Trecho do Livro: Viver Para Contar | Gabriel García Márquez

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Minha mãe pediu que fosse com ela vender a casa. Havia chegado a Barranquilla naquela manhã, vinda do povoado distante onde morava minha família, e não tinha a menor idéia de como me encontrar. Perguntando aqui e ali entre os conhecidos, indicaram que me procurasse na Livraria Mundo ou nos bares vizinhos, onde eu ia duas vezes por dia conversar com meus amigos escritores. Quem deu a indicação avisou: “Vá com cuidado porque são uns doidos varridos.” Chegou ao meio-dia em ponto. Abriu passagem com seu andar ligeiro entre as mesas repletas de livros, plantou-se na minha frente olhando-me nos olhos com o sorriso pícaro de seus melhores dias, e antes que eu pudesse ter qualquer reação disse:

— Sou sua mãe.

Alguma coisa havia mudado em minha mãe que me impediu de reconhecê-la à primeira vista. Tinha quarenta e cinco anos. Somando seus onze partos, havia passado quase dez anos grávida e pelo menos outros tantos amamentando seus filhos. Tinha ficado completamente grisalha antes do tempo, os olhos pareciam maiores e mais atônitos atrás de seus primeiros óculos bifocais, e guardava um luto fechado e sério pela morte de sua mãe, mas ainda conservava a beleza romana de seu retrato de casamento, agora dignificada por uma aura outonal. Antes de qualquer coisa, antes mesmo de me abraçar, ela disse com seu estilo cerimonioso de sempre:

— Venho pedir a você que por favor me acompanhe para vender a casa.

Não precisou dizer qual, nem onde, porque para nós só existia uma casa no mundo: a velha casa dos avós em Aracataca, onde tive a boa sorte de nascer e onde não tornei a morar desde que fiz oito anos. Eu acabava de abandonar a faculdade de direito depois de seis semestres, dedicados sobretudo a ler o que caísse em minhas mãos e a recitar de memória a poesia irrepetível do Século de Ouro espanhol. Já havia lido, traduzidos e em edições emprestadas, todos os livros que teriam me bastado para aprender a técnica de romancear, e tinha publicado seis contos em suplementos de jornais, que mereceram o entusiasmo de meus amigos e a atenção de alguns críticos. Ia fazer vinte e três anos no mês seguinte, havia fugido do serviço militar e era veterano de duas blenorragias, e fumava cada dia, sem premonições, sessenta cigarros de um tabaco feroz. Alternava meus ócios entre Barranquilla e Cartagena das Índias, na costa caribenha da Colômbia, sobrevivendo feito um nababo com o que me pagavam pelos textos diários no El Heraldo, ou seja, quase menos que nada, e dormia o mais bem acompanhado possível onde quer que a noite me surpreendesse. Como se a incerteza sobre minhas pretensões e o caos da minha vida não fossem suficientes, um grupo de amigos inseparáveis estava disposto a publicar uma revista temerária e sem recursos que Alfonso Fuenmayor planejava fazia três anos. O que mais eu podia querer da vida?

Mais por escassez que por gosto, me antecipei à moda uns vinte anos: bigodes selvagens, cabelos alvoroçados, calças de vaqueiro, camisas de flores duvidosas e sandálias de peregrino. Na escuridão de um cinema, e sem saber que eu estava perto, uma amiga da época comentou com alguém: “O coitado do Gabito é um caso perdido.” Portanto, quando minha mãe me pediu que fosse com ela vender a casa não tive nenhum senão em dizer que sim. Ela esclareceu que não tinha dinheiro suficiente para nós dois, e por orgulho eu disse que pagava a minha parte.

No jornal em que eu trabalhava, não tinha jeito. Eles me pagavam três pesos por cada coluna diária, e quatro por editorial quando faltava algum dos editorialistas, e esse dinheiro mal dava para meus gastos. Tentei fazer um empréstimo, mas o gerente me recordou que minha dívida original chegava a mais de cinqüenta pesos. Naquela tarde cometi um abuso do qual nenhum de meus amigos seria capaz. Na saída do Café Colômbia, ao lado da livraria, fiquei lado a lado com dom Ramón Vinyes, o velho mestre e livreiro catalão, e pedi a ele dez pesos emprestados. Só tinha seis.

Nem minha mãe nem eu, é claro, teríamos podido nem mesmo imaginar que aquele cândido passeio de dois únicos dias seria tão determinante para mim que nem a mais longa e diligente de todas as vidas não me bastaria para acabar de contá-lo. Agora, com mais de setenta e cinco anos bem pesados, sei que foi a decisão mais importante de todas as que tive que tomar na minha carreira de escritor. Ou seja: em toda a minha vida.

Até a adolescência, a memória tem mais interesse no futuro que no passado, e por isso minhas lembranças da cidadezinha ainda não estavam idealizadas pela nostalgia. Eu me lembrava de como ela era: um bom lugar para se viver, onde todo mundo conhecia todo mundo, na beira de um rio de águas diáfanas que se precipitavam num leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. Ao entardecer, sobretudo em dezembro, quando passavam as chuvas e o ar tornava-se de diamante, a Serra Nevada de Santa Marta parecia aproximar-se com seus picos brancos até as plantações de banana, lá na margem oposta. Dali dava para ver os índios arhuacos correndo feito formiguinhas enfileiradas pelos parapeitos da serra, com seus balaios de gengibre às costas e mastigando bolinhas de coca para distrair a vida. Nós, meninos, tínhamos então a ilusão de fazer bolas com as neves perpétuas e brincar de guerra nas ruas abrasadoras. Pois o calor era tão inverossímil, sobretudo durante a sesta, que os adultos se queixavam dele como se fosse uma surpresa a cada dia. Desde o meu nascimento ouvi repetir, sem descanso, que as vias do trem de ferro e os acampamentos da United Fruit Company foram construídos de noite, porque de dia era impossível pegar nas ferramentas aquecidas pelo sol.

A única maneira de chegar de Barranquilla a Aracataca era numa destrambelhada lancha a motor, por um canal cavado à mão de escravo durante a colônia, e depois através de um vasto pantanal de águas turvas e desoladas, até a misteriosa cidade de Ciénaga, que também quer dizer lamaçal. Ali pegava-se o trem que em suas origens tinha sido o melhor do país, e nele se fazia o trajeto final pelas imensas plantações de banana, com muitas paradas ociosas em aldeolas poeirentas e ardentes, e em estações solitárias. Foi esse o caminho que minha mãe e eu fizemos às sete da noite do sábado 18 de fevereiro de 1950 — véspera de carnaval — debaixo de um aguaceiro diluviano e temporão e com trinta e dois pesos em dinheiro que mal e mal seriam suficientes para regressar se não vendêssemos a casa nas condições previstas.

Os ventos alísios estavam tão bravos naquela noite que no porto fluvial tive muito trabalho em convencer minha mãe a embarcar. Não lhe faltava razão. As barcaças eram imitações reduzidas dos barcos a vapor de Nova Orleans, mas com motores a gasolina que transmitiam um tremor de febre malsã a tudo que estivesse a bordo. Tinham um salãozinho com forquilhas para dependurar redes em diferentes alturas, e bancos de madeira onde cada um se acomodava a cotoveladas e do jeito que desse com suas bagagens excessivas, seus fardos de mercadorias, os engradados de galinhas e até porcos vivos. Havia uns poucos camarotes sufocantes com dois beliches de quartel, quase sempre ocupados por umas pobres put*inhas mal-ajambradas que ofereciam serviços de emergência durante a viagem. — Como à última hora não encontramos nenhum camarote livre, nem tínhamos redes, minha mãe e eu tomamos de assalto duas cadeiras de ferro do corredor central e nelas nos dispusemos a passar a noite.

Tal como ela temia, a tormenta espancou a temerária embarcação enquanto atravessávamos o rio Magdalena, que a tão curta distância de seu estuário tem um temperamento oceânico. Eu havia comprado no porto uma boa provisão de cigarros dos mais baratos, de tabaco negro e com um papel vagabundo, e comecei a fumar à minha maneira da época, acendendo um na guimba do outro, enquanto relia Luz de agosto, de William Faulkner, que era então o mais fiel de meus demônios tutelares. Minha mãe agarrou-se ao seu rosário de três voltas como se fosse um cabresto capaz de desencalhar um trator ou segurar um avião no ar, e seguindo seu costume não pediu nada para ela, mas prosperidade e vida longa para seus onze órfãos. Sua súplica deve ter chegado no destino certo, porque a chuva amansou assim que entramos no canal e a brisa leve soprou para espantar os mosquitos. Minha mãe guardou então o rosário e durante um longo tempo observou em silêncio o fragor da vida que transcorria à nossa volta.

Tinha nascido numa casa modesta, mas cresceu no esplendor efêmero da companhia bananeira, do qual restou-lhe pelo menos uma boa educação de menina rica no colégio da Presentación de la Santísima Virgen, em Santa Marta. Durante as férias de Natal bordava com as amigas, tocava o clavicórdio nos bazares de caridade e assistia com uma tia vigilante aos bailes mais depurados da timorata aristocracia local, mas ninguém jamais havia conhecido um só namorado dela quando se casou contra a vontade de seus pais com o telegrafista da aldeia. Desde então suas virtudes mais notórias eram o senso de humor e a saúde de ferro que as insídias da adversidade não conseguiriam derrotar em sua longa vida. A mais surpreendente dessas virtudes porém, e também desde então a menos suspeitável, era o talento refinado com que conseguia dissimular a tremenda força de sua personalidade: um perfeito exemplar do signo de Leão. Isto tinha permitido a ela estabelecer um poder matriarcal cujo domínio chegava até os parentes mais remotos nos lugares menos esperados, como um sistema planetário que ela manipulava a partir de sua cozinha, com voz tênue e quase que sem pestanejar enquanto fervia o caldeirão de feijão.

Vendo-a agüentar sem se alterar o fardo daquela viagem brutal, eu me perguntava como é que ela tinha conseguido subordinar tão rápido e com tanto domínio as injustiças da pobreza. Nada como aquela noite ruim para colocá-la à prova. Os mosquitos carniceiros, o calor denso e nauseabundo pelo lodo dos canais que o navio ia revolvendo ao passar, o alvoroço dos passageiros insones que não encontravam acomodação dentro do próprio corpo, tudo parecia feito de propósito para endoidar a índole mais serena. Minha mãe suportava tudo imóvel em sua cadeira, enquanto as mocinhas de aluguel faziam a colheita de carnaval nos camarotes vizinhos, fantasiadas de homens ou de malandros de subúrbio. Uma delas tinha entrado e saído de seu camarote várias vezes, sempre com um cliente diferente, bem ao lado do assento de minha mãe. Eu achava que ela não tinha visto. Mas na quarta ou na quinta vez que entrou e saiu em menos de uma hora, minha mãe seguiu-a com um olhar de lástima até o final do corredor.

— Pobres meninas — suspirou. — O que fazem para viver é pior que trabalhar.

E assim se manteve até a meia-noite, quando cansei de ler com o tremor insuportável e as luzes mesquinhas do corredor, e me sentei para fumar ao seu lado, tentando sair à superfície das areias movediças do condado de Yoknapatawpha. Havia desertado da universidade no ano anterior, com a ilusão temerária de viver do jornalismo e da literatura sem necessidade de aprendê-los, animado por uma frase que creio ter lido em Bernard Shaw: “Desde pequeno tive que interromper minha educação para ir à escola.” Não fui capaz de discutir o assunto com ninguém, porque sentia, sem conseguir explicar, que possivelmente meus argumentos só seriam válidos para mim mesmo.

Tentar convencer meus pais de semelhante loucura quando haviam depositado em mim tantas esperanças e gasto tantos dinheiros que não tinham, era tempo perdido. Sobretudo meu pai, que teria me perdoado o que fosse, menos não pendurar na parede um diploma acadêmico qualquer que ele não conseguiu ter. A comunicação se interrompeu. Quase um ano depois continuava pensando em ir visitá-lo para expor meus motivos, quando minha mãe apareceu para pedir que eu a acompanhasse para vender a casa. No entanto, ela não fez nenhuma menção ao assunto até depois da meia-noite na barcaça, quando sentiu, como uma revelação sobrenatural, que havia encontrado enfim a ocasião propícia para dizer o que sem dúvida era o motivo real daquela sua viagem, e começou com a maneira e o tom e as palavras milimétricas que devem ter amadurecido na solidão de suas insônias muito antes de começar a viajar.

— Seu pai está muito triste — disse ela.

Ali estava, pois, o inferno tão temido. Começava como sempre, quando menos se esperava, e com uma voz sedante que não haveria de se alterar diante de coisa alguma. Só para respeitar o ritual, pois conhecia de sobra a resposta, perguntei:

— E por quê?

— Porque você abandonou os estudos.

— Não abandonei — respondi. — Só mudei de carreira.

A hipótese de uma discussão a fundo levantou o ânimo de minha mãe.

— Seu pai acha que é a mesma coisa — disse ela.

Sabendo que era mentira, eu disse:

— Ele também parou de estudar para ir tocar violino.

— Não é a mesma coisa — respondeu ela com grande vivacidade. — Ele só tocava violino em festas e serenatas. Se parou de estudar foi porque não tinha o que comer. Mas em menos de um mês aprendeu telegrafia, que naquele tempo era uma profissão muito boa, principalmente em Aracataca.

— Eu também vivo de escrever em jornais — disse.

— Você só diz isso para não me matar de tristeza — disse ela. — Mas de longe dá para ver que a sua situação é ruim. Tão ruim que quando nos encontramos na livraria não reconheci você.

— Eu também não reconheci a senhora — falei.

— Mas não pela mesma razão — ela disse. — Eu achei que você era um pedinte. — Olhou minhas sandálias velhas, e acrescentou: — E sem meias.

— É mais cômodo — expliquei. — Duas camisas e duas cuecas: uma no corpo, a outra secando. Do que mais a gente precisa?

— Um pouquinho de dignidade — rebateu. Mas em seguida suavizou o tom: — Digo isso porque gostamos muito de você.

— Eu já sei — disse. — Mas diga uma coisa: no meu lugar, a senhora não ia fazer a mesma coisa?

— Não — respondeu ela —, se fosse contrariar meus pais.

Lembrando da tenacidade com que ela conseguiu forçar a oposição da família para se casar, falei rindo:

— Quero só ver se a senhora se atreve a olhar para mim.

Mas ela evitou meu argumento com seriedade, porque sabia muito bem o que eu estava pensando.

— Não me casei enquanto não tive a bênção de meus pais — disse ela. — Foi meio à força, é verdade, mas consegui.

Interrompeu a discussão, não porque meus argumentos tivessem vencido, mas porque queria ir ao banheiro e desconfiava de suas condições higiênicas. Falei com o contramestre para saber se havia algum lugar mais saudável, mas ele me explicou que também usava o banheiro comum. E concluiu, como se tivesse acabado de ler Conrad: “No mar, somos todos iguais.” Portanto, minha mãe submeteu-se à lei de todos. Quando saiu, ao contrário do que eu temia, mal conseguia dominar o riso.

— Imagine só — disse ela —, o que seu pai vai pensar se eu voltar para casa com uma doença de vida vad*ia?

Passada a meia-noite tivemos um atraso de três horas, pois tampões de anêmonas do canal travaram as hélices, o vapor encalhou num manguezal e muitos passageiros tiveram que puxá-lo das margens com as cordas de suas redes. O calor e os mosquitos tornaram-se insuportáveis, mas minha mãe os driblou com umas rajadas de sonhos instantâneos e intermitentes, já célebres na família, que permitiam que ela descansasse sem perder o fio da conversa. Quando a viagem recomeçou e entrou uma brisa fresca, ela despertou de vez.

— Seja como for — suspirou —, alguma resposta eu preciso levar para o seu pai.

