Trecho do Livro: Rio das Flores | Miguel Sousa Tavares

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A minha vida está suspensa a sessenta metros de altura sobre as águas escuras do mar. A minha vida está suspensa há dois dias e duas noites, sem referências nem horizonte, desde que perdemos de vista a costa da ilha de Santiago, em Cabo Verde, e entrámos pelo oceano adentro. Agora sei o que é navegar, sei o que é procurar terra sem saber se a encontraremos, sei o que é olhar em frente, pelas janelas basculantes do lounge deste monstro deslizante — que são abertas quando faz bom tempo, para respirarmos o ar do mar — e procurar, o mais longe que a vista alcança, sinais de aproximação da terra Brasil, destroços vegetais à tona de água, gaivotas voando em nossa volta, águas mais claras debaixo da nossa sombra, uma pressão no peito, do lado de onde bate a esperança.

“Voamos a cento e vinte quilômetros por hora e raramente ultrapassando os duzentos metros acima da linha de água, excepto quando, ao terceiro dia de viagem, uma frente de nuvens baixas, escuras e ameaçadoras, nos fez subir até aos mil e seiscentos metros, cavalgando e oscilando por cima da tempestade, de súbito recordados de quão frágil é o nosso voo, quão frágil é a viagem neste mundo. Tratam-nos com todas as comodidades possíveis e imagináveis: camas que dariam para um casal, lençóis de seda natural, duche quente, pequeno-almoço luxuoso, almoço e jantar de chef internacional, mesa de bridge durante a tarde (onde me entretenho com um americano, um alemão e um brasileiro) e bebidas servidas a toda a hora, de tarde e de noite, no lounge de onde vemos o Atlântico ficar para trás, milha após milha, sempre igual e sempre intimidante.

“Eu, Diogo Ribera Flores, fi lho do campo e do sequeiro, herdeiro de sobreiros, azinheiras e oliveiras, alentejano por berço e condenação perpétua, deixei mulher e fi lhos, deixei mãe e irmão, deixei terra e Pátria, deixei esse ar espesso e opressivo de um Portugal amordaçado, para fl utuar neste balão gigante sobre o mar e sobre a vida, esperando que no fi m da viagem haja um Novo Mundo à minha espera. Não podendo vir de caravela, vim de Zeppelin, e, fosse eu dado aos relatos, como Pêro Vaz de Caminha, também escreveria à minha Rainha — porque Rei não tenho — o diário desta viagem e das minhas descobertas. Ah, mas eu não tenho essa consistência e perseverança dos descobridores! Eu sou leviano e ligeiro, sou mais dado às sensações do que às realizações, mais depressa me sirvo a mim do que à Pátria. Graças a Deus, não nasci em 1500: nasci tarde de mais para o desconhecido, cedo de mais para a lucidez. Não sei o que procuro, mas sei do que fujo. Não sei o que encontro, mas sei que vou, que flutuo — como este grande balão, devagar e em frente, suspenso sobre tudo o que são as certezas, a terra firme onde os outros são felizes e realizados e eu não. Chego à janela entreaberta do Hindenburg e olho para o mar, lá em baixo: aspiro a sua humidade e o seu sal a plenos pulmões, peixes-voadores sobrevoam a crista das ondas vadias, golfinhos desenham a sua sombra logo abaixo da linha de água, em vão procuro o perfume a clorofila que anunciará a costa do Brasil, vejo o retrato de Amparo, e do Manuel e da Assunção, reflectido na superfície do mar e não sei que lhes diga. Não tenho razão alguma explicável para estar aqui. Um capricho, disseste tu. Uma obsessão, um egoísmo, uma infantilidade, sentenciou o Pedro. É tudo verdade, que posso eu dizer? E, todavia, flutuo. Estou entre mar e terra, entre a Europa, cansada e demente, e o Novo Mundo, onde tudo só pode ser diferente. Flutuo, estou feliz, bebi de mais ao jantar, o luar de prata dançando sobre a água aqui debaixo faz-me sentir eufórico e alheio, aproveito este intervalo, estes dias em que não sou de lado algum, em que não tenho pé em terra nem no mar, para pensar no concreto da vida. E, quanto mais penso, mais me apetece que esta viagem nunca mais acabe.”

