Trecho do Livro: O Livreiro de Cabul | Asne Seierstad

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O pedido de casamento

Quando Sultan Khan achou que estava na hora de procurar outra esposa, ninguém queria ajudá-lo. Ele então foi falar com sua mãe.

— Basta aquela que já tem — disse ela.

Depois ele foi até sua irmã mais velha.

— Gosto demais da sua primeira esposa — ouviu-a dizer. A mesma resposta ouviu das outras irmãs.

— É uma vergonha para Sharifa — disse a tia dele.

Sultan precisava de ajuda, um pretendente não pode ele mesmo pedir a mão de uma moça. Pela tradição afegã, o pedido de casamento tem que ser feito por uma das mulheres da família. Assim ela pode olhar a moça de perto, para ver se é esforçada e bem-educada, apta a se tornar uma boa esposa. Mas nenhuma das mulheres em torno de Sultan queria ter algo a ver com seu pedido de casamento.

Sultan tinha escolhido três moças que poderiam servir de esposa para ele. Todas eram saudáveis e bonitas, e de seu próprio clã. Na família de Sultan, os casamentos fora do clã são exceções. É considerado mais sábio e seguro casar-se com parentes, de preferência com primos ou primas.

Primeiro Sultan tentou Sonya, de 16 anos. Ela tinha olhos escuros amendoados e cabelos pretos que brilhavam. Seu corpo era bonito e exuberante, e diziam que trabalhava bem. Vinha de uma família pobre e tinha o parentesco apropriado. A avó de sua mãe e a avó de Sultan eram irmãs.

Enquanto Sultan arquitetava como pedir a mão da escolhida sem o apoio das mulheres da família, a primeira esposa vivia feliz ignorando que uma menina, nascida no mesmo ano em que ela e Sultan se casaram, ocupava os pensamentos do marido. Sharifa estava ficando velha, como Sultan, cinqüenta e poucos anos. Ela dera a ele três filhos e uma filha. Estava na hora de um homem da posição de Sultan procurar uma nova esposa.

— Peça você mesmo — disse por fim seu irmão.

Sultan considerou a idéia e achou que seria mesmo a única solução, e uma manhã foi à casa da jovem de 16 anos. Os pais dela receberam Sultan de braços abertos. Sultan era considerado um homem generoso, e sua visita era sempre bem-vinda. A mãe de Sonya ferveu água e serviu chá. Sentaram-se em almofadas baixas encostadas nas paredes da casinha de barro, trocaram frases de cortesia e cumprimentos até que Sultan achou que estava na hora de esclarecer o motivo da visita.

— Tenho um amigo que gostaria de se casar com Sonya — ele disse aos pais da jovem.

Não era a primeira vez que alguém havia pedido a mão de Sonya. Ela era bonita e diligente, mas os pais ainda a achavam jovem demais. O pai de Sonya não podia mais trabalhar; havia ficado paraplégico depois de uma briga com facas na qual teve vários nervos rompidos na coluna. A bela filha podia trazer um dote considerável e os pais ainda aguardavam uma oferta maior do que as que já haviam recebido.

— Ele é rico — Sultan começou. — Está no mesmo ramo de negócios que eu, tem boa formação e três filhos homens. Mas a esposa dele está ficando velha.

— Como são os dentes dele? — os pais logo perguntaram, aludindo à idade do amigo de Sultan.

— Praticamente como os meus — respondeu Sultan. — Julguem pelos meus.

Velho, pensaram os pais. O que não necessariamente era uma desvantagem. Quanto mais velho fosse o homem, mais pagaria pela filha. O preço de uma noiva é determinado por idade, beleza e qualidades, e pela posição da família.

Depois de Sultan Khan ter transmitido sua mensagem, os pais disseram o que era esperado:

— Ela é jovem demais.

Dizer outra coisa seria vendê-la barato ao pretendente rico e desconhecido de quem Sultan falava tão bem. Não deviam se mostrar ansiosos demais. Mas sabiam que Sultan voltaria, porque Sonya era jovem e bonita.

Ele voltou no dia seguinte para repetir o pedido de casamento. A mesma conversa, a mesma resposta. Mas desta vez encontrou Sonya, a quem não via desde criança.