— É melhor a senhora não se preocupar — respondi com a mesma inocência. — Em dezembro vou até lá, e então explico tudo.

— Ainda faltam dez meses — disse ela.

— Não muda nada, porque este ano já não dá para arrumar coisa alguma na universidade — expliquei.

— Você promete mesmo que vai?

— Prometo — disse. E pela primeira vez vislumbrei uma certa ansiedade em sua voz:

— Posso dizer ao seu pai que você vai dizer a ele que vai continuar estudando?

— Não — atalhei. — Isso, não.

Era evidente que ela buscava outra saída. Mas eu não dei nenhuma.

— Então é melhor eu dizer a verdade de uma vez — disse. — Assim não vai parecer que estou enganando alguém.

— Está bem — respondi aliviado. — Diga de uma vez.

Ficamos combinados, e quem não a conhecesse direito teria pensado que tudo terminava assim, mas eu sabia muito bem que era apenas uma trégua para tomar fôlego. Pouco depois adormeceu profundamente. Uma brisa tênue espantou os mosquitos e saturou o ar renovado com um perfume de flores. A barcaça adquiriu então a esbelteza de um veleiro.

Estávamos em plena Ciénaga Grande, outro dos mitos da minha infância. Eu havia navegado por ali várias vezes, quando meu avô, o coronel Nicolás Ricardo Márquez Mejía — que nós, os netos, chamávamos de Papalelo —, me levava de Aracataca a Barranquilla para visitar meus pais. “Não devemos ter medo deste pantanal, e sim respeito”, me havia dito, falando dos humores imprevisíveis das suas águas, que podiam muito bem se comportar como um tanque plácido ou como um oceano indômito. Na estação das chuvas o pantanal estava à mercê das tormentas da serra. Entre dezembro e abril, quando o tempo devia ser manso, os alísios do norte atacavam o pantanal com tamanho ímpeto que cada noite era uma aventura. Minha avó materna, Tranquilina Iguarán — Mina —, não se arriscava na travessia a não ser em casos da maior urgência, depois de uma viagem espantosa em que tiveram de buscar refúgio até o amanhecer na desembocadura do Riofrío.

Mas naquela noite, e por sorte, aquilo era um remanso. Nas janelas da proa, onde saí para respirar pouco antes do amanhecer, as luzes dos botes de pesca flutuavam como estrelas na água. Eram incontáveis, e os pescadores invisíveis conversavam como se estivessem de visita, pois as vozes tinham uma ressonância espectral no ar do pantanal. Com os cotovelos na balaustrada do convés, tentando adivinhar o perfil da serra, fui surpreendido de repente pela primeira lanhada da nostalgia.

Em outra madrugada como esta, enquanto atravessávamos a Ciénaga Grande, Papalelo me deixou dormindo no camarote e foi até a cantina. Não sei que horas seriam quando fui acordado pelo alvoroço de multidão que chegava através do zumbido do ventilador enferrujado e o estalar das latas do camarote. Eu não tinha mais do que cinco anos e levei um tremendo susto, mas logo a calma foi restabelecida e achei que tudo tinha sido um sonho. Pela manhã, já no ancoradouro de Ciénaga, meu avô estava fazendo a barba com uma navalha, de porta aberta e com o espelho dependurado no portal. A lembrança é precisa: ainda não havia vestido a camisa, mas tinha sobre a camiseta seus eternos suspensórios elásticos, largos e com listas verdes. Enquanto se barbeava, continuava conversando com um homem que até hoje eu poderia reconhecer à primeira vista. Tinha um perfil de corvo, inconfundível; uma tatuagem de marinheiro na mão direita, e usava dependuradas no pescoço várias correntes de ouro pesado, e pulseiras e munhequeiras, também de ouro, em ambos os pulsos. Eu acabava de me vestir e estava sentado na cama pondo as botas, quando o homem disse ao meu avô:

— Não tenha dúvidas, coronel. O que eles queriam mesmo era jogar o senhor n’água.

Meu avô sorriu sem deixar de se barbear e, com uma altivez que era tão dele, replicou:

— Ainda bem que não se atreveram.

Então entendi o escândalo da noite anterior e me senti muito impressionado com a idéia de que alguém tivesse querido jogar meu avô no mangue.

A lembrança desse episódio jamais esclarecido surpreendeu-me naquela madrugada em que estava indo com minha mãe vender a casa, enquanto contemplava as neves da serra que amanheciam azuis com os primeiros sóis. O atraso no canal nos permitiu ver, em pleno dia, a barra de areias luminosas que mal consegue separar o mar e o mangue, onde havia aldeias de pescadores com as redes postas para secar na praia, e meninos maltratados e esquálidos que jogavam futebol com bolas de trapo. Era impressionante ver nas ruas os muitos pescadores com o braço mutilado por não terem jogado a tempo as barras de dinamite. À passagem do vapor, os meninos começavam a mergulhar atrás das moedas atiradas pelos passageiros.

Eram quase sete em ponto quando atracamos num canto pestilento do mangue, a pouca distância da cidadezinha de Ciénaga. Bandos de carregadores com o lodo até os joelhos nos receberam nos braços e chafurdando nos levaram até o embarcadouro, no meio de uma revoada de urubus que disputavam as imundícies do lodaçal. Tomávamos devagar um reforçado café-da-manhã nas mesas do porto, com as saborosas garoupas do pantanal e fatias fritas de banana verde, quando minha mãe retomou a ofensiva de sua guerra pessoal.

— Então, diga logo de uma vez — falou, sem levantar os olhos — o que eu devo dizer ao seu pai.

Tratei de ganhar tempo para pensar.

— Sobre o quê?

— Sobre a única coisa que interessa a ele — disse ela um pouco irritada: — os seus estudos.

Tive a sorte de que um comensal impertinente, intrigado com a veemência do diálogo, quis saber minhas razões. A resposta imediata de minha mãe não só me intimidou um pouco, mas também me surpreendeu, sempre tão zelosa de sua vida privada.

— É que ele resolveu ser escritor — falou.

— Um bom escritor pode ganhar muito dinheiro — replicou o homem com seriedade. — Principalmente se trabalhar no governo.

Não sei se foi por discrição que minha mãe mudou de assunto, ou por temor aos argumentos do interlocutor imprevisto, mas os dois terminaram compadecendo-se das incertezas da minha geração, e dividindo suas memórias entre si. No final, rastreando nomes de conhecidos comuns, acabaram descobrindo que éramos todos parentes duplos, do lado dos Cotes e dos Iguarán. Naquele tempo, isto nos acontecia com cada duas de três pessoas que encontrávamos na costa caribenha, e minha mãe celebrava sempre como se fosse um acontecimento insólito.

Fomos até a estação numa espécie de charrete, na verdade uma vitória de um cavalo só, talvez a última de uma estirpe lendária já extinta no resto do mundo. Minha mãe ia absorta, olhando a planície árida calcinada pelo salitre que começava no lodaçal do porto e se confundia com o horizonte. Para mim, era um lugar histórico: aos meus três ou quatro anos, durante minha primeira viagem a Barranquilla, meu avô tinha me levado pela mão através daquele imenso baldio ardente, caminhando depressa e sem me dizer para quê, e de repente nos encontramos diante de uma vasta extensão de águas verdes com golfadas de espuma, onde flutuava um mundo inteiro de galinhas afogadas.

— É o mar — ele me disse.

Desencantado, perguntei o que havia na outra margem, e ele respondeu sem nenhuma sombra de dúvida:

— É que do lado de lá não tem margem.

Hoje, depois de tantos mares vistos pelo avesso e pelo direito, continuo pensando que aquela foi mais uma de suas grandes respostas. Acontece que nenhuma de minhas imagens anteriores correspondia àquela imensidão sórdida, em cuja praia de salitre era impossível caminhar no meio da galharada de mangues podres e de lascas de caracol. Era horrível.

Minha mãe devia pensar a mesma coisa do mar de Ciénaga, pois assim que viu esse mar aparecendo à esquerda da charrete, suspirou:

— Não existe mar como o mar de Rioacha!

Foi então que contei a ela minha lembrança das galinhas afogadas e, como ocorria com todos os adultos, ela achou que era uma alucinação da minha infância. Depois continuou contemplando cada lugar que encontrávamos no caminho, e eu sabia o que ela pensava de cada um por causa das mudanças em seu silêncio. Passamos na frente do bairro das casas de tolerância no outro lado da linha do trem, com casinhas coloridas com tetos enferrujados e os velhos papagaios de Paramaribo que, encarapitados em arcos dependurados nos beirais do telhado, chamavam os clientes em português. Passamos pelo tanque onde enchiam de água os radiadores das locomotivas, com a imensa abóbada de ferro onde pássaros migratórios e gaivotas perdidas se refugiavam para dormir. Bordejamos a cidade sem entrar, mas vimos as ruas largas e desoladas, e as casas do antigo esplendor, de um só andar com janelas de corpo inteiro, onde os exercícios de piano se repetiam sem descanso desde o amanhecer. De repente, minha mãe apontou com o dedo.

— Olhe lá — disse. — Foi ali que o mundo se acabou.

Eu acompanhei a direção de seu dedo indicador e vi a estação: um prédio de madeiras descascadas, com telhados de zinco a duas águas e balcões corridos, e na frente uma pracinha árida na qual não podiam caber mais de duzentas pessoas. Foi ali, de acordo com o relato preciso de minha mãe naquele dia, que o exército havia matado em 1928 um número jamais sabido de diaristas dos bananais. Eu conhecia o episódio como se o tivesse vivido, depois de ter ouvido meu avô contá-lo e repeti-lo mil e uma vezes desde que tive memória: o militar lendo o decreto que declarava que os peões em greve eram oficialmente uma quadrilha de malfeitores; os três mil homens, mulheres e crianças imóveis debaixo de um sol bárbaro depois que o oficial deu a todos um prazo de cinco minutos para esvaziar a praça; a ordem de fogo, o repicar das rajadas de cuspidas incandescentes, a multidão encurralada pelo pânico enquanto ia sendo diminuída palmo a palmo, pelas tesouras metódicas e insaciáveis da metralha.

O trem chegava a Ciénaga às nove da manhã, recolhia os passageiros das lanchas e os que baixavam da serra, e prosseguia rumo ao interior da zona bananeira um quarto de hora mais tarde. Minha mãe e eu chegamos à estação pouco depois das oito, mas o trem estava atrasado. E mesmo assim, fomos os únicos passageiros. Ela percebeu assim que entrou no vagão vazio, e exclamou com humor festivo:

— Que luxo! O trem inteirinho só para a gente!

Sempre achei que foi um júbilo fingido para dissimular seu desencanto, pois à primeira vista já se via, no próprio estado dos vagões, os estragos do tempo. Eram os antigos de segunda classe, mas sem assentos de vime nem vidros de subir e descer nas janelas, e com bancos de madeira curtidos pelos fundilhos lisos e calorentos dos pobres. Em comparação com o que tinha sido em outros tempos, não apenas aquele vagão, mas o trem inteiro era um fantasma de si mesmo. Antes tinha três classes. A terceira, onde viajavam os mais pobres, eram os mesmos caixotões de madeira em que transportavam bananas ou as reses de sacrifício, adaptados para passageiros com bancos longitudinais de madeira crua. A segunda classe, com assentos de vime e molduras de bronze. A primeira classe, onde viajava o pessoal do governo e os altos funcionários da companhia bananeira, com tapetes no corredor e poltronas forradas de veludo vermelho que mudavam de posição. Quando viajava o superintendente da companhia, ou sua família, ou seus convidados mais destacados, enganchavam na rabeira do trem um vagão de luxo com janelas de vidros escuros para proteger dos brilhos solares e beirais dourados, e uma varandinha descoberta com mesinhas para viajar tomando chá. Não conheci nenhum mortal que tenha visto por dentro aquela carruagem de fantasia. Meu avô tinha sido prefeito duas vezes e além do mais tinha uma noção alegre de dinheiro, mas só viajava de segunda classe quando ia com alguma mulher da família. E quando perguntavam a ele por que viajava de terceira, respondia: “Porque não existe quarta.” No entanto, em outros tempos, o mais memorável do trem tinha sido a pontualidade. Os relógios das aldeias acertavam a hora pelo seu apito.

Naquele dia, por um motivo ou por outro, partiu com uma hora e meia de atraso. Quando se pôs em marcha, muito devagar e com um chiado lúgubre, minha mãe se persignou, mas em seguida voltou à realidade.

— As molas deste trem estão precisando de graxa — disse.

Éramos os únicos passageiros, talvez no trem inteiro, e até aquele momento não havia nada que me causasse um verdadeiro interesse. Mergulhei no torpor de Luz de agosto, fumando sem trégua, com rápidas olhadas ocasionais para reconhecer os lugares que íamos deixando para trás. O trem atravessou com um apito longo os terrenos encharcados do pantanal, e entrou a toda velocidade por um trepidante corredor de rochedos vermelhos, onde o estrondo dos vagões se fez insuportável. Mas após uns quinze minutos diminuiu a marcha, entrou com um suspiro sigiloso na penumbra fresca das plantações, e o tempo se fez mais denso e não voltamos a sentir a brisa do mar. Nem precisei interromper a leitura para saber que tínhamos entrado no reino hermético da zona bananeira.

O mundo mudou. Lado a lado da estrada de ferro estendiam-se as avenidas simétricas e intermináveis das plantações, por onde andavam os carros de bois carregados de cachos verdes. De repente, em intempestivos descampados, havia acampamentos de tijolos vermelhos, escritórios com tela nas janelas e ventiladores de grandes hélices dependurados nos tetos, e um hospital solitário num campo de amapolas. Cada rio tinha sua aldeia e sua ponte de ferro por onde o trem passava dando alaridos, e ao seu passo as moças que se banhavam nas águas geladas saltavam como peixes luminosos, para perturbar os viajantes com suas tet*as fugazes.

Na cidadezinha de Riofrío subiram várias famílias de arhuacos carregadas com mochilas repletas de abacates da serra, os mais apetitosos do país. Percorreram o vagão aos pulinhos, em ambos os sentidos, procurando onde sentar-se, mas quando o trem retomou a marcha só restavam duas mulheres brancas com um menino recém-nascido, e um padre jovem. O menino não parou de chorar o resto da viagem. O padre usava botas e aquele capacete de explorador, uma batina de algodão tosco, cheia de remendos quadrados, como uma vela de barco, e falava enquanto o menino chorava e sempre como se estivesse no púlpito. O tema do sermão era a possibilidade de que a companhia bananeira regressasse. Desde que tinha ido embora não se falava de outra coisa na zona, e as opiniões estavam divididas entre quem queriam e quem não queriam que voltasse, mas todos tinham certeza dessa volta. O padre estava contra, e argumentou com uma razão tão pessoal que as mulheres acharam um puro disparate:

— Por onde passa, a companhia deixa ruína.

Foi a única coisa original que disse, mas não conseguiu explicar, e a mulher do menino acabou de confundi-lo com o argumento de que não podia ser que Deus estivesse de acordo com ele.

A nostalgia, como sempre, havia apagado as lembranças ruins e aperfeiçoado as boas. Ninguém se salvava de seus estragos. Da janela do vagão viam-se homens sentados na porta de suas casas e bastava olhar suas caras para saber o que esperavam. As lavadeiras nas praias de cal olhavam com a mesma esperança o trem passar. Achavam que cada forasteiro que chegava com sua maleta de homem de negócios era o homem da United Fruit Company que voltava para restabelecer o passado. Em cada encontro, em cada visita, em cada carta surgia, cedo ou tarde, a frase sacramental: “Estão dizendo que a companhia vai voltar.” Ninguém sabia quem dizia, nem quando nem por quê, mas ninguém duvidava da afirmação.

