Trecho do Livro: No Caminho de Swann (Em Busca do Tempo Perdido) | Marcel Proust

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Combray

Durante muito tempo, deitava-me cedo. Às vezes, mal apagada a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Vou dormir”. E, meia hora depois, a idéia de que já era tempo de conciliar o sono me despertava: queria deixar o livro que julgava ainda ter nas mãos e assoprar a vela; dormindo, não havia deixado de refletir sobre o que acabara de ler, porém tais reflexões haviam tomado um aspecto um tanto singular; parecia-me que era de mim mesmo que o livro falava: uma igreja, um quarteto, a rivalidade de Francisco I e Carlos V.

Essa crença sobrevivia por alguns segundos ao meu despertar; não ofendia a razão, mas pesava como escamas sobre os olhos, impedindo-os de perceber que a vela já não estava acesa.

Depois, principiava a me parecer ininteligível, como, após a metempsicose, as idéias de uma existência anterior; o assunto do livro se desligava de mim, eu ficava livre para me adaptar ou não a ele; logo recobrava a vista e me surpreendia bastante por estar rodeado de uma obscuridade, suave e repousante para os olhos, porém ainda mais talvez para o espírito, ao qual surgia como uma coisa sem causa, incompreensível, como algo verdadeiramente obscuro. Perguntava-me que horas poderiam ser; ouvia o silvo dos trens que, mais ou menos afastado, como um canto de pássaro na floresta, assinalando as distâncias, me informava sobre a extensão da campina deserta onde o viajante se apressa em direção à próxima parada: o caminho que ele segue vai lhe ficar gravado na lembrança pela excitação de conhecer novos lugares, praticar atos inusitados, pela conversação recente e as despedidas sob a lâmpada estranha que o seguem ainda no silêncio da noite, e pela doçura próxima do regresso.

Apoiava brandamente as faces contra as belas faces do travesseiro que, cheias e frescas, são como os rostos da nossa infância. Riscava um fósforo para ver o relógio. Quase meia-noite. É o momento em que o enfermo, que teve de viajar e ir dormir num hotel desconhecido, acordado por uma crise, se alegra ao distinguir debaixo da porta um raio de luz. Felicidade! Já é dia! Daqui a pouco os criados vão se levantar, poderá tocar a campainha, virão prestar-lhe socorro. A esperança de ser aliviado lhe dá coragem para suportar o sofrimento. Ainda agora pensou ouvir passos; os passos se aproximam e logo se afastam. E o fio de luz que estava sob a porta desapareceu. É meia-noite; acabam de apagar o gás; o último criado já se retirou e é preciso ficar a noite inteira sofrendo sem remédio.

Voltava a adormecer, e às vezes só despertava por um breve instante, suficiente para ouvir os estalos orgânicos do madeirame, abrir os olhos para encarar o caleidoscópio da escuridão e desfrutar, graças a um clarão momentâneo da consciência, do sono em que estavam mergulhados os móveis, o quarto, aquele todo do qual eu não era mais que uma parte ínfima, e a cuja insensibilidade rapidamente regressava. Ou então, enquanto dormia, havia regredido sem esforço a uma era para sempre passada da minha vida primitiva, voltando a encontrar alguns de meus terrores infantis como o de que meu tio-avô me puxasse pelos cachos do cabelo e que se dissipara no dia em que – data, para mim, de uma nova era – os havia cortado. Este acontecimento, eu o esquecera durante o sono, porém sua lembrança vinha-me logo que atinava em despertar para fugir às mãos de meu tio-avô, e por medida de precaução envolvia completamente a cabeça com o travesseiro antes de retornar ao mundo dos sonhos.

Às vezes, como Eva nasceu de uma costela de Adão, uma mulher nascia durante o meu sono, de uma falsa posição de minha coxa. Originária do prazer que eu estava a ponto de sentir, julgava que ela é quem o oferecia. Meu corpo, que no dela sentia o meu próprio calor, procurava unir-se a ele, e eu acordava. O resto dos seres humanos parecia-me algo bem remoto comparado àquela mulher que eu havia deixado momentos antes; minhas faces ainda estavam quentes do seu beijo, meu corpo sentia-se dolorido pelo peso do seu. Se, como às vezes ocorria, ela apresentasse as feições de uma mulher que conhecera na vida, ia dedicar-me totalmente a esse objetivo: encontrá-la de novo, como os que seguem viagem para ver com os próprios olhos uma cidade desejada e imaginam ser possível desfrutar, em uma realidade, o encanto do sonho. Aos poucos, a sua lembrança se esvanecendo, eu esquecia a filha do meu sonho.

