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Cenas: Scrubs (Erasure – A Little Respect)

Talvez uma das mais marcantes cenas da famosa série de comédia Scrubs, criada por Bill Lawrence, onde as personagens volta e meia estão em meio a canção A Little Respect, da dupla Erasure. Série de TV estrelada por Zach Braff, Sarah Chalke, Donald Faison, Neil Flynn, Ken Jenkins, John C. McGinley e Judy Reyes.

Scrubs
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Trecho do Livro: O Pistoleiro (A Torre Negra – Vol. 1) | Stephen King

Livros O Pistoleiro A Torre Negra 1 Stephen King The Gunslinger The Dark Tower BooksLivro: O Pistoleiro

O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás.

O deserto era a apoteose de todos os desertos, imenso, estendendo-se para o céu no que parecia ser eternidade em todas as direções. Era branco e ofuscante e seco e sem feições a não ser o débil, enevoado traço das montanhas que se esboçavam no horizonte e a erva do diabo que trazia sonhos doces, pesadelos, morte. Uma ocasional placa mortuária indicava o caminho, pois antigamente a trilha poeirenta que avançava pela espessa crosta alcalina fora uma rodovia. Diligências e carroças tinham passado por lá. O mundo havia continuado desde então. O mundo havia se esvaziado.

O pistoleiro fora atingido por uma momentânea tontura, uma espécie de guinada que fez o mundo inteiro parecer etéreo, quase uma coisa que pudesse ser atravessada pelo olhar. Isso passou e, como o mundo sobre cujo couro ele andava, ele continuou. Foi vencendo apaticamente os quilômetros, sem afobação, sem perda de tempo. Trazia um cantil de couro pendurado na cinta como uma salsicha estufada. Estava quase cheio. Avançara através da khef durante muitos anos e atingira talvez o quinto nível. Se fosse um santo manni, podia nem sentir a sede; observaria o corpo desidratando com atenção clínica, isenta, e só irrigaria as trincadas e escuras cavidades internas quando a lógica lhe dissesse que isso devia ser feito. Não era, porém, um manni, nem um seguidor daquele homem, Jesus, e não se considerava de modo algum santo. Era apenas, para resumir, um peregrino comum e o que podia dizer com toda certeza era que tinha sede. E, mesmo assim, não sentia qualquer ímpeto especial de beber. De um modo vago, aquilo o agradava. Era uma exigência daqueles campos, campos sedentos, e em sua longa vida ele não fora outra coisa além de adaptável.

Debaixo do cantil ficavam seus revólveres, a cuidadosa distância das mãos; uma placa de metal fora adicionada a cada um quando passaram do pai para ele; o pai tinha sido mais leve e não tão alto. Os dois cinturões se cruzavam acima da braguilha da calça. A camada de óleo dos coldres era tão profunda que mesmo aquele sol filisteu não conseguia rachá-la. As coronhas eram de sândalo, amarelo e primorosamente raiado. Correias de couro cru mantinham os coldres folgados contra suas coxas, fazendo-os balançar um pouco a cada passada; elas tinham apagado o azul do jeans (e puído o tecido), formando dois arcos, que quase lembravam sorrisos. A coisa de metal da munição roçava contra o cinturão heliografado no sol. Havia menos cartuchos agora. O couro dava pequenos rangidos.

A camisa dele, da não-cor de chuva ou poeira, estava aberta no pescoço, com uma tira de couro saindo frouxa dos ilhós furados à mão. O chapéu se fora. Assim como o chifre de boi que antigamente levava; se fora há muitos anos aquele chifre, solto da mão de um amigo moribundo, e ele perdera os dois.

Encarou uma duna de elevação suave (embora não houvesse areia ali; era um deserto de terra dura, onde mesmo os ventos cortantes, que sopravam quando vinha a escuridão, só conseguiam levantar uma poeira irritantemente áspera, como pó de metal) e viu os restos chutados de uma minúscula fogueira no lado oposto ao vento, o lado que o sol abandonaria primeiro. Pequenos sinais como aquele, afirmando de novo a possível humanidade do homem de preto, sempre conseguiam agradá-lo. Os lábios se esticaram nos restos marcados, lascados do rosto. Foi um esgar horrível, doloroso. Ele se pôs de cócoras.

Sua presa tinha queimado a erva do diabo, é claro. Era a única coisa ali que de fato queimaria. Queimava com uma luz oleosa, uniforme, e queimava devagar. Moradores da orla tinham lhe dito que os demônios viviam até mesmo nas chamas. Eles a queimavam, mas não olhavam para a luz. Diziam que os demônios hipnotizavam, chamavam, acabavam puxando quem olhasse para as chamas. E o próximo homem suficientemente estúpido para encarar o fogo poderia ver o anterior.

