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Letra e Vídeo: Rob Thomas | “Little Wonders” | Song Lyrics

Rob Thomas
Little Wonders
Disco DVD/CD: A Família do Futuro (Brasil | World)
Rob Thomas

Let it go,
Let it roll right off your shoulder
Don’t you know
The hardest part is over
Let it in,
Let your clarity define you
In the end
We will only just remember how it feels

Our lives are made
In these small hours
These little wonders,
These twists and turns of fate
Time falls away,
But these small hours,
These small hours still remain

Let it slide,
Let your troubles fall behind you
Let it shine
Until you feel it all around you
And I don’t mind
If it’s me you need to turn to
We’ll get by,
It’s the heart that really matters in the end

Our lives are made
In these small hours
These little wonders,
These twists and turns of fate
Time falls away,
But these small hours,
These small hours still remain

All of my regret
Will wash away some how
But I can not forget
The way I feel right now

In these small hours
These little wonders
These twists and turns of fate

Time falls away but these small hours
These small hours, still remain,
Still remain
These little wonders
These twists and turns of fate
Time falls away
But these small hours
These little wonders still remain

Assista ao videoclipe | Watch the video clip
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Rob Thomas | Little Wonders
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Livro: Feliz Ano Velho | Marcelo Rubens Paiva | Primeiro Capítulo

Livros Feliz Ano Velho Marcelo Rubens Paiva Happy Old Year BooksLivro: Feliz Ano Velho

14 de Dezembro de 1979. 17 horas. Sol em conjunção com Netuno e em oposição a Vênus.

Subi numa pedra e gritei:

— Aí, Gregor, vou descobrir o tesouro que você escondeu aqui embaixo, seu milionário disfarçado.

Pulei com a pose do Tio Patinhas, bati a cabeça no chão e foi aí que ouvi a melodia: biiiiiiin. Estava debaixo d’água, não mexia os braços nem as pernas, somente via a água barrenta e ouvia: biiiiiiin. Acabara toda a loucura, baixou o santo e me deu um estado total de lucidez: “Estou morrendo afogado.” Mantive a calma, prendi a respiração, sabendo que ia precisar dela para boiar e agüentar até que alguém percebesse e me tirasse dali. “Calma, cara, tente pensar em alguma coisa.” Lembrei que sempre tivera curiosidade em saber como eram os cinco segundos antes da morte, aqueles em que o bandido com vinte balas no corpo suspira…

— Sim, Xerife, o dinheiro do banco está enterrado na montanha azul.

Por que o cara não manda todo mundo tomar no … e morre em paz?

O fôlego tava acabando, “devem pensar que estou brincando”. Era estranho não estar mexendo nada, não sentia nenhuma dor e minha cabeça estava a mil por hora. “Como é que vai ser? Vou engolir muita água? Será que vai vir uma caveira com uma foice na mão?”

— Venha, bonecão, vamos fazer um passeio para o mundo do além, uuuaaaaaaa!

Será que vou pro céu? Acho que não, as últimas missas a que fui eram as de sétimo dia dos tios e avós. Depois, não sei se Deus gosta de jovens que, vez em quando, dão uma bola, gostam de rock. Pelo menos não é isso o que os seus representantes na Terra demonstram. É, meu negócio vai ser com o diabo, vou ganhar chifrinhos, um rabinho em forma de flecha, e ficar peladinho, curtindo uma fogueira.

De repente estava respirando, alguém me virou.

— Você tá bem? — Era o professor Urtiga, que me carregava no colo.

Sem saber o que dizer, pedi uma respiração boca a boca. Ele me olhou assustado e foi me levando pra margem fazendo a respiração. Já em chão firme, os bêbados e loucos falavam:

— Ei, Marcelo, levanta!

— Que é isso, Paiva?

— E aí, tinha muito ouro?

— Levanta, que ele fica bom logo, é só dar uma chacoalhada.

— Isso, me levanta, eu devo estar meio bêbado.

Me levantaram, mas não deu em nada. Todos ficaram impressionados, logo começaram a tran*sar uma ida a um hospital qualquer: uma cabeça mágica arrumou uma tábua.

Deitaram-me e fomos até onde estavam os carros. Não havia dúvidas de que a Kombi era o melhor deles. Entraram Urtiga, Florência, Marcinha, Gregor e não sei mais quem. Urtiga foi cantando em castelhano, imaginei que fosse algum ritual maia, já que ele é mexicano. Gregor foi cutucando meu pé e chamou seu deus que até hoje não sei quem é, a Marcinha apelou pro Pai-Nosso e a Florência só chorava. O caminho tava demorando, mas eu nem me importava, tava gostoso ali, deitado, ouvindo o canto maia, com a certeza de que nada de grave havia acontecido. No hospital me dariam uma injeção qualquer e tudo bem. Urtiga começou a passar a mão na minha cabeça. Reparei que ele tava preocupado, olhei pra sua mão e vi que estava toda ensangüentada. Só poderia ser de algum corte da minha cabeça.