Um homem que dorme sustenta em círculo, a seu redor, o fio das horas, a ordenação dos anos e dos mundos. Ao acordar, consulta-os por instinto e neles verifica, em um segundo, o ponto da terra em que se localiza, o tempo que transcorreu até o seu despertar; mas essa ordem pode se confundir e romper. Se, pela madrugada, após uma insônia, o sono vem surpreendê-lo durante a leitura, numa posição bem diferente daquela em que costuma dormir, basta seu braço erguido para parar e fazer recuar o sol, e no primeiro minuto ao despertar já não mais saberá as horas, achando que mal acaba de se deitar. Se adormecer em posição ainda mais desusada e diversa, por exemplo depois do jantar, sentado numa poltrona, então a reviravolta será completa nos mundos fora de órbita, a poltrona mágica o fará viajar a toda velocidade no tempo e no espaço, e, no momento de abrir as pálpebras, julgará estar deitado alguns meses antes, numa região diferente.

Bastaria, no entanto, que eu estivesse dormindo no meu próprio leito e que meu sono fosse profundo, para relaxar-se a tensão do meu espírito; então, este perdia o plano do local onde eu adormecera, e quando eu despertasse no meio da noite, como ignorasse onde me encontrava, nem mesmo saberia, no primeiro instante, quem era; tinha somente, na sua simplicidade primitiva, o sentimento da existência tal como pode palpitar no íntimo de um animal; era mais carente que o homem das cavernas; aí então a lembrança – não ainda do lugar em que estava, mas de outros onde havia morado e onde poderia estar – me chegava como um socorro do alto para me livrar do nada de onde não poderia sair sozinho; num segundo, eu passava por sobre séculos de civilização e a imagem confusamente entrevista de lampiões de querosene, e depois, de camisas de gola virada, recompunham aos poucos os traços originais do meu próprio eu.

Talvez a imobilidade das coisas ao nosso redor lhes seja imposta pela nossa certeza de que tais coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nosso pensamento em relação a elas. A verdade é que, quando eu assim acordava, meu espírito agitando-se para tentar saber, sem o conseguir, onde me encontrava, tudo girava ao meu redor no escuro, as coisas, os países, os anos. Meu corpo, entorpecido demais para se mexer, buscava, segundo a forma do seu cansaço, localizar a posição dos membros para daí deduzir a direção da parede, a situação dos móveis, para reconstruir e denominar a moradia em que se achava. Sua memória, a memória de suas costelas, dos joelhos, dos ombros, lhe apresentava sucessivamente vários quartos onde havia dormido, ao passo que em seu redor as paredes invisíveis, mudando de lugar conforme o aspecto da peça imaginada, giravam nas trevas. E antes mesmo que meu pensamento, vacilante no limiar dos tempos e das formas, tivesse identificado o aposento para reunir as circunstâncias, ele – meu corpo – recordava, para cada quarto, o tipo de cama, o local das portas, o lado para onde davam as janelas, a existência de um corredor, tudo isso com o pensamento que eu tivera ao adormecer e que voltava a encontrar quando despertava. Meu flanco anquilosado, procurando adivinhar sua orientação, imaginava-se, por exemplo, ao longo da parede em um grande leito de dossel, e eu logo me dizia: “Ora, acabei dormindo antes que mamãe viesse me dar boa-noite”; estava então no campo, em casa do meu avô, morto havia muitos anos. E meu corpo, o flanco sobre o qual estava deitado, guardião fiel de um passado que meu espírito jamais deveria esquecer, me recordava a chama da lâmpada de cristal da Boêmia, em forma de urna, suspensa do teto por pequenas correntes, a lareira de mármore de Siena, no meu quarto de dormir de Combray, na casa dos avós, em dias longínquos que naquele momento eu julgava atuais, sem deles formar uma idéia exata e que voltaria a ver bem melhor dali a pouco, quando despertasse completamente.

Depois renascia a lembrança de uma nova atitude; a parede fugia em outra direção: eu estava em meu quarto na casa de Mme. de Saint-Loup, no campo; meu Deus! São pelo menos dez horas, já devem ter acabado de jantar! Devo ter prolongado demais a sesta que faço todas as tardinhas ao voltar do meu passeio com Mme. de Saint-Loup, antes de pôr a casaca. Pois muitos anos haviam transcorrido desde o tempo de Combray, onde, em nossos regressos mais atrasados, eram os reflexos rubros do poente o que eu via nos vidros da minha janela. Bem diverso é o tipo de vida que se leva em Tansonville, na casa de Mme. de Saint-Loup, diverso o tipo de prazer que encontro em só sair à noite, a seguir ao luar os caminhos onde brincava antigamente ao sol; e o quarto onde terei adormecido em vez de preparar-me para o jantar, percebo-o de longe, ao voltarmos, iluminado pelo clarão da lâmpada, único farol dentro da noite.

Essas evocações turbilhonantes e confusas nunca duravam mais que uns poucos segundos; muitas vezes, a breve incerteza quanto ao local em que me achava também não deixava distinguir, umas das outras, as diversas suposições de que era feita, como não podemos isolar, vendo um cavalo na corrida, as posições sucessivas que nos mostra o cinescópio.

