Trecho do Livro: O Último Chef Chinês | Nicole Mones

Livros O Ultimo Chef Chines Nicole Mones BooksLivro: O Último Chef Chinês

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“Aprendizes já me perguntaram qual é o ponto máximo da culinária refinada. Seriam os ingredientes frescos, os sabores mais complexos? Seria o rústico, ou o raro? Não é nenhuma dessas coisas. O auge não é nem o comer nem o cozinhar, mas sim o oferecer e o compartilhar do alimento. Iguarias nunca devem ser consumidas em solidão. Que prazer uma pessoa pode tirar da culinária refinada se não convidar amigos queridos para comer, se não contar os dias até a realização do banquete e se não compuser um poema auspicioso para a carta com o convite?” (LIANG WEI, O Último Chef Chinês, Pequim, 1925)

Maggie McElroy sentiu sua alma rodopiar para longe no ano que se seguiu à morte do marido; ela se sentia deslocada em qualquer lugar. Precisava de paredes para contê-la. Não conseguia encontrar um apartamento pequeno o suficiente para morar. Acabou se mudando para um barco.

Primeiro, vendeu a casa. Isso era compreensível. Os amigos concordaram que era a atitude certa a se tomar. Ela se recolheu a um apartamento, e logo começou a achá-lo muito grande; precisava de uma cela. Encontrou um lugar ainda menor e reduziu mais ainda suas posses ao se mudar para lá. Cada ciclo de eliminação liberava um pouquinho de sua dor, mas, no fundo, o que a movia era a crença adicional, vinda não do conhecimento, mas de uma teimosia instintiva, de que alguma parte de sua alma poderia ser chamada de volta se ela pelo menos conseguisse abrir o caminho.

Até que ela encontrou o pequeno barco em seu atracadouro na Marina. Assim que subiu a bordo, percebeu que queria ficar ali, embaixo, observando as variações de luz, encontrando paz no estalo dos cabos, ignorando as mensagens no celular.

Aquela embarcação tinha uma pureza. Quando não estava trabalhando, ficava deitada no leito. Observava os bandos de pares de tênis andando para lá e para cá no píer. Escutava o estrondo do vento na lona, a água batendo no casco. Dormia no barco, dormia de verdade pela primeira vez desde que Matt morrera. Percebia que nada restara. Mais tarde, ao reavaliar a situação, perceberia que, se não tivesse chegado a este ponto, nunca poderia estar preparada para a mudança que já naquela época estava a caminho. Mas na ocasião parecia inevitável, ela simplesmente teria de aceitar: nunca mais se sentiria ligada a nada.

Ficava sozinha. Vamos jantar. Venha conosco ao cinema. Tem uma festa. Mesmo quando ela não respondia, as pessoas a perdoavam. Esperam-se coisas estranhas das pessoas de luto. Concessões são feitas. Quando precisava dar uma desculpa, dizia que estava viajando, e tudo bem, porque viajava com freqüência mesmo. Era jornalista de gastronomia. Viajava todo mês para visitar uma comunidade americana diferente em função de sua coluna. Adorava seu trabalho, precisava dele e não tinha intenção de perdê-lo. Todo mundo sabia disso, e por isso era possível simplesmente pedir desculpas, estaria fora, adeus, e então se deitava em seu pequeno leito para continuar a lembrar. As pessoas se preocupavam com ela, e ela se preocupava com as pessoas: isso não tinha mudado. Simplesmente não queria vê-las naquele exato momento. Sua vida estava diferente. Tinha se afastado para uma região distante, que elas não conheciam, onde todo o trabalho era a função do luto. Era difícil demais conversar com os outros. Por isso ficava sozinha, com sua vida encolhida até o tamanho da cabeça de um alfinete, e lentamente, dia após dia, ia achando que estava se sentindo melhor.

Na noite de setembro que marcou o início destes acontecimentos, ela estava saindo do barco para achar um lugar para jantar. Isso foi alguns dias depois de seu aniversário de 40 anos, pelo qual ela passou batido, evitando a data com cuidado. Deparou com o estacionamento vazio, pontuado apenas pelos gritos das gaivotas. Quando chegou ao carro, ouviu o telefone tocar.

O som era abafado. O aparelho estava no fundo da bolsa. Morar no barco fazia com que sua bolsa estivesse sempre sobrecarregada: um preço baixo a se pagar. Enfiou a mão lá dentro, seguindo a luzinha verde que tremelicava a cada toque. Ela não atendia o telefone com muita freqüência, mas sempre conferia quem estava ligando. Nunca deixava de atender algumas ligações: do trabalho, da melhor amiga, Sunny, da mãe.

Quando olhou para a tela, sentiu suas sobrancelhas se unirem na testa franzida. Não era um número que ela reconhecesse. A seqüência de números era longa. Abriu o aparelho.

— Alô?

