Trecho do Livro: A Doçura do Mundo | Thrity Umrigar

Livros A Docura do Mundo Thrity Umrigar BooksLivro: A Doçura do Mundo
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A neve é muito diferente da chuva, pensou Tehmina. A chuva em Bombaim era como um intruso desajeitado, com pés de chumbo, que esbarrava nos móveis e caía por cima deles, derrubava a louça de porcelana e fazia sentir sua presença pesada e suarenta nas ruas golpeadas e batidas. Mas a neve daqui! Tehmina deslumbrou-se com seu ar furtivo, seu subterfúgio, seu toque leve. Ora, a pessoa podia dormir a noite inteira e nem saber que tinha nevado, até de manhã.

Chuva e neve. A maneira perfeita de descrever a diferença entre Bombaim e os Estados Unidos, pensou Tehmina. Uma era ruidosa, caótica, tumultuada e errática. A outra era calma, anti-séptica, refinada e polida. Como é irônico!, pensou. Em Bombaim, onde tudo é perigoso, as pessoas levam a vida bindaas, despreocupadas, sem medo, quase sem pensar. Aqui, onde não há razão para se temer coisa alguma, essa gente tem medo da própria vida. Como podem sobreviver desse jeito, vigiando e pesando tudo? Do terrorismo aos micróbios ou à gripe, tudo assustava essas pessoas. Um país inteiro entrando em pânico por causa da escassez de vacinas contra a gripe. E vedando seus vidros de analgésico tão hermeticamente, tão à prova de adulterações, que nenhum adulto com artrite era capaz de abri-los. Até seus canudos vêm embrulhados em plástico. Já em Bombaim, santo Deus, a gente respirava o ar mais fétido que havia, e comia em barracas de beira de estrada em que os pratos eram lavados numa água marrom feito lama. E olhem só para mim: uma mulher robusta, saudável e animada de sessenta e seis anos. O velho dr. Mehta sempre dizia: “Se um dia houver uma peste ou uma catástrofe global, Tehmi, juro que aqueles norte-americanos vão cair mortos feito moscas. Eles não têm imunidade contra coisa alguma. E nós, indianos, com nossa constituição férrea, dominaremos o mundo.”

Era a mesma coisa com os cintos de segurança. Deus do céu, como Sorab e Susan a haviam olhado quando ela se recusara a usar o cinto de segurança em sua primeira visita ao país! Como… como se ficassem pessoalmente decepcionados com ela, tal como ficaríamos com um parente que insistisse em se suicidar bem diante dos nossos olhos.

Tehmina remexeu-se na cama, querendo afastar a lembrança que começava a emergir. No ano anterior, em suas férias na Califórnia, ela e Susan tinham ido às compras com Cookie, enquanto os dois homens permaneceram no hotel. As mãos de Susan estavam carregadas de sacolas de presentes, e Tehmina segurava a mão de Cookie, esperando o sinal de trânsito fechar. Estavam parados em meio a uma multidão de turistas afáveis e bronzeados, que tomavam sorvetes de casquinha enquanto aguardavam na calçada para atravessar a rua. E ainda nos vinham falar de terra da liberdade!, pensara Tehmina, surpresa. Não havia um só carro à vista, mas todos esperavam feito carneirinhos que o sinal lhes dissesse ande ou pare. Em Bombaim, mil pessoas já teriam atravessado a rua seis vezes, àquela altura. Talvez tivesse sido essa idéia que a impelira adiante, mas o fato é que, no instante seguinte, uma Tehmina impaciente havia puxado a mão do neto e começado a atravessar. Atrás dela, ouvira Susan exclamar, arquejante: “Mamãe!” Mas era tarde demais para parar. Ao chegar ao outro lado, ela percebera que tinha feito algo errado. Algo incivilizado. Algo… bem, algo próprio de Bombaim. Uma coisa indiana. Uma coisa grosseira. Apesar do sol quente da Califórnia, Susan exibia um rosto pálido ao atravessar a rua e encarar a sogra. Tehmina havia notado que seu lábio inferior tremia. “Beta, desculpe”, começara a dizer, mas Susan não lhe dera ouvidos.

