Trecho do Livro: Eu, Malika Oufkir, Prisioneira do Rei | Malika Oufkir e Michele Fitoussi

Livros Eu Malika Oufkir Prisioneira do Rei Stolen Lives Twenty Years in a Desert Jail Michele Fitoussi BooksLivro: Eu, Malika Oufkir, Prisioneira do Rei

Do salão escapam melodias de mambo e chá-chá-chá; a percussão e as guitarras embalam a chegada dos convidados. As risadas, as conversas invadem todos os cômodos, chegam ao quarto onde não consigo pegar no sono.

Escondida atrás da porta entreaberta, o polegar enfiado na boca, observo as mulheres que rivalizam em beleza e elegância, com seus vestidos longos, de grandes costureiros. Admiro os coques fixados com laquê, as jóias cintilantes, a sofisticação das maquiagens. Elas parecem as princesas dos meus contos de fada favoritos, com as quais eu gostaria tanto de parecer quando crescesse. Como demora para eu crescer…

De repente ela aparece, para mim a mais linda, num vestido branco decotado que realça a curva suave do seu colo. Com o coração batendo, vejo-a cumprimentar e sorrir, beijar os amigos, inclinar a nuca delicada diante de desconhecidos de smoking. Logo ela irá dançar, cantar, baterá palmas e irá se divertir até raiar o dia como todas as vezes que meus pais dão uma recepção em casa.

Ela me esquecerá por algumas horas, enquanto eu lutarei contra o sono em minha caminha, pensando sempre nela, em sua pele acetinada, em seus cabelos sedosos nos quais é gostoso esconder meu rosto, em seu perfume, em seu calor. Mamãe.
Mamãe querida, da qual, em meu paraíso infantil, nem imagino que um dia possam me separar.

Minha mãe e eu somos ligadas por um destino semelhante, tecido de abandono e solidão. Com apenas quatro anos, ela perdia sua mãe, morta no parto com o filho que trazia no ventre. Aos cinco anos, eu era arrancada da doçura de seus braços para ser adotada pelo rei Mohammed V. Terão sido nossas infâncias órfãs de ternura materna, nossa pequena diferença de idade – ela tinha dezessete anos quando nasci -, nossa incrível semelhança física ou nossas vidas de mulheres brutalmente quebradas que selaram essa nossa ligação tão forte? Como eu, mamãe sempre teve o olhar grave daqueles que a sorte atormenta.

Quando sua mãe morreu, bem no início da guerra, seu pai, Abdelkader Chenna, oficial do exército francês, acabava de receber a ordem de incorporar-se a seu regimento na Síria. Era impossível levar consigo a filha e o filho caçula. Deixou os dois órfãos em Meknés, onde moravam então, num convento de freiras francesas, para que recebessem boa educação. O menino sucumbiu a uma difteria. Minha mãe, que gostava muito do irmão, sentiu dificuldade para se recuperar dessa perda que a deixava sozinha no meio de estranhos. A vida lhe reservaria ainda muitos outros desgostos.

As freiras trataram de fazer daquela bonita Fatéma, que o céu lhes mandara, uma perfeita cristã. Ela aprendeu o sinal-da-cruz e venerava a Virgem, Jesus e todos os santos quando seu pai voltou para buscá-la e levá-la para casa. De tanta raiva, esse muçulmano praticante que já fizera a peregrinação a Meca quase engoliu suas medalhas…

Não convinha que um militar de carreira criasse sozinho uma menina tão pequena. Seus amigos instaram-no a casar de novo. Escolheu uma mulher bem moça, de boa família, com quem se casou, antes de mais nada por seus talentos de mestre-cuca. Ninguém melhor que Khadija na preparação das pastillas de que meu pai gostava tanto. Minha mãe não suportava dividir seu pai adorado com uma estranha, apenas alguns anos mais velha que ela. O nascimento de uma irmã, Fawzia, depois o de um irmão, Azzedine, avivaram seus ciúmes.