Mas ora um, ora outro, eu havia revisto os quartos que habitara na minha vida, e acabava por lembrá-los todos nos longos devaneios que se seguiam ao despertar; quartos de inverno onde, quando estamos deitados, aconchegamos a cabeça com um monte de coisas disparatadas: um canto do travesseiro, a parte superior das cobertas, a ponta de um xale, a beira da cama, e um número dos Débats roses, coisas que por fim começamos a firmar bem, segundo a técnica dos pássaros, calcando-as indefinidamente; onde, num templo glacial, todo o prazer consiste em se sentir separado do exterior (como a andorinha do mar, que faz seu ninho no fundo de um subterrâneo, no calor da terra), e onde, estando aceso o fogo a noite toda na lareira, a gente dorme sob um grande manto de ar quente e enfumaçado, cortado de lampejos dos tições que se avivam, espécie de alcova impalpável, de caverna aquecida, escavada no seio do próprio quarto, região ardente e móvel em seus contornos térmicos, arejada pelos sopros que nos refrescam o rosto e provêm dos ângulos, das partes vizinhas à janela ou distanciadas da lareira, e que se resfriaram: – quartos de verão, onde gostamos de ficar unidos à noite morna, onde o luar, apoiado nos postigos entreabertos, lança até o pé da cama a sua escada mágica, onde se dorme quase ao ar livre, como o abelharuco embalado pela brisa na ponta de um galho; às vezes era o quarto em estilo Luís xvi, tão alegre que até na primeira noite não me sentira muito infeliz, e onde as colunatas que sustentavam levemente o teto se afastavam com tanta graça para mostrar e reservar o local da cama; às vezes, ao contrário, era outro quarto, pequeno e de teto tão elevado, aberto em forma de pirâmide à altura de dois andares e parcialmente revestido de mogno, onde, desde o primeiro segundo, eu fora moralmente intoxicado pelo aroma desconhecido do patchuli, convencido da hostilidade das cortinas roxas e da indiferença insolente da pêndula, que tagarelava bem alto como se eu não estivesse ali -; onde um estranho espelho impiedoso, de pés quadrangulares, barrando obliquamente um dos cantos da peça, ocupava à força, na suave plenitude do meu campo visual de costume, um lugar que não estava previsto -; onde o meu pensamento, esforçando-se durante horas por se deslocar, por se expandir em altura, a fim de tomar exatamente a forma do quarto e preencher até em cima o seu gigantesco funil, passava noites de muito sofrimento, enquanto eu estava estendido na cama, os olhos erguidos, o ouvido ansioso, as narinas rebeldes, coração palpitante: até que o hábito houvesse mudado a cor das cortinas, fizesse calar a pêndula, derramasse piedade no espelho oblíquo e, mau, dissimulasse, senão expulsasse por completo, o cheiro do patchuli e diminuísse sensivelmente a altura aparente do teto. O hábito! arrumadeira hábil mas bastante morosa e que principia por deixar sofrer nosso espírito durante semanas numa instalação provisória; mas que, apesar de tudo, a gente se sente bem feliz ao encontrá-la, pois sem o hábito e reduzido a seus próprios meios, seria nosso espírito impotente para tornar habitável qualquer aposento.

Certamente, eu estava bem desperto agora, meu corpo havia dado uma última volta e o bom anjo da certeza havia fixado tudo ao meu redor, me deitara sob as minhas cobertas, no meu quarto, e colocara aproximadamente em seus lugares, na escuridão, minha cômoda, a escrivaninha, a lareira, a janela que dava para a rua e as duas portas. Mas, por mais que eu soubesse que não me achava nas residências que a ignorância do despertar me houvera por um instante senão apresentado a imagem nítida, ao menos me fizera acreditar sua presença possível, um impulso fora dado à memória; em geral, não procurava adormecer de imediato; passava a maior parte da noite a relembrar nossa vida de outrora, em Combray, na casa da minha tia-avó, em Balbec, em Paris, em Doncières, em Veneza, em outros lugares ainda, a recordar os locais, as pessoas que ali conhecera, o que delas havia visto, e o que me haviam contado a respeito.

Em Combray, todos os dias desde o fim da tarde, muito antes do momento em que seria preciso me deitar e ficar, sem dormir, longe de minha mãe e de minha avó, o quarto de dormir se tornava o ponto fixo e doloroso de minhas preocupações. Para me distrair nas noites em que me julgavam muito infeliz, haviam inventado de me dar uma lanterna mágica, com a qual cobriam minha lâmpada, enquanto esperávamos a hora de jantar; e, à maneira dos primeiros arquitetos e mestres vidraceiros da era gótica, a lanterna substituía a opacidade das paredes por irisações impalpáveis, aparições sobrenaturais multicores, onde eram pintadas legendas como num vitral vacilante e instantâneo. Porém isso fazia aumentar ainda mais a minha tristeza, pois a mudança de iluminação destruía o hábito do meu quarto, graças ao qual, salvo o suplício de me deitar, ele se me tornava suportável. Agora, não o reconhecia mais e sentia-me inquieto, como num quarto de hotel ou de um chalé, ao qual tivesse chegado pela primeira vez ao descer de um trem. Ao passo sacudido de seu cavalo, Golo, cheio de um desígnio atroz, saía da pequena floresta triangular que aveludava de um verde sombrio a encosta de uma colina, e avançava, aos solavancos, para o castelo da infeliz Geneviève de Brabant.

