Trecho do Livro: Lições de um Cachorro Livre-Pensante | Ted Kerasote

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Ele surgiu no meio da noite, aparecendo de repente diante dos faróis, um cachorro grande de pêlo dourado, ofegante, com as patas dianteiras batendo no chão numa pequena dança ansiosa. Por trás dele, altos choupos na floração de abril. Além do arvoredo, o rio San Juan corria rápido, escuro e cheio pelo degelo da primavera.

Era quase meia-noite, e estávamos procurando um lugar para colocar nossos sacos de dormir antes de começar a excursão fluvial pela manhã. Junto de mim na cabine da picape sentava-se Benj Sinclair, tendo a seus pés um amontoado de embalagens de comida de estrada impregnado com os odores de cachorro-quente, cebola frita e burritos. Benj, com rosto redondo e barriga saliente, tinha 37 anos, passara sua juventude no Corpo da Paz, na África Ocidental, e chegara a ter um estômago capaz de digerir qualquer coisa. Atrás dele, no banco traseiro, estava Kim Reynolds, instrutora de atividades ao ar livre do Colorado, conhecida por sua competência num caiaque e por sua longa trança de cabelos castanhos, que exalavam o odor suave de uma mulher saudável de 32 anos, que tinha suado no deserto e não usara desodorante. Assim como Benj e eu, ela tinha jantado uma pizza em Moab, Utah, 160 quilômetros estrada acima, onde a tínhamos encontrado. E assim como nós, ela exalava odores de alho, cebola, molho de tomate, manjericão, orégano e anchovas.

No carro ao lado estavam Pam Weiss e Bennett Austin. Eles tinham vindo de Jackson Hole, em Wyoming, até Moab no próprio carro, nos ajudaram a equipar a balsa e comprar suprimentos, comeram pizza conosco e, como nós, não usavam perfume. Pam tinha 36 anos e era esquiadora olímpica, e Bennett, com 25 anos, estava tentando acompanhar o ritmo dela. Eles tinham acabado de se apaixonar, e exalavam uma mistura de endorfinas e feromônios.

As pessoas quase nunca descrevem as outras nesses termos — observando seus cheiros em primeiro lugar —, afinal, somos basicamente criaturas visuais e dependemos dos olhos para obter informações. Diferente de nós, para o grande cachorro dourado, fazendo sua pequena dança nos faróis, a única impressão realmente importante eram nossas assinaturas olfativas, que flutuavam até ele enquanto abríamos as portas.

Acho que foi por essa razão — o cheiro — que ele veio direto para a minha porta, inclinou a cabeça para a frente com cautela e cheirou minha coxa. Que mistura de aromas subiu por seu longo focinho naquele primeiro momento de nosso encontro? Que memórias atávicas, que possibilidades foram desencadeadas em sua visão canina de mundo à medida que ele desemaranhava os mistérios do meu suor?

O grande cachorro — que agora parecia avermelhado na luz interior do carro e estava sem coleira — inspirou novamente e me estudou com consideração entusiasmada. Poderia ter sido o que eu comi e o resíduo sutil que deixara nos meus poros o que o levou a ficar tão interessado em mim? Era a única coisa que eu podia ver (observe meu uso humano de “ver”, mesmo descrevendo um fenômeno olfativo) que me diferenciava de meus amigos. Assim como eles, eu esquiava, andava de bicicleta e escalava, e era solteiro. Eu tinha acabado de completar 41 anos, e era um homem enxuto com cabelos castanhos e olhos também castanhos e brilhantes. Mas, quando comia carne, era de animais selvagens, não de animais domésticos — na maior parte alce e antílope, junto com o eventual tetraz, pato, ganso ou truta.

Era a essência metabolizada disso tudo que o intrigava — algum bafo que nossos ancestrais paleolíticos compartilharam? O olfato é nosso sentido mais antigo. Foi o tecido olfativo no topo de nossos feixes nervosos primitivos que se transformou em nossos hemisférios cerebrais, onde se aloja o pensamento. Talvez o cachorro — um ser que vive através de seu olfato — soubesse muito mais sobre nossa ligação do que eu podia imaginar.

Seus profundos olhos castanhos fizeram de mim uma avaliação luminosa e disseram: “Você precisa de um cachorro, e eu sou ele.”

Perturbado por sua análise excepcional de mim — eu vinha procurando um cachorro há mais de um ano —, passei a mão de maneira cordial e respondi: “Bom menino.”

Seu rabo abanou com força e ele não se mexeu, com os olhos ainda dizendo: “Você precisa de um cachorro.”

Enquanto saíamos dos carros e começávamos a tirar nossas coisas, não o vi mais direito. Vislumbrei sua cabeça, depois o rabo, em seguida um flanco castanho-avermelhado, se movendo entre pernas e sandálias.

Joguei meu colchonete e o saco na areia sob um choupo, deslizei dentro de seu calor macio, virei de lado e vi o cachorro cavando um ninho do meu lado. Diligentemente, ele cavou a areia com as patas dianteiras, jogando-a entre as patas traseiras antes de virar, virar, virar e se acomodar para me olhar. À luz das estrelas, pude ver uma sobrancelha subir e a outra descer.

É claro que “sobrancelha” não é o termo correto, visto que cachorros transpiram apenas através das patas e não precisam de sobrancelhas para manter o suor longe dos olhos, como nós. Mesmo assim, algumas raças de cachorros têm pêlos mais escuros sobre os olhos, o que poderia ser chamado de “marcadores de sobrancelhas”, e ele os tinha.

Os Hidatsa, uma tribo nativa norte-americana das Grandes Planícies, acreditam que esses tipos de cachorros, que eles chamam de “Quatro Olhos”, são particularmente dóceis e têm poderes mágicos. Stanley Coren, o sagaz psicólogo canino da Universidade da Colúmbia Britânica, também observou que esses cachorros com “quatro olhos” obtiveram sua reputação de poderes mágicos “porque suas expressões eram mais fáceis de ler do que as de outros cachorros. As manchas de cores contrastantes fazem com que os movimentos dos músculos sobre o olho fiquem muito mais visíveis”.

À luz das estrelas, o cachorro deitado ao meu lado levantou uma sobrancelha enquanto abaixava a outra, indicando curiosidade misturada à preocupação com seu destino.

— Boa noite — eu disse, fazendo-lhe um afago. Depois fechei os olhos.

Quando os abri de manhã, ele ainda estava encolhido em seu ninho, olhando diretamente para mim.

— Oi — eu disse.

Uma sobrancelha subiu e a outra desceu.

“Eu sou seu”, os olhos diziam.