Ela beijou sua mão, em respeito ao parente mais velho, e ele abençoou-a com um beijo no alto da testa. Sonya percebeu a tensão no ar e retraiu-se sob o olhar penetrante do tio Sultan.

— Encontrei um marido rico para você, o que acha?

Sonya baixou os olhos. Responder seria uma transgressão de todas as regras. Uma moça não deve achar nada a respeito de um pretendente.

Sultan voltou no terceiro dia, desta vez apresentando a oferta do pretendente. Um anel, um colar, brincos e um bracelete — tudo em ouro vermelho. Quanta roupa quisesse, trezentos quilos de arroz, 150 quilos de óleo de cozinha, uma vaca, alguns carneiros e 15 milhões de afeganis, aproximadamente trezentas libras.

O pai de Sonya ficou mais do que satisfeito com a oferta, e pediu para conhecer o homem misterioso que a estava fazendo. Sultan tinha até assegurado que o homem era do mesmo clã, mas não conseguiram adivinhar quem seria ou lembrar de tê-lo conhecido.

— Amanhã vou mostrar-lhes uma foto dele — disse por fim Sultan.

No dia seguinte, a tia de Sultan aceitou, por um pequeno suborno, revelar o verdadeiro pretendente para os pais de Sonya. Ela levou a foto — uma foto de Sultan Khan, o próprio — e deixou logo claro que Sultan só lhes concedia uma hora para decidir. Caso a resposta fosse positiva, ele ficaria muito agradecido; caso a resposta fosse negativa, não guardaria rancores. A única coisa que não queria eram intermináveis negociações com talvez sim, talvez não.

Os pais consentiram antes de o prazo expirar. Gostavam tanto de Sultan quanto do seu dinheiro e posição. Sonya ficou no sótão, chorando. Quando o mistério do pretendente foi esclarecido e os pais decidiram aceitar a oferta, o irmão do pai subiu para falar com ela.

— É tio Sultan o pretendente — ele disse. — Você aceita?

Nenhum som atravessou os lábios de Sonya, que continuou sentada, cabisbaixa e com lágrimas nos olhos, escondida atrás do xale comprido.

— Seus pais já o aceitaram — o tio disse. — Esta é a única chance de dizer o que você quer.

Ela estava petrificada, assustada e paralisada. Sabia que não queria aquele homem, mas sabia também que era obrigada a aceitar o desejo dos pais. Como esposa de Sultan ela subiria vários degraus na sociedade afegã. O dote valoroso solucionaria muitos problemas de sua família. O dinheiro que os pais iam receber ajudaria os irmãos a comprar boas esposas.

Sonya continuou calada. Assim seu destino se selava: quem cala, consente. O acordo foi concluído e o dia do casamento marcado.

Sultan voltou para casa para contar à família a grande novidade. Encontrou sua mulher Sharifa, a mãe e as irmãs no chão em volta de uma travessa com arroz e espinafre. Sharifa pensou que ele estivesse brincando e deu risadas e brincou com ele. A mãe também riu da brincadeira de Sultan. Era inimaginável que ele tivesse pedido alguém em casamento sem o consentimento delas. Suas irmãs ficaram atônitas.

Ninguém queria acreditar nele. Não até ele mostrar o lenço e os doces que o pretendente ganha dos pais da noiva como prova do noivado.

Sharifa chorou durante vinte dias.

— O que fiz de errado? Que vergonha! Por que não está satisfeito comigo?

Sultan pediu que ela se controlasse. Ninguém da família apoiou Sultan, nem mesmo os próprios filhos. Ainda assim, ninguém tinha coragem de dizer nada. A vontade de Sultan era sempre soberana.

Sharifa ficou inconsolável. Sua maior derrota era saber que o marido tinha escolhido uma analfabeta, que nem havia concluído o primeiro ano. Ela mesma tinha formação de professora de persa.

— O que ela tem que eu não tenho? — soluçava.

Sultan não ligou para as lágrimas da mulher.

Ninguém queria ir à festa de noivado, mas Sharifa foi obrigada a engolir a vergonha e se arrumar para o evento.

