Trecho do Livro: Amy Winehouse | Chas Newkey-Burden

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Nascida para ser indômita?

Uma vez disseram a respeito de Amy Winehouse: “Às vezes, ela parece uma personalidade que nasceu um pouco fora de sua época”. Amy nasceu em 14 de setembro de 1983, em Southgate, ao norte de Londres. A menos de dezesseis quilômetros do centro de Londres e no município de Enfield, Southgate fica ao lado da North Circular Road. Outras pessoas famosas — e não famosas — nasceram lá: o lendário Norman Tebbit, do Partido Conservador inglês, e a cantora Rachel Stevens, do S Club 7, por exemplo.

Muitas das famílias que moram nas casas de tijolos vermelhos de Southgate são judias. Há judeus na região de Enfield desde 1750, mas foi entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial que boa parte das famílias judias se mudou do leste para o norte de Londres. Na época dos “Swinging Sixties” — a alegre Londres dos anos 1960 —, cerca de 280 mil judeus moravam ao norte da cidade. Atualmente, há cinco sinagogas e três cemitérios judaicos nas proximidades.

Embora existam fotografias de Amy vestida para a festa judaica de Purim, sua família não era especialmente religiosa. “Não tivemos educação religiosa. Sou apenas uma menina de família. Venho de uma família grande. Acho que é importante estar rodeada e próxima da família. Tenho muita sorte por ter minha mãe e meu pai.”

Zaddy Lawrence, editor do Jewish News, diz:

Ela fica feliz ao falar de sua identidade judaica. Não tem vergonha de dizer que é judia ou de falar a esse respeito, mas há poucas entrevistas que mencionam esse assunto.

No que diz respeito à comunidade judaica, acho que ficou muito animada quando Amy entrou em cena. Imaginamos que fosse a estrela pop judia. Elas eram poucas, fora Rachel Stevens, que não tinha muita credibilidade porque estava no S Club 7. Rachel só era bonita, com um belo par de peitos, desculpem-me dizer isso. Ela tinha talento, eu acho, mas era mais uma princesa pop.

No entanto, em termos de artista judia, há muito tempo não aparecia ninguém como ela. Não me lembro da última artista verdadeiramente judia que tenha surgido na Inglaterra. Ao aparecer, Amy era uma artista convincente, por isso, a comunidade ficou muito animada. Mas, desde então, ela perdeu muito da aprovação por causa de seu comportamento.

Amy diz que não gostava de ir às aulas na cheder — a tradicional escola elementar que ensina as bases do judaísmo e a língua hebraica. “Todas as semanas eu falava: ‘Não quero ir, papai, por favor, não me obrigue a ir’”, conta ela. “Ele era tão sentimental que muitas vezes concordava. De qualquer forma, nunca aprendi nada na escola a respeito de ser judia.” Mesmo assim, ela freqüenta a sinagoga no Yom Kippur e participa das festas da Páscoa.

Ser judia, para mim, significa estarmos juntos como uma verdadeira família. Não tem a ver com acender velas e dizer uma brocha. Não sou nem um pouco religiosa. Acho que a fé é uma coisa que dá força. Acredito no destino e acredito que as coisas acontecem por algum motivo, mas não acho que exista necessariamente uma força mais elevada. Acredito muito no carma, no entanto. Há tantas pessoas grosseiras por aí, e há as que não têm nem um amigo de verdade. E os relacionamentos íntimos — com a mãe, a avó, o cachorro — são as coisas que dão a maior felicidade na vida. Fora os sapatos e as bolsas.

A menina de família Amy foi criada em uma bem cuidada casa, pelos pais Mitchell e Janis. Mitchell Winehouse, conhecido como Mitch, era motorista de táxi e cantor amador. E grande fã de artistas como Tony Bennett e Frank Sinatra, assim, as músicas desses cantores enchiam a casa enquanto Amy crescia. “Meu pai é ótimo”, diz Amy. “Ele gosta de karaokê do Sinatra. Tem um CD no táxi com todas as trilhas de backing. Poderia ser crooner, de tão bom que ele é.”

