele jovem homem, de olhar irradiante, cujo fogo sentia atravessá-lo. O tempo lhe pareceu suspenso. Martelar de cascos, relincho dos animais, cacofonia do entrechoque das armas, tudo se fundiu num zumbido distante. Só havia aqueles olhos que enxergavam o que de mais profundo havia nele. Pressentiu que se encontrava diante daquele que procurava. E o homem a cavalo estava em cima dele. No momento em que via chegar sua última hora, o cavaleiro deu uma guinada, desviando-se dele, contentando-se em chocar-se contra ele, fazendo-o rolar na água estagnada. Enquanto os bastões dos ciganos giravam, criando calombos em alguns crânios e semeando a debandada, Michel prosseguiu no avanço, saltou sobre os restos da fogueira e cortou os laços de Daenae, que logo saltou para a sua garupa.

Uma rodela quebrada, gravada no lintel de pedra acima da porta de entrada da fazenda, uma pequena casa de fazenda ladeada de ciprestes, assinalava que a casa pertencia a judeus convertidos. Jean de Saint-Rémy estava à mesa de trabalho num cômodo do térreo que lhe servia de consultório. Estudava apaixonadamente as pranchas anatômicas que um amigo acabara de lhe trazer de Pádua, uma das únicas cidades onde a Igreja tolerava dissecações. Nos outros lugares, interrogar-se sobre os mistérios da natureza, em lugar de se contentar em reconhecê-los como efeitos da graça, acarretava suplício por heresia.

Um velho bonito, seco e nodoso como um tronco de videira, Jean tinha os cabelos brancos, barba curta tratada com cuidado, a tez bronzeada e o olhar límpido. Não parecia ter 78 anos.

Tinha sido afastado da ordem dos Médicos por ter ousado sugerir que os escritos de Hipócrates e Galeno representavam etapas na via do saber médico, mas não imprescritíveis tábuas da Lei. Esse bom senso quase lhe custara a excomunhão.

Um martelar de cascos fez com que levantasse a cabeça. Reconheceu entre as oliveiras a silhueta de Michel, galopando na luz dourada do sol nascente. O espetáculo fez brotar nele a mesma emoção sempre renovada desde o dia em que seus pais o confiaram a ele, 21 anos antes.

Michel era o primogênito de sua filha única, Reynière, esposa de Jaume de Nostredame. Notário e mercador de trigo, também oriundo de uma linhagem de judeus convertidos, Jaume se preocupava antes de tudo com a honra. As predisposições de seu filho mais velho para o irracional, reveladas desde a mais tenra idade, tinham-no contrariado, tanto mais que eram acompanhadas de inquietantes perturbações. O menininho podia passar horas devaneando, surdo até mesmo às ordens dos pais. Sofria com terríveis pesadelos, que o deixavam sufocado, e com enxaquecas seguidas de perturbações visuais. Por vezes também com leves transes cuja única manifestação visível era uma espécie de arrepio nos braços, que batizara de “minhas fagulhas”. Esses sintomas faziam com que seus pais temessem que ele sofresse do “grande mal”, a epilepsia.

Para grande alívio deles, Jean se oferecera para tomar conta do menino. O que aceitaram prontamente, ao passo que ele agradecia secretamente aos céus por lhe oferecerem como discípulo desejado alguém de sua linhagem, de quem faria também o herdeiro da Tradição imemorial.

Jean de Saint-Rémy chegou a considerar Michel de Nostredame como o filho que jamais tivera. Com razão, porque, se não era seu pai biológico, tinha sido seu mestre e amigo. Compreendera também desde cedo que o aluno ultrapassaria o professor até atingir alturas de conhecimentos ainda inexplorados.

Michel saltou do cavalo, que montava em pêlo. Jean não ficou alarmado com a pressa dele, responsabilizando o vento mistral gelado. Seu menino estava apenas com frio. Estendeu-lhe uma coberta na qual Michel se enrolou antes de se sentar e de se servir de uma tigela de sopa do caldeirão pendurado na lareira. Depois de aquecido, contou a Jean o desenrolar dos acontecimentos sucedidos desde o saque do acampamento cigano. Diante da descrição que fez de Ochoa e da estranha ligação estabelecida entre eles, Jean estremeceu de angústia. O que temia havia anos tinha, portanto, se concretizado!