Minha mãe achava-se curada de qualquer susto, pois mortos seus pais havia cortado qualquer vínculo com Aracataca. Seus sonhos, porém, a traíam. Quando tinha algum que lhe interessava a ponto de contá-lo no café-da-manhã, porém, estava sempre relacionado com suas saudades da zona bananeira. Sobreviveu às suas épocas mais duras sem vender a casa, com a ilusão de receber por ela até quatro vezes mais quando a companhia voltasse. A pressão insuportável da realidade tinha enfim vencido essa ilusão. Mas quando ouviu o padre dizer no trem que a companhia estava a ponto de regressar, fez um gesto desolado e me disse ao ouvido:

— Pena que a gente não possa esperar um tempinho para vender a casa por mais dinheiro.

Enquanto o padreco falava passamos ao largo de um lugar onde havia uma multidão na praça e uma banda de música tocava num coreto alegre debaixo de um sol esmagador. Todos aqueles povoados sempre me pareceram iguais. Quando Papalelo me levava ao cinema Olympia de dom Antonio Daconte, novinho em folha, eu notava que as estações dos filmes de vaqueiros eram parecidas às do nosso trem. Mais tarde, quando comecei a ler Faulkner, também os povoados de seus romances me pareciam iguais aos nossos. E aquilo não deveria surpreender ninguém, pois tinham sido construídos debaixo da inspiração messiânica da United Fruit Company, com o mesmo estilo provisório de acampamento de passagem. Eu recordava todos eles com a igreja na praça e as casinhas de contos de fadas pintadas nas cores primárias. Recordava as quadras de diaristas negros cantando ao entardecer, os galpões das fazendas onde os peões sentavam-se para ver passar o trem de carga, as cercas onde amanheciam os peões do bananal decapitados nas bebedeiras dos sábados. Recordava as cidades privadas dos gringos em Aracataca e Sevilla, do outro lado da estrada de ferro, cercadas com grades metálicas como enormes galinheiros eletrificados que nos dias frescos de verão amanheciam negras de andorinhas torradas. Recordava seus lentos prados azuis com pavões e codornas, as residências com tetos vermelhos e janelas com telas e mesinhas redondas com cadeiras dobráveis para comer nos terraços, entre palmeiras e roseirais empoeirados. Às vezes, através da cerca de arame, viam-se mulheres belas e lânguidas, com trajes de musselina e grandes chapéus de tule, que cortavam as flores de seus jardins com tesouras de ouro.

Já na minha infância não era fácil distinguir uns povoados de outros. Vinte anos depois era mais difícil ainda, porque nos pórticos das estações tinham caído as plaquinhas com nomes idílicos — Tucurinca, Guamachito, Neerlandia, Guacamayal — e todos eram mais desolados que na memória. O trem se deteve em Sevilla, lá pelas onze e meia da manhã, para trocar de locomotiva e abastecer-se de água durante quinze minutos intermináveis. Ali começou o calor. Quando retomou a marcha, a nova locomotiva nos mandava em cada volta uma rajada de cisco que entrava pela janela sem vidros e nos deixava cobertos de uma neve negra. O padre e as mulheres tinham desembarcado em algum povoado sem que percebêssemos, e aquilo agravou minha impressão de que minha mãe e eu viajávamos sozinhos num trem de ninguém. Sentada na minha frente, olhando pela janelinha, ela cabeceou dois ou três sonhos, mas despertou de repente e me soltou uma vez mais a pergunta temível:

— E então, o que é que eu digo ao seu pai?

Eu achava que ela não ia se render jamais, à procura de um flanco pelo qual quebrar minha decisão. Pouco antes tinha sugerido algumas formas de compromisso que descartei sem argumentos, mas sabia que sua retirada não seria longa. Mesmo assim, esta nova tentativa me apanhou de surpresa. Preparado para outra batalha estéril, respondi com mais calma que nas vezes anteriores:

— Diga a ele que a única coisa que eu quero na vida é ser escritor, e que vou ser.

— Ele não se opõe a que você seja o que quiser ser — disse ela —, desde que tenha um diploma, qualquer um.

Falava sem olhar para mim, fingindo interessar-se menos em nosso diálogo que na vida que passava pela janela.

— Não sei por que tanta insistência, se a senhora sabe muito bem que não vou me render — disse a ela.

No mesmo instante olhou-me nos olhos e perguntou intrigada:

— E por que você acha que eu sei disso?

— Porque a senhora e eu somos iguais.

O trem fez uma parada numa estação sem povoado, e pouco depois passou na frente da única fazenda bananeira do caminho que tinha o nome escrito no portal: Macondo. Esta palavra tinha chamado a minha atenção desde as primeiras viagens com meu avô, mas só depois de adulto descobri que gostava da sua ressonância poética. Nunca a ouvi de ninguém, nem sequer me perguntei o seu significado. Já a tinha usado em três livros como nome de um povoado imaginário, quando soube numa enciclopédia qualquer que é uma árvore do trópico parecida à paineira, que não produz flores nem frutos, e cuja madeira esponjosa serve para fazer canoas e esculpir utensílios de cozinha. Mais tarde descobri na Enciclopédia Britânica que em Tanganica existe a etnia errante dos makondos e pensei que aquela poderia ser a origem da palavra. Mas nunca investiguei isso nem conheci a árvore, pois muitas vezes perguntei por ela na zona bananeira e ninguém soube me dizer nada. Talvez não tenha existido jamais.

O trem passava às onze pela fazenda Macondo, e dez minutos depois detinha-se em Aracataca. No dia em que eu ia com minha mãe vender a casa, passou com uma hora e meia de atraso. Eu estava no banheiro quando começou a acelerar e entrou pela janela quebrada um vento ardente e seco, revolto com o estrépito dos velhos vagões e o apito apavorado da locomotiva. O coração dava saltos em meu peito e uma náusea glacial gelou minhas entranhas. Saí correndo, empurrado por um pavor semelhante ao que se sente com um terremoto, e encontrei minha mãe imperturbável em seu posto, enumerando em voz alta os lugares que via passar pela janela como rajadas instantâneas da vida que foi e que não tornaria a ser nunca mais.

— Estes são os terrenos que venderam a papai com a lorota de que havia ouro — disse.

Passou como uma exalação a casa dos professores adventistas, com seu jardim florido e um letreiro no portal: The sun shines for all.

— Foi a primeira coisa que você aprendeu em inglês — disse minha mãe.

— A primeira, não — respondi: — a única.

Passou a ponte de cimento e o açude com suas águas turvas, do tempo em que os gringos desviaram o rio para levá-lo às suas plantações.

— O bairro das mulheres da vida, onde os homens amanheciam dançando a cumbiamba com maços de dinheiro pegando fogo em vez de velas acesas — disse ela.

Os bancos na calçada da avenida, as amendoeiras enferrujadas pelo sol, o parque da escolinha montessoriana onde aprendi a ler. Por um instante, a imagem total do povoado no luminoso domingo de fevereiro resplandeceu na janela do trem.

— A estação! — exclamou minha mãe. — O mundo mudou tanto que ninguém mais espera o trem.

Então a locomotiva acabou de apitar, diminuiu a marcha e se deteve com um lamento longo. A primeira coisa que me impressionou foi o silêncio. Um silêncio material que eu seria capaz de identificar com os olhos vendados entre todos os outros silêncios do mundo. A reverberação do calor era tão intensa que tudo era visto como se fosse através de um vidro ondulante. Até onde a vista alcançava não havia memória alguma da vida humana, nem nada que não estivesse coberto pelo orvalho tênue de um pó ardente. Minha mãe ainda ficou uns minutos no assento, olhando o povoado morto e estendido nas ruas desertas, e finalmente exclamou apavorada:

— Meu Deus!

Foi a única coisa que disse antes de descer.

Enquanto o trem permaneceu ali tive a sensação de que não estávamos completamente sozinhos. Mas quando arrancou, com um apito instantâneo e cortante, minha mãe e eu ficamos desamparados debaixo do sol infernal e todo o pesar do povoado despencou em cima de nós. Mas não nos dissemos nada. A velha estação de madeira e teto de zinco, com seu balcão corrido, era como uma versão tropical das que conhecíamos nos filmes de vaqueiro. Atravessamos a estação abandonada cujas lajotas começavam a se quebrar pela pressão da grama, e mergulhamos no marasmo da sesta buscando sempre a proteção das amendoeiras.

Desde criança eu detestava aquelas sestas inertes porque não sabíamos o que fazer. “Calados, que estamos dormindo”, sussurravam os dormentes sem despertar. Os armazéns, as repartições públicas, as escolas, fechavam ao meio-dia e não tornavam a abrir até um pouco antes das três. O interior das casas ficava flutuando num limbo de torpor. Em algumas era tão insuportável que os habitantes dependuravam as redes nos quintais ou encostavam tamboretes à sombra das amendoeiras e dormiam a sesta em plena rua. Só permaneciam abertos o hotel em frente da estação, seu bar e seu salão de bilhar, e o posto do telégrafo atrás da igreja. Tudo era idêntico às lembranças, só que mais reduzido e pobre, e arrasado por um vendaval de fatalidade: as mesmas casas carcomidas, os tetos de zinco perfurados pela ferrugem, o calçadão com os escombros dos bancos de granito e as amendoeiras tristes, e tudo transfigurado por aquele pó invisível e ardente que enganava a vista e calcinava a pele. O paraíso privado da companhia bananeira, do outro lado da estrada de ferro, já sem a cerca de arame eletrificado, era um vasto matagal sem palmeiras, com casas destruídas entre amapolas e os escombros do hospital incendiado. Não havia uma porta, uma greta de um muro, um rastro humano que não tivesse dentro de mim uma ressonância sobrenatural.

Minha mãe caminhava muito ereta, com seu passo ligeiro, suando um pouco dentro do traje fúnebre e num silêncio absoluto, mas sua palidez mortal e seu perfil afiado delatavam o que acontecia dentro dela. No final do calçadão vimos o primeiro ser humano: uma mulher miúda, de aspecto empobrecido, que apareceu na esquina da rua Jacobo Beracaza e passou ao nosso lado com uma panelinha de estanho cuja tampa mal colocada marcava o compasso de seu caminhar. Minha mãe me sussurrou sem olhar para ela:

— É a Vita.

Eu a havia reconhecido. Trabalhou desde menina na cozinha de meus avós, e por mais que tivéssemos mudado ela nos teria reconhecido, se houvesse se dignado a olhar para nós. Mas não: passou em outro mundo. Ainda hoje me pergunto se Vita não morreu muito antes daquele dia.

Ao dobrarmos a esquina, o pó queimava meus pés através do tecido das sandálias. A sensação de desamparo tornou-se insuportável para mim. Então me vi e vi minha mãe, do jeito que quando eu era menino vi a mãe e a irmã do ladrão que María Consuegra tinha matado com um tiro uma semana antes, quando tratava de forçar a porta de sua casa.

Às três da madrugada ela havia despertado com o ruído de alguém que, do lado de fora, tentava forçar a porta da rua. Levantou sem acender a luz, buscou às apalpadelas no guarda-roupa um revólver arcaico que ninguém havia disparado desde a Guerra dos Mil Dias e localizou na escuridão não apenas o lugar onde estava a porta mas também a altura exata da fechadura. Então apontou a arma com as duas mãos, fechou os olhos e apertou o gatilho. Nunca havia disparado antes, mas o tiro acertou o alvo através da porta.

Foi o primeiro morto que eu vi. Quando passei para a escola às sete da manhã o corpo ainda estava estendido na calçada sobre uma mancha de sangue seco, com o rosto arrebentado pelo chumbo que lhe desfez o nariz e saiu por uma orelha. Tinha uma camiseta de marinheiro com listas coloridas, calças ordinárias com um cordão de pano em vez de cinturão, e estava descalço. Ao seu lado, no chão, encontraram a gazua artesanal com a qual tinha tentado forçar a fechadura.

Os notáveis do povoado acudiram à casa de María Consuegra para dar-lhe os pêsames por ter matado o ladrão. Fui com Papalelo naquela noite, e a encontramos sentada numa poltrona filipina que parecia um enorme pavão de junco, em meio ao fervor dos amigos que escutavam a história mil vezes repetida. Todos concordavam com ela que o disparo tinha sido feito de puro medo. Foi então que meu avô perguntou se ela havia ouvido alguma coisa depois do disparo, e María respondeu que tinha sentido primeiro um grande silêncio, depois o ruído metálico da gazua ao cair no cimento do chão e em seguida uma voz mínima e dolorida: “Ai, minha mãe!” Ao que parece, María Consuegra não tinha tomado consciência desse lamento devastador até meu avô fazer a pergunta. Só então desandou a chorar.

Isso aconteceu numa segunda-feira. Na terça da semana seguinte, na hora da sesta, eu estava jogando pião com Luis Carmelo Correa, o amigo mais antigo da minha vida, quando fomos surpreendidos pelos que despertavam antes da hora e apareciam nas janelas. Então vimos na rua deserta uma mulher de luto fechado com uma menina de uns doze anos que levava um ramo de flores murchas envolvido num jornal. Protegiam-se do sol abrasante com um guarda-chuva negro, alheias por completo à impertinência das pessoas que as viam passar. Eram a mãe e a irmã menor do ladrão morto, e levavam flores para a tumba.

Aquela visão me perseguiu durante anos, como um sonho unânime que o povoado inteiro viu passar pelas janelas, até que consegui exorcizá-la em um conto. Mas a verdade é que não tomei consciência do drama da mulher e da menina, nem de sua dignidade imperturbável, até o dia em que fui com minha mãe vender a casa e me surpreendi a mim mesmo caminhando pela mesma rua solitária à mesma hora mortal.

— Eu me sinto como se fosse o ladrão — disse.

Minha mãe não me entendeu. E mais: quando passamos na frente da casa de María Consuegra nem mesmo olhou a porta onde ainda se notava o remendo da madeira no buraco do tiro. Anos depois, rememorando com ela aquela viagem, comprovei que se lembrava da tragédia, mas que teria dado a alma para esquecê-la. Isto ficou ainda mais evidente quando passamos na frente da casa aonde morou dom Emilio, mais conhecido como o Belga, um veterano da primeira guerra mundial que tinha perdido o uso de ambas as pernas num campo minado da Normandia, e que num domingo de Pentecostes se pôs à salvo dos tormentos da memória com um defumador de cianureto de ouro. Eu não tinha mais do que seis anos, mas recordo como se tivesse sido ontem o turbilhão provocado pela notícia às sete da manhã. Foi tão memorável, que quando voltávamos ao povoado para vender a casa, minha mãe finalmente rompeu seu mutismo, após vinte anos.

— Coitado do Belga — suspirou. — Conforme você mesmo disse, nunca mais tornou a jogar xadrez.

Nosso propósito era ir direto até a casa. No entanto, quando estávamos a apenas um quarteirão, minha mãe se deteve de repente e dobrou pela esquina anterior.

— É melhor a gente ir por aqui — disse. E quando quis saber por quê, respondeu: — Porque tenho medo.

Foi assim que também fiquei sabendo a razão da minha náusea: era medo, e não apenas de enfrentar meus fantasmas, mas medo de tudo. Portanto, seguimos por uma rua paralela para fazer um volteio cujo único motivo era não passar na frente da nossa casa. “Eu não teria coragem de vê-la sem antes falar com alguém”, minha mãe me diria mais tarde. E assim foi. Quase que me arrastando atrás dela, entrou sem nenhum aviso na botica do doutor Alfredo Barboza, uma casa de esquina a menos de cem passos da nossa.

Adriana Berdugo, a esposa do doutor, estava costurando tão distraída em sua primitiva Domestic de manivela, que não sentiu quando minha mãe chegou na frente dela e disse quase com um sussurro:

— Comadre.

Adriana ergueu a vista exausta pelos grossos óculos para vista cansada, tirou-os, vacilou um instante, e se levantou de um salto com os braços abertos e um gemido:

— Ai, comadre!