A relva queimada estava cruzada no agora familiar padrão ideográfico e se desfez num cinzento inútil ante a mão agitada do pistoleiro. Nada havia nos restos além de um pedaço queimado de toucinho, que ele comeu com ar concentrado. Fora sempre assim. Já há dois meses o pistoleiro seguia o homem de preto através do deserto, pelas infindáveis, gritantemente monótonas extensões de purgatório, e ainda não descobrira outras pistas além dos ideogramas higiênicos e estéreis das fogueiras que ele fazia. Não encontrara uma lata, uma garrafa ou cantil (o pistoleiro deixara quatro dos seus para trás, como peles de cobra). Não encontrara qualquer esterco. Presumiu que o homem de preto o enterrava.

Talvez as fogueiras fossem uma mensagem, soletrando uma Grande Carta de cada vez. Mantenha distância, parceiro, podiam dizer. Ou: O fim passou perto. Ou talvez até: Venha me pegar. Pouco importava o que diziam ou não. Ele não estava interessado em mensagens, se mensagens houvesse. O que importava era que aquelas cinzas eram tão frias quanto todas as outras. Contudo, havia progredido. Sabia que estava mais perto, mas não sabia como sabia. Uma espécie de cheiro, talvez. O que também não importava. Continuaria avançando até que algo mudasse e, se nada mudasse, mesmo assim continuaria avançando. Haveria água se Deus quisesse, diziam os moradores antigos. Água se Deus quisesse, mesmo no deserto. O pistoleiro se levantou, sacudindo as mãos.

Nenhum outro sinal; o vento, cortante como navalha, teria sem dúvida dispersado as raras marcas eventualmente deixadas sobre a terra dura. Nenhum excremento humano, nenhum lixo posto fora, nem um único sinal de onde essas coisas pudessem ter sido enterradas. Nada. Só aquelas fogueiras apagadas ao longo da antiga rodovia movendo-se para sudeste, e o incansável marcador de quilometragem na sua cabeça. Embora, é claro, houvesse mais que isso; a atração para sudeste era mais que apenas um senso de direção, mais até que magnetismo.

Sentou-se e se permitiu um pequeno gole do cantil. Lembrou-se daquele momento de tontura no início do dia, a sensação de estar quase destacado do mundo, e se perguntou o que aquilo poderia significar. Por que aquela tontura o fazia pensar na corneta de chifre e no último de seus velhos amigos, ambos perdidos há tanto tempo no monte Jericó? Ainda tinha os revólveres – os revólveres do pai – e certamente eles eram mais importantes que cornetas… ou mesmo que amigos.

Não eram?

A questão era um tanto perturbadora, mas como não parecia haver outra resposta além da óbvia, ele a pôs de lado, possivelmente para considerações posteriores. Esquadrinhou o deserto e depois ergueu os olhos para o sol, agora deslizando para um afastado quadrante do céu que, estranhamente, não ficava de todo a oeste. Levantou-se, tirou as luvas surradas do cinto e começou a puxar a erva do diabo para sua própria fogueira, depositando-a sobre as cinzas que o homem de preto havia deixado. Julgou a ironia, como a sede, amargamente significativa.

Quando tirou da bolsa o sílex e a vara de pederneira, os restos do dia já eram apenas um calor fugidio no chão sob seus pés e uma sardônica linha laranja no horizonte monocromático. Sentou-se com o revólver estendido no colo e observou pacientemente o sudeste, olhando para as montanhas, não esperando ver a linha fina e regular da fumaça de uma nova fogueira, não esperando ver um brilho alaranjado de chama, mas observando de qualquer modo, pois observar fazia parte da coisa e trazia sua própria e amarga gratificação. Você não verá o que não estiver procurando, maluco, Cort teria dito. Abra os faroletes que ganhou dos deuses, valeu?

Mas não havia nada. Estava perto, mas só em termos relativos. Não perto o bastante para ver fumaça no pôr-do-sol ou o clarão alaranjado de uma fogueira.

Mexeu o sílex embaixo da vara de ferro e levou a centelha ao mato seco, espigado, sussurrando velhas e poderosas palavras que nada significavam: “Faísca-a-risca, cadê meu pai? Vou me cansar? Vou me amparar? Abençoe com fogueira este campo.” Era estranho como certas palavras e manias de infância caíam e eram deixadas para trás, enquanto outras se mantinham firmes e seguiam a vida inteira conosco, tornando-se cada vez mais pesadas à medida que o tempo passava.