Dei um suspiro, desprevenido para o jeito como seu rosto simpático, ligeiramente semelhante ao de um cão de caça — que ia da felicidade à preocupação —, deixou um corte no meu coração. Eu estivera observando milhares de samoiedos, bolas de pêlo branco com olhos pretos brilhantes e travessos. Era a raça perfeita para uma pessoa introspectiva como eu, pensava. Mas eu não conseguia levar um para casa. Também havia pensado seriamente nos labradores, seduzido por suas personalidades exuberantes e sabendo que um cachorro tão robusto e enérgico compartilharia com facilidade minha vida ao ar livre, assim como o perdigueiro que eu acreditava querer. Mas nenhum filhote de labrador me dera aquele repuxo no coração que significava “Nós somos uma equipe”.

A sobrancelha direita do cachorro deitado ao meu lado baixou enquanto ele me olhava. A esquerda subiu, sugerindo: “Sua demora teve um bom motivo.”

— Talvez — disse eu, sentindo ceder meu desejo por um cachorro de pedigree. — Talvez — falei novamente para o cachorro cujos olhos cruzavam com os meus, voltavam e ficavam. Ele tinha o jeito de um labrador amarelo-arruivado, pensei, pelo menos de certos ângulos.

Ao ouvir minha voz ele enfiou a cabeça sob meu braço e aproximou o focinho do meu nariz. Surpreendentemente, ele não tentou me lamber naquele gesto efusivo que muitos cachorros usam com alguém que percebem dominá-los, seja uma pessoa ou outro cachorro — uma herança, alguns acreditam, de lobos jovens pedindo comida aos pais e outros lobos adultos. Os adultos, por não terem mãos para carregar provisões, trazem carne no estômago. Os filhotes lambem suas bocas, e os adultos regurgitam a carne parcialmente digerida. Filhotes que acabam se tornando líderes abandonam o lamber subordinado. Lobos de posição inferior continuam a demonstrar o comportamento para lobos de posição superior, assim como muitos cachorros domésticos fazem com seres humanos. Essa autoconfiança canina me fez pensar. Será que ele não estava me lambendo porque nos considerava iguais? Ou será que minha linguagem corporal — nós dois no mesmo nível — lhe permitiu se sentir de certa forma como um igual? Ele cheirou minha respiração de modo circunspecto e eu, por minha vez, cheirei a dele. Era doce.

O que quer que ele tenha farejado na minha lhe agradou. “Eu sou seu”, os olhos disseram novamente.

Confuso com a certeza dele a meu respeito, me levantei e me afastei. Não queria abandonar meus planos de encontrar um filhote que só tivesse de seis a oito semanas de nascido e que eu pudesse formar do meu jeito. O cachorro percebeu minha firmeza e não me seguiu. Em vez disso, foi ao encontro das outras pessoas, cumprimentando-as com o rabo balançando e grandes sorrisos de sua boca cheia de dentes. “Bom dia, bom dia, dormiram bem?”, ele parecia dizer.

Mas enquanto eu organizava meu equipamento, não conseguia manter o olhar longe dele. Apesar das costelas à mostra, ele parecia saudável e forte, e tinha a aparência de quem vinha vivendo ao ar livre há bastante tempo, com o pêlo cheio de pedaços de folhas e galhos. Ele devia pesar uns 25 quilos, ainda não totalmente crescido, com seu couro cor de raposa caindo em dobras, esperando pelo cachorro adulto que viria a ser. Tinha uma estria de pêlo mais escuro ao longo da espinha, plumas douradas curtas na parte traseira das pernas e um babadouro de pêlo no peito semelhante a um smoking — apenas um contorno — cheio de manchas brancas. Suas orelhas eram macias, parecidas com flanela, e caíam ligeiramente abaixo da mandíbula. O focinho era preto brilhante, ele tinha lábios igualmente brilhantes e os dentes cintilavam. O rabo era grande e vigoroso.

Toda vez que eu o olhava, ele parecia manifestar sua ancestralidade de quatro olhos, mudando de forma diante de mim: num momento o labrador que eu queria; depois um leão da Rodésia, brilhando sob o sol distante de Kalahari; um instante depois se tornava um coiote de focinho comprido, nascido do deserto de pedras vermelhas e criado no meio desses desfiladeiros e cactos. Quando olhava diretamente para mim — uma sobrancelha erguida, a outra para baixo, sua face se enrugava de preocupação — ele realmente parecia ter algum traço de cão de caça. Obviamente, já pertencera a alguém, pois não tinha testículos e a cicatriz da castração fechara completamente, deixando o pêlo crescer de volta.

Enquanto eu preparava o café-da-manhã numa das mesinhas de piquenique, ele voltou a ficar junto de mim, sentado pacientemente a poucos metros de distância e se comportando impecavelmente, à medida que olhava a salsicha de alce ir das minhas mãos para a frigideira. Ele não emitiu um único som, embora um ligeiro tremor tenha passado por seu corpo.

Quando as fatias ficaram prontas, perguntei:

— Quer um pouco?

Um tremor o fez estremecer novamente. Seus olhos brilharam; mas ele não se mexeu. Eu parti um pedaço e ofereci a ele. Seu focinho fez um meneio de prazer; ele o apanhou cuidadosamente da ponta dos meus dedos e engoliu. O rabo varria a areia, para a frente e para trás, em sinal de apreciação.

— Este cachorro — disse a guarda do Departamento de Gerência de Terras Públicas, que enquanto comíamos chegara para verificar nossa permissão para navegar no rio — tem estado por aqui há alguns dias. Acho que foi abandonado, o que é estranho, porque ele é bonito e muito amigável.

Todos nós concordamos.

— De onde ele veio? — perguntei.

— Ele simplesmente apareceu — ela respondeu.

O cachorro observou essa conversa com atenção, olhando do rosto da guarda para o meu.

Apanhei um pau, querendo ver como ele ia buscar. No momento em que movi meu braço para trás, ele se encolheu de medo, recuou alguns passos e me olhou desconfiado.

— Às vezes ele tem medo — disse a guarda. — Acho que alguém batia nele.

Joguei o pau para longe dele, na direção do rio. Ele aprovou calmamente, depois olhou para mim, com a mesma calma. “Eu não vou buscar”, seu olhar dizia. “Isso é para cachorros.”

— Ele não vai buscar — a guarda falou.

— Eu percebi.

Ela verificou nossa bandeja para fogo e o vaso sanitário portátil — ambos exigidos pelo Departamento para balseiros que navegavam no rio San Juan — enquanto o cachorro ficava por perto, esperançoso mas procurando parecer discreto.

— Eu ficaria com este cachorro se pudesse — a guarda disse, observando que eu olhava para ele. — Mas nós não podemos ter cachorros.

— Talvez nós devêssemos levá-lo na descida do rio — eu me ouvi dizendo.

— Eu faria isso — ela falou.

Quando eu levantei a questão com os outros, eles concordaram que podíamos ter um mascote, um cachorro de rio, para nossa viagem. Levar um cachorro numa excursão ao ar livre não é uma idéia nova. Na verdade, é uma tradição norte-americana. Alexander Mackenzie tinha um vira-lata adotivo que o acompanhou em sua famosa primeira jornada através do continente até o Pacífico em 1793, pelo sul do Canadá. O cachorro não recebeu nome no diário de Mackenzie, mas foi mencionado várias vezes por sobreviver a nados em corredeiras e por matar novilhos de bisão. Meriwether Lewis também teve um cachorro em sua jornada com William Clark, subindo o rio Missouri e descendo o rio Colúmbia de 1803 a 1806. O aclamado Seaman, da raça terra-nova, protegeu o acampamento de ursos-cinzentos e caçou vários esquilos para a caçarola, além de abater renas, antilocapras e gansos. Apesar de membros da expedição terem comido dezenas de outros cachorros (comprados de índios) quando a caça rareou, nunca se pensou em colocar o Seaman na grelha. Ele, que foi um membro honorário da expedição até o fim, pode ter mantido a sanidade de Lewis, com tendência a depressão, naquela difícil jornada. Três anos após retornar à civilização, e sem mencionar o que aconteceu com seu cachorro, Lewis se suicidou. John James Audubon também tinha um terra-nova, um incansável excursionista chamado Plato, que o acompanhava pelo campo e apanhava muitos pássaros que o artista abatia para suas pinturas. Audubon dizia que ele era “um animal bem treinado e extremamente sagaz”.

Com precedentes tão respeitáveis, teria sido uma vergonha não levar este cachorro tão bonito e bem-comportado conosco. Que mal poderia acontecer? Ninguém levantou a questão do que faríamos com ele quando saíssemos do rio em Clay Hills, acima de Lake Powell, dali a seis dias. Veríamos depois, na hora. Entretanto, não estávamos no século XIX. Não íamos viver da terra; precisávamos comprar ração. Benj e eu fomos até a cidade vizinha de Bluff, em Utah, e voltamos com um saco de Purina Dog Chow e uma caixa de biscoitos para cachorros.

O único que não sabia que o cachorro ia conosco era, é claro, o próprio. Após carregar a balsa com bolsas impermeáveis e isopores de comida, bati no lado e disse a ele:

— Pode entrar. Agora você é um cachorro de rio.

Eu fora designado para remar a balsa no primeiro dia, enquanto os outros andassem de caiaque.

Cheio de dúvidas, ele olhou para a balsa. “Nem pensar”, seus olhos diziam, “isto parece perigoso”.

Tentei acariciá-lo, mas ele se afastou, emitindo um “rá-rá-rá”, meio de brincadeira, meio com medo, enquanto subia e descia as patas dianteiras naquela dança enérgica que fizera na noite anterior, quando aparecera diante dos faróis.

— Você vai gostar — eu disse. — Desfiladeiros ensombrados, lugares bacanas para acampar, gravuras rupestres, nadar todo dia, biscoitos de cachorro, Purina Dog Chow e — falei em uma voz bem persuasiva — salsicha de alce.

Abri meu saco de comida à prova d’água, cortei um pedaço da salsicha de alce de verão e lhe ofereci. Ele chegou perto, baixou a cabeça e pegou.

— Vamos lá, pula pra dentro!

Ele estremeceu, sabendo muito bem que estava sendo enganado, mas apesar disso deixando que eu lhe fizesse carinho, dividido entre o desejo de ir junto e o medo da balsa. Cuidadosamente, coloquei os braços em volta dele, por baixo de seu peito, e o levantei. Ganindo em protesto, ele lutou. Eu consegui colocá-lo na balsa, enquanto Benj tentava nos empurrar.

O cachorro pulou do barco, mas em vez de fugir dançou para cima e para baixo na margem, arfando freneticamente “rá-rá-rá, rá-rá-rá”, que eu interpretei como “eu quero ir, mas não sei para onde vamos, não gosto da balsa e estou com medo”.

Falei com ele num tom baixo e suave e consegui acalmá-lo o suficiente para poder acariciá-lo de novo. Descansando a cabeça no meu joelho, ele deu um grande suspiro, como alguém que está emocionalmente exausto. Por um momento, pude sentir suas muitas esperanças frustradas e seu medo das pessoas e seus equipamentos — não sem razão, considerando como ele se assustara quando levantei a vara para que a pegasse.

Os outros estavam em seus caiaques, prontos para partir. Cuidadosamente, coloquei meus braços ao redor dele de novo, mas quando o levantei ele lutou com força, ganindo desesperadamente. Coloquei-o no barco, e Benj nos empurrou enquanto eu segurava o cachorro, até a correnteza nos levar. Então eu o soltei e comecei a remar. Estávamos a poucos metros da margem. Com um salto e algumas pernadas ele conseguiria voltar com facilidade para a terra. Ficar ou ir embora — a escolha era dele. O cachorro pulou para a amurada da balsa, colocou as patas sobre ela e olhou rio acima sem mostrar medo da água em movimento. Ao contrário, ele olhava para a margem que se afastava como se visse seu continente natal sumir para baixo da linha do horizonte.

Sua ambivalência enchia minha mente de perguntas. Ele fora abandonado ou se perdera? Em qualquer um dos casos, ele estava esperando fielmente seu dono voltar? Sua amizade com relação a mim seria sua maneira de pedir ajuda para encontrar essa pessoa? Eu teria me enganado ao interpretar seu olhar que parecia dizer “Você é a pessoa que eu estava esperando”? Seu olhar saudoso para a margem era simplesmente a ligação a um lugar conhecido — um cenário conhecido onde ele poderia ter sido maltratado, mas mesmo assim um lar? Quantas almas maltratadas — caninas ou humanas — já permaneceram em lugares onde não eram amadas porque ficar era muito menos aterrorizador do que ir embora?

— Calma, calma — murmurei quando ele começou a tremer.

Acariciei sua cabeça e seus ombros. Virando, ele me olhou com uma expressão que nunca esquecerei. Era uma mistura de perda, medo do desconhecido e esperança.

É claro que muitos dirão que eu estava sendo antropomórfico. Outros poderiam argumentar que eu estava projetando minhas emoções. Mas o que eu estava fazendo — lendo sua linguagem corporal — era aquilo de que os psicólogos precisam para analisar seus clientes. Todos nós usamos as mesmas técnicas quando tentamos entender os sentimentos dos que estão à nossa volta — amigos, familiares e colegas. Não haveria relações humanas, ou elas ficariam extremamente empobrecidas, sem nossa tentativa de usar nossas próprias emoções como modelos — como pontos de partida — para entender os sentimentos de outros.