Avisado por alguns amigos que, como ele, eram membros de uma irmandade secreta, Jean sabia que Ochoa percorria o Languedoc e a Provença à procura de um profeta. A reputação de ferocidade do monge o precedia. Ele fazia parte da corja de zelotes que a fé desviada transformava em torturadores. Informado de tudo isso, Jean tomara a precaução de afastar Renée, sua esposa, afetuosamente apelidada de Blanche, que significa branca, por causa da claridade de sua alma. Considerada adivinha, teria acabado queimada, caso Ochoa soubesse de sua existência.

Porém, Jean não julgara necessário mandar que Michel se escondesse. Por quê? Porque seu dom de profecia ainda estava adormecido? Mas Michel e Ochoa se reconheceram e, naquele instante, souberam estar designados um para o outro. O enfrentamento se tornara inelutável. O destino decidira que Ochoa representava a primeira prova que Michel deveria vencer no estreito caminho da iniciação suprema. Assim seja. Mas Jean considerava que isso acontecia cedo demais. O rapaz ainda não estava suficientemente armado.

— Faça as malas! Vamos ao encontro de Blanche — ordenou o velho, levantando-se de um salto da poltrona.

Afastando-se de Michel, ele recolheu as preciosas pranchas anatômicas e as jogou na lareira. Em seguida, agarrando às braçadas os papéis espalhados no escritório, começou a jogá-los no fogo, evitando dirigir-lhes o olhar, com medo de fraquejar em sua decisão.

Finalmente, Michel compreendeu a urgência. O respeito e a afeição por Jean lhe proibiam o menor gesto de compaixão em relação a ele. Começou, por sua vez, a juntar às pressas papéis e livros para queimá-los. Qual a importância daqueles documentos? O Saber que continham impregnava-lhes a alma para sempre. Foi, em seguida, para o laboratório de preparação contíguo ao gabinete de trabalho a fim de selecionar alguns pós e ervas raras.

Levou o restante dos potes e sacos de plantas secas para esvaziá-los na fonte ou dispersá-los ao vento, enquanto Jean continuava a queimar todos os documentos científicos e esotéricos capazes de fazer com que ambos fossem acusados de feitiçaria. Logo não restou dos preciosos arquivos senão uma encadernação em couro patinado, estufada de folhas cobertas de anotações. Comentários lançados anos a fio, descrevendo os progressos de Michel nas diferentes disciplinas que estudava. Cada folha do conjunto de anotações descrevia uma etapa da eclosão e do desabrochar de uma inteligência fora do comum que Jean considerava ter tido o privilégio de acompanhar na via do Conhecimento. Movido pela nostalgia, deu-se um tempo para ler-lhe algumas passagens.

Eis, no coração do verão, a chuva das Perseidas. Ele já está quase mais adiantado que eu ao descrever o percurso delas através das constelações. Bastará que eu lhe conte os mitos antigos para que ele evolua por entre os arcanos celestes com a facilidade de um agrimensor familiar.

Michel ainda não tinha então 11 anos. Virou rapidamente algumas páginas até encontrar uma passagem à qual não conseguia deixar de voltar.

Sua capacidade de compreender as línguas estrangeiras, mortas e vivas, parece-me às vezes provir do sobrenatural. Contrariamente à lógica, que preconiza a aprendizagem metódica das regras da sintaxe e da conjugação antes da do vocabulário, ele colhe inicialmente a substância das palavras e a idéia secreta que elas escondem. Combiná-las em seguida parece-lhe um jogo. Não é raro que misture em suas frases vocábulos gregos, latinos, hebraicos, árabes, provençais, escolhendo a cada vez a palavra que melhor traduzirá o que deseja exprimir.

Michel tinha então 15 anos completos, lembrou-se Jean. Lia, falava e escrevia em grego, latim e hebraico. Dominava também o italiano e o espanhol, bem como um pouco de alemão e de árabe. Sabia passar de uma língua a outra durante o mesmo discurso, sem por isso perder o fio do pensamento.

Seu modo de pensar às vezes me deixa pasmo. Sem se perder nos meandros dos detalhes, ele abarca o conjunto e encontra a solução. Não raciocínio laborioso, mas divina revelação. Ele não procura, encontra.

Tantos testemunhos preciosos da transmutação de um ser inspirado que agora tinha de ser entregue às chamas! Antes de se decidir a isso, Jean quis reler as últimas folhas. Não diziam diretamente respeito a Michel, já que constituíam as bases de um estudo sobre a natureza das profecias, destinado a integrar o Mirabilis Liber. Na época, Michel tinha apenas 16 anos. Salvo os transes ocasionais, nada nele indicava disposições para a profecia. Posteriormente, tendo adquirido a certeza de que seu protegido ultrapassaria o estado de clarividência ocasional para aceder ao da revelação, característica do profeta, Jean juntou esse resumo ao dossiê de Michel.

Para ascender à revelação, o profeta chega primeiramente ao desapego. Não por ascese, mas por elevação acima do pensamento imposto. Somente assim ele consegue a absoluta liberdade da alma que lhe permite atingir o cerne da energia universal, inefável.

Na via do desapego, o profeta deve vencer diferentes provas cujo número e natureza são invariáveis.

Enfrenta as forças tenebrosas que tentam submetê-lo, corpo e alma, ou, na ausência disso, abatê-lo.

Vence os tentadores que fazem cintilar diante de seus olhos a opulência material das esferas inferiores e lhe oferecem o poder sedutor do astucioso sobre o crédulo.

Encontra a sua Dama e, pela fusão de ambos nos três reinos, encontra sua alma.

Enfrenta a morte e não cede ao aniquilamento.

Seus inimigos são os padres e os doutores, os intrigantes e os ambiciosos, os velhacos e os ladrões que se encarniçam para congelar o curso do Tempo, a fim de estabelecer seu domínio sobre a Terra e sobre os seres vivos que a povoam.

Se falhar em uma dessas provas, seu destino profético não se realizará. Mas se triunfar, poderá enfim ascender ao Príncipe em quem se concentra a vida de seu povo, e que recebe na Terra a energia do grande Todo a fim de governar os seus nos redemoinhos do Tempo.

Somente então, depois de ter vitoriosamente percorrido a via do desapego, o eleito pode acolher a revelação, e transmiti-la.

Posteriormente a essa síntese, fruto do estudo dos profetas bíblicos, Jean de Saint-Rémy acrescentou:

Agora tenho a certeza de que o Destino designou Michel para ser o último profeta deste ciclo terrestre. Aquele que anunciará os tempos do Alfa e do Ômega depois do que se abrirá um novo ciclo de harmonia. Talvez… Se os homens, nesse meio-tempo, tiverem aprendido…

Essa via que se abre a ele será longa, perigosa e dolorosa. Que eu ainda possa viver bastante para ajudá-lo na passagem.

Jean nunca se enganara sobre a verdadeira natureza dos transes de Michel. Seus esforços de todos os instantes tenderam a cultivar, estruturar e fortalecer seu espírito, a fim de que ele não perdesse a razão no dia em que se expandisse plenamente o dom da dupla visão recebido como herança.

Sabia que esse momento marcaria o início de sofrimentos indizíveis, pois, se a clarividência colocava aqueles que a possuíam acima dos humanos, ela os atraía para abismos obscuros. Por isso, Jean sempre escondera de Michel seu destino; por saber que, para que ele se revelasse em sua plenitude, aquele a quem chamava de filho deveria passar para o outro lado do espelho, enfrentando a morte como Orfeu o tinha feito, voltando dessa viagem sem que seu espírito fosse consumido.

Jean ficou lá, pensativo, o coração pesado de emoção e angústia. O martelar de uma cavalgada interrompeu sua meditação. Aquele instante de enternecimento custara um tempo precioso. Jogou a encadernação de couro e seu conteúdo na lareira.

Quatro cavaleiros estavam parados à entrada da fazenda. O inquisidor não levara muito tempo para encontrar a pista de Michel.

Ao reconhecer os rostos familiares de seus companheiros, Jean compreendeu de onde tinha vindo a denúncia. De gente boa, mas ignorante. A colheita estragada e a vindima minguada daquele ano os reduziam à indigência. Pão e vinho faltariam naquele inverno, e o espectro da peste obsedava os espíritos. Bastava um mau caráter como Ochoa, e aquela pobre gente poderia se transformar em cães raivosos.