— Quero que todos vejam que você está de acordo e me apóia. No futuro vamos todos morar juntos, e você precisa mostrar que Sonya é bem-vinda — ele ordenou. Sharifa sempre fazia as vontades do marido, e agora não podia ser diferente, nem mesmo naquilo que para ela era o pior de tudo: dá-lo a outra mulher. Ele até exigiu que fosse Sharifa a colocar os anéis nos dedos de Sultan e Sonya.

Vinte dias após o pedido de casamento a cerimônia solene de noivado foi realizada. Sharifa se recompôs e manteve as aparências. Suas parentas faziam de tudo para que ela se descontrolasse. “Que horrível para você”, diziam. “Que crueldade. Você deve estar sofrendo muito.”

O casamento aconteceu dois meses após o noivado, na véspera do ano-novo muçulmano. Mas desta vez Sharifa recusou-se a ir. “Não iria agüentar”, ela disse ao marido.

E teve o apoio das mulheres da família. Ninguém comprou vestidos novos ou se maquiou, como seria normal para um casamento. Os penteados eram simples e os sorrisos frios — em respeito à rejeitada, que não mais dividiria a cama com Sultan Khan. Já estava reservada à jovem noiva apavorada. Mas todos iriam dividir o mesmo teto, até que a morte os separasse.

Fogueira de livros

Numa gélida tarde de novembro de 1999, a rotunda de Charhai-e-Sadarat em Cabul ficou iluminada durante horas por uma fogueira. As crianças apinhavam-se em volta das chamas que tremeluziam sobre os rostos sujos e lúdicos. Os meninos de rua apostavam quem ousaria chegar mais perto das chamas. Os adultos lançavam olhares furtivos à fogueira, afastando-se depressa. Era mais seguro assim. Todo mundo podia ver que aquela fogueira não fora feita pelos guardas na rua para esquentar suas mãos, era uma fogueira a serviço de Deus.

O vestido sem mangas da rainha Soraya encrespou-se antes de virar cinzas. O mesmo fim esperavam seus belos braços brancos e seu rosto sereno. Com ela queimou seu marido, o rei Amanullah, e todas as suas medalhas. Toda a linhagem real crepitou na fogueira, acompanhada de moças em trajes típicos, soldados mujahedin a cavalo e alguns camponeses num mercado de Kandahar.

A polícia religiosa foi escrupulosa ao executar sua missão na livraria de Sultan Khan neste dia de novembro. Todos os livros com ilustrações de seres vivos, pessoas ou animais foram varridos das prateleiras e jogados na fogueira. Páginas amareladas, cartões-postais inofensivos e grandes enciclopédias foram vítimas das chamas.

Ao lado das crianças em volta da fogueira estava a polícia religiosa com chicotes, cassetetes e kalashnikovs. Eles consideravam todos os que cultuavam fotos, livros, escultura, música, dança, filmes e livres-pensadores como inimigos do povo.

Neste dia estavam apenas se preocupando com imagens. Ignoravam os textos heréticos nas prateleiras bem diante de seus olhos. Os soldados não sabiam ler, e não sabiam distinguir entre a doutrina talibã e a herética. Mas sabiam diferenciar imagens de letras, e seres vivos de mortos.

No fim, restaram apenas cinzas, levadas pelo vento para se misturar à sujeira e à poeira das ruas e esgotos de Cabul. Dois soldados talibãs jogaram Sultan, destituído de seus livros mais queridos, no carro. Fecharam e lacraram a livraria e o levaram preso por atividades antiislâmicas.

Felizmente, os imbecis armados não haviam olhado atrás das prateleiras, Sultan pensou no caminho para a prisão. Precavido, havia colocado os livros mais proibidos lá. Só os tirava se alguém pedisse e ele tivesse certeza de que pudesse confiar na pessoa.

Sultan sabia que isto ia acontecer. Fazia anos que ele vendia livros, fotos e textos ilegais. Os soldados freqüentemente vinham ameaçá-lo, levando alguns livros e indo embora. Ele tinha recebido ameaças da mais alta autoridade do Talibã, além de ter sido intimado a comparecer perante o ministro da Cultura, na tentativa das autoridades de levar o ousado livreiro para servir ao Talibã.