Esse castelo era recortado conforme uma linha curva que era apenas o limite de uma das ovais de vidro inseridas no caixilho que deslizava à frente da lanterna. Não passava de um muro de castelo e tinha diante dele um campo aberto onde meditava Geneviève, que usava um cinto azul. O castelo e o campo eram amarelos e eu não esperava o momento de vê-los para saber a sua cor, pois, antes dos vidros do caixilho, a sonoridade vermelho-dourada do nome de Brabant mostrara-o em toda a sua evidência. Golo parava um instante para ouvir com tristeza a arenga lida em voz alta por minha tia-avó e que dava a impressão de compreender muito bem, adequando sua atitude, com uma brandura não isenta de certa majestade, às indicações do texto; depois se afastava no mesmo passo sacudido. E nada poderia deter sua lenta cavalgada. Se mexiam na lanterna, eu distinguia o cavalo de Golo que continuava a avançar sobre as cortinas da janela, inflando-se nas suas dobras, afundando-se nas suas fendas. Mesmo o corpo de Golo, de uma essência tão sobrenatural como o da sua montaria, aproveitava todo obstáculo material, todo objeto incômodo que aparecesse, para tomá-lo como ossatura e torná-lo interior, ainda que se tratasse da maçaneta da porta, à qual se adaptava logo, e onde sobrenadava invencivelmente o seu manto vermelho ou seu rosto pálido sempre tão nobre e tão melancólico, mas que não deixava transparecer qualquer inquietude por essa transverberação.

É claro que eu achava um encanto todo especial nessas brilhantes projeções que pareciam emanar de um passado merovíngio e faziam passear a meu redor tão remotos reflexos de história. No entanto, não poderia descrever que mal-estar me provocava essa irrupção de mistério e de beleza no meu quarto que eu acabara de preencher com o meu eu a ponto de não dar mais atenção a ele do que a mim mesmo. A influência anestesiante do hábito passara, e eu me punha a pensar e a sentir – coisas tão tristes. A maçaneta da porta, que para mim era diferente de todas as outras maçanetas do mundo, nisto que parecia abrir sozinha, sem que tivesse necessidade de girá-la, de tal modo se me tornara inconsciente o seu manuseio, eis que servia agora de corpo astral para Golo. E logo que chamavam para jantar, sentia pressa de correr para o refeitório onde a grande lâmpada do teto, sem saber de Golo ou de Barba-Azul, e que conhecia meus pais e o bife à caçarola, espalhava a sua luz de todas as noites; e de cair nos braços de mamãe, que as desgraças de Geneviève de Brabant me tornavam mais querida, ao passo que os crimes de Golo me faziam examinar minha própria consciência com maior escrúpulo.

Infelizmente, depois do jantar eu era logo obrigado a deixar mamãe, que ficava conversando com os outros, no jardim, se fazia bom tempo, ou na saleta onde todos se abrigavam se chovia. Todos, menos minha avó, que achava que “é uma pena ficar a gente encerrada, no campo” e que tinha discussões intermináveis com meu pai, nos dias em que chovia forte, porque ele me mandava ler no quarto ao invés de ficar de fora. “Não é assim que você vai fazê-lo robusto e enérgico”, dizia ela tristemente, “principalmente este menino que precisa tanto de forças e de vontade.” Meu pai dava de ombros e examinava o barômetro, pois gostava de meteorologia, enquanto minha mãe, evitando fazer barulhos para não perturbá-lo, olhava-o com respeito carinhoso, mas não fixamente para não dar a entender que buscava devassar o mistério da sua superioridade.

Quanto à minha avó, em qualquer tempo, mesmo quando a chuva caía com força e Françoise entrava com precipitação recolhendo as poltronas preciosas de vime para que não se molhassem, era vista no jardim vazio e fustigado pelo aguaceiro, levantando as mechas grisalhas e desordenadas para que sua testa melhor se embebesse da salubridade do vento e da chuva. Costumava dizer: “Enfim, respira-se!”, e percorria as aléias encharcadas do jardim, muito simetricamente alinhadas para seu gosto, pelo novo jardineiro destituído do sentimento da natureza e ao qual meu pai havia perguntado desde a manhã cedinho se o tempo iria se firmar – com seu passo entusiasmado e brusco, regulado pelos diversos impulsos que em sua alma excitavam a embriaguez da tempestade, o poder da higiene, a estupidez da minha educação e a simetria dos jardins, mais que pelo desejo, que desconhecia, de evitar as manchas de lama na saia cor de ameixa e que a cobriam até uma altura que sempre faziam o desespero e o problema de sua criada de quarto.