“Não acredito que você tenha feito isso, mamãe. Não acredito que tenha exposto seu único neto a esse tipo de perigo!”

Perigo? Mas não houvera um só carro à vista!

“Susan, querida, a rua estava vazia, e…”

“Não é essa a questão”, viera a resposta, e Tehmina tinha notado, perplexa, que havia lágrimas nos olhos da nora. “A questão é que a doçura do mundo

você está ensinando hábitos pouco saudáveis ao meu filho. Que vai acontecer se ele tentar disparar pela rua quando estiver na escola? Afinal, nós não passamos vinte e quatro horas por dia com ele. E se de repente aparecesse um carro, vindo de algum lugar? Ora, você sabe como essa gente daqui dirige.”

Tehmina sentira uma mescla confusa de emoções – indignação, vergonha, culpa, incredulidade. Havia pessoas a observá-las, fazendo muxoxos de reprovação. Mas reprovação de quem? De Susan, por fazer uma cena em público por uma banalidade? Ou de Tehmina, por ser uma caipira idiota e burra que não sabia atravessar uma rua?

“Desculpe”, repetira ela. “Eu… eu… que é que eu vou fazer, meu bem? Sabe, estamos tão acostumados a atravessar as ruas desse jeito em Bombaim, que eu nem parei para pensar. Você sabe que a última coisa que eu faria seria machucar o Cookie.”

À menção de seu nome, o menino tinha começado a chorar. “Pára, mamãe! Pára de gritar com a vovó!”

Susan franzira os lábios. “Ora, droga. Vamos sair deste sol e voltar para o hotel, pode ser?”

Ao baixar os olhos para o filho, o rosto dela se abrandara.

“Não estou gritando com a vovó, amorzinho. A mamãe só ficou nervosa porque a vovó deu um susto nela, está bem? Vamos combinar assim: a gente vai nadar na piscina quando chegar lá, certo?”

Susan havia procurado manter uma conversa leve no táxi, durante todo o trajeto de volta, e Tehmina tinha correspondido, feliz por ter algo com que se distrair. É que, não fosse por isso, o sentimento sombrio e pesado de vergonha e tristeza que a acabrunhava haveria de ser reconhecido. Fazia muitos anos desde a última vez que alguém lhe dirigira a palavra ou a repreendera do jeito que Susan tinha feito. E em público, ainda por cima. Não havia limites nesse país, não havia fronteiras entre o público e o privado.

À noite, deitada na cama com Rustom, Tehmina tinha descrito o incidente e sua mortificação ao marido. Para sua surpresa, ficara com a voz embargada e os olhos lacrimejantes ao repetir as palavras condenatórias de Susan. Mas já deveria saber que não podia esperar que ele tomasse seu partido. Em muitas ocasiões, havia notado, o marido defendia vigorosamente a nora, chegando até a ficar do lado dela contra o próprio filho. Era seu jeito de pôr a harmonia e o bem-estar da família do filho acima de tudo, ela sabia.

“Velha doida”, dissera ele, em tom brusco. “É claro que a Susan se aborreceu. Você acha que isto aqui é o quê: a sua Mumbai desgastada e decrépita? Esse pessoal está acostumado com disciplina e bons modos. E aí vem você, a própria Madame Ghaati de Bombaim, desrespeita todo o código de trânsito e, ainda por cima, corrompe o nosso Cookie. E espera que a Susan fique parada e aceite uma coisa dessas? Dê-se por satisfeita por ela não a ter empurrado para o meio de uma pista de mão dupla, cheia de trânsito.”

“Mas é essa a questão! Não havia trânsito”, começara Tehmina, acalorada, e então vira o brilho nos olhos do marido e desatara a rir. “Por que você toma o partido de qualquer pessoa do mundo, menos o da sua mulher?”

Rustom a envolvera nos braços: “Porque você é a pessoa mais forte que eu conheço. As outras precisam ser defendidas. Mas você, você é uma rocha de força. Não precisa da minha proteção.”

Errado, Rustom, pensou Tehmina nesse momento. Errado, meu amor. Veja como ando atrapalhada sem você. Veja como não consigo tomar a menor decisão sem você.

Levantou-se da cama e foi descalça até a mesinha sob a janela. Abriu a gaveta e tateou no escuro, até seus dedos encontrarem o metal frio do pequeno porta-retratos.