Ouviu Michel descer precipitadamente a escada e ficar ao seu lado, a mão direita crispada na guarda da espada, meio puxada da bainha, pronto para defender suas vidas. Jean pousou a mão tranqüilizadora em seu braço.

— Eles teriam mesmo acabado por se mostrar, cedo ou tarde. Não tente nenhuma idiotice — exigiu, pegando uma bengala apoiada no batente da porta, e depois curvando-se, o que o fez ficar com uma silhueta de causar piedade.

Vendo-o aparecer na soleira, os companheiros de Ochoa trocaram olhares constrangidos. O velho parecia estar chegando ao fim. Nenhum deles tinha mais coragem de levar a morte àquela casa. Evidentemente ela já havia tecido ali sua teia. O monge sentiu que seus companheiros cediam e compreendeu que, não importava o que dissesse, a disposição deles tinha-se esvaído. O velho não estava em condições de viajar. Seria melhor correr até o albergue de Fontvieille, onde sabia que poderia contratar soldados provisórios sem tais escrúpulos. Antes de dar de rédea, diferentemente de seus companheiros que não esperaram por seu sinal para desviar o caminho, fez um rápido sinal de exorcismo para o velho cujos olhos desbotados brilhavam com um fulgor zombeteiro.

— Você ainda não se livrou de mim, judeu! — ganiu com sua voz acre antes de dar de esporas.

Jean acompanhou com o olhar a silhueta do monge que se afastava a galope e se virou para Michel.

— Ele o encontrou. Não o largará mais. Partamos agora. Temos pouco tempo. Era apenas uma casa — acrescentou, contemplando a fazenda.

A voz de uma mulher fez-lhe eco:

— … E uma casa é apenas uma parada no grande caminho.

Eles estremeceram. Zoltan e Daenae emergiram da sebe de loureiros, seguidos por quatro ciganos. Ajudaram Michel e Jean a concluir os preparativos e a selar os cavalos. Amarradas as sacolas e os armários, chegou o momento das despedidas. Zoltan ofereceu a Michel um bastão de combate de madeira escura cujo castão ele gravara com as próprias mãos. O motivo representava a estrela de cinco pontas, filha do Sol. Em retribuição, Jean lhe deu de presente um anel que recebera de um feiticeiro cigano. Tratava-se de um ônix arredondado, encravado numa armação de prata. Uma pedra redonda como uma Lua que, à noite, reflete a luz do Sol, e negra como a cor do que ainda não foi criado. Era um anel do Saber que os ciganos chamavam de “o Olho”. Ao oferecê-lo a Zoltan, Jean apenas observava a tradição rom segundo a qual o portador do anel era apenas seu depositário e deveria passá-lo a quem lhe parecesse o mais digno.

Quinze minutos depois de ter deixado a fazenda, eles penetravam no labirinto da planície pantanosa que se estende da base de Saint-Rémy à Montagnette de Frigolet. Num instante, as altas cortinas de caniços maltratados pelo vento se fecharam sobre eles. Depois de cinco horas de hábil caminhada entre areia movediça traiçoeira e mato espinhoso, chegaram à comunidade religiosa de Saint Michel de Frigolet. Os cavalos sobrecarregados de bagagens tinham retardado o avanço, obrigando-os muitas vezes a ir a pé.

No instante em que Jean batia o ferrolho do portão do monastério, Ochoa penetrava a fazenda abandonada, escoltado por seis soldados provisórios recrutados no albergue de Fontvieille.

A descoberta de que o velho judeu o tinha enganado mergulhou o monge numa raiva delirante. Revistou a casa de alto a baixo. Em vão. Das atividades satânicas do velho feiticeiro e de seu filho não restavam senão os aromas importunos de essências e ungüentos cujos recipientes quebrados juncavam o chão, misturando-se às espirais de fumaça acre que emanavam da lareira. Ochoa remexeu com a ponta da espada os restos calcinados dos livros de magia proibidos que, certamente, teriam enorme valor. À raiva somou-se o despeito de perder uma importante recompensa. Em seu combate pela fé, muitas vezes precisava de dinheiro. Alguns trabalhadores revelavam-se menos preocupados com a salvação eterna do que com as parcas satisfações materiais; o contrato de seus auxiliares naquele dia havia sangrado dolorosamente suas finanças. Quando tinha decidido sair dali, o ferro encontrou resistência. Varrendo as cinzas, descobriu uma encadernação encarquilhada pelas chamas, contendo restos de folhas manuscritas. O grosso maço de papéis ainda fumegava. Retirando-a da lareira, abriu-a. Após espalhar o conteúdo, encontrou, preservadas do braseiro pela espessura do maço e pela robustez do couro, duas folhas chamuscadas das quais algumas linhas ainda estavam legíveis.

