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Trecho do Livro: O Ladrão de Arte | Noah Charney

Livros O Ladrao de Arte Noah Charney The Art Thief BooksLivro: O Ladrão de Arte

Era quase como se ela estivesse esperando, ali parada, naquela escuridão artificial.

A pequenina igreja barroca de Santa Giuliana in Trastevere se encolhia num canto da cálida noite de Roma. As ruas estavam sombrias e sem qualquer movimento, iluminadas apenas pela luz mansa da lâmpada de um poste numa praça próxima.

Então fez-se um ruído. Dentro da igreja.

Era um ruído mínimo, produzido pelo roçar de metal sobre metal, quase imperceptível de dia, mas que àquela hora parecia o contraste entre o branco e o preto. Então parou. O som tinha sido momentâneo, mas seu eco perdurava.

Do bojo da igreja fechada um pássaro apareceu. Um pombo esvoaçou aflito pela capela sombria e arremeteu por entre as abóbadas e ao longo do transepto, esculpindo um padrão às cegas pelo interior cavernoso e sombrio.

Então o alarme soou.

Padre Amoroso despertou num sobressalto. Havia suor em sua testa, rente ao cabelo.

Ele olhou para o relógio na cabeceira da sua cama. Três e quinze. Ainda era noite do lado de fora da janela do quarto. Mas o ruído que soava em seus ouvidos não parava. Então ele percebeu que não era apenas em seus ouvidos.

Jogou um roupão por cima da camiseta com que dormia e enfiou os pés nas sandálias. Num segundo já tinha descido a escada e corrido a distância de poucos passos ao longo da praça até a Santa Giuliana in Trastevere, que espreitava, com suas formas que lembravam as de um tatu, como havia pensado certa vez, mas que agora vibrava com aquele som.

Padre Amoroso avançou às cegas com suas chaves e finalmente empurrou a porta antiga, inchada pela umidade. Virou-se para o dispositivo que destoava como algo anacrônico, logo na entrada, e desligou o alarme. Olhou à sua volta por um momento. Então pegou o telefone.

— Scusi, signore. Estou aqui, sim… Não sei. Provavelmente algum defeito no sistema de alarme, mas eu… Um momento…

Padre Amoroso deixou a polícia esperando enquanto inspecionava o interior. Nada se mexia. Bem comportada, a escuridão mantinha-se no entorno da igreja e a luz da lua na nave projetava sombras entre os bancos. Ele deu um passo adiante, e então, pensando melhor, mudou de idéia. Acendeu as luzes.

O interior barroco pouco a pouco ganhou vida. Holofotes apontados para as várias reentrâncias e tesouros iluminavam indiretamente os espaços vazios. Padre Amoroso avançou até o centro da nave e examinou tudo atentamente. Havia a capela de Santa Giuliana, a pintura de Domenichino retratando Santa Giuliana, o confessionário, a pia branca de mármore para água benta, os candelabros das orações com a inscrição offerte, a estátua de Sant’Agnese de autoria de Maderno, o ícone bizantino e os cálices no interior da vitrina, a pintura de Caravaggio da Anunciação acima do altar, o relicário onde estava sepultada a tíbia de Santa Giuliana sob um mar de ouro e vidro… Nada parecia estar fora do lugar.

Padre Amoroso voltou ao telefone.

— Non vedo niente… Deve ser um problema com o sistema. Desculpem, por favor. Obrigado… Boa noite… Sim… Sim, obrigado.

Pôs o telefone no gancho e desligou as luzes. A igreja que por um momento tinha adquirido vida agora voltava a adormecer mais uma vez. Armou novamente o alarme, empurrou a porta pesada, trancou-a e voltou a seu apartamento para dormir.

Padre Amoroso ergueu-se de repente na cama, os olhos arregalados. Acabara de ter um sonho terrível no qual não conseguia fazer parar a campainha soando em seus ouvidos. Por um momento atribuiu o ruído à zupa di frutti di mare do jantar no Da Saverio, mas então se deu conta mais uma vez de que o alarme não estava apenas em seus ouvidos. Todo mundo deve ter comido no Da Saverio, pensou por um instante, e então acordou completamente.

Era o alarme, mais uma vez tocando com violência. Ele olhou para o relógio de cabeceira. Três e cinqüenta. O sol ainda estava num sono profundo. E ele, por que não estava? Pôs o roupão e as sandálias e desceu mais uma vez aos tropeções para a insone noite romana.

Ainda que raramente se portasse como um homem profano, padre Amoroso murmurou entre os dentes algumas imprecações leves, enquanto manuseava desajeitadamente suas chaves, enfiava-as na pesada porta de madeira e a empurrava para abri-la, apoiando-se nos calcanhares para tomar impulso.

