Trecho do Livro: Amazônia, 20º Andar | Guilherme Fiuza

Livros Amazonia 20 Andar Guilherme Fiuza BooksLivro: Amazônia, 20º Andar

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Andar pela Amazônia é sempre um festival de descobertas. Mas depois de uma razoável quilometragem por rios e matas da região, fui encontrar a melhor história da floresta tropical no Rio de Janeiro.

Quer dizer: uma história que leva o Rio de Janeiro para a Amazônia, e a Amazônia para Nova York e Paris.

O que leva uma estilista e um empresário confortavelmente instalados na cidade a apostarem seu futuro, sua pele, enfim, suas vidas no Acre? De Bia Saldanha e João Augusto Fortes, os protagonistas desta história real, pode-se dizer tanto que ganharam tudo, quanto que perderam tudo.

Os dois estiveram com Chico Mendes numa passeata na orla carioca, um mês antes do assassinato dele. A partir daí, sonharam unir-se a índios e seringueiros para criar na floresta um produto sofisticado que encantasse o mundo. O sonho tinha toques de megalomania. E foi posto em prática.

Para o repórter, interessou a Amazônia real que surge por trás do mito romântico, revelada pelo olhar urbano de Bia e João. Um choque de fascínio e estranheza. O mais fascinante e estranho, no entanto, é o que acontece com as pessoas comuns no cenário gigante da floresta. Um lugar pouco recomendável para quem não quiser conhecer seu lado avesso.

Os fatos narrados nas páginas que se seguem são verídicos. Foram apurados em cerca de 70 horas de entrevistas gravadas no Rio de Janeiro e no Acre, com variados personagens dessa história, além de anotações de campo e pesquisa documental.

Boa viagem. Não esqueça o filtro solar.

BARRADO EM IPANEMA

O homem baixo, gorducho e com jeito caipira já estava se acostumando com a cidade grande, mas pela primeira vez chegou do mato sem alegria nos olhos. Embora fosse um líder severo, comandante de batalhas duras no faroeste verde do Brasil, de perto transbordava doçura. Riso fácil, tiradas sacanas, nenhuma auto-referência ao papel de líder. Tinha algo de moleque. Ou de santo.

Chico Mendes chegava dessa vez ao Rio de Janeiro sem alegria nos olhos porque já sabia que ia morrer. “Não duro até o Natal”, foi logo dizendo, com sua franqueza rude, a um de seus anfitriões, o empresário João Augusto Fortes. Era dia 9 de dezembro de 1988, portanto sua expectativa de vida — no auge de sua vitalidade — era a de um doente terminal.

João Augusto estava entre uma meia dúzia de abnegados que tinham cismado de tentar fazer o Brasil conhecer Chico Mendes. No ramo da construção civil, João se especializara em urbanismo — quase um paradoxo, como um dono de açougue que vendesse moderador de apetite. Do urbanismo foi se metendo com ar, gente, árvore. Acabou interessado em contribuir com campanhas políticas que encampassem a então novíssima causa da ecologia.

Voltando de uma viagem ao Acre, a atriz Lucélia Santos e o jornalista Alfredo Sirkis vieram com a dica inusitada: em vez de dar dinheiro para candidatos, o empresário poderia bancar a vinda de um seringueiro ao Rio. Era um sujeito diferente, que botava dezenas de famílias na frente das árvores para “empatar” a ação das motosserras. Um Mahatma Gandhi amazônico.

A idéia foi comprada imediatamente. João passou não só a financiar viagens de Chico Mendes a Rio e São Paulo como a circular com ele entre gente influente, passando adiante sua mensagem exótica: o arcaico povo seringueiro era a saída mais moderna para a proteção da Amazônia. O empresário acreditava na causa, mas acreditava sobretudo em Chico. Nunca vira alguém tão focado em sua missão, e ao mesmo tempo tão suave na vida, tão radiante, tão capaz de se divertir com tudo.