Chegando no pronto-socorro, percebi que o negócio era sério: maca, oxigênio, enfermeiros, médicos, maca correndo, teto branco, todo mundo olhando, mesa de raio X.

— Sente aqui?

— Não.

— E aqui?

— Só acima do pescoço.

— Ih, meu Deus…

Veio uma mulher: disse calmamente meu nome e pedi para avisar minha família em São Paulo.

— Ah! Avisa também o Dr. Miguel aqui em Campinas. O telefone dele é 29045.

Não sei como consegui lembrar o telefone do pai da minha ex-girl. Comecei a pensar nela, doce Lalá, faz quase dois anos e não teve outra paixão igual. Lembrei-me de que sempre a gente ia jantar fora, pedíamos vinho e ficávamos tão bêbados que todas as privadas de bares campineiros estavam registradas com meu vômito.

— Não, moça, não corte minha unha, é que eu toco violão e vou fazer uma gravação neste fim de semana.

Seria a primeira vez que ia entrar num estúdio profissional.

— Guarda esse colar, que ele é muito especial.

— Pô, meu cabelo não, é que eu sou muito vaidoso.

Me deixaram carequinha, carequinha. Apaguei.

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Trecho do Livro: Ensaio Sobre a Cegueira | José Saramago

Livros Ensaio Sobre a Cegueira Jose Saramago BooksLivro: Ensaio Sobre a Cegueira

O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. Na passadeira de peões surgiu o desenho do homem verde. A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam. Os automobilistas, impacientes, com o pé no pedal da embraiagem, mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos nervosos que sentissem vir no ar a chibata. Os peões já acabaram de passar, mas o sinal de caminho livre para os carros vai tardar ainda alguns segundos, há quem sustente que esta demora, aparentemente tão insignificante, se a multiplicarmos pelos milhares de semáforos existentes na cidade e pelas mudanças sucessivas das três cores de cada um, é uma das causas mais consideráveis dos engorgitamentos da circulação automóvel, ou engarrafamentos, se quisermos usar o termo corrente.

O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito eléctrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o trânsito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.

Ninguém o diria. Apreciados como neste momento é possível, apenas de relance, os olhos do homem parecem sãos, a íris apresenta-se nítida, luminosa, a esclerótica branca, compacta como porcelana. As pálpebras arregaladas, a pele crispada da cara, as sobrancelhas de repente revoltas, tudo isso, qualquer o pode verificar, é que se descompôs pela angústia. Num movimento rápido, o que estava à vista desapareceu atrás dos punhos fechados do homem, como se ele ainda quisesse reter no interior do cérebro a última imagem recolhida, uma luz vermelha, redonda, num semáforo. Estou cego, estou cego, repetia com desespero enquanto o ajudavam a sair do carro, e as lágrimas, rompendo, tomaram mais brilhantes os olhos que ele dizia estarem mortos. Isso passa, vai ver que isso passa, às vezes são nervos, disse uma mulher. O semáforo já tinha mudado de cor, alguns transeuntes curiosos aproximavam-se do grupo, e os condutores lá de trás, que não sabiam o que estava a acontecer, protestavam contra o que julgavam ser um acidente de trânsito vulgar, farol partido, guarda-lamas amolgado, nada que justificasse a confusão, Chamem a polícia, gritavam, tirem daí essa lata. O cego implorava, Por favor, alguém que me leve a casa. A mulher que falara de nervos foi de opinião que se devia chamar uma ambulância, transportar o pobrezinho ao hospital, mas o cego disse que isso não, não queria tanto, só pedia que o encaminhassem até à porta do prédio onde morava, Fica aqui muito perto, seria um grande favor que me faziam. E o carro, perguntou uma voz. Outra voz respondeu, A chave está no sítio, põe-se em cima do passeio. Não é preciso, interveio uma terceira voz, eu tomo conta do carro e acompanho este senhor a casa. Ouviram-se murmúrios de aprovação. O cego sentiu que o tomavam pelo braço, Venha, venha comigo, dizia-lhe a mesma voz. Ajudaram-no a sentar-se no lugar ao lado do condutor, puseram-lhe o cinto de segurança, Não vejo, não vejo, murmurava entre o choro, Diga-me onde mora, pediu o outro. Pelas janelas do carro espreitavam caras vorazes, gulosas da novidade. O cego ergueu as mãos diante dos olhos, moveu-as, Nada, é como se estivesse no meio de um nevoeiro, é como se tivesse caído num mar de leite, Mas a cegueira não é assim, disse o outro, a cegueira dizem que é negra, Pois eu vejo tudo branco, Se calhar a mulherzinha tinha razão, pode ser coisa de nervos, os nervos são o diabo, Eu bem sei o que é, uma desgraça, sim, uma desgraça, Diga-me onde mora, por favor, ao mesmo tempo ouviu-se o arranque do motor. Balbuciando, como se a falta de visão lhe tivesse enfraquecido a memória, o cego deu uma direcção, depois disse, Não sei como lhe hei-de agradecer, e o outro respondeu, Ora, não tem importância, hoje por si, amanhã por mim, não sabemos para o que estamos guardados, Tem razão, quem me diria, quando saí de casa esta manhã, que estava para me acontecer uma fatalidade como esta. Estranhou que continuassem parados, Por que é que não andamos, perguntou, O sinal está no vermelho, respondeu o outro, Ah, fez o cego, e pôs-se a chorar outra vez. A partir de agora deixara de poder saber quando o sinal estava vermelho.