Ele se esquivou da corrente do pequeno clarão, deixando a fumaça irreal seguir para o deserto. O vento, a não ser por eventuais redemoinhos da poeira infernal, era uniforme.

No alto, as estrelas surgiam sem piscar, também constantes. Sóis e mundos aos milhões. Estonteantes constelações, tom mortiço em cada foco principal de luz. Enquanto contemplava, o céu escureceu do violeta ao ébano. Um meteoro desenhou um arco espetacular e breve sob a Velha Mãe e desapareceu piscando. O fogo lançava estranhas sombras enquanto a erva do diabo queimava devagar, formando novos padrões – não ideogramas, mas um xadrez simples, vagamente assustador em sua absurda simplicidade. Não depositara a erva combustível num padrão engenhoso, mas apenas funcional. Que falava em preto-e-branco. Que falava de um homem que era capaz de endireitar quadros tortos em quartos de hotéis desconhecidos. O fogo ardia com labaredas firmes, vagarosas, e espectros dançavam no centro incandescente. O pistoleiro não viu. Os dois padrões, o artístico e o utilitário, uniram-se enquanto ele dormia. O vento gemia, como bruxa com câncer na barriga. De vez em quando, uma perversa corrente de ar fazia a fumaça girar e soprar em sua direção; ele a inalava um pouco. A fumaça criava sonhos do modo como um pequeno estímulo irritante pode criar uma pérola numa ostra. De vez em quando, o pistoleiro gemia com o vento. As estrelas eram tão indiferentes a isto quanto a guerras, crucificações, ressurreições. O que também parecia agradá-lo.

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Trecho do Livro: Mundo Sem Fim | Ken Follett

Livros Mundo Sem Fim Ken Follett World Without End BooksLivro: Mundo Sem Fim

Gwenda estava com oito anos, mas não tinha medo do escuro.

Quando abriu os olhos não pôde ver nada, mas não foi isso que a assustou. Sabia onde se encontrava. Estava no priorado de Kingsbridge, no prédio de pedra comprido que chamavam de hospital – um lugar para tratar de doentes, mas que também servia como um albergue para os pobres e os ricos – deitada no chão, numa cama de palha. A mãe deitava ao seu lado, e Gwenda compreendeu, pelo cheiro de leite quente, que amamentava o bebê que acabara de nascer, ainda sem nome. Do outro lado da mãe estava o pai e, junto de Gwenda, o irmão mais velho, Philemon, que tinha doze anos.

Havia muita gente no hospital. Embora não pudesse ver as outras famílias deitadas no chão, espremidas como ovelhas num cercado, Gwenda podia sentir o cheiro desagradável dos corpos quentes. Quando o dia amanhecesse, seria Todos os Santos, um domingo naquele ano, e por isso mesmo um dia muito especial. A noite anterior fora um momento perigoso, quando os espíritos do mal vagueavam livres por toda parte. Centenas de pessoas haviam ido para Kingsbridge, das aldeias ao redor, como a família de Gwenda, a fim de passar o Dia de Todos os Santos no recinto sagrado do priorado, comparecendo à missa ao amanhecer.

Gwenda era cautelosa com os espíritos do mal, como todas as pessoas sensatas; mas sentia-se mais assustada com o que teria de fazer durante o serviço religioso.

Ela ficou olhando para o escuro, tentando não pensar no que a deixava apavorada. Sabia que havia uma janela em arco na parede à sua frente. Não tinha vidro – só os prédios mais importantes tinham vidro nas janelas -, mas uma cortina de linho impedia a entrada do ar frio do outono. Mas Gwenda não conseguiu divisar uma mancha cinza no lugar em que deveria estar a janela. E sentiu-se contente por isso. Não queria que a manhã chegasse.

Não podia ver nada, mas havia muito para escutar. A palha que cobria o chão sussurrava a todo instante, sempre que as pessoas se mexiam e mudavam de posição no sono. Um criança gritou, como se tivesse sido acordada por um pesadelo, mas foi logo silenciada por palavras de carinho murmuradas. Alguém falava de vez em quando, enunciando palavras truncadas de conversa no sono. Em algum lugar havia o som de duas pessoas fazendo a coisa que os pais faziam, mas sobre a qual nunca falavam, a coisa que Gwenda chamava de grunhido, porque não tinha outra palavra para descrevê-la.

Não demorou muito para que surgisse uma luz. No lado leste do vasto salão, um monge passou pela porta, carregando uma única vela. Colocou-a ao pé do altar, usou a chama para acender uma vela fina e comprida. Saiu pelo salão, encostando a chama nos lampiões nas paredes. Sua sombra comprida subia pela parede a cada vez, a vela de verdade se encontrando com a vela de sombra no pavio de cada lampião.