Não precisava do conjunto do texto para compreender o sentido de semelhante desordem. Aquele Michel de Saint-Rémy com olhar de demônio era mesmo o seu homem. Arrumando cuidadosamente as folhas na bolsa presa ao cinturão, precipitou-se para fora da casa, gritando.

— A cavalo!

Ao descobrir, alguns minutos mais tarde, que a pista dos dois homens levava à planície pantanosa, encheu-se de alegria. Se suas presas tinham pensado em desencorajá-lo, ficariam frustradas. Do outro lado da planície, havia a Montagnette de Frigolet e, atrás, o Ródano. Já tinham sido apanhados. Dividiu o grupo em três, enviando dois homens para contornar o obstáculo pelo norte, e outros dois pelo sul. Ele próprio e os dois restantes continuariam a seguir a pista através do pântano. Cedo ou tarde, os fugitivos estariam cercados, encurralados no rio.

Desde que se tornara membro do capítulo ligado à Igreja de Santa Marta de Tarascon, cinqüenta anos antes, o priorado de Frigolet caía em lento abandono. Esquecidos de quase todos, viviam ali apenas Dom Tomassin, o velho boticário, e o irmão menor Antônio, seu aprendiz. O clero só se lembrava deles quando a Aqua Ferigoleta faltava nas adegas do bispo de Avignon. Esse licor saboroso à base de macerações de ervas da Montagnette era apreciado por seu buquê bem como por seus efeitos sobre as entranhas empanturradas de boa comida. Último detentor do segredo de sua composição, Dom Tomassin, antes de morrer, transmitiria a fórmula para o jovem Antônio. Jean tinha sido seu companheiro de pesquisas e de debates filosóficos. Quanto a Michel, desde a infância reconhecia nele um ser tocado pela graça.

Seguindo as orientações de Jean, Michel e o irmão Antônio aliviaram os cavalos de algumas bagagens. Em seguida, Dom Tomassin atravessou com eles o claustro abandonado e os guiou até a pequena capela de Nossa Senhora do Bom Remédio, construída há quatro séculos. Acionou o mecanismo de abertura de uma porta secreta e os fez descer à cripta. Michel descobriu então que o velho monge boticário ali decidira instalar seu laboratório. Embora o forno ovóide estivesse apagado, a natureza do material disposto sobre as bancas não deixava lugar à dúvida. Aquele Dom Tomassin, que sempre considerara um homem simples, revelava-se um alquimista. Como pudera ignorá-lo até aquele dia? Pensar que Jean lhe escondera um fato dessa importância o entristeceu tanto quanto o irritou.

— Eu pretendia abordar essas coisas com você — disse simplesmente o avô, percebendo mais uma vez seus pensamentos e tirando de um saco um alambique de sua invenção que permitia destilar no terreno o suco de determinadas plantas logo que colhidas, a fim de conservar-lhes todo o poder. — Eu prometi que você o testaria. Não hesite em usá-lo — disse, entregando a aparelhagem ao irmão menor Antônio. — Quanto ao resto…

— Não se preocupe com nada, meu velho amigo — interveio Dom Tomassin. — Esconderei tudo isso no lugar de Mirzam.

Michel ia de surpresa em surpresa. Mirzam, o Anunciador em árabe, pertencente à constelação do Grande Cão. A que lugar Tomassin se referia? Quantas coisas ainda seu avô lhe havia escondido?

Alguns minutos depois, montavam de novo, providos de pão, queijos de cabra e um frasco de Aqua Ferigoleta.

