Trecho do Livro: Aqui Tem! | Fernando Meligeni e André Kfouri

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Após uma tarde de treinamento intenso, Charly Gaticker não me mandou para o vestiário.

— Esta noite vamos jogar um “torneio de dinheiro”.

Eram torneios comuns na Argentina, que reuniam tenistas dos mais variados tipos. Os frustrados, que chegaram ao profissionalismo, mas ficaram pelo caminho; os desiludidos, pela falta de apoio, que se recusavam a desistir; os verdadeiros operários do tênis, literalmente correndo atrás do dinheiro; e jovens como eu, cheios de sonhos e com um terrível medo de um dia ser como eles.

Não se jogava por pontos num ranking, muito menos por troféus. Era por dinheiro, e mais nada.

Meu adversário era adulto, bem mais velho que eu, com meus 15 anos. Seu jogo, pelo menos naquela noite, era baseado na intimidação. Ele me olhava feio, falava bobagens nas viradas de lado, queria ganhar também no grito.

Senti medo, pois ainda era muito inexperiente para saber que as ofensas e ameaças que vinham do outro lado da rede eram, na verdade, sinais da mais pura fraqueza mental. Duas horas de sofrimento, jogo brigado, e estávamos no início do segundo set. Eu tinha perdido o primeiro.

Foi quando a tarde inteira que passei treinando me cobrou seu preço: meu corpo deixou de me pertencer.

— Não tenho mais pernas, estou morto! — gritei para meu preparador físico.

A resposta curta talvez tenha sido a maior lição que aprendi:

— Fernando, se você não tem mais pernas, vença com o coração.

Venci.

.

.

Assim tudo começou:

Sete e meia da manhã. Calculei que não podia me atrasar para pegar o ônibus. Uma hora e pouco até o ponto mais perto do clube, mais uma caminhada, e eu estaria na quadra às nove. Saí congelando de frio.

Calle Serrano, à esquerda na avenida Córdoba, cinco quadras até a avenida Caning, e me pus a esperar o ônibus verde, número 15. Ele demorou mais de uma hora. Entrei e sentei num banco, a raqueteira do lado, o ônibus ainda meio vazio.

Mas logo encheu e a raqueteira veio para o meu colo.

As mulheres mais velhas, ou com crianças, entravam, e os homens que estavam sentados imediatamente cediam seus lugares. Aos 15 anos de idade e com um dia de treino pela frente, ficar em pé não fazia parte dos meus planos. Mas, de um jeito ou de outro, aprendemos a ser gentis.

Desci no meu ponto às nove horas e dois minutos. Duas quadras depois, a alguns passos da entrada do clube, pude ver meu futuro técnico, na calçada, de braços cruzados.

Que moral. Primeiro dia de treino e o cara já foi me receber na porta… Cheguei com o peito estufado. Charly me cumprimentou.

— Olá, Fernando.

— Olá, Charly.

— Que horas são?

— Nove e quatro.

— E que horas combinamos?

— Às nove.

— Pega as tuas coisas e volta amanhã. Na hora certa.

Por cima do ombro dele pude ver todos os outros meninos já fazendo aquecimento na quadra. Não sabia o que dizer. Argumentei que não estava tão atrasado, que o treino ainda não tinha começado.

— Até amanhã, Fernando. Às nove.

“Estou pagando.”

“Tua obrigação é me dar treino.”

“Não importa se atrasei.”

“O ônibus demorou uma hora e meia para chegar!”

Todos esses pensamentos passaram pela minha mente adolescente. Ainda bem que não se transformaram em palavras. Voltei para casa chorando no ônibus.

Mas Charly me fez entender que pontualidade é respeito.

Esse foi o primeiro dia de uma convivência que durou dois anos e meio na academia Barral Gattiker, a melhor da Argentina em treinamento para tenistas. Dois anos e meio que foram fundamentais na minha formação de atleta e de homem.

Mas essa história começou algum tempo antes, na sala da casa dos meus pais, em São Paulo.

Não nasci numa família de esportistas. Meu pai cresceu ajudando minha avó numa quitanda, em Buenos Aires, e virou fotógrafo na garra, um vencedor autodidata. Em 1975, recebeu um convite para trabalhar no Brasil. A Fiat estava lançando um novo carro, e a agência que tinha a conta da montadora italiana por aqui quis contratar um fotógrafo experiente. Meu pai veio e ficou seis meses longe da família.

Nos meses seguintes, o que era um trabalho esporádico se transformou em algo mais freqüente, até que meu pai achou que valia a pena mudar de país, apesar de sua carreira sólida na Argentina.