A claridade crescente iluminava as fileiras de pessoas estendidas no chão, envoltas por seus mantos miseráveis ou aconchegadas contra os vizinhos, em busca de calor. As pessoas doentes ocupavam os catres perto do altar, onde podiam obter o máximo de benefício da santidade do lugar. No lado oposto havia uma escada que levava ao andar superior, que tinha quartos para os visitantes aristocráticos: o conde de Shiring estava ali naquele momento, com sua família.

O monge inclinou-se sobre Gwenda para acender o lampião por cima de sua cabeça. Fitou-a e sorriu. Ela estudou o rosto à luz bruxuleante das chamas e reconheceu- o . Era o irmão Godwyn, jovem e bonito. Na noite anterior ele conversara gentilmente com Philemon.

Ao lado de Gwenda havia outra família de sua aldeia: Samuel, um próspero camponês, que cuidava de uma propriedade grande, a esposa e os dois filhos. O caçula, Wulfric, era um irritante menino de seis anos, que achava que jogar bolotas de carvalho nas meninas e correr em seguida era a coisa mais divertida do mundo.

A família de Gwenda não era próspera. O pai não tinha nenhuma terra e trabalhava para qualquer um que quisesse lhe pagar. Havia sempre trabalho no verão, mas, depois da colheita, quando o tempo começava a esfriar, a família muitas vezes passava fome. Era por isso que Gwenda tinha de roubar.

Ela se imaginava sendo apanhada: a mão forte de alguém agarrando-a pelo braço; um voz profunda e cruel dizendo “Ora, ora, uma pequena ladra”; a dor e a humilhação de ser açoitada; e, depois, o pior de tudo, a agonia e perda quando sua mão fosse cortada.

O pai sofrera essa punição. Ao final do braço esquerdo tinha um coto horrível, todo enrugado. Ele conseguia fazer as coisas com uma única mão: era capaz de usar uma pá, selar um cavalo, até fazer uma rede para pegar aves. Mesmo assim, era sempre o último trabalhador a ser contratado na primavera e o primeiro a ser dispensado no outono. Nunca poderia deixar a aldeia e procurar trabalho em outros lugares, porque a amputação marcava-o como um ladrão; por isso, as pessoas se recusariam a contratá-lo. Quando viajava, ele amarrava uma luva recheada no coto, para não ser escorraçado por todo estranho que encontrasse; mas isso também não enganava as pessoas por muito tempo.

Gwenda não testemunhara a punição do pai – ocorrera antes do seu nascimento -, mas imaginava-a com freqüência. Agora, não podia deixar de pensar na mesma coisa lhe acontecendo. Em sua mente, via a lâmina do machado descendo para o pulso, cortando pele e ossos, separando a mão do braço, de tal forma que nunca mais seriam religados; e teve de ranger os dentes para não soltar um grito.

As pessoas se levantavam e se esticavam, esfregando o rosto. Gwenda também se levantou e ajeitou as roupas. Todos os seus trajes haviam pertencido antes ao irmão mais velho. Ela usava uma bata de lã que descia até os joelhos, com uma túnica por cima, presas na cintura por um cinto feito de corda de cânhamo. Os sapatos outrora tinham cordões, mas os ilhoses haviam rasgado e os cordões desapareceram. Agora, ela prendia os sapatos nos pés com palha trançada. Assim que juntou os cabelos por baixo de uma touca feita de rabos de esquilo, ela terminou de se arrumar.

Olhou para o pai, que indicou furtivamente uma família ali perto, um casal de meiaidade com dois filhos, apenas um pouco maiores que Gwenda. O homem era baixo e franzino, com uma barba ruiva encrespada. Afivelava uma espada na cintura, o que significava que era um homem de armas ou um cavaleiro, já que os homens comuns não tinham permissão para usar espadas. A esposa era magra, com uma atitude brusca e uma expressão mal-humorada. Enquanto Gwenda os examinava, irmão Godwyn acenou com a cabeça, respeitoso, e disse?

– Bom dia, Sir Gerald, Lady Maud.

Gwenda viu o que atraíra a atenção do pai. Sir Gerald tinha uma bolsa presa ao cinto por uma tira de couro. A bolsa estava estufada. Devia conter várias centenas de pequenas moedas de prata de pennies, halfpennies e farthings, o dinheiro inglês… tanto quanto o pai poderia ganhar em um ano inteiro de trabalho, se conseguisse arrumar emprego. Seria mais do que suficiente para alimentar a família até o plantio da primavera. A bolsa poderia até conter umas poucas moedas de ouro estrangeiras, como florins de Florença ou ducados de Veneza.

