Trecho do Livro: O Conto do Amor | Contardo Calligaris

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Fazia doze anos que meu pai estava morto, e eu sentia sua falta.

Não era nenhuma novidade: tínhamos passado décadas sentindo a falta um do outro.

Duas ou três vezes por ano, desde que eu saíra de casa, aos dezoito, ele me chamava e dizia só isto: “Preciso falar com você”. Eu, morando longe, dava um jeito de pegar um trem ou um avião para passar o fim de semana com eles, lá em casa.

Eu contava minhas notícias, e eles contavam as deles. A gente conversava sábado e domingo inteiros.

A gente é modo de dizer. Na verdade, quem falava éramos minha mãe e eu. Meu pai sentava à escrivaninha que, como ele tinha exigido, ficava num canto da sala de estar (que, por sorte, era espaçosa). De vez em quando, ele levantava a cabeça, baixava os óculos, sorria e intervinha na conversa com uma palavra ou duas. Logo voltava a seus livros, notas e arquivos.

No fim da minha estadia, ele me levava para a estação ou para o aeroporto. No momento do adeus, beijava meu rosto, me abraçava forte e, invariavelmente, murmurava em meu ouvido: “Pena, não tivemos tempo para falar”.

Ele sempre tinha sido assim. Na minha lembrança, mesmo quando a família recebia alguns hóspedes, meu pai oferecia sua presença, mas como uma espécie de aceno que vinha de longe, de um outro mundo que era a sua paixão exclusiva: a pintura da Renascença italiana.

Minha mãe, às vezes, depois do jantar, cantava ou tocava piano para os convidados. Outras vezes, meu irmão e eu recebíamos, em público, aulas básicas de dança de salão. Havia ocasiões em que todos os presentes debatiam com fervor as eleições decisivas daquele ano, a ameaça nuclear, a guerra da Coréia, a invasão de Suez, o que fosse, enquanto o meu pai ficava debruçado sobre a sua escrivaninha, pensando e escrevendo considerações sobre a recente atribuição do fragmento de um tríptico de altar a algum pintor menor do século XVI.

Um mês antes de sua morte, quando minha mãe já tinha nos deixado e ele expressara abertamente o desejo de segui-la logo, meu pai me chamou de novo, e da mesma forma de sempre: “Preciso falar com você”.

Na época, eu já morava em Nova York. Era quase fim de ano; estava previsto que durante as férias meu filho ficaria com a mãe dele. Fui passar dez dias com meu pai, em Milão, só ele e eu. As enfermeiras, que normalmente se alternavam para que ele não ficasse sozinho, tiveram uma folga.

Tomávamos o café-da-manhã, almoçávamos e jantávamos juntos. À noite, ele gostava de ver um pouco de televisão — adquiriu esse hábito à medida que envelhecia e em geral adormecia na cadeira de rodas. Eu deixava que ele descansasse assim por algum tempo; depois, empurrava a cadeira até o quarto e o ajudava a tirar a roupa, vestir o pijama e se deitar. No mais, eu lia e escrevia, e ele fazia o mesmo.

Estávamos sempre juntos, mas conversávamos pouco. O carinho passava pelos gestos e pela banalidade de uma convivência cotidiana que não tínhamos havia tempo e que, de fato, nunca tinha acontecido daquela forma.

Sabíamos que desta vez ele não me levaria, não poderia me levar ao aeroporto. Estava frágil e cansado, não dirigia mais.

Na última noite antes da minha partida, ele me chamou a seu quarto, onde já estava deitado para dormir. Pediu que, antes de viajar, eu lhe fizesse a barba.

“Agora?”, perguntei. “Agora, sim; amanhã você não vai ter tempo.”

Reuni o necessário numa bandeja: água quente, um aparelho de barbear com lâmina nova, um pano limpo, pincel, sabão e loção. Sentei na cama ao lado dele, protegi o colarinho do seu pijama com o pano, molhei e ensaboei o pincel.

Enquanto eu amaciava sua barba com o pincel e o sabão, ele começou a falar, devagar: seu coração não estava funcionando direito, e ele ficava facilmente sem fôlego.

“Você conhece”, ele perguntou, “o convento de Monte Oliveto Maggiore, perto de Siena?”

Assenti. Tinha visitado o convento talvez uma ou duas vezes, quando criança, com ele, embora não me lembrasse claramente.

Ele continuou: “Nos anos trinta eu era estudante, e, como você sabe, a gente era pobre”.

Assenti de novo. Meu pai era o mais jovem de cinco irmãos, nascido três meses depois da morte de seu próprio pai, que era o único provedor da família. Sua mãe tinha criado os cinco com uma modesta pensão, muito orgulho, muita determinação e pouca sopa. Todos foram excelentes estudantes e bolsistas por necessidade.

“Eu me vestia sempre de preto”, ele continuou, “terno preto e camisa branca. Eu não tinha escolha, era a minha única roupa, terno preto e duas camisas brancas para eu ir trocando. Preto e branco, como um camponês endomingado, quando vai para a missa.”

Comecei a passar a lâmina pelas bochechas, esticando sua pele com a mão esquerda. Era bom poder fazer alguma coisa de concreto para ele.