Ela logo desejou escapar de um lar em que se sentia infeliz e era mantida presa por seu pai, como era costume para as mulheres. Mas não tinha onde encontrar um calor que lhe faltava. A família de sua mãe, ricos berberes do Médio Atlas, havia sido quase toda dizimada. Meus bisavós tiveram quatro filhas, cuja beleza era reputada a quilômetros dali. Três morreram na adolescência. A quarta, minha avó Yamna, casou-se com seu vizinho, o belo Abdelkader Chenna, cujas terras faziam limite com as dela.

Ele teve de raptá-la para casar com ela, como na melhor tradição dos contos de fadas. Dessa avó, morta aos dezenove anos, sei simplesmente que era uma mulher e tanto, moderna e desinibida, que gostava de se vestir bem, de viajar e de dirigir automóvel. Aos quinze anos, já era mãe. Aos dezoito, organizou um salão literário na Síria, para onde fora meu avô com seu regimento.

Minha mãe e seu jovem tio, fruto da união tardia de meu bisavô com uma escrava negra, não demoraram a ser os únicos sobreviventes de toda essa família. Os trigais e o ouro acumulado durante várias gerações fizeram dela uma herdeira rica, porém menos que seu tio, ao qual, como manda o costume marroquino, coube a maior parte da fortuna. Ela possuía imóveis, mansões e todo um bairro da velha cidade de Salé. Enquanto esperava que ela pudesse dispor de seus bens, meu avô foi encarregado de administrá-los. Infelizmente, era um péssimo administrador e gastou mais do que fez multiplicar. O que coube à minha mãe era, ainda assim, considerável.

Aos doze anos, minha mãe já era lindíssima. Seus grandes olhos negros, seu rosto fino, sua pele morena, seu corpo miúdo e bem-feito não deixavam nada indiferentes os oficiais amigos que seu pai costumava receber em casa. O que não lhe desagradava. Ela queria se casar, constituir família. Um jovem oficial que voltava da Indochina coberto de medalhas pôs-se a freqüentá-los. Meu avô, que já o conhecia, o havia revisto no rancho dos oficiais. Seduzido por sua inteligência e por sua reputação de bravura no front, fez amizade com ele e convidou-o a sua casa. Escondida atrás das cortinas, minha mãe observou-o o jantar inteiro. O oficial notou sua artimanha e os olhos dos dois se cruzaram. A intensidade do olhar dela o impressionou. E ela admirou seu garbo na bonita farda branca.

Meu avô tentou convencer o novo amigo a não voltar para a Indochina. Este sentiu-se tocado por seus argumentos e sem dúvida pela beleza da filha. Alguns dias depois, meu pai – pois se tratava dele – veio pedi-la em casamento. Meu avô ficou espantado e, para dizer a verdade, quase irritado.

“Fatéma é apenas uma menina”, protestou. “Aos quinze anos, nem sonha em se casar!”

Abdelkader ainda estava traumatizado com a morte de Yamna, sua primeira mulher ternamente amada, que ele atribuía a gestações precoces e demasiado próximas. Mas acabou deixando-se convencer, tanto mais que minha mãe aceitou com entusiasmo o pedido do pretendente. Ela não o conhecia ainda, mas precisava sair de casa. Ele a cortejou ardorosamente.
Ela não demorou a se apaixonar.

Meus pais tinham vinte anos de diferença. Mohammed Oufkir, meu pai, nasceu em Aïn-Chaïr, na região de Tafilalet, reduto dos berberes do Alto Atlas marroquino. O nome, Oufkir, significa “empobrecido”. Em sua família, a cama e a mesa estavam sempre prontas para o pedinte ou o necessitado, numerosos naquelas regiões rudes e desérticas. Aos sete anos, perdeu o pai, Ahmed Oufkir, chefe da aldeia e, mais tarde, nomeado paxá de Bou-Denib, por Lyautey.