Às primeiras horas da manhã de 4 de Abril, o Hindenburg, vindo do norte depois de ter entrado no Brasil passando por cima da ilha de Fernando de Noronha, Recife e Salvador, sobrevoava o Rio de Janeiro, dirigindo- se para o seu novo hangar, em Santa Cruz, cerca de sessenta quilômetros a sul da cidade. Chovia copiosamente sobre o Rio e Diogo apenas conseguiu colher uma primeira impressão de uma cidade entalada entre morros e mar, com uma ampla e sinuosa linha de costa, contornando baías e enseadas, e ao longo das quais as construções pareciam dispor-se de forma anárquica. Passaram ao lado do morro chamado Pão de Açúcar, já conhecido dos passageiros por uma fotografia que havia a bordo do Hindenburg, e situado na entrada da extensa baía de Guanabara, semeada de pequenas ilhas, entre as quais a ilha das Flores, ponto de desembarque obrigatório dos emigrantes europeus que chegavam ao Rio de Janeiro.

Não era o caso deles, visitantes de luxo — aliás, como os passageiros de primeira classe dos navios de linha, que não eram considerados emigrantes, mas sim turistas, dispensados de todas as formalidades de emigração. Em contrapartida, o seu desembarque foi certamente mais acidentado. O hangar estava inundado de água da chuva, que não parava de cair, e sopravam ventos fortíssimos que não permitiam a aproximação em condições para amarrar o dirigível ao seu mastro. Além disso, a maior parte dos duzentos e quarenta membros da “tripulação de terra” não sabia bem o que fazer na ocasião, segurando distraidamente as cordas descidas do Hindenburg, na esperança de que alguém se dispusesse a coordenar a manobra. Finalmente, acabou por se desistir de amarrar ao mastro e foi à força de braços em terra e motores a bordo que o pesado e imenso balão foi descido até terra e enfiado a muito custo dentro do hangar — de onde, pelo menos, já não podia levantar. Toda a operação demorou cerca de uma hora e, quando enfim foram descidas as escadas e o primeiro membro da tripulação do Hindenburg pôs pé em terra, pararam-se os cronómetros e registou-se para a história do primeiro voo aéreo non-stop Europa — Rio de Janeiro: quatro dias e quatro noites de viagem, exactamente cem horas e quarenta minutos, para os onze mil quilômetros percorridos.

Diogo acabara de conquistar o seu quinhão na história da aviação. Parte do seu sonho estava cumprida: chegar de balão ao Brasil. No hangar cheirava a combustível e reinava uma confusão totalmente irremediável. A custo, abrindo caminho por entre a pequena multidão que se agitava sem nexo aparente, respondendo a ordens gritadas em todas as direcções, dirigiu-se para a saída do hangar, sentindo o chão a balouçar debaixo dos pés, como se ainda estivesse no ar. Cá fora, a chuva tinha abrandado e parecia que ia mesmo cessar por completo. Ele não se importou com a chuva: caminhou uns passos para fora, acendendo um cigarro e aspirando o ar a plenos pulmões. O cheiro asfixiante a clorofila entrou por ele adentro como um sopro e deixou-o quase entontecido. Depois, veio-lhe também um discreto cheiro a maresia, seguramente da baía de Sepetiba, ali ao lado — mas, para quem tinha acabado de chegar das praias de iodo do lado de lá do Atlântico, aquele sinal de mar próximo era tragado, de um só golpe, pelo cheiro inebriante do verde da floresta.

Afastou-se ainda mais em direcção à mata logo em frente e aí começou a escutar a gritaria dos pássaros que vinha lá de dentro. Um raio de sol rompeu timidamente as nuvens e os primeiros pássaros, de todas as cores, começaram a levantar voo das árvores. Do hangar veio uma ordem, através de um megafone e num português cantado e alegre, a que ele não estava habituado:

— Pede-se aos passageiros do voo Hindenburg, que acabam de desembarcar no Rio, que se queiram dirigir por gentileza ao salão de desembarque para cumprimento das formalidades legais de ingresso no Brasil.