Minha mãe já estava atrás do balcão, e sem se dizerem mais nada abraçaram-se aos prantos. Eu fiquei olhando-as do lado de fora do balcão, sem saber o que fazer, estremecido pela certeza de que aquele longo abraço de lágrimas caladas era algo irreparável que estava ocorrendo para sempre na minha própria vida.

Aquela havia sido a melhor botica nos tempos da companhia bananeira, mas do antigo estoque de frascos não restavam nos armários sisudos nada além de uns quantos potes de louça marcados com letras douradas. A máquina de costura, o almofariz, o caduceu — a insígnia símbolo da medicina —, o relógio de pêndulo ainda vivo, a gravura de linóleo do juramento de Hipócrates, as cadeiras de balanço caindo aos pedaços, todas as coisas que eu tinha visto quando menino continuavam sendo as mesmas e estavam em seus mesmos lugares, mas transfiguradas pela ferrugem do tempo.

A própria Adriana era uma vítima. Embora usasse como antes um vestido de grandes flores tropicais, já quase não se notavam mais sinais dos seus ímpetos e da picardia que tinham feito com que fosse célebre mesmo quando já estava bem avançada na maturidade. A única coisa intacta à sua volta era o perfume de valeriana, que enlouquecia os gatos e que continuei evocando pelo resto da minha vida com um sentimento de naufrágio.

Quando Adriana e minha mãe ficaram sem lágrimas, ouviu-se uma tosse espessa e breve atrás do tabique de madeira que nos separava dos fundos da loja. Adriana recobrou algo de sua graça de outra época e falou para ser ouvida através do tabique.

— Doutor — disse ela —, adivinha quem está aqui.

Do outro lado, uma voz granulosa de homem duro perguntou sem nenhum interesse:

— Quem?

Adriana não respondeu, mas fez sinais para que passássemos para os fundos da botica. Um terror da infância me paralisou em seco e minha boca naufragou em uma saliva lívida, mas entrei com minha mãe no espaço minguado que antes foi laboratório de botica e tinha sido ajeitado como dormitório de emergência. Lá estava o doutor Alfredo Barboza, mais velho que todos os homens e todos os animais velhos da terra e da água, estendido de barriga para cima em sua eterna rede de bardana, sem sapatos, e com seu lendário pijama de algodão cru que mais parecia uma túnica de penitente. Tinha os olhos fixos no teto, mas quando nos sentiu entrar girou a cabeça e mirou em nós seus diáfanos olhos amarelos, até acabar de reconhecer minha mãe.

— Luisa Santiaga! — exclamou.

Sentou-se na rede com uma fadiga de móvel antigo, incorporou-se por completo e cumprimentou-nos com um apertão rápido de sua mão ardente. Ele notou minha impressão, e me disse: “Faz um ano que tenho uma febre essencial.” Então abandonou a rede, sentou-se na cama e nos disse num fôlego só:

— Vocês nem imaginam o que este povoado teve de suportar.

Aquela frase solitária, que resumiu uma vida inteira, bastou para que eu o visse como talvez sempre foi: um homem solitário e triste. Era alto, esquálido, com uma bela cabeleira metálica cortada de qualquer jeito e uns olhos amarelos e intensos que tinham sido o mais terrível dos terrores da minha infância. Pelas tardes, quando voltávamos da escola, subíamos na janela de seu dormitório atraídos pela fascinação do medo. Lá estava ele, balançando em sua rede com fortes movimentos para espantar o calor. O jogo consistia em olhar fixo para ele até que ele percebia e se virava para nos olhar de repente com seus olhos ardentes.

Eu o tinha visto pela primeira vez aos meus cinco ou seis anos, certa manhã em que me infiltrei no quintal de sua casa com outros companheiros de escola para roubar mangas enormes de suas árvores. De repente abriu-se a porta do banheiro de tábuas construído num canto do quintal, e ele saiu amarrando as cuecas de algodão. Foi como uma aparição do outro mundo num camisolão branco de hospital, pálido e ossudo, e aqueles olhos amarelos que nem os de um cão do inferno que me olharam para sempre. Os outros escaparam pelo portãozinho, mas eu fiquei petrificado por seu olhar imóvel. Viu as mangas que eu tinha acabado de arrancar da árvore e estendeu-me a mão.

— Dá aqui! — mandou, e depois, olhando-me de corpo inteiro com um grande desprezo, acrescentou: — Ladrãozinho de quintal.

Atirei as mangas aos seus pés e escapei apavorado.

Foi meu fantasma pessoal. Quando andava sozinho dava uma volta enorme para não passar pela sua casa. Se estava com adultos, mal me atrevia a dar uma olhadela furtiva na direção da botica. Via Adriana condenada à prisão perpétua na máquina de costura atrás do balcão, e via o doutor Barboza pela janela do dormitório balançando com força na rede, e essa simples olhadela me deixava com a pele arrepiada.

Ele havia chegado ao povoado no começo do século, entre os incontáveis venezuelanos que conseguiram escapar do despotismo feroz de Juan Vicente Gómez pela fronteira de La Guajira. Tinha sido um dos primeiros arrastados por duas forças contrárias: a ferocidade do déspota em seu país e a ilusão da bonança bananeira no nosso. Desde a sua chegada agradou por causa de seu olho clínico — assim se dizia naquela época — e pelas boas maneiras de sua alma. Foi um dos amigos mais assíduos da casa de meus avós, onde a mesa estava sempre posta sem que se soubesse quem chegaria no trem. Minha mãe foi madrinha de seu filho mais velho, e meu avô ensinou-o a voar com suas primeiras asas. Cresci entre eles, como continuei depois crescendo entre os exilados da guerra civil espanhola.

Os últimos vestígios do medo que aquele pária esquecido me causava quando eu era menino se dissiparam de repente, quando minha mãe e eu, sentados ao lado de sua cama, escutávamos os pormenores da tragédia que tinha se abatido sobre a população. Tinha um poder de evocação tão intenso que cada coisa que contava parecia fazer-se visível no quarto abafado de calor. A origem de todas as desgraças, é claro, tinha sido a matança dos trabalhadores pela força pública, mas ainda persistiam dúvidas sobre a verdade histórica: três mortos ou três mil? Talvez não tenham sido tantos, ele disse, mas cada um aumentava a cifra de acordo com sua própria dor. Agora a companhia tinha ido embora de uma vez e para sempre.

— Os gringos não voltam nunca mais — concluiu.

A única coisa certa era que levaram tudo: o dinheiro, as brisas de dezembro, a faca de cortar pão, o trovão das três da tarde, o aroma dos jasmins, o amor. Só ficaram as amendoeiras empoeiradas, as ruas reverberantes, as casas de madeira e tetos de zinco enferrujado com suas pessoas taciturnas, devastadas pelas lembranças.

A primeira vez que o doutor olhou para mim naquela tarde foi ao me ver surpreendido pela crepitação como de gotas de chuva dispersas no teto de zinco. “São os urubus”, disse ele. “Ficam o dia inteiro caminhando pelos tetos.” Depois apontou com um dedo lânguido a porta fechada, e concluiu:

— De noite é pior, porque dá para sentir que os mortos andam soltos pela rua.

Convidou-nos para almoçar e não havia nenhum inconveniente, pois a questão da nossa casa só precisava ser formalizada. Os próprios inquilinos seriam os compradores, e os pormenores tinham sido combinados por telegrama. Teríamos tempo?

— De sobra — disse Adriana. — Agora não se sabe mais nem quando o trem volta.

E assim dividimos com eles uma comida da roça, cuja simplicidade não tinha nada a ver com a pobreza e sim com uma dieta de sobriedade que ele exercia e predicava não apenas para a mesa mas para todos os atos de sua vida. Assim que provei a sopa tive a sensação de que um mundo inteiro adormecido despertava na minha memória. Sabores que tinham sido meus na infância e que eu havia perdido desde que saí do povoado reapareciam intactos em cada colherada e me apertavam o coração.

Desde o começo da conversa me senti diante do doutor com a mesma idade que tinha quando debochava dele pela janela, por isso me intimidei quando ele se dirigiu a mim com a seriedade e o afeto com que falava à minha mãe. Quando menino, em situações difíceis, eu tratava de dissimular meu susto com um pestanejar rápido e contínuo. Aquele reflexo incontrolável voltou de chofre quando o doutor olhou para mim. O calor tinha se tornado insuportável. Permaneci à margem da conversa durante algum tempo, me perguntando como era possível que aquele ancião afável e nostálgico tivesse sido o pavor da minha infância. De repente, após uma longa pausa e por uma referência banal, olhou-me com um sorriso de avô.

— Quer dizer então que você é o grande Gabito — disse. — O que você está estudando?

Dissimulei meu desconcerto com um relato espectral de meus estudos: curso completo e bem qualificado num colégio interno oficial, dois anos e alguns meses de direito caótico, jornalismo empírico. Minha mãe me ouviu e em seguida procurou o apoio do doutor.

— Imagine só, compadre — disse ela —, ele quer ser escritor.

Os olhos do doutor resplandeceram em seu rosto.

— Que maravilha, comadre! — disse. — É um presente dos céus! — Virou-se para mim: — Poesia?

— Romance e contos — respondi, com a alma num fio.

Ele se entusiasmou:

— Já leu Doña Bárbara?

— Claro — respondi —, e quase tudo mais que Rómulo Gallegos escreveu.

Como que ressuscitado por um entusiasmo súbito ele nos contou que o havia conhecido numa conferência que Gallegos fez em Maracaibo, e achou-o um autor digno de seus livros. A verdade é que naquele momento, com minha febre de quarenta graus provocada pelas sagas do Mississípi, eu começava a descobrir as falhas nos romances vernáculos. Mas a comunicação tão fácil e cordial com o homem que tinha sido o pavor da minha infância me parecia um milagre, e preferi participar de seu entusiasmo. Falei de “A Girafa” — minha coluna diária no El Heraldo — e adiantei a exclusiva novidade de que muito em breve pensávamos publicar uma revista na qual depositávamos profundas esperanças. Já mais seguro, contei o projeto e até antecipei o nome: Crónica.

Ele me examinou de alto a baixo.

— Não sei como é que você escreve — me disse —, mas já está falando como escritor.

Minha mãe se apressou a explicar a verdade: ninguém se opunha a que eu fosse escritor, desde que fizesse uma carreira universitária que me desse um chão firme. O doutor minimizou tudo, e falou da carreira de escritor. Ele também gostaria de ter sido escritor, mas seus pais, com os mesmos argumentos de minha mãe, obrigaram-no a estudar medicina depois de fracassarem na idéia de torná-lo militar.

— Pois veja só, comadre — concluiu. — Médico eu sou, e cá estou, sem saber quantos de meus enfermos morreram pela vontade de Deus e quantos morreram por causa dos meus remédios…

Minha mãe sentiu que estava perdida.

— O pior de tudo — disse ela — é que parou de estudar Direito depois de todos os sacrifícios que fizemos para sustentá-lo.

O doutor, pelo contrário, achou que era uma prova esplêndida de uma vocação arrasadora: a única que tinha capacidade para desafiar o amor. E em especial a vocação artística, a mais misteriosa de todas, à qual se consagra uma vida inteira sem esperar nada em troca.

— É algo que a gente traz dentro desde que nasce e contrariá-lo é a pior atitude — disse ele. E arrematou com um encantador sorriso de maçom incorrigível: — Algo assim como a vocação para padre.

Fiquei alucinado pela forma com que explicou o que eu não tinha jamais conseguido. Minha mãe deve ter concordado, porque me contemplou com um silêncio lento, e se rendeu à própria sorte.

— Qual vai ser a melhor maneira de dizer tudo isso ao seu pai? — me perguntou.

— Exatamente do jeito que a gente acabou de ouvir — respondi.

— Não, assim não vai adiantar — disse ela. E depois de outra reflexão, concluiu: — Mas não se preocupe, que eu vou dar um jeito de dizer.

Não sei o que ela fez, se de uma forma ou de outra, mas ali mesmo o debate acabou. O relógio cantou as horas com duas badaladas como duas gotas de vidro. Minha mãe se sobressaltou. “Deus do céu”, disse ela. “Esqueci o que a gente veio fazer.” E levantou-se:

— Temos que ir.

A primeira visão da casa, na calçada do outro lado da rua, tinha muito pouco a ver com minha memória, e nada com minhas nostalgias. Tinham sido cortadas pela raiz as duas amendoeiras tutelares que durante anos foram um sinal de indiscutível identidade e a casa ficou à intempérie. O que sobrava debaixo do sol de fogo não tinha mais do que trinta metros de fachada: metade de alvenaria e teto de telhas que faziam pensar numa casa de bonecas, e a outra metade de madeira bruta, sem lixar. Minha mãe bateu muito de leve na porta fechada, depois mais forte, e perguntou pela janela:

— Tem alguém aí?

A porta se entreabriu muito devagar e uma mulher perguntou na penumbra:

— O que deseja?

Minha mãe respondeu com uma autoridade talvez inconsciente:

— Sou Luisa Márquez.

Então a porta da rua acabou de se abrir, e uma mulher vestida de luto, ossuda e pálida, nos olhou como se estivesse em outra vida. No fundo da sala, um homem mais velho balançava-se numa poltrona de inválido. Eram os inquilinos, que depois de muitos anos tinham proposto comprar a casa, mas nem eles tinham aspecto de compradores nem a casa estava em estado de interessar a ninguém. De acordo com o telegrama que minha mãe tinha recebido, os inquilinos concordavam em pagar à vista a metade do preço, contra recibo assinado por ela, e pagariam o resto quando fossem lavradas as escrituras no decorrer daquele ano, mas ninguém recordava que houvesse uma visita prevista. Depois de uma longa conversa de surdos, a única coisa que ficou clara foi que não havia acordo algum. Sufocada pela insensatez e pelo calor infame, banhada em suor, minha mãe deu uma olhada à sua volta, e com um suspiro deixou escapar:

— A coitada dessa casa está nas últimas — disse.

— Pior — disse o homem: — se ainda não desmoronou em cima da gente é porque gastamos um bocado para mantê-la.

Tinham uma lista de consertos pendentes, além de outros que haviam deduzido do aluguel, até chegar ao ponto de que nós é que devíamos dinheiro a eles. Minha mãe, que sempre foi de lágrima fácil, era também capaz de uma inteireza temível para enfrentar as armadilhas da vida. Discutiu bem, mas não intervim porque desde o primeiro tropeço compreendi que a razão estava com os compradores. Nada ficava claro no telegrama sobre a data e o modo da venda, mas entendia-se que deveria ser fechada. Era uma situação típica da vocação da família de fazer tudo na base da hipótese. Eu podia imaginar como tinha sido a decisão, na mesa do almoço, e no mesmo instante em que o telegrama chegou. Sem me incluir na conta, eram dez irmãos com os mesmos direitos. No final minha mãe reuniu uns pesos daqui e outros dali, fez sua maleta de escolar e viajou sem outros recursos além dos da passagem de volta.

Minha mãe e a inquilina repassaram tudo outra vez, desde o começo, e em menos de meia hora tínhamos chegado à conclusão de que não haveria negócio. Entre outras razões insolúveis, porque não lembrávamos de uma hipoteca que pesava sobre a casa e que só foi resolvida muitos anos mais tarde, quando finalmente se concretizou a venda. Portanto, quando a inquilina tratou de repetir uma vez mais o mesmo argumento vicioso, minha mãe cortou pela raiz com sua altivez inapelável.

— A casa não está à venda — disse ela. — Vamos fazer de conta que aqui nascemos e aqui morremos nós todos.

No resto da tarde, enquanto não chegava o trem da volta, ficamos recolhendo nostalgias na casa fantasmagórica. Era toda nossa, mas só estava funcionando a parte alugada, que dava para a rua, onde antes ficavam os escritórios de meu avô. O resto era uma carapaça de tabiques carcomidos e tetos de zinco enferrujado à mercê dos lagartos. Minha mãe, petrificada no umbral, exalou uma exclamação terminal:

— Esta aqui não é a casa!