— Maggie? Aqui é Carey James, de Pequim. Está lembrada de mim?

— Estou.

Ela tremeu de surpresa. O escritório de advocacia de Matt tinha filial em Pequim, e Carey era um dos advogados que trabalhavam lá em tempo integral. Matt viajara até lá um bom punhado de vezes, a negócios. Maggie chegara a ir com ele uma vez, três anos antes. Tinha conhecido Carey: alto, elegante, levemente desleixado. Matt dizia que ele era um negociador brilhante.

— Sim, estou lembrada.

— Que ano, hein — ele disse, deixando a formalidade um pouco de lado.

— Nem me diga.

Ela destrancou o carro e entrou.

— Está tudo bem com você?

— Estou sobrevivendo.

O que ele queria? Fazia meses que o assunto estava encerrado com a firma, até mesmo as ligações de gentileza tinham cessado, e também as ligações de preocupação dos amigos mais próximos de Matt aqui do escritório de Los Angeles. Fazia tempo que não recebia notícia nenhuma dessa gente.

— Na verdade, estou ligando porque dei de cara com uma coisa aqui. Eu realmente deveria ter visto isto antes. Infelizmente, não vi: é uma ação legal, aqui na China. Envolve Matt.

— Matt?

— É — Carey respondeu. — É um processo.

— Como assim? De que tipo?

Carey respirou fundo. Ela sentia a hesitação na voz dele.

— Eu estava torcendo para haver uma chance de que você já soubesse — ele disse.

— Saber o quê, Carey? Que tipo de processo é?

— De paternidade — ele respondeu.

Ela ficou imóvel por um longo momento. Parecia que um sino tinha caído em cima dela, isolando-a de todos os sons. Ficou olhando através do pára-brisa coberto de maresia para a fileira de palmeiras, a ciclovia, a areia de coloração irregular.

— Então tem alguém dizendo…

— Ela tem um filho dele. Então parece que você não sabia nada sobre isso.

Ela engoliu em seco.

— Não, não sabia. Você sabia? Sabia de alguma criança?

— Não — ele respondeu com firmeza. — Não sabia de nada.

— Então o que acha que é?

— Honestamente, não sei. Mas uma coisa eu sei: isto não pode ser ignorado. É sério. Um processo foi instaurado. De acordo com o novo Tratado dos Direitos das Crianças, tudo pode ser decidido aqui na China mesmo, de uma forma que afete você. E vai ser decidido mesmo, em breve. — Ela ouviu quando ele virou páginas. — Em… pouco menos de três semanas.

— E aí?

— Aí que, se a pessoa que entrou com o processo vencer, leva uma parcela dos bens dele. Tirando a casa, é claro, a residência principal.

A isto ela não respondeu nada. Tinha vendido a casa.

— Só me diga o seguinte, Carey: o que devo fazer?

— Só há uma opção. Fazer um exame para provar se é verdade ou mentira. Se for mentira, podemos dar conta do assunto. Se não for, aí a coisa muda de figura.

— Se for verdade, você quer dizer? Como é que pode ser verdade?

— Você não pode querer que eu responda a esta pergunta — ele disse.

Ela ficou em silêncio.

— A coisa mais importante agora é fazer um exame de DNA. Se eu tiver isto em mãos antes do julgamento, posso cuidar de tudo. Sem isto, nada.

— Então siga em frente. Mande fazer. Eu pago o escritório para realizar o teste.

— Não vai adiantar — Carey respondeu. — A questão já está na pauta do Ministério da Família, e nós somos um escritório de advocacia. Teríamos que encarar a burocracia toda: entrar com documentação para obter permissão da família da menina, por exemplo. Seria impossível fazer isso no prazo. Não daria para a gente. Mas outra pessoa poderia conseguir a permissão da família e mandar fazer o teste, e assim nós tomaríamos providências de acordo com os resultados. Dessa forma, daria tudo certo.

— Eu, você quer dizer — ela disse.

— Não sei quem mais pode ser. É importante, Maggie. Nós ajudamos. Conseguimos um tradutor. Você pode usar o apartamento da empresa. Ainda está com a chave de Matt?

— Acho que sim.

— Então, pegue um avião. Venha até o escritório quando chegar. — Ele fez uma pausa. — Sinto muito, Maggie — ele disse. — Por tudo, por Matt. Isto é terrível.

— É mesmo.

— Nada disso deveria estar acontecendo.

Ela respirou fundo. Ele está falando de Matt ter sido atropelado na calçada. Morto com mais duas outras pessoas. Uma fatalidade.

— Já me remoí muito por causa disso — ela respondeu. — Então, essa criança…

— Uma menininha.

Ela fechou os olhos.

— Essa menina tem quantos anos?

— Cinco.

Isso significa que alguma coisa teria acontecido seis anos atrás. Maggie retrocedeu no tempo, atordoada. Não fazia sentido. Eles eram felizes na época.