Tal como o cego havia dito, a casa ficava perto. Mas os passeios estavam todos ocupados por automóveis, não encontraram espaço para arrumar o carro, por isso foram obrigados a ir procurar sítio numa das ruas transversais. Ali, como por causa da estreiteza do passeio a porta do assento ao lado do condutor ia ficar a pouco mais de um palmo da parede, o cego, para não passar pela angústia de arrastar-se de um assento ao outro, com a alavanca da caixa de velocidades e o volante a atrapalhá-lo, teve de sair primeiro. Desamparado, no meio da rua, sentindo que o chão lhe fugia debaixo dos pés, tentou conter a aflição que lhe subia pela garganta. Agitava as mãos à frente da cara, nervosamente, como se nadasse naquilo a que chamara um mar de leite, mas a boca já se lhe abria para lançar um grito de socorro, foi no último momento que a mão do outro lhe tocou de leve no braço, Acalme-se, eu levo-o. Foram andando muito devagar, com o medo de cair o cego arrastava os pés, mas isso fazia-o tropeçar nas irregularidades da calçada, Tenha paciência, já estamos quase a chegar, murmurava o outro, e um pouco mais adiante perguntou, Está alguém em sua casa que possa tomar conta de si, e o cego respondeu, Não sei, a minha mulher ainda não deve ter vindo do trabalho, eu hoje é que calhei sair mais cedo, e logo me sucede isto, Verá que não vai ser nada, nunca ouvi dizer que alguém tivesse ficado cego assim de repente, Que eu até me gabava de não usar óculos, nunca precisei, Então, já vê. Tinham chegado à porta do prédio, duas mulheres da vizinhança olharam curiosas a cena, vai ali aquele vizinho levado pelo braço, mas nenhuma delas teve a ideia de perguntar, Entrou-lhe alguma coisa para os olhos, não lhes ocorreu, e tão-pouco ele lhes poderia responder, Sim, entrou-me um mar de leite. Já dentro do prédio, o cego disse, Muito obrigado, desculpe o transtorno que lhe causei, agora eu cá me arranjo, Ora essa, eu subo consigo, não ficaria descansado se o deixasse aqui. Entraram dificilmente no elevador apertado, Em que andar mora, No terceiro, não imagina quanto lhe estou agradecido, Não me agradeça, hoje por si, Sim, tem razão, amanhã por si. O elevador parou, saíram para o patamar, Quer que o ajude a abrir a porta, Obrigado, isso eu acho que posso fazer. Tirou do bolso um pequeno molho de chaves, tacteou-as, uma por uma, ao longo do denteado, disse, Esta deve de ser, e, apalpando a fechadura com as pontas dos dedos da mão esquerda, tentou abrir a porta, Não é esta, Deixe-me cá ver, eu ajudo-o. A porta abriu-se à terceira tentativa. Então o cego perguntou para dentro, Estás aí. Ninguém respondeu, e ele, Era o que eu dizia, ainda não veio. Levando as mãos adiante, às apalpadelas, passou para o corredor, depois voltou-se cautelosamente, orientando a cara na direcção em que calculava encontrar-se o outro, Como poderei agradecer-lhe, disse, Não fiz mais que o meu dever, justificou o bom samaritano, não me agradeça, e acrescentou, Quer que o ajude a instalar-se, que lhe faça companhia enquanto a sua mulher não chega. O zelo pareceu de repente suspeito ao cego, evidentemente não iria deixar entrar em casa uma pessoa desconhecida que, no fim de contas, bem poderia estar a tramar, naquele preciso momento, como haveria de reduzir, atar e amordaçar o infeliz cego sem defesa, para depois deitar a mão ao que encontrasse de valor. Não é preciso, não se incomode, disse, eu fico bem, e repetiu enquanto ia fechando a porta lentamente, Não é preciso, não é preciso.