Gwenda tinha uma pequena faca numa bainha de madeira, pendurada por um cordão no pescoço. A lâmina afiada cortaria a tira de couro e faria com que a bolsa estufada caísse em sua mão… a menos que Sir Gerald sentisse alguma coisa estranha e agarrasse antes que cometesse o furto…

Godwyn elevou a voz por cima do rumor das conversas.

– Pelo amor de Cristo, que ensina a caridade, será servida uma refeição depois do serviço de Todos os Santos. Até lá, há água para beber na fonte no pátio. Por favor, não deixem de usar as latrinas lá fora… nada de urinar dentro do prédio!

Os monges e freiras eram rigorosos com a higiene. Ontem à noite, Godwyn surpreendera um menino de seis anos urinando num canto e expulsara toda a família. A menos que tivessem um penny para uma taverna, teriam passado a fria noite de outubro estremecendo no chão de pedra do pórtico norte da catedral. Havia também uma proibição para animais. O cachorro de três pernas de Gwenda, Hop, fora banido. E ela se perguntava onde Hop passara a noite.

Depois que todos os lampiões foram acesos, Godwyn abriu a enorme porta de madeira para o exterior. O ar frio da noite gelou as orelhas e a ponta do nariz de Gwenda. Quando Sir Gerald e a família encaminharam-se para a porta, o pai e a mãe foram atrás. Gwenda e Philemon seguiram o exemplo.

Philemon sempre fora o encarregado de roubar até agora. Mas, no dia anterior, quase fora apanhado, no mercado de Kingsbridge. Palmeara um pequeno pote de óleo caríssimo do estande de um mercador italiano, mas deixara-o cair, à vista de todos. Por sorte, o pote não quebrara ao bater no chão. E ele fora obrigado a fingir que o derrubara acidentalmente.

Até bem pouco tempo atrás, Philemon era pequeno e apagado, não chamava a atenção de ninguém. Mas, durante o último ano, crescera bastante, adquirira uma voz profunda, tornara-se desajeitado, como se não conseguisse se acostumar ao novo tamanho de seu corpo. Ontem à noite, depois do incidente com o pote de óleo, o pai anunciara que Philemon era agora grande demais para o furto sistemático; dali por diante, essa incumbência seria de Gwenda.

Fora por isso que ela permanecera acordada durante boa parte da noite.

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Trecho do Livro: Eu, Malika Oufkir, Prisioneira do Rei | Malika Oufkir e Michele Fitoussi

Livros Eu Malika Oufkir Prisioneira do Rei Stolen Lives Twenty Years in a Desert Jail Michele Fitoussi BooksLivro: Eu, Malika Oufkir, Prisioneira do Rei

Do salão escapam melodias de mambo e chá-chá-chá; a percussão e as guitarras embalam a chegada dos convidados. As risadas, as conversas invadem todos os cômodos, chegam ao quarto onde não consigo pegar no sono.

Escondida atrás da porta entreaberta, o polegar enfiado na boca, observo as mulheres que rivalizam em beleza e elegância, com seus vestidos longos, de grandes costureiros. Admiro os coques fixados com laquê, as jóias cintilantes, a sofisticação das maquiagens. Elas parecem as princesas dos meus contos de fada favoritos, com as quais eu gostaria tanto de parecer quando crescesse. Como demora para eu crescer…

De repente ela aparece, para mim a mais linda, num vestido branco decotado que realça a curva suave do seu colo. Com o coração batendo, vejo-a cumprimentar e sorrir, beijar os amigos, inclinar a nuca delicada diante de desconhecidos de smoking. Logo ela irá dançar, cantar, baterá palmas e irá se divertir até raiar o dia como todas as vezes que meus pais dão uma recepção em casa.

Ela me esquecerá por algumas horas, enquanto eu lutarei contra o sono em minha caminha, pensando sempre nela, em sua pele acetinada, em seus cabelos sedosos nos quais é gostoso esconder meu rosto, em seu perfume, em seu calor. Mamãe.
Mamãe querida, da qual, em meu paraíso infantil, nem imagino que um dia possam me separar.

Minha mãe e eu somos ligadas por um destino semelhante, tecido de abandono e solidão. Com apenas quatro anos, ela perdia sua mãe, morta no parto com o filho que trazia no ventre. Aos cinco anos, eu era arrancada da doçura de seus braços para ser adotada pelo rei Mohammed V. Terão sido nossas infâncias órfãs de ternura materna, nossa pequena diferença de idade – ela tinha dezessete anos quando nasci -, nossa incrível semelhança física ou nossas vidas de mulheres brutalmente quebradas que selaram essa nossa ligação tão forte? Como eu, mamãe sempre teve o olhar grave daqueles que a sorte atormenta.