Isso era para ser uma igreja, não um despertador, pensou.

Lá dentro, virou-se na direção do alarme na parede, derrubando sem querer o telefone do gancho. “Dio!”, murmurou, então pensou melhor e apontou para o céu ao sussurrar:

— Scusa, signore. Estou um pouco cansado. Scusa.

Desligou o alarme e então voltou-se para o interior da igreja. As sombras pareciam zombar dele. Acendeu as luzes com satisfação. A igreja bocejou ao se iluminar. Padre Amoroso pegou o telefone.

— Si? Si, mi dispiace. Não sei… Não, isso não vai ser necessário… Um instante, por favor…

Largou o telefone e mais uma vez se dirigiu para o centro da nave. A pequenina igreja parecia boquiaberta, grande e vazia, em meio à escuridão da madrugada.

Nada aparentava estar faltando. Dessa vez padre Amoroso caminhou ao longo das paredes internas da igreja. Deslocou-se pela ardósia gasta do piso, passando ao largo de fileiras de velas apagadas, bancos entalhados em madeira e reentrâncias ainda sombrias, nas quais se escondiam figuras de santos em relevo ou pintadas a óleo. Tudo estava quieto. Ele voltou ao telefone.

— Niente. Niente di niente. Mi dispiace, ma… Certo, agora são quatro e dez da manhã… Sim, provavelmente um defeito… Sim… Mais tarde, pela manhã, sim. Não há nada a se fazer até lá. Obrigado, boa-noite… Quer dizer, bom-dia. A noite já acabou há algum tempo… Ciao.

Padre Amoroso olhou com desprezo para o alarme que havia disparado duas vezes sem motivo algum, só para debochar dele. Talvez não devesse ter olhado por tanto tempo para a Signora Materassi na missa do último domingo. Deus tem seus caminhos. Mais tarde telefonaria pedindo que o alarme fosse checado. Talvez ainda conseguisse dormir um pouco.

Padre Amoroso apagou as luzes. Ignorou o alarme vistoso ao sair porta afora, trancou-a e voltou à sua casa para capturar quaisquer minutos preciosos de sono que ainda estivessem ao seu alcance.

Um alarme disparou.

Padre Amoroso pulou da cama. Mas então se acalmou. Era o alarme do despertador na sua cabeceira. Eram sete horas, numa manhã de segunda-feira. Assim é melhor, pensou.

O sol estava presente no horizonte e o dia prometia sua habitual luminosidade romana em meio à umidade do verão. Ele bocejou despreocupadamente e esticou os braços cansados, abrindo-os em forma de cruz. Tirando sua camisa de dormir, padre Amoroso caminhou gingando até o banheiro e de lá surgiu como um novo homem, limpo e revigorado para outro dia. Vestiu suas roupas clericais e desceu para ir até a Santa Giuliana.

Estava dez minutos adiantado. Não esperavam que abrisse a igreja até que soassem as oito horas. O dia ainda não estava quente demais, e padre Amoroso decidiu dar uma escapada por um momento. Escapuliu para o bar ao lado e pediu um caffè. Admirou a luz do sol no piso antigo enquanto bebericava seu espresso, de pé, no bar. Os transeuntes passavam na rua lá fora. O turista ocasional aparecia por ali, de mapa na mão e câmera a postos.

Olhou o relógio. Sete e cinqüenta e sete. Acabou de beber e atravessou a praça rumo à sua igreja.

Com uma agradável sensação de quem gozava de uma folga, padre Amoroso manuseou lentamente as chaves e, tendo encontrado a que procurava, girou-a e empurrou a enorme porta de madeira. Quando já a tinha aberto o suficiente, travou o trinco de metal para mantê-la escorada, permitindo que o ar parado, preso lá dentro, esfriasse na brisa matinal que corria do lado de fora.

Entrou na igreja e, ao passar, lançou um olhar de desprezo para o sistema de alarme. Deus, vou ter de mandar consertar isso hoje, pensou, e então se deu conta da blasfêmia e olhou de relance para o céu pedindo perdão. Arrastou os pés pelo chão a caminho do escritório da igreja, afastou para o lado a cortina que escondia a porta e a destrancou. Virou-se e avançou para o centro da nave, parando por um momento para dobrar os joelhos quando passava diante do altar.

Estava prestes a seguir em frente quando percebeu. Não podia acreditar em seus olhos. Talvez ainda estivesse dormindo, pensou, esperançoso. Então se convenceu, e recuou aos tropeções, enquanto gritava:

— Dio mio!

O retábulo de Caravaggio havia desaparecido.