Quando os passeios de minha avó pelo jardim aconteciam depois do jantar, uma coisa tinha o poder de fazê-la voltar logo: era – num desses momentos em que as voltas do seu passeio a levavam periodicamente, como um inseto, na direção das luzes da saleta, onde eram servidos os licores na mesinha de jogo – quando minha tia-avó lhe gritava: “Bathilde! vem ver se impedes que o teu marido beba conhaque!” Para aborrecê-la, de fato (ela trouxera à família de meu pai um espírito tão diverso que todos zombavam dela e a atormentavam), visto que os licores eram proibidos a meu avô, minha tia-avó fazia-o beber algumas gotas. Minha pobre avó entrava, implorava ao marido com ardor que não bebesse conhaque; ele se zangava, bebia apesar de tudo o seu gole, e minha avó tornava a sair, triste, desanimada, no entanto risonha, pois tinha o coração tão humilde e era tão doce que sua ternura pelos outros e a pouca importância que atribuía à própria pessoa e a seus sofrimentos conciliavam-se no seu olhar com um sorriso onde, contrariamente ao que se vê no rosto de muita gente, só era irônica consigo mesma, e era para todos nós como um beijo de seus olhos, que não podiam ver os que ela amava sem os acariciar apaixonadamente com o olhar.

Este suplício que lhe infligia a minha tia-avó, o espetáculo das súplicas baldadas de minha avó e de sua franqueza, de antemão vencida, tentando em vão tirar de meu avô o cálice de licor, era dessas coisas a cuja vista a gente se habitua mais tarde até a considerarem risos e a tomar o partido do perseguidor, resoluta e alegremente, para se persuadir que não se trata de perseguição; na ocasião, causavam-me um tal horror que me dava vontade de bater na minha tia-avó.

Porém quando ouvia: “Bathilde! vem ver se impedes que o teu marido beba conhaque!”, já adulto pela covardia, eu fazia o que todos fazemos, quando somos grandes, e há diante de nós sofrimentos e injustiças: não queria vê-los; subia para soluçar lá no alto da casa, numa peça ao lado da sala de estudos, sob os telhados, uma salinha que cheirava a íris, também aromada por uma groselheira silvestre que crescia do lado de fora entre as pedras do muro e passava um ramo florido pela janela entreaberta. Destinada a uma utilidade mais especial e mais vulgar, essa peça, de onde, durante o dia, se enxergava até o torreão de Roussainville-Pin, serviu por muito tempo de refúgio para mim, sem dúvida por ser a única que me permitiam fechasse à chave, para todas as minhas ocupações que exigissem solidão inviolável: a leitura, o devaneio, as lágrimas e a volúpia. Infelizmente, eu não sabia então que, muito mais tristemente que as pequenas infrações ao regime do marido, era a minha falta de vontade, minha saúde delicada, a incerteza que elas projetavam sobre o meu futuro que preocupavam a minha avó no decurso das deambulações incessantes, de tarde e de noite, quando se via passar e repassar, obliquamente erguido contra o céu, seu belo rosto de faces morenas e enrugadas, que, com o passar do tempo, se haviam tornado quase cor de malva como as lavouras pelo outono, e que ela cobria, ao sair, com um pequeno véu semi-erguido, e nas quais, trazidas pelo frio ou algum pensamento triste, estavam sempre secando lágrimas involuntárias.

Ao subir para me deitar, meu consolo único era que mamãe fosse me beijar quando já estivesse na cama. Mas durava tão pouco isso, e ela descia tão depressa, que o momento em que a ouvia subir, e depois quando ela passava pelo corredor de porta dupla o ruído ligeiro de seu vestido de jardim, de musselina azul, com pequenos tirantes de palha trançada, era um momento doloroso.

Anunciava o que ia ocorrer a seguir, quando ela me teria deixado, quando voltasse a descer. De modo que essas boas-noites que eu amava tanto, chegava a desejar que viessem o mais tarde possível, para que se prolongasse o tempo de espera em que mamãe ainda não chegara. Às vezes, quando, depois de me haver beijado, ela abria a porta para ir embora, eu queria chamá-la, dizer-lhe “beija-me mais uma vez”, mas sabia que ela logo se mostraria zangada, pois a concessão que fazia à minha tristeza e à minha agitação ao subir para me beijar, levando-me aquele beijo de paz, irritava meu pai, que julgava absurdo esse ritual, e ela, que punha tanto empenho em me fazer perder esse hábito, estava longe de deixar que adquirisse o de lhe pedir um novo beijo quando já estava à porta. Vê-la aborrecida, assim, destruía todo o sossego que ela me trouxera um momento antes, quando inclinara sobre o meu leito o rosto amoroso, ofertando-o como uma hóstia para uma comunhão de paz, em que meus lábios saboreariam a sua presença real e o poder de adormecer. Mas essas noites em que mamãe, enfim, se demorava tão pouco tempo no meu quarto eram ainda suaves em comparação com aquelas em que havia convidados para jantar, e nas quais, por causa disso, ela não subia para me dar boa-noite.