Sultan Khan não se importava em vender as sombrias publicações do Talibã. Era um livre-pensador e achava que todas as vozes deviam ser ouvidas. Mas também queria vender livros de história, publicações científicas, obras ideológicas sobre o Islã, para não mencionar romances e poesia. O Talibã considerava os debates uma heresia, e a dúvida um pecado. Tudo, exceto decorar o Alcorão, era desnecessário, até perigoso. Quando o Talibã chegou ao poder em Cabul, no outono de 1996, os profissionais de todos os ministérios foram afastados e os mulás assumiram, governando tudo, do banco central às universidades. O seu objetivo era recriar a sociedade em que vivia o profeta Maomé na Península Árabe do século VI. Mesmo quando o Talibã negociava com companhias de petróleo estrangeiras, mulás sem nenhuma especialização técnica sentavam à mesa de negociações.

Sultan sentiu que o país sob o regime talibã estava ficando cada vez mais sombrio, pobre e fechado. As autoridades resistiam a qualquer modernização, não tinham nenhuma vontade de entender ou receber idéias sobre progresso ou desenvolvimento econômico. Elas se eximiram de qualquer debate científico, seja no mundo ocidental ou no muçulmano. O seu manifesto não passava de algumas regras básicas sobre como o povo devia se vestir ou se cobrir, como os homens deviam respeitar os horários das orações, e como as mulheres deviam ser segregadas do resto da sociedade. Pouco sabiam da história do Islã ou dos afegãos. Tampouco estavam interessados.

Sultan Khan estava sentado no carro espremido entre talibãs analfabetos, amaldiçoando seu país por ser governado por soldados ou mulás. Ele mesmo era um muçulmano fiel, porém moderado. Fazia as orações todas as manhãs, mas geralmente ignorava as quatro chamadas seguintes, a menos que fosse arrastado à mesquita mais próxima pela polícia religiosa junto a outros homens recolhidos nas ruas. Ele respeitava relutante a quaresma durante o Ramadã, e não comia entre o nascer e o pôr-do-sol, pelo menos quando podia ser visto. Era fiel às suas esposas, educara seus filhos com mão firme, ensinando-os a serem muçulmanos bons e devotos. Sentia desprezo pelos talibãs, que para ele não passavam de sacerdotes camponeses ignorantes. De fato, os líderes talibãs vinham das áreas mais pobres e conservadoras do país, onde o analfabetismo era maior.

Era o Ministério da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, mais conhecido como o Ministério da Moralidade, que estava por trás da detenção. Durante os interrogatórios na prisão, Sultan Khan confiava a barba, do comprimento correto de um punho, conforme a exigência talibã. Ele endireitava seu shalwar kameez — túnica abaixo dos joelhos, calças largas abaixo dos tornozelos —, também este conforme o padrão talibã e respondia com altivez: “Podem queimar meus livros, arruinar a minha vida, podem até me matar, mas nunca poderão destruir a história do Afeganistão.”

Os livros eram a vida de Sultan. Desde que recebeu seu primeiro livro na escola, ele era fascinado por livros e histórias. Nasceu numa família pobre e cresceu nos anos 1950 no vilarejo de Deh Khudaidad, na periferia de Cabul. Nem a mãe nem o pai sabiam ler, mas conseguiram juntar dinheiro suficiente para mandá-lo à escola. Todo o dinheiro poupado era para ele, o primogênito. A irmã que nasceu imediatamente antes dele nunca pôs os pés na escola, e nunca aprendeu a ler ou escrever. Hoje, mal sabe ver as horas no relógio. Ela seria de qualquer maneira oferecida em casamento.

Mas Sultan seria um homem importante. O primeiro obstáculo foi o caminho para a escola, que o pequeno Sultan recusava-se a freqüentar porque não tinha sapatos. A mãe o colocou porta afora.