Um homem que vinha de um front onde a vida podia valer menos que uma tora de mogno, e parecia estar sempre chegando de um retiro espiritual. Personagem de um mundo pesado, Chico era leve. Só falava de si se perguntado. Especialista em gente, João não teve dúvida: estava diante de um ser raro. Possivelmente um missionário. Não como um daqueles despachantes de dogmas que proliferam nos livros de história. Um missionário de verdade.

Numa dessas viagens ao Rio, em 20 de novembro de 1988, Chico Mendes chegou para uma manifestação pública. Não seria mais uma passeata no Centro da cidade, das que tradicionalmente cruzavam a Avenida Rio Branco entre a Igreja da Candelária e a Cinelândia. Entre os organizadores, havia uma banda criativa da elite carioca interessada em borrifar um pouco de estética na política.

Dois anos antes, tinham inventado de propor um cordão humano em torno da Lagoa Rodrigo de Freitas, em apoio à candidatura do jornalista Fernando Gabeira a governador. A idéia era megalomaníaca e fadada à inviabilidade, até o momento em que o abraço surrealista se concretizou, com milhares de mãos dadas em torno do poluído cartão-postal. Para essa turma, não fazia sentido levar o líder florestal para a zona cinza da cidade.

Nada de parar o trânsito e respirar fumaça. Já bastava a das queimadas. Caminhariam tranqüilos pela orla, olhando a paisagem, sem atrapalhar o ir-e-vir de ninguém. Biquínis e sungas não quebrariam a seriedade do protesto, nem o seu bom andamento. Só faltou combinar isso com eles.

Em dia de pistas fechadas ao trânsito, a única fumaça viria de uma tocha. Chico Mendes a receberia no trajeto através de Jardim Botânico, Leblon, Ipanema, Copacabana e Botafogo, e a levaria como um atleta olímpico até o monumento a Estácio de Sá, no Aterro do Flamengo. Ali, em vez de uma pira para receber o fogo, haveria uma pia para apagá-lo. Era o recado estético contra a queima das florestas.

O dia da manifestação amanheceu ensolarado, impecável, e o ato começou com um grupo de alpinistas escalando o Pão de Açúcar. Se o vento não atrapalhasse, eles pregariam no costão do morro uma faixa gigantesca, em que cada letra do slogan “Salve a Amazônia” tinha o tamanho de um prédio de quatro andares. Era um belo esforço de João Augusto e seus aliados para tirar Chico Mendes do anonimato, mas o alto astral estava amarrado numa bola de ferro.

Estava ficando cada vez mais claro que as idas do líder seringueiro ao Centro-Sul do país, com toda sua estratégia de alerta, poderiam ser só pequenas fugas da sua via-crúcis amazônica. Era preciso dar-lhe uma proteção mais concreta, e João sabia disso.

O encarregado de acender a tocha era o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, futuro idealizador da Ação da Cidadania, a famosa Campanha contra a Fome. Nascia ali uma aliança sui generis. Exilado durante a ditadura militar, Betinho encarnava a crítica ao autoritarismo e ao grande capital. Era símbolo da esquerda pura. João Augusto era filho de militar e dono de uma das construtoras que mais cresceram no período autoritário, portanto identificado pela esquerda como “do sistema”. Os dois acabariam fazendo uma ponte rara entre o mundo do ativismo social e o do dinheiro e da influência.

Betinho apenas deu a partida ao ato. Sua fragilidade física, como hemofílico portador de Aids, não lhe permitia acompanhar os demais. Muitos outros abandonariam a marcha pelo meio, dada a enorme extensão do percurso — uma maratona, perto das passeatas na Rio Branco. Entre os que resistiriam até o fim havia outra pessoa muito importante para João. Mas ele não sabia disso, nem ela, nem sequer se cruzaram aquele dia. Também era empresária, mas estava querendo deixar de ser. Andaram quilômetros quase lado a lado, sem se olhar nem pressentir que estavam prestes a mudar o destino um do outro.

Na verdade, não andaram. Bia Saldanha estava de bicicleta. Vinha acompanhada do filho único, que se equilibrava em sua própria bicicleta sem rodinhas e, aos 4 anos, pedalava na velocidade de um garoto de 10. A casa do menino estivera cheia na véspera até a madrugada. A mãe recebera um grande grupo de amigos para preparar adereços que simulariam uma floresta tropical na orla do Rio. Todos beberam e riram até altas horas, mas o que os excitava e adiava o sono aquela noite era a perspectiva concreta de salvar a Amazônia. Acreditavam mesmo que estavam fazendo isso.