A mãe de Mitch também tem ligações com a música. Uma vez namorou um músico e dono de clube de jazz lendário, Ronnie Scott. Entretanto, o relacionamento enfrentou um impasse. Ela não deitaria junto com ele antes de se casarem, e ele queria se casar com ela, mas não se casaria a não ser que fossem para a cama antes, porque não sabia se iria gostar. Então ele se mandou.

Certa vez, ao defender a filha, Mitchell disse: “Minha filha não está enlouquecida pelas drogas. Até eu, quando era jovem, experimentei.” E acrescenta: “O que Amy escreve é a verdade da vida e, algumas vezes, isso é doloroso. ‘What is it About Men?’ é uma letra verdadeira. Ela não mentiu a esse respeito quando escreveu: ‘Toda a mer_da que minha mãe agüentou’. Foi verdade. Eu fiz a mãe dela passar por maus bocados. Mas só fui infiel uma vez.”

Entretanto, Amy sempre afirma que recebeu muito amor e afeto do pai. “Quando eu era pequena, se entrasse num cômodo em que meu pai estava, ele me beijava e me fazia carinho. Também era assim com a mamãe quando eles ainda estavam juntos. Como ele era desse jeito, ela era menos.” Também disse que se parece “muito com o meu pai. Somos, os dois, o tipo de gente que acha importante fazer as coisas e ser sincero com as pessoas”.

Mitchell se lembra de cantar com Amy quando ela era criança. Ele começava uma canção — “I Only Have Eyes For You”, de Sinatra, por exemplo — e pulava frases de vez em quando, para que Amy preenchesse as lacunas. “Mitchell e Amy eram muito agarrados”, lembra a mãe, Janis. “O pai cantava Sinatra para ela porque ele sempre cantava, e ela estava sempre cantando, até na escola. As professoras tinham de mandá-la parar durante as aulas.” Janis, que se formou em ciências pela Universidade Aberta antes de estudar na London School of Pharmacy, também tem uma herança musical familiar: seus irmãos eram músicos profissionais de jazz.

O casal se mudara de um diminuto apartamento de dois quartos, numa casa geminada dos anos 1930, para uma bela casa vitoriana de três quartos numa quadra com uma série de casas iguais em Southgate. Ali, tiveram o primeiro filho, Alex, e, quatro anos mais tarde, Amy. “Amy era uma criança linda — sempre ocupada, sempre curiosa”, lembra Janis. Histórias assustadoras sobre o estilo de vida caótico de Amy agora enchem regularmente os jornais, e, quando criança, teve dois esbarrões com o desastre: com cerca de um ano, se engasgou com papel celofane, sentada em seu carrinho, e uma vez sumiu no parque local. Uma das lembranças mais antigas de Amy é a de sua paixonite por Philip Schofield, apresentador de um programa infantil na tv. Ela insistia com a mãe para que largasse o pai e se casasse com Schofield.

Amy também gostava de ficar com a avó, que apresentou Amy e o irmão à importância da aparência. “Que Deus a tenha, ela praticamente nos ensinou a cuidar de nós. Alex fazia as unhas do pé da vovó, e eu fazia as unhas da mão e cuidava do cabelo dela”, disse Amy. Ao ouvir isso, Blake, seu marido, brincou: “Pode ser bastante castrador para um menininho de oito anos bancar pedicuro da avó”.

É evidente a grande influência que a avó teve sobre Amy. Quando indagada a respeito de suas fobias, ela disse: “Não acho que tenha medo de nada. Não tenho medo de cobra, de aranha ou de qualquer outra coisa. Mas tenho medo da minha avó. Ela é pequena, mas é uma pessoa assustadora”. Não que a televisão depois da escola e o treinamento de beleza por parte da avó fossem as únicas alegrias de Amy. “Eu realmente gostava da escola, gostava de aprender”, lembra ela, acrescentando: “Mas acho que se uma pessoa não se sente estranha, ela nunca faz nada de diferente, não é? De modo que eu devo ter me sentido um pouco de fora. Mas não é uma história triste”.