— Se você me der os meses em questão, eu dou uma olhada nos meus diários para ver se ele estava na China na ocasião. Quer dizer, talvez nem seja possível. Se ele não estava aí…

Desta vez Carey a interrompeu.

— Inverno de 2002 — ele disse baixinho. — Eu já conferi. Ele estava.

Na manhã seguinte, ela estava esperando no corredor quando Sarah, sua editora, saiu do elevador.

— O que você está fazendo aqui? — Sarah perguntou. — Está com uma cara péssima.

— Passei a noite em claro.

— Por quê?

— Más notícias sobre Matt.

— Matt?

Os olhos de Sarah se arregalaram. Matt estava morto. Não podia haver mais nenhuma má notícia.

— Alguém entrou com um processo.

O queixo de Sarah caiu, mas ela logo fechou a boca.

— Um processo de paternidade.

Sarah ficou pálida.

— Paternidade! Vamos entrar.

Ela destrancou a porta e guiou Maggie para a cadeira confortável na frente de sua mesa.

— Então, que história é essa?

— Uma mulher entrou com um processo na China, dizendo que tem uma filha dele.

— Está falando sério? Na China?

— É, e por causa dos acordos entre os nossos países, esse processo pode ser concluído na China e cobrado de lá.

— Cobrado — Sarah repetiu.

— Em somas generosas — Maggie respondeu.

— O que você vai fazer?

— Vou para lá, imediatamente. Não tenho escolha. Nunca te pedi, em 12 anos, nem quando Matt morreu, mas agora vou precisar de um mês de licença.

— Faça-me o favor! Querida! Publicamos colunas antigas o tempo todo, quando alguém tem uma emergência. Você é a única que nunca pediu. Nem se preocupe. E há um ano — Sarah olhou para ela, com os olhos doces de solidariedade há muito reservada — eu disse para você tirar uma folga. Está lembrada? Eu praticamente implorei.

— Eu sei. — Maggie esticou o braço e pegou a mão da amiga. — A verdade é que o trabalho me fez seguir em frente. Eu precisava dele. Sempre fui assim. Fico mais forte quando estou trabalhando. Não sei se teria conseguido sobreviver sem trabalhar. — Ela ergueu os olhos. — Ando melhor ultimamente. Só para você saber.

— Que bom. Aliás, seu último cheque voltou. — Sarah lhe mostrou o envelope. — Está de endereço novo?

— Tenho uma caixa postal nova, mais perto de onde estou morando.

— Onde você está morando?

— Na Marina — ela respondeu, e deixou assim.

Sarah anotou o novo endereço de correspondência.

— Obrigada. Aliás, claro que você pode ir, tire um mês de licença, nós usamos um texto antigo. Nem se preocupe com isso. Para falar a verdade, talvez seja bom para você. Veja se aproveita. Recarregue as baterias.

Maggie falou com cuidado.

— Você acha que eu estou precisando recarregar as baterias?

— Não, não é isso. É só que… — Sarah fez uma pausa, empacada entre a amizade e a responsabilidade. — É que, ultimamente, você não parece estar muito animada com a comida. Também já deve ter percebido. Não estou sentindo aquele velho gostinho de deslumbramento.

Eu também não, Maggie pensou, triste.

— Quais foram os textos que a incomodaram?

— Bom, aquele sobre os amish da Pensilvânia. Você não conseguiu achar nada charmoso neles, de verdade?

— Está falando de gente cuja principal contribuição à gastronomia é o pretzel. De um pessoal que faz pessoas totalmente desconhecidas se sentarem à mesa para compartilhar frango frito. Cuja idéia de salada é um tomate fatiado. E nem me faça começar a falar das tortas deles!

Sarah sorriu.

— Viu? Você continua ótima como sempre. Continue assim. Se solte.

Maggie deu risada.

— E também não se esqueça desta parte: você sempre achou alegria na comida.

— Vou tentar.

Mas então o pequeno sorriso de Sarah se desmanchou e foi substituído por preocupação.

— Você acha… não há chance de isso ser verdade, há?

— Está falando de Matt? Não faço idéia. Se ele me disse alguma coisa ou me fez pensar que houvesse alguma coisa? Não. Ele ia à China a negócios às vezes, mas o mesmo vale para todos os advogados do escritório dele.

— Você foi lá com ele.

— Fui uma vez, passei uma semana. Faz três anos. Nada. E você me conhece. Vivo de olho em tudo. Estar atenta é como eu consigo escrever, e isso afeta o resto. Não senti nada. Mas se isso aconteceu, deve ter sido alguns anos antes da minha viagem. Para falar a verdade, eu não consigo pensar assim, Sarah; eu ficaria louca. Preciso ir lá conseguir um teste de laboratório, e é isso. Daí eu vejo o que fazer.