Mas não disse qual. É que durante a minha infância ela era descrita de tantas maneiras que eram pelo menos três casas que mudavam de forma e de sentido, conforme quem estivesse descrevendo. A original, pelo que ouvi de minha avó com sua maneira depreciativa, era um rancho de índios. A segunda, construída por meus avós, era de pau-a-pique e tetos de palma amarga, com uma salinha ampla e bem iluminada, uma sala de jantar na forma de varanda com flores de cores alegres, dois dormitórios, um quintal com uma castanheira gigantesca, uma horta bem plantada e um curral onde os bodes viviam em comunidade pacífica com os porcos e as galinhas. De acordo com a versão mais freqüente, esta casa foi reduzida a cinzas por um rojão que caiu no telhado de palma durante as celebrações de um 20 de julho, dia da Independência de sabe-se lá que ano de tantas guerras. A única coisa que sobrou foram os pisos de cimento e o bloco de duas peças com uma porta para a rua, onde ficaram os escritórios nas muitas vezes em que Papalelo foi funcionário público.

Sobre os escombros ainda quentes a família construiu seu refúgio definitivo. Uma casa linear de oito cômodos sucessivos, ao longo de um corredor com uma mureta de begônias onde as mulheres da família sentavam-se para bordar e conversar na fresca da tarde. Os quartos eram simples e não se diferenciavam entre si, e só precisei dar uma olhada para perceber que em cada um de seus incontáveis detalhes havia um instante crucial da minha vida.

O primeiro cômodo servia de sala de visitas e escritório particular do meu avô. Tinha uma escrivaninha de cortina, uma poltrona giratória de molas, um ventilador elétrico e um livreiro vazio com um único livro enorme e descosturado: o dicionário da língua. Depois estava a oficina de ourivesaria onde meu avô passava suas melhores horas fabricando os peixinhos de ouro de corpo articulado e minúsculos olhos de esmeraldas, que davam a ele mais prazer que dinheiro. Ali foram recebidos alguns personagens dignos de nota, sobretudo políticos, desempregados públicos, veteranos de guerras. Entre eles, em ocasiões diferentes, dois visitantes históricos: os generais Rafael Uribe Uribe e Benjamín Herrera, que almoçaram com nossa família. No entanto, o que minha avó lembrou de Uribe Uribe pelo resto da vida foi sua sobriedade na mesa: “Comia feito um passarinho.”

O espaço comum do escritório e da oficina de prataria era vedado às mulheres, em nome da nossa cultura caribenha, da mesma forma que os bares do povoado proibiam sua entrada em nome da lei. Com o tempo, aquele espaço acabou virando quarto de hospital, onde morreu a tia Petra e arrastou os últimos meses de uma longa doença Wenefrida Márquez, irmã de Papalelo. A partir daquele ponto começava o paraíso hermético das muitas mulheres residentes e ocasionais que passaram pela casa durante a minha infância. Eu fui o único homem a desfrutar dos privilégios dos dois mundos.

A sala de jantar era apenas um trecho alargado do corredor avarandado onde as mulheres da casa se sentavam para costurar, e uma mesa para dezesseis comensais, previstos ou inesperados, que chegavam todos os dias no trem do meio-dia. Minha mãe contemplou os canteiros quebrados das begônias, as ervas daninhas apodrecidas e o tronco do jasmineiro carcomido pelas formigas, e recuperou o fôlego.

— Às vezes não conseguíamos respirar por causa do perfume quente dos jasmins — disse ela, olhando o céu deslumbrante, e suspirou com toda a alma. — Mas do que mais sinto falta desde então é do trovão das três da tarde.

Fiquei impressionado, porque eu também recordava o estampido único que nos despertava da sesta como se fosse uma chuvarada de pedras, mas nunca tive consciência de que só acontecesse às três.

Depois do corredor havia uma saleta reservada para receber pessoas em ocasiões especiais, pois as visitas cotidianas eram atendidas com cerveja gelada no escritório, quando eram homens, ou no corredor das begônias, quando eram mulheres. Ali começava o mundo mítico dos dormitórios. Primeiro o dos avós, com uma porta grande para o jardim, e uma talha de flores de madeira com a data da construção: 1925. E foi também ali, sem nenhum aviso prévio, que minha mãe me fez a surpresa menos esperada com uma ênfase triunfal:

— Aqui você nasceu!

Até aquele instante eu não sabia, ou tinha esquecido, mas no quarto seguinte encontramos o berço onde dormi até meus quatro anos, e que minha avó conservou para sempre. Eu tinha me esquecido dele, mas assim que vi o berço lembrei de mim mesmo com o macacão de florezinhas azuis que tinha acabado de estrear, e chorando aos berros para que alguém acudisse para me tirar as fraldas embarradas de caca. Mal podia me manter em pé agarrado às grades do berço, tão pequeno e frágil como o cestinho de Moisés. Aquilo tinha sido motivo freqüente de discussões e piadas de parentes e amigos, que achavam que minha angústia daquele dia era demasiado racional para uma idade tão curta. E mais ainda quando insisti que o motivo da minha ansiedade não era propriamente o asco de minhas próprias misérias, mas o medo de que o macacão novo ficasse sujo. Ou seja, não se tratava de um preconceito de higiene e sim de uma contrariedade estética, e pela forma em que perdura na minha memória acho que foi minha primeira vivência de escritor.

Naquele dormitório também havia um altar com santos de tamanho humano, mais realistas e tenebrosos que os da Igreja. Foi ali que sempre dormiu a tia Francisca Simodosea Mejía, uma prima-irmã de meu avô que nós chamávamos de tia Mama, que morava na casa como dona e senhora desde que seus pais morreram. Eu dormia na rede ao lado, apavorado com o piscar dos santos pela lâmpada do Santíssimo que não foi apagada até que todos morreram, e também ali minha mãe dormiu quando solteira, atormentada de pavor diante dos santos.

No fundo do corredor havia dois quartos que eram proibidos para mim. No primeiro vivia minha prima Sara Emilia Márquez, uma filha de meu tio Juan de Dios antes de seu matrimônio, e que foi criada por meus avós. Além de uma superioridade natural que exibia desde que era pequena, tinha uma personalidade forte, e abriu meus primeiros apetites literários com uma preciosa coleção de contos de Calleja, com ilustrações muito coloridas, e da qual ela nunca me deixou chegar perto temendo que eu a desorganizasse. Foi minha primeira e amarga frustração de escritor.

O último quarto era um depósito de velharias e baús aposentados, que mantiveram acesa minha curiosidade durante anos, mas que nunca me deixaram explorar. Mais tarde soube que lá também estavam os setenta urinóis que meus avós compraram quando minha mãe convidou suas colegas de escola a passar férias na casa.

Diante desses dois aposentos, no mesmo corredor, estava a cozinha grande, com fogareiros primitivos de pedras calcinadas, e o grande forno a lenha da avó, padeira e doceira de ofício, cujos animaizinhos de caramelo saturavam o amanhecer com seu aroma suculento. Era o reino das mulheres que viviam ou trabalhavam na casa, e cantavam a coro com a avó enquanto a ajudavam em seus múltiplos trabalhos. Outra voz era a de Lourenço, o Magnífico, o papagaio de cem anos herdado dos bisavôs, que gritava frases contra a Espanha e cantava canções da guerra da Independência. Tão cegueta estava que tinha caído dentro do panelão de sancocho, aquele ensopado caribenho que leva o mar inteiro e mais alguma coisa, e salvou-se por milagre, porque a água só estava começando a esquentar. Num dia 20 de julho, às três da tarde, alvoroçou a casa com gritos de pânico:

— O touro, o touro! Olha o touro!

Na casa não havia ninguém além das mulheres, pois os homens tinham ido às vaquejadas da festa pátria, e elas acharam que os gritos do louro não passavam de outro dos delírios de sua demência senil. As mulheres da casa, que sabiam falar com ele, só entenderam o que o papagaio estava gritando quando um touro fugitivo que tinha escapado do curral da praça irrompeu na cozinha com bramidos de navio e avançando às cegas contra os móveis da padaria e as panelas no fogão. Eu ia em sentido contrário ao do vendaval de mulheres apavoradas que me ergueram no vazio e me trancaram com elas no quarto da despensa. Os rugidos do touro perdido na cozinha e os trancos de seus cascos no cimento do corredor estremeceram a casa. De repente ele apareceu por uma clarabóia de ventilação, e o resfolegar de fogo de seu bafo e seus grandes olhos injetados gelaram meu sangue. Quando os picadores, esses atrevidos ajudantes dos toureiros cuja função é justamente irritar o touro, conseguiram levá-lo de volta ao curral, na casa a balbúrdia já tinha começado, e se prolongou por mais de uma semana com bules intermináveis de café e pudins de casamento para acompanhar o relato mil vezes repetido e cada vez mais heróico das sobreviventes alvoroçadas.

O quintal não parecia muito grande, mas tinha uma grande variedade de árvores, um banheiro sem teto com um tanque de cimento para a água da chuva e uma plataforma elevada, que era alcançada através de uma frágil escada de uns três metros de altura. Em cima dessa plataforma ficavam os dois grandes tonéis que o avô enchia ao amanhecer com uma bomba manual. Um pouco adiante estavam a cavalariça de tábuas rústicas e os quartos de serviço, e finalmente a enorme parte dos fundos, com árvores de frutas e a latrina única onde as índias empregadas na casa esvaziavam dia e noite os urinóis domésticos. A árvore mais frondosa e hospitaleira era uma castanheira à margem do mundo e do tempo, debaixo de cujas frondes arcaicas devem ter morrido urinando vários coronéis aposentados das tantas guerras civis do século anterior.

A família tinha chegado a Aracataca dezessete anos antes do meu nascimento, quando começavam as manobras truculentas da United Fruit Company para assumir o monopólio da banana. Traziam seu filho Juan de Dios, de vinte e um anos, e suas duas filhas, Margarita María Miniata de Alacoque, de dezenove, e Luisa Santiaga, minha mãe, de cinco. Antes dela, minha avó tinha perdido duas gêmeas por um aborto acidental aos quatro meses de gestação. Quando teve minha mãe, minha avó anunciou que seria seu último parto, pois havia feito quarenta e dois anos. Quase meio século depois, à mesma idade e em circunstâncias idênticas, minha mãe disse a mesma coisa quando nasceu Eligio Gabriel, seu filho número onze.

A mudança para Aracataca estava prevista pelos avós para ser uma viagem ao esquecimento. Traziam a seu serviço dois índios guajiros — Alirio e Apolinar — e uma índia — Meme —, comprados em sua terra por cem pesos cada um quando a escravidão já tinha sido abolida. O coronel trazia tudo que era necessário para refazer o passado o mais longe possível de suas lembranças más, perseguido pelo remorso sinistro de ter matado um homem para defender a própria honra. Conhecia a região desde muito antes, quando passou por ali rumo a Ciénaga em campanha de guerra, e assistiu, na sua condição de intendente geral, à assinatura do tratado de Neerlandia.

A casa nova não lhes devolveu o sossego, porque o remorso era tão pernicioso que haveria de contaminar algum tataraneto extraviado. As recordações mais freqüentes e intensas, das quais tínhamos armado uma versão organizada, eram as contadas pela avó Mina, já cega e meio lunática. No meio do rumor implacável da tragédia iminente, porém, ela foi a única que não teve notícias do duelo até que ele foi consumado.

O drama ocorreu em Barrancas, um povoado pacífico e próspero nas fraldas da Serra Nevada, onde o coronel aprendeu com seu pai e seu avô o ofício do ouro, e onde havia regressado para ficar quando foram firmados os tratados de paz. O adversário era um gigante dezesseis anos mais moço que ele, liberal até a medula, como ele, católico militante, agricultor pobre, casado recente e com dois filhos, e com um nome de homem bom: Medardo Pacheco. O mais triste para o coronel deve ter sido enfrentar em um duelo de morte um homem que não foi nenhum dos numerosos inimigos sem rosto que atravessaram seu caminho nos campos de batalha, e sim um amigo antigo, co-partidário e seu soldado na Guerra dos Mil Dias, quando ambos acreditavam que já haviam conquistado a paz.

Foi o primeiro caso da vida real que me revolveu os instintos de escritor e que até hoje não consegui esconjurar. Desde que tive uso da razão entendi a magnitude e o peso que aquele drama tinha em nossa casa, mas seus pormenores se mantiveram entre brumas. Minha mãe, com apenas três anos, recordou-o sempre como sendo um sonho improvável. Os adultos complicavam esse sonho na minha frente para me confundir, e nunca pude armar o quebra-cabeça inteiro porque cada um, de ambos os lados, colocava as peças do seu jeito. A versão mais confiável era que a mãe de Medardo Pacheco o havia instigado para que vingasse sua honra, ofendida por um comentário infame que era atribuído ao meu avô. Meu avô desmentiu tudo, dizendo que era uma mentira absurda e prestou satisfações públicas aos ofendidos, mas Medardo Pacheco persistiu em sua obstinação e acabou passando de ofendido a ofensor com um grave insulto ao meu avô sobre sua conduta de liberal. Nunca soube ao certo qual insulto foi esse. Ferido em sua honra, meu avô desafiou-o de morte sem estabelecer dia certo.

Uma mostra exemplar da índole do coronel foi o tempo que deixou passar entre o desafio e o duelo. Organizou seus assuntos com um sigilo absoluto para garantir a segurança de sua família na única alternativa que o destino lhe preparava: a morte ou o cárcere. Começou por vender sem a menor pressa o pouco que lhe restara para subsistir depois da última guerra: a oficina de prataria e uma pequena chácara que herdou de seu pai, onde criava bodes de corte e cultivava uma parcela de cana-de-açúcar. Ao longo de seis meses guardou no fundo de um armário o dinheiro reunido, e esperou em silêncio o dia que ele mesmo tinha se determinado: 12 de outubro de 1908, aniversário do descobrimento da América.

Medardo Pacheco vivia nos arrabaldes do povoado, mas meu avô sabia que aquela tarde ele não faltaria à procissão da Virgen del Pilar. Antes de sair para encontrá-lo, meu avô escreveu à sua mulher uma carta breve e terna, na qual lhe dizia onde tinha escondido o dinheiro, e dava algumas instruções finais para o futuro dos filhos. Deixou-a debaixo do travesseiro comum, onde sem dúvida a mulher a encontraria quando se deitasse para dormir, e sem nenhum tipo de adeus saiu ao encontro de sua hora fatal.

Até mesmo as versões menos válidas afirmam que era uma segunda-feira típica do outubro caribenho, com uma chuva triste de nuvens baixas e um vento funerário. Medardo Pacheco, vestido de domingo, acabava de entrar num beco sem saída quando o coronel Márquez atalhou seu passo. Ambos estavam armados. Anos depois, em suas divagações lunáticas, minha avó costumava dizer: “Deus deu a Nicolasito a ocasião de perdoar a vida desse pobre homem, mas ele não soube aproveitá-la.” Talvez achasse isso porque o coronel disse a ela que havia visto um relâmpago de pesar nos olhos do adversário pego de surpresa. Também disse a ela que quando o enorme corpo de paineira desabou sobre o matagal, emitiu um gemido sem palavras, “como o de um gatinho molhado”. A tradição oral atribuiu a Papalelo uma frase retórica no momento de se entregar ao prefeito: “A bala da honra venceu a bala do poder.” É uma sentença fiel ao estilo liberal da época mas não consegui conciliá-la com o caráter de meu avô. Na verdade não houve testemunhas. Uma versão autorizada teriam sido os depoimentos judiciais de meu avô e de seus contemporâneos dos dois lados, mas do processo, se é que houve algum, não sobrou nem rastro. Das numerosas versões que escutei até hoje não encontrei duas que coincidissem.