Diogo sorriu para si mesmo. Abriu a boca de par em par, como se fosse gritar, e engoliu nova golfada de clorofila. Abaixou-se sobre a terra molhada a seus pés e colheu um pedaço, que levou à boca e beijou ao de leve: terra brasil.

Do hangar de Santa Cruz, Diogo seguiu no comboio construído pelos alemães até à Estação D. Pedro II, já em plena cidade. Aí, apanhou um dos carros com motorista que aguardavam os inesperados viajantes do ar e mandou seguir para o Copacabana Palace. Pelo caminho, o chauffeur foi-lhe dando uma primeira abordagem geográfica da capital do Brasil: a Avenida do Mangue, o centro, cruzado sem grandes detenças, e a Avenida Beira Mar. De janela aberta, aspirando aquele ar quente e húmido que se colava à roupa como uma segunda pele, ele foi aprendendo também os nomes daquilo que extasiadamente ia vendo: a baía da Urca, com a sua forma de concha exposta às batidas do mar, o morro sobranceiro do Pão de Açúcar, a larga e elegante baía de Botafogo, que parecia imaginada por um lápis negligente deslizando ao acaso sobre o mapa. Caramba, Deus não se poupara ao desenhar o Rio de Janeiro!

Quando, após uma meia hora de viagem, o motorista o depositou com as bagagens à porta do Hotel Copacabana Palace, no início do imenso areal da praia de Copacabana, ele já estava perdido de paixão por aquela cidade. Homem do campo, da terra e da secura, estava esmagado pela textura líquida daquela cidade, rodeada de mar, baías, lagoas e montanhas, sob um manto de humidade quente que o fazia sentir-se como que dentro de um casulo. Uma mão invisível, vinda das montanhas por trás da cidade, tinha pegado nele como um náufrago à deriva e tinha-o feito seu refém, cativo para sempre da luz que magoava, do calor que entorpecia, da humidade que o prostrava de exaustão feliz. Num ápice, o Rio tomara conta dele e de cada um dos seus sentidos.

Entrou pela porta envidraçada do hotel e sentiu-se pairar sobre o chão de mármore, reparando nas madeiras escuras e exóticas, os trabalhos de estuque no tecto da recepção, um som de vozes alegres no ar, um cheiro indefinido a madeiras e flores. Confirmou a sua reserva para um mês, preencheu os papéis e subiu ao quarto onde o aguardavam as suas malas e um cesto de frutas. Experimentou uma banana, que achou deliciosa, e uma fatia de abacaxi, muito mais doce que o ananás dos Açores que se comia em Lisboa. Abriu a porta do terraço do quarto e recuou instintivamente com a intensidade da luz reflectida nas águas do Atlântico, logo ali à sua frente. Sem pensar mais, foi a uma das malas, retirou o seu maillot de banho que vestiu por baixo das calças mais leves que tinha trazido, enfiou uma camisa branca e saiu, levando uma toalha do “banheiro”. Caminhou até à praia em frente e despiu-se na areia, abandonando tudo e entrando pelo mar adentro. A água era transparente e morna, como ele nunca tinha imaginado que fosse possível, e havia restos de cocos boiando à superfície. Nadou umas braçadas e mergulhou para ir buscar a areia no fundo e ficar a vê-la na palma da sua mão. Então, emergiu da água e voltou-se para trás, de onde tinha vindo: à sua frente, o longo e elegante edifício branco do hotel recortava-se num espaço ainda semivazio. À direita estava o Leme, onde a praia acabava num morro, para lá do qual ele sabia que ficava Botafogo, o Flamengo e outras baías ou enseadas.

