Trecho do Livro: Sua Resposta Vale Um Bilhão (livro que deu origem ao filme Quem Quer Ser Um Milionário?) | Vikas Swarup

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Estou preso. Por ter ganhado num programa de perguntas e respostas da TV.

Vieram me pegar ontem à noite bem tarde, quando até os cães sem dono já tinham ido dormir. Arrombaram minha porta, me algemaram e me carregaram para um jipe, que aguardava com uma luz vermelha piscando.

Não houve confusão. Nenhum morador saiu de seu barraco. Apenas a velha coruja do tamarindeiro piou quando me levaram preso.

Em Dharavi, é tão comum ocorrer uma prisão quanto alguém ser vítima dos batedores de carteira no trem. Não há dia em que algum infeliz morador não seja levado para a delegacia. Uns são arrastados pelos policiais, gritando e esperneando. Outros vão embora em silêncio. Acham natural a vinda da polícia, talvez até a esperem. Para eles, a chegada do jipe com a luz vermelha piscando é de fato um alívio.

Olhando para trás, talvez tivesse sido melhor se eu tivesse esperneado e gritado. Protestado que era inocente, criado caso, mobilizado os vizinhos. Não que isso fosse mudar alguma coisa. Mesmo que eu conseguisse acordar alguns dos moradores, eles não teriam movido um dedo para me defender. Com os olhos pesados de sono, teriam assistido ao espetáculo fazendo algum comentário banal, como “lá vai mais um”, bocejando e voltando para a cama na mesma hora. O fato de eu ser levado embora da maior favela da Ásia não alteraria suas vidas em absoluto. De manhã, haveria a mesma fila na bica de água, a mesma luta cotidiana para não perder o trem das sete e meia. Nem sequer se dariam ao trabalho de tentar descobrir o motivo da minha prisão.

Pensando bem, quando os dois policiais invadiram meu barraco, nem eu mesmo tentei.

Quando toda a sua existência é “ilegal”, quando você vive a um passo da miséria num panorama de devastação urbana em que cada centímetro quadrado de espaço é disputado, em que é necessário entrar em fila até para ir ao banheiro, ser preso parece inevitável. Você é condicionado a acreditar que um dia chegará um mandado de prisão com seu nome nele, e que mais cedo ou mais tarde virá um jipe com uma luz vermelha piscando para pegá-lo.

Alguns dirão que a culpa foi minha. Que eu não tinha nada que me meter num programa de perguntas e respostas. Vão me apontar o dedo e lembrar o que dizem os velhos de Dharavi: nunca se deve cruzar a linha que separa os ricos dos pobres. Ora, onde já se viu um garçom sem um tostão participar de um teste de inteligência? O cérebro não é um dos órgãos que temos permissão de utilizar. Nós só devemos usar as mãos e as pernas.

Ah, se eles me vissem respondendo àquelas perguntas! Tendo testemunhado meu desempenho, passariam a me encarar com mais respeito. É uma pena o programa ainda não ter ido ao ar. Mas assim mesmo espalhou-se a notícia de que eu havia ganhado alguma coisa. Como numa loteria. Quando os outros garçons ficaram sabendo, resolveram dar uma grande festa para mim no restaurante. Cantamos, dançamos e bebemos até altas horas. Pela primeira vez, nosso jantar não foi a comida rançosa de Ramzi. Pedimos biryani de frango e seekh kebabs do hotel cinco estrelas da Marine Drive. O barman, um velho encarangado, me ofereceu a filha dele em casamento. Até o gerente mal-humorado sorriu para mim, tolerante, e finalmente me pagou os salários que estava me devendo. Naquela noite, não me chamou de vagabundo. Nem de cachorro danado.

Agora é Godbole que me xinga, e de coisas ainda piores. Estou sentado de pernas cruzadas dentro de uma cela de três metros por dois, com uma porta de metal enferrujada e uma janelinha quadrada com uma grade, pela qual entra um raio de sol empoeirado. A cadeia é quente e úmida. Moscas zumbem em torno dos restos de uma manga madura demais, esmigalhada no chão de pedra. Uma barata tristonha se arrasta até minha perna. Começo a sentir fome. Meu estômago ronca.