Recém-separada de seu primeiro marido, Bia estava, aos 25 anos, prestes a se separar também de seu primeiro negócio. Tinha uma butique em Ipanema de roupas leves e coloridas que vestiam a nata do beautiful people praiano. O sucesso precoce como empresária de moda não lhe subira à cabeça. Ao contrário, queria a cabeça livre para outras coisas, não sabia precisamente o quê.

Se perguntassem, dizia que queria ser militante. Corria o sério risco de não ser levada a sério, mas não seria novidade. Já passara por isso quando dissera, aos 18 anos, que queria ser empresária. Os que a conheciam de perto preferiam não duvidar mais.

Vestir jovens beldades cariocas não tinha mais graça. O que a seduzia agora era vestir os defensores da floresta, de preferência o próprio Chico Mendes. Bia vinha se aproximando do embrião do Partido Verde, que Gabeira tentava estruturar no Brasil. Uma das campanhas para oficializar o PV seria a produção de camisetas com o slogan “Legalize” — importado do refrão “Legalize mar_juana”, cantado por Bob Marley —, com o duplo sentido de legalização da m_conha e do partido.

O designer Jair de Souza criou a marca e Bia produziu a camiseta. Era uma peça sofisticada, com oito cores, de difícil aplicação e custo alto. Ou seja: ficou linda, mas inútil para legalizar o partido. Estética 1 x 0 política.

Mesmo assim, um número limitado de camisetas “Legalize” foi produzido, e a certa altura alguém teve a idéia de enfiar uma em Chico Mendes. Um seringueiro que estava ali para defender seu povo sofrido não ficaria à vontade vestindo um slogan pró-drogas. Mas Chico ficou. Disse que o PV era uma boa causa e foi em frente. O caipira era, na verdade, um cosmopolita. Agora vestido pela empresária-militante Bia Saldanha.

Ao cruzar a divisa entre Leblon e Ipanema, a passeata estava em seu momento mais robusto. Já colhera boas adesões e as desistências ainda não tinham começado. Repórteres, fotógrafos e cinegrafistas foram se juntando ao grupo, que não gritava palavras de ordem e tinha sérios problemas de coesão (se fosse uma escola de samba seria um desastre), mas ao menos já se distinguia do simples passeio dominical. Nem os jornalistas, nem os passantes sabiam direito quem eram aquelas pessoas, mas os primeiros ainda pareciam receptivos à coisa. Os outros, nem tanto.

E chegou a hora em que a turma da sunga e do biquíni veio tirar satisfações. Os mais encrespados estavam, a rigor, de bermudões e chinelos, já não eram jovens e faziam o tipo síndico-xerife. Foram direto para cima do carregador da tocha, sabendo que assim barrariam a marcha.

Quem estava com o fogo simbólico naquele momento era o jornalista e ex-guerrilheiro Alfredo Sirkis, recém-eleito vereador. Ao lado dele estava o caipira baixote gorducho, de bigode cafona, que também parou de caminhar. Mas ninguém nem falou com ele. Estava claro que o louro alto de voz trovejante e tocha na mão era o líder.

O grupo de moradores contrariados foi claro: a passeata estava tumultuando a área de lazer dominical e, para piorar, alguns carros da imprensa tinham entrado na pista fechada da Vieira Souto. A manifestação não poderia prosseguir, anunciaram.

Sirkis reagiu indignado, afirmando que ali estava em jogo uma causa importante para o Brasil e que os moradores eram uns alienados. A cada argumento de parte a parte, a possibilidade de entendimento diminuía.

Enquanto na Amazônia avançavam o fogo e a conspiração para assassinar Chico Mendes, ele permanecia refém do bate-boca praiano, espremido entre o vereador e o síndico. Anônimo, barrado em Ipanema.
  
