Trecho do Livro: Romance Sem Palavras | Carlos Heitor Cony

O romancista e jornalista Carlos Heitor Cony foi preso diversas vezes durante o regime militar que imperou no Brasil durante os anos 60. Os fatos reais que Cony vivenciou naquela época inspiraram a produção e a publicação deste romance. Além de escritor, Carlos Heitor Cony também é colunista da Folha de São Paulo e comentarista da rádio CBN e do canal de TV BandNews.
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Ainda que viva cem, mil anos, não esquecerei aquele dia em que, deitado no leito miserável da cela B 17, a porta se abriu e dois soldados empurraram um corpo que logo se estatelou no chão de ladrilhos. De início, nem parecia um corpo mas um saco, enorme e comprido, que desabou e, estranhamente, não fez nenhum ruído quando caiu. Ou, quem sabe, o espanto — seria melhor dizer: o medo — não me deixou ouvir nada. Todos os meus sentidos ficaram resumidos no olhar — um olhar que procurava entender não o que estava vendo mas o que ainda poderia ver.

Sempre que aquela porta se abria, alguma coisa poderia acontecer comigo. As duas refeições diárias eram colocadas numa pequena bandeja giratória na parede ao lado, e nos quinze dias em que ali estava, a porta só se abria à noite, para mais um interrogatório. Já tudo havia respondido, o que sabia e não sabia, minhas informações estavam sendo checadas, se elas não fizessem sentido ou fossem julgadas insuficientes, eu começaria a ser torturado.

Das celas vizinhas, sobretudo durante a madrugada, eu ouvia os gemidos daqueles que voltavam do porão do quartel que o regime político transformara em prisão. Não eram gritos, eram gemidos mesmo, que duravam horas. Mesmo assim, em certas noites, apesar de distantes, eu ouvia os gritos — e ainda que viva cem, mil anos, jamais me esquecerei deles.

Daí que nada precisei ouvir para jamais esquecer o que agora estava vendo, ali no chão da cela que até então ocupara sozinho. Eu via o resultado de muitos gritos acumulados num corpo que nem parecia corpo e que, tombado no chão, mais parecia uma carniça.

Nu, coberto de sangue, era branco como um corpo de mulher que não toma sol. Mas não era um corpo de mulher. A cabeça raspada indicava que podia ser um estrangeiro, um homem de outro clima e de outra raça, bem diferente dos presos com os quais eu cruzava à noite, quando ia para as sessões de interrogatório.

Tanto que pensei, num primeiro momento, que o cara ali estava por outro motivo, outro tipo de delito contra o Estado, ou mesmo um delito comum. A brancura de sua pele, que se adivinhava por baixo das placas de sangue que entravam em coagulação, não combinava com a pele tostada da maioria dos presos, que antes de serem apanhados viviam ao sol e à chuva, geralmente no meio do mato, nos subúrbios castigados pelo calor, fugindo das patrulhas e batidas dos camburões da polícia ou do Exército.

Esperei a porta se fechar para ver mais e melhor. Nos dois anos em que entrara no movimento, no começo como redator de manifestos e mensagens, mais tarde como uma espécie de responsável pelos recursos do grupo, nunca tinha visto um tipo como aquele metido na luta que iniciáramos tão logo ficou claro que, se nada fosse feito, a ditadura seria longa e progressivamente cruel.

Ao lado da cama, numa cadeira que tinha um dos pés avariados, havia uma moringa de barro com uma água que a temperatura naqueles dias de verão tornava morna, quase quente. Levantei-me, esperei ouvir os passos dos soldados se afastando no corredor, molhei as mãos e com elas procurei limpar o rosto daquele corpo que não precisava gemer para mostrar que estava sofrendo.

Na altura da testa, junto à raiz dos cabelos raspados, havia um talho profundo do qual ainda saía um filete de sangue. Fora dali, com certeza, que o sangue empapara o resto do corpo, embora houvesse outras feridas espalhadas pelo peito, pelas costas, pelos braços.

À medida que eu limpava o sangue, a brancura daquela pele surgia com uma palidez de moça. Uma pele macia, suspeita para um homem de seus trinta anos, não mais.

“Que seria aquilo?”, foi a pergunta que me fiz, logo reconhecendo que devia tê-la formulado de outra forma: “Quem seria aquilo?”. O “aquilo” se justificava: não era mais um corpo ali tombado, mas um troço de carne ferida e, dentro dela, um enigma que eu nunca decifraria, nem mesmo agora, tantos anos passados.

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