Fui avisado de que seria conduzido em breve à sala de interrogatórios, para ser questionado pela segunda vez desde que me prenderam. Após uma espera interminável, vem alguém para me levar. É o inspetor Godbole em pessoa.

Godbole não é muito velho, deve ter quarenta e tantos anos. Está ficando calvo, e o rosto redondo é dominado por um bigode espesso de pontas retorcidas. Ele anda com passos pesados, e o barrigão fornido cai por cima da calça cáqui. “Moscas desgraçadas”, ele reclama, e tenta agarrar uma que está voando em círculos diante de seu rosto. Não consegue.

O inspetor Godbole não está de bom humor hoje. As moscas o incomodam. O calor o incomoda. Riachos de suor escorrem de sua testa. Ele os enxuga com a manga da camisa. Acima de tudo, o que o incomoda é meu nome. “Ram Mohammad Thomas – que diabo de nome maluco, que mistura todas as religiões! Será que a sua mãe não sabia direito quem era o seu pai?”, diz ele, não pela primeira vez.

Ignoro o insulto. Já me habituei.

À porta da sala de interrogatório, dois policiais estão em posição de sentido, sinal de que há alguém importante lá dentro. Hoje de manhã os dois estavam mascando paan e trocando piadas cabeludas. Godbole literalmente me empurra para dentro da sala, onde há dois homens em pé diante de um gráfico afixado à parede, que representa o número total de seqüestros e assassinatos ocorridos durante o ano. Reconheço um deles. É o mesmo homem com cabelão de mulher – ou de roqueiro – que estava presente durante a gravação do programa de perguntas e respostas, dando instruções ao apresentador pelo ponto eletrônico. Não sei quem é o outro, que é branco e completamente careca. Usa um terno roxo e uma gravata de um laranja bem vivo. Só mesmo um branco usaria terno e gravata nesse calor sufocante. Ele me faz pensar no coronel Taylor.

O ventilador de teto está na velocidade máxima, e no entanto o ambiente é abafado, por não haver janela. O calor se desprende das paredes brancas e é capturado pelo teto baixo, de madeira. Uma viga comprida e fina divide a sala em duas partes iguais. Os únicos móveis são uma mesa enferrujada e três cadeiras em torno dela. Uma luminária de metal pende da viga de madeira, diretamente sobre a mesa.

Godbole me apresenta ao homem branco como um apresentador de circo faz com seu leão amestrado. “Este aqui é Ram Mohammad Thomas, senhor.”

O branco enxuga a testa com um lenço e olha para mim como se eu fosse uma nova espécie de macaco. “Então este é o nosso famoso vencedor! Sabe, ele parece mais velho do que eu imaginava.” Tento localizar o sotaque dele. O homem tem uma fala nasalada como a dos turistas ricos que já vi em bandos em Agra, gente que vem de lugares longínquos como Baltimore e Boston.

O americano acomoda-se numa cadeira. Tem olhos de um azul escuro, e o nariz é rosado. As veias esverdeadas da testa parecem ramos pequenos de uma árvore.

“Olá”, me diz. “Meu nome é Neil Johnson. Eu represento a NewAge Telemedia, a companhia responsável pelo programa de perguntas. Este aqui é Billy Nanda, o produtor.”

Permaneço em silêncio. Macaco não fala. Muito menos em inglês.

Ele se vira para Nanda. “Ele compreende o inglês, não é?”

“Você está maluco, Neil?”, Nanda retruca. “Como você acha que ele pode falar inglês? Ele é um bocó, um garçom de um restaurante miserável, pelo amor de Deus!”

O som de uma sirene que se aproxima perfura o ar. Um policial entra correndo e cochicha alguma coisa no ouvido de Godbole. O inspetor sai apressado e volta com um homem baixo e corpulento, de uniforme de patente superior da polícia. Godbole sorri para Johnson, exibindo os dentes amarelados. “Senhor Johnson, o chefe de polícia Sahib chegou.”

Johnson levanta-se. “Obrigado por vir, senhor. Creio que o senhor já conhece Billy.”

O chefe de polícia faz que sim com a cabeça. “Vim para cá assim que recebi o comunicado do ministro do Interior.”

