Trecho do Livro: Lobos do Mar | Torben Grael

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Vê se não vai morrer, hein? O Brasil precisa de você!

Eu ali com a vida de nove companheiros sob minha responsabilidade em um barco completamente novo para todos. A classe VO70 havia sido criada para aquela edição da regata de volta ao mundo e era uma besta-fera oceânica pouco testada, projetada para viajar sobre a água em velocidades nunca alcançadas por outro veleiro. Com uma previsão de tempo que dava arrepios na espinha. E o camarada vem falar em morte? Procurei esquecer, sem saber, naquele momento, que meses mais tarde o oceano tiraria, de fato, a vida de um de nós.

A multidão se aglomerava. O cheiro forte das algas, grudadas nas pedras do cais de Vigo, na Espanha, impregnava o ar na maré ainda baixa. Rostos conhecidos se misturavam aos anônimos que iam ali ver a saída de mais uma edição da Volvo Ocean Race, o nome pelo qual se chamava, desde 2001, a regata de volta ao mundo. O ronco dos motores dos aviões da esquadrilha da fumaça, de quando em quando, enchia o ar, tornando quase impossível ouvir o barulho da turba que aumentava. Mal pude escutar quando o velejador Alan Adler, um dos principais responsáveis pela realização daquele sonho, me disse:

— Eu ainda não acredito que estamos aqui.

Alan tinha razão. O fato de estarmos naquele píer era algo inédito na história do Brasil e fruto de anos e anos de preparação e sonho. Nossa nau azul e amarela, as cores da bandeira nacional, repousava tranqüilamente. Mas na calma aparente do porto, o Brasil 1, nosso veleiro de 70 pés de fibra de carbono, pulsava como um cavalo de corrida preso ao padoque, prestes a ganhar a pista.

Alguns dias antes, perto dali, em outra ria, como são chamadas as baías compridas e estreitas da Galícia, no noroeste espanhol, tinha acontecido a primeira regata de porto da Volvo Ocean Race, uma novidade nesta edição da volta ao mundo que fora introduzida com o intuito de aproximar os barcos do público e da mídia.

O fato de já termos cruzado o Atlântico, feito um treinamento em Portugal e tirado segundo lugar na regata de porto não significava muita coisa em termos de experiência prévia. Eu sabia que um dos grandes problemas do nosso time era justamente a falta de tempo adequado para treinar, já que o barco ficara pronto apenas quatro meses antes da largada.

Minha mulher, Andrea, passou por mim e, com um sorriso que misturava alegria e apreensão, perguntou:

— Tudo bem?

— Claro!

Respondi sem me dar conta de que eu mesmo me perguntava inúmeras vezes se estaria tudo bem.

Quando decidimos correr todos os riscos de tentar, pela primeira vez, colocar um barco brasileiro em uma competição de tão alto nível tecnológico, sabíamos que o mundo nos olharia com ceticismo. “Os brasileiros são especializados em regatas curtas”, diziam as revistas náuticas. “Será que, além de jogar bola, os brasileiros sabem velejar no oceano?”, questionava em um artigo o jornalista espanhol de um periódico popular local.

Cabia a nós, e mais ainda a mim, mostrar ao mundo que eles estavam errados. Que um barco de altíssimo nível, totalmente construído no Brasil, com a tripulação mais nacional de todos os sete barcos participantes da regata — éramos seis brasileiros a bordo —, poderia, sim, competir de igual para igual com a tradição de suecos, holandeses, espanhóis e americanos. E mais, poderia eventualmente vencê-los.

Nossa boa performance na primeira regata de porto, disputada entre bóias, como nas olimpíadas, e ainda por cima com ventos fracos, teoricamente a nossa especialidade, não contradizia o preconceito de que a tripulação brasileira que eu escolhi, deliberadamente, com os melhores velejadores olímpicos de nosso país, não era afeita à vela offshore, ou seja, realizada longe da costa.

Naquela manhã, com milhares de pessoas cercando os barcos no porto de Vigo e a imprensa do mundo inteiro apontando suas câmeras para nós, eu mal tinha tempo de pensar como seria, de fato, aquela primeira noite de competição no oceano. As previsões diziam que um ciclone de baixa pressão se formava sobre a Península Ibérica. Isso associado à alta pressão que estava a oeste da costa da Galícia era quase um sistema meteorológico perfeito para velejar, e teríamos ventos muito fortes na madrugada. Naquele momento, uma fraca brisa de oeste penetrava na ria de Vigo e fazia os já numerosos veleiros que pretendiam acompanhar nossa largada se moverem em câmera lenta.