Quando sua mãe morreu, bem no início da guerra, seu pai, Abdelkader Chenna, oficial do exército francês, acabava de receber a ordem de incorporar-se a seu regimento na Síria. Era impossível levar consigo a filha e o filho caçula. Deixou os dois órfãos em Meknés, onde moravam então, num convento de freiras francesas, para que recebessem boa educação. O menino sucumbiu a uma difteria. Minha mãe, que gostava muito do irmão, sentiu dificuldade para se recuperar dessa perda que a deixava sozinha no meio de estranhos. A vida lhe reservaria ainda muitos outros desgostos.

As freiras trataram de fazer daquela bonita Fatéma, que o céu lhes mandara, uma perfeita cristã. Ela aprendeu o sinal-da-cruz e venerava a Virgem, Jesus e todos os santos quando seu pai voltou para buscá-la e levá-la para casa. De tanta raiva, esse muçulmano praticante que já fizera a peregrinação a Meca quase engoliu suas medalhas…

Não convinha que um militar de carreira criasse sozinho uma menina tão pequena. Seus amigos instaram-no a casar de novo. Escolheu uma mulher bem moça, de boa família, com quem se casou, antes de mais nada por seus talentos de mestre-cuca. Ninguém melhor que Khadija na preparação das pastillas de que meu pai gostava tanto. Minha mãe não suportava dividir seu pai adorado com uma estranha, apenas alguns anos mais velha que ela. O nascimento de uma irmã, Fawzia, depois o de um irmão, Azzedine, avivaram seus ciúmes.

Ela logo desejou escapar de um lar em que se sentia infeliz e era mantida presa por seu pai, como era costume para as mulheres. Mas não tinha onde encontrar um calor que lhe faltava. A família de sua mãe, ricos berberes do Médio Atlas, havia sido quase toda dizimada. Meus bisavós tiveram quatro filhas, cuja beleza era reputada a quilômetros dali. Três morreram na adolescência. A quarta, minha avó Yamna, casou-se com seu vizinho, o belo Abdelkader Chenna, cujas terras faziam limite com as dela.

Ele teve de raptá-la para casar com ela, como na melhor tradição dos contos de fadas. Dessa avó, morta aos dezenove anos, sei simplesmente que era uma mulher e tanto, moderna e desinibida, que gostava de se vestir bem, de viajar e de dirigir automóvel. Aos quinze anos, já era mãe. Aos dezoito, organizou um salão literário na Síria, para onde fora meu avô com seu regimento.

Minha mãe e seu jovem tio, fruto da união tardia de meu bisavô com uma escrava negra, não demoraram a ser os únicos sobreviventes de toda essa família. Os trigais e o ouro acumulado durante várias gerações fizeram dela uma herdeira rica, porém menos que seu tio, ao qual, como manda o costume marroquino, coube a maior parte da fortuna. Ela possuía imóveis, mansões e todo um bairro da velha cidade de Salé. Enquanto esperava que ela pudesse dispor de seus bens, meu avô foi encarregado de administrá-los. Infelizmente, era um péssimo administrador e gastou mais do que fez multiplicar. O que coube à minha mãe era, ainda assim, considerável.

Aos doze anos, minha mãe já era lindíssima. Seus grandes olhos negros, seu rosto fino, sua pele morena, seu corpo miúdo e bem-feito não deixavam nada indiferentes os oficiais amigos que seu pai costumava receber em casa. O que não lhe desagradava. Ela queria se casar, constituir família. Um jovem oficial que voltava da Indochina coberto de medalhas pôs-se a freqüentá-los. Meu avô, que já o conhecia, o havia revisto no rancho dos oficiais. Seduzido por sua inteligência e por sua reputação de bravura no front, fez amizade com ele e convidou-o a sua casa. Escondida atrás das cortinas, minha mãe observou-o o jantar inteiro. O oficial notou sua artimanha e os olhos dos dois se cruzaram. A intensidade do olhar dela o impressionou. E ela admirou seu garbo na bonita farda branca.

Meu avô tentou convencer o novo amigo a não voltar para a Indochina. Este sentiu-se tocado por seus argumentos e sem dúvida pela beleza da filha. Alguns dias depois, meu pai – pois se tratava dele – veio pedi-la em casamento. Meu avô ficou espantado e, para dizer a verdade, quase irritado.

“Fatéma é apenas uma menina”, protestou. “Aos quinze anos, nem sonha em se casar!”

Abdelkader ainda estava traumatizado com a morte de Yamna, sua primeira mulher ternamente amada, que ele atribuía a gestações precoces e demasiado próximas. Mas acabou deixando-se convencer, tanto mais que minha mãe aceitou com entusiasmo o pedido do pretendente. Ela não o conhecia ainda, mas precisava sair de casa. Ele a cortejou ardorosamente.
Ela não demorou a se apaixonar.