“Vai sim, como não?”, ela disse, dando-lhe um tabefe na cabeça. Não demorou para ele mesmo ganhar dinheiro para comprar seus sapatos, trabalhando durante todos os anos em que estudava. Antes das aulas e todas as tardes, até escurecer, queimava tijolos para ganhar dinheiro para a família. Depois trabalhou numa loja. Contou aos pais que o salário era apenas a metade do que de fato era. O resto guardava para comprar livros.

Começou a vender livros ainda adolescente. Tinha acabado de entrar para a engenharia, mas estava difícil encontrar os livros de que precisava. Numa viagem com o tio a Teerã, encontrou por acaso todos os títulos que estava procurando num dos ricos mercados de livros da cidade. Comprou vários exemplares que depois vendeu a seus colegas em Cabul pelo dobro do preço. E assim nasceu o livreiro, e uma nova vida para ele.

Como engenheiro, Sultan só participou da construção de dois prédios em Cabul, antes que sua mania por livros o arrancasse do mundo das construções. Novamente, foram os mercados de livros em Teerã que o seduziram. O menino do campo andava na metrópole persa atrás de livros velhos e novos, livros raros e modernos, e encontrou obras que nunca sonhara que existissem. Comprou caixas e mais caixas de poesia persa, de livros de arte, de história e, para vender, livros didáticos para engenheiros.

Abriu a sua primeira livraria em Cabul, entre lojas de temperos e kebabs, no centro da cidade. Eram os anos 1970, e a sociedade oscilava entre o moderno e o tradicional. O regente liberal e um tanto preguiçoso, Zahir Shah, estava no governo, e sua tentativa tíbia de modernizar o país provocou severas críticas dos religiosos. Após o protesto de vários mulás contra as mulheres da família real que se mostravam em público sem véu, estas foram colocadas na prisão.

As universidades e escolas do país cresceram consideravelmente em número, e com elas começaram as manifestações estudantis. Foram duramente combatidas pelas autoridades, e muitos estudantes foram mortos. Mesmo não havendo eleições livres, inúmeros partidos políticos surgiram nesta época, da extrema esquerda aos fundamentalistas religiosos. Os grupos lutaram entre si e o sentimento de insegurança se espalhou pelo país. A economia estagnou após três anos sem chuvas, e durante uma catastrófica fome em 1973, enquanto Zahir Shah consultava médicos na Itália, seu primo Daoud tomou o poder e aboliu a monarquia.

O regime do presidente Daoud foi ainda mais repressor do que o de seu primo. Mas a livraria de Sultan floresceu. Ele vendia livros e publicações editados por vários grupos políticos, de marxistas a fundamentalistas. Morava no vilarejo com seus pais e ia de bicicleta para sua banca de livros em Cabul todas as manhãs, só voltando de noite. Seu único problema era a insistência da mãe para que se casasse. Ela vinha sempre sugerindo novas candidatas, uma prima aqui, uma vizinha ali. Sultan ainda não queria começar uma família. Ele flertava com várias jovens ao mesmo tempo e não tinha pressa alguma para se decidir. Queria estar livre para viajar a negócios para Teerã, Tachkent e Moscou. Em Moscou, ele tinha uma namorada russa, Ludmila.

Em dezembro de 1979, alguns meses antes da invasão russa, Sultan cometeu seu primeiro erro. Um comunista durão, Nur Muhammad Taraki, governava Cabul. O presidente Daoud e toda sua família, até o bebê caçula, haviam sido mortos durante um golpe. As prisões estavam mais abarrotadas do que nunca, dezenas de milhares de oposicionistas políticos foram presos, torturados e executados.

Os comunistas queriam fortalecer o controle do país e tentaram neutralizar os grupos islâmicos. Os mujahedin — os guerreiros sagrados — iniciaram uma luta armada contra o regime, uma luta que mais tarde iria se transformar numa implacável guerrilha contra a União Soviética.

Os mujahedin representavam uma profusão de ideologias e movimentos. Os vários grupos lançaram publicações apoiando a jihad — a luta contra o regime infiel — e reivindicando que o país se tornasse islâmico. O regime apertou o cerco contra todos que pudessem estar compactuando com os mujahedin, e era expressamente proibido imprimir ou distribuir seus escritos ideológicos.