Com a mão no interruptor de luz acima da cama, Tehmina hesitou. A última coisa que desejava era que a luz vazasse de seu quarto e perturbasse os meninos, que estavam tentando dormir seu sono merecido. Resolveu acender o abajurzinho a seu lado. Sentada na cama, enrolada no edredom de plumas, de modo a ficar apenas com as mãos frias do lado de fora, abriu o porta-retratos duplo. Havia comprado esse porta retratos na Akbarally’s, pouco antes de fazer essa viagem aos Estados Unidos, sabendo que teria de carregar seu Rustom bem perto, se quisesse sobreviver à longa jornada para longe da terra em que seu amado marido morrera, em direção à terra em que seu filho querido vivia, trabalhava, respirava. Tinha hesitado quanto às duas fotografias a levar – uma das fotos do casamento? A de Rustom segurando Sorab pela primeira vez, meia hora depois do nascimento do filho? A do passaporte de Rustom, na qual ele parecia atipicamente sério e carrancudo? Por fim, decidira-se por uma foto do jovem Rustom na casa dos vinte anos e uma fotografia dele meses antes de morrer. Quanto tempo, quantas vidas tinham se passado entre essas duas fotos! No abrir e fechar de olhos entre os dois cliques, eles tinham tido um filho, a quem haviam criado num regime de amor, orgulho e preocupação parentais, haviam experimentado essa mesma trindade de sentimentos – amor, orgulho, preocupação – quando ele partira para os Estados Unidos, tinham ficado tristes, mas não surpresos, quando ele anunciara que ia se casar com uma norte-americana, haviam aceitado e aprendido a gostar de Susan, depois de passar algum tempo com ela, e tinham delirado de alegria com o nascimento do neto. Nessa mesma lasca de tempo, haviam comparecido ao enterro dos pais, perdido alguns de seus amigos mais íntimos para uma miscelânea de doenças e sobrevivido ao susto do câncer de próstata de Rustom. (Até hoje, Tehmina ainda acreditava que Rustom estava, sim, com câncer de próstata na época do exame, mas que suas orações extremamente sinceras, do fundo do coração, haviam alterado os resultados da biópsia.)

Grande parte da vida dela fora vivida com o homem que agora a fitava de sua prisão de vidro. Segurando o porta-retratos perto do rosto, Tehmina roçou a boca nos lábios carnudos e sensuais do marido. Era difícil acreditar que um homem tão passional, acalorado e imponente como Rustom pudesse ficar confinado a um porta-retratos pequeno e barato. Difícil acreditar que todo aquele gosto pela vida, toda aquela grandeza, toda aquela magnificência pudessem ser derrubados por um infarto, que os ossos e a carne desse homem estivessem agora em decomposição no poço da Torre do Silêncio, sem se diferenciarem da carne e dos ossos de homens mais medíocres e temerosos. De que haviam adiantado, pensou Tehmina, todo o trabalho árduo, o sucesso, a paixão dele, sua sede de vida, aquela energia vibrante que lhe corria nas veias, a atividade incessante de sua cabeça inteligente, de que adiantava isso, se tudo podia ser arrancado aos sessenta e sete anos, da mesma forma abrupta de alguém que parasse os ponteiros de um relógio? Para não falar nas dores de parto que a mãe dele devia ter sofrido ao trazê-lo ao mundo, e nos sacrifícios que seus pais tinham feito para colocá-lo em boas escolas, nas horas de vigília a seu lado quando ele ardia em febre na infância, ah, sim, em todo o amor que eles – e depois ela, Tehmina – lhe haviam dado, e no esforço que ela empenhara, depois do casamento, em fazê-lo feliz: em lhe preparar rava, a semolina com açafrão no café da manhã, todos os sábados, em aprender a fazer o dhansak com o sabor exato do da mãe dele, em fazer amor com ele mesmo quando não sentia vontade… Será que nada disso tinha força suficiente para mantê-lo vivo depois dos sessenta e sete anos? Muitas coisas entravam na criação de um homem – a quantidade de arroz, açúcar e lentilhas que tinha de ser cultivada para ele consumir, o número de galinhas, cabras e carneiros que tinham de ser abatidos para que ele pudesse ter carne em seu curry. E era até mais do que isso, na verdade. A coisa remontava aos primórdios do mundo, à divisão dos continentes, à ascensão de uma espécie capaz de andar ereta e ter a oposição do polegar, e prosseguia até a descoberta do fogo, o fechamento do punho, o arremesso da primeira pedra. Quantos incontáveis milhares teriam morrido, tentando descobrir quais bagas eram venenosas, quais não? Quem teria sido o primeiro homem ou mulher a descobrir que o arroz precisava ser cozido por vinte minutos, ou que o milho ficava mais saboroso quando assado? Quantos impérios tinham se erguido e caído, quantos milhões haviam morrido à procura de especiarias? E todo esse trabalho, todo esse conhecimento, todo esse sangue, suor e lágrimas, todas essas conquistas, todas essas vitórias, todas as glórias e misérias da história humana, para quê? Para que um homem, um homem alto como uma montanha, vasto como um oceano, generoso como um continente, pudesse morrer aos sessenta e sete anos?