Minha mãe lembra da conversa que aconteceu numa tarde de sexta-feira. Ela achou a idéia um pouco complicada. Não só pela carreira do marido, mas porque ela tinha acabado de abrir uma loja de representação de algumas marcas famosas de roupas. Aos poucos, ela conta que foi se acostumando à mudança.

Minha mãe, minha irmã Paula e eu viemos de ônibus, tamanha era a quantidade de tralhas que trouxemos de Buenos Aires. Após as primeiras horas da longa viagem, eu já conhecia todo mundo. Ou melhor, todo mundo já sabia quem era aquele moleque de 4 anos que enchia a paciência dos passageiros. Nessa idade não temos idéia do ridículo.

Também não temos idéia da importância das coisas. Eu me lembro que minha mãe e minha irmã não se divertiram tanto. Elas sabiam que estávamos passando por um momento importante. Não era necessariamente ruim, mas era certamente difícil.

Chegamos a São Paulo e fomos direto para o apartamento onde iríamos morar. Paula e eu dividíamos o mesmo quarto, e, logo, as mesmas dificuldades de adaptação em um novo país, a uma nova língua e a novas pessoas. Assistir ao Fantástico aos domingos e não entender nada, por exemplo.

Vivíamos entre tapas e beijos, mas com muito companheirismo. Paula era a minha protetora na escola, onde todos se acostumaram a ver aquele menino chorão que saía correndo da classe, descia as escadarias e se metia na sala da irmã, pedindo ajuda, pelo menos três vezes por semana. Ela nem pedia licença para a professora. Largava o que estava fazendo e ia resolver o problema. Não sei se até hoje ela sabe quanto me ajudou.

Foi nesse colégio que tive os primeiros contatos com esporte, na aula de educação física. Que o Thiago Camilo e o Flávio Canto não me ouçam, mas minha primeira paixão foi o judô. Meus rolamentos no tatame eram perfeitos… A passagem da faixa branca para a azul foi um dos momentos mais importantes da minha infância. A primeira vez que meus pais me viram disputar uma competição. Naquela época, tênis, para mim, era o meu Kichute preto.

O caminho mais lógico era o futebol. Eu até tentei.

Os outros meninos me chamavam de Mario Kempes, afinal, eu era o recém-chegado da Argentina. Mas o Mario ficaria envergonhado se me visse envergando seu nome com uma bolinha tão pequena. No primeiro campeonato, joguei de centro-avante. Franzino, mas um azougue. Nosso time fez oito jogos, empatou um e perdeu todos os outros. O artilheiro aqui não marcou nenhum gol. Foi bom descobrir cedo que a bola grande não me daria muito futuro.

Mas no clube A Hebraica, perto de casa e mais barato para meus pais, encontrei meu caminho. Apesar de ter começado no futebol de salão, não demorou para que eu seguisse o exemplo da Paula, que já jogava tênis, estimulada por meu pai. Ele costumava jogar futebol com os amigos. Era um goleiro muito considerado na posição, especialmente por ser argentino. Uma tarde, chocou-se com o joelho de um atacante, numa dividida feia. Traumatismo craniano, um baita susto na família inteira e, claro, adeus ao futebol. Buscou um esporte sem contato e encontrou o tênis. A Paula o seguiu, e eu cheguei por último, em parte porque, após o acidente com meu pai, o futebol de salão parecia assustador.

Atrás de casa tinha uma garagem onde a Paula gostava de ficar horas batendo bola na parede, e eu ficava olhando aquele ritual. Ela tirava a raquete da mala, cuidava como se fosse de ouro. É claro que, quando me deixava usá-la, eu raspava aquela coisa preciosa no chão, só de sacanagem. Eu não percebia que ela me incentivava para, em breve, me fazer de bobo na quadra.

A vontade de ganhar da Paula me motivou. Meu primeiro professor foi o inesquecível José Flávio Nunes. Professor com P maiúsculo. Em meio às primeiras raquetadas da minha vida, o Nunes já falava em dedicação, em amor pelo que fazemos e em fé. E eu já começava a descobrir que adoraria treinar, jogar, competir.

Mas ainda não fazia isso aos 8 anos. Comecei indo uma vez por semana, depois pedi mais um dia… quando meus pais perceberam, eu já estava na quadra a semana inteira. Logo o Nunes se transformou em um companheiro e numa influência importante. Para meus pais, que trabalhavam muito, era uma tranqüilidade saber que eu passava boa parte dos dias com uma pessoa que eles conheciam e em quem confiavam. Tanto que, com 10 anos, eu já viajava com o Nunes para alguns torneios pelo Brasil.