Adrienne Cahalan, nossa navegadora australiana e única mulher a velejar nesta edição da regata, já me alertara que teríamos condições duras logo na costa espanhola. Nosso planejamento era minucioso e, em termos físicos, estávamos preparados para qualquer coisa. Mas a brincadeira de alguém, dizendo para eu não morrer, revelou a tensão psicológica daquele momento no ponto exato que eu mais queria evitar. De fato, era possível que aquela aventura terminasse mal.

Quanto mais os ponteiros se aproximavam das 13 horas, mais meu coração acelerava. Olhando para os tripulantes do Brasil 1, com seus amigos e parentes em despedidas emocionadas e tocantes, eu percebia a dimensão épica da jornada que iria se iniciar. Cada um daqueles homens, desde Marcelo Ferreira, meu companheiro de vela há mais de vinte anos, acostumado à pressão das grandes decisões, até os jovens André Fonseca e João Signorini, que, depois das Olimpíadas de Atenas, começavam a escrever ali os capítulos mais importantes de suas carreiras internacionais, todos demonstravam um misto de excitação e ansiedade. Uma mistura de coragem e curiosidade. E um receio saudável do que viria e um desejo imenso de partir.

Quando, finalmente, o canhão do navio da armada espanhola invadiu o ar com seu estrondo, anunciando a largada, nosso foco já estava no barco e no máximo que poderíamos extrair dele em todos os momentos da competição. Sabíamos que nosso veleiro era artesanato de alta performance. Desde aquele primeiro segundo, em Vigo, até o final da Volvo Ocean Race, teríamos que medir o risco de andar no limite, podendo danificar algum equipamento, com o desafio de obter sempre a maior velocidade possível. Além de uma aventura, aquilo era também uma competição. A nós não interessava apenas dizer “demos uma volta ao mundo”. Éramos esportistas e queríamos, acima de tudo, vencer a regata.

Novamente largamos mal! — pensei, rapidamente, lembrando-me da regata de porto de uma semana antes, em Sanxenxo. O Brasil 1 andava pouco, mesmo no vento fraco, que em teoria favorecia os barcos projetados por Bruce Farr, como era o nosso caso. O espanhol Chunny Bermudez timoneava o veleiro, enquanto eu fazia a tática — olhava ao redor em busca do melhor vento e antecipava as manobras.

Talvez, por um lapso, nós tenhamos perdido a concentração tão importante nas largadas, mas isso pouco importava agora. Lógico que sair na frente é sempre bom, mas, em regatas oceânicas, há tempo de sobra para se recuperar, e o verdadeiro xadrez tático, jogado contra os outros competidores e a meteorologia, era o que iria determinar nossa sorte no final.

Quando cruzamos a última bóia, que a organização coloca para que os barcos naveguem perto do público e da cidade, já estávamos em terceiro lugar e sentíamos o barco fluir com desenvoltura. Foi quando entrou uma nuvem negra, vinda do norte, e com ela um vento bem mais forte. Ali percebi, pela primeira vez, o quanto seria difícil bater o ABN1, único VO70 de segunda geração na competição. O barco negro holandês era uma evolução do seu irmão ABN2, de casco branco. O veleiro, que, na verdade, não contava com sequer um cidadão da Holanda, passou por nós como uma flecha e logo tomou a liderança no caminho do mar alto. Vento forte e de través folgado — vindo pela lateral e por trás do barco —, essa era a condição que fazia voar o ABN1.

Mas nada intimidaria aquela turma de brasileiros que estava ali pela primeira vez. Nem o frio intenso que quase cortava nossa pele, nem o mar tenebroso com o qual nos deparamos logo que colocamos a cara para fora da ria. Os últimos barcos, das centenas que estavam nos acompanhando desde a largada, insistiam em acelerar ao nosso lado, e os ruidosos helicópteros de fotógrafos e cinegrafistas ainda cortavam o ar quando percebi que, no calor da largada, nem eu nem ninguém no Brasil 1 estava vestido com as roupas de mau tempo, adequadas para aquela situação caótica no Atlântico. A volta ao mundo havia começado há menos de duas horas e nós já estávamos completamente encharcados, gelados e ofegantes.

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