— Vai ser uma viagem difícil — Sarah disse, agora falando como amiga.

Maggie fez que sim.

— E bem agora que eu estava conseguindo acomodar o sujeito na minha cabeça, sabe como é? E no meu coração. Além do mais, para ser sincera, Sarah, apesar de ser necessário e tudo o mais, realmente não é bom para mim não trabalhar, nem mesmo por um mês. Eu faço tudo melhor quando estou trabalhando.

— Está dizendo que preferia trabalhar? — Sarah perguntou.

— Claro que eu preferia trabalhar, mas não posso. Preciso ir até lá cuidar dessa questão.

Então um novo sorriso, diferente, o sorriso maroto de uma idéia, abriu-se no rosto de Sarah.

— Quer trabalhar enquanto estiver na China?

Maggie só ficou olhando para ela. Ela escrevia unicamente sobre comida americana.

— Como?

— Faça uma coluna de lá. Podemos publicar um texto antigo, eu já disse, não tem problema, você realmente tem alguns clássicos que eu gostaria de ver de novo… mas também temos uma pauta na China. Acabou de chegar. Posso passar para qualquer pessoa, e neste caso eu teria que mandar alguém para lá. Ou posso passar para você, já que vai viajar mesmo, e a reportagem pode virar uma das suas colunas.

— Você acha que tem a ver comigo? — Maggie perguntou.

Claro que ela escrevia sobre comida étnica. Dos pratos ao estilo do País Basco de San Joaquin Valley às lingüiças alemãs da região central do Texas, era impossível não fazê-lo. A culinária americana recebia muitos sabores afluentes. Ela conhecia todos. Mas nunca tinha escrito sobre comida estrangeira.

— É o perfil de um chef. É um sujeito americano, nascido e criado aqui, mas meio chinês.

— Hmm. Assim tem mais a ver.

— Ele não faz receitas americanas — Sarah disse. — É o oposto: está retomando as tradições antigas. Ele é descendente de um chef que cozinhava para o imperador e que, em 1925, escreveu um livro que se transformou em um grande clássico da culinária, O Último Chef Chinês. O nome dele era Liang Wei. O nome do neto também é Liang, Sam Liang; ele está traduzindo o livro para o inglês. É cozinheiro. Tudo que ele faz é ortodoxo, tudo de acordo com o avô, apesar de Pequim aparentemente estar seguindo na direção oposta, nova, global.

— Gostei — Maggie disse.

— Ele está para abrir um restaurante. Vai ser uma grande inauguração. A pauta é esta, o restaurante.

— Olhe, não vou mentir, para mim seria perfeito. Eu adoraria escrever essa reportagem — Maggie respondeu. — Isso sem falar que, assim, conservaria minha sanidade mental. É só que… não sei como você pode passar isso para mim. Eu sou a rainha da comida americana.

— Às vezes é bom misturar as coisas. E você vai para lá de qualquer forma. Quando viaja?

— Hoje à noite.

— Hoje à noite! Já deve estar com a passagem.

— Estou. E o meu visto de urgência sai ao meio-dia. Olhe só, Sarah, se você me pagar a passagem, eu dou conta de todos os outros gastos. Tenho que ir para lá, de qualquer forma.

E ela ainda tinha o apartamento da empresa.

— Posso providenciar — Sarah respondeu.

Ela reluzia de satisfação. Adorava resolver um problema.

— Então, estamos acertadas? Você está dizendo que vai fazer?

Elas se conheciam bem. Maggie só precisou colocar um sorrisinho no olhar para a amiga entender que ela estava de acordo.

— Ótimo — disse Sarah. — Então. — Entregou a pasta a Maggie. — Sam Liang.

Em Pequim, era tarde da noite. No entanto, as pessoas continuavam na rua, porque a noite de outono estava gostosa e fresca, levemente acentuada pelo perfume dos crisântemos que ladeavam a calçada. O que Sam Liang mais gostava na cidade que adotara era a vida local, como aqui, pessoas fazendo compras e passeando em Gulou, a rua que se estendia até o pagode escuro e silencioso de onde tirava seu nome. Sam mal olhava para a construção do século XV que se erguia no meio da rua mais à frente. Ele não olhava para as vitrines coloridas das lojas nem para o rosto dos camelôs que se instalavam aqui e ali pela calçada. Seu olhar se fixava adiante. Havia uma loja de utensílios de cozinha neste quarteirão. Xie, seu Terceiro Tio, tinha lhe falado dela. Xie morava em Hangzhou; quando viajava para o norte, até Pequim, sempre dava uma passada aqui.