Foi nessa época que meu pai percebeu que alguma coisa estava acontecendo.

Muitos pais me perguntam: quando é que você teve certeza de que seu filho seria um tenista profissional?

Eu (Osvaldo Meligeni) poderia encher de prosa a cabeça desses angustiados e enaltecer minha infalível intuição. Que nada. Foi numa tarde em que cheguei ao clube onde ele estava disputando seu primeiro torneio da categoria 10 anos. Fiquei longe, o momento pertencia a Nunes e Fernando, a mais ninguém. Fernando perdeu um jogo em que só faltou fazer chover. Lutou com uma garra que eu desconhecia. Jurei que faria todo o possível para que ele fosse um tenista profissional. Se ele quisesse.

Minha mãe sofreu nessa época. Foi eleita a motorista da casa, mesmo que essa fosse uma decisão arriscada. Ela levava meu pai, a Paula e eu para todos os torneios existentes na cidade, e fora também. Até hoje perguntam a ela como sobreviveu ao tênis familiar, e ela responde que alguém tinha de trabalhar na família…

Eu não jogava esses torneios para ganhar, mas sim para aprender. A competição ensina valores sem que se perceba. Respeitar o técnico e os adversários. Aceitar as derrotas. Saber ganhar, o que é mais difícil.

A partir dos 12 anos, mudei de clube e tive outros técnicos. Gente que me ajudou muito e de quem me lembro com carinho. Gringo, Cidinho, Jarrão, Sérgio Ferreira.

Mudei várias vezes de escola, também. Minha rotina de “projeto de tenista” implicava muitas faltas, nem todos os colégios aceitavam. Contava com a paciência e a colaboração dos colegas na hora dos trabalhos em grupo. E com a assistência da Paula na hora de me preparar para as provas, com exigentes chamadas orais. Ela só não precisava contar para a minha mãe quando ficava evidente que eu não tinha estudado absolutamente nada.

Para mim, já estava claro o que queria fazer da vida. Todas as escolhas levavam em conta que o tênis seria a minha profissão. Mas em casa as pessoas ainda não estavam totalmente convencidas. Pelo menos, era o que eu achava. Não sei se eles estavam sendo discretos ao máximo para não me pressionar muito, ou se não gostavam do fato de a escola ficar em segundo plano.

O que me animava era ver que meu pai se esforçava muito para me bancar. Claro que às vezes não dava. Eu me preparava para jogar num torneio fora de São Paulo, e ele chegava à noite dizendo que infelizmente não tinha dinheiro para aquela viagem. Eu tinha de guardar a minha empolgação para outro dia e treinar mais uma semana.

Com 15 anos, bati numa parede.

Treinava duro, ganhava mais do que perdia, era um tenista respeitado na minha faixa de idade, mas estava acomodado naquela vida de treinos e jogos. Sentia que meus dias estavam ligados no piloto automático. Sentia falta de uma estrutura que me fizesse pensar apenas em tênis. Ao mesmo tempo, a adolescência é um período de descobertas. A vida estava ficando bem atraente fora da quadra.

Meus amigos iam para as matinês das boates, alguns já tomavam suas cervejinhas. E eu sabia que esse era um caminho que ia no sentido contrário ao de quem quer viver do esporte. Mas e se eu me privar dessas coisas todas e não conseguir chegar aonde quero? Será que não dá para levar as duas vidas juntas? Foi aí que tivemos aquela conversa na sala de casa.

Meus pais já tinham percebido que eu estava numa encruzilhada. Na verdade, mais do que isso, eles sabiam que aquele momento chegaria. Queriam investir na minha carreira, queriam me dar a oportunidade de ser profissional. E tinham uma boa idéia: mandar-me para a Argentina. Naquela época, o tênis argentino tinha vários jogadores entre os melhores do mundo. E em Buenos Aires havia uma espécie de centro de excelência para a formação de tenistas.

A opção ficou clara após um episódio ridículo.

Aos 15 anos, joguei todas as etapas de uma série de campeonatos na América do Sul chamada Circuito Cosat. Ganhei várias. Quando chegou a época do Banana Bowl, em São Paulo, eu era o número 2 do ranking sul-americano, mas não fui convocado pela Confederação Brasileira de Tênis para disputar o torneio mais importante do país. O motivo, que nunca foi dito com todas as palavras: eu era argentino, provavelmente estava tomando o lugar de alguém. Protestamos na Confederação Sul-Americana e acabei sendo convocado na marra, como cabeça-de-chave número 2 do torneio.

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