Tehmina, disse Rustom. Querida, desculpe que lhe diga, mas você está ficando meio tantã, meu bem. Um homem generoso como um continente? Por favor, querida, estou ruborizado com a sua verbosidade.

Tehmina correu os olhos pelo quarto. Ouvira a voz de Rustom tão clara como se ele estivesse deitado a seu lado na cama. Porém ali não havia ninguém além dela. Estou ficando maluca, pensou com seus botões. Não admira que os meninos andem preocupados comigo.

Nesse momento, porém, viu Rustom, sentado ereto, com as pernas cruzadas, num canto do quarto. Ao perceber que ela o tinha avistado, ele se pôs de pé num movimento célere, sem o revelador resmungo da meia-idade que acompanhava cada movimento feito por Tehmina. Em- bora nevasse lá fora, ela notou que Rustom estava vestido como se os dois se preparassem para ir ao cinema numa noite cálida de Bombaim – calças escuras e camisa azul-clara de mangas curtas, que revelava seus braços fortes e musculosos, morenos e reluzentes feito couro. Apesar da iluminação tênue do quarto, ela viu a cicatriz fina e conhecida que descia pelo braço esquerdo do marido, e seus dedos comicharam de vontade de acariciá-la, como tinham feito milhões de vezes no passado. Mas ela sentiu-se tomar pelo medo quando o marido morto atravessou o pequeno quarto de hóspedes e parou à sua frente.

– Tehmina – sussurrou-lhe Rustom. – Escute-me. Tenho uma mensagem para você.

Ela os abriu e viu os olhos castanhos do marido, tão familiares que chegava a doer, fitando atentamente os seus.

– Tehmina, querida. O que eu quero lhe dizer é isto: seja valente. Coragem, janu, minha amada. Foi por essa pessoa que eu me apaixonei, por minha mulher destemida e sem papas na língua. Quem é a mulher tímida e assustadiça que está no lugar dela? Não a reconheço. Então, por favor, janu. Seja feliz. A vida continua, sabe?

– Você pode ficar? – murmurou Tehmina. – Assim eu serei feliz.

Mas viu a expressão sofrida e distante que cobriu o rosto do marido e, no mesmo instante, arrependeu-se de suas palavras.

– Pelo menos você virá me fazer outra visita? – tentou. – Venha me ver de novo…

Dessa vez, Rustom sorriu, um sorriso tão gentil, amoroso e in- temporal, que Tehmina teve a sensação de que toda a história, toda a imensidão do universo, residia naquele sorriso.

– Tehmina, não seja boba. Que quer dizer com eu vir visitá-la? Como posso fazer isso, se estou sempre do seu lado?

Então, felicidade era isso, pensou Tehmina. Ela havia esquecido a sensação, mas a reconheceu de imediato, como o rosto de um colega de escola que se passou trinta anos sem ver.

– Você ficará comigo esta noite? – perguntou, ao mesmo tempo que aninhava o queixo no peito de Rustom.

– Já lhe disse. Eu estou aqui. Agora durma – pediu ele, e lhe afagou o cabelo.

E, assim, Tehmina adormeceu.

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