Sam queria encontrar uma tábua de corte, pesada, redonda, uma fatia de tronco completa, do tipo que os chefs chineses sempre usaram. Ele tinha duas para o restaurante e precisava de uma terceira; um restaurante movimentado realmente precisava de três. Todas as lojas que visitara tinham tábuas de corte, mas eram as de plástico: a nova e moderna alternativa que tinha tomado conta de toda a capital. Diziam que o plástico era mais higiênico, mais seguro; era o futuro.

Sam não concordava. Não tinha se deslocado até a China para trocar o naco de árvore tradicional pelo plástico. O plástico acabava com uma bela lâmina. Além do mais, o que o avô dissera era verdade: a madeira é uma coisa viva embaixo da faca de um cozinheiro. Ela tem seu próprio vigor.

Ah, avistou a loja, logo à frente: as luzes estavam acesas, estava aberta. Se algum lugar fosse ter tábuas de corte à moda antiga, seria este.

Mais de uma vez, Xie lhe explicara como escolher: “Nunca compre uma tábua feita de uma árvore nova, só de uma antiga. Assegure-se de que os anéis estão bem próximos, devido à idade. Confira se a tábua foi condicionada adequadamente com óleo, que tem brilho. Não leve a escolha errada para casa.”

“E o tipo de madeira?”

“Quando eu era mais novo, todos os chefs usavam saboeiro. Agora, a maior parte usa um tipo de bétula, apesar de alguns gostarem da madeira do tamarineiro do Vietnã. Ouça seu Terceiro Tio. Escolha a madeira que lhe parecer mais agradável ao toque. Esqueça o resto.”

Sam abriu a porta da loja. Numa olhada esperançosa, registrou as prateleiras compridas com woks e grelhas e peneiras e suportes para cozinhar ao vapor empilhados. Viu as tábuas de corte, de plástico branco, em sua seção específica. Só viu plástico; nada de madeira, nada de troncos de árvore.

— Ni zhao shenmo? — disse uma voz de mulher. O que procura?

Era a dona do estabelecimento, uma senhora de cabelos brancos que Sam reconheceu pela descrição de Xie.

— Senhora Minha Irmã — Sam disse, com educação. — Procuro uma tábua de corte. Mas do tipo antigo, de madeira.

— Não temos mais.

— Mas por quê?

— Não são tão higiênicas quanto as de plástico. Principalmente agora, sabe como é, quando tudo precisa estar sempre limpo.

Ele sabia do que ela estava falando: das Olimpíadas.

— Mas, se me permite perguntar, quando pararam de vender, não sobrou nenhuma?

— Não — ela respondeu.

A esperança dele se esvaía.

— Zhen kelian. É uma pena. Meu tio Xie disse acreditar que eu conseguiria encontrar uma aqui. A senhora o conhece? Seu antigo cliente? Xie Er?

Os olhos envelhecidos da mulher se arregalaram.

— Você conhece Xie Er?

— Ele é meu tio.

Ela olhou para ele com firmeza. Dava para sentir que ela avaliava a mistura ocidental no rosto dele. Todo mundo fazia isso. Estava acostumado. Era a luz por cima da cabeça dele, a maneira como caminhava. Mas ela realmente não encontraria nada no rosto dele, porque Xie Er era seu tio não de sangue, mas por meio de outros laços.

— O pai dele e o meu avô eram irmãos no palácio.

— Você é um Liang — ela disse.

— Sou — ele respondeu, surpreso.

Ela desceu da banqueta e abriu uma porta atrás de si. Sam se aproximou. Ela acendeu um interruptor e iluminou um depósito de prateleiras abarrotadas e de caixas.

— Venha aqui — ela disse, e ele a seguiu. — Está aqui. — Afastou alguns papéis para o lado.

Assim que ele a viu, soube. Tinha uns 60 centímetros de diâmetro, de 15 a 18 centímetros de espessura, ainda com a casca da árvore, com acabamento de brilho fosco. Um anel de metal grosso estava fincado em um dos lados, para pendurar, já que uma tábua dessas tem que ser guardada na vertical quando não está em uso. Ele era capaz de imaginá-la dali a dez, vinte anos, a superfície de corte desgastada em uma sugestão sutil de concavidade, transformando-se junto com ele, com sua culinária, sob suas mãos. Ele a desejou.

— Posso pagar em dinheiro — disse. — Fico feliz de pagar assim.

— Você cozinha? — ela o observava. — Cozinha? — disse isso com um aceno enfático da cabeça. — Então, me dê só um momento. Vou pensar em um preço.

— Por favor, não se apresse — ele disse com delicadeza, mas por dentro estava transbordando. Passou a mão cheia de prática pela superfície de corte. — E, irmã, será que sabe que tipo de madeira é esta?

— Esta? — ela respondeu. — É do tipo antigo. Saboeiro.

Maggie estava no aeroporto, parada na frente do balcão de doces. Matt sempre lhe dava balas em forma de milho. Era o doce especial dos dois, e ela costumava dizer que todo relacionamento devia ter um. Para eles, era mais um sacramento do que um alimento. Na primeira vez que ele levou aquilo para casa, a intenção era fazer piada com a especialização dela em comida americana, mas isso logo foi esquecido e se transformou na marca de despedida dele. Ele dava um saquinho para ela sempre que ia sair de viagem. Ela ainda era capaz de visualizar uma certa manhã no quarto deles, quando ele estava de malas prontas, já vestido para partir sob a luz do amanhecer que entrava preguiçosa pela janela. Quando? Há um ano e meio? Os dois viajavam com tanta freqüência que raramente acordavam quando o outro saía cedo. Naquela manhã específica, ela estava meio acordada, devaneando; ouviu o roçar do tecido da calça dele e o barulhinho do plástico quando ele enfiou a mão no bolso à procura das balas. Ela ouviu quando ele colocou o doce ao lado do abajur de cabeceira dela e se abaixou para beijar seu cabelo. Só isso. Gentil demais para acordá-la. Então o barulho da porta fechando. O remorso fervilhou dentro de Maggie agora. Ela o deixara partir daquela maneira vezes sem conta.

Ela foi até o tubo transparente cheio de grãos de milho brancos e alaranjados e abriu um saquinho plástico embaixo dele. No dia em que ele viajou para São Francisco, a última vez que o vira, não lhe dera balas em forma de milho, pois iria voltar naquela mesma noite.

No ano que se passara desde então, ela não comera nenhuma bala dessas. Puxou a alavanca e o doce caiu no saquinho, cem, mil balas. Entrou no avião comendo sem parar, enfiando os grãos de milho macios na boca um por um e deixando que dissolvessem até seus dentes doerem e até parecer que sua cabeça se transformaria em um balão e sairia flutuando. Enjoada, farta, recusou as refeições quando foram servidas. Começou a assistir a um filme e desligou a tela. Ficou lá parada, banhada por ondas de culpa. Era a mesma culpa que sentira tantas vezes naquele ano, sempre que lhe vinha à mente a lembrança de que, para falar a verdade, ela e o marido sempre tinham se amado mais quando estavam longe um do outro. E agora era para sempre. Fechou os olhos.

Sentiu a bolsa com o computador entre os pés. Ainda não tinha pensado sobre a pauta. Com tantas providências para tirar o visto, recolher uma amostra de sangue de Matt do hospital para onde ele doara, entregar para o laboratório de DNA, pegar o kit de coleta, fazer a mala e sair correndo para o aeroporto, ela não tinha parado para pensar em sua entrevista com o chef. Na verdade, foi um alívio ter de se apressar tanto. O luto, que se tornara semi-reconfortante para ela, quase um companheiro, finalmente pareceu dar um passo atrás. Ela voltou a se sentir uma pessoa, mesmo mal tendo chegado ao portão a tempo com sua bolsa de mão.

E logo ela estava lá, com o cinto afivelado, com suas balas em forma de milho. Tentou encarar a situação. Será que era possível? Será que a alegação poderia ser verdadeira? Deixou que a mente retrocedesse mais uma vez. Demorou-se em cada obstáculo, em cada momento de discórdia; sabia onde cada um deles se localizava. Estavam todos dentro dela, organizados desde a morte de Matt, ao lado do amor, do arrependimento e da afeição. Neste momento, ela examinava tudo isso. Outra mulher? Uma criança? Simplesmente era impossível acreditar que ele podia ter guardado esse segredo dela. Ele confessava tudo. Era uma piada entre as pessoas que o conheceram. Esse era o tipo de coisa que ele nunca, jamais conseguiria guardar para si. Principalmente porque a questão de filhos era algo que tinha surgido entre eles. Originalmente, os dois estavam de acordo. Não queriam filhos. Mas, na metade da década que passaram juntos, Matt mudara de idéia.

No início, quando tudo começou, ela relembrou os motivos por que eles não seriam bons pais. Ela viajava todo mês, ele também. Se tivessem um filho, alguém precisaria parar. Obviamente, teria que ser ela; ele ganhava a maior parte do dinheiro. O negócio é que ela não queria parar, não por um bom tempo. Adorava sua coluna. Deixe-me trabalhar mais um ano, era o que dizia. Matt era paciente. Afinal, ele é que tinha mudado de idéia. Mas o assunto sempre retornava.

Ele nunca teria sido capaz de esconder uma filha. Essa idéia parecia clara a ela no silêncio do zumbido do avião. Os outros passageiros dormiam. Depois de um bom tempo agitando-se desconfortável na poltrona, ela se levantou e foi para o fundo do avião, para o espaço vazio onde sempre há uma janelinha. Olhou para a escuridão profunda através das linhas de umidade presas entre os vidros, refletindo. Finalmente, esgueirou-se de volta a seu assento e caiu no sono.