Suspirou de alívio ao ouvir o ruído do elevador descendo. Num gesto maquinal, sem se lembrar do estado em que se encontrava, afastou a tampa do ralo da porta e espreitou para fora. Era como se houvesse um muro branco do outro lado. Sentia o contacto do aro metálico na arcada supraciliar, roçava com as pestanas a minúscula lente, mas não os podia ver, a insondável brancura cobria tudo. Sabia que estava na sua casa, reconhecia-a pelo odor, pela atmosfera, pelo silêncio, distinguia os móveis e os objectos só de tocar-lhes, passar-lhes os dedos por cima, ao de leve, mas era também como se tudo isto estivesse já a diluir-se numa espécie de estranha dimensão, sem direcções nem referências, sem norte nem sul, sem baixo nem alto. Como toda a gente provavelmente o fez, jogara algumas vezes consigo mesmo, na adolescência, ao jogo do E se eu fosse cego, e chegara à conclusão, ao cabo de cinco minutos com os olhos fechados, de que a cegueira, sem dúvida alguma uma terrível desgraça, poderia, ainda assim, ser relativamente suportável se a vítima de tal infelicidade tivesse conservado uma lembrança suficiente, não só das cores, mas também das formas e dos planos, das superfícies e dos contornos, supondo, claro está, que a dita cegueira não fosse de nascença. Chegara mesmo ao ponto de pensar que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a simples ausência da luz, que o que chamamos cegueira era algo que se limitava a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás do seu véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias coisas e seres, tomando-os, por essa maneira, duplamente invisíveis.

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Trecho do Livro: Ensaio Sobre a Lucidez | José Saramago

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Mau tempo para votar, queixou-se o presidente da mesa da assembléia eleitoral número catorze depois de fechar com violência o guarda-chuva empapado e despir uma gabardina que de pouco lhe havia servido durante o esbaforido trote de quarenta metros desde o lugar onde havia deixado o carro até à porta por onde, com o coração a saltar-lhe da boca, acabava de entrar. Espero não ter sido o último, disse para o secretário que o aguardava um pouco recolhido, a salvo das bátegas que, atiradas pelo vento, alagavam o chão. Ainda falta o seu suplente, mas estamos dentro do horário, tranquilizou o secretário, A chover desta maneira será uma autêntica proeza se cá chegarmos todos, disse o presidente enquanto passavam à sala onde se realizaria a votação. Cumprimentou primeiro os colegas da mesa que actuariam como escrutinadores, depois os delegados dos partidos e seus respectivos suplentes. Teve o cuidado de usar para todos as mesmas palavras, não deixando transparecer na cara nem no tom de voz quaisquer indícios que permitissem perceber as suas próprias inclinações políticas e ideológicas. Um presidente, mesmo de uma assembléia eleitoral tão comum como esta, deverá guiar-se em todas as situações pelo mais estrito sentido de independência, ou, por outras palavras, guardar as aparências.

Além da umidade que tornava mais espessa a atmosfera, já de si pesada por ser interior a sala, apenas com duas janelas estreitas que davam para um pátio sombrio mesmo em dias de sol, o desassossego, empregando a comparação vernácula, cortava-se à faca. Teria sido preferível adiar as eleições, disse o delegado do partido do meio, p.d.m., desde ontem que está a chover sem parar, há derrubamentos e inundações por toda a parte, a abstenção, desta vez, vai subir em flecha. O delegado do partido da direita, p.d.d., fez um gesto concordante com a cabeça, mas considerou que a sua contribuição para a conversa deveria revestir a forma de um comentário cauteloso, Obviamente não minimizo esse risco, contudo penso que o acendrado espírito cívico dos nossos concidadãos, em tantas outras ocasiões demonstrado, é credor de toda a nossa confiança, eles são conscientes, oh sim, absolutamente conscientes, da transcendente importância destas eleições municipais para o futuro da capital. Dito isto, um e outro, o delegado do p.d.m. e o delegado do p.d.d., com ar meio céptico, meio irônico, viraram-se para o delegado do partido da esquerda, p.d.e., curiosos de saber que espécie de opinião seria ele capaz de produzir. Nesse preciso instante, salpicando água por todos os lados, irrompeu na sala o suplente da presidência, e, como seria de esperar, visto que ficava completado o elenco da mesa da assembléia, o acolhimento foi, mais do que cordial, caloroso. Não chegamos portanto a conhecer o ponto de vista do delegado do p.d.e., porém, avaliando por alguns antecedentes conhecidos, é de presumir que não deixaria de exprimir-se segundo a linha de um claro optimismo histórico, numa frase como esta, por exemplo, Os votantes do meu partido são pessoas que não se amedrontam por tão pouco, não é gente para ficar em casa por causa de quatro míseros pingos de água que caem das nuvens. Na verdade, não eram quatro pingos míseros, eram baldes, eram cântaros, eram nilos, iguazús e iangtsés, mas a fé, abençoada seja ela para todo o sempre, além de arredar montanhas do caminho daqueles que do seu poder se beneficiam, é capaz de atrever-se às águas mais torrenciais e sair delas enxuta.