Logo seriam seis horas. Eles tomaram então os atalhos da Montagnette dos quais conheciam todas as curvas. Os cavalos, aliviados, progrediam num passo firme. Virando-se na sela, Michel avistou ao longe, na planície pantanosa, as formas de três cavaleiros. Aquele monge era decididamente um louco. Por sorte, a noite logo iria imobilizá-lo nos pântanos, forçando-o a interromper a perseguição.

Ao fim de quatro horas de marcha, protegidos pela escuridão e pelos mugidos do vento que cobriam qualquer outro ruído, Michel e Jean desceram a outra vertente da Montagnette. Mais duas horas de estrada e encontrariam refúgio entre os boumians do lugarejo de Vallabrègues.

Esses habitantes dos pântanos, tratados como infames, subsistiam graças à exploração do junco com o qual confeccionavam cestos e canastras. Jean de Saint-Rémy podia contar com a ajuda deles para atravessar o Ródano, evitando a ponte de Tarascon.

Era um dos poucos que sabiam que os boumians de Vallabrègues, cansados de serem extorquidos pelo pedágio das pontes, tinham construído uma espécie de barcaça manobrada por longas varas, da qual se serviam para passar mercadoria para a margem direita do rio. E também, ocasionalmente, fazer um pouco de contrabando. As autoridades não imaginavam sua existência, considerando que o rio era muito difícil de ser atravessado naquele ponto.

Michel e Jean encontraram refúgio numa bacia de rocha abrigada do vento e ali se instalaram sem se arriscar a acender um fogo para se aquecer. Enrolaram-se em grossos mantos de lã e se acomodaram o melhor que puderam, lado a lado, as costas apoiadas na rocha plana. Sabiam que deveriam dormir para recuperar um pouco as forças, mas se descobriram incapazes de fazê-lo. Então, ficaram ali, silenciosos, perdidos em pensamentos.

O vento mistral tinha limpado o céu. Nunca as estrelas pareceram tão próximas. Como quando Michel, em criança, passava noites inteiras a contemplá-las, certo de que poderia tocá-las com o dedo se desejasse com bastante fé.

— O que é o lugar de Mirzam? — acabou por perguntar.

— Pense. Você se lembra dos jogos que eu inventava quando você era pequeno? O princípio é o mesmo.

Jean tinha inventado um método original capaz de estimular o imaginário. Compunha enigmas, charadas, adivinhações que constituíam, na maioria das vezes, verdadeiras caçadas ao tesouro. O menino devia procurar os dados necessários à solução em livros ou por meio de perguntas. Desse modo, a busca do conhecimento se tornara um jogo permanentemente renovado. Com o tempo, Michel compreendia que o que estivera especialmente em jogo naqueles anos tinha sido a busca incansável, mais do que seu objeto. Sabia que seria sempre assim, já que cada nova aquisição correspondia a uma nova ignorância. Por mais vasto que fosse, o Saber estaria sempre na escala do humano, e o desconhecido, na do universo.

— Afaste o ressentimento do coração — continuou suavemente Jean. — Eu ardia por lhe revelar essas coisas que calei. Se não o fiz, foi porque você ainda não tinha as disposições necessárias. Ao sofrimento pela perda dos seus, misturava-se a raiva diante da mesquinhez e da intolerância. Não o censurei por aquele sofrimento nem por aquela cólera justificada. Mais tarde, porém, você deixou a dúvida se insinuar em seu coração.

— Salvei gente que não significava nada para mim, e deixei morrer aqueles que eu amava!

— Você fazia o que jurou fazer. A morte não é nem justa, nem injusta. Ela é a única certeza. A única promessa da vida da qual não podemos duvidar, pois será mantida. E, além disso, você sofria de fato?

A voz de Jean se fizera cortante.

— Como pode duvidar disso? — insurgiu-se Michel.

— Tinha pena de si mesmo por não sentir o desespero que constatava nos outros, atingidos como você. Tinha vergonha da liberdade recuperada. Você acha que sua vida se limitaria a ser um médico em Agen? Tem certeza de que um dia não teria abandonado mulher e filhos para responder ao chamado do destino?

Michel encarou o avô, perplexo.

— Como pode saber dessas coisas?

— Como podia pensar em escondê-las de mim? — retorquiu afetuosamente Jean. — A sorte proíbe-lhe a mediocridade e seu manto de amargura. Agradeça-lhe e alegre-se.