Em geral, a visita se limitava ao Sr. Swann, que, afora alguns forasteiros eventuais, era quase a única pessoa que vinha habitualmente à nossa casa em Combray, às vezes para jantar como vizinho (mais raramente desde que fizera um mau casamento, pois meus pais não queriam receber sua mulher), às vezes após o jantar, sem ser esperado. Nas noites em que, sentados na frente da casa sob o grande castanheiro, ao redor da mesa de ferro, ouvíamos no portão do jardim não o barulho confuso e estridente da sineta, que ensurdecia, com seu ruído ferruginoso, inextinguível e gélido, toda pessoa da casa que a disparava ao entrar “sem tocar”, mas o duplo toquezinho tímido, oval e dourado da campainha para os estranhos, todo mundo logo perguntava: “Uma visita, quem poderá ser?”, mas sabia-se muito bem que só poderia ser o Sr. Swann; minha tia-avó, falando em voz alta para dar o exemplo, com um tom que se esforçava por tornar natural, dizia que não cochichassem daquela maneira; que nada é mais impolido para quem chega, que poderá imaginar, com isso, que se dizem coisas que não deve ouvir; e mandavam à frente, para tirar a limpo o que ocorria, a minha avó, sempre feliz por ter um pretexto para dar uma voltinha a mais pelo jardim e que aproveitava para arrancar às escondidas, ao passar, algumas estacas de roseiras, a fim de dar às rosas um aspecto mais natural, como uma mãe que encaracola os cabelos do filho porque o barbeiro os deixara muito lisos.

Ficávamos todos na expectativa das novidades que minha avó iria trazer do inimigo, como se fosse possível hesitar entre um grande número de assaltantes eventuais, e logo após meu avô dizia: “Reconheço a voz de Swann.” De fato, só se reconhecia a voz dele, mal se enxergava o rosto de nariz recurvo, olhos verdes, sob a testa larga rodeada de cabelos louros, quase ruivos, penteados à Bressant, porque acendíamos o menos possível de luz no jardim para não atrair os mosquitos, e eu ia, disfarçadamente, mandar dizer que trouxessem refrescos; minha avó achava muito importante, por lhe parecer mais amável, que os refrescos fossem servidos como por costume, e não de modo excepcional e unicamente para os visitantes. O Sr. Swann, embora muito mais jovem que meu avô, era bastante ligado a ele, que fora um dos melhores amigos de seu pai, homem excelente mas esquisito, a quem às vezes bastava uma ninharia, parece, para interromper os impulsos afetivos ou mudar-lhe o curso do pensamento. Várias vezes ao ano, eu ouvia meu avô contar à mesa sempre as mesmas anedotas sobre a atitude que Swann pai tivera por ocasião da morte da esposa, de quem cuidava dia e noite.

Meu avô, que o não via há muito, correra para junto dele, na propriedade dos Swann que ficava nas redondezas de Combray; e conseguira fazê-lo deixar por um instante, todo em lágrimas, a câmara mortuária, para que não assistisse ao fechamento do caixão. Deram alguns passos pelo parque, onde brilhava um pouco de sol. De súbito, o velho Swann se pôs a gritar pegando o braço de meu avô: “Ah, meu velho amigo! Que felicidade passearmos juntos num dia tão lindo. Não acha bonito tudo isto, estas árvores, os espinheiros-alvares e o meu tanque? Você nunca me felicitou pelo meu tanque! Mas que cara triste é essa? Está sentindo o ventinho agora? Ah! por mais que se diga, existe ainda muita coisa boa na vida, meu caro Amédée!”

Bruscamente a recordação da esposa morta lhe voltou, e achando muito complicado sem dúvida explicar como podia ter se deixado levar por um movimento de alegria num momento daqueles, contentou-se, com um gesto que lhe era familiar todas as vezes que uma questão difícil se apresentava a seu espírito, em passar a mão pela testa, enxugar os olhos e limpar os vidros do pince-nez.

Não pôde, no entanto, consolar-se da morte da esposa, mas nos dois anos que lhe sobreviveu, dizia a meu avô: “É engraçado, penso muitas vezes na minha pobre mulher, mas não consigo pensar muito de cada vez.” – “Muitas vezes, mas pouco de cada vez, como o pobre velho Swann”, tornara-se uma das frases favoritas de meu avô, que ele pronunciava a propósito das mais diversas coisas. Esse velho Swann na certa me pareceria um monstro, se meu avô, que eu considerava o melhor juiz e cujas sentenças faziam jurisprudência para mim, ajudando-me com freqüência a absolver faltas que me sentia propenso a condenar, não exclamasse: “Mas como? Era um coração de ouro!”

Durante muitos anos, quando o Sr. Swann filho vinha nos visitar com freqüência em Combray, sobretudo antes do seu casamento, minha tia-avó e meus avós nunca suspeitaram que ele já não vivia na sociedade que sua família freqüentava e que, sob a espécie de incógnito que lhe aureolava em nossa casa esse nome de Swann, eles acolhiam – com a perfeita inocência de honrados hospedeiros que podem ter, sob seu teto, sem sabê-lo, um bandido célebre – um dos membros mais elegantes do Jockey-Club, amigo predileto do conde de Paris e do príncipe de Gales, um dos homens mais cortejados da alta sociedade do bairro de Saint-Germain.

Nossa ignorância acerca dessa brilhante vida mundana que Swann levava provinha evidentemente, em parte, da reserva e da discrição de seu temperamento, mas também do fato de que os burgueses da época faziam da sociedade uma idéia um tanto hindu, considerando-a como composta de castas estanques, nas quais cada um, desde o nascimento, se achava colocado na posição ocupada pelos pais, e de onde nada os poderia tirar para fazer penetrar em uma casta superior, a não ser pelo acaso de uma carreira excepcional ou de um casamento inesperado. O Sr. Swann pai tinha sido corretor; o “filho Swann” deveria, portanto, fazer parte a vida inteira de uma casta em que as fortunas, como numa certa categoria de contribuintes, variavam entre tal e tal renda. Sabia- -se quais tinham sido as relações de seu pai, sabia-se, desse modo, quais seriam as suas, que espécie de pessoas estaria “em condições” de freqüentar.

Se por acaso conhecesse outras, seriam simples relações de rapaz às quais os velhos amigos da família, como era o caso de meus pais, fechavam os olhos com benevolência, tanto mais que ele, mesmo depois de órfão, continuava a visitar-nos fielmente; mas seria de apostar que as pessoas, desconhecidas de nós, que ele freqüentava, eram dessas a quem ele não ousaria tirar o chapéu em nossa presença quando as encontrasse. Se se desejasse aplicar à viva força, a Swann, um coeficiente social próprio, dentre os outros filhos de corretores de situação idêntica a de seus pais, tal coeficiente não seria dos mais altos, pois Swann, de maneiras muito simples e tendo sempre a “mania” de objetos de antigüidade e pintura, morava agora numa velha casa onde ajuntava as suas coleções e que minha avó sonhava conhecer, mas que se situava no cais de Orléans, bairro em que minha tia-avó achava uma infâmia morar.

“Mas o senhor é um conhecedor? Pergunto-lhe em seu próprio interesse, pois os comerciantes lhe devem impingir muitas porcarias”, dizia-lhe minha tia-avó; de fato, ela não lhe atribuía competência alguma e nem sequer fazia uma alta idéia, do ponto de vista intelectual, do homem que na conversação evitava assuntos sérios e demonstrava uma precisão bastante prosaica não só quando nos dava, entrando nos mínimos detalhes, receitas culinárias, mas mesmo quando as irmãs de minha avó falavam de temas artísticos.

Provocado por elas a dar a sua opinião, a exprimir sua admiração por um quadro, Swann mantinha um silêncio quase grosseiro, mas em compensação abria-se quando podia fornecer algum informe material sobre o museu onde tal quadro se encontrava, e sobre a data em que fora pintado. Porém de hábito contentava-se em procurar divertir-nos contando, de cada vez, uma história nova que lhe acabava de ocorrer com pessoas escolhidas entre as que conhecíamos, com o farmacêutico de Combray, com a nossa cozinheira, o nosso cocheiro.

Certamente essas narrativas faziam rir a minha tia-avó, mas sem que ela percebesse bem se era por causa do papel ridículo que nelas Swann se atribuía sempre, ou pelo espírito com que as contava: “O senhor é um verdadeiro tipo, senhor Swann!” Como ela era a única pessoa um tanto vulgar da nossa família, fazia questão de notar aos estranhos, quando se falava em Swann, que ele teria podido, se quisesse, morar no bulevar Haussmann ou na avenida da ópera, que era filho do Sr. Swann, que este lhe devia ter deixado uns quatro ou cinco milhões, e que isto de residir no cais de Orléans era simples capricho seu.

Capricho que, de resto, ela julgava dever ser tão divertido para os outros que, em Paris, quando o Sr. Swann vinha, no dia 1o de janeiro, lhe trazer seu saquinho de marrons-glacês, ela não deixava de lhe dizer, se havia estranhos: “Senhor Swann, quer dizer então que o senhor mora sempre perto do Entreposto de Vinhos, para ter certeza de não perder o trem quando vai para Lyon?” E olhava as outras visitas com o rabo dos olhos, por cima do pince-nez.