Constituiu-se a mesa, cada um no lugar que lhe competia, o presidente assinou o edital e ordenou ao secretário que fosse afixá-lo, como a lei determina, à porta do edifício, mas o mandado, dando prova de uma sensatez elementar, fez notar que o papel não se aguentaria na parede nem um minuto, em dois améns se lhe esborrataria a tinta, ao terceiro o levaria o vento. Coloque-o então dentro, aonde a chuva não o alcance, a lei é omissa neste particular, o importante é que o edital fique afixado e à vista. Perguntou à mesa se estava de acordo, todos disseram que sim, com a ressalva de ter requerido o delegado do p.d.d. que a decisão ficasse exarada na acta para prevenir impugnações. Quando o secretário voltou da sua húmida missão, o presidente perguntou-lhe como estava o tempo e ele respondeu, encolhendo os ombros, Na mesma, como a lesma, Há algum eleitor lá fora, Nem sombra dele. O presidente levantou-se e convidou os membros da mesa e os representantes dos partidos a acompanhá-lo na revista à câmara de voto, que se viu estar limpa de elementos que pudessem vir a desvirtuar a pureza das escolhas políticas que ali iriam ter lugar ao longo do dia. Cumprida a formalidade, voltaram aos seus lugares para examinar os cadernos de recenseamento, que também encontraram limpos de irregularidades, lacunas e suspeitas. Tinha chegado o momento grave em que o presidente destapa e exibe a urna perante os eleitores para que possam certificar-se de que está vazia, a fim de que amanhã, sendo necessário, sejam boas testemunhas de que nenhuma acção delituosa havia introduzido nela, pela calada da noite, os votos falsos que corromperiam a livre e soberana vontade política dos cidadãos, que não se repetiria aqui uma vez mais aquela histórica fraude a que se dá o pitoresco nome de chapelada, cuja, não o esqueçamos, tanto se poderá cometer antes como durante ou depois do acto, conforme a ocasião e a eficiência dos seus autores e cúmplices. A urna estava vazia, pura, imaculada, mas não havia na sala um só eleitor, um único para amostra, a quem pudesse ser exibida. Talvez algum deles ande por aí perdido, lutando com as enxurradas, suportando as chicotadas do vento, apertando contra o coração o documento que o acredita como cidadão com direito a votar, mas, tal como estão as coisas no céu, vai tardar muito a cá chegar, se é que não acaba por voltar para casa e deixar os destinos da cidade entregues àqueles que um automóvel preto vem deixar à porta e à porta depois virá recolher, cumprido o dever cívico de quem o ocupava no banco de trás.

