Trecho do Livro: O Recurso | John Grisham

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O júri estava pronto.

Depois de quarenta e duas horas de deliberações, que vieram após setenta e um dias de julgamento, que incluíram 530 horas de depoimentos de quatro dúzias de testemunhas, e depois de uma eternidade sentados em silêncio enquanto os advogados discutiram, o juiz os instruía e os espectadores assistiam como falcões atrás de qualquer sinal de novidade, o júri estava pronto. Trancados na sala dos jurados, isolados e seguros, dez deles assinaram com orgulho o veredicto enquanto dois continuaram em seus cantos de cara feia, afastados e infelizes por discordarem. Todos se abraçavam e sorriam, sem modéstia por terem sobrevivido a essa pequena guerra e por agora poderem voltar de cabeça erguida para a arena com a decisão a que tinham conseguido chegar com pura determinação e incessante busca do compromisso. O martírio deles tinha chegado ao fim; o dever civil estava completo. Tinham servido além do esperado. Estavam prontos.

O presidente do júri bateu na porta e despertou Tio Joe de seu cochilo. Tio Joe, o velho meirinho, cuidara deles além de providenciar suas refeições, escutar suas reclamações e, discretamente, levar seus recados para o juiz. Quando era mais jovem e sua audição era melhor, corria um boato de que Tio Joe também escutava as deliberações dos jurados por trás de uma porta fina de pinho que ele mesmo escolhera e colocara ali. Mas esses dias acabaram e, como confidenciara apenas para a esposa, depois do martírio desse julgamento em particular, penduraria suas velhas chuteiras de uma vez por todas. A pressão de controlar a justiça estava acabando com ele.

Tio Joe sorriu e disse:

– Que ótimo. Vou chamar o juiz. – Como se o juiz estivesse em algum lugar no tribunal apenas esperando um chamado do Tio Joe. Em vez disso, como de costume, ele procurou um oficial de justiça e deu a ele a maravilhosa notícia. Era realmente animador. O velho tribunal nunca vira um julgamento tão importante e longo. Terminá-lo sem uma decisão seria uma vergonha.

O oficial de justiça bateu de leve na porta do juiz, depois entrou e, como se ele mesmo tivesse pessoalmente participado de todas as negociações e agora estivesse apresentando o resultado como um presente, anunciou com orgulho:

– Temos um veredicto.

O juiz fechou os olhos e soltou um longo suspiro de satisfação. Abriu um sorriso nervoso que demonstrou seu enorme alívio, quase descrença, e finalmente disse:

– Procure os advogados.

Depois de quase cinco dias de deliberações, o juiz Harrison já tinha se conformado com o fato de que o júri não chegaria a um veredicto, seu pior pesadelo. Após quatro anos de um litígio que mais pareceu uma briga de foice e de quatro meses de julgamento inflamado, a idéia de um empate o atormentava. Não conseguia nem imaginar a possibilidade de começar tudo de novo.

Enfiou os pés nos mocassins velhos, levantou da cadeira sorrindo como um menino e pegou sua beca. Finalmente tinha acabado o julgamento mais longo de sua brilhante carreira.

A primeira ligação do oficial de justiça foi para a Payton & Payton, uma firma local formada por marido e mulher que agora funcionava em uma loja abandonada em uma parte menos favorecida da cidade. Um paralegal atendeu o telefone, escutou por alguns segundos, desligou e então gritou:

– O júri tem um veredicto! – A voz dele ecoou no cavernoso labirinto de pequenas salas provisórias, causando rebuliço entre os seus colegas.

Ele gritou novamente enquanto corria para A Cova, onde o resto da firma estava freneticamente se reunindo. Wes Payton já estava lá, e a esposa, Mary Grace, entrou logo; seus olhos se encontraram por uma fração de segundo de medo e preocupação silenciosos. Dois paralegais, duas secretárias e uma contadora se reuniram na mesa de trabalho longa e bagunçada, onde de repente congelaram e ficaram se olhando, todos esperando que alguém falasse.

Poderia mesmo ter acabado? Depois de terem esperado um eternidade, poderia acabar tão de repente? De forma tão abrupta? Com apenas um telefonema?

– Que tal um minuto de oração silenciosa? – disse Wes, e eles deram as mãos, formando um pequeno círculo, e rezaram como nunca tinham rezado antes. Todos os tipos de petições foram dirigidos a Deus Todo-Poderoso, mas o pedido comum foi a vitória. Por favor, meu Deus, após todo esse tempo, esforço, dinheiro, medo e dúvida, por favor, nos conceda uma vitória divina. E nos livre da humilhação, da ruína, da falência e de muitos outros males que um veredicto ruim trará.

O segundo telefonema do oficial de justiça foi para o celular de Jared Kurtin, o arquiteto da defesa. O sr. Kurtin estava recostado tranqüilamente em um sofá em seu escritório provisório na Front Street no centro de Hattiesburg, a três quadras do tribunal. Estava lendo uma biografia e vendo as suas horas, que custavam 750 dólares cada, passarem. Escutou com calma, desligou o telefone e disse:

– Vamos. O júri está pronto.

Seus soldados de terno preto ergueram-se e perfilaram-se para escoltá-lo pela rua rumo a outra vitória esmagadora. Seguiram o caminho sem nenhum comentário, nenhuma oração.

Outros telefonemas foram dados para outros advogados, depois para os repórteres, e em poucos minutos a notícia já estava se espalhando rapidamente pela rua.

Em algum escritório no alto de um arranha-céu de Manhattan, um jovem em pânico interrompeu uma reunião séria e cochichou a notícia urgente no ouvido do sr. Carl Trudeau, que na mesma hora se desinteressou pelos assuntos que estavam sendo discutidos, levantou-se abruptamente e disse:

– Parece que o júri chegou a um veredicto.

Ele saiu da sala e atravessou o corredor até uma grande suíte, onde tirou o paletó, afrouxou a gravata, dirigiu-se à janela e observou à distância o cair da tarde no rio Hudson. Esperou e, como de costume, perguntou-se como, exatamente, boa parte de seu império podia depender da sabedoria de doze pessoas comuns em um lugar esquecido do Mississipi.

Para um homem que sabia tanto, essa pergunta permanecia sem resposta.

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