Porém algo mais estava acontecendo entre o cachorro e eu. Uma quantidade crescente de pesquisas com diversas espécies — papagaios, chimpanzés, marmotas, golfinhos, lobos e cachorros domésticos — já demonstrou que elas têm a capacidade física e cognitiva para transmitir uma vasta série de informações não só entre si, mas também a outras espécies, por vezes até usando construções gramaticais semelhantes às empregadas nas linguagens humanas. Indivíduos de algumas dessas espécies também conseguem se identificar com assinaturas vocais — em termos humanos, um nome.

Esses estudos corroboraram o que eu sinto sobre cachorros há muito tempo — que eles são falantes de uma língua estranha e que, se prestarmos atenção a suas vocalizações, expressões oculares e faciais e posturas em mudança constante, poderemos traduzir o que eles estão dizendo. Por vezes fazemos a interpretação imediata (“Estou com fome”), por vezes fazemos uma suposição razoável (“Estou triste”), e ocasionalmente precisamos usar uma figura de linguagem para superar a lacuna entre a cultura deles e a nossa (“Amo tanto você que meu coração poderia explodir”).

Donos de cachorros que têm “conversas” com seus animais sabem exatamente o que quero dizer. Aqueles que não têm — assim como aqueles que consideram absurda a idéia de conversar com um cachorro — talvez queiram considerar que o ser humano compartilhou uma parceria mais longa e mais íntima com cachorros do que com qualquer outro animal doméstico, começando antes da existência da civilização. Nesses tempos remotos — antes que a fala e a escrita atingissem a influência atual — cachorros tiveram uma oportunidade maior de se fazerem entender por humanos que ainda se sentiam confortáveis se comunicando além das fronteiras da palavra falada e escrita.

Charles Darwin, um observador tão interessado em cachorros domésticos quanto em pintassilgos das ilhas Galápagos, comentou sobre a igualdade relativa que no passado existiu entre cachorros e homens, e que continua existindo, se você a procura: “A diferença entre a mente de um homem e a dos animais mais desenvolvidos, embora grande, certamente é de grau e não de gênero.” Darwin chegou a dizer que “não há diferença fundamental entre o homem e os animais mais desenvolvidos em termos de faculdades mentais”, acrescentando que os outros animais vivenciam felicidade, surpresa, vergonha, orgulho, curiosidade, ciúme, suspeita, gratidão e magnanimidade. “Eles praticam trapaça e são vingativos”, afirmou ele, e têm “qualidades morais”, cujos elementos mais importantes são “amor e a clara emoção de simpatia”. Essas foram noções surpreendentes quando ele as revelou em 1871, e continuam sendo inesperadas atualmente, até para muitos que acreditam que animais conseguem pensar.

O cachorro afastou os olhos dos meus, olhou para a margem e soltou um suspiro resignado — eu viria a aprender que ele suspirava muito. Ao descer na balsa, ele fez uma breve inspeção em nosso equipamento e finalmente fixou o olhar no isopor colocado na proa, cercada de bolsas impermeáveis. Andou até ele, pulou sobre ele e deitou com as costas para mim. Deixou outro suspiro escapar. Todavia, em poucos minutos eu o vi olhando a ribanceira e os choupos com crescente interesse, sua cabeça virando para um lado e para outro enquanto ele observava que o campo se movimentava e ele aparentemente não.

— Bem legal, não é?

Ele virou as orelhas para trás, reconhecendo minha voz sem virar a cabeça.

Quando entramos no primeiro desfiladeiro e os paredões esconderam o céu, ele olhou rio acima e estremeceu — a terra tinha desaparecido. Ele se virou para ficar sentado e olhou em volta de maneira apreensiva. De repente, ele virou o focinho para o céu e soltou um uivo choroso, começando num registro grave e passando para um alto crescendo melancólico. Dos paredões do desfiladeiro veio o eco: “Aaauuuuu, aaauuuuu, aaauuuu.”

Aturdido, ele ergueu a cabeça para o cachorro invisível que respondera.

Onde ele se escondia? Olhou para cima e para baixo do rio e para os paredões ensombrados. Parecia nunca ter ouvido um eco antes. Logo depois, ele uivou de novo, e mais uma vez ficou surpreso ao ouvir sua voz ricochetear nos paredões. Ele olhou em volta desconfiado antes de soltar outro uivo — desta vez como um teste e não para reclamar de sua situação. Quando o eco voltou, uma expressão de começo de entendimento passou por seu rosto. Era incrível ver a compreensão iluminar seus olhos. Seus lábios se arquearam para cima num sorriso, e ele uivou de novo, um uivo longo e profundo, mas sem nenhuma tristeza. Imediatamente, ele levantou a cabeça para ouvir seu eco. Quando os paredões do desfiladeiro enviaram sua voz de volta, ele começou a balançar o rabo de um lado para outro com muito entusiasmo. Ele se virou e me deu um olhar de prazer surpreso — a mesma expressão que as pessoas usam quando se ouvem pela primeira vez.

Eu me aproximei e pus a mão em seu peito.

— Você é mesmo o cantor — disse a ele.

Jogando a cabeça para trás, ele riu mostrando os dentes.

A partir daquele momento, ele não olhou mais para trás. Sentou no isopor como uma esfinge, virando a cabeça para olhar as escarpas e os desfiladeiros laterais passarem. Fez caminhadas conosco subindo até várias habitações dos povos indígenas pré-históricos anasazi nos penhascos escarpados, e ficou quieto, prestando atenção enquanto examinávamos inscrições nas rochas. No caminho de volta ao rio, ele vagueava para longe, desaparecendo por longos minutos, e reaparecia conforme nos aproximávamos dos barcos, correndo em nossa direção através dos cactos sem olhar para o caminho tortuoso que estava percorrendo. Parecia estar bem confortável no deserto.

No acampamento naquela noite, ele supervisionou o traslado do equipamento da balsa para um lugar mais alto e ficou olhando quando começamos a desempacotar nossas bolsas impermeáveis. Depois, convencido de que não íamos partir, ele desapareceu. Eu o vislumbrei explorando um grande perímetro ao redor de nosso acampamento, mexendo com a pata em algum objeto de interesse, cheirando a vegetação e levantando a perna para marcá-la. Quando comecei a colocar seu jantar numa das panelas, ele logo apareceu, tendo ouvido o tinir da ração no metal. Ele engoliu o jantar com voracidade, olhou para mim e balançou o rabo. Levantando a cabeça, ele ergueu uma sobrancelha e claramente acrescentou: “A entrada estava ótima. Agora onde está o resto?”

Coloquei mais um pouco, e depois de devorar tudo ele me lançou o mesmo olhar: “É só isso?” O mesmo aconteceu depois do prato seguinte.