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Trecho do Livro: Escreva e Emagreça | Julia Cameron

Livros Escreva e Emagreca Julia Cameron The Writing Diet BooksLivro: Escreva e Emagreça

Sou uma especialista em criatividade, e não em dietas. Então, por que estou escrevendo um livro sobre perder peso? Porque por acaso descobri um segredo sobre a perda de peso que funciona de verdade. Há 25 anos dou aulas sobre como desbloquear a criatividade, um processo com 12 semanas de duração baseado em meu livro A Via do Artista (The Artist’s Way). Do meu lugar à frente da sala de aula, vejo vidas se transformarem — e, para meu espanto, corpos se transformarem também. Levei algum tempo para perceber o que estava acontecendo, mas, com certeza, alunos que começaram o curso com alguns quilinhos a mais chegavam ao final visivelmente mais magros e bem-dispostos. O que está acontecendo aqui? Perguntei a mim mesma. Tratava-se apenas de imaginação ou havia mesmo um “antes” e um “depois”? Havia, sim!

Aos meus olhos experientes, a perda de peso é freqüentemente uma conseqüência da recuperação da criatividade. Comer em excesso bloqueia a criatividade. O contrário também é verdade: podemos usar a criatividade para bloquear a gula excessiva. E isto é o que faremos neste livro: usaremos instrumentos criativos para combater o excesso de peso e alterar nosso peso através da alteração da nossa consciência. Acreditem ou não, escrever é uma ferramenta para perder peso — uma ferramenta desprezada, subutilizada e extremamente poderosa.

Não que eu não tenha experimentado as dietas tradicionais. Pelo contrário — sou quase especialista. Durante anos tentei a dieta do dr. Atkins, mas meu colesterol ia às alturas; South Beach, mas recupero o peso perdido assim que saio da fase um; a dieta dos Comedores Compulsivos Anônimos me deixa louca com as privações impostas, e loucura é algo que quero evitar tanto quanto a gordura. Recorri aos Vigilantes do Peso, mas essa história de contar pontos também me parece uma forma de loucura. O que sei contar são palavras. Escrevi mais de vinte livros e aprendi que cada palavra tem seu peso, assim como cada caloria. De repente — literalmente — passei a alimentar o pensamento. Como seria consumir palavras, em vez de calorias? Que tal escrever de modo a chegar ao tamanho certo? Assim que a idéia brotou em minha cabeça, tive certeza de que havia descoberto algo.

Todos nós sabemos que comemos em excesso porque alguma coisa está nos roendo por dentro. Que tal nos perguntarmos que coisa é essa, exatamente na hora em que nos der vontade de comer? Que tal se, à beira de um desejo por guloseimas, eu me perguntasse: “O que está me roendo tanto por dentro que senti essa vontade súbita de comer?” E se eu parasse para anotar meus sentimentos por escrito? Por que não dar à minha mente algo para pensar, em vez de dar comida para meu corpo? Já que é possível usar a comida para bloquear os sentimentos, por que não seria possível usar as palavras para bloquear a gula? Calorias não passam, no final das contas, de unidades de energia, e assim são as palavras também.

Essa idéia me entusiasmou. Minha longa experiência como escritora ensinou-me que a escrita é um meio de metabolizar a vida. Se consigo escrever sobre algo, posso lidar com esse algo — e muitas vezes com charme. Poderia a escrita se tornar um meio para metabolizar os vaivéns do meu próprio metabolismo? Acho que sim. Nunca fui magra, mas também nunca fui gorda — até que tive necessidade de tomar um medicamento que lista o ganho de peso entre seus possíveis efeitos colaterais. Remédios são uma necessidade. O ganho de peso, aos olhos do meu médico, era um preço pequeno a ser pago pela minha estabilidade mental. Certamente, pensei, deve haver uma saída. Seria a escrita essa saída?

Durante os 25 anos em que ensinei desbloqueio criativo, uma das ferramentas que sempre aconselho é escrever diariamente, pela manhã. Quantas vezes vi meus alunos usarem suas Páginas Matinais para se livrarem não só da inibição criativa, mas assim também dos quilos a mais! Embora a finalidade do curso A Via do Artista seja atingir um renascimento criativo, vi que era possível atingir ao mesmo tempo um renascimento corporal. Muitas vezes recebo alunos corpulentos e deprimidos. Eu lhes digo que escrevam. Uma dieta contínua de auto-reflexão em pouco tempo controla sua gula. Quilos começam a desaparecer. À medida que as Páginas Matinais metabolizam suas vidas, eles deixam de comer em excesso para bloquear seus pensamentos desagradáveis. Sua criatividade aumenta enquanto seu peso diminui. Vista do meu lugar à frente da sala de aula, a transformação chega a ser espantosa.

Ao iniciar seu processo de desbloqueio criativo, Laura, uma professora de jardim-de-infância, era, para ser bem franca, gorda.

