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Carros | Veículos: Citroën C4 Pallas 2009 vem com motor flex

O automóvel Citroën C4 Pallas, modelo 2009 (versão GLX e Exclusive), é equipado com motor flex capaz de rodar com gasolina e/ou álcool em qualquer proporção dos combustíveis.

O motor flex do sedã gera – a 6000 rpm – 143 cv quando abastecido somente com gasolina, e 151 cv quando abastecido com álcool. O C4 Pallas atinge o torque máximo a 4000 rpm (212 Nm – álcool / 200 Nm – gasolina).

O motor flex do carro está sendo produzido no Mercosul, o que viabilizou a redução dos custos de manutenção do veículo.

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Trecho do Livro: A Arte de Correr na Chuva | Garth Stein

Garth Stein nasceu em Los Angeles. Depois de ter passado a infância em Seattle e vivido em Nova York durante dezoito anos, retornou a Seattle, onde vive com a família e o cão, Comet.

Bacharel e mestre em belas-artes pela Columbia University, trabalhou como documentarista por muitos anos. Também dirigiu, produziu e co-produziu filmes, muitos dos quais foram premiados.

Fã declarado de Ayrton Senna – a quem nunca chegou a conhecer –, o autor faz neste livro uma emocionante homenagem ao ídolo de muitos brasileiros.

Livros A Arte de Correr na Chuva Garth Stein BooksLivro: A Arte de Correr na Chuva

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Querido leitor,

No verão de 1986, tive o imenso prazer de participar do Grande Prêmio de Fórmula 1 de Detroit. Estava acompanhando um amigo que tinha acesso a todos os lugares do circuito. Lembro-me de ter ficado atrás de uma barreira de concreto, maravilhado com quão pequenos, embora incrivelmente poderosos, os carros de Fórmula 1 eram. Tão rápidos e tão perto – a apenas um braço de distância…

Um piloto era, obviamente, mais rápido que os outros. Ele largou na pole position e, depois de perder muitas posições por causa de um problema no pneu, retomou a liderança e venceu a corrida. Lembro-me de ter visto seu capacete verde passando. Nunca tive o prazer de conhecer Ayrton Senna, mas tive o prazer de assistir à sua corrida… e de vê-lo vencer de maneira gloriosa.

Sou fã de Fórmula 1 desde menino e sempre gostei muito de assistir às corridas na tevê. Mas não há nada como ser fisgado. O cheiro, o som. Já participei de corridas em clubes, e estar dentro de um carro potente faz a adrenalina ficar a mil. São estes os sentimentos que tentei capturar em A Arte de Correr na Chuva. Quando o personagem Enzo surgiu na minha mente e começou a conversar comigo, percebi que era a voz perfeita para conduzir estes sentimentos.

Um cachorro é um observador elementar. Não tendo como pronunciar palavras, analisa tudo o que está à sua volta. Os sentidos de um cão são apuradíssimos. Seu foco é singular. Enzo, o cachorro do meu romance, é um verdadeiro estudante do mundo ao seu redor. E também um fã devoto da Fórmula 1. Seu herói? Ayrton Senna, claro!

Escrever este livro foi mágico para mim. Estou comovido por saber que pessoas em todo o mundo irão, em breve, ter contato com Enzo e sentirão a mesma alegria lendo sobre ele como me senti escrevendo a respeito dele. E estou especialmente grato por meu livro ser publicado no Brasil.

Minhas saudações,

Garth Stein

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LabradorOs gestos são tudo que eu tenho; às vezes precisam ser de natureza ampla. E, apesar de passarem dos limites em algumas ocasiões e parecerem melodramáticos, são o que tenho para me comunicar claramente. Para me fazer entender sem que reste nenhuma dúvida. Não posso contar com as palavras, pois, horror dos horrores, minha língua é comprida, lisa e descoordenada, sendo, portanto, um instrumento absolutamente ineficiente para empurrar a comida dentro da minha boca enquanto mastigo, e ainda menos eficiente para produzir sons inteligentes e polissilábicos complexos que possam se unir para formar sentenças. E é por isso que estou aqui agora, esperando Denny chegar em casa — ele deverá chegar logo —, deitado nos ladrilhos do piso frio da cozinha em uma poça de minha própria urina.