O ocorrido dividiu as famílias do povoado, inclusive a do morto. Parte dessa família se dispôs a vingá-lo, enquanto outros acolheram Tranquilina Iguarán com seus filhos em suas casas, até que os riscos de uma vingança amainaram. Esses detalhes me impressionavam tanto na infância que não apenas assumi o peso da culpa ancestral como se fosse minha, mas até agora, enquanto escrevo, sinto mais compaixão pela família do morto que pela minha.

Papalelo foi transferido para Rioacha, por questões de segurança, e mais tarde para Santa Marta, onde foi condenado a um ano: metade em regime fechado, metade em regime aberto. Assim que foi solto viajou com a família por um breve tempo ao povoado de Ciénaga, depois ao Panamá, onde teve outra filha com um amor casual, e finalmente ao insalubre e arisco distrito de Aracataca, com o emprego de coletor de fazenda do departamento. Nunca mais andou armado pela rua, mesmo nos piores tempos da violência bananeira, e só manteve o revólver debaixo do travesseiro para defender a casa.

Aracataca estava muito longe de ser o remanso com o qual sonhavam depois do pesadelo de Medardo Pacheco. Tinha nascido como um casario dos índios chimila e entrou na história com o pé esquerdo como um remoto distrito sem Deus nem lei do município de Ciénaga, mais envilecido que enriquecido pela febre da banana. Seu nome não é de povoado e sim de rio, que em língua chimila é ara, e Cataca, palavra pela qual a comunidade indígena chamava quem mandava. Por isso entre os nativos não dizemos Aracataca e sim como se deve dizer: Cataca.

Quando o avô tentou entusiasmar a família com a fantasia de que por ali o dinheiro corria pelas ruas, Mina disse: “O dinheiro é o cagalhão do diabo.” Para minha mãe foi o reino de todos os terrores. O mais antigo que recordava era a praga de gafanhotos que devastou as plantações quando ela ainda era muito pequena. “Dava para ouvir passar como um vento de pedras”, me disse ela quando fomos vender a casa. A população aterrorizada teve que se entrincheirar em seus quartos, e o flagelo só foi derrotado graças a artes de bruxaria.

Éramos surpreendidos a qualquer instante por uns furacões secos que destelhavam ranchos e arremetiam contra os bananais novos e deixavam o povoado coberto por uma poeira astral. No verão, o gado era maltratado por secas terríveis, e no inverno caíam aguaceiros universais que deixavam as ruas transformadas em rios revoltos. Os engenheiros gringos navegavam em botes de borracha, no meio de colchões afogados e vacas mortas. A United Fruit Company, cujos sistemas artificiais de irrigação eram os responsáveis por aquela barafunda das águas, desviou o curso do rio quando o mais grave daqueles dilúvios desenterrou os corpos do cemitério.

A mais sinistra das pragas, em todo caso, era a humana. Um trem que parecia de brinquedo soprou em suas areias abrasadoras um vendaval de aventureiros do mundo inteiro que tomaram a mão armada o poder das ruas. Sua prosperidade desvairada trazia junto um crescimento demográfico e uma desordem social desmedidos. Estava a apenas cinco léguas da colônia penal de Buenos Aires, sobre o rio Fundación, cujos reclusos costumavam escapar nos fins de semana para brincar de terror em Aracataca. Não existia nada mais parecido com a gente do que os povoados emergentes dos filmes do Velho Oeste, desde que os ranchos de sapé e de taquara dos chimilas começaram a ser substituídos pelas casas de madeira da United Fruit Company, com telhados de zinco a duas águas, janelas de tela e pórticos adornados com trepadeiras de flores empoeiradas. No meio daquela ventania de caras desconhecidas, de toldos na rua, de homens trocando de roupa na frente de todo mundo, de mulheres sentadas em baús com as sombrinhas abertas, e de mulas e mulas e mulas morrendo de fome nas quadras do hotel, os que haviam chegado primeiro eram os últimos. Éramos os forasteiros de sempre, os aventureiros.

As matanças não aconteciam apenas por causa das brigas dos sábados. Numa tarde qualquer ouvimos gritos na rua e vimos passar um homem sem cabeça montado em um burro. Tinha sido decapitado a facão nos acertos de contas das fazendas bananeiras e a cabeça tinha sido arrastada pelas correntes geladas do arroio. Naquela noite escutei de minha avó a explicação de sempre: “Coisa tão terrível assim só pode ter sido feita por um cachaco.”

Cachacos eram os nativos do altiplano, e não só os diferenciávamos do resto da humanidade por causa de suas maneiras lânguidas e sua dicção defeituosa, mas também por causa dos ares que se davam, de emissários da Providência Divina. Essa imagem chegou a ser tão desagradável que depois das repressões ferozes das greves bananeiras pelos militares do interior, não chamávamos os homens da tropa de soldados, e sim de cachacos. Víamos aquela gente toda como os que usufruíam sozinhos do poder político, e muitos deles se comportavam como se isso fosse verdade. Só assim se explica o horror da “Noite Negra de Aracataca”, uma degolação lendária com um rastro tão incerto na memória popular que não existe evidência certa de ter realmente ocorrido.

Começou num sábado pior que os outros, quando um nativo de bem, cuja identidade não passou à história, entrou no bar pedindo um copo d’água para um menino que levava pela mão. Um forasteiro que bebia sozinho no balcão quis obrigar o menino a beber um gole de rum em vez de água. O pai tentou impedir, mas o forasteiro insistiu, até que o menino, assustado e sem querer, derramou o copo com a mão. O forasteiro, sem pestanejar, matou o garoto com um tiro só.

Foi outro dos fantasmas da minha infância. Papalelo me fazia lembrar dessa história sem parar, quando entrávamos juntos para tomar um refresco nos bares, mas contava de um modo tão irreal que nem ele mesmo parecia acreditar. Essa história deve ter acontecido pouco depois da chegada de meus avós a Aracataca, pois minha mãe só se lembrava dela por causa do espanto que provocava nos mais velhos. Do agressor só se soube que falava com o sotaque afetado dos andinos, e por isso as represálias do povoado não foram dirigidas apenas contra ele, e sim contra qualquer um dos numerosos e desagradáveis forasteiros que falavam com o mesmo sotaque. Bandos de nativos armados com facões de cortar a safra de banana lançaram-se às ruas em trevas, agarravam quem quer que encontrassem na escuridão, e ordenavam:

— Fala!

E só por causa da dicção os descabeçavam a golpes de facão, sem nem pensar na impossibilidade de serem justos entre maneiras tão diferentes de falar. Dom Rafael Quintero Ortega, marido da minha tia Wenefrida Márquez, o mais valente e querido dos cachacos, só conseguiu chegar aos quase cem anos de vida porque meu avô o trancou na despensa até que os ânimos se apaziguassem.

A desdita da família culminou depois de dois anos morando em Aracataca, com a morte de Margarita María Miniata, que era a luz da casa. Seu daguerreótipo ficou exposto na sala durante anos, e seu nome veio sendo repetido de uma geração a outra como um sinal a mais entre os muitos que havia de identidade familiar. As gerações recentes não parecem comovidas por aquela infanta de saias franzidas, botinhas brancas e uma trança longa até a cintura, e jamais conseguirão fazer essa imagem coincidir com a visão retórica de uma bisavó, mas tenho a impressão de que debaixo do peso dos remorsos e das ilusões frustradas de um mundo melhor, aquele estado de alarme perpétuo era, para meus avós, o que havia de mais semelhante com a paz. Até a morte, continuaram sentindo-se forasteiros em qualquer lugar.

E, a rigor, forasteiros eram, mas nas multidões do trem que nos chegaram vindas do mundo era difícil traçar diferenças imediatas. Com o mesmo impulso de meus avós e sua prole chegaram os Fergusson, os Durán, os Beracaza, os Daconte, os Correa, em busca de uma vida melhor. Junto com as avalanches remexidas continuaram chegando os italianos, os canários, os sírios — que chamávamos de turcos —, infiltrados pelas fronteiras da Província em busca da liberdade e de outros meios de viver que tinham perdido em suas terras. Havia gente de tudo que é tipo e condição. Alguns eram fugidos da Ilha do Diabo — a colônia penal da França nas Guianas —, mais perseguidos por suas idéias que por crimes comuns. Um deles, René Belvenoit, era um jornalista francês condenado por motivos políticos, que passou fugido pela zona bananeira e revelou num livro magistral os horrores de seu cativeiro. Graças a todos — os bons e os maus —, Aracataca foi desde suas origens um país sem fronteiras.

Mas para nós a colônia de emigrantes inesquecível foi a venezuelana, em uma de cujas casas tomavam banho de balde nas cisternas glaciais do amanhecer dois estudantes adolescentes em férias: Rómulo Betancourt e Raúl Leoni, que meio século depois seriam presidentes sucessivos de seu país. Entre os venezuelanos, a mais próxima de nós foi Juana de Freytes, uma matrona vistosa que tinha o tom bíblico da narração. O primeiro conto de verdade que conheci foi “Genoveva de Brabante”, e escutei-o contado por ela junto com as obras-primas da literatura universal, reduzidas por Juana a histórias infantis: a Odisséia, Orlando furioso, Dom Quixote, O conde de Montecristo e muitos episódios da Bíblia.

A casta do avô era uma das mais respeitáveis mas também a menos poderosa. Mesmo assim, se diferenciava das demais por uma respeitabilidade reconhecida até mesmo pela alta hierarquia nativa da companhia bananeira. Era a dos veteranos liberais das guerras civis, que ficaram por lá depois dos dois últimos tratados, com o bom exemplo do general Benjamín Herrera, em cuja fazenda de Neerlandia ouviam-se pelas tardes as valsas melancólicas de seu clarinete de paz.

Minha mãe cresceu naquele fim de mundo, e ocupou o espaço de todos os amores desde que o tifo levou Margarita María Miniata. Mamãe também era enfermiça. Havia crescido numa infância incerta de febres terçãs, mas quando teve a última curou-se de uma vez, com uma saúde que permitiu celebrar seus noventa e sete anos com onze filhos dela e outros quatro de seu marido, e com sessenta e cinco netos, oitenta e oito bisnetos e catorze tataranetos. Isso, sem contar aqueles de quem nunca se soube. Morreu de morte natural no dia 9 de junho de 2002 às oito e meia da noite, quando já estávamos nos preparando para celebrar seu primeiro século de vida, e no mesmo dia e quase que na mesma hora em que pus o ponto final nestas memórias.

Tinha nascido em Barrancas no dia 25 de julho de 1905, quando a família mal começava a se refazer do desastre das guerras. O primeiro nome que deram a ela foi em memória de Luisa Mejía Vidal, a mãe do coronel, que naquele dia fazia um mês exato da morte. O segundo saiu porque aquele era o dia do apóstolo Santiago, o Maior, decapitado em Jerusalém. Ela escondeu esse nome durante meia vida, porque achava que era masculino e pomposo, até um filho traidor a delatar num livro.

Foi uma aluna aplicada a não ser nas aulas de piano, que sua mãe impôs porque não podia conceber uma senhorita decente que não fosse também uma pianista virtuosa. Luisa Santiaga estudou piano durante três anos, só por obediência, e abandonou-o um belo dia por causa do tédio provocado pelos exercícios diários no mormaço da sesta. No entanto, a única virtude que lhe serviu na flor de seus vinte anos foi a força de sua personalidade, quando a família descobriu que estava arrebatada de amor pelo jovem e altivo telegrafista de Aracataca.

A história desses amores contrariados foi outro dos assombros da minha juventude. De tanto ouvi-la contada pelos meus pais, juntos e separados, achava que estava completa quando escrevi La hojarasca, meu primeiro romance, aos vinte e sete anos, mas também estava consciente de que ainda me faltava aprender muito sobre a arte de escrever. Os dois eram excelentes narradores, com a memória feliz do amor, mas chegaram a se apaixonar tanto em seus relatos que quando finalmente decidi usar essa memória em O amor nos tempos do cólera, eu, mesmo passado de meus cinqüenta anos, não consegui distinguir os limites entre a vida e a poesia.

Segundo a versão de minha mãe, os dois tinham se encontrado pela primeira vez no velório de um menino que nem ela nem ele conseguiram me dizer exatamente quem era. Ela estava cantando no pátio com suas amigas, de acordo com o costume popular de superar com canções de amor as nove noites dos inocentes. De repente, uma voz de homem se juntou ao coro. Todas se viraram para olhá-lo e ficaram perplexas com a sua boa pinta. “Vamos nos casar com ele”, cantaram em estribilho ao compasso das palmas. Minha mãe não se deixou impressionar, e disse: “Achei que era um forasteiro a mais.” E era. Acabava de chegar de Cartagena das Índias, depois de interromper os estudos de medicina e farmácia por falta de recursos, e tinha dado início a uma vida um tanto trivial por várias localidades da região, com o ofício recente de telegrafista. Uma foto daqueles dias mostra-o com o ar enganoso de senhorito pobre. Usava um terno de tafetá escuro com um paletó jaquetão de quatro botões, muito justo, conforme a moda da época, com colarinho duro, gravata larga e um chapéu canotié, de palha e copa achatada, tal como mandava a elegância. Usava, além disso, uns óculos modernosos, redondos e de armação fina, e em vez de lentes, vidros naturais. Quem o conheceu naquela época dizia que era um boêmio noturno e mulherengo, que ainda assim jamais bebeu um gole de álcool nem fumou um único cigarro em sua longa vida.

Foi a primeira vez que minha mãe o viu. Em compensação, ele a havia visto na missa das oito do domingo anterior, custodiada pela tia Francisca Simodosea, que foi sua dama de companhia desde que ela voltou do colégio. Tinha tornado a vê-la na terça-feira seguinte, costurando debaixo da amendoeira na porta de casa, e portanto na noite do velório já sabia que era filha do coronel Nicolás Márquez, para quem trazia várias cartas de recomendação. Também ela ficou sabendo que ele era solteiro e namorador, e que tinha êxito imediato por causa de sua lábia inesgotável, sua versificação fácil, a graça com que dançava as músicas que estavam na moda e o sentimentalismo premeditado com que tocava o violino. Minha mãe me contava que quando alguém ouvia aquele violino de madrugada não conseguia resistir à vontade de chorar. Seu cartão de visitas na sociedade tinha sido “Quando o baile acabou”, uma valsa de um romantismo esgotador que ele trouxe em seu repertório e se tornou indispensável nas serenatas. Estes salvo-condutos cordiais e sua simpatia pessoal abriram-lhe as portas da casa e um lugar freqüente nos almoços familiares. A tia Francisca, nascida em Carmen de Bolívar, adotou-o sem reservas quando soube que ele tinha nascido em Sincé, um povoado próximo ao dela. Nas festas sociais Luisa Santiaga divertia-se com suas artimanhas de sedutor, mas nunca lhe passou pela cabeça que ele pretendesse algo além disso. Ao contrário: suas boas relações fincaram-se sobretudo em que ela lhe servia de proteção e disfarce em seus amores escondidos com uma companheira de colégio, e tinha até mesmo aceito ser sua madrinha de casamento. A partir de então, ele a chamava de madrinha e ela o chamava de afilhado. Nesse tom é fácil imaginar qual foi o tamanho da surpresa de Luisa Santiaga numa noite de baile em que o telegrafista atrevido tirou a flor que levava na lapela e disse a ela:

— Com esta rosa eu lhe entrego a minha vida.