Sua infância foi solitária e sem dúvida bastante triste. Estudou no colégio berbere de Azrou, perto de Meknés. Depois, o exército serviu-lhe de família. Aos dezenove anos, entrava para a escola militar de Dar-Beida,6 e aos vinte e um anos alistava-se como subtenente da reserva no exército francês. Foi ferido na Itália, passou a convalescença na França, recebeu a patente de capitão na Indochina. Quando voltou a ver minha mãe, era ajudante-de-ordem do general Duval, comandante das tropas francesas no Marrocos. A vida na tropa começava a tornar-se pesada para o jovem oficial. Ele, o militar de carreira que freqüentava bordéis e casas de jogo, ficou enternecido com a inocência infantil de sua noiva. Mostrou-se imediatamente meigo e atencioso.

Mohammed Oufkir e Fatéma Chenna se casaram no dia 29 de junho de 1952. Instalaram-se numa casinha simples, à altura do modesto soldo do capitão Oufkir. Meu pai foi seu mentor: ensinou-a a se vestir, a se portar à mesa e na sociedade. Do alto de seus dezesseis anos, ela levou a sério seu papel de esposa de oficial. Eram felizes e estavam perdidamente apaixonados. Minha mãe, que sonhava ter oito filhos, logo engravidou.

Nasci no dia 2 de abril de 1953, numa maternidade mantida por religiosas. Meu pai ficou louco de felicidade. Não se incomodava que eu fosse do sexo feminino: eu era a menina dos olhos dele, sua pequena rainha. Como minha mãe, ele desejava, acima de tudo, uma família. Não concordavam totalmente quanto ao número de filhos por vir. Meu pai queria limitar-se a três. Dois anos depois, nasceu minha irmã Myriam e, três depois dela, meu irmão Raouf, o primeiro menino, para o qual foi dada uma festa memorável.

Da minha primeira infância só tenho lembranças felizes. Meus pais me rodeavam de amor e minha casa era agradável. Via pouco meu pai. Ele voltava tarde, se ausentava com freqüência. Sua carreira progredia depressa. Mas eu não tinha a menor dúvida do seu afeto. Quando ele estava em casa, sabia demonstrar o quanto me amava. Sua ausência não me pesava.

O centro do mundo era mamãe. Eu a amava e a admirava. Ela era bonita, refinada, o próprio modelo de feminilidade. Sentir seu perfume, acariciar sua pele, bastava para minha felicidade. Eu a seguia como se fosse sua sombra. Ela adorava cinema e ia quase todos os dias, às vezes assistia até a duas ou três sessões. Desde os seis meses, eu a acompanhava no meu cestinho. Devo sem dúvida a essa precocidade cinéfila minha paixão pela sétima arte. Levava-me ao cabeleireiro, a quem pedia para fazer uma permanente em mim. Ela gostaria de ter tido uma filhinha de cabelos cacheados, como Scarlett O’Hara. Mas ao primeiro vento meu lindo penteado se desmanchava.

Eu a acompanhava à casa de suas amigas, ia com ela andar a cavalo, às compras, ao banho turco – que se tornava um suplício para mim quando eu tinha de me despir diante de todo mundo. Eu a via vestir-se, pentear-se, maquiar-se com um traço de khôl. Eu dançava com ela os rocks endiabrados de nosso ídolo comum, Elvis Presley. Nesses momentos, tínhamos quase a mesma idade.

A vida girava em torno de mim. Eu era mimada, vestida como uma princesinha nas butiques mais elegantes, Le Bon Génie em Genebra, La Châtelaine em Paris. Mamãe era vaidosa e gastadora, ao contrário de meu pai, que se aborrecia com as contingências financeiras. O dinheiro lhe queimava os dedos. Ela podia vender um imóvel para comprar toda a coleção de Dior e de Saint-Laurent, seus costureiros preferidos, e gastar vinte, trinta mil francos numa tarde, em seus pequenos prazeres.