Estou velho. E, embora esteja em condições de ficar ainda mais velho, não é assim que desejo ir embora. À base de injeções com remédios para a dor e esteróides para diminuir o inchaço das juntas. A visão nublada pela catarata. Tenho certeza de que Denny me daria um daqueles carrinhos que já vi na rua, aqueles que apóiam os quadris de modo que o cachorro consiga arrastar o traseiro quando as coisas começam a ficar realmente preocupantes. É uma situação constrangedora e degradante. Não sei se é pior do que vestir um cachorro com roupas de Halloween, mas está perto. Ele faria isso por amor, é claro. Tenho certeza de que faria qualquer coisa para me manter vivo pelo máximo tempo possível, com meu corpo se deteriorando, se desintegrando, se dissolvendo até que não restasse mais nada além do meu cérebro flutuando em um vidro cheio de líquido transparente, os globos oculares boiando na superfície e todos os tipos de cabos e tubos alimentando o que restasse. No entanto, eu não quero que me mantenham vivo. Porque sei o que vem depois. Eu vi na televisão. Um documentário sobre a Mongólia. Foi a melhor coisa que já vi na televisão, tirando o Grande Prêmio da Europa de 1993, é claro, a maior corrida de todos os tempos, em que Ayrton Senna mostrou que era um gênio na chuva. Depois do Grande Prêmio de 1993, o melhor programa a que assisti na televisão foi um documentário que explicava tudo, esclarecia pormenores, dizia toda a verdade: quando um cachorro termina a vida como cachorro, sua próxima encarnação será como homem.

Sempre me senti quase humano. Sempre soube que havia algo em relação a mim que era diferente dos outros cachorros. Certo, estou preso no corpo de um cachorro, mas trata-se apenas da carcaça. O que está dentro é que é importante. A alma. E a minha alma é muito humana.

Agora estou pronto para me tornar um homem, apesar de saber que perderei tudo que fui. Todas as minhas lembranças, toda a minha experiência. Gostaria de levá-las comigo para a minha nova vida — vivi tantas coisas com a família Swift… —, contudo não sou eu quem determina essas coisas. Que mais posso fazer senão me forçar a lembrar? Tentar gravar o que sei em minha alma, algo que não tem superfície, não tem lados, páginas ou forma de qualquer tipo. Levar as lembranças tão entranhadas nos bolsos da minha existência que, ao abrir os olhos e baixar o olhar para minhas novas mãos, com polegares capazes de se fechar em volta dos meus dedos, eu saberei. Já terei visto.

A porta abre e ouço seu chamado familiar:

— Ei, Zo!

Normalmente não resisto e deixo a dor de lado. Fico em pé, abano o rabo, penduro a língua e enfio o focinho no meio de suas pernas. É preciso ter força de vontade como a dos humanos para me controlar numa situação dessas, mas eu consigo. Eu me controlo. Não levanto; estou atuando.

— Enzo?

Ouço os passos, a preocupação em sua voz. Ele me encontra e olha para baixo. Levanto a cabeça, abano o rabo debilmente e o deixo ir ao chão. Cumpro meu papel.

Ele balança a cabeça e passa a mão pelo cabelo. Coloca de lado a sacolinha do mercado com seu jantar. Dá para sentir o cheiro de frango assado que vem de lá. Esta noite ele vai comer frango assado e salada de alface.

— Ah, Enz — ele suspira.

Ele estende o braço, agacha, toca a minha cabeça, passa a mão na dobra atrás da orelha, e eu levanto a cabeça. Dou uma lambida em seu braço.

— O que foi que aconteceu, garoto? — ele pergunta. Os gestos não bastam para explicar.

— Você consegue se levantar?