Meus pais tinham vinte anos de diferença. Mohammed Oufkir, meu pai, nasceu em Aïn-Chaïr, na região de Tafilalet, reduto dos berberes do Alto Atlas marroquino. O nome, Oufkir, significa “empobrecido”. Em sua família, a cama e a mesa estavam sempre prontas para o pedinte ou o necessitado, numerosos naquelas regiões rudes e desérticas. Aos sete anos, perdeu o pai, Ahmed Oufkir, chefe da aldeia e, mais tarde, nomeado paxá de Bou-Denib, por Lyautey.

Sua infância foi solitária e sem dúvida bastante triste. Estudou no colégio berbere de Azrou, perto de Meknés. Depois, o exército serviu-lhe de família. Aos dezenove anos, entrava para a escola militar de Dar-Beida,6 e aos vinte e um anos alistava-se como subtenente da reserva no exército francês. Foi ferido na Itália, passou a convalescença na França, recebeu a patente de capitão na Indochina. Quando voltou a ver minha mãe, era ajudante-de-ordem do general Duval, comandante das tropas francesas no Marrocos. A vida na tropa começava a tornar-se pesada para o jovem oficial. Ele, o militar de carreira que freqüentava bordéis e casas de jogo, ficou enternecido com a inocência infantil de sua noiva. Mostrou-se imediatamente meigo e atencioso.

Mohammed Oufkir e Fatéma Chenna se casaram no dia 29 de junho de 1952. Instalaram-se numa casinha simples, à altura do modesto soldo do capitão Oufkir. Meu pai foi seu mentor: ensinou-a a se vestir, a se portar à mesa e na sociedade. Do alto de seus dezesseis anos, ela levou a sério seu papel de esposa de oficial. Eram felizes e estavam perdidamente apaixonados. Minha mãe, que sonhava ter oito filhos, logo engravidou.

Nasci no dia 2 de abril de 1953, numa maternidade mantida por religiosas. Meu pai ficou louco de felicidade. Não se incomodava que eu fosse do sexo feminino: eu era a menina dos olhos dele, sua pequena rainha. Como minha mãe, ele desejava, acima de tudo, uma família. Não concordavam totalmente quanto ao número de filhos por vir. Meu pai queria limitar-se a três. Dois anos depois, nasceu minha irmã Myriam e, três depois dela, meu irmão Raouf, o primeiro menino, para o qual foi dada uma festa memorável.

Da minha primeira infância só tenho lembranças felizes. Meus pais me rodeavam de amor e minha casa era agradável. Via pouco meu pai. Ele voltava tarde, se ausentava com freqüência. Sua carreira progredia depressa. Mas eu não tinha a menor dúvida do seu afeto. Quando ele estava em casa, sabia demonstrar o quanto me amava. Sua ausência não me pesava.

O centro do mundo era mamãe. Eu a amava e a admirava. Ela era bonita, refinada, o próprio modelo de feminilidade. Sentir seu perfume, acariciar sua pele, bastava para minha felicidade. Eu a seguia como se fosse sua sombra. Ela adorava cinema e ia quase todos os dias, às vezes assistia até a duas ou três sessões. Desde os seis meses, eu a acompanhava no meu cestinho. Devo sem dúvida a essa precocidade cinéfila minha paixão pela sétima arte. Levava-me ao cabeleireiro, a quem pedia para fazer uma permanente em mim. Ela gostaria de ter tido uma filhinha de cabelos cacheados, como Scarlett O’Hara. Mas ao primeiro vento meu lindo penteado se desmanchava.

Eu a acompanhava à casa de suas amigas, ia com ela andar a cavalo, às compras, ao banho turco – que se tornava um suplício para mim quando eu tinha de me despir diante de todo mundo. Eu a via vestir-se, pentear-se, maquiar-se com um traço de khôl. Eu dançava com ela os rocks endiabrados de nosso ídolo comum, Elvis Presley. Nesses momentos, tínhamos quase a mesma idade.

A vida girava em torno de mim. Eu era mimada, vestida como uma princesinha nas butiques mais elegantes, Le Bon Génie em Genebra, La Châtelaine em Paris. Mamãe era vaidosa e gastadora, ao contrário de meu pai, que se aborrecia com as contingências financeiras. O dinheiro lhe queimava os dedos. Ela podia vender um imóvel para comprar toda a coleção de Dior e de Saint-Laurent, seus costureiros preferidos, e gastar vinte, trinta mil francos numa tarde, em seus pequenos prazeres.

