Trecho do Livro: O Outro Lado de Mim | Sidney Sheldon

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O ano era 1934, e a América atravessava uma crise devastadora. Houvera o crash da Bolsa e milhares de bancos faliram. Negócios fechavam por toda parte. Mais de treze milhões de pessoas tinham perdido seus empregos e estavam desesperadas. Salários tinham baixado para cinco cents a hora. Um milhão de andarilhos perambulava pelo país, inclusive duzentas mil crianças. Estávamos sob o domínio de uma depressão desastrosa. Ex-milionários cometiam suicídio e executivos vendiam maçãs nas ruas.

O mundo estava desolado, o que se ajustava perfeitamente ao meu humor. Eu tinha alcançado o fundo do desespero. Achava minha existência sem pé nem cabeça. Sentia-me deslocado e perdido. Estava infeliz e desejava, desesperadamente, algo obscuro, que eu não fazia a menor idéia do que era.

Morávamos perto do lago Michigan, a algumas quadras apenas da margem, e uma noite fui até lá para me acalmar. Era uma noite de vento forte, e o céu estava coberto de nuvens.

Olhei para cima e disse: “Se Deus existe, apareça para mim.”

E fiquei olhando fixamente para o céu, as nuvens se fundiram umas nas outras formando um rosto imenso. Houve um clarão repentino de relâmpagos que conferiu ao rosto olhos fulgurantes. Corri de volta para casa, em pânico.

Eu vivia com minha família em um pequeno apartamento, no terceiro andar, em Rogers Park. O grande showman Mike Todd dizia que estava duro muitas vezes, mas nunca se sentia pobre. Eu me sentia pobre o tempo todo, porque vivíamos um tipo degradante de pobreza: no inverno gelado, tínhamos de manter o aquecedor desligado para economizar dinheiro e aprendíamos a desligar a luz quando não a estávamos usando. Espremíamos as últimas gotas de ketchup e o restinho da pasta de dente. Mas eu estava prestes a escapar disso tudo.

Quando cheguei ao nosso melancólico apartamento, ele estava deserto. Meus pais já haviam partido e meu irmão tinha ido para a casa de um amigo. Não tinha ninguém para impedir o que eu pretendia fazer.

Fui para o pequeno quarto que Richard e eu dividíamos e, com cuidado, retirei o pacote de soníferos que tinha escondido debaixo da cômoda. Em seguida, fui para a cozinha, peguei uma garrafa de bourbon na prateleira em que meu pai a mantinha e a levei para o quarto. Olhei para os comprimidos e o bourbon, e me perguntei quanto tempo levariam para surtir efeito. Verti um pouco de uísque no copo e o levei à boca. Não quis pensar no que estava fazendo. Bebi um gole, e o gosto acre me engasgou. Peguei um punhado de comprimidos e fiz menção de levá-los à boca, quando uma voz falou:

— O que está fazendo?

Virei-me, derramando um pouco do uísque e deixando cair alguns comprimidos.

Meu pai estava na porta do quarto. Aproximou-se.

— Não sabia que você bebia.

Olhei para ele, atônito.

— Achei… pensei que você tinha ido.

— Esqueci uma coisa. Vou perguntar de novo. O que está fazendo? — Tirou o copo de uísque da minha mão.

Minha cabeça estava a mil.

— Nada… nada.

Ele franziu o cenho.

— Você não é assim, Sidney. Qual é o problema? — Ele viu a pilha de comprimidos. — Meu Deus! O que está acontecendo? O que é isso?

Não me ocorreu nenhuma mentira plausível. Respondi, desafiadoramente:

— São soníferos.

— Por quê?

— Vou… me suicidar.

Houve um silêncio. Então, meu pai disse:

— Eu não fazia idéia de que você era tão infeliz.

— Não vai poder me impedir. Se me impede agora, farei amanhã.

Ele ficou ali, me observando.

— A vida é sua. Pode fazer com ela o que quiser — hesitou. — Se não está com pressa demais, por que não saímos para dar uma voltinha?

Eu sabia exatamente o que ele estava pensando. Meu pai era vendedor. Tentaria me dissuadir, mas não tinha a menor chance. Eu sabia o que ia fazer. Respondi:

— Está bem.

— Vista um casaco. Pode se resfriar.

A ironia disso me fez rir.

Cinco minutos depois, meu pai e eu descemos ruas varridas pelo vento e vazias de pedestres por causa da baixa temperatura.

Depois de um longo silêncio, ele disse:

— Fale-me disso, filho. Por que quer se suicidar?

Por onde começar? Como podia explicar como me sentia solitário e sem saída? Eu queria desesperadamente alguma coisa — alguma coisa que eu não sabia nem mesmo denominar. Queria um futuro maravilhoso e não existia nenhum futuro maravilhoso. Tinha grandes sonhos, mas, no fim do dia, era um entregador trabalhando numa drogaria.

Minha fantasia era ir para a universidade, mas não havia dinheiro para isso. Meu sonho tinha sido ser escritor. Escrevera dezenas de contos e os enviara para as revistas Story, Colliers e para o Saturday Evening Post, mas foram recusados. Finalmente, decidira que não podia passar o resto da minha vida nessa miséria sufocante.

Meu pai estava falando comigo.

— …e há tantos lugares bonitos no mundo que você não viu…

Ignorei-o. Se ele partir hoje à noite, prosseguirei com meu plano.

— Você adoraria Roma.

Se ele tentar me impedir agora, farei quando ele partir. Estava ocupado com meus pensamentos, mal escutando o que ele estava dizendo.

— Sidney, você me disse que queria ser escritor mais do que qualquer outra coisa no mundo.

De repente, ele prendeu a minha atenção.

— Isso foi ontem.

— E amanhã?

Olhei para ele, intrigado.

— O quê?

— Não sabe o que pode acontecer amanhã. A vida é como um romance, não é? Está cheia de suspense. Você não faz idéia do que vai acontecer até virar a página.

— Eu sei o que vai acontecer: nada.

— Você não sabe, sabe? Cada dia é uma página diferente, Sidney, e que pode estar cheia de surpresas. Nunca vai saber o que virá a seguir até que a veja.

Pensei a respeito disso. O que ele estava dizendo era verdade. Cada amanhã era como a página seguinte de um romance.

Dobramos a esquina e descemos uma rua deserta.

— Se quer realmente se suicidar, Sidney, eu compreendo. Mas odeio vê-lo fechar o livro tão cedo e perder toda a emoção da página seguinte, a página que você vai escrever.

Não encerre o livro tão cedo… Eu o estava encerrando cedo demais? Alguma coisa maravilhosa poderia acontecer amanhã.

Ou meu pai era um excelente vendedor ou eu não estava completamente determinado a me suicidar, pois, no final da quadra seguinte, tinha decidido adiar meu plano.

Mas pretendia deixar minhas opções abertas.

Entretanto, não estava ansioso para retornar à vida miserável que estivera prestes a abandonar.

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