O vento diminuía. Suas lufadas se tornavam mais raras, oferecendo à natureza uma pausa. Os ruídos da floresta se elevavam novamente, um após outro.

— Entreguei-me à alquimia faz alguns anos, quando você estava começando a fazer medicina em Montpellier — continuou Jean com voz pensativa antes de logo ironizar: — Era necessário que eu me mantivesse um pouco adiante de você.

Trocaram um olhar de cumplicidade no qual se exprimia em todas as nuances a força da relação deles, fundada na troca sem limite e sem restrição.

— Eu sentia falta de você — prosseguiu Jean, com pudor. — Além do mais, é sempre preciso manter a chama da descoberta, do contrário, a alma se enche de neve, e o espírito morre de frio. A alquimia, veja você, consiste apenas em fazer com os metais o que já praticamos com as plantas. Ou, se quiser, em recompor o leque do arco-íris a partir dos três fundamentais…

O grito de alerta de um rapinante noturno perturbado em sua vigília o interrompeu. Em resposta a esse alarme, a floresta fez-se imediatamente silenciosa. Eles ouviram então, ao longe, o tilintar metálico repetido em ecos, ricocheteando nas rochas da Montagnette. Cavaleiros que não temiam a noite e suas ciladas desciam na direção do rio.

Michel e Jean se levantaram e, tomando as rédeas das montarias, dirigiram-se para o juncal onde estava escondida a barcaça dos ciganos. O dia apontaria em uma hora. Quando chegaram à barcaça, encontraram alguns amigos, já ocupados em soltar a embarcação. Também alertados pelos ruídos insólitos, os de Vallabrègues não se enganaram. Homens armados avançando na noite significavam soldados ou sicários.

Os ciganos tinham acabado de puxar a barcaça para a margem. Os seis homens que a manobravam usavam longas varas enquanto Jean de Saint-Rémy se preparava para fazer o cavalo embarcar.

Os ecos de uma furiosa cavalgada ressoaram. Num crepitar de juncos esmagados pelos cascos, Ochoa e seus capangas apareceram no caminho de sirgagem. Michel virou a montaria e desfez-se do manto, atirando-o para Jean. Em seguida, postou-se de frente para os assaltantes e esperou, sereno, concentrando as forças. Surpresos ao vê-lo resistir, eles fizeram uma pausa. Embora a penumbra lhe impedisse de distinguir os olhos de Michel, Ochoa adivinhava-lhes o fulgor. O herético era possuído, sem dúvida alguma, mas era um homem, antes de tudo. Feiticeiro, decerto, mas não guerreiro. Seus poderes demoníacos ficariam sem efeito contra três lâminas experientes. Quanto à sua velha espada, representava apenas uma bugiganga, vergonhosa lembrança do laxismo do papado nos tempos em que preferia ganhar os judeus por meio de complacentes títulos de nobreza a submetê-los. E, de fato, aquele nem fingia desembainhá-la para combater como homem. Muito bem. Morreria como covarde. Sob tortura.

Ochoa se enganava. Embora de natureza pacífica, Michel sabia apreciar o combate como um jogo de estratégia, de posicionamento no espaço e de execução. Tratava-se antes de tudo de equilíbrio e de aplicação das energias mais que de força física. Equilibrou-se no fundo da sela, tirou do estojo o bastão de combate, presente de Zoltan, e avaliou a distância em que se encontrava dos agressores.

— Eu o quero vivo! — bradou Ochoa.

Os capangas desembainharam os formidáveis espadões e esporearam. Respiração lenta, todos os sentidos em alerta, Michel observou a carga. Como esperava, atiravam-se desparceirados, para não atrapalhar um ao outro. O gesto a realizar impôs-se. Seus dedos se fecharam em torno do bastão posicionado horizontalmente sobre as coxas.

Os espadachins precipitaram-se contra ele, com o braço já levantado para armar o golpe. Com uma súbita pressão dos joelhos, Michel fez a montaria saltar. Seu bastão ergueu-se num molinete fulgurante. O primeiro capanga recebeu o golpe em plena face e caiu para trás cuspindo os poucos dentes que lhe restavam. Não tinha ainda tocado a terra, e o molinete acertava o occipital do segundo, atirando-o sentado na lama. Então, esperou, com as mãos repousando sobre o arção da sela.

Aturdido, Ochoa permaneceu preso no lugar, sem saber mais o que fazer. Apesar de toda a coragem, sentiu sua resolução vacilar. O herético revelava-se dotado de poderes mais terríveis do que imaginara. O sucesso de sua missão exigia que se afastasse prudentemente. Sempre havia tempo de reencontrar a presa, agora que a tinha identificado. Mas o orgulho lhe impedia a retirada. Tremendo de raiva, Ochoa desembainhou a espada e esporeou, urrando.

— Pela fé!

Michel viu a carga assassina chegar. Se quisesse salvar a própria vida e a de Jean, teria de desembainhar também para aparar o assalto. Depois, seria o caso de apenas alguns lances, e o inquisidor cegado pelo ódio acabaria por se espetar sozinho na lâmina. Mas jurara salvar vidas, ou, pelo menos, protegê-las.

Inclinado na sela, a lâmina apontada, Ochoa via crescer a silhueta do herético execrado. Lábios arregaçados num ricto de forma selvagem, ele saboreava antecipadamente a deliciosa sensação do ferro rasgando o peito do ímpio. Só lhe faltava alongar um pouco mais o avanço da espada.

No último momento, Michel fez sua montaria balançar fortemente da esquerda para a direita, de modo espetacular. Distraído pelo movimento, o cavalo de Ochoa perdeu um passo enquanto seu cavaleiro, de repente, não sabia mais para onde dirigir a estocada. Levado pela carga, errou o alvo. Com violento puxão nos freios que rasgaram a boca da montaria, o inquisidor imobilizou-a nos quatro ferros e deu meia-volta. Ofegante, considerou o inimigo, cuja impassibilidade aumentava a afronta, antes de partir novamente para o assalto.

Com uma rápida olhada para a barcaça, Michel viu que Jean tinha acabado de embarcar, e que só esperavam por ele para iniciarem a travessia.

— Larga! — gritou para o barqueiro. O que o homem se apressou a fazer, não tendo nada perdido do combate.

Os dedos de Michel se fecharam sobre uma arma que levava escondida, presa ao cinto. Uma arma terrível, de uso estritamente defensivo, que todo jovem cigano recebia aos 14 anos. Tratava-se de um simples pé de galo endurecido no fogo, que se encaixava perfeitamente na palma da mão, enquanto o esporão afiado como uma navalha apontava entre os dedos. Os ciganos a chamavam de Garra. Ochoa caía novamente sobre ele, a espada em punho. Michel se abaixou, evitando a lâmina que se tornara hesitante e que passou silvando. Inclinando-se então na sela como um acrobata, cortou com um golpe da Garra a barrigueira da sela do monge que degringolou imediatamente montaria abaixo.

Michel aproveitou para galopar em direção à margem onde a barcaça, apanhada pela forte correnteza, já se afastara alguns metros. Erguendo o cavalo num salto prodigioso, conseguiu por um triz alcançar a embarcação. Saltando da sela, inebriado pela exaltação do combate, abraçou Jean, rindo, sem prestar mais atenção ao inimigo extenuado.

Patinhando na lama, Ochoa via afastarem-se a barcaça e aquele herege que o tinha enganado. Enlouquecido pela humilhação, precipitou-se para a margem. Esperando, contra toda evidência, poder ainda aproximar-se da presa, entrou na água, mas a força da correnteza quase o derrubou após três passos. Com água pela metade das coxas, desembainhou o punhal e o atirou com toda a força na direção dos fugitivos que o dia nascente aureolava de luz dourada.

De repente, Michel viu os olhos de Jean se arregalarem, enquanto seu corpo se retesava em seus braços. Um sinistro punhal com cabo de madeira negra ornado com uma cruz de prata estava enfiado até a guarda nas costas do velho.

Naquele sábado, 28 de outubro de 1533, perto dali, em Marselha, o príncipe Henrique de Orléans, segundo filho do rei Francisco I, casava-se com Catarina de Médici. O jovem casal, que a ordem da sucessão não destinava a reinar, tinha 14 anos de idade.

O Destino acabara de cuidar de tudo para que a vida de Michel de Nostredame se lançasse à tragédia.
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