Para o Brasil urbano, ainda não fazia sentido aquele papo de seringueiro. Chico Mendes não dava samba, nem notícia. A preocupação com a devastação da Amazônia existia, mas era difusa. A maior floresta tropical do mundo era um símbolo para os brasileiros, mas continha sensações misturadas de orgulho e de atraso. Era a região remota dos índios e onças, do rio-mar e seus superlativos enciclopédicos, das reportagens de Amaral Netto sobre a pororoca, da natureza mítica e indomável.

Aos olhos do Sudeste, o personagem de Chico Mendes não se encaixava nesse cenário bíblico. Parecia só um camponês metido numa briga por terra.

João Augusto e seus parceiros tentavam cavar matérias de jornal sobre o “empate” dos seringueiros do Acre, sem sucesso. Não havia sequer dados sistematizados sobre a taxa global de desmatamento da Amazônia, e não seria uma briga de vizinhos de seringal que ia dar manchete. Mas, se a profecia macabra do líder seringueiro estivesse certa, não daria para esperar pela sensibilidade dos editores.

O empresário não teve dúvidas: Chico Mendes não poderia voltar para o Acre. Era preciso escondê-lo no Rio até que conseguissem algum controle sobre a situação.

O vento não atrapalhou e a faixa de 50 metros de altura vestiu o Pão de Açúcar com o grito pela floresta. A faixa era de juta da cor da pedra, de modo que as imensas letras brancas pareciam levitar sobre o costão. A estética mais uma vez dava uma mão à política, atraindo as TVs e os jornais para a propagação de uma mensagem meio sumária, meio telegráfica — mas, de qualquer forma, uma mensagem.

Lá embaixo a passeata desenguiçou. Não que o síndico e o vereador tivessem se entendido. O deputado estadual Carlos Minc, um dos líderes da manifestação, até conseguira baixar a temperatura do bate-boca. Mas quem resolveu a parada foi o caipira anônimo. Vendo que a discussão ia longe, Chico Mendes simplesmente pegou a tocha da mão de Sirkis e saiu andando em frente, sozinho, sem olhar para trás. Foi um ato tão singelo, silencioso e firme que ninguém teve o impulso de tentar detê-lo.

Quando os contendores assimilaram a cena, Chico já ia longe, passo firme, decidido a apagar o fogo simbólico da destruição. A passeata não teve alternativa senão recompor-se atrás dele.

O Fantástico mostrou a montanha pedindo a salvação da floresta, e a cerimônia de afogamento da tocha. Mas Chico Mendes continuou anônimo e a temperatura da sua fornalha acreana foi subindo. Em 9 de dezembro, quando chegou ao Rio anunciando sua própria morte, ouviu a proposta de João Augusto: não voltar mais para o Acre. Receberia todos os meios para comandar sua luta baseado no Rio de Janeiro, enquanto seu Tibete amazônico estivesse dominado pelos pistoleiros.

Não havia muito tempo para pensar na resposta. E Chico nem piscou. Disse que ficar fora de sua terra era morrer por antecipação. Não dava para salvar a Amazônia de Ipanema.

Mais uma vez a determinação serena do líder, agora dramatizada pela situação-limite, impressionou João. Mas o brilho tinha sumido dos olhos de Chico. Ele já sabia que não tinha chance.

O empresário não jogou a toalha. Se a opinião pública e o Estado não se mexiam para salvar a vida do líder florestal, por que não montar uma pequena brigada particular? João passou a consultar colegas que tivessem a mistura suficiente de dinheiro e sensibilidade para montar a operação. Sirkis, que fora seu primeiro elo com Chico Mendes, coordenou a missão. Na luta contra a privatização da floresta pelos grileiros, o jeito era privatizar a segurança do maior inimigo deles.

Enquanto isso, a guerra da comunicação continuava. O jornalista Edilson Martins, acreano radicado no Rio, resolveu fazer com Chico Mendes a entrevista que nenhum grande veículo de comunicação se interessara em fazer. Depois ofereceria o peixe pronto, talvez ficasse mais atraente.

