Trecho do Livro: O Jogo do Anjo | Carlos Ruiz Zafón

Livros O Jogo do Anjo Carlos Ruiz Zafon El Juego del Angel BooksLivro: O Jogo do Anjo

Naquela época, a rua Nou de la Rambla exibia um corredor de lampiões e cartazes luminosos que cruzava a escuridão do Raval. Cabarés, salões de baile e locais de difícil denominação acotovelavam-se em ambas as calçadas com casas especializadas em males venéreos e lavagens, que ficavam abertas até o amanhecer, enquanto gente de toda laia, desde filhinhos de papai de certa posição até membros das tripulações dos navios atracados no porto, misturava-se com todo tipo de personagens extravagantes que viviam para a noite. Dos dois lados da rua, abriam-se vielas estreitas, sufocadas pela névoa, que abrigavam um rosário de prostíbulos com preços decrescentes.

El Ensueño ocupava o andar superior de um edifício que, no primeiro andar, hospedava uma sala de music hall, onde dois grandes cartazes anunciavam o show de uma bailarina enfiada numa fantasia diáfana e sucinta que não fazia segredo de seus encantos, sustentando nos braços uma serpente negra, cuja língua bifurcada parecia beijar seus lábios.

Eva Montenegro e o tango da morte — rezava o cartaz em letras de forma. — A rainha da noite em seis apresentações exclusivas e improrrogáveis. Com a participação estelar de Mesmero, o leitor de mentes que revelará seus mais íntimos segredos.

Junto à entrada havia uma portinha estreita que dava para uma longa escadaria com as paredes pintadas de vermelho. Subi as escadas e dei de cara com uma grande porta de carvalho lavrado, cuja aldrava tinha a forma de uma ninfa forjada em bronze, com um modesto trevo sobre o pú*bis. Bati um par de vezes e esperei, fugindo de meu reflexo no grande espelho escuro que cobria boa parte da parede. Estava considerando a possibilidade de escapar dali, quando a porta se abriu e uma mulher de meia-idade e cabelos completamente brancos, delicadamente presos num coque, sorriu para mim serenamente.

— Você deve ser o sr. David Martín.

Ninguém nunca tinha me chamado de senhor em toda a minha vida e a formalidade me pegou de surpresa.

— Ele mesmo.

— Faça a gentileza de entrar e me acompanhar.

Seguimos por um breve corredor que conduzia a uma ampla sala circular de paredes revestidas de veludo e lâmpadas à meia-luz. O teto formava uma cúpula de cristal esmaltado, da qual pendia um lustre, também de cristal, sob o qual uma mesa de mogno sustentava um enorme gramofone que sussurrava uma ária de ópera.

— Posso lhe oferecer algo para beber, cavalheiro?

— Agradeceria um copo d’água, se fosse possível.

A dama do cabelo branco sorriu sem pestanejar, imperturbável em seu porte amável e sereno.

— Talvez lhe pareça melhor uma taça de champanhe ou um licor. Ou quem sabe um xerez.

Meu paladar não distinguia nem as diferenças entre as várias safras da água de torneira, de modo que dei de ombros.

— Pode escolher.

A dama concordou sem perder o sorriso e apontou para uma das suntuosas poltronas espalhadas pela sala.

— Se o cavalheiro quiser sentar, Chloé estará aqui em segundos.

Pensei que fosse engasgar.

— Chloé?

Alheia à minha perplexidade, a dama do cabelo branco desapareceu por uma porta atrás de uma cortina de contas negras, deixando-me a sós com meus nervos e meus inconfessáveis desejos. Perambulei pela sala para dissipar a tremedeira que tomava conta de mim. À exceção da música suave e da batida de meu coração nas têmporas, aquele lugar era uma tumba. Seis corredores partiam da sala, franqueados por aberturas cobertas por cortinados azuis, que conduziam a seis portas brancas de folha dupla fechadas. Deslizei para uma das poltronas, concebida para balançar o tra*seiro de príncipes regentes e generalíssimos com uma certa queda por golpes de Estado. Logo a dama de branco regressou com uma taça de champanhe numa bandeja de prata. Aceitei e ela desapareceu de novo pela mesma porta. Bebi a taça de um só gole e afrouxei o colarinho da camisa. Começava a suspeitar que talvez tudo aquilo não passasse de peça montada por Vidal para se divertir às minhas custas. Naquele momento vislumbrei uma figura que avançava em minha direção por um dos corredores. Parecia uma menina, e era. Caminhava com a cabeça baixa, sem que eu pudesse ver seus olhos. Levantei.