Não foi de improviso, disse-me ele muitas vezes, e sim porque depois de conhecer todas as outras havia chegado à conclusão de que Luisa Santiaga tinha sido feita para ele. Ela entendeu a rosa como mais uma das brincadeiras galantes que ele costumava fazer às suas amigas. Tanto assim que ao sair deixou-a esquecida num canto qualquer, e ele percebeu. Ela tinha tido apenas um pretendente secreto, poeta sem sorte e bom amigo, que nunca conseguiu chegar ao seu coração com seus versos ardentes. A rosa de Gabriel Eligio, porém, perturbou seu sono com uma fúria inexplicável. Em nossa primeira conversa formal sobre seus amores, já carregada de filhos, me confessou: “Não conseguia dormir de raiva por estar pensando nele, mas o que mais raiva me dava era que enquanto mais raiva sentia, mais pensava.” No resto da semana, a duras penas resistiu ao terror de vê-lo e ao tormento de não poder vê-lo. De madrinha e afilhado que tinham sido passaram a tratar-se como desconhecidos. Numa daquelas tardes, enquanto bordavam debaixo das amendoeiras, a tia Francisca provocou a sobrinha com sua malícia de índio:

— Alguém me disse que alguém te deu uma rosa.

Pois, como costuma acontecer, Luisa Santiaga seria a última a saber que as tormentas do seu coração já eram de domínio público. Nas numerosas conversas que mantive com ela e com meu pai, os dois concordaram que o amor fulminante teve três momentos decisivos. O primeiro foi num Domingo de Ramos, na missa maior. Ela estava sentada com a tia Francisca num banco ao lado da Epístola, quando reconheceu os passos de seus saltos flamencos nos tijolos do chão e viu-o passar tão perto que recebeu uma brisa morna de sua loção de namorado. A tia Francisca não parecia tê-lo visto e ele tampouco pareceu tê-las visto. Mas na verdade tudo foi premeditado por ele, que as havia seguido quando passaram pelo posto do telégrafo. Ficou de pé ao lado da coluna mais próxima da porta, de maneira que podia vê-la de costas mas ela não podia vê-lo. Após alguns minutos intensos Luisa Santiaga não agüentou a ansiedade, e olhou por cima do ombro para a porta. Então achou que ia morrer de raiva, pois ele estava olhando para ela e seus olhares se encontraram. “Era exatamente o que eu tinha planejado”, dizia meu pai feliz quando me repetia a história em sua velhice. Minha mãe, porém, nunca se cansou de repetir que durante três dias não conseguiu dominar a fúria por ter caído na armadilha.

O segundo momento foi uma carta que ele escreveu a ela. Não seria a que ela poderia esperar de um poeta e violinista de madrugadas furtivas, mas uma missiva imperiosa, que exigia uma resposta antes que ele viajasse a Santa Marta na semana seguinte. Ela não respondeu. Trancou-se no quarto, decidida a matar o micróbio que não lhe deixava ter fôlego para viver, até que a tia Francisca tratou de convencê-la a capitular de uma vez antes que fosse tarde demais. Tentando vencer sua resistência, contou a ela a história exemplar de Juventino Trillo, o pretendente que montava guarda debaixo do balcão de sua amada impossível, cada noite, das sete às dez. Ela agrediu-o com todos os desaforos que lhe ocorreram, e acabou por esvaziar do balcão em cima dele, noite após noite, o urinol com suas urinas. Mas não conseguiu espantá-lo. Após todo tipo de agressões batismais — e comovida pela abnegação daquele amor invencível — casou-se com ele. A história dos meus pais não chegou a esses extremos.

O terceiro momento do assédio ocorreu num casamento do mais alto gabarito, ao qual ambos tinham sido convidados na condição de padrinhos de honra. Luisa Santiaga não conseguiu encontrar pretexto para faltar a um compromisso tão próximo à sua família. Acontece que Gabriel Eligio tinha pensado exatamente a mesma coisa e foi à festa disposto a tudo. Ela não conseguiu dominar seu coração quando o viu atravessar a sala com uma determinação demasiado visível e convidou-a a dançar a primeira dança. “O sangue batia tão forte dentro de mim que eu já nem sabia mais se era de raiva ou de susto”, ela me disse. Ele percebeu o que acontecia e desfechou seu bote brutal: “Você não precisa mais me dizer que sim, porque seu coração já está dizendo.”

Ela, sem mais delongas, no meio da dança deixou-o plantado no meio do salão. Mas meu pai entendeu tudo à sua maneira.

— Fiquei feliz — me contou.

Luisa Santiaga não conseguiu resistir ao rancor que sentia contra si mesma quando naquela madrugada foi despertada pelo requebrar de uma valsa envenenada: “Quando o baile acabou”. No dia seguinte, e na primeira hora, ela devolveu a Gabriel Eligio todos os seus presentes. O desaforo desmerecido e o falatório provocado pelo plantão dado a ele na festa de casamento foram feito plumas ao vento: não tinham volta. Todo mundo deu por fato consumado que era o final sem pena nem glória de uma tormenta de verão. Essa impressão foi fortalecida porque Luisa Santiaga sofreu uma recaída nas febres terçãs da infância e sua mãe levou-a para se recuperar no povoado de Manaure, um recanto paradisíaco no sopé da Serra Nevada. Os dois sempre negaram ter tido qualquer tipo de comunicação durante aqueles meses, mas não dá para acreditar muito, pois quando ela regressou refeita de seus males os dois também pareciam repostos de seus desassossegos. Meu pai dizia que foi esperá-la na estação porque tinha lido o telegrama em que Mina anunciava seu regresso, e na forma em que Luisa Santiaga apertou sua mão ao cumprimentá-lo sentiu algo assim como um sinal maçônico, que interpretou como sendo uma mensagem de amor. Ela negou sempre com o pudor e o rubor com que recordava aqueles anos. Mas a verdade é que desde então os dois foram vistos juntos com menos reticências. Só faltava o final, que foi dado pela tia Francisca na semana seguinte, enquanto costuravam no corredor das begônias:

— Mina já está sabendo.

Luisa Santiaga sempre disse que foi a oposição da família o que fez que se rompessem os diques da torrente que ela levava reprimida no coração desde a noite em que deixou seu pretendente plantado no meio do baile. Foi uma guerra encarniçada. O coronel tentou se manter à margem, mas não conseguiu evitar a culpa que Mina jogou-lhe na cara quando percebeu que ele tampouco era tão inocente como aparentava. Para todo mundo estava claro que a intolerância não era tanto dele quanto dela, quando na verdade essa intolerância estava inserida no código da tribo, que determinava que qualquer namorado era um intruso. Este preconceito atávico, cujos rescaldos perduram, fez de nós uma vasta irmandade de mulheres solteiras e homens desembestados com numerosos filhos fora de casa.

Os amigos se dividiam conforme a idade, a favor ou contra os namorados, e aos que não tinham uma posição radical foram impostos os fatos. Os jovens tornaram-se cúmplices jubilosos. Principalmente dele, que desfrutou ao seu bel-prazer a condição de vítima provocadora dos preconceitos sociais. Já a maioria dos adultos viam Luisa Santiaga como a prenda mais preciosa de uma família rica e poderosa, pretendida por um telegrafista forasteiro, mais por interesse que por amor. Ela própria, de obediente e submissa que tinha sido, enfrentou os seus opositores com uma ferocidade de leoa parida. Na mais ácida das muitas brigas domésticas, Mina perdeu as estribeiras e ergueu contra a filha a faca da padaria. Luisa Santiaga enfrentou-a impávida. Ao perceber de repente o ímpeto criminoso de sua cólera, Mina soltou a faca e gritou espantada: “Deus do céu!” E pôs a mão nas brasas do fogão como uma penitência brutal.

Entre os argumentos fortes contra Gabriel Eligio estava sua condição de filho natural de uma solteira que o havia parido na módica idade de catorze anos após um tropeço com um mestre-escola. Chamava-se Argemira García Paternina, uma branca esbelta de espírito livre, que teve outros cinco filhos e duas filhas de três pais diferentes com os quais nunca se casou nem conviveu debaixo do mesmo teto. Vivia no povoado de Sincé, onde tinha nascido, e estava criando sua prole com garra e um espírito independente e alegre que nós, seus netos, bem que gostaríamos de ter para um Domingo de Ramos. Gabriel Eligio era um exemplar distinto daquela estirpe descamisada. Desde os dezessete anos tinha tido cinco amantes virgens, segundo revelou a minha mãe como um ato de penitência em sua noite de núpcias a bordo da escuna funesta de Rioacha estapeada pela borrasca. Confessou que com uma delas, sendo telegrafista na aldeia de Achí, aos dezoito anos, tinha tido um filho, Abelardo, que ia fazer três anos. Com outra, quando era telegrafista de Ayapel, aos vinte anos, tinha uma filha de meses, que ele não conhecia e que se chamava Carmen Rosa. Tinha prometido à mãe da menina voltar para casar, e mantinha vivo o compromisso quando o rumo de sua vida desguiou por causa do amor de Luisa Santiaga. Tinha reconhecido o filho mais velho diante de um tabelião, e mais tarde faria a mesma coisa com a filha, mas tudo isso não passava de formalidades bizantinas sem conseqüência alguma perante a lei. É surpreendente que aquela conduta irregular pudesse causar inquietações morais ao coronel Márquez, que além de seus três filhos legítimos teve outros nove de diferentes mães, antes e depois do casamento, e todos eram recebidos por sua esposa como se fossem dela.

Não consigo determinar quando tive as primeiras notícias destes fatos, mas em todo caso as transgressões dos antepassados não me importavam coisa alguma. Em compensação, os nomes da família chamavam a minha atenção porque eu os achava únicos. Primeiro, os da linha materna: Tranquilina, Wenefrida, Francisca Simodosea. Mais tarde, o de minha avó paterna: Argemira, e os de seus pais: Lozana e Aminadab. Talvez venha daí minha crença firme de que os personagens de meus livros não caminham com seus próprios pés antes de terem um nome que se identifique com seu modo de ser.

As razões contra Gabriel Eligio se agravaram por ser ele um membro ativo do Partido Conservador, contra o qual o coronel Nicolás Márquez tinha lutado suas guerras. A paz tinha sido feita mas só em parte desde as assinaturas dos tratados de Neerlandia e Wisconsin, pois o centralismo de raiz continuava no poder e haveria de passar muito tempo antes que conservadores e liberais deixassem de mostrar os dentes uns aos outros. Ser do Partido Conservador, no caso do pretendente, talvez se devesse mais ao contágio familiar que à convicção doutrinária, mas isso era levado em conta por cima de outros sinais de sua boa índole, como sua inteligência sempre alerta e sua comprovada honradez.

Papai era um homem difícil de ser vislumbrado e agradado. Sempre foi muito mais pobre do que parecia e teve a pobreza como um inimigo abominável diante do qual nunca se resignou, e que jamais conseguiu derrotar. Com a mesma coragem e a mesma dignidade suportou a contrariedade de seus amores com Luisa Santiaga nos fundos da agência dos telégrafos de Aracataca, onde sempre teve dependurada uma rede para dormir sozinho. Também tinha ao seu lado, para o que desse e viesse naquelas noites, um catre de solteiro com as molas bem lubrificadas. Numa época tive uma certa tentação por seus hábitos de caçador furtivo, mas a vida me ensinou que é a forma mais árida da solidão, e senti uma grande compaixão por ele.

Até bem pouco antes de sua morte, ouvi-o contar que num daqueles dias difíceis ele precisou ir com vários amigos à casa do coronel, e todos foram convidados a se sentar, menos ele. A família dela sempre negou esse fato, e atribuiu-o a um rescaldo do ressentimento de meu pai, ou pelo menos a uma falsa lembrança, mas minha avó deixou a verdade escapar certa vez nos desvarios cantados de seus quase cem anos, que não pareciam estar sendo lembrados, mas vividos outra vez.

— Aí está o coitado desse homem parado na porta da sala e Nicolasito não o convidou a sentar-se — disse, dolorida de verdade.

Esperando sempre de suas revelações alucinantes, perguntei quem era o homem, e ela me respondeu às secas:

— García, o do violino.

No meio de tantos despropósitos, aconteceu a coisa menos parecida à maneira de ser de meu pai: ele comprou um revólver para o que pudesse acontecer com um guerreiro em repouso como o coronel Márquez. Era um venerável Smith & Wesson calibre 38 cano longo, sabe-se lá com quantos donos anteriores e com quantos mortos nas costas. A única coisa certa é que ele nunca disparou o revólver nem mesmo por precaução ou curiosidade. Nós, seus filhos mais velhos, anos depois encontramos o revólver com suas cinco balas originais num armário de tralhas inúteis, junto com o violino de suas serenatas.

Nem Gabriel Eligio nem Luisa Santiaga se deixaram amedrontar pelo rigor da família. No começo conseguiam se encontrar às escondidas em casas de amigos, mas quando o cerco se fechou ao redor dela, o único contato foram as cartas recebidas e enviadas por vias e métodos engenhosos. Os dois se viam de longe quando a família dela não deixava que fosse a festas a que ele também tivesse sido convidado. Mas a repressão chegou a ser tão severa que ninguém se atreveu a desafiar as iras de Tranquilina Iguarán, e os dois namorados sumiram da vista pública. Quando não sobrou nenhum resquício nem para as cartas furtivas, os namorados inventaram recursos de náufragos. Ela conseguiu esconder um cartão de felicitações num pudim que alguém tinha encomendado para o aniversário de Gabriel Eligio, e ele não perdeu a oportunidade de mandar-lhe telegramas falsos e inócuos com a verdadeira mensagem cifrada ou escrita com tinta invisível. A cumplicidade da tia Francisca tornou-se tão evidente naquela altura, apesar de seus desmentidos terminantes, que afetou pela primeira vez sua autoridade na casa, e só lhe permitiram acompanhar a sobrinha quando fossem bordar à sombra das amendoeiras. Então Gabriel Eligio mandava mensagens de amor da janela do doutor Alfredo Barboza, na calçada em frente, com a telegrafia manual dos surdos-mudos. Ela aprendeu-a tão bem que nos descuidos da tia conseguia conversas íntimas com o namorado. Era só um dos numerosos truques inventados por Adriana Berdugo, comadre de sacramento de Luisa Santiaga e sua cúmplice mais criativa e audaz.

Aqueles arranjos de consolo teriam bastado para que os dois sobrevivessem a fogo lento, até Gabriel Eligio receber uma carta alarmante de Luisa Santiaga, que o obrigou a uma reflexão definitiva. Tinha sido escrita às pressas em papel higiênico, com a má notícia de que seus pais tinham resolvido levá-la a Barrancas, de povoado em povoado, como um remédio brutal para seu mal de amores. Não seria a viagem comum de uma noite ruim na escuna de Rioacha, mas pelo caminho bárbaro dos sopés da Serra Nevada em mulas e carretas, através da vasta província de Padilla.

“Teria preferido morrer”, me disse minha mãe no dia em que fomos vender a casa. E tinha tentado de verdade, encerrada com tranca em seu quarto, a pão e água durante três dias, até que o terror reverencial que sentia pelo pai se impôs. Gabriel Eligio percebeu então que a tensão havia chegado aos seus limites, e tomou uma decisão extrema porém debaixo de seu controle. Atravessou a rua a passos largos, da casa do doutor Barboza até a sombra das amendoeiras, e plantou-se na frente das duas mulheres, que o esperaram apavoradas com seus bordados no regaço.

— Faça-me o favor de me deixar a sós um momento com a senhorita — disse à tia Francisca. — Tenho uma coisa importante para dizer a ela e a ninguém mais.

— Atrevido! — replicou a tia. — Não existe nada dela que eu não possa ouvir.

— Então eu não digo — disse ele —, mas vou logo avisando que a senhora será a responsável pelo que acontecer.

Luisa Santiaga suplicou à tia que os deixasse sozinhos, e assumiu o risco. Então Gabriel Eligio expressou sua aprovação para que ela fizesse a viagem com os pais, na forma e pelo tempo que fosse, mas com a condição de que prometesse sob a seriedade do juramento que se casaria com ele. Ela concordou e acrescentou por sua conta e risco que só a morte poderia impedir que aquilo acontecesse.