Quando aterrissaram em Pequim, ela se sentia um pouco enjoada por causa do açúcar e foi arrastando os pés até os agentes da Imigração que carimbaram seu passaporte e fizeram sinal para que ela seguisse em frente. Parou em um guichê de câmbio para trocar algumas centenas de dólares e, assim preparada, deixou a área restrita e entrou no saguão do aeroporto apinhado de gente.

Espertalhões se lançaram para cima dela.

— Olá? — disse um. — Quer táxi?

— Não, obrigada.

— Táxi. Por aqui.

— Não.

Arrastou a mala na direção das portas de vidro, através da qual enxergava pessoas em fila para pegar táxi. Pela direita, passou por um europeu.

— Quanto custa até Pequim? — ouviu-o dizer a um dos homens.

— Trezentos — o homem respondeu, e o europeu concordou.

Ela continuou em frente.

Nesse ínterim, o primeiro homem continuava atrás dela.

— Táxi — disse, e então de fato agarrou o braço dela, o que a aturdiu.

— Sai de perto de mim — disse, e o repeliu com tanta força que até ela mesma se surpreendeu.

Ele deu um passo atrás, o babaca, com um sorriso de escárnio. Ela caminhou até seu lugar na fila do táxi e aprumou o corpo um pouco mais.

Chegou sua vez e ela mostrou ao motorista o cartão de visita do escritório em Pequim, que trazia o endereço do apartamento, e então largou-se no banco de trás. Tinha conseguido, tinha chegado. Uma estrada navegava junto com ela do lado de fora, salpicada por outdoors iluminados em chinês e em inglês, anunciando software, metais, produtos químicos, aeronaves, café, logística. O que é logística? Sentiu-se velha por não saber.

Ainda tinha algumas pessoas queridas, pelo menos. Abriu o telefone. O aparelho reviveu com um apito. O primeiro número era de sua mãe. Maggie não ligava para ela com freqüência, mas, de todo modo, sempre que comprava um telefone novo, era o primeiro número que anotava, no topo da lista. A mãe a criara sozinha com eficiência, apesar de não ter sido exatamente capaz de criar um lar aconchegante para Maggie. Merecia ocupar a posição mais alta.

Em seguida vinha Sunny, sua melhor amiga e o número para o qual mais ligava. Depois Sarah; seus outros amigos. E os pais de Matt. O coração dela apertava, como sempre, ao pensar neles. O sofrimento deles tinha sido igual ao dela.

Fechou o telefone quando o carro saiu da via expressa e entrou na cidade. Logo viu que esta não era a Pequim de que se lembrava, de três anos antes. Os bulevares tinham sido alargados, os prédios de escritórios tomaram conta da paisagem, a iluminação pública tinha sido renovada. Talvez fosse a aproximação das Olimpíadas. Ou talvez fosse apenas o modo de Pequim crescer. Ela se lembrava de Matt dizendo que tudo estava sempre em obras, e isso remontava a mais de uma década. Sempre construindo, investindo, expandindo, ganhando dinheiro.

O motorista virou numa rua lateral e parou na frente do prédio de que ela se lembrava. Pagou a tarifa: 95 iuans. Sorriu ao se lembrar do sujeito no aeroporto que concordara em pagar 300. Era como se ela tivesse voltado a ser a velha e boa Maggie por um minuto: sempre adorara ser a turista esperta.

Entrou, subiu pelo elevador, abriu a porta do apartamento 426 e acendeu as luzes do teto. Continuava a mesma coisa. O sofá, a televisão, as janelas com vista para a cidade.

Ela arrastou a mala até a parede. Seus passos eram ruidosos naquele silêncio. Havia um envelope na mesinha de centro. Para a sra. Mason, dizia. Do escritório de advocacia. Ela abriu. Bem-vinda à China. Por favor, vá ao escritório pela manhã.

Só uma pessoa que não a conhecesse a chamaria de sra. Mason. Ela nunca mudara o sobrenome. Não havia dúvidas de que não a conheciam; provavelmente Carey era o único que ainda estava no escritório depois de passados os três anos de sua visita. Ela se lembrava de Matt lhe dizer que, à exceção de Carey, o escritório de Pequim nunca conseguiu segurar estrangeiros por muito tempo. Essa era uma das razões por que os advogados do escritório de Los Angeles, como Matt, precisavam ir sempre para lá. Então, nos últimos anos, tinham contratado dois advogados chineses que tinham estudado Direito nos Estados Unidos e depois retornaram a seu país, e assim a pressão acabou. Matt não tinha ido até lá nenhuma vez no ano e meio antes de morrer. Em todo caso (conferiu o telefone mais uma vez), era tarde demais para ligar para o escritório agora. A Calder Hayes estaria fechada.

Mas ainda era cedo o suficiente para ligar para o chef, só que, primeiro, precisaria ler um pouco. Pegou a pasta com a letra de Sarah na etiqueta, Sam Liang, e se aninhou com ela no sofá.