Vibrante e arrojado, Edilson tentava romper a barreira do desinteresse pelo Acre, começando a mostrar que ali brotava um dos principais focos de resistência à destruição da Amazônia. Foi se aproximando dos editores da grande imprensa carioca e paulista com seu jeito meio engajado, meio irreverente. Certa vez, convenceu o colega Elson Martins da Silveira a parar de assinar o último sobrenome. Ficariam assim com identidades quase gêmeas — Edilson Martins e Elson Martins, ambos jornalistas acreanos —, pelo puro prazer de confundir os outros.

No meio da labuta na selva sem lei, de vez em quando se encontravam para devolver ao verdadeiro dono as cartas, as congratulações e também as ameaças recebidas em nome do outro. Tinham achado um jeito de se divertir na guerra.

Um dos editores de quem Edilson Martins começara a se aproximar era Zuenir Ventura, expoente do Jornal do Brasil. A entrevista com Chico Mendes estava feita, e o lead era simples: ele anunciava que ia ser morto. Mas isso também podia não querer dizer muito. Sempre houve uma razoável quantidade de paranóicos e oportunistas avisando às redações que estavam sendo ameaçados de morte.

Acabaram valendo, nesse caso, o carisma do repórter e a intuição do editor. Zuenir se convenceu de que tinha uma matéria importante nas mãos. Decidiu que a publicaria. Mas não queria publicá-la numa página interna qualquer do jornal. Achou que Chico Mendes deveria ser a capa do Caderno B Especial, então o principal suplemento dominical da imprensa brasileira. O problema era que a capa do B Especial era mais concorrida que terra de seringueiro. A edição seguinte, do dia 18 de dezembro, já estava comprometida, e a matéria de Edilson teria que esperar o outro domingo.

João Augusto comemorou a aprovação da matéria no JB. Mas tocou seu plano em frente. No dia 22, uma quinta-feira, reuniu numa grande sala da João Fortes Engenharia o grupo que patrocinaria o esquema de segurança particular de Chico Mendes. Definiram a quantia, reuniram o dinheiro e tomaram as providências para que já na segunda-feira após o Natal, dia 26, o esquema pudesse ser posto em prática. Aí esperariam a repercussão da matéria de Edilson Martins para capturar a atenção das autoridades para o caso.

Desde que começara a se interessar pela contribuição com causas ecológicas, João nunca se sentira fazendo algo tão concreto em defesa do meio ambiente. Estava animado com aquela relação direta com o missionário da floresta.

No início dos anos 70, sua geração se dividira entre os que pegaram em armas contra a ditadura, os que se deixaram enquadrar e os que foram fumar mac_nha em Búzios. Alfredo Sirkis estava no primeiro grupo. João não estava em nenhum. Largou a faculdade, se mandou para Londres, e intrigava os amigos dizendo que sua causa era decifrar e defender a Amazônia. Mais de 15 anos depois, sua causa já não parecia tão exótica, e ele, que sempre preferira as pessoas às idéias, era agora aliado de um legítimo líder amazônico.

O bem-estar com sua ação concreta em defesa da floresta, porém, durou só algumas horas. No final da noite, Sirkis telefonou para sua casa informando que Chico Mendes estava morto.

No dia seguinte, sexta-feira 23, a sala da João Fortes onde ocorrera a reunião sobre Chico Mendes estava em festa. Na confraternização de fim de ano dos funcionários da empresa, destacava-se um coral cantando o “Jingle Bells” a plenos pulmões. O som chegava até o andar inferior quase deserto, e encobria os soluços do ocupante solitário da sala das secretárias da diretoria. João Augusto não parava de chorar, nem de tentar um sinal de fax do outro lado do oceano.

Tinha em mãos uma cópia da matéria de Edilson Martins, que chegara tarde demais. Zuenir Ventura ainda convencera os editores do JB a publicar a entrevista póstuma do caipira anônimo na primeira página do jornal. O fax iria para uma jornalista brasileira em Londres, contatada às pressas por João para traduzir para o inglês a entrevista de Chico (agora encabeçada pela notícia trágica), e espalhá-la pelas agências de notícias internacionais. Enfim, para botar a boca no mundo, já que o Brasil estava surdo.