Os dois tiveram quase um ano para demonstrar a seriedade de suas promessas, mas nem um nem outro imaginaram o quanto isto iria custar-lhes. A primeira parte da viagem numa caravana de arrieiros durou duas semanas a lombo de mula pelos beirais da Serra Nevada. Chon — diminutivo afetuoso de Encarnación —, a criada de Wenefrida, que se incorporou à família desde que foram embora de Barrancas, os acompanhava. O coronel conhecia de sobra aquela rota escarpada, onde havia deixado um rastro de filhos nas noites dispersas de suas guerras, mas sua esposa havia escolhido aquele trajeto sem conhecê-lo, por causa das más lembranças da viagem na escuna. Para minha mãe, que além de tudo montava uma mula pela primeira vez, foi um pesadelo de sóis desnudos e aguaceiros ferozes, com a alma por um fio graças aos nevoeiros adormecedores dos precipícios. Pensar num namorado incerto, com seus trajes de meia-noite e o violino da madrugada, parecia um deboche da imaginação. No quarto dia, incapaz de sobreviver, ameaçou a mãe com atirar-se ao precipício se não voltassem para casa. Mina, mais assustada que ela, decidiu tudo. Mas o guia da caravana demonstrou no mapa que tanto fazia regressar ou prosseguir. O alívio chegou depois de onze dias, quando divisaram, do último beiral da serra, a planície radiante de Valledupar.

Antes que a primeira etapa chegasse ao seu fim, Gabriel Eligio tinha assegurado uma comunicação permanente com a namorada erradia, graças à cumplicidade dos telegrafistas dos sete povoados por onde ela e sua mãe iriam passar antes de chegar a Barrancas. Luisa Santiaga também fez das suas. A província inteira estava infestada de Iguaranes e Cotes, cuja consciência de casta tinha o poder de um emaranhado impenetrável, e ela conseguiu colocar esse emaranhado do seu lado. Isto permitiu que ela mantivesse a partir de Valledupar, onde permaneceu três meses, uma correspondência febril com Gabriel Eligio, até o final da viagem, quase um ano depois. Bastava passar pelo posto de telégrafo de cada povoado ou aldeia, com a cumplicidade de uma parentela jovem e entusiasta, para receber e responder mensagens. Chon, a sigilosa, desempenhou um papel incalculável, porque carregava as mensagens entre seus trapos sem inquietar Luisa Santiaga nem ferir seu pudor, porque não sabia ler nem escrever e seria capaz de se deixar matar por um segredo.

Quase sessenta anos mais tarde, quando eu tentava saquear essas lembranças para O amor nos tempos do cólera, meu quinto romance, perguntei a meu pai se na gíria dos telegrafistas havia alguma palavra específica para o ato de comunicar um posto de telégrafo a outro. Ele não precisou pensar duas vezes: encravelhar. A palavra está nos dicionários, não para o uso específico que me fazia falta, mas me pareceu perfeita para as minhas dúvidas, pois a comunicação com os diferentes postos estabelecia-se através de uma chave num tabuleiro de terminais telegráficos. Nunca comentei isso com meu pai. No entanto, pouco antes de sua morte perguntaram a ele, numa entrevista, se alguma vez quis escrever um romance, e ele respondeu que sim, mas que tinha desistido quando lhe fiz a consulta sobre o verbo encravelhar porque então descobriu que o livro que eu estava escrevendo era o mesmo que ele pensava escrever.

Naquela ocasião papai recordou, além disso, um dado oculto que poderia ter mudado o rumo de nossas vidas. E foi que aos seis meses de viagem, quando minha mãe estava em San Juan del César, chegou a Gabriel Eligio o sopro confidencial de que Mina levava a missão de preparar o regresso definitivo da família a Barrancas, uma vez cicatrizados os rancores pela morte de Medardo Pacheco. Achou absurdo, e ainda mais quando os tempos ruins tinham ficado para trás e o império absoluto da companhia bananeira começava a parecer o sonho da terra prometida. Mas também era razoável que a teimosia dos Márquez Iguarán os levasse a sacrificar a própria felicidade só para livrar a filha das garras do gavião. A decisão imediata de Gabriel Eligio foi solicitar sua transferência para o posto de telégrafo de Rioacha, a umas vinte léguas de Barrancas. Não estava disponível mas prometeram anotar sua solicitação.

Luisa Santiaga não teve como averiguar as intenções secretas de sua mãe, mas tampouco se atreveu a negá-las, porque tinha reparado — e muito — que quanto mais se aproximavam de Barrancas, mais suspirante e sossegada sua mãe parecia. Chon, confidente de todos, tampouco lhe deu pista alguma. Para arrancar verdades, Luisa Santiaga disse à mãe que adoraria ficar morando em Barrancas. A mãe teve um instante de vacilação mas não se decidiu a dizer nada, e a filha ficou com a impressão de ter passado muito perto do segredo. Inquieta, soltou-se ao acaso das cartas com uma cigana de rua que não lhe deu nenhuma pista sobre seu futuro em Barrancas. Mas em compensação, anunciou que não haveria obstáculo algum para uma vida longa e feliz com um homem que ela mal conhecia, mas que iria amá-la até a morte. A descrição que a cigana fez desse homem devolveu a alma ao corpo da minha mãe, porque encontrou traços comuns com seu noivo, principalmente em relação ao seu modo de ser. Para terminar, anunciou sem sombra de dúvidas que ela teria seis filhos com ele. “Morri de medo”, me disse minha mãe na primeira vez que me contou sem nem imaginar que seus filhos seriam cinco a mais. Os dois encararam a previsão com tamanho entusiasmo, que a correspondência telegráfica deixou então de ser um concerto de intenções ilusórias e se tornou metódica e prática, e mais intensa que nunca. Marcaram datas, estabeleceram maneiras e empenharam suas vidas na determinação comum de se casarem sem consultar ninguém, onde fosse e como fosse, quando tornassem a se encontrar.

Luisa Santiaga foi tão fiel ao compromisso que no povoado de Fonseca não achou que fosse correto ir a um baile de gala sem o consentimento do agora noivo. Gabriel Eligio estava na rede suando uma febre de quarenta graus quando soou o sinal de um enlace telegráfico urgente. Era seu colega de Fonseca. Para segurança completa ela perguntou quem estava operando o aparelho no final da cadeia. Mais atônito que lisonjeado, o noivo transmitiu uma frase de identificação: “Diga a ela que sou o seu afilhado.” Minha mãe reconheceu a senha e a contra-senha, e ficou no baile até as sete da manhã, quando precisou trocar de roupa voando para não chegar tarde na missa.

Em Barrancas não encontraram o menor rastro de má-vontade contra a família. Ao contrário, entre os próximos a Medardo Pacheco prevalecia um espírito cristão de perdão e esquecimento dezessete anos depois da desgraça. A recepção da parentela foi tão cálida que então foi Luisa Santiaga quem pensou na possibilidade de que a família regressasse para aquele remanso da serra tão diferente do calor e do pó, e dos sábados sangrentos e dos fantasmas decapitados de Aracataca. Chegou a insinuar o assunto para Gabriel Eligio, desde que ele conseguisse a transferência para Rioacha, e ele concordou. No entanto, naqueles dias se soube finalmente que a versão da mudança carecia de fundamento, e que Mina era quem menos queria mudar. Assim ficou registrado numa carta de resposta que ela mandou ao seu filho Juan de Dios, quando ele escreveu a ela atemorizado de que voltassem a Barrancas quando ainda não tinham se passado vinte anos da morte de Medardo Pacheco. Ele sempre esteve tão convencido do fatalismo da lei do campo, que se opôs a que seu filho Eduardo fizesse o serviço de medicina social em Barrancas meio século mais tarde.

Contra todos os temores, foi ali onde em três dias os nós da situação foram desatados. Na mesma terça-feira em que Luisa Santiaga confirmou a Gabriel Eligio que Mina já não pensava em mudar para Barrancas, ele recebeu a notícia de que o posto de telégrafo de Rioacha estava à sua disposição, graças à morte repentina do titular. No dia seguinte, Mina esvaziou as gavetas da despensa procurando as tesouras de trinchar e destapou sem necessidade a caixa de biscoitos ingleses onde a filha escondia seus telegramas de amor. Foi tamanha a sua raiva que só conseguiu dizer um dos impropérios célebres que costumava improvisar em seus momentos ruins: “Deus tudo perdoa, menos a desobediência.” Naquele fim de semana viajaram para Rioacha para apanhar no domingo a escuna para Santa Marta. Nenhuma das duas teve consciência da noite terrível sacudida pelo vendaval de fevereiro: a mãe aniquilada pela derrota, e a filha assustada mas feliz.

A terra firme devolveu a Mina a serenidade perdida pela descoberta das cartas. No dia seguinte continuou sozinha a viagem para Aracataca, e deixou Luisa Santiaga em Santa Marta ao amparo de seu filho Juan de Dios, na certeza de deixá-la a salvo dos demônios do amor. Aconteceu o contrário: Gabriel Eligio passou a viajar de Aracataca a Santa Marta para vê-la sempre que podia. Tio Juanito, que sofreu a mesma intransigência de seus pais em seus amores com Dilia Caballero, havia resolvido não tomar partido nos amores de sua irmã, mas na hora da verdade encontrou-se emparedado entre a adoração por Luisa Santiaga e a veneração pelos pais, e se refugiou numa fórmula típica de sua bondade proverbial: os namorados podiam se encontrar fora de sua casa, mas nunca a sós e sem que ele fosse informado. Dilia Caballero, sua esposa, que perdoava mas não esquecia, armou para sua cunhada as mesmas casualidades infalíveis e as artimanhas perfeitas que tinha usado para driblar a vigilância de seus sogros. Gabriel e Luisa começaram a se encontrar na casa de amigos, mas pouco a pouco foram se arriscando em lugares públicos menos freqüentados. Enfim se atreviam a conversar pela janela quando tio Juanito não estava, a noiva na sala e o noivo na rua, fiéis ao compromisso de não se encontrarem dentro da casa. A janela parecia feita de propósito para amores contrariados, através de uma grade andaluza de corpo inteiro e com moldura de trepadeiras, onde não costumava faltar um ar de jasmins no torpor da noite. Dilia tinha previsto tudo, inclusive a cumplicidade de alguns vizinhos com assovios em código para avisar os noivos de algum perigo iminente. Mesmo assim, certa noite falharam todos os sistemas, e Juan de Dios rendeu-se diante da verdade. Dilia aproveitou a ocasião para convidar os noivos para se sentarem na sala, com as janelas abertas, para compartilhar seu amor com o mundo. Minha mãe nunca esqueceu o suspiro do irmão: “Que alívio!”

Naqueles dias Gabriel Eligio recebeu a nomeação formal para o posto de telégrafo de Rioacha. Inquieta por uma nova separação, minha mãe então apelou a monsenhor Pedro Espejo, vigário da diocese, com a esperança de que ele a casasse mesmo sem a permissão de seus pais. A respeitabilidade do monsenhor tinha alcançado tanta força que muitos fiéis o confundiam com a santidade, e alguns iam às suas missas só para comprovar se era verdade que ele se erguia vários centímetros sobre o nível do chão no momento da Elevação. Quando Luisa Santiaga solicitou sua ajuda, ele deu outra mostra a mais de que a inteligência é um dos privilégios da santidade. Negou-se a intervir no foro interno de uma família tão zelosa de sua intimidade, mas optou pela alternativa secreta de informar-se sobre a de meu pai através da cúria. O pároco de Sincé passou por cima das liberalidades de Argemira García, e respondeu com uma fórmula benévola: “Trata-se de uma família respeitável, embora pouco devota.” Monsenhor conversou então com os noivos, juntos e separados, e escreveu uma carta a Nicolás e Tranquilina expressando sua certeza emocionada de que não havia poder humano capaz de derrotar aquele amor empedernido. Meus avós, vencidos pelo poder de Deus, concordaram em virar a dolorosa página e outorgaram a Juan de Dios plenos poderes para organizar o casamento em Santa Marta. Só que eles não foram: mandaram como madrinha Francisca Simodosea.

Casaram-se no dia 11 de junho de 1926 na catedral de Santa Marta, com quarenta minutos de atraso porque a noiva esqueceu a data e tiveram que despertá-la às oito e tanto da manhã. Naquela mesma noite abordaram uma vez mais a escuna pavorosa para que Gabriel Eligio assumisse o posto de telegrafista em Rioacha e passaram sua primeira noite em plena castidade, derrotados pelo mareio.

Minha mãe sentia tanta saudade da casa onde passou a lua-de-mel, que os filhos mais velhos podíamos descrevê-la cômodo por cômodo, como se tivéssemos morado nela, e até hoje essa casa continua sendo uma de minhas falsas lembranças. E no entanto, na primeira vez que fui de verdade à península de La Guajira, pouco antes dos meus sessenta anos, me surpreendeu ver que a casa do telegrafista não tinha nada a ver com a das minhas recordações. E a Rioacha idílica que desde menino eu levava no coração, com suas ruas de salitre que desciam até um mar de lodo, não eram outra coisa além de sonhos emprestados pelos meus avós. E mais: agora, que conheço Rioacha, não consigo visualizá-la tal como é, e sim como eu a havia construído pedra por pedra na minha imaginação.

Dois meses depois do casório, Juan de Dios recebeu um telegrama de meu pai com o anúncio de que Luisa Santiaga estava grávida. A notícia estremeceu até os alicerces da casa de Aracataca, onde Mina ainda não tinha se recuperado de sua amargura, e tanto ela como o coronel depuseram suas armas para que os recém-casados voltassem para lá. Não foi fácil. Após uma resistência digna, serena e justificada de vários meses, Gabriel Eligio enfim aceitou que a esposa desse à luz na casa dos pais.

Pouco depois foi recebido por meu avô na estação do trem, com uma frase que ficou feito um marco de ouro no prontuário histórico familiar: “Estou disposto a prestar-lhe todas as satisfações que sejam necessárias.” A avó renovou a alcova que até então tinha sido dela, e ali instalou meus pais. No decorrer de um ano, Gabriel Eligio renunciou ao seu bom ofício de telegrafista e consagrou seu talento autodidata a uma ciência decadente: a homeopatia. Meu avô, por gratidão ou por remorso, trabalhou para que as autoridades dessem à rua onde morávamos em Aracataca o mesmo nome que tem até hoje: Monsenhor Espejo.

Foi assim e ali que nasceu o primeiro de sete varões e quatro mulheres, no domingo 6 de março de 1927, às nove da manhã e com um aguaceiro torrencial fora de época, enquanto o céu de Touro erguia-se no horizonte. Estava a ponto de ser estrangulado pelo cordão umbilical, pois a parteira da família, Santos Villero, perdeu o domínio de sua arte no pior momento. Mais controle ainda perdeu a tia Francisca, que correu até a porta da rua dando gritos de incêndio:

— É menino, é menino! — e em seguida, como num pregão de angústia: — Tragam rum, que ele está sufocando!

A família supõe que o rum não era para celebrar e sim para reanimar o recém-nascido com fricções. Misia Juana de Freytes, que fez sua entrada providencial na alcova, me contou muitas vezes que o risco mais grave não era o cordão umbilical, e sim a má posição de minha mãe na cama. Ela corrigiu essa posição a tempo, mas não foi fácil me reanimar, e por isso tia Francisca jogou em mim a água batismal de emergência. Eu devia me chamar Olegário, que era o santo do dia, mas ninguém tinha à mão um santoral, e por isso me puseram de urgência o primeiro nome de meu pai seguido pelo de José, o carpinteiro, por ser o patrono de Aracataca e por estarmos em seu mês de março. Misia Juana de Freytes propôs um terceiro nome em memória da reconciliação geral que se conseguia entre famílias e amigos com a minha chegada ao mundo, mas na certidão de batismo que fizeram três anos depois esqueceram-se de pôr esse terceiro nome: Gabriel José de la Concordia.

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