Eu tento e me atrapalho. Meu coração vai a mil, dispara, porque não, não consigo. Entro em pânico. Pensei que estivesse apenas fingindo, mas não consigo mesmo levantar. É a vida imitando a arte.

— Calma, garoto — ele diz com a mão no meu peito para eu me acalmar. — Peguei você.

Ele me levanta com facilidade, me carrega, e consigo sentir o cheiro do seu dia em seu corpo. Posso sentir tudo que ele fez. Seu trabalho, a loja de automóveis onde ele passa o dia inteiro atrás do balcão, em pé, sendo gentil com os clientes que gritam com ele porque seus BMWs não estão funcionando perfeitamente e eles gastam muito para mandar consertá-los; por isso ficam irritados e precisam gritar com alguém. Posso sentir o almoço. Ele foi até seu restaurante indiano preferido. Comida à vontade. Tudo que você conseguir comer. É barato, e às vezes ele leva um potinho e pega umas porções extras de frango assado em tandoor e arroz amarelo, e traz para o jantar. Dá para sentir o cheiro de cerveja. Ele parou em algum lugar. O restaurante mexicano no alto da colina. Posso sentir o cheiro de tortilla em seu hálito. Agora tudo faz sentido. Normalmente, tenho excelente percepção logo no primeiro contato, mas não estava prestando atenção por causa das minhas emoções.

Ele me coloca gentilmente na banheira e liga aquela coisa de lavar com a mão. Diz:

— Calma, Enz. — Continua: — Desculpe ter demorado. Eu devia ter vindo direto pra casa, mas os caras lá do trabalho insistiram. Eu disse para o Craig que estava saindo, e…

As palavras se perdem no ar e percebo que ele acha que aquele contratempo aconteceu porque ele se atrasou. Oh, não. Isso não devia estar acontecendo. É tão difícil a gente se fazer entender porque são tantas as partes subjetivas. Existe a explicação e existe a interpretação, e elas dependem tanto uma da outra que as coisas ficam muito complicadas. Eu não queria que ele se sentisse mal a respeito disso. Queria que ele visse o óbvio, que estava tudo bem em me deixar partir. Ele tinha passado por tanta coisa, e finalmente tudo havia chegado ao fim. Era preciso que eu não estivesse mais por perto para ele não se preocupar. Ele precisava que eu o libertasse para brilhar.

Ele é tão brilhante! É um ser iluminado. É bonito com suas mãos que sabem pegar coisas e sua língua que articula palavras e a maneira como ele fica em pé e mastiga a comida durante tanto tempo, amassando-a numa pasta antes de engolir. Vou sentir falta dele e da pequena Zoë, e sei que eles vão sentir minha falta. Mas não posso deixar que o sentimentalismo estrague meu grande plano. Depois que isso acontecer, Denny ficará livre para viver sua vida, e eu vou voltar para a Terra em uma nova forma, como homem, e vou encontrá-lo e cumprimentá-lo com a mão e comentar o quanto ele é talentoso, e então vou piscar para ele e dizer:

— Enzo mandou um “oi”.

Vou me virar e me afastar depressa, e ele vai gritar:

— Eu conheço você? Nós já nos encontramos antes?

Depois do banho, ele limpa o chão da cozinha enquanto fico olhando; ele me dá comida, que como muito depressa como sempre, e me coloca na frente da TV enquanto prepara seu jantar.

— Que tal uma fita? — ele pergunta.

— Sim, uma fita — respondo, mas é claro que ele não me ouve.

Ele coloca uma fita de vídeo de uma das suas corridas, liga o aparelho e nós assistimos. É uma das minhas favoritas. A pista está seca para a volta de aquecimento, e então, assim que a bandeira verde é erguida, indicando o início da corrida, o mundo desaba, uma chuva torrencial invade a pista, e todos os carros ao seu redor começam a rodar descontrolados na direção da grama, enquanto ele passa por eles como se a chuva não estivesse caindo em cima dele também, como se houvesse um feitiço mágico para tirar a água do seu caminho. Exatamente como no Grande Prêmio da Europa de 1993, quando Senna passou quatro carros na volta de abertura, quatro dos mais renomados pilotos do campeonato com seus renomados carros oficiais: Schumacher, Wendlinger, Hill e Prost; ele passou todos. Como se tivesse um feitiço mágico.