— Chega — eu disse a ele, cruzando as mãos e separando-as da maneira como um juiz de beisebol faz o sinal para “chegou seguro”.

Ele ficou prostrado.

— Ainda temos mais cinco dias — expliquei. — Você não pode comer tudo hoje. — Enquanto guardava a comida, eu disse: — Vamos lá, me ajude com a latrina.

Ele me seguiu quando eu levei para cima uma grande caixa de munição — vazia — e a coloquei num banco de pedra com vista panorâmica do rio. Depois de forrá-la com um saco plástico forte, fiz o uso inaugural enquanto o cachorro permaneceu sentado a uns dois metros de distância, balançando o rabo de satisfação à medida que os aromas sopravam em sua direção. O saco de cada dia tinha de ser selado e levado rio abaixo para ser jogado fora corretamente no final da viagem, e nós tínhamos trazido uma lata de desinfetante com alvejante para borrifar o conteúdo de modo a reduzir a produção de odores e gás metano. Foi o que fiz, deixando a lata e o rolo de papel higiênico ao lado da caixa. Quando voltei para o acampamento, o grande cachorro dourado me seguiu, com o focinho para cima, narinas dilatadas.

Na hora do jantar sentamos em círculo ao redor dos fogões e das panelas, e o cachorro deitou entre Benj e eu, olhando com atenção para cada um de nós quando falávamos. Estávamos conversando sobre como chamá-lo, além de “psiu”.

Bennett propôs “Merlin”, visto que o cachorro parecia ter algo de mágico. Benj, que estava abrindo uma garrafa de vinho, queria algo relacionado com nossa excursão, como “Merlot”. Ele serviu uma taça para cada um de nós e ofereceu um pouco para o cachorro cheirar. Ele virou a cabeça para trás assustado e olhou para a taça com desdém.

— Não é um bebedor — Benj comentou.

— Que tal “Hintza”? — sugeri. — Ele era o leão da Rodésia do livro A Story Like the Wind (Uma história como o vento), de Laurens van der Post. Ele parece com Hintza.

Houve várias tentativas para chamar o cachorro de Hintza, e todas provocaram uma expressão de dor em seu rosto, como se a segunda sílaba vibratória, “tza”, pudesse provocar-lhe algum tipo de desconforto auditivo.

— Nada de heróis literários — disse eu.

Alguém sugeriu o nome do rio, “San Juan”. Isso provocou negações generalizadas.

O céu escureceu revelando as estrelas, o rio sussurrava ao longo da margem abaixo de nós. Entramos em nossos sacos de dormir. Fiquei olhando o cachorro ainda sem nome andar até o rio, beber água e depois desaparecer. Não sei quanto tempo passou até eu sentir seu dorso de encontro ao meu. Ele estava quente e firme, e soltou um suspiro longo e satisfeito. De manhã não se encontrava mais lá, mas apareceu logo depois que eu acordei. Saltitando na minha direção, ele rodopiou com animação, mexendo as patas dianteiras e arfando alegremente.

Eu acariciei o pêlo de seu pescoço, e ele fechou os olhos de prazer, ficando relaxado e dócil sob minhas mãos.

Tomamos o café-da-manhã e levantamos acampamento. Benj, que fora o último a usar a latrina, levou-a até a praia. O cachorro o seguia.

— Já sei que nome dar a ele — Benj gritou, fazendo uma careta de nojo. — Monsieur le M_erde. — Ele comeu a m_rda que estava na caixa.

— Blergh — disse Kim.

— Não! — exclamei sem acreditar, olhando para o cachorro para ver se ele estava com a boca espumando ou mostrando algum outro sinal de ter sido envenenado pelo desinfetante. Ele parecia ótimo, balançando o rabo alegremente.

— Tem certeza, Benj? — perguntei. — Você realmente o viu comendo f_zes?

— Não, mas está vazia, e quem mais teria feito isso? Eu o vi voltando da latrina ao me aproximar.

— Ele podia estar em outro lugar. — Ajoelhei-me na areia e disse “venha cá” para o cachorro.

Ele veio direto até mim, e eu me abaixei bem e cheirei sua boca.

— Credo! — explodi, caindo de costas à medida que o fedor me desarmava. — Você é um cachorro desprezível.

Ele abanou o rabo, contente.

— Você deve estar com muita fome — acrescentei.

— O problema é — disse Pam — quem vai remar com ele?

Nós resolvemos tirar a sorte nos palitinhos, e Benj perdeu.

— Pelo menos — disse ele, olhando para o palito curto — alguém nesta excursão tem hábitos alimentares piores do que os meus.

Nós remamos rio abaixo, sentindo a brisa fresca da manhã, o sol brilhando nas pequenas ondas. Quando o desfiladeiro se alargou, abrindo-se numa margem com vegetação, o cachorro sentou-se com elegância no isopor. Algumas vacas pastavam na margem esquerda, levantando a cabeça para nos ver passar. Eram gado dos Navajo, pois toda a margem esquerda do rio San Juan está na divisa norte da nação Navajo, que cobre grande parte dos estados de Utah, Arizona e Novo México.

O cachorro deu-lhes uma olhada penetrante e entusiasmada, e pulou para longe do isopor. Voando com as pernas dianteiras e traseiras estendidas, ele bateu na água num cogumelo de espuma. Emergiu e começou a nadar rapidamente para a margem. Escalando a margem rochosa, ele se sacudiu uma vez e, enquanto as vacas olhavam sem acreditar, ele correu na direção delas. Elas fizeram a volta e correram rio abaixo.

Com o focinho e o rabo estendidos, ele as seguiu em caçada, seu pêlo molhado avermelhado e dourado reluzindo na luz do sol. Através de salgueiros e cactos, ele correu a toda a velocidade, diminuindo a distância rapidamente e separando o bezerro menor com um movimento de atacar de flanco típico de um especialista. Aproximando-se do traseiro do bezerro, ele o forçou para longe da manada e na direção dos penhascos. Estava claro que ele pretendia acuá-lo nas rochas e matá-lo.

Atônitos, ficamos olhando em silêncio. Fora isso, o que mais podíamos fazer? Gritar “Pára, cachorro!”?

Mas algo com relação a seu comportamento me dizia que ele não tinha se perdido completamente naquele estado de excitação no qual cachorros desaparecem quando se fixam em presas que fogem. Focados apenas no animal fugindo à frente deles, eles podem correr por quilômetros, perdendo a noção de onde eles ou seus donos possam estar.

Este cachorro não estava fazendo isso. Enquanto corria ao lado do bezerro aterrorizado, ele olhava de relance na direção da balsa e dos caiaques. Estávamos indo rio abaixo, onde uma curva nos deixaria fora de seu alcance de vista. E eu podia ver que ele calculava dois resultados que se excluíam mutuamente: o bezerro apetitoso e a aproximação de rochedos onde ele o encurralaria, ou os barcos que se afastavam rapidamente e a família que ele encontrara.