Depois da casinha de capitão, mudamos para Souissi, em Rabat, na Alameda das Princesas. A casa dava para um pomar silvestre onde cresciam laranjeiras, limoeiros, tangerineiras. Eu compartilhava meus jogos com Leila, uma prima um pouco mais velha que minha mãe tinha adotado.

Alguns anos depois, quando eu não morava mais com os meus pais, papai, então ministro do Interior do rei Hassan ii, construiu outra casa, sempre na Alameda das Princesas. Eles tiveram duas outras filhas, Mouna-Inan, que se tornaria Maria na prisão, e, um ano depois, Soukaïna.

Minha família era próxima da família real. Meus pais eram os únicos de fora autorizados a entrar e passear por todo o Palácio. Meu pai, chefe dos ajudantes-de-ordens do rei, havia conquistado a confiança de Mohammed V. Já minha mãe conhecia o soberano desde criança. Antes de seu pai casar-se pela segunda vez, ela morara um tempo em Meknés, na casa de uma das irmãs do rei, que ele visitava com freqüência. Mohammed v notara a beleza da menina, que contava então oito anos. Logo lhe deu prova de um afeto que o tempo não desmentiu.

Tornou a vê-la por ocasião do aniversário de seus vinte e cinco anos de reinado,14 uma cerimônia para a qual foram convidados seus ajudantes-de-ordens e as esposas. Como meu pai, minha mãe passou a ter o privilégio de entrar no Palácio. O rei confiava nela. Apreciava sua companhia, mas aquele homem severo era muito zeloso dos princípios para se permitir qualquer ambigüidade com uma mulher casada.

Minha mãe tornou-se amiga das duas esposas do rei, que exigiram vê-la todos os dias. Vivia na intimidade delas. As duas rainhas estavam enclausuradas no harém. Mamãe lhes comprava roupas, produtos de beleza, contava-lhes com minúcia os acontecimentos exteriores. Elas eram ávidas de detalhes sobre sua vida, seus filhos, seu casamento.

Rivais em relação ao rei, as duas eram muito diferentes. Uma, Lalla Aabla, a quem chamavam rainha-mãe ou Oum Sidi, dera à luz o príncipe herdeiro, Moulay Hassan. A outra, Lalla Bahia, uma natureza selvagem de beleza perturbadora, era mãe da filha querida do rei, a princesinha Amina, nascida no exílio em Madagascar, quando Lalla Bahia se imaginava estéril.

Enquanto Lalla Aabla, perita nas intrigas do serralho, era uma virtuose na arte da diplomacia, Lalla Bahia não gostava muito das mundanidades e da dissimulação de regra na corte. Entre as duas, mamãe logo se iniciou na arte do compromisso, porque no Palácio a neutralidade era impossível. Era preciso ser ou de um lado ou do outro.

Moulay Hassan, que chamavam de Smiyet Sidi, morava numa casa vizinha e vinha com freqüência nos visitar, assim como as princesas, suas irmãs e seu irmão, o príncipe Moulay Abdallah. Mandavam-me cumprimentá-los com deferência. Uma noite de ramadã, depois da quebra do jejum, minha mãe estava descansando no seu salão, rodeada por algumas amigas. Eu corria pela casa. Atravessando o corredor, vi um senhor desconhecido saindo da cozinha. Impressionada com sua imponência, parei de correr. Ele sorriu para mim, me beijou.

“Vá dizer à sua mãe que estou aqui.”

Fui correndo avisá-la. Ela se prosternou imediatamente diante daquele homem estranho.
Era o rei Mohammed V, que vinha visitá-la sem se anunciar, como às vezes fazia. Ele lhe disse que tinha se permitido entrar na cozinha porque sentira um cheiro de queimado. A cozinheira havia esquecido a chaleira no gás aceso, e ela começava a derreter. Sua Majestade nos salvou de um incêndio!

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Nokia lança os aparelhos celulares Nokia N79 e Nokia N85

A Nokia apresentou os dois novos aparelhos da linha Nokia Nseries: os Telefones Celulares Nokia N79 e Nokia N85.

Ambos são compactos e equipados com conexão 3,5G, Wi-Fi, WLAN, GPS, Nokia Mapas, jogos N-Gage, transmissor FM, navegador de Internet, opções de multimídia e câmera digital de 5MP com lentes Carl Zeiss.

O celular Nokia N79 vem com um cartão de memória microSD de 4GB, enquanto o N85 vem acompanhado de um cartão microSD de 8 GB, capaz de armazenar e reproduzir cerca de trinta horas de música.

Os dois aparelhos estarão disponíveis a partir do quarto trimestre de 2008.

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