Alta e loura, carregava 18 quilos de excesso de peso. Costumava vestir-se de preto para parecer mais magra, mas essa ilusão de ser magra não convencia ninguém. Laura pertencia àquele tipo de mulher de quem se costuma dizer: “É uma pena que ela seja tão gorda. Tem um rosto tão bonito…”

Laura cresceu em um lar violento e desde cedo aprendeu a bloquear seus sentimentos por meio da comida. Escrevendo suas Páginas Matinais, começou a enfrentar seus sentimentos turbulentos. Com isso, sua necessidade de bloquear as emoções foi desaparecendo. Os quilos foram sumindo também, e Laura emergiu de um curso de 12 semanas como uma mulher muito mais esbelta. Ela atribui à escrita sua perda de peso. “Havia tantas coisinhas que me incomodavam”, lembra-se ela. “Minhas Páginas Matinais eram sessões de queixumes, nas quais eu reconhecia meus ressentimentos e lidava com eles.” Depois que descobriu o que a incomodava, já não sentia necessidade de comer tanto.

Escrever nos torna conscientes. Uma vez conscientes, fica difícil agir de maneira inconsciente. Depois que percebemos que comer em excesso é um artifício que nos bloqueia, fica mais fácil recorrer às palavras do que recorrer à comida. E é isso que este livro tem para ensinar. Diante da perspectiva de um ataque às guloseimas, você pode correr para suas páginas em vez de correr até a geladeira. E, em conseqüência, sua criatividade responderá com um fluxo maior de percepções e idéias.

“Estava na ponta da língua”, dizemos muitas vezes quando uma idéia nos foge. O que nem sempre percebemos é que as idéias vivem na ponta da nossa língua — e que as afogamos com um excesso de comida. Michael, um escritor, conta que, quando consome doces e carboidratos no lanche, sua fonte de criatividade para escrever seca, mas que, quando ingere um lanche saudável, como um pedaço de fruta, seu fluxo criativo dispara. Mary Alice, também escritora, declara que quando registra por escrito seus sentimentos é premiada com um fluxo de criatividade mais abundante. “É como se ao dar nome a certas coisas eu encontrasse nomes para muitas outras.”

Nossas emoções se tornam conhecidas. Uma vez conhecidas, deixam de ser os sabotadores que nos levam a comer demais. Somos todos criativos e podemos, todos nós, ser mais criativos do que já somos. Ao abandonarmos nossos mecanismos de bloqueio, entramos no gozo de nossos poderes. Neste livro, focalizamos especificamente o bloqueio criativo constituído pela comida — e o ato de escrever como meio de controlar o peso.

Embora muitos dos meus alunos digam que descobriram uma vida nova e cheia de emoções depois de seguir minhas dicas sobre a criatividade, não posso prometer uma nova carreira se você seguir a dieta do Escreva e Emagreça. O que posso prometer é um aumento em sua clareza, energia e produtividade. À medida que for escrevendo, você perderá peso e ganhará em criatividade. Ao desbloquear seus sentimentos, terá acesso à energia neles contida. À medida que se familiarizar consigo mesmo, com a origem de seu trabalho criativo, você se tornará, literalmente, mais original. À medida que emagrecer, seus pensamentos se tornarão mais claros. Ao perder peso, deixará de esperar pela varinha mágica que vai transformar sua vida. Em vez disso, compreenderá que a varinha mágica é, na verdade, sua caneta, e que, com a caneta na mão, você será capaz de transformar sua própria vida.

Diferentemente de outros livros de dieta que se proclamam donos da verdade, a dieta do Escreva e Emagreça funciona bem aliada a qualquer dieta sensata. Escrever é a chave. Você pode escrever e seguir a dieta Atkins. Escrever e seguir a South Beach. Você pode escrever enquanto freqüenta os Vigilantes do Peso ou os Comedores Compulsivos Anônimos. Na verdade, as ferramentas do livro contribuirão para aumentar suas chances de sucesso em qualquer dieta de sua escolha.

Se você se sente atraído por este livro, isso significa que provavelmente você se considera criativo, mas também vítima de uma criatividade inibida. Você se sente literalmente faminto por uma vida mais satisfatória. Trabalhar com a ajuda das ferramentas deste livro pode lhe proporcionar essa vida que almeja. Seu desejo por doces será saciado pela doce satisfação de levar uma vida mais rica e produtiva.

Para simplificar, este livro se divide em duas partes. A Parte I vai lhe apresentar sete ferramentas simples. Elas são o alicerce da sua gula, que a partir de agora está em recuperação. A Parte II se compõe de artigos curtos que descrevem as inúmeras situações e circunstâncias que você pode vir a encontrar. Cada artigo vem acompanhado de mais uma ferramenta que permitirá o aprofundamento de sua consciência e de sua criatividade.

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