Eu o vi olhar novamente a curva do rio onde nós desapareceríamos — e foi exatamente ali que percebi que cachorros conseguem pensar abstratamente. O bezerro era real, uma refeição potencial neste momento. As pessoas do barco, a ração Purina Dog Chow e a afeição que partilhavam com ele não passavam de memórias do passado e idéias sobre o futuro, ou como quer que essas palavras se traduzam na mente de um cachorro.

Gratificação imediata… benefícios futuros. As escolhas pareciam claras. E veja bem, nós não o estávamos chamando ou acenando para ele. Sem dizer uma palavra, nós flutuávamos silenciosamente rio abaixo.

Ele optou pelo futuro. Interrompeu sua caça no meio do caminho e virou à direita, passando pelo grupo de vacas assustadas, que se reunira para se proteger. Chegando à margem, ele correu ao longo da borda de pedras, tentando ganhar o máximo de terreno possível antes de ter que nadar. Em meio aos salgueiros, ele pulou — de novo pernas esticadas para a frente e para trás, orelhas batendo como asas — antes de dar de barriga na água. Deslocando-se com determinação, ele manteve um caminho rio abaixo que interceptaria nossa rota.

Após uma longa distância percorrida — de boca aberta, respiração pesada, olhos virados para nós — ele alcançou o barco de Kim, nadou até a amurada e tentou subir com a pata. Ela agarrou o pêlo solto nas costas dele e puxou-o até a saia do caiaque. De repente ele pareceu muito magro e molhado, principalmente quando se virou para olhar as vacas com melancolia. Soltou um grande suspiro de desapontamento quando as rochas bloquearam a vista, então virou para mim, flutuando a 9 metros de distância. Mergulhando do barco de Kim, ele nadou até o meu. Eu o ajudei a subir e ele me lançou um olhar que parecia ser de angústia.

— Parece que você já fez isso antes — eu disse.

Seus olhos se afastaram dos meus. Sentindo sua culpa, tentei elogiá-lo.

— Você é um nadador e tanto.

Pela primeira vez, ele chegou perto e lambeu minha boca — só uma vez antes de se jogar dos meus braços e cair na água. O banho pelo menos tinha limpado seu bafo. Ele nadou até a balsa, deixando Benj puxá-lo para dentro. Em pé sobre o isopor, sacudiu-se vigorosamente, depois reclinou-se na posição de esfinge para deixar o sol secar seu pêlo.

Remando até a balsa, ouvi Benj conversando com o cachorro e chamando-o de Monsieur le M_rde. O cachorro olhou direto para a frente, sem lhe prestar atenção. Bennett chegou no outro lado da balsa.

— Merlin, você é um matador de vacas — ele gritou.

O cachorro moveu os olhos nervosamente até Bennett, depois os afastou.

Tive uma inspiração. Este cachorro, apesar de um pouco grosseiro, era um sobrevivente. De maneira reservada, ele tinha orgulho e dignidade. Me lembrava alguns caubóis que eu conhecia.

— Acho que devíamos chamá-lo de Merle — eu disse. É um nome bom e prático.

Ao ouvir minha voz, o cachorro me olhou, avaliando minhas intenções. Ele me olhou por um segundo antes de afastar o olhar. Parecia saber que caçar gado não o faria conquistar amigos. Muito provavelmente, ele já se penalizara por isso ou passara um susto. Cachorros que caçam gado em território Navajo costumam levar tiros. Talvez ele tivesse sido ferido de leve por uma bala ou alguém lhe tivesse dado uma segunda chance, deixando-o ir embora depois de uma surra. Talvez fosse por isso que ele tivera medo quando eu levantei o graveto. Agora o cachorro parecia esperar estoicamente por nossa repreensão, e talvez tenha sido por isso que ele tentara me aplacar, lambendo minha boca.

— Merle — eu disse em voz baixa e calma. — Merle. — Ele me deu outra olhada rápida, uma sobrancelha para cima, a outra para baixo.

— Esse nome vai servir para você?

O cachorro desviou o olhar para o rio, tentando me ignorar. Em seguida começou a tremer, não por causa da água fria, mas por medo.

No centro e no sul da Itália, durante a década de 1980, cerca de 800 mil cachorros viviam soltos em vilarejos, entre gado, carneiros, porcos, galinhas, cervos, javalis, lebres, outros cachorros domésticos e lobos selvagens. Para avaliar o impacto desses cachorros livres no gado e na vida selvagem, em particular na pequena e ameaçada população de lobos, uma equipe de cientistas capturou, colocou coleiras com rádio e depois observou um grupo de cachorros na região das montanhas Velino-Sirente em Abruzzo. O grupo consistia em nove adultos — quatro machos e cinco fêmeas — de quem acabaram nascendo quarenta filhotes, com apenas dois sobrevivendo até a vida adulta, uma prova dos muitos perigos que cachorros soltos enfrentavam enquanto tentavam arranjar a vida. Eles foram mortos por pessoas — basicamente pastores —, assim como por raposas, lobos e aves de rapina.

Contrariando a crença popular, os biólogos descobriram que os cachorros não caçavam animais silvestres ou gado. Em vez disso, eles procuravam comida em lixões, como fazia a maioria dos lobos. Visto que grandes grupos de cachorros não deixavam as alcatéias menores se alimentar, por vezes os lobos ficavam famintos. Os pesquisadores também observaram que uma pequena porcentagem dos cachorros caçava cervos e outros animais silvestres — a caça variava de acordo com o lugar. Nas ilhas Galápagos, por exemplo, cachorros foram vistos soltos caçando iguanas-marinhos. De vez em quando, os pesquisadores italianos acrescentaram, esses cachorros matavam gado, em particular bezerros.

Entre esses cachorros havia alguns indivíduos que os pesquisadores descreveram como “perdidos” e outros como “selvagens”. Os dois são muito diferentes. “Cachorros perdidos”, os cientistas escreveram, “mantêm laços sociais com humanos, e mesmo quando não têm um dono óbvio, procuram por um. Cachorros selvagens vivem bem sem qualquer contato com humanos e seus laços sociais, quando os têm, são com outros cachorros”. Sem dúvida Merle — o nome logo pegou — era um cachorro perdido, e suas experiências anteriores com pessoas aparentemente o deixaram tanto amigável como desconfiado.

Chegando em terra naquela noite ele foi bem discreto, ainda tentando avaliar, de certa distância, nossa reação ao incidente de sua caça ao bezerro. Mesmo quando enchi seu prato com ração, ele me analisou com cuidado. Eu bati no quadril e chamei:

— Vamos lá, chegou o rango. — Eu sacudi o prato, coloquei-o no chão, bati palmas e apontei para seu jantar.