Quando perguntaram se poderia citar qualquer influência sobre Amy na infância, Mitchell aponta Janis. “A influência vem da família da minha ex-mulher, que tem músicos excelentes. Mas é mais o que escutávamos em casa: Sinatra, Ella Fitzgerald, Dinah Washington.” Quanto a Janis, ela devolve o crédito a Mitchell. “Assim como acontece com qualquer pai que tem filhos talentosos, fico muitíssimo orgulhoso das façanhas dela, mas não posso dizer honestamente que a empurrei ou a orientei para o show business. Só quero que sejam felizes. Não tenho reverência pelo status e não tenho créditos especiais no modo como o talento deles emergiu.”

Janis confirma: “Ela sempre sonhou ser cantora. Era tudo o que queria. Vivia cantando pela casa”. Ela cantava “I Will Survive”, de Gloria Gaynor enquanto ficava deitada na banheira. Os vizinhos também lembram as primeiras apresentações de Amy Winehouse — e sua ousadia inexperiente! Paul Nesbitt morava perto da família dela. Ele disse: “Quando me mudei para lá, Amy enfiou a cabeça pela janela do banheiro e começou a cantar com um microfone. Ela tinha talento. Mas era um tanto travessa. Havia um guarda calvo que morava em frente e Amy o chamava de careca. Ela dava festas quando os pais saíam”.

O irmão dela, Alex, também gostava muito de música e também foi uma grande influência sobre o desenvolvimento musical de Amy. Ela explica: “Eu era uma criança, tímida demais para cantar. Então, meu irmão ficava de pé em cima de uma cadeira, com o uniforme da escola, imitando Frank Sinatra”. Sua habilidade com a guitarra inspirou Amy a aprender a tocar. “Ele aprendeu sozinho. Assim eu recebi dele a inspiração para aprender sozinha e ele me mostrou algumas coisas”, disse. “Alex começou a curtir jazz quando tinha dezoito anos, e eu, quatorze, e ouvia Thelonious Monk, Dinah Washington, Sarah Vaugh e Ella Fitzgerald; e aprendi a cantar ouvindo”, diz ela.

Sua primeira guitarra foi uma Fender Stratocaster. “É minha guitarra favorita”, disse ela muitos anos depois. “É clássica, tem boa aparência e um som lindo. Realmente se presta a qualquer coisa.” Entretanto, ela também concedeu o rótulo de “guitarra favorita” a outro modelo. “A Gretch White Falcon é minha guitarra favorita em todos os tempos. É linda. Tem a imagem grande de um falcão.”

A jovem Amy acabaria por sair da sombra musical de Alex. “Quando eu tinha uns nove anos, consegui”, lembra ela. “‘Cante’, gritava minha avó. ‘E sorria!’. Mas eu ainda precisava segurar um leque na frente do rosto para “Eternal Flame”: ‘Close your eyes, give me your hand…’”.

A melhor amiga de Amy é Juliette Ashby. Quando crianças, as duas tinham uma brincadeira. “Ela era Pepsi e eu era Shirley, as garotas que faziam o backing para Wham! Acho que entramos em sintonia porque éramos um pouco desafinadas.” Isso fez com que as duas formassem uma dupla chamada Sweet’n’Sour. “Eu e minha amiga adorávamos as Salt-N-Pepa”, explica ela. “Por isso, formamos uma banda chamada Sweet’n’Sour. Tínhamos uma canção chamada ‘Spinderella’, ótima, mas isso foi há muitos anos.”

Para a jovem Amy, as meninas do Salt-N-Pepa eram muito mais do que meras estrelas pop. “Meus primeiros modelos foram as Salt-N-Pepa”, diz ela. “Eram mulheres de verdade, não tinham medo de falar de homens, conseguiram o que queriam e falavam de garotas de quem não gostavam. Isso foi muito legal.”

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