Trecho do Livro: A Canção da Espada | Bernard Cornwell

Livros A Cancao da Espada Bernard Cornwell Sword Song BooksLivro: A Canção da Espada

– O morto fala – disse-me Æthelwold. Para variar, estava sóbrio. Sóbrio, espantado e sério. O vento da noite batia na casa e as velas feitas de junco e sebo tremeluziam vermelhas nas correntes de ar de inverno que chicoteavam pelo buraco de fumaça do teto, pelas portas e os postigos.

– O morto fala? – perguntei.

– Um cadáver se ergue da sepultura e fala. – Æthelwold me encarou arregalado, depois assentiu como se quisesse enfatizar que dizia a verdade. Estava inclinado em minha direção, as mãos fechadas se remexendo entre os joelhos. – Eu vi.

– Um cadáver fala?

– Ele se levanta! – Æthelwold ergueu a mão, mostrando o que queria dizer.

– Ele?

– O morto. Ele se levanta e fala. – Æthelwold continuava me encarando, com expressão indignada. – É verdade – acrescentou numa voz sugerindo que sabia que eu não acreditava.

Puxei meu banco mais para perto do fogo. Eram dez dias depois de eu ter matado os saqueadores e pendurado seus corpos junto ao rio, e agora uma chuva gelada batucava na palha do teto e golpeava os postigos fechados. Dois de meus cães estavam na frente do fogo, e um me lançou um olhar ressentido quando fiz barulho com o banco, depois pousou a cabeça de novo. A casa fora construída pelos romanos, o que significava que o piso era de ladrilhos e as paredes, feitas de pedra, mas eu mesmo havia preparado o teto de palha. A chuva passava pelo buraco da fumaça.

– O que o morto diz? – perguntou Gisela. Era minha mulher e mãe de meus dois filhos.

Æthelwold não respondeu imediatamente, talvez porque acreditasse que uma mulher não deveria participar de uma conversa séria, mas meu silêncio lhe disse que Gisela podia falar em sua própria casa e ele estava nervoso demais para insistir que eu a mandasse embora.

– Ele diz que eu deveria ser o rei – admitiu baixinho, depois me olhou, temendo minha reação.

– Rei de quê? – perguntei em tom chapado.

– De Wessex, claro.

– Ah, de Wessex – repeti, como se nunca tivesse ouvido falar desse local.

– E eu deveria ser o rei! – protestou Æthelwold. – Meu pai era o rei!

– E agora o irmão de seu pai é o rei – disse eu – e, os homens dizem que ele é um bom rei.

– Você diz isso? – desafiou ele.

Não respondi. Era bem sabido que eu não gostava de Alfredo e que Alfredo não gostava de mim, mas isso não significava que o sobrinho de Alfredo, Æthelwold, seria um rei melhor. Æthelwold, como eu, tinha quase 30 anos, e havia ganhado reputação de bêbado e idiota libidinoso. No entanto, realmente tinha o direito de reivindicar o trono de Wessex. Seu pai havia de fato sido rei, e se Alfredo tivesse um mínimo de bom senso mandaria cortar a garganta de seu sobrinho até o osso. Em vez disso, confiava na sede de Æthelwold por cerveja para impedi-lo de causar problema.

– Onde você viu esse cadáver vivo? – perguntei, em vez de responder à sua pergunta.

Ele balançou em direção ao lado norte da casa.

– Do outro lado da estrada. Logo do outro lado.

– Da Wæclingastræt? – perguntei, e ele assentiu. Então ele estava falando com os dinamarqueses, e não só com o morto. A Wæclingastræt é uma estrada que parte de Lundene em direção ao noroeste. Inclina-se atravessando a Britânia e terminando no mar da Irlanda, logo ao norte de Gales, e tudo ao sul da estrada era supostamente terra saxã, e tudo ao norte ficava na mão dos dinamarqueses. Essa era a paz que tínhamos naquele ano de 885, mas era uma paz com uma cobertura espumante de escaramuças e ódio.

Æthelwold assentiu.

– O nome dele é Bjorn – disse. – Era um skald na corte de Guthrum e se recusou a virar cristão, por isso Guthrum o matou. Ele pode ser invocado da sepultura. Eu vi.

Olhei para Gisela. Ela era dinamarquesa, e a feitiçaria descrita por Æthelwold não se parecia com nada que eu conhecera entre meus colegas saxões. Gisela deu de ombros, sugerindo que a magia era igualmente estranha para ela.