Denny é tão bom quanto Ayrton Senna. Mas ninguém o vê porque ele tem responsabilidades. Tem sua filha, Zoë, e tinha sua mulher, Eve, que ficou doente e morreu, e tem a mim. E mora em Seattle, quando deveria morar em outro lugar. Ele tem um emprego. Mas às vezes, quando sai, volta com um troféu e o mostra para mim, e me conta tudo sobre as corridas e como brilhou na pista e ensinou aos outros pilotos em Sonoma, ou Texas ou Ohio, como é dirigir na chuva. Quando a fita termina, ele fala:

— Vamos dar uma volta.

Luto para ficar em pé.

Ele ergue meu traseiro no ar e centraliza meu peso sobre as pernas; aí eu fico bem. Para mostrar, esfrego o focinho na sua coxa.

— Esse é o meu Enzo.

Saímos do apartamento; a noite está limpa, fria e clara, e com um ventinho. Mal chegamos ao fim do quarteirão e já voltamos porque meus quadris doem muito, e Denny percebe. Denny sabe. Quando chegamos em casa, ele me dá meus biscoitinhos da hora de dormir e eu me enrolo na minha cama no chão perto da dele. Ele pega o telefone e faz a ligação.

— Mike — diz ele. Mike é o amigo de Denny da loja onde os dois trabalham atrás do balcão. Relacionamento com o cliente, é como eles chamam o que fazem. Mike é um sujeito pequeno com mãos cor-de-rosa amigáveis, sempre lavadas e sem cheiro. — Mike, você pode me cobrir amanhã? Tenho que levar o Enzo até o veterinário de novo.

Temos ido muito ao veterinário ultimamente para pegar remédios diferentes que teoricamente deveriam me ajudar a me sentir mais confortável, mas isso não acontece, mesmo. E, como eles não fazem efeito, e considerando tudo que ocorreu ontem, coloquei em funcionamento o Plano Mestre.

Denny pára de falar por um momento, e, quando torna a conversar, a voz não parece ser sua. É rouca, como se estivesse resfriado ou com alguma alergia.

— Não sei — ele responde. — Não tenho certeza se é uma viagem de ida e volta.

Posso não ser capaz de formar palavras, mas consigo entendê-las. E fiquei surpreso com o que ele falou, apesar de já ter imaginado. Por um momento, fiquei surpreso com o fato de meu plano estar funcionando. É a melhor coisa para todos os envolvidos, eu sei. É o que Denny deve fazer. Ele já fez tanto por mim, durante toda a minha vida. Eu lhe devo isso, o direito de ficar livre. O direito de passar para outra etapa. Fizemos uma boa corrida, e agora acabou; qual é o problema?

Fecho meus olhos e, meio sonolento, escuto vagamente enquanto ele faz as coisas que costuma fazer todas as noites antes de dormir. A escova, a torneira, a descarga. Tantas coisas. As pessoas e seus rituais. Às vezes elas se apegam tanto às coisas!

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Ele me pegou no meio de uma porção de filhotes, um amontoado confuso de patas, Labrador 2orelhas e rabos, atrás de um celeiro, em um sítio malcheiroso perto de uma cidade no lado leste de Washington chamada Spangle. Não me lembro muito bem de onde tinha vindo, mas me lembro da minha mãe, um labrador pesadão com te_tas penduradas que balançavam para a frente e para trás enquanto meus irmãos de ninhada e eu andávamos atrás dela pelo quintal. Francamente, nossa mãe não parecia gostar muito da gente, e não se importava se estávamos comendo ou morrendo de fome. Ela parecia aliviada sempre que um de nós ia embora. Um animal a menos para latir e andar atrás dela para arrancar seu leite.