A menina inclinou-se numa reverência e fez sinal para que a seguisse. Só então percebi que uma de suas mãos era postiça, como a de um manequim. Levou-me até o final do corredor e, com uma chave que usava pendurada no pescoço, abriu a porta e me deu passagem. Avancei alguns passos, tentando forçar a vista. Ouvi a porta se fechar atrás de mim e, quando me virei, a menina tinha desaparecido. Ouvi o mecanismo da fechadura girar e entendi que estava trancado. Fiquei ali quase um minuto, imóvel. Lentamente, meus olhos se acostumaram à penumbra e o contorno do aposento se materializou a meu redor. O quarto tinha sido coberto do chão ao teto com um tecido negro. De um lado, adivinhava-se uma série de estranhos artefatos que nunca tinha visto e que não fui capaz de decidir se eram sinistros ou tentadores. Um amplo leito circular repousava sob uma cabeceira que parecia uma grande teia de aranha. Da teia, pendiam dois candelabros, nos quais ardiam dois círios negros, desprendendo aquele cheiro de cera que costuma impregnar capelas e velórios. Ao lado da cama havia um biombo de treliça e desenho sinuoso. Senti um calafrio. Aquele lugar era idêntico ao quarto que eu tinha criado para minha inefável vampira Chloé em suas aventuras de Os Mistérios de Barcelona. Algo naquela história cheirava mal. Já estava disposto a arrombar a porta quando percebi que não estava sozinho. Parei, gelado. Uma silhueta se perfilava atrás do biombo. Dois olhos brilhantes me observavam e pude ver dedos brancos e afilados ornados por longas unhas negras surgirem entre os orifícios da treliça. Engoli em seco.

— Chloé? — murmurei.

Era ela, a minha Chloé. A operística e insuperável femme fatale de meus contos em carne e lingerie. Tinha a pele mais pálida que jamais tinha visto, e o cabelo negro e brilhante, cortado em ângulo reto, emoldurava seu rosto. Seus lábios estavam pintados com algo que parecia sangue fresco, e círculos esfumaçados de sombra escura rodeavam seus olhos verdes. Movia-se como um felino, como se aquele corpo apertado num corselete de escamas reluzentes fosse de água e tivesse aprendido a enganar a gravidade. Em sua garganta esguia e interminável enrolava-se uma fita de veludo escarlate, da qual pendia um crucifixo invertido. Incapaz de respirar, vi que se aproximava lentamente, meus olhos grudados naquelas pernas desenhadas com traço impossível, sob meias de seda que provavelmente custavam mais do que eu ganhava em um ano, apoiadas em sapatos pontiagudos como punhais, presos a seus tornozelos por fitas de seda. Em toda a minha vida nunca tinha visto nada mais belo, nem que me desse tanto medo.

Deixei-me levar por aquela criatura até a cama, onde caí, literalmente, de bu*nda. A luz das velas acariciava o perfil de seu corpo. Meu rosto e meus lábios estavam na altura de seu ventre e, sem nem perceber o que estava fazendo, dei-lhe um beijo sob o umbigo e acariciei sua pele com as maçãs do rosto. Nessa altura, já tinha esquecido quem era e onde estava. Ela se ajoelhou diante de mim e pegou minha mão direita. Languidamente, como um gato, lambeu meus dedos um a um. Depois, olhou-me fixamente e começou a tirar minha roupa. Quando quis ajudá-la, sorriu e afastou minhas mãos.

— Shhhh.

Quando terminou, inclinou-se para mim e lambeu meus lábios.

— Agora você. Dispa-me. Devagar. Bem devagar.

Soube então que tinha sobrevivido à minha infância enfermiça e lamentável apenas para viver aqueles segundos. Vagarosamente, eu a des*pi, descobrindo sua pele até que, sobre seu corpo, restou apenas a fita de veludo em torno da garganta e aquelas meias negras de cuja lembrança um infeliz como eu poderia viver cem anos.

— Acaricie-me — sussurrou a meu ouvido. — Brinque comigo.