Terminadas as operações de inspecção dos diversos materiais, manda a lei deste país que votem imediatamente o presidente, os vogais e os delegados dos partidos, assim como as respectivas suplências, desde que, claro está, estejam inscritos na assembleia eleitoral cuja mesa integram, como era o caso. Mesmo a fazer render o tempo, quatro minutos bastaram para que a urna recebesse os seus primeiros onze votos. E a espera, não havia outro remédio, começou. Ainda meia hora não tinha passado quando o presidente, inquieto, sugeriu a um dos vogais que fosse espreitar a ver se vinha alguém, se calhar apareceram eleitores, mas deram com o nariz na porta que o vento havia fechado, e logo se foram dali a protestar, se as eleições tinham sido adiadas, ao menos que tivessem a delicadeza de avisar a população pela rádio e pela televisão, que para informações dessas ainda servem. Disse o secretário, Toda a gente sabe que uma porta que se feche atirada pelo vento faz um barulho de trinta mil demónios, e aqui não se ouviu nada. O vogal hesitou, irei não irei, mas o presidente insistiu, Vá, faça-me o favor, e tenha cuidado, não se molhe. A porta estava aberta, firme no seu calço. O vogal pôs a cabeça de fora, um instante foi suficiente para olhar a um lado e a outro, e logo para recolhê-la a escorrer como se a tivesse metido debaixo de um duche. Desejava proceder como um bom vogal, agradar ao seu presidente, e, sendo esta a primeira vez que havia sido chamado a funções, queria ser apreciado pela rapidez e eficiência nos serviços que tivesse de prestar, com o tempo e a experiência, quem sabe, alguma vez chegaria o dia em que também ele presidisse a uma assembleia de voto, voos mais altos que este têm cruzado o céu da providência e já ninguém se admira. Quando ele regressou à sala, o presidente, entre pesaroso e divertido, exclamou, Homem, não era preciso deixar-se molhar dessa maneira, Não tem importância, senhor presidente, disse o vogal enquanto enxugava o queixo à manga do casaco, Conseguiu ver alguém, Até onde os meus olhos alcançaram, ninguém, a rua é como um deserto de água. O presidente levantou-se, deu uns passos indecisos diante da mesa, foi até à câmara de voto, olhou para dentro e voltou. O delegado do p.d.m. tomou a palavra para recordar o seu prognóstico de que a abstenção dispararia em flecha, o delegado do p.d.d. pulsou outra vez a corda apaziguadora, os eleitores tinham todo o dia para votar, deviam estar à espera de que o temporal amainasse. Já o delegado do p.d.e. preferiu ficar calado, pensava na triste figura que estaria a fazer se tivesse deixado sair pela boca fora o que se dispunha a dizer no momento em que o suplente do presidente entrou na sala, Quatro miseráveis gotas de água não é coisa que chegue para amedrontar os votantes do meu partido. O secretário, para quem todos olharam à espera, optou por apresentar uma sugestão prática, Creio que não seria má ideia telefonar ao ministério a pedir informações sobre como está a decorrer o acto eleitoral aqui e no resto do país, ficaríamos a saber se este corte de energia cívica é geral, ou se somos os únicos a quem os eleitores não vieram iluminar com os seus votos. Indignado, o delegado do p.d.d. levantou-se, Requeiro que fique exarado na acta o meu mais vivo protesto, como representante do partido da direita, contra os termos desrespeitosos e contra o inaceitável tom de chacota com que o senhor secretário acaba de se referir aos eleitores, esses que são os supremos valedores da democracia, esses sem os quais a tirania, qualquer das que existem no mundo, e são tantas, já se teria apoderado da pátria que nos deu o ser. O secretário encolheu os ombros e perguntou, Tomo nota do requerimento do senhor representante do p.d.d., senhor presidente, Opino que não será caso para tanto, o que se passa é que estamos nervosos, perplexos, desconcertados, e já se sabe que num estado de espírito assim é fácil dizer coisas que na realidade não pensamos, tenho a certeza de que o senhor secretário não quis ofender ninguém, ele próprio é um eleitor ciente das suas responsabilidades, a prova está em que, como todos os que nos encontramos aqui, arrostou com a intempérie para vir aonde o dever o chamava, no entanto, este reconhecimento sincero não me impede de rogar ao senhor secretário que se atenha ao cumprimento rigoroso da missão que lhe foi consignada, abstendo-se de qualquer comentário que possa chocar a sensibilidade pessoal e política das pessoas presentes. O delegado do p.d.d. fez um gesto seco que o presidente preferiu interpretar como de concordância, e o conflito não foi além, para o que fortemente contribuiu ter o representante do p.d.m. recordado a proposta do secretário, Na verdade, acrescentou, estamos aqui como náufragos no meio do oceano, sem vela nem bússola, sem mastro nem remo, e sem gasoil no depósito, Tem toda a razão, disse o presidente, vou ligar para o ministério. Havia um telefone numa mesa afastada e para lá se dirigiu levando a folha de instruções que lhe havia sido entregue dias antes e onde se encontravam, entre outras indicações úteis, os números telefónicos do ministério do interior.