Nunca conheci meu pai. As pessoas da fazenda disseram a Denny que ele era uma mistura de poodle com pastor, mas eu não acredito. Nunca vi um cachorro que se parecesse com essa descrição na fazenda e, apesar de a dona ser bacana, o homem alfa era um canalha mesquinho capaz de olhar os outros nos olhos e mentir mesmo que ganhasse mais contando a verdade. Ele discorria longamente a respeito da inteligência relativa das raças de cães, e acreditava com veemência que os pastores e os poodles eram os mais espertos, e por isso seriam mais desejados — além de mais valorizados — quando “puxassem o labrador no temperamento”. Um monte de palavras inúteis. Todo mundo sabe que os pastores e os poodles não são particularmente espertos. Eles apenas respondem e reagem, não são pensadores independentes. Principalmente os pastores australianos de olhos azuis, que as pessoas tanto elogiam quando tentam pegar um frisbee. Certo, eles são espertos e rápidos, mas não conseguem ir além; são muito limitados.

Tenho certeza de que meu pai era um terrier. Porque os terriers resolvem os problemas. Eles fazem o que lhes mandam, mas apenas se estiverem de acordo com o que querem fazer. Havia um terrier desse tipo na fazenda. Um airedale terrier. Grande, castanho-escuro e forte. Ninguém mexia com ele. Não ficava conosco no espaço cercado atrás da casa. Ficava no celeiro, na descida da colina perto do lago, onde os homens iam consertar os tratores. No entanto, às vezes ele subia a colina, e, quando vinha, todos saíam da frente. Dizia-se na fazenda que era um cão de briga que o homem alfa mantinha separado porque havia matado um cachorro que se metera a farejar em sua direção. Era capaz de arrancar o pêlo da nuca de alguém por causa de um olhar qualquer. E, quando uma cadela estava no cio, ele a montava e fazia seu serviço sem se importar com quem estivesse olhando ou com o fato de estar causando incômodo. Sempre imaginei que ele poderia ser meu pai. Tenho sua cor castanho-escura e meu pêlo é meio crespo, e as pessoas comentam que devo ter uma parte terrier. Gosto de imaginar que procedo de uma fonte de genes privilegiados.

Lembro do calor que fazia no dia em que deixei a fazenda. Todos os dias eram quentes em Spangle, e eu havia determinado que o mundo era um lugar quente simplesmente porque nunca soubera o que era frio. Nunca tinha visto chuva, não sabia muita coisa sobre água. Água era aquele negócio nos baldes que os cães mais velhos tomavam, e era o negócio que o homem alfa jogava com a mangueira em cima dos cachorros que queriam começar a brigar. Mas no dia em que Denny chegou fazia calor demais. Eu e meus irmãos de ninhada estávamos lutando como de costume quando a mão de alguém entrou no meio e agarrou meu pescoço. De repente, eu balançava no ar.

— Este aqui — disse um homem.

Foi o primeiro vislumbre do que seria o resto da minha vida. Ele era esguio, com músculos definidos e enxutos. Não era um homem grande, mas tinha um semblante determinado. Seus olhos, azul-claros, possuíam um brilho inteligente. O cabelo era crespo e curto; a barba cerrada, escura e encaracolada, como um terrier irlandês.

— O favorito da ninhada — disse a senhora. Ela era legal; eu gostava quando nos aninhávamos em seu colo macio. — O mais doce. O melhor.

— Távamos pensando que nós podia ficar com ele — comentou o homem alfa, aproximando-se com suas botas grandes cobertas com a lama do lago onde estava arrumando uma cerca. Ele sempre falava isso. Caramba, eu era um bichinho com apenas 12 semanas de vida e já tinha ouvido aquela frase uma porção de vezes. Ele dizia isso para conseguir mais dinheiro.

— Eu poderia levá-lo?

— Por um bom preço — respondeu o homem alfa, desviando os olhos na direção do céu, de um azul muito claro por causa da luz do sol. — Por um bom preço.