Acariciei e beijei cada centímetro de pele como se quisesse memorizá-lo para toda a vida. Chloé não tinha pressa e respondia ao toque de minhas mãos e meus lábios com suaves gemidos que me guiavam. Em seguida, estendeu-me na cama, cobriu meu corpo com o seu, e senti que todos os poros de minha pele queimavam. Pousei as mãos em suas costas e percorri a linha milagrosa que marcava sua coluna. Seu olhar impenetrável me observava a apenas alguns centímetros do meu rosto. Senti que precisava lhe dizer algo…

— Meu nome…

— Shhhh.

Antes que pudesse dizer mais alguma bobagem, Chloé pousou seus lábios sobre os meus e, pelo espaço de uma hora, me fez esquecer o mundo. Consciente de minha inabilidade, mas sem deixar que eu percebesse, Chloé antecipava cada um de meus movimentos e guiava minhas mãos por seu corpo sem pressa nem pudor. Não havia enfado nem ausência em seus olhos. Deixava-se levar e saborear com infinita paciência e uma ternura que me fez esquecer como tinha chegado ali. Naquela noite, pelo breve espaço de uma hora, aprendi cada linha de seu corpo como outros aprendem preces ou condenações. Mais tarde, quase sem fôlego, Chloé me deixou apoiar a cabeça em seu colo e acariciou meu cabelo durante um longo silêncio, até que adormeci em seus braços, com as mãos entre suas coxas.

Quando despertei, o quarto permanecia na penumbra e Chloé tinha desaparecido. Sua pele já não estava em minhas mãos. Em seu lugar, havia um cartão de visita impresso no mesmo pergaminho branco do envelope que trouxe o convite, no qual, sob o emblema do anjo, lia-se o seguinte:

ANDREAS CORELLI
Editor
Éditions de la Lumière
Boulevard Saint-Germain, 69, Paris

No verso havia uma anotação escrita à mão.

Querido David, a vida é feita de grandes esperanças. Quando estiver pronto para transformar as suas em realidade, entre em contato comigo. Estarei esperando. Seu amigo e leitor,
A.C.

Peguei minha roupa no chão e me vesti. A porta do quarto já não estava trancada. Percorri o corredor até o salão, onde o gramofone tinha silenciado. Não havia sinal da menina nem da mulher de cabelo branco que tinha me recebido. O silêncio era absoluto. À medida que avançava, tinha a impressão de que as luzes às minhas costas iam se apagando e corredores e quartos mergulhavam lentamente na escuridão. Saí para a entrada e desci as escadas de volta ao mundo, sem ânimo. Ao chegar à rua, segui em direção à Rambla, deixando a confusão e a multidão dos locais noturnos para trás. Uma névoa tênue e cálida subia do porto e os reflexos das vidraças do hotel Oriente a tingiam de um amarelo sujo e poeirento no qual os transeuntes sumiam como desenhos de vapor. Comecei a caminhar enquanto o perfume de Chloé começava a evaporar de meu pensamento. Fiquei me perguntando se os lábios de Cristina Sagnier, a filha do motorista de Vidal, teriam o mesmo sabor.

A gente não sabe o que é sede até beber pela primeira vez. Três dias depois de minha visita a El Ensueño, a memória da pele de Chloé queimava até meus pensamentos. Sem dizer nada a ninguém — e menos ainda a Vidal —, resolvi juntar minhas parcas economias e ir até lá à noite, na esperança de que fossem suficientes para comprar um instante que fosse em seus braços. Passava de meia-noite quando cheguei à escada de paredes vermelhas que levava a El Ensueño. A luz da escadaria estava apagada e subi lentamente, deixando para trás a ruidosa cidadela de cabarés, bares, music halls e locais indefiníveis que se espalharam pela rua Nou de la Rambla durante os anos da grande guerra na Europa. A luz trêmula que se filtrava pela porta de entrada ia desenhando os degraus à minha passagem. Chegando ao patamar, parei e comecei a tatear a porta em busca da aldrava. Meus dedos roçaram no pesado batedor de metal e, ao levantá-lo, a porta cedeu alguns centímetros e vi que estava aberta. Empurrei suavemente. Um silêncio absoluto acariciou meu rosto. Diante de mim, abria-se uma penumbra azulada. Dei alguns passos, desconcertado. O eco das luzes da rua piscava no ar, revelando visões fugazes das paredes nuas e do chão de madeira todo quebrado. Cheguei à sala que tinha visto forrada de veludo e com mobiliário suntuoso. Estava vazia. O manto de poeira que cobria o chão brilhava como areia sob os reflexos dos luminosos da rua. Avancei deixando um rastro na poeira. Não havia sinal do gramofone, das poltronas, nem dos quadros. O teto estava arrebentado e entreviam-se vigas de madeira escurecida. A pintura das paredes pendia em tiras como peles de serpente. Fui para o corredor que levava ao quarto onde tinha encontrado Chloé. Atravessei aquele túnel escuro até chegar à porta de folha dupla, que já não era branca. Não havia maçaneta, apenas um buraco na madeira, como se ela tivesse sido arrancada. Abri a porta e entrei.