– Quem invoca o morto? – perguntou.

– Um cadáver recente – disse Æthelwold.

– Um cadáver recente? – perguntei.

– Alguém deve ser mandado ao mundo dos mortos – explicou ele, como se fosse óbvio – para encontrar Bjorn e trazê-lo de volta.

– Então eles matam alguém? – perguntou Gisela.

– De que outro modo podem mandar um mensageiro aos mortos? – perguntou Æthelwold em tom belicoso.

– E esse tal de Bjorn fala inglês? – perguntei. Fiz a pergunta porque sabia que Æthelwold falava pouco ou nenhum dinamarquês.

– Ele fala inglês – respondeu Æthelwold, carrancudo. Não gostava de ser questionado.

– Quem o levou até ele?

– Uns dinamarqueses – disse ele vagamente. Dei um risinho de desprezo.

– Então uns dinamarqueses vieram e lhe disseram que um poeta morto queria falar com você, e você humildemente viajou para a terra de Guthrum?

– Eles me pagaram com ouro – respondeu Æthelwold defensivamente. Ele vivia com dívidas.

– E por que você veio falar conosco?

Æthelwold não respondeu. Ficou se remexendo e olhou para Gisela, que estava fiando lã em sua roca.

– Você vai à terra de Guthrum – insisti -, fala com um morto e depois vem me procurar. Por quê?

– Porque Bjorn disse que você também será rei. – Æthelwold não havia falado alto, mas mesmo assim estendi a mão para silenciá-lo e olhei ansioso na direção da porta, como se esperasse ver um espião ouvindo na escuridão do cômodo ao lado. Eu não tinha dúvida de que Alfredo possuía espiões em minha casa, e achava que sabia quem eram, mas não estava totalmente certo de ter identificado todos, motivo pelo qual me certificava de que todos os serviçais estivessem bem longe do cômodo em que Æthelwold e eu conversávamos. Mesmo assim não era sensato dizer essas coisas em voz alta. Gisela havia parado de fiar a lã e estava olhando Æthelwold. Eu também.

– Ele disse o quê? – perguntei.

– Disse que você, Uhtred – continuou Æthelwold mais rapidamente -, será coroado rei da Mércia.

– Você andou bebendo?

– Não. Só cerveja. – Ele se inclinou para mim. – Bjorn, o morto, deseja falar com você também, para contar-lhe seu destino. Você e eu, Uhtred, seremos reis e vizinhos. Os deuses querem isso e mandaram um morto me dizer. – Æthelwold estava tremendo ligeiramente e suando, mas não estava bebendo. Alguma coisa o havia amedrontado para ficar sóbrio, e isso me convenceu de que ele falava a verdade. – Eles querem saber se está disposto a se encontrar com o morto, e se estiver, mandarão chamar você.

Olhei para Gisela, que meramente me olhou de volta, com o rosto inexpressivo. Encarei-a, não esperando resposta, mas porque ela era linda, linda demais. Minha dinamarquesa morena, minha linda Gisela, minha jovem esposa, meu amor. Ela devia saber o que eu estava pensando, porque seu rosto comprido e sério foi transformado por um sorriso lento.

– Uhtred será rei? – perguntou ela, rompendo o silêncio e olhando para Æthelwold.

– É o que diz o morto – respondeu Æthelwold em tom de desafio.

– E Bjorn ouviu isso das três irmãs. – Ele queria dizer as Fiandeiras, as Norns, as três irmãs que tecem nosso destino.

– Uhtred será rei da Mércia? – perguntou Gisela, em dúvida.

– E você será a rainha – disse Æthelwold.

Gisela me olhou de novo. Tinha uma expressão interrogativa, mas não tentei responder ao que sabia que ela estava pensando. Em vez disso, estava refletindo que não havia rei na Mércia. O antigo, um vira-lata saxão com coleira dinamarquesa, havia morrido e não existia sucessor, enquanto o reino propriamente dito estava dividido entre dinamarqueses e saxões. O irmão da minha mãe fora ealdorman na Mércia antes de ser morto pelos galeses, por isso eu tinha sangue mércio. E não havia rei na Mércia.

– Acho que é melhor você ouvir o que o morto diz – observou Gisela seriamente.

– Se eles mandarem me chamar – prometi -, irei. – E iria mesmo, porque um morto estava falando e queria que eu fosse rei.

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