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Labrador– Com muito cuidado. Como se tivesse casca de ovo nos pedais — Denny sempre diz — e você não quisesse quebrá-la. É assim que você dirige na chuva.

Quando assistimos às fitas de vídeo juntos — algo que fazemos desde o primeiro dia em que nos conhecemos —, ele explica essas coisas para mim. (Para mim!) Equilíbrio, expectativa, paciência. Isso tudo é vital. Visão periférica, para poder ver o que você nunca viu antes. Sensação sinestésica, para pilotar instintivamente. Mas o que eu mais gostava era quando ele falava em não ter lembranças. Nenhuma lembrança do que ele tinha acabado de fazer. Fossem boas ou ruins. Porque a lembrança é o tempo se dobrando sobre si mesmo. Lembrar é se desligar do presente. Para conseguir qualquer tipo de sucesso em corridas de carro, o piloto não pode lembrar.

É por isso que os pilotos gravam compulsivamente cada movimento seu, cada corrida sua, com câmeras no cockpit, vídeos do interior do carro, mapeamento de dados; um piloto não pode ser testemunha de sua própria grandeza. Isso é o que diz Denny. Ele diz que correr é fazer. É ser parte de um momento e não ter consciência de nenhuma outra coisa naquele momento. Os pensamentos ficam para depois. O grande campeão Julian SabellaRosa disse:

— Quando estou correndo, e minha mente e meu corpo estão trabalhando tão intensamente e tão bem juntos, preciso me assegurar de não pensar, ou posso cometer algum erro.

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Denny me levou para muito longe da fazenda em Spangle, para um bairro em Seattle Labrador 2chamado Leschi, onde ele morava em um pequeno apartamento alugado perto do lago Washington. Eu não gostava muito de viver em apartamento porque estava acostumado com espaços amplos e abertos, e, além disso, ainda era filhote; mas tínhamos uma varanda com vista para o lago, o que me dava grande prazer, pois sou um cão que adora a água, um grande nadador por parte de mãe.

Cresci depressa e, durante aquele primeiro ano, Denny e eu desenvolvemos uma profunda afeição um pelo outro, e também um sentimento de confiança. Foi por causa desse fato que fiquei surpreso quando ele se apaixonou por Eve tão depressa.

Ele a trouxe para casa e ela tinha um cheiro bom, como o dele. Quando ficavam cheios de bebidas fermentadas, agiam de modo engraçado: se agarravam como se houvesse roupa demais entre eles e ficavam se abraçando, se agarrando, se mordendo e enroscando os dedos e puxando os cabelos um do outro, encostando os ombros e os pés e trocando saliva. Caíam na cama e ele montava nela. Ela gritava:

— O campo é fértil; tome cuidado!

E ele respondia:

— Eu adoro a fertilidade.

E ele arava o campo até agarrar os lençóis com as mãos, para depois arquear as costas e gritar de prazer.

Quando levantava para ir ao banheiro, dava um tapinha na minha cabeça, que não ficava muito longe do chão, pois eu ainda era muito novo, com pouco mais de um ano, e estava um pouco intimidado e encolhido com todos aqueles gritos. Ela perguntava:

— Você não liga se eu o amar também, não é mesmo? Não vou ficar entre você dois.

Eu a respeitava por perguntar, mas sabia que ficaria entre nós, e considerava aquela negativa profilática apenas uma enganação. Tentava não agir de maneira pouco amistosa porque sabia o quanto Denny estava apaixonado por ela. No entanto, devo admitir que não apreciava sua presença. E por causa disso ela também não me apreciava. Éramos satélites em torno de Denny, lutando pela supremacia gravitacional. É claro que ela tinha a vantagem da língua e dos polegares, e, quando ela o beijava ou acariciava, de vez em quando olhava para mim e piscava, como se dissesse: Olhe para os meus polegares! Veja o que eles podem fazer!

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Filme publicitário do livro A Arte de Correr na Chuva
quando do seu lançamento:
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