Trecho do Livro: Uma Breve História do Século XX | Geoffrey Blainey

Livros Uma Breve Historia do Seculo XX Geoffrey Blainey BooksLivro: Uma Breve História do Século XX

Saiba onde encontrar este livro

O nascer do século 20 foi tal qual uma aurora resplandecente. Esperava-se mais desse período do que jamais se havia esperado de outros. Tanto havia sido conquistado no século anterior, que parecia sensato acreditar que dali em diante os êxitos do mundo em muito superariam os desastres.

O novo momento prometia bastante aos povos europeus, quer ainda habitassem o Velho Mundo ou as longínquas terras colonizadas. Seus filhos poderiam esperar uma educação melhor do que nunca, e o trabalho de crianças de 10 anos em tempo integral, em fazendas e oficinas, já não parecia normal. A vida melhorava, a fome diminuía, as pessoas viviam mais. Os conflitos entre as principais nações da Europa pareciam se extinguir, embora grandes exércitos ainda desfilassem em feriados nacionais. Democracia e liberdade se espalhavam. No entanto, a maior parte de tais benefícios atingia apenas um quarto da população mundial, e não parecia provável que viesse a alcançar a África, a Ásia ou as remotas ilhas do Pacífico.

O século se iniciava de modo promissor e, ao mesmo tempo, perigoso. A aurora de 1901 se anunciava de maneira reluzente, mas nuvens negras lentamente ameaçavam ofuscar a luz.

A Europa dominava uma grande porção do mundo. A maior parte da frota mundial de navios mercantes ou de guerra navegava sob bandeira britânica, alemã ou francesa. O continente concentrava algumas das maiores cidades do mundo, com seus palácios famosos, seus museus, suas galerias de arte e suas universidades. A maioria das estradas de ferro e linhas telegráficas era construída ou financiada por companhias européias. Quase todas as principais ilhas eram províncias ou colônias do império britânico, da Holanda, da França, de Portugal, da Espanha ou da Alemanha. A quase totalidade da África e praticamente todas as ilhas do Pacífico estavam sob domínio europeu. Na Ásia, os únicos grandes países não subjugados pela Europa eram a China e o Japão.

O império britânico, o maior já conhecido pelo mundo, ainda não havia atingido seu auge. Detinha uma impressionante parte de cada continente habitado e um cordão de ilhas em cada oceano. No ano de 1900, dominava os mares, com barcos carvoeiros no Mar do Norte, navios de passageiros rumo a portos distantes e tramp steamers com “chaminés empastadas de sal”. O império britânico e a China tinham, cada um, 400 milhões de habitantes, abrigando, em conjunto, metade da população mundial.

Evoluindo de modo desordenado, esse império era diferente de todos os anteriores. Em algumas colônias, os representantes britânicos eram extremamente poderosos, enquanto em outras não passavam de simples figuras protocolares. No Egito, os oficiais britânicos de maior patente tomavam as decisões, mas assentiam que altivos “paxás”, fumando suas cigarrilhas em suntuosos escritórios, desfrutassem do prestígio. Por outro lado, Canadá, Austrália e Nova Zelândia dispunham de grande autonomia, e seus parlamentos representavam mais fielmente o povo do que o próprio parlamento britânico. Esses países cada vez mais financiavam seus próprios exército e marinha, embora aceitassem a liderança britânica em caso de guerra. Em situação diametralmente oposta estavam as colônias da África e da Ásia, as quais não possuíam parlamento, juízes locais ou oficiais de alta patente, dependendo grandemente, em termos econômicos, da Grã-Bretanha.

O crescimento do império russo se deu de forma tão acelerada que ficou difícil diferenciar, nos mapas, a velha Rússia do novo império. O império russo se estendeu desde o Mar Báltico até o Oceano Pacífico. Era tão vasto que um de seus pontos limítrofes em um dos lados fazia fronteira com a Turquia e a Pérsia, enquanto o outro fazia divisa com a Coréia. Em tamanho, somente o império britânico o excedia. Um indício de quanto essa parte do império russo era recente: até 1860, a bandeira russa não tremulava em portos como o de Vladivostok, no Oceano Pacífico, ou o de Batumi, no Mar Negro. Mas, no início do século, a ferrovia transiberiana estendia-se ao leste, chegando ao Lago Baikal, na Sibéria, e logo atingindo o Oceano Pacífico. Tal abrangência deu a alguns observadores a sensação de que o século que se iniciava seria da Rússia.

A Alemanha era um império de feições mais jovens. Com apenas alguns pontos nos mapas de 1880, tomava a forma de um quebra-cabeça que chamava a atenção. Soldados, administradores, missionários e mercadores alemães haviam ocupado partes das costas oeste e leste da África e de Nova Guiné, bem como cordões de ilhas nas cercanias. No outro lado do Oceano Pacífico, próximo ao Equador, estavam a Samoa alemã, a Nauru alemã, bem como outros postos avançados. A distância entre algumas colônias alemãs era tamanha que um inspetor vindo de Berlim, ao fazer a inspeção anual dos escritórios de correios das colônias e usando somente os navios do serviço postal, poderia levar até oito meses para passar por todas elas. Uma vez que a Alemanha havia se tornado uma potência colonial, era necessário que formasse uma marinha de guerra – e essa poderosa força naval foi fator de instabilidade na Europa durantes os primeiros anos do século.

A França era um império mais antigo, fruto de mais de trezentos anos de colonização. Após a Grã-Bretanha, era o império mais difundido. Compreendendo a Indochina tropical e retalhos de pequenas colônias nas Américas do Norte e do Sul, o império francês detinha grande parte da África, incluindo uma série de províncias na costa sul do Mediterrâneo. Suas ilhas no Pacífico se estendiam desde a Nova Caledônia, uma das principais fontes de níquel do mundo, até o exótico Taiti. O território francês tinha somente a metade do tamanho do império russo, mas alcançava todos os grandes oceanos do mundo. Talvez não passasse de 20 o número de cidadãos franceses que já haviam visitado todas as colônias habitadas pertencentes a seu país. Tal declaração pode ser feita com uma boa dose de certeza, uma vez que a ilha dos baleeiros de Kerguelen jazia em total isolamento nos agitados mares do sul do Oceano Índico.

Um vasto império que muitos acreditavam estar à beira da ruína era o otomano. Com governo sediado em Constantinopla, fazia fronteira com as costas do Mediterrâneo, do Mar Negro, do Mar Vermelho e do Golfo Pérsico. Havia séculos que se encontrava cambaleante, sem, no entanto, sucumbir. Sua resistência periclitante, sua hesitação e sua indecisão iriam determinar a eclosão da Primeira Guerra Mundial.

A China, pródiga em recursos, cochilava enquanto diplomatas e negociantes europeus a cobiçavam. A mais populosa nação do mundo corria o risco de ser alvo de negociação por parte de potências estrangeiras, que a dividiriam. Derrotada pelo refeito Japão na guerra de 1894-95, a China permanecia intacta graças, em boa parte, a sua sorte. Em resumo, as ambiciosas nações européias e os Estados Unidos não conseguiram chegar a um acordo sobre a anexação e o controle do território chinês. Portos chineses, como os de Xangai, Macau e Hong Kong, já estavam sob o controle da Europa, e Taiwan havia sido recentemente anexado pelo Japão.

Os impérios europeus pareciam poderosos em 1900 e continuavam ávidos por expansão. Tudo entraria em colapso ao longo do século.

—–
+ Veja também: