Trecho do Livro: Meu Nome é Número 4 – Uma história real da Revolução Cultural Chinesa | Ting-Xing Ye

Livros Meu Nome e Numero 4 Uma historia real da Revolucao Cultural Chinesa Ting Xing Ye My Name is Number 4 BooksLivro: Meu Nome é Número 4
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Chegou o dia de meu exílio na prisão agrícola, um dia típico de novembro em Xangai, úmido e um pouco frio, com céu nublado. Meus dois irmãos mais velhos silenciosamente amarraram com cordas de palha grossas minhas caixas de madeira e meu colchonete para a viagem longa e difícil. Para o almoço, Tia-Avó fez meu prato preferido: costeletas de porco à moda de Xangai, com cebolinha. Depois que os pratos tinham sido lavados, Tia-Avó nos disse que estava indo para sua reunião regular de leitura de jornais e, sem dizer adeus ou me desejar uma boa viagem, sem olhar para mim, saiu e fechou a porta atrás de si.

Uma hora depois, deixei minha casa, pensando se um dia voltaria a andar por aqueles três cômodos, dormir na cama de Tia-Avó ou ficar de pé no pátio interno e olhar para cima, para o quarto onde meus pais tinham vivido e morrido. Minhas irmãs, meus irmãos e eu descemos a travessa Raio de Sol Violeta, onde eu tinha brincado e perseguido pardais, e por onde eu tinha caminhado vestida de branco em dois cortejos fúnebres. Passamos por minha antiga escola e pelo mercado onde eu tantas vezes fora comprar arroz e ossos de porco. A caminho do ponto de ônibus, tínhamos de passar pelo prédio onde acontecia a reunião de Tia-Avó. Eu a vi sentada à porta, chorando. Parei e tentei falar com ela. Queria dizer o quanto a amava, mas ela desviou os olhos.

Quando chegamos ao centro esportivo do distrito, para onde todos os exilados tinham recebido ordem de ir, meus irmãos deixaram no chão a minha bagagem. Eles e minhas duas irmãs ficaram de pé, desconfortáveis, sem palavras. Minha irmã mais nova, Número 5, estava chorando; Número 3 ficou olhando para a calçada molhada. Os guardas me disseram que apenas aqueles que iriam para a fazenda poderiam entrar no prédio. Tinha chegado a hora dos meus últimos momentos com minha família. Comecei a chorar alto.

— Por que eles não podem ficar comigo até a hora de eu ir? — implorei.

Não adiantou.
Naquele instante alguém gritou o meu nome e, entre lágrimas, vi a professora Chen correndo em minha direção. Tinha ido me ver partir. Garantiu a meus irmãos e irmãs que ficaria comigo. Dei um adeus solene a cada um deles, peguei minha bagagem e caminhei na direção do portão do estádio.

A professora Chen convenceu o guarda a deixá-la entrar para me acompanhar, dizendo que representava a escola. Havia mais de trezentos adolescentes infelizes reunidos ali, com trouxas bem apertadas e amarradas. Quatro outros alunos de minha escola também estavam sendo mandados embora, me disse a professora Chen, mas eu não os conhecia.

Sentamos para esperar. Minha professora me deu o pão que tinha levado para mim, mas não o toquei.

— Orgulhe-se de si mesma, Xiao Ye — disse, tentando me alegrar. — Você pode ter apenas 16 anos, mas não é covarde.

Eu não me sentia nada corajosa.
Estava escurecendo quando os alto-falantes nos chamaram para os ônibus que nos aguardavam. Quando eu estava prestes a embarcar, a professora Chen tomou minhas mãos nas dela e as segurou em frente ao seu peito.

— Xiao Ye — disse ela, sussurrando —, lembre-se do velho ditado: “Em casa, dependa dos seus pais; fora de casa, confie nos amigos.” Faça amigos na fazenda. Eles irão ajudá-la.

Eu sabia que ao repetir aquele velho e conhecido ditado ela estava correndo um risco, porque a maioria dos velhos adágios tinha sido censurada, e alguém poderia ouvi-la. Tudo está contra mim, pensei, até mesmo esse provérbio. Eu não tenho pais em casa, e a Revolução Cultural, que estimulava os jovens a delatar uns aos outros, tinha destruído as amizades. Parecia que eu não podia confiar em mais nada, nem mesmo na minha sombra.

Quando embarquei no ônibus, o quinto da fila, não havia mais lugares vazios. Após guardar meus pertences no bagageiro do alto, fiquei de pé no corredor, enxugando os olhos com as mangas, do mesmo modo como outros faziam, e olhando através da janela. O ônibus cruzou o portão e chegou a uma rua onde famílias esperavam havia horas. Veículos passavam buzinando. Bicicletas faziam soar as campainhas. As pessoas corriam ao lado dos ônibus, chorando e chamando pelos que estavam dentro deles. Quando os ônibus pararam por um instante, dezenas de mãos foram enfiadas pelas janelas, agarrando as de entes queridos. Eu procurei minhas irmãs e meus irmãos na multidão.

O ônibus sacudiu e começou a avançar novamente. As mãos saíam aos poucos das janelas. Eu então ouvi um grito desesperado:

— Ah Si! Ah Si! Onde você está?

Eu me esgueirei e abri caminho até uma janela, ignorando os protestos dos que estavam sentados.

— Aqui! Aqui! — berrei.

Então vi Número 1 procurando nos ônibus à minha frente, acenando e gritando meu nome a cada um que passava.

— Número 1, estou aqui! — gritei.

O ônibus acelerou. Meu irmão correu ao lado dele, esticando a mão na direção da janela. Eu queria aquele último toque mais do que tudo. Estiquei-me para fora da janela o máximo que pude, abrindo e fechando a mão, mas Número 1 caiu, e senti apenas o ar frio.

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