À esquerda, no enfiamento do hotel, chalets recém-construídos e outros em construção alinhavam-se ao longo da suave curvatura da praia ao lado dos primeiros edifícios em altura, os “arranha-céus”, que começavam a erguer-se, prometendo povoar Copacabana rapidamente. E, ao fundo, o Forte de Copacabana, onde, catorze anos antes, estava o hotel a ser acabado, acontecera o episódio que fi cou conhecido como “os dezoito do Forte”: um grupo de jovens tenentes que haviam jurado derrubar o regime do Presidente Artur Bernardes, ao serviço dos grandes fazendeiros de S. Paulo, entrincheiram-se dentro do forte, esperando em vão pelos reforços que haveriam de chegar do levantamento de outras unidades. Sozinhos então, acossados pelo Exército leal ao Presidente, a maioria acabou por se render, mas não vinte e nove deles, que optaram por rasgar em pedaços uma bandeira do Brasil e jurar lutar por ela até à morte. Dos vinte e nove juramentados, dezoito honraram a sua palavra e, quando já não havia mais esperança, abandonaram o forte e saíram, marchando pela calçada de Copacabana em direcção ao inimigo e à morte. Dois deles, apenas, sobreviveram.

Diogo sabia tudo isso, que aprendera ao longo dos anos em que, desterrado em Valmonte e sem razão plausível para tal, desatara a ler tudo o que arranjava acerca do Brasil, até que o seu sonho de um dia lá chegar se tornara uma obsessão sem cura. E agora ali estava, acabado de chegar e já deslumbrado. Parecia impossível imaginar que ainda há poucas horas atrás viajava suspenso de um frágil balão que o trouxera de uma Europa fria e cinzenta, onde só parecia haver lugar para o ódio e para os extremismos, onde se afiavam espadas e se contavam exércitos, onde tudo parecia gasto e cansado, onde “os amanhãs que cantam” nada mais tinham para oferecer do que ditaduras, perseguições, guerras e o grito universal de “morte à liberdade!”. Agora, não: agora, vinha-lhe o cheiro a selva da montanha em frente, o bafo quente do ar onde os pássaros evoluíam nas correntes sem esforço algum, cascas de cocos deslizavam ao sabor das ondas em direcção à areia, a água era cristalina e envolvente e o Rio estava aos seus pés, à espera de ser colhido. Ou era ele que estava aos pés do Rio.

Almoçou no hotel, no restaurante do terraço onde estava a ser construída a piscina do Palace. A conselho do maître, experimentou coisas absolutamente desconhecidas e que o encantaram, desde a “caipirinha”, com cachaça, açúcar e limão verde, pequeno, que ele nunca tinha visto, até à “casquinha de siri”, feita com um caranguejo mole, de areia, que não havia na Europa, passando pela própria salada com uma espécie de espargo grosso chamado “palmito”. Mas, acima de tudo, ele estava deslumbrado com o hotel em si mesmo. E não era caso para menos.

A arquitectura do Copacabana Palace, desenhada pelo arquitecto francês Joseph Gire, inspirara-se nas do Negresco e do Carlton, de Nice, e, tal como eles, pretendia ser um hotel de praia, luxuoso e imponente. E, na verdade, quando ficou pronto, em 1922, foi o hotel que, por assim dizer, inaugurou a praia de Copacabana — até aí cortada da cidade e apenas povoada por algumas cabanas dispersas.

Aliás, até ao início dos anos 20, tanto os prédios como as pessoas viviam de costas voltadas para o mar. Fora a necessidade de combater as constantes epidemias que provara a urgência de abrir avenidas e espaços por onde o ar do mar penetrasse na cidade, e só em 1886, segundo rezava a lenda, é que a praia de Copacabana recebeu o seu primeiro e célebre banhista: a actriz Sarah Bernhardt, que, desprezando a vergonha pública e as regras sobre a decência dos banhistas (que, trinta anos depois, ainda haveriam de ser afixadas pelo prefeito do Rio), entrou pela água adentro vestida como a ocasião recomendava. O Copacabana Palace tinha vindo mudar tudo isso: era um hotel de praia e era suposto os hóspedes irem à praia. Mas, nesse mesmo ano de 1936, fora ainda mais longe e estava à beira de inaugurar a primeira piscina com dimensões olímpicas no Brasil, logo destinada a tornar-se ponto de encontro obrigatório da beautiful people carioca: de manhã na piscina do Palace, à noite nos seus salões, no casino ou no restaurante, onde pontifi cava um afamado chef francês e o caviar tinha de ser “grand grain, gris, sans sel”.

O proprietário, fundador e director do Palace era Octávio Guinle, herdeiro da maior fortuna brasileira. O Palace tinha-se tornado na sua vida, ao ponto de habitar em permanência uma das duas suites presidenciais, de forma a melhor vigiar tudo o que acontecia no hotel. E tudo acontecia no hotel: desde a sua inauguração, o Palace tornara- se logo o centro da vida social, cultural e política do Rio e o Rio era a capital do Brasil. Não havia estrela de cinema, cantor internacional, bailarina de renome, maestro célebre, príncipe ou presidente que visitasse o Brasil, que viesse ao Rio, e não ficasse hospedado no Palace. E o mesmo fazia a sociedade carioca e todos os políticos do país, da República Velha ou da República Nova, de todos os regimes e de todos os governos. Oficialmente, a política do Palace era não ter política, dar-se bem com todos; na prática e actualmente, vivendo sob um regime autoritário, isso significava que a família Guinle estava de muito boas relações com o regime de Getúlio Vargas. O irmão do Presidente, Benjamim Vargas, conhecido por “Bejo”, era um frequentador habitual das mesas de jogo do casino do Copacabana, onde gozava de privilégios que só a sua relação familiar justificava. Tinha, por exemplo, o mau hábito de ir para a sala de jogo munido do seu revólver, que não hesitava em utilizar, em tiros para o ar, de cada vez que a sorte lhe virava costas. Numa célebre noite, farto de perder, “Bejo” pousou teatralmente o revólver em cima do pano verde da roleta e proclamou em voz bem alta a sua aposta fi nal: “Dezassete, preto, ímpar!”. A roleta girou e o croupier anunciou em voz baixinha: “Oito, vermelho, par…”. Fez-se um silêncio de tragédia na sala toda, enquanto “Bejo” já ia estendendo a mão para o revólver. Mas, antecipando-se-lhe, numa jogada de inspiração, o croupier anunciou: “Perdão: preto, ímpar, dezassete!”. Benjamin Vargas recolheu revólver e fichas e a noite acabou em alívio geral.

Culto, requintado, de gostos apurados e exigentes, Octávio Guinle não desprezava um pormenor para fazer do Palace, mais do que um hotel, um estilo de vida, que pudesse criar fama além-fronteiras, como de facto já sucedia, e ser uma espécie de cartão-de-visita do Rio de Janeiro. Mais de mil empregados serviam os duzentos e trinta quartos do hotel e a exigência de Guinle com a qualidade do serviço era de tal forma cuidada que ele redigira um “Código dos Empregados do Palace” onde, entre outras sábias determinações, se prescrevia a máxima de “não dar opiniões, e, quando solicitadas, evitar o prolongamento da conversa e os comentários”. Ou, mais avisado ainda e atendendo à notoriedade de alguns hóspedes, o Código estabelecia: “Não demonstrar conhecimento das excentricidades dos clientes, que deverão passar despercebidas, sem manifestações de gestos, palavras ou actos”. Uma regra que demonstrou a sua utilidade quando Marlene Dietrich, enfiada num vestido demasiado justo e que, segundo ela, não lhe permitia abaixar-se, pediu ao camareiro um balde com areia e gelo para poder satisfazer as suas necessidades de pé e foi atendida. Ou quando o então Presidente Washington Luís forçou a entrada no quarto da sua clandestina amante francesa e foi recebido por ela a tiro de revólver, tendo sido discretamente retirado pelos fundos com uma bala alojada no abdómen, mas oficialmente com uma crise de apendicite aguda da qual sobreviveria.

Mas Diogo não ignorava que o Copacabana Palace representava apenas um dos lados do Rio, uma das faces, terrivelmente contrastantes, do Brasil todo. E se, nos dois primeiros dias, por ali se deixou ficar saboreando as mordomias e luxos do hotel, sem pressa de se apresentar no escritório da Atlântica, no centro, não foi com medo de sofrer uma imensa desilusão, depois do Palace, mas sim porque sentia necessidade de descer consistentemente à terra, e também ao mar, após aqueles quatro dias e quatro noites voando a meio céu, nessa espécie de limbo que era o Zeppelin.