Sultan vendia tanto os textos dos mujahedin quanto os dos comunistas. Além disto, tinha mania de colecionar e não conseguia evitar comprar vários exemplares de todos os livros e publicações que encontrava, para depois vendê-los a um preço maior. Sultan achava que era seu dever providenciar tudo o que as pessoas queriam. As publicações mais proibidas guardava embaixo do balcão.

Não demorou a ser delatado. Um cliente fora preso com livros que tinha comprado de Sultan. Durante uma incursão à livraria, a polícia encontrou vários textos proibidos. A primeira fogueira de livros foi acesa. Sultan foi levado para interrogatórios duros, espancado e condenado a um ano de prisão, onde ficou na ala de prisioneiros políticos, na qual canetas, papel e livros estavam estritamente proibidos. Durante meses, Sultan só via as paredes. Mas conseguiu subornar um dos guardas, e junto com a comida que a mãe lhe mandava chegavam livros todas as semanas. Entre as úmidas paredes de pedra, o seu interesse pela cultura e história afegã aumentou, ele se aprofundou em poesia persa e na dramática história de seu país. Quando foi solto, estava ainda mais convencido: queria lutar para difundir o conhecimento da cultura e história afegãs. Continuou vendendo textos proibidos, tanto da guerrilha islâmica como da oposição comunista no país, fiel à China, porém com mais cautela do que antes.

As autoridades estavam de olho nele, e cinco anos mais tarde ele foi preso novamente. De novo teve a oportunidade de filosofar sobre poesia persa atrás das grades. Acrescentaram uma nova acusação: ele era pequeno-burguês, uma das piores ofensas a um comunista. Seus detratores alegaram que ele ganhava dinheiro de maneira capitalista.

Isto aconteceu durante um período em que o regime comunista do Afeganistão, em meio ao sofrimento da guerra, tentava acabar com a sociedade tribal para introduzir o comunismo “alegre”. As tentativas de coletivizar a agricultura levaram grande sofrimento para o povo. Muitos camponeses pobres se negaram a receber as terras expropriadas de ricos proprietários, por ser antiislâmico semear em terra roubada.

Os camponeses se mobilizaram em protesto e os projetos da sociedade comunista não foram bem-sucedidos. Aos poucos, as autoridades desistiram; a guerra havia consumido todas as forças, uma guerra que em dez anos matou 1,5 milhão de afegãos.

Quando o “pequeno-burguês” saiu da prisão novamente, tinha completado 35 anos. Cabul estava praticamente intocada pela guerra contra a União Soviética, que foi travada principalmente nas zonas rurais. A atenção das pessoas estava nas preocupações cotidianas. Desta vez, a mãe conseguiu convencer Sultan a se casar. Ela encontrou Sharifa, a filha de um general, uma mulher bonita e vivaz. Casaram-se e tiveram três filhos e uma filha, a intervalos de dois anos.

A União Soviética retirou-se do Afeganistão em 1989, e surgiu entre as pessoas a esperança de que finalmente a paz chegaria. Mas os mujahedin não baixaram as armas, pois o regime de Cabul ainda governava com o apoio da União Soviética. Os mujahedin invadiram Cabul em maio de 1992, e a guerra civil eclodiu. O apartamento que a família havia comprado no conjunto habitacional soviético Mikrorayon ficava perto da linha de frente entre as duas facções. Foguetes se cravaram nas paredes, balas estilhaçaram as janelas e tanques passaram sobre o quintal. Depois de permanecerem deitados no chão por uma semana, a chuva de granadas deu algumas horas de trégua e Sultan levou a família para o Paquistão.

Enquanto vivia no Paquistão, sua livraria foi saqueada, junto com a biblioteca pública. Livros valiosos foram vendidos a colecionadores por uma ninharia. De volta do Paquistão para cuidar de sua livraria, Sultan adquiriu vários livros roubados da biblioteca nacional por uma pechincha. Por algumas dezenas de dólares comprou textos que datavam de vários séculos, entre eles um manuscrito de quinhentos anos do Uzbequistão pelo qual o governo uzbeque mais tarde lhe ofereceu 25 mil dólares. Ele encontrou uma edição particular de Zahir Shah de Firdausi, seu poeta favorito, a grande obra épica Shah Nama, e por um preço irrisório comprou diversos livros valiosos dos ladrões, que nem sequer sabiam ler os títulos dos volumes.