A comunicação foi breve, Fala o presidente da mesa da assembleia de voto número catorze, estou muito preocupado, algo francamente estranho está a acontecer aqui, até este momento não apareceu um único eleitor a votar, já lá vai mais de uma hora que estamos abertos, e nem uma alma, sim senhor, claro, o temporal não há meio de parar, chuva, vento, inundações, sim senhor, continuaremos pacientes e a pé firme, claro, para isso viemos, nem é preciso dizer. A partir deste ponto o presidente não contribuiu para o diálogo com mais que uns quantos acenos de cabeça sempre concordantes, umas quantas interjeições abafadas e três ou quatro começos de frase que não chegou a terminar. Quando pousou o auscultador olhou para os colegas da mesa, mas na realidade não os via, era como se tivesse diante de si uma paisagem toda feita de salas vazias, de imaculados cadernos de recenseamento, com presidentes e secretários à espera, delegados de partidos a olharem desconfiados uns para os outros, deitando contas a quem poderá ganhar e a quem poderá perder com a situação, e lá longe algum vogal molhado e prestimoso regressando da entrada e informando que não vem ninguém. Que foi que responderam do ministério, perguntou o delegado do p.d.m., Não sabem que pensar, é natural que o mau tempo esteja a reter muita gente em casa, mas que em toda a cidade suceda praticamente o mesmo que aqui, para isso não encontram explicação, Por que diz praticamente, perguntou o delegado do p.d.d., Em algumas assembleias de voto, é certo que poucas, apareceram eleitores, mas a afluência é reduzidíssima, como nunca se viu, E no resto do país, perguntou o representante do p.d.e., não é só na capital que está a chover, É isso que desconcerta, há lugares onde chove tanto como aqui e apesar disso as pessoas estão a votar, como é lógico são mais numerosas nas regiões onde o tempo está bom, e por falar nisto, dizem que os serviços meteorológicos prevêem melhoria do tempo para o final da manhã, Também pode acontecer que vá de mau a pior, lembrem-se do ditado, ao meio-dia carrega ou alivia, advertiu o segundo vogal, que até agora ainda não tinha aberto a boca. Fez-se um silêncio. Então o secretário enfiou a mão num dos bolsos exteriores do casaco, sacou de lá um telefone portátil e marcou um número. Enquanto esperava que o atendessem, disse, É mais ou menos como o que se conta da montanha e de maomé, uma vez que não podemos perguntar a eleitores que não conhecemos por que é que não vêm votar, fazemos a pergunta à família, que é conhecida, olá, viva, sou eu, sim, continuas aí, por que é que ainda não vieste votar, que está a chover sei-o eu, ainda tenho as perneiras das calças molhadas, sim, é verdade, desculpa, esqueci-me de que me tinhas dito que virias depois do almoço, claro, telefonei-te porque isto aqui está complicado, nem imaginas, se eu te disser que até agora não apareceu ninguém a pôr o voto, és capaz de não acreditar, bom, então cá te espero, um beijo. Desligou o telefone e comentou, irónico, Pelo menos um voto está garantido, a minha mulher virá à tarde. O presidente e os restantes membros da mesa entreolharam-se, saltava à vista que havia que seguir o exemplo, mas não menos que nenhum deles queria ser o primeiro, seria reconhecer que em rapidez de raciocínio e desembaraço quem leva a palma nesta assembleia eleitoral é o secretário. Ao vogal que tinha ido à porta ver se chovia não lhe custou muito a compreender que ainda teria de comer muito pão e muito sal antes de chegar à altura de um secretário como o que temos aqui, capaz, com a maior sem-cerimónia do mundo, de sacar um voto de um telefone portátil como um prestidigitador tiraria de uma cartola um coelho. Vendo que o presidente, retirado a um canto, falava para casa através do seu portátil, e que outros, utilizando os seus próprios aparelhos, discretamente, em sussurros, faziam o mesmo, o vogal da porta apreciou a honestidade dos colegas que, ao não usarem o telefone fixo ali colocado, em princípio, para uso oficial, nobremente economizavam dinheiro ao estado. O único dos presentes que por não ter telefone portátil tinha de resignar-se a esperar as notícias dos outros era o representante do p.d.e., devendo acrescentar-se, no entanto, que, vivendo sozinho na capital e tendo a família na província, o pobre homem não tem a quem chamar.

Uma após outra as conversas foram terminando, a mais demorada é a do presidente, pelos vistos está a exigir à pessoa com quem fala que venha imediatamente, a ver como aquilo acaba, seja como for, ele é quem deveria ter falado em primeiro lugar, se o secretário decidiu passar-lhe à frente, bom proveito lhes faça, já vimos que o tipo pertence à espécie dos vivaços, respeitasse ele a hierarquia como nós a respeitamos e teria simplesmente transmitido a ideia ao seu superior. O presidente soltou o suspiro que se lhe havia entalado no peito, meteu o telefone no bolso e perguntou, Então, souberam alguma coisa. A pergunta, além de escusada, era, como diremos, um poucochinho desleal, em primeiro lugar porque saber, aquilo a que se chama saber, sempre alguma coisa se sabe, mesmo quando não sirva para nada, em segundo lugar porque era óbvio que o perguntante se estava a aproveitar da autoridade inerente ao cargo para eludir a sua obrigação, que seria inaugurar ele, em voz e pessoa, o intercâmbio de informações. Se ainda não nos esquecemos daquele suspiro e do ímpeto exigente que em certa altura da conversa nos pareceu notar nas suas palavras, lógico será pensar que o diálogo, supõe-se que do outro lado estaria uma pessoa de família, não foi tão plácido e instrutivo quanto o seu justificado interesse de cidadão e de presidente merecia, e que, sem serenidade para lançar-se a improvisos mal amanhados, se furta agora à dificuldade convidando os subordinados a expressar-se, o que, como também sabemos, é outra maneira, mais moderna, de ser chefe. O que disseram os membros da mesa e os delegados dos partidos, tirando o do p.d.e., que, falto de informações próprias, estava ali para ouvir, foi, ou que aos familiares não lhes apetecia nada apanhar uma molha e esperavam que o céu se resolvesse a escampar para animar a votação popular, ou então, como a mulher do secretário, pensavam vir votar durante o período da tarde. O vogal da porta era o único que se mostrava contente, via-se-lhe na cara a expressão complacente de quem tem motivos para orgulhar-se dos seus méritos, o que, ao ter de traduzir-se em palavras, veio a dar nisto, Da minha casa ninguém respondeu, só pode querer dizer que já vêm aí a caminho. O presidente foi sentar-se no seu lugar e a espera recomeçou.