Depois da casinha de capitão, mudamos para Souissi, em Rabat, na Alameda das Princesas. A casa dava para um pomar silvestre onde cresciam laranjeiras, limoeiros, tangerineiras. Eu compartilhava meus jogos com Leila, uma prima um pouco mais velha que minha mãe tinha adotado.

Alguns anos depois, quando eu não morava mais com os meus pais, papai, então ministro do Interior do rei Hassan ii, construiu outra casa, sempre na Alameda das Princesas. Eles tiveram duas outras filhas, Mouna-Inan, que se tornaria Maria na prisão, e, um ano depois, Soukaïna.

Minha família era próxima da família real. Meus pais eram os únicos de fora autorizados a entrar e passear por todo o Palácio. Meu pai, chefe dos ajudantes-de-ordens do rei, havia conquistado a confiança de Mohammed V. Já minha mãe conhecia o soberano desde criança. Antes de seu pai casar-se pela segunda vez, ela morara um tempo em Meknés, na casa de uma das irmãs do rei, que ele visitava com freqüência. Mohammed v notara a beleza da menina, que contava então oito anos. Logo lhe deu prova de um afeto que o tempo não desmentiu.

Tornou a vê-la por ocasião do aniversário de seus vinte e cinco anos de reinado,14 uma cerimônia para a qual foram convidados seus ajudantes-de-ordens e as esposas. Como meu pai, minha mãe passou a ter o privilégio de entrar no Palácio. O rei confiava nela. Apreciava sua companhia, mas aquele homem severo era muito zeloso dos princípios para se permitir qualquer ambigüidade com uma mulher casada.

Minha mãe tornou-se amiga das duas esposas do rei, que exigiram vê-la todos os dias. Vivia na intimidade delas. As duas rainhas estavam enclausuradas no harém. Mamãe lhes comprava roupas, produtos de beleza, contava-lhes com minúcia os acontecimentos exteriores. Elas eram ávidas de detalhes sobre sua vida, seus filhos, seu casamento.

Rivais em relação ao rei, as duas eram muito diferentes. Uma, Lalla Aabla, a quem chamavam rainha-mãe ou Oum Sidi, dera à luz o príncipe herdeiro, Moulay Hassan. A outra, Lalla Bahia, uma natureza selvagem de beleza perturbadora, era mãe da filha querida do rei, a princesinha Amina, nascida no exílio em Madagascar, quando Lalla Bahia se imaginava estéril.

Enquanto Lalla Aabla, perita nas intrigas do serralho, era uma virtuose na arte da diplomacia, Lalla Bahia não gostava muito das mundanidades e da dissimulação de regra na corte. Entre as duas, mamãe logo se iniciou na arte do compromisso, porque no Palácio a neutralidade era impossível. Era preciso ser ou de um lado ou do outro.

Moulay Hassan, que chamavam de Smiyet Sidi, morava numa casa vizinha e vinha com freqüência nos visitar, assim como as princesas, suas irmãs e seu irmão, o príncipe Moulay Abdallah. Mandavam-me cumprimentá-los com deferência. Uma noite de ramadã, depois da quebra do jejum, minha mãe estava descansando no seu salão, rodeada por algumas amigas. Eu corria pela casa. Atravessando o corredor, vi um senhor desconhecido saindo da cozinha. Impressionada com sua imponência, parei de correr. Ele sorriu para mim, me beijou.

“Vá dizer à sua mãe que estou aqui.”

Fui correndo avisá-la. Ela se prosternou imediatamente diante daquele homem estranho.
Era o rei Mohammed V, que vinha visitá-la sem se anunciar, como às vezes fazia. Ele lhe disse que tinha se permitido entrar na cozinha porque sentira um cheiro de queimado. A cozinheira havia esquecido a chaleira no gás aceso, e ela começava a derreter. Sua Majestade nos salvou de um incêndio!

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