“Ah, sim… Ele é um velho amigo do senhor Mikhailov.”

“Pois bem, em que posso ajudá-lo?”

“Sahib, preciso da sua ajuda no caso do SRVB.”

“SRVB?”

“Abreviação de Sua Resposta Vale um Bilhão.”

“E o que é isso?”

“É um programa de perguntas e respostas que acaba de ser lançado – em trinta e cinco países – pela nossa companhia. Talvez o senhor tenha visto os nossos anúncios espalhados por toda Mumbai.”

“Acho que não vi, não. Mas por que um bilhão?”

“Por que não? O senhor assistia a Quem Quer Ser Milionário?”

“Kaun Banega Crorepati? Esse programa foi uma obsessão nacional. Na minha família, assistir era obrigatório.”

“E por que o senhor assistia?”

“Bom… porque era muito interessante.”

“Teria sido tão interessante assim se o prêmio máximo fosse dez mil e não um milhão?”

“Bom… acho que não.”

“Pois é. Como o senhor vê, o que mais chama a atenção no mundo não é sexo, é dinheiro. E, quanto maior a quantia, maior o atrativo.”

“Entendi. Quem é o mestre-de-cerimônias do seu programa?”

“Quem apresenta é o Prem Kumar.”

“Prem Kumar? Aquele ator de filme B? Mas a fama dele não chega aos pés da fama do Amitabh Bachchan, que apresentava o Crorepati.”

“Não se preocupe, ele chega lá. Claro, em parte fomos obrigados a escolhê-lo porque ele tem vinte e nove por cento das ações da subsidiária indiana da NewAge Telemedia.”

“O.k. Já entendi. Agora, onde é que esse sujeito, sei lá como ele se chama, Ram Mohammad Thomas, se encaixa nessa história?”

“Ele participou do nosso episódio número quinze na semana passada.”

“E…?”

“E respondeu a todas as doze perguntas corretamente, ganhando assim um bilhão de rupias.”

“O quê? O senhor deve estar brincando!”

“Não, não estou brincando. Ficamos tão surpresos quanto o senhor. Esse rapaz ganhou o maior prêmio da história. O programa ainda não foi ao ar, e assim poucas pessoas estão sabendo.”

“O.k. Se o senhor diz que ele ganhou um bilhão, então ele ganhou um bilhão. Qual é o problema?”

Johnson fez uma pausa. “Será que eu e Billy podemos falar com o senhor em particular?”

O chefe de polícia faz sinal para que Godbole saia da sala. O inspetor me dirige um olhar feroz e sai. Eu permaneço na sala, mas todos ignoram a minha presença. Sou apenas um garçom. E os garçons não entendem inglês.

“Está bem. Agora me explique”, diz o chefe de polícia.

“O problema, Sahib, é que o senhor Mikhailov não tem condições de pagar um bilhão de rupias no momento”, diz Johnson.

“Então por que é que ele foi oferecer esse valor?”

“Foi… uma jogada comercial.”

“Olha, eu continuo sem entender. Mesmo sendo uma jogada comercial, o seu programa não vai fazer ainda mais sucesso agora que alguém já ganhou o primeiro prêmio? Eu me lembro que, sempre que alguém ganhava um milhão no Quem Quer Ser Milionário?, a audiência dobrava.”

“É uma questão de timing, Sahib, timing. Um show como o SRVB não pode ser comandado pelo acaso, por um lance de dados. Tem que seguir um roteiro. De acordo com nosso roteiro, ninguém deveria ganhar pelo menos durante os primeiros oito meses, quando então já teríamos recuperado a maior parte do nosso investimento graças aos comerciais. Mas agora esse tal de Thomas estragou todos os nossos planos.”

O chefe de polícia assente com a cabeça. “Está bem. O que é que o senhor quer que eu faça?”

“Quero que me ajude a provar que Thomas não jogou limpo. Que seria impossível ele acertar todas as respostas das doze perguntas sem um cúmplice. Imagine só. Ele nunca cursou a escola. Nunca nem mesmo leu um jornal. Não tem como ele ganhar o primeiro prêmio.”