O Brasil — ele sabia-o — vivia também uma efervescente situação política. Na Europa, comentava-se muito a ditadura fascizante de Getúlio Vargas, o Presidente. Mas, para quem, como ele, tinha saído de uma verdadeira ditadura fascista, aquela, além de não lhe dizer directamente respeito, tinha grandes e substanciais diferenças: Getúlio também chegara ao poder por golpe de Estado ou insurreição militar, mas depois disso fora eleito, de forma legítima, pelo Congresso e, embora a contragosto, governava no âmbito dos poderes que lhe dava a Constituição democrática de 1934. Era verdade que, fosse por convicção ou por conveniência, tinha quase toda a imprensa de referência a seus pés, mas não havia censura oficial e mesmo o Partido Comunista publicava livremente os seus jornais. Mais importante ainda, Getúlio era popular, tinha oposição consentida, partidos formados livremente, e oficialmente não havia presos por delito de opinião. Dentro de dois anos, em 1938, haveria novas eleições para a Presidência e ele iria retirar-se do poder, pois que a Constituição não consentia a reeleição. Nada disto tinha comparação com o que se passava no Portugal de Salazar.

Isso fora assim exactamente até há umas semanas atrás, quando Diogo tomara a decisão de vir até ao Brasil. Ultimamente, porém, o ambiente político estava a mudar no país e, mesmo à distância, seguindo os eventos pela imprensa internacional ou brasileira, Diogo dera-se conta dessa mudança, que, no seu íntimo, se recusava a encarar de frente, tamanho era o seu sonho longamente alimentado de ver no Brasil a pátria dos descamisados da liberdade. Mas as coisas estavam mesmo a mudar: em finais de Novembro do ano anterior, a imprensa afecta ao regime, em Lisboa, dava conta, com grande entusiasmo e grandes parangonas, do falhanço da “intentona comunista, organizada por Moscovo no Brasil” e dirigida pelo célebre capitão Luís Carlos Prestes — agora um quadro superior do Komintern e outrora o líder da lendária Coluna Prestes, onde ganhara o epíteto de “Cavaleiro da Esperança”.

Durante dois anos e meio, entre 1924 e 1927, o capitão do Exército Luís Carlos Prestes encabeçara uma coluna de mil e quinhentos homens, civis e militares, que, partindo do Rio Grande do Sul e juntando-se às forças revoltosas do major Miguel Costa, estas saídas de S. Paulo, havia percorrido o Brasil inteiro, de Foz do Iguaçu ao Amazonas, do Sul ao Nordeste, a pé ou a cavalo, em lombo de burro ou de boi, para provocar um levantamento nacional contra o regime político ao serviço dos oligarcas de S. Paulo. Sem ideologia política defi nida, Prestes era movido por um genuíno sentimento de justiça social e dignidade política servidas igualmente, como logo se veria, pelo seu génio militar. Ele e os seus camaradas de armas representavam o que de mais generoso sobrara do “tenentismo”, que mais tarde iria levar ao poder Getúlio Vargas, na chamada “Revolução de 30”, mas que, aos olhos de Prestes e muitos outros, falhara na sua missão primordial de libertar o Brasil de um sistema político e social ainda semifeudal. Getúlio e os seus preparavam-se para ir ocupar o Palácio do Catete; Prestes e os outros tinham escolhido embrenhar-se no sertão, nos mangues, nos espinheiros, na selva, nessas terras do sem-fi m do Brasil, que eles próprios não conheciam, numa desvairada aventura militar que o Brasil não entendia, mas secretamente admirava. De facto, do ponto de vista militar, ele inauguraria o que ficaria conhecido como a “guerra de guerrilha” — com um exército “popular” e heterogéneo, permanentemente em movimento, atacando de emboscada e jogando na surpresa e no apoio popular encontrado ao longo da marcha. Na verdade, a Coluna Prestes passaria à história com o título de “invencível”, mas jamais conseguiria, ao longo desses dois anos e meio e vinte e cinco mil quilômetros percorridos (e minuciosamente anotados pelo “escrivão” da Coluna), levantar as populações por onde passava. E, na Primavera de 1927, ele e os seus seiscentos e vinte homens sobrantes atravessavam a fronteira para a Bolívia e depunham as armas. Fora, talvez, o maior feito militar da história do Brasil, a mais fecunda fonte de lendas e de ilusões acerca do nobre “Cavaleiro da Esperança”, mas, para efeitos práticos, um longo e arrastado fi asco político. A partir daí, aos trinta anos de idade, o capitão Prestes percebeu que a revolução só chegaria através de uma organização muito mais consistente, mais pensada, com mais meios e uma ideologia de massas. Isso requeria tempo, preparação e um campo de treino adequado: a União Soviética, de José Estaline. Em 1931, Prestes chega à urss, na companhia da mãe e das quatro irmãs — ela viúva, os fi lhos todos solteiros e recém-comunistas. Em Moscovo, ele, que fora rejeitado pelo Partido Comunista do Brasil, rapidamente vai subindo na hierarquia dos dirigentes comunistas internacionais, impondo-se aos olhos do Politburo do pcus como a grande esperança para o triunfo da revolução bolchevique — no Brasil, primeiro; na América Latina toda, de seguida.