A primeira coisa que viu foi que se tratava de um chef de renome nacional, o que devia estar próximo dos melhores no sistema chinês, e havia uma lista de prêmios e distinções. Ele tinha subido rápido, pensou. Só fazia quatro anos que estava lá. Então reparou num trecho do livro do avô dele, O Último Chef Chinês.

“A comida chinesa tem características que a diferenciam de todas as outras comidas do mundo. Primeiro, seu equilíbrio conceitual. O domínio é exercido pelo fan, os grãos, sejam de arroz ou de trigo, transformados em massas e pães e bolinhos. Song ou cai é o alimento saboroso que o acompanha, verduras e legumes temperados, às vezes carne. Destas, o porco vem primeiro, seguido pelos animais aquáticos em toda sua variedade. A soja é usada em muitos produtos, fresca e fermentada. Dian xin são petiscos, que englobam tudo da cozinha dim sum cantonesa, além de castanhas e frutas. Ferver, cozinhar no vapor ou refogar são preferíveis, nesta ordem, empilhando os alimentos quando possível para economizar combustível. Pauzinhos são usados. Entre as culinárias do mundo, apenas a japonesa e a coreana compartilham estas características, e todos sabem que sua influência deriva da China.”

Ela desviou o olhar para Pequim, além da janela. Os contornos urbanos do progresso reluziam para ela, os guindastes com suas luzinhas piscantes, os esqueletos altos e meio acabados. Aquela obviamente era uma cidade em movimento. E, no entanto, esse chef parecia estar se remetendo ao passado.

Ótimo, ela concluiu. Contradições prometiam. Conferiam profundidade. Esticou a mão para pegar o celular e digitou o número dele.

Tocou duas vezes, então alguém atendeu.

— Wei — foi o que ela ouviu.

— Olá, gostaria de falar com Sam Liang.

No mesmo instante, ele se transformou em americano.

— Sou eu.

— Aqui é Maggie McElroy. Da revista Mesa.

— Ah, sim — ele respondeu. — O artigo sobre o restaurante. Pera aí. Não acredito que você já chegou. Está em Pequim?

— Estou…

— Ainda não mandei o e-mail, nem liguei. Já deveria ter feito isso.

— Como assim?

Ele mexeu no telefone e então retornou.

— Espero que não tenha vindo até aqui só para falar comigo.

— Como?

Não era essa a idéia? Não era isso que ela deveria fazer? Sarah lhe dissera que ele já estava pronto para recebê-la.

— Apenas em parte — ela disse a ele então ao telefone. — Tenho outro assunto de que tratar.

— Fico feliz em saber — ele disse. — Porque neste momento, desde hoje de manhã, meu restaurante não vai mais abrir.

— Por quê?

— Parece que perdi meu investidor.

— Mas você vai conseguir outro, com certeza… não vai?

— Espero que sim. Vou tentar. Mas enquanto isso não ocorrer e estiver tudo incerto, sinto muito, não vou poder fazer a matéria.

Maggie não raciocinava bem de bate-pronto. Sempre descobria a reação adequada posteriormente, quando já era tarde demais. Escrever dava mais certo: assim ela tinha tempo para refletir sobre as coisas; por isso escolhera aquela profissão.

Mas agora precisava inventar algo bem rápido.

— A matéria não precisa ser sobre o restaurante. Um perfil seu seria ótimo.

— Um perfil meu? Falando que o meu restaurante não vai abrir?

— Não é bem isso…

— Com o que acabou de acontecer, não posso dizer que considere esta uma boa idéia. Espero que compreenda.

— Pode ser um erro. — A cabeça dela era um redemoinho, buscava estratégias e não encontrava nenhuma. — De verdade.

— Por favor… srta. McElroy, é isso?

— Maggie.

— Aceite minhas desculpas. E por favor diga também à sua editora que sinto muito, de verdade. Eu não fazia idéia de que isto aconteceria.

— Compreendo — Maggie respondeu. — Não quer pelo menos dar uma pensada sobre o assunto? Porque vou ficar aqui alguns dias.

— Vou pensar, se prefere assim. Mas não sei como posso dar uma entrevista sobre um restaurante que não vai abrir. Nem como o meu perfil pode ser publicado depois disso que acaba de acontecer.

— Compreendo — ela respondeu.

Estava decepcionada, mas também se compadecia. A inauguração tinha requisitado muito da atenção dele.

— Aproveite a sua viagem.

Aquilo era uma coisa muito americana de se dizer, educada, levemente forçada, distante. Ele quer se livrar de mim.

— Em todo caso, anote meu telefone.

— Certo — ele respondeu.

Anotou o número obedientemente e agradeceu quando ela lhe desejou boa sorte. Então os dois se despediram, sorriram para o telefone e desligaram.

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