Após quatro anos de bombardeios intensos, Cabul estava em ruínas e com cinqüenta mil habitantes a menos. Quando a cidade acordou na manhã de 27 de setembro de 1996, os combates tinham-se atenuado. Na noite anterior, Ahmed Shah Massoud havia fugido com suas tropas pelo vale de Panshir. Durante a guerra haviam chovido mil foguetes na capital afegã por dia, agora havia um silêncio opressor.

Os corpos de dois homens pendiam de uma placa de trânsito. O maior estava encharcado de sangue da cabeça aos pés. Ele fora castrado, seus dedos estavam quebrados, o peito e o rosto machucados e havia um furo de bala na testa. O outro tinha apenas levado um tiro antes de ser pendurado, e seus bolsos estavam entupidos de afeganis — a moeda local — como um símbolo de desprezo. Eram o ex-presidente Muhammad Najibullah e seu irmão. Najibullah foi um homem odiado, que, como chefe da polícia secreta, quando a União Soviética invadiu o Afeganistão, ordenou a execução de oitenta mil “inimigos do povo” durante o período em que permaneceu no poder. De 1986 a 1992, foi presidente do país, apoiado pelos russos. Quando os mujahedin tomaram o poder, com Burhanuddin Rabbani como presidente e Massoud como ministro da Defesa, Najibullah ficou em prisão domiciliar no prédio das Nações Unidas.

Quando o Talibã invadiu as áreas ao leste de Cabul e o governo dos mujahedin resolveu fugir, Massoud ofereceu a seu ilustre prisioneiro a chance de acompanhá-lo. Najibullah temeu por sua vida fora da capital e escolheu ficar com os guardas de segurança no prédio das Nações Unidas. Também pensou que como pashton poderia negociar com os pashtun do Talibã. Na manhã seguinte, os guardas haviam sumido. Bandeiras brancas — a cor sagrada do Talibã — esvoaçavam sobre as mesquitas.

Os habitantes de Cabul se reuniram ao redor da placa de trânsito na praça Ariana, incrédulos. Viram os homens pendurados e voltaram para suas casas em silêncio. A guerra havia acabado. Uma nova guerra estava para começar — a guerra contra as alegrias do povo.

O Talibã instaurou a lei e a ordem, e ao mesmo tempo deu o golpe de misericórdia contra a arte e a cultura afegãs. O regime queimou os livros de Sultan e invadiu o museu de Cabul portando machados, o próprio ministro da Cultura como testemunha.

Mas já não restava muito do museu quando chegaram. Todas as peças haviam sido pilhadas durante a guerra civil; vasos do tempo em que Alexandre, o Grande conquistou o país, espadas talvez usadas nas lutas contra Gengis Khan e suas hordas mongóis, pinturas persas em miniatura e moedas de ouro tinham sumido. A maior parte encontra-se com colecionadores desconhecidos mundo afora. Poucas peças foram salvas antes que os saques começassem para valer.

Algumas esculturas gigantescas de reis e príncipes afegãos permaneceram, junto com estátuas de Buda e murais de milhares de anos. Os soldados executaram sua obra com o mesmo espírito que chegaram à livraria de Sultan. Os guardas do museu assistiram chorando quando os talibãs destruíram o que tinha sobrado. Quebraram tudo até restar apenas as colunas despidas, entre montes de poeira de mármore e cacos de barro. A única peça que restou foi uma citação do Alcorão ornamentada numa tábua de pedra que o ministro da Cultura achou melhor deixar em paz.

Quando os carrascos da arte arrasaram o prédio do museu — que também fora alvo durante a guerra civil —, os guardas foram deixados nos escombros. Pacientemente, eles cataram os pedacinhos e varreram a poeira. Colocaram os cacos em caixas com etiquetas. Algumas peças eram reconhecíveis, a mão de uma estátua, a mecha de cabelo de outra. As caixas foram guardadas no porão na esperança de que as estátuas um dia fossem restauradas.