Quando o sinal do fax londrino apitou e João começou a empurrar o papel máquina adentro, ouviu a voz de Chico Mendes: “Se pelo menos os seringueiros e os índios parassem de morrer à toa, podia ser que a minha morte valesse a pena.” A frase triste dita 15 dias antes voltava à cabeça do empresário, exatamente no tom sereno que a ouvira de Chico, agora lhe provocando calafrios.

Nunca vira alguém apontar para o seu próprio filme e dizer “essa é a hora em que eu morro”. Imaginando sua mensagem brotando do fax na Europa, quis responder a Chico que aquela era a hora em que não te deixamos morrer em vão.

Na verdade, não tinha certeza disso. Nem de nada. Talvez o mundo não mudasse um milímetro com a morte do líder seringueiro. No meio da dor, só uma constatação se impunha inexorável, ecoando a última decisão de Chico Mendes: não dava para salvar a Amazônia de Ipanema.

A Ipanema que barrara Chico Mendes à beira-mar começava a ficar um lugar mais distante também para outra participante daquela passeata.

Bia Saldanha decidira fechar sua butique Cores Vivas, na Visconde de Pirajá com Aníbal de Mendonça. Quando a notícia da morte do líder amazônico explodiu mundo afora, a partir de centelhas como o fax de João Augusto, jornais de vários países (agora incluindo o Brasil) passaram a publicar fotos do caipira que finalmente começava a sair do anonimato. E, na maior parte dessas publicações, Chico Mendes aparecia vestindo a camiseta “Legalize” produzida por Bia na Cores Vivas.

Na imagem que ganhou o mundo, porém, as cores não estavam mais vivas. Era hora do adeus a Ipanema.

Mas ir para onde? Do alto de seus 4 anos de idade, Zé Roberto, o filho velocista que atravessara os seis bairros da passeata no pelotão dianteiro, deu a pista. Quis saber da mãe se agora, sem Chico Mendes, “eles vão destruir tudo”. Era o seu jeito de perguntar: “O que você vai fazer?” Ela não sabia. Só sabia que, fosse o que fosse, era para esse lado que a sua vida iria.

A bússola interna apontava para a floresta. Mas salvar a Amazônia montando árvores cenográficas numa noitada no Jardim Botânico era uma coisa; floresta de verdade — e a execução de Chico Mendes trazia esse recado — era outra. Como já dissera Fernando Gabeira, alertando os candidatos a heróis ecológicos, a floresta gosta de engolir aqueles que entram nela para salvá-la. E foi na casa de Gabeira que Bia colheu a primeira pista sobre qual caminho seguir — não exatamente seguro, mas, de qualquer forma, um caminho.

Era uma reunião política dessas que juntam gente de várias tribos, e acaba não se sabendo direito quem convidou quem. No meio dessa fauna, chamou sua atenção um personagem peculiar. Um empresário que parecia militante, que parecia pragmático, que parecia sensível, que parecia rico. Um cara diferente. Aparentemente despojado. Certamente poderoso.

Bia mal trocou meia dúzia de palavras com ele, mas guardou seu nome: João Augusto Fortes. E guardou também outra informação essencial: seu telefone. Não sabia quando, nem por que, mas estava certa de que chegaria o dia de ligar para ele.

O dia chegou quando, na seqüência da morte de Chico Mendes, Bia desistiu de ser dona de butique. Antes de fechar a Cores Vivas, ainda tentou uma transição com um projeto ao ar livre, em parceria com Gabeira. Era uma série de camisetas com estampas ecológicas criadas por artistas plásticos consagrados, numa espécie de loja itinerante — montada num triciclo — que estaria cada dia num ponto da cidade. Chamava-se “Descamisados”, parodiando o bordão populista do presidente eleito Fernando Collor.

A iniciativa foi um sucesso de crítica e um fracasso de público. O triciclo e sua freguesia pareciam não freqüentar as mesmas esquinas. A “loja” precisava se deslocar com agilidade para os pontos de convergência de gente in. O piloto da engenhoca era o ator Paulinho Miranda, um baiano esguio bom de prosa, meio filósofo, muito querido no Rio. Infelizmente o triciclo não era movido a charme. E era pesado. Pedalá-lo era uma certa estiva, e o forte de Paulinho eram o pensamento e a contemplação. A loja itinerante, evidentemente, enguiçou.