“Naquele verão, julho e agosto”, ele continuou, “ficamos na costa da Toscana. Pagávamos pelas férias dando aulas particulares aos estudantes que precisavam passar nos exames de recuperação em setembro, antes do começo do novo ano escolar. Todos nós, os cinco irmãos. Adele ensinava grego e latim, Roberto e Aldo matemática e ciências, Carlota e eu ensinávamos italiano, história e história da arte.”

Calou-se enquanto eu cortava a barba dos lábios e recomeçou quando passei a barbear embaixo do queixo, embora, a meu pedido, ele tivesse que esticar o pescoço para trás.

“Num dia daquele verão, deixei a costa para visitar o convento de Monte Oliveto Maggiore. Fiquei alguns dias por lá. Foram minhas férias de verdade. Fui de ônibus e depois a pé, o último pedaço. A estrada era longa, deserta, seca, uma estrada de terra; havia uma poeira branca que pegava no meu terno preto. Minha única companhia foi um cachorro que veio comigo até o mosteiro. No fim, ele sumiu.”

Comecei o contrapelo. Afinal, era preciso que o corte durasse alguns dias.

“Eu estava cansado e com sede. Era um peregrino triste, com meu bastão. Naqueles dias, eu estava sempre triste. Eram tempos difíceis, o país era dominado por uma vulgaridade irresistível. Havia no ar como que um cheiro de catástrofe iminente.”

Ficou pensativo e silencioso durante um bom momento. Prosseguiu:

“Algo muito estranho aconteceu quando entrei no claustro principal da abadia. Você se lembra do claustro com a série de afrescos que conta a história de são Bento? Foram pintados por Signorelli e por Sodoma.”

“Sim”, respondi, “embora não me lembre com detalhes.” Sabia que o claustro era coberto por uma série de afrescos pintados em parte por Luca Signorelli e o restante, depois dele, por Giovanni Antonio Bazzi, dito “O Sodoma”, em 1500 e alguma coisa. Estava quase terminando minha tarefa.

“Bom”, meu pai continuou, “de repente eu me senti em paz, verdadeiramente em paz, como se tivesse enfim chegado à minha casa, pela primeira vez. Me senti muito mais em casa do que nunca em lugar algum. Muito mais em casa do que na casa que dividia com meus irmãos, minhas irmãs e minha mãe. Muito mais em casa do que agora.”

Parei. Eu havia terminado de barbeá-lo, e também ele estava falando com uma seriedade que capturava toda a minha atenção. Não ousei lhe perguntar se tinha se sentido mais em casa do que na casa que havia construído e dividido com minha mãe, com meu irmão e comigo. Não ousei porque imaginei que me diria que sim, e admitir isso o entristeceria.

Limpei com cuidado os restos de sabão, verti um pouco de loção nas mãos, passei-as no seu rosto, apaguei a luz do alto, para que ela não o incomodasse, e continuei sentado ao seu lado.

Ele passou a falar muito devagar, os olhos fixos no teto. Na penumbra (só a luz da cabeceira estava ligada), aquele cenário e a voz dele se tornavam vagamente inquietantes.

“Ao entrar no claustro, tive a sensação imediata, distinta, nítida de que conhecia os afrescos perfeitamente, cada cena, cada figura, cada pincelada. Senti que eu já tinha estado lá, mas não como visitante ou peregrino. Conhecia os afrescos como se eu mesmo os tivesse pintado.”

Hesitou por um longo momento a ponto de sua voz me assustar quando ele retomou a fala.

“Você sabe que eu não acredito em vida após a morte. E que não acredito em reencarnação. Mas naquele momento pensei mesmo… Não, eu não pensei; eu soube que eu tinha sido um dos pintores daquele claustro. Eu soube que havia passado anos da minha vida naquele lugar.”

E acrescentou rápido, antecipando-se a um escárnio que estava longe de meus pensamentos:

“Não, não, eu não tinha sido nem Signorelli nem Sodoma. Apenas um auxiliar, um ajudante. Só um ajudante conheceria os afrescos tão bem. Mas eu não podia ter sido um ajudante de Signorelli porque, nesse caso, eu não conheceria os afrescos de Sodoma, que foram pintados depois. Em suma, eu tive a certeza de que havia sido um dos ajudantes de Sodoma naquela empreitada.”

Eu não sabia o que dizer. Fiquei calado e apertei sua mão com carinho. Ele retomou:

“Essa sensação, esse saber, essa convicção, chame isso como quiser, nunca me deixou.”

De novo, um longo silêncio. Quando voltou a falar, foi com o tom de quem chega a uma conclusão.

“A pintura da Renascença nunca foi um hobby para mim; ela era a minha casa. A minha vida. Só não era esta vida, mas uma outra, também minha.

” Fechou os olhos. Parecia a ponto de pegar no sono. Levantei da cama, levei a bandeja para o banheiro, voltei e beijei delicadamente sua testa.

“Te amo, pai”, disse.

“Eu também te amo.”

Apaguei a luz e fui para o meu quarto, para a cama de quando eu era criança. Antes de adormecer, murmurei: “O que foi aquilo?”. E, talvez para não responder, caí num sono profundo.

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