Mas se houvessem dito à minha tia-avó que este Swann – perfeitamente credenciado, dada a sua origem, para ser recebido por toda a “alta burguesia”, pelos tabeliães e advogados mais ilustres de Paris (privilégio que ele parecia desdenhar um pouco) – tinha, como que às escondidas, uma vida inteiramente diferente; que, saindo de nossa casa, em Paris, depois de nos ter dito que iria dormir, arrepiava caminho mal dobrasse a esquina e se dirigia para um salão que nunca os olhos de um corretor ou sócio de corretor contemplaram, isso teria parecido tão incrível à minha tia como, para uma dama mais culta, a idéia de manter relações pessoais com Aristeu e de que este, depois de conversar com ela, iria mergulhar nos reinos de Tétis, um império oculto aos olhos dos mortais e onde Virgílio no-lo descreve acolhido de braços abertos; ou, para nos atermos a uma imagem de maior probabilidade de lhe ocorrer ao espírito, pois ela a havia visto pintada em nossos pratos de biscoito de Combray – que tivera no jantar Ali-Babá, o qual, quando se visse sozinho, penetraria na caverna a rebrilhar de tesouros insuspeitados.

Um dia em que ele nos visitara em Paris após o jantar, desculpando-se por estar de casaca, dissera-nos Françoise, depois que partira, que soubera pelo cocheiro que ele jantara “na casa de uma princesa”. “Sim, de uma princesa do demi-monde!”, retrucara minha tia dando de ombros, numa ironia serena, sem erguer os olhos do tricô.

Desse modo, minha tia-avó tratava-o com alguma superioridade. Como pensava que ele devia se sentir lisonjeado com nossos convites, achava muito natural que não nos visitasse, no verão, sem trazer à mão uma cestinha de pêssegos ou framboesas do seu jardim e que de todas as suas viagens à Itália me trouxesse fotografias de obras-primas.

Ninguém se sentia constrangido em mandar chamá-lo quando havia necessidade de molho gribiche ou de salada de ananás para os grandes jantares aos quais não o convidavam, já que não lhe atribuíam prestígio suficiente para ser apresentado aos estranhos que vinham pela primeira vez.

Se a conversa recaía sobre os príncipes da Casa de França: “Pessoas que nem o senhor nem eu jamais conheceremos, nem fazemos questão de conhecer, não é mesmo?”, dizia a minha tia-avó a Swann, que talvez trouxesse no bolso uma carta de Twickenham; e mandava-o empurrar o piano e virar as folhas nas noites em que a irmã de minha avó cantava, demonstrando para com aquela pessoa tão solicitada em outros lugares a ingênua rudeza de uma criança que brinca com um bibelô de coleção tão despreocupada como se fosse um objeto vulgar. Sem dúvida, o Swann conhecido por tantos sócios do clube àquela época era bem diverso do que minha tia criava em sua cabeça, quando à noitinha, no jardinzinho de Combray, após ressoarem os dois toques hesitantes da sineta, ela insuflava e vivificava, com tudo o que sabia sobre a família Swann, o personagem obscuro e incerto que se destacava, seguido de minha avó, sobre um fundo de trevas e que era reconhecido pela voz. Porém mesmo do ponto de vista das coisas mais insignificantes da vida nós não somos um todo materialmente constituído, idêntico para todas as pessoas, e de que cada um não tem mais que tomar conhecimento, como se se tratasse de um livro de contabilidade ou de um testamento; nossa personalidade social é uma criação do pensamento alheio. Até o ato tão simples a que chamamos “ver uma pessoa que conhecemos” é em parte uma ação intelectual.

Preenchemos a aparência física do ser que vemos com todas as noções que temos a seu respeito, e, para o aspecto global que nos representamos, tais noções certamente entram com a maior parte. Acabam por arredondar tão perfeitamente as faces, por seguir com tão perfeita aderência a linha do nariz, vêm de tal forma matizar a sonoridade da voz como se esta fosse apenas um envoltório transparente, que, cada vez que vemos esse rosto e ouvimos essa voz, são essas as noções que reencontramos, que escutamos. Sem dúvida, no Swann que haviam construído para si mesmos, meus pais tinham omitido, por ignorância, uma multidão de particularidades de sua vida mundana que faziam com que outros, em sua presença, vissem todas as elegâncias dominar-lhe o rosto até o nariz recurvo, que era como que sua fronteira natural; mas também tinham podido acumular naquele rosto despojado de seu prestígio, vago e espaçoso, no fundo desses olhos depreciados, o suave e incerto resíduo – um tanto memória, um tanto esquecimento – das horas ociosas passadas em nossa companhia após os jantares semanais, ao