Entre os poucos que se deslumbraram com os “Descamisados” estava João Augusto. Quando Bia telefonou, já havia portanto algum vento a favor dela. Mesmo antes, na casa de Gabeira, a jovem estilista já havia chamado a sua atenção. Não exatamente por seu talento.

Diante de um punhado de personalidades cariocas ali reunidas — gente como o maestro John Neschling e sua mulher, Lucélia Santos, o psicanalista Luiz Alberto Py, Alfredo Sirkis, a promoter Lucia Sweet, o ecologista Guido Gelli (autor da idéia de Chico Mendes apagar a tocha), o sociólogo Liszt Vieira, o próprio Gabeira e outros notáveis —, Bia pediu a palavra.

A moça morena de longos cabelos eriçados e olhos apertados — ali especialmente apertados pela fumaça ingerida — não parecia inibida pela audiência vip, e começou a expor com firmeza e entusiasmo seu pensamento. Seu discurso estava prestes a fazer sentido quando ela, misteriosamente, parou de falar. Talvez fosse uma pausa, e todos esperaram em silêncio que ela retomasse a linha de raciocínio. Mas ela não retomaria.

Tranqüilamente, abortou sua própria fala com um comentário singelo, como se estivesse numa roda de amigos à beira-mar:

— Dispersão é f_da.

Bia simplesmente tinha se esquecido do que estava falando.

O constrangimento da situação poderia tê-la reduzido a pó, mas ela não se abalou. Aquela mistura de espontaneidade com petulância valeu mais que mil palavras inteligentes. E estava só começando a impressionar João.

Com o mesmo desprendimento com que pediu a palavra (e a devolveu pela metade) na reunião política, Bia ligou para o empresário que mal conhecia. Decidira que ele teria uma resposta para sua difícil equação pessoal: a) queria deixar de ser dona de loja; b) queria virar militante; c) tinha uma casa para sustentar. João atendeu-a logo na primeira tentativa, e ela foi direta: disse que estava fechando a Cores Vivas e queria trabalhar na área de meio ambiente. Com ele.

João também foi direto:

— Não feche a sua loja. Não tem trabalho nessa área.

Como de hábito, Bia não se abateu. Continuou falando como se não tivesse acabado de ouvir a palavra “não” duas vezes. Mas dessa vez não se dispersou. Disse que estava decidida a ser ambientalista, e mais: que sabia que ia haver uma conferência mundial de meio ambiente no Brasil, e também sabia que João estava envolvido na organização dela. Era um megaevento sobre o qual pouquíssima gente ainda sabia, ou seja, no mínimo a moça era bem informada.

Aí foi o empresário quem a surpreendeu. Não só insistiu para que Bia não fechasse a Cores Vivas, como se ofereceu para entrar como sócio na loja. Ela não entendeu nada. Ele explicou:

— Pra que você quer ser ecologista? Já tem um monte por aí. O que falta é empresário. Empresário com uma visão como a que você já tem. Meio ambiente tem que dar resultado, tem que dar lucro. Senão a gente nunca vai poder dizer que, no mundo real, vale a pena a floresta ficar em pé.

Tinha baixado Chico Mendes no discurso de João. Nas conversas com o líder seringueiro, ele descobrira o quanto aquele personagem de um mundo arcaico tinha uma concepção moderna dos seus problemas. Chico não queria mesada para seringueiro nem favor para índio. Queria apenas conectar os “povos da floresta” ao mercado.

Nunca se ouvira nada parecido vindo das várzeas amazônicas. Chico Mendes era um ribeirinho que conhecia Karl Marx e Adam Smith. Entendera que uma árvore não cai se tiver sustentação econômica e mercadológica. Fora assassinado por isso. Fazendeiros, madeireiros e grileiros nunca se importaram com os que defendiam a floresta como um jardim. Sabiam que esses messias se derretem ao primeiro contato com a vida real. Mas um sujeito que propagava a floresta como meio de vida era perigoso demais.

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