“Bom… Eu não sei, não.” O chefe de polícia coça a cabeça. “Já aconteceu de um rapaz de origem muito humilde se revelar um gênio. O Einstein não foi um que nem terminou o colegial?”

“Olha aqui, Sahib, podemos provar agora mesmo que esse cara não é nenhum Einstein”, diz Johnson, fazendo um gesto dirigido a Nanda.

Nanda aproxima-se de mim passando os dedos pelo cabelão. Diz ele, em híndi: “Senhor Ram Mohammad Thomas, se o senhor é mesmo tão brilhante que conseguiu ganhar no nosso programa, gostaríamos que provasse sua inteligência participando de um outro questionário, agora. As perguntas são muito simples. Qualquer um que tenha inteligência mediana vai saber responder”.

Ele me conduz a uma cadeira. “Está pronto? Eis a primeira pergunta: Qual é a moeda da França? As opções são: a) o dólar, b) a libra, c) o euro, e d) o franco.”

Permaneço calado. De repente, a mão espalmada do chefe de polícia me acerta com força no rosto. “Você é surdo, seu cachorro? Responda, senão eu lhe quebro a cara”, ele ameaça.

Nanda começa a pular de um lado para outro como um louco – ou como um roqueiro. “Por favor, não dá para fazer isso de maneira civilizada?”, pergunta ele ao chefe de polícia. Então olha para mim. “E aí? Qual é a sua resposta?”

“Franco”, respondo, aborrecido.

“Errado. A resposta correta é euro. Vamos para a segunda pergunta. Quem foi o primeiro homem a pisar na Lua? Foi: a) Edwin Aldrin, b) Neil Armstrong, c) Iuri Gagárin, ou d) Jimmy Carter?”

“Não sei.”

“Foi Neil Armstrong. Terceira pergunta: As pirâmides ficam em: a) Nova York, b) Roma, c) Cairo, ou d) Paris?”

“Não sei.”

“Cairo. Quarta pergunta: Quem é o presidente dos Estados Unidos? a) Bill Clinton, b) Colin Powell, c) John Kerry, ou d) George Bush?”

“Não sei.”

“George Bush. Lamento dizer, senhor Thomas, que nenhuma das suas respostas está certa.”

Nanda vira-se para o chefe de polícia e volta a falar em inglês. “Está vendo? Eu disse que o cara é um idiota. Se ele respondeu àquelas perguntas na semana passada, foi porque ele armou algum esquema.”

“Que espécie de esquema?”, pergunta o chefe de polícia.

“Isso eu não sei. Fiz duas cópias do programa em DVD. Os nossos peritos passaram um pente fino na gravação, mas até agora não encontramos nada. Mais cedo ou mais tarde vamos achar alguma coisa.”

A fome sobe da minha barriga para a garganta, deixando-me tonto. Tenho um acesso de tosse que me faz me dobrar.

Johnson, o americano careca, olha para mim fixamente. Então dirige-se ao chefe de polícia: “O senhor se lembra do caso do major do Exército que ganhou um milhão de libras em Quem Quer Ser Milionário? Aconteceu na Inglaterra, uns anos atrás. A companhia se recusou a pagar. A polícia abriu uma investigação e conseguiu incriminar o major. Descobriram que ele tinha um cúmplice na platéia, um professor universitário, que indicava qual era a resposta correta através de tosses codificadas. Não tenho dúvida de que o que aconteceu foi alguma coisa desse tipo”.

“Então a gente devia procurar alguém tossindo na platéia?”

“Não. Ninguém estava tossindo. Ele deve ter usado outro método.”

“E se ele estava com um pager ou celular?”

“Não. Temos certeza de que ele não tinha nenhum aparelho eletrônico. E naquele estúdio nem pager nem celular iam funcionar.”

O chefe de polícia tem uma idéia. “Será que ele tem um chip de memória implantado no cérebro?”

Johnson suspira. “Acho que o senhor andou vendo muito filme de ficção científica. Olhe, seja o que for, o senhor precisa nos ajudar a descobrir. Não sabemos quem foi o cúmplice. Não sabemos qual foi o sistema usado. Mas tenho certeza absoluta de que esse garoto é um vigarista. O senhor precisa nos ajudar a provar.”