Foi quase uma hora depois que entrou o primeiro eleitor. Contra a expectativa geral e desalento do vogal da porta, era um desconhecido. Deixou o guarda-chuva a escorrer à entrada da sala e, coberto por uma capa de plástico rebrilhante de água, calçando botas também de plástico, avançou para a mesa. O presidente levantara-se com um sorriso nos lábios, este eleitor, homem de idade avançada, mas ainda robusto, vinha anunciar o regresso à normalidade, à habitual fila de cumpridores cidadãos avançando lentamente, sem impaciência, conscientes, como havia dito o delegado do p.d.d., da transcendente importância destas eleições municipais. O homem entregou o bilhete de identidade e o cartão de eleitor ao presidente, este anunciou com voz vibrante, quase feliz, o número do cartão e o nome do seu possuidor, os vogais encarregados da descarga folhearam os cadernos de recenseamento, repetiram, quando os encontraram, nome e número, marcaram o sinal de visto, depois, sempre pingando água, o homem dirigiu-se à câmara de voto com o boletim, daí a pouco voltou com o papel dobrado em quatro, entregou-o ao presidente, que o introduziu com ar solene na urna, recebeu os documentos e retirou-se, levando o guarda-chuva. O segundo eleitor tardou dez minutos a aparecer, mas, a partir dele, se bem que a conta-gotas, sem entusiasmo, como folhas outonais desprendendo-se lentamente dos ramos, os boletins de voto foram caindo na urna. Por mais que o presidente e os vogais retardassem as operações de escrutínio, a fila não chegava a formar-se, havia, quando muito, três ou quatro pessoas a esperar a sua vez, e de três ou quatro pessoas nunca se fará, por muito que elas se esforcem, uma fila digna desse nome. Razão tinha eu, observou o delegado do p.d.m., a abstenção será terrível, maciça, depois disto ninguém se vai entender, a única solução está na repetição das eleições, Pode ser que o temporal remita, disse o presidente, e, olhando o relógio, murmurou como se rezasse, É quase meio-dia. Resoluto, aquele a quem temos dado o nome de vogal da porta levantou-se, Se o senhor presidente me dá licença, agora que não temos ninguém a votar, vou ver como está o tempo. Não tardou mais que um instante, foi no pé esquerdo e voltou no pé direito, novamente feliz, anunciando a boa notícia, Chove muito menos, quase nada, e já começam a ver-se claros no céu. Pouco faltou para que os membros da mesa e os delegados dos partidos se juntassem num abraço, mas a alegria foi de curta duração. O monótono gotejo de eleitores não se alterou, vinha um, vinha outro, vieram a esposa, a mãe e uma tia do vogal da porta, veio o irmão mais velho do delegado do p.d.d., veio a sogra do presidente, a qual, faltando ao respeito que se deve a um acto eleitoral, informou o abatido genro de que a filha só apareceria lá para o fim da tarde, Disse que estava a pensar em ir ao cinema, acrescentou cruelmente, vieram os pais do presidente suplente, vieram outros que não pertenciam a estas famílias, entravam indiferentes, saíam indiferentes, o ambiente só se animou um pouco quando apareceram dois políticos do p.d.d., e, minutos depois, um do p.d.m., como por encanto uma câmara de televisão saída do nada tomou imagens e voltou para o nada, um jornalista pediu licença para uma pergunta, Como está a decorrer a votação, e o presidente respondeu, Podia estar melhor, mas, agora que o tempo parece ter começado a mudar, estamos certos de que a afluência de eleitores aumentará, A impressão que temos recolhido em outras assembleias eleitorais da cidade é de que a abstenção vai ser muito alta desta vez, observou o jornalista, Prefiro ver as coisas com optimismo, ter uma visão positiva da influência da meteorologia no funcionamento dos mecanismos eleitorais, bastará que não chova durante a tarde para que consigamos recuperar o que o temporal desta manhã tentou roubar-nos. O jornalista saiu satisfeito, a frase era bonita, poderia dar, pelo menos, um subtítulo de reportagem. E, porque havia chegado a hora de dar satisfação ao estômago, os membros da mesa e os delegados dos partidos organizaram-se por turnos para, com um olho posto nos cadernos de recenseamento e outro na sanduíche, comerem ali mesmo.

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