A desconfiança dele desapareceu num minuto. Num salto, devorou a comida. Quando acabou, me deixou acariciar suas costas. Coloquei meu rosto entre seus ombros e soprei o pêlo, fazendo barulho. Isso o fez se retorcer de prazer. Então abri meu saco de almoço e cortei para ele um pedaço de salsicha de alce. Ele se sentou na areia, balançando o rabo de um lado para outro, enquanto eu lhe dei o pequeno pedaço. Ele o tirou de meus dedos com cuidado.

Eu sabia que talvez estivesse lhe enviando uma mensagem confusa, visto que tanto alces como bois são carne vermelha. Mas se nós ficássemos juntos, seria possível resolver isso com o tempo.

Durante os dias seguintes, ele ficava em cima do isopor e nadava entre os caiaques. Ele dormia entre nós e sentava-se junto do fogão, o mais educado e amigável dos cachorros. O rio se tornava agitado, passando por desfiladeiros profundos, e não apareceu mais gado para tentá-lo. Também mantivemos a latrina coberta. Merle nos seguia até ela e sentava por perto, sua expressão se tornando tristonha quando o usuário da latrina se levantava e fechava a tampa.

Certa vez, depois de subirmos até um platô bem acima do rio, Benj, que é um ávido herpetólogo, apanhou um lagarto espinhoso do deserto. Eu já tinha visto Merle caçar várias lebres — sem sucesso —, mas quando Benj lhe ofereceu o lagarto de 25 centímetros, com a língua entrando e saindo, para avaliar sua reação, Merle deu vários passos para trás, com os olhos cheios de preocupação. “Esse é um animal perigoso”, eles pareciam dizer, o que era em parte verdadeiro — embora lagartos espinhosos do deserto geralmente comam insetos, e às vezes outros lagartos, eles têm mandíbulas fortes que podem dar uma mordida desagradável. Benj se aproximou com o lagarto, mas Merle recuou. Ele bufou várias vezes, continuando a se afastar.

— Talvez ele já tenha sido mordido por um — Benj disse —, ou simplesmente não goste de répteis.

Alguns dias depois, vi Merle comportar-se de uma maneira que confirmava tudo o que Benj tinha dito. Enquanto Merle e eu caminhávamos ao longo de um terraço natural acima do rio, juntou-se a nós uma cobra cascavel, cuja trilha se curvava pela areia. Merle deu uma cheirada na trilha, levantou a cabeça bruscamente e estudou com cuidado o terreno à nossa frente.

— Cobra — eu disse, tentando lhe ensinar a palavra em inglês.

Ele me olhou de volta, com apenas a ponta do rabo se mexendo, reconhecendo o que eu dissera. Depois deu vários passos para o lado da trilha da cascavel e andou paralelamente a ela, bem atento.

Na volta para o acampamento, passamos por excremento de coiote — dois resíduos, cada um com cerca de 10 centímetros de comprimento e 2,5 centímetros de diâmetro. A reação de Merle a eles foi completamente diferente. Ele cheirou, depois deu uma mexida com a pata direita, separando-o com as unhas. Deu outra cheirada profunda, como um conhecedor de vinhos que, depois de girar a taça, está apreciando o buquê. Seu olhar ficou entusiasmado.

— Coyoté — eu disse, dando à palavra a pronúncia espanhola.

Ele bateu o rabo com força, levantou a perna e esguichou sobre as f_zes de coiote antes de jogar um pouco de poeira com as patas traseiras. Empertigando-se, trotou pela trilha com a cabeça se virando de um lado para outro, toda sua linguagem corporal dizendo: “Acabo com vocês se aparecerem por aqui.”

Sua familiaridade com as criaturas do deserto me impressionou; seu pêlo dourado me atraiu; seus olhos me conquistaram. Entretanto, durante todo o tempo em que ficamos juntos, e apesar de dormir ao meu lado, Merle não demonstrava sua afeição. Não colocava a cabeça no colo de ninguém; não lambia; não oferecia a pata. Embora ainda fosse filhote, era reservado e sério. A vida lhe ensinara que a confiança precisava ser merecida.

Na última manhã, quando avistamos a praia barrenta em Clay Hills e os carros que nos aguardavam, que uma empresa de transportes tinha trazido para nós, comecei a imaginar se esse cachorro perdido, com sua mistura de medo e serenidade, ficaria por perto ou partiria para o deserto. Certa vez eu conhecera um cachorro perdido no Nepal que pensei estar ligado a mim, mas ele me enganou completamente.

Assim como Merle, ele simplesmente apareceu, entrando em nosso acampamento no remoto vale Hunku, no sopé da grande linha divisória da qual se ergue o monte Everest. Era um mastim tibetano jovem, de cor preta e marrom, que os tibetanos chamam de Do Khyi, e que também era bem-educado e tinha um sentido altamente desenvolvido de como providenciar o próprio conforto. Ele seguia as pessoas de perto, aceitando nossa comida e dormindo bem junto de meu saco de dormir, à medida que meus companheiros e eu subimos o vale.

No começo do vale, quando entramos numa queda de gelo, o cachorro (que tínhamos batizado de “o Khyi”) afastou-se para a esquerda; logo voltou, nos enviando olhares suplicantes enquanto se afastava de novo, tentando fazer que o seguíssemos. Nós o ignoramos, mantendo nossa trilha, que o mapa nos mostrava ser a rota direta para o desfiladeiro que tínhamos de escalar. Depois de muitas horas tortuosas, emergimos da queda de gelo e encontramos o Khyi, sentado, esperando por nós, com um olhar que dizia “bem que eu tentei avisar” no rosto. Obviamente, ele já estivera ali antes e conhecia um atalho.

No dia seguinte tivemos de escalar o Amphu Labtsa, um desfiladeiro no início do vale que é a única maneira de se sair de Hunku sem voltar para trás. Fica 5.700 metros acima do nível do mar e para se chegar ali é preciso subir campos de neve cada vez mais íngremes, que o Khyi, ainda nos seguindo, subiu sem dificuldade. Todavia, quando o último campo de neve transformou-se numa vala cheia de protuberâncias de gelo, o Khyi se deteve. Nós tínhamos cordas fixadas para nossos quatro carregadores, e eu vinha por último, utilizando um jumar (uma ferramenta mecânica com dentes para ajudar na subida) na corda e empurrando o Khyi na minha frente, impulsionando-o por cima das protuberâncias de gelo.