Mérito seu, acaba por conseguir convencer os russos de que o Brasil estava maduro para ser colhido: bastaria ele desembarcar lá e primeiro cairiam os quartéis, depois o povo acompanharia. Estava no poder, então, Getúlio Vargas, que, em 1930, enquanto Prestes partia para o exílio soviético, chefiara um levante militar saído também do Rio Grande do Sul e depusera a, a partir daí, chamada República Velha. Muitos dos que tinham apoiado Getúlio e o levaram à chefia do Estado, após o sucesso do levantamento, tinham estado também na Coluna Prestes e guardavam admiração e lealdade ao seu antigo chefe. Mas Prestes fora para outras paragens, seguira outro chamamento e agora era comunista — enquanto que eles queriam apenas repor as liberdades políticas, pôr fi m aos privilégios dos descendentes dos antigos proprietários das fazendas de escravos do Vale do Paraíba e terminar com as fraudes eleitorais e políticas de toda a ordem. Para eles, a deposição da República Velha e a instituição da República Nova era o bastante; para ele, tudo isso era já um programa político do passado. Só lhe interessava agora o futuro e o futuro era o triunfo do comunismo no Brasil.

Tendo decidido apadrinhar os planos de Luís Carlos Prestes, o Politburo escolheu a dedo uma equipa de dez profissionais da revolução, comunistas de várias nacionalidades, testados e treinados para missões daquelas, e que foram enviados clandestinamente para o Brasil para ajudarem a montar o levantamento comunista. Para escoltar Prestes, na sua longa e secretíssima viagem até ao Brasil, para lhe servir de correio privilegiado, guarda-costas e assistente em todo o tipo de tarefas, o pcus escolheu a jovem e bonita alemã Olga Benário, dirigente das Juventudes Comunistas Internacionais e judia, apaixonada por estratégia militar, corajosa até ao extremo, culta e dotada para línguas. Sem se conhecerem, embarcaram os dois em Moscovo, na véspera do Ano Novo de 1934 e, trocando constantemente de identidades, passaportes, países de escala e meios de transporte, chegaram finalmente ao Brasil em 15 de Abril do ano seguinte, voando a bordo de um hidroavião baptizado com o nome do grande herói da aeronáutica brasileira, Santos Dumont, em voo nocturno de Montevideu para Florianópolis. Luís Carlos Prestes tinha então trinta e sete anos de idade e, porque gastara toda a sua juventude com a causa revolucionária, embarcou virgem: nunca tinha conhecido mulher. Ela, não. E ela, que tinha mais uns dez centímetros de altura que os escassos um metro e sessenta de Prestes, podia proclamar ao mundo, no final da longa viagem a dois, que eram, de facto, tal como os passaportes falsos rezavam, marido e mulher, por direito de paixão mútua e fulgurante.

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