“Já pensaram na possibilidade de comprar o sujeito?”, sugere o chefe de polícia, animado. “Ele nem deve saber quantos zeros tem um bilhão. Imagino que ele ficaria muito satisfeito se vocês dessem a ele umas duas mil rupias.”

Tenho vontade de dar um soco na cara do chefe de polícia. É bem verdade que antes desse programa eu não sabia quanto valia um bilhão. Mas isso são águas passadas. Agora eu sei. E estou decidido a receber meu prêmio. Com todos os nove zeros.

A resposta de Johnson me tranqüiliza. “Isso a gente não pode fazer”, diz. “Corremos o risco de ser processados. A questão é a seguinte: ou bem ele ganhou de verdade ou bem é um vigarista. Assim, ou bem ele ganha um bilhão ou bem vai para cadeia. Não tem meio-termo possível. O senhor precisa nos ajudar a pôr esse sujeito na cadeia. Se o senhor Mikhailov tiver que pagar um bilhão agora, ele vai ter um infarto.”

O chefe de polícia olha Johnson bem nos olhos. “Compreendo perfeitamente”, responde, falando devagar. “Mas o que é que eu ganho com isso?”

Como se estivesse esperando por essa deixa, Johnson segura-o pelo braço e leva-o para um canto. Falam em voz baixa. Ouço apenas três palavras: “dez por cento”. O chefe de polícia fica visivelmente entusiasmado com o que ouve. “Está bem, está bem, senhor Johnson, pode considerar o problema resolvido. Agora deixe eu chamar o Godbole.”

O inspetor é chamado. “Godbole, o que é que você já conseguiu arrancar dele até agora?”, pergunta o chefe de polícia.

Godbole me dirige um olhar ameaçador. “Nada, Sahib. O filho-da-mãe só faz repetir a mesma coisa: que ele simplesmente ‘sabia’ as respostas. Diz que foi uma questão de sorte.”

“Sorte, é?”, retruca Johnson, sarcástico.

“Sim, senhor. Até agora não utilizei nenhum método de pressão, senão ele já estaria cantando que nem um canário. Se o senhor me der permissão, Sahib, eu consigo o nome de todos os cúmplices dele em três tempos.”

O chefe de polícia olha para Johnson e Nanda. “Vocês aprovam?”

Nanda sacode a cabeça vigorosamente, agitando o cabelão. “De jeito nenhum. Nada de tortura. Os jornais estão sabendo que ele foi preso. Se descobrem que ele foi maltratado, estamos liquidados. Já estou cheio de preocupações; só me faltava agora uma porcaria de uma ONG de direitos humanos cair em cima de mim.”

O chefe de polícia dá tapinhas em suas costas. “Billy, você ficou igualzinho aos americanos. Não se preocupe. O Godbole é um profissional. Não vai ficar nenhuma marca no corpo do garoto.”

A bile sobe no meu estômago como se fosse um balão. Tenho ânsia de vômito.

O chefe de polícia se prepara para ir embora. “Godbole, até amanhã de manhã quero que você descubra o nome do colaborador e todos os detalhes do golpe. Pode usar todo e qualquer meio que for necessário para extrair as informações. Mas tenha cuidado. Não esqueça que a sua promoção depende disso.”

“Obrigado, Sahib. Obrigado.” Godbole exibe um sorriso plástico. “Não se preocupe. Depois que esse garoto passar pelas minhas mãos, ele vai estar pronto para confessar até o assassinato do Mahatma Gandhi.”

Tento me lembrar do nome do assassino do Mahatma Gandhi, que teria dito “Ei, Ram!” logo antes de morrer. Lembro-me disso porque, quando me contaram a história, exclamei: “É o meu nome!”. E o padre Timothy, com todo o jeito, me explicou que era o nome do Senhor Ram, o deus hinduísta que havia sido expulso para a selva por catorze anos.

Enquanto isso, Godbole, tendo despachado o chefe de polícia e os dois homens, já voltou. Ele entra na sala de interrogatório e fecha a porta com força. Então estala os dedos diante de meu rosto. “O.k., seu moleque. Tire a roupa!”

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