Por fim, chegamos a uma protuberância de gelo longa e íngreme demais para o Khyi transpor mesmo com minha ajuda. Ele sentou, incapaz de subir ou descer. Se tentasse fazer um dos dois, certamente teria escorregado, levado um tombo e morrido. Da mesma forma que Merle, ele era um cachorro de quatro olhos, com duas manchas marrons na testa preta, diretamente acima dos olhos castanhos. Ele não conseguia mexer somente um, como Merle, porém quando os franzia adquiria uma expressão de sobriedade e liderança. Agora, eles pareciam dizer: “Vocês sabem o que temos de fazer.”

Tirei minha mochila e a abri bem. Visto que as cordas e o equipamento para escalar o gelo estavam sendo usados na montanha, agora eu tinha mais espaço. Levantando o Khyi pelas axilas, coloquei-o dentro da mochila pelo traseiro. Ele não protestou, e eu continuei a subir pelas cordas. Ele não era tão grande quanto Merle, talvez pesasse uns 20 quilos. Mesmo assim, considerando o equipamento que eu estava carregando, o peso total devia chegar a uns 30 quilos. Vez por outra, a carga me fazia perder a postura, meus crampons raspando no gelo enquanto eu balançava na corda.

O Khyi não se mexia. Quando virava para trás, ele me fitava com um olhar firme; o ângulo íngreme não o perturbava. Ele não me lambeu nenhuma vez.

No topo, usamos os crampons ao longo da crista do espinhaço, procurando por uma saída e descobrindo que tínhamos chegado a um impasse. A única descida possível era através de uma saliência cujo limite se ligava a um campo de neve escarpado, que por sua vez levava à geleira e ao vale distantes. Entretanto, a saliência ficava a cerca de 30 metros abaixo de nós e não podíamos descer até lá, um fato que ficou bem claro quando um dos carregadores, mexendo nervosamente sua mochila, deixou cair seu saco de dormir. Nós o olhamos ficar sempre menor enquanto despencava por várias centenas de metros através do espaço até bater na geleira.

A única maneira de descer, conforme vimos, era seguir a queda do saco de dormir — um rapel livre, com nada abaixo de nossos pés a não ser a queda estonteante. Visto que meus amigos tinham liderado a subida, eu me ofereci para liderar a descida. Quando saltei no espaço, tendo como objetivo a pequena saliência, o Khyi, imóvel até então, emitiu um pequeno ganido. Freando na corda, virei e o vi olhando para o abismo, os olhos esbugalhados. Ele me olhou e esganiçou de novo. Não gostava de ficar tão exposto.

Quando cheguei à saliência de 60 centímetros de largura, tirei-o da mochila, pois ele tinha começado a lutar. Ele correu para a direita, onde a saliência acabava, e para a esquerda, onde ela se unia ao profundo campo de neve, onde, era óbvio, ele não conseguiria andar. Ele sentou, como se tivesse perdido o fôlego, e olhou para o vale distante. Quando os outros chegaram, ele veio até mim, sentou junto à mochila e me deixou colocá-lo ali dentro. Era um cachorro sem ilusões.

Fizemos mais dois trechos de rapel até que o ângulo escarpado do campo de neve diminuísse. Tirei o Khyi da mochila, e sem olhar para trás ele correu para a noite que chegava, sua forma escura desaparecendo na geleira abaixo de nós.

Sem água e quase sem comida, acampamos num terreno pantanoso e arenoso, felizes por termos descido, e ávidos pela chegada da manhã, quando poderíamos atravessar a geleira e a morena em segurança. Quando o sol despontou, encontramos um gotejo de gelo derretido, e enquanto bebíamos nosso chá, o Khyi chegou trotando. Ele cumprimentou cada pessoa rapidamente com um balançar de rabo, depois sentou na minha frente. Olhando-me nos olhos, ele levantou a pata. Apertei seu ombro com a mão, e ele colocou a pata no meu braço num gesto de camaradagem. Olhou-me nos olhos por um longo momento, depois se virou e desapareceu no gelo.

Nunca voltei a vê-lo, embora um bom amigo o tenha conhecido na estação seguinte de escaladas, quando o Khyi se aproximou do acampamento, a poucos quilômetros de onde ele nos deixara. Foi sociável e bem-educado, e se apegou ao grupo de meu amigo, acompanhando-o até o topo dos 6 mil metros de altura de Island Peak.

Agora, enquanto flutuávamos na direção de Clay Hills, eu observava Merle sentado no isopor e imaginava se ele iria embora deserto afora para esperar o próximo grupo de turistas fluviais — como o Khyi, um aventureiro e oportunista canino, um cachorro perdido profissional, que gostava de viagens panorâmicas, os olhos luminosos já tendo falado a tantos outros: “Eu sou seu… em troca de um pouco de salsicha de alce e um passeio gratuito.”

Nós desmontamos a balsa e a colocamos na caminhonete de Benj. Prendemos os caiaques, e Merle observava cada movimento com atenção e sem o menor indício de que iria embora. Reunimo-nos num círculo, e ele olhou para nós com curiosidade.

— O que deveríamos fazer com ele? — perguntei.

Pam tinha uma pequena husky chamada Kira e não podia assumir a responsabilidade por outro cachorro. Bennett não tinha certeza sobre seu futuro. Benj morava e trabalhava na Escola de Ciências de Teton, onde cachorros não eram permitidos, e Kim disse que um cachorro não se encaixava no seu jeito de viver. Eu me perguntei se um cachorro realmente se encaixaria no meu, e o que faria com ele quando viajasse a trabalho. Quando expressei essa preocupação, Pam e Benj se ofereceram para tomar conta dele.

Merle olhou para mim por baixo de suas sobrancelhas franzidas. De repente me dei conta de que a idéia de deixá-lo nesta ribanceira poderia ser um dos maiores erros que eu poderia cometer na vida.

— Você quer se tornar um cachorro de Wyoming? — perguntei, pensando em como suas costas tinham se encostado nas minhas à noite e na expressão de seu rosto quando ele tinha entendido que os uivos ecoando nas paredes do cânion eram os seus.

Ele mexeu o rabo de maneira vagarosa e incerta, tendo sentido o teor difícil de nossa conversa.

Nossa decisão foi adiada momentaneamente, quando Pam e Bennett, precisando ir embora, começaram uma rodada de abraços conosco. Depois de partirem, Kim embarcou na caminhonete, assim como Benj. Eu mantive a porta aberta para Merle.

— Vamos embora. Agora você é um cachorro de Wyoming. Se quiser.

Um sorriso largo e sentimental abriu-se em seu rosto. “Quem, eu? Eu mesmo?”

— Sim, você mesmo — respondi carinhosamente. — Vamos embora, vamos para casa.

Ele entrou e sentou no chão, atrás dos bancos dianteiros.

Depois de uma hora, me virei e perguntei:

— Como vão vocês aí atrás?

Kim fez um sinal positivo com o polegar, e Merle, que tinha dormido, abriu um olho e deu uma batida de rabo contente.

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