Seis meses antes da queda do regime talibã, as enormes estátuas de Buda em Bamiyan foram dinamitadas. Elas tinham quase dois mil anos e eram a maior herança da cultura afegã. Os explosivos eram tão fortes que nada restou para guardar.

Foi durante esse regime que Sultan Khan tentou salvar parte da cultura afegã. Depois da primeira queima dos livros, ele conseguiu sair da prisão pagando suborno e no mesmo dia rompeu o lacre da livraria. Chorou ao ver os restos de seus livros preciosos. Com tinta nanquim desenhou traços pretos e rabiscos sobre todas as imagens de seres vivos que escaparam da fúria dos soldados. Melhor do que serem queimados. Depois teve uma idéia melhor — colou seus cartões de visita sobre as imagens. Assim, conseguiu cobri-las sem estragá-las, além de deixar sua própria marca na obra. Quem sabe, um dia poderia retirar os cartões.

Mas o regime estava ficando cada vez mais cruel. Ao longo dos anos, a linha puritana foi seguida ainda mais à risca — a meta era viver de acordo com as regras do tempo de Maomé. Sultan foi novamente chamado a comparecer perante o ministro da Cultura. “Há pessoas à sua procura”, ele disse. “E não posso protegê-lo.”

Isto aconteceu no verão de 2001, e foi quando ele decidiu deixar o país. Pediu visto de entrada para o Canadá para si, suas duas esposas, os filhos e a filha. Nesta época, as suas mulheres moravam no Paquistão com as crianças, e ambas odiavam a vida de refugiados. Mas Sultan sabia que não podia desistir dos livros. Já tinha três livrarias em Cabul. Uma era gerenciada por seus irmãos mais novos, a segunda por seu filho mais velho Mansur, de 16 anos, e da terceira cuidava ele mesmo.

Apenas uma fração de seus livros ficava à mostra nas prateleiras. A maioria, cerca de dez mil, estava escondida em sótãos em várias partes de Cabul. Ele não podia arriscar perder a coleção de livros, construída ao longo de mais de trinta anos. Ele não podia deixar o Talibã ou outro regime qualquer destruir ainda mais a alma afegã. Além disso, tinha um plano ou sonho secreto para a sua coleção. Quando o Talibã deixasse o poder e o Afeganistão tivesse um regime confiável, ele prometeu a si mesmo doar a coleção inteira para a biblioteca pública depenada da cidade, onde outrora havia centenas de milhares de livros nas prateleiras. Ou talvez começasse a sua própria biblioteca, ele mesmo de bibliotecário respeitável, pensou.

Devido às ameaças de morte, Sultan Khan obteve visto para o Canadá para si e para a família. Mas nunca conseguiu viajar. Enquanto as suas mulheres arrumavam as malas para a viagem, ele encontrava todas as justificativas possíveis para adiá-la: aguardava a entrega de alguns livros, a livraria estava sendo ameaçada, um parente tinha morrido. Surgia sempre um obstáculo..

Veio então o 11 de Setembro. Quando começou a chover bombas, Sultan voltou para as suas mulheres no Paquistão. Mandou que Yunus, um dos seus irmãos solteiros mais novos, ficasse em Cabul para cuidar das livrarias.

Quando caiu o regime talibã, dois meses depois dos ataques terroristas nos EUA, Sultan foi um dos primeiros a voltar para Cabul. Finalmente podia encher as prateleiras com todos os livros que quisesse. Podia vender os livros de história com as ilustrações rabiscadas de nanquim como curiosidades para estrangeiros e retirar os cartões de visita colados sobre imagens de seres vivos. Novamente podia mostrar os alvos braços da rainha Soraya e o peito coberto de medalhas de ouro do rei Amanullah.

Uma manhã, enquanto tomava uma xícara de chá fumegante na livraria, ele percebeu que Cabul voltava à vida. Enquanto fazia planos de como realizar seu sonho, pensou numa citação do seu poeta favorito Firdausi. “Para se ter êxito, algumas vezes é preciso ser lobo, outras vezes cordeiro.” Estava na hora de ser lobo, Sultan pensou.

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