O quarto de Chloé era uma cela escura. As paredes estavam carbonizadas e a maior parte do teto tinha desmoronado. Podia ver o lençol de nuvens negras que cruzavam o céu e a lua, que projetava sua luz prateada sobre o esqueleto metálico do que tinha sido um leito. Foi então que ouvi o chão estalar às minhas costas e virei rapidamente, compreendendo que não estava sozinho naquele lugar. Uma silhueta escura e afilada, masculina, recortava-se na entrada do corredor. Não podia ver seu rosto, mas tinha certeza de que estava me observando. Permaneceu ali, imóvel como uma aranha durante alguns segundos, o tempo que levei para reagir e dar um passo em sua direção. Num piscar de olhos, a silhueta retirou-se para as sombras e quando cheguei ao salão não havia mais ninguém. Um sopro de luz procedente de um cartaz luminoso suspenso do outro lado da rua inundou a sala por um segundo, revelando um pequeno monte de escombros empilhados contra a parede. Aproximei-me e ajoelhei diante dos restos carcomidos pelo fogo. Algo se destacava na pilha. Dedos. Comecei a retirar as cinzas e o contorno de uma mão aflorou lentamente. Peguei-a e, ao puxá-la, vi que estava cortada na altura do punho. Reconheci imediatamente a mão daquela menina e compreendi que não era de madeira como pensei, mas de porcelana. Deixei a mão cair de novo sobre os escombros e afastei-me de lá.

Duvidei se não teria imaginado aquela silhueta, pois não havia pegadas na poeira. Desci para a rua de novo e fiquei na calçada ao pé do edifício, examinando as janelas do primeiro andar, completamente confuso. As pessoas passavam a meu lado rindo, alheias à minha presença. Tentei reconhecer a silhueta do desconhecido na multidão. Sabia que estava ali, talvez a uns poucos metros, observando-me. De repente, resolvi atravessar a rua e entrar num café acanhado e abarrotado de gente. Consegui abrir espaço no balcão e fiz sinal para o garçom.

— O que deseja?

Tinha a boca seca e arenosa.

— Uma cerveja — improvisei.

Enquanto o garçom me servia a bebida, inclinei-me em sua direção.

— Ouça, sabe se o local aí da frente, El Ensueño, está fechado?

O garçom deixou o copo no balcão e olhou-me como se eu fosse idiota.

— Está fechado há 15 anos — disse.

— Tem certeza?

— Claro. Não voltou a abrir depois do incêndio. Mais alguma coisa?

Neguei.

— São quatro cêntimos.

Paguei a consumação e fui embora sem nem tocar no copo.

No dia seguinte, cheguei à redação do jornal antes da minha hora e fui direto para os arquivos do sótão. Com a ajuda de Matías, o encarregado, e guiando-me pelo que o garçom tinha me contado, comecei a consultar as manchetes de La Voz de la Industria de 15 anos atrás. Precisei de cerca de quarenta minutos para achar a história, apenas uma nota. O incêndio tinha acontecido durante a madrugada do dia de Corpus Christi, em 1903. Seis pessoas tinham morrido presas entre as chamas: um cliente, quatro profissionais do local e uma menina que trabalhava lá. A polícia e os bombeiros tinham apontado um acidente com um candeeiro como causa da tragédia, embora os responsáveis por uma paróquia vizinha falassem em castigo divino e intervenção do Espírito Santo. Ao voltar à pensão, deitei em minha cama e tentei inutilmente conciliar o sono. Tirei do bolso o cartão daquele estranho benfeitor, encontrado em minhas mãos quando acordei no leito de Chloé, e reli na penumbra as palavras escritas no verso: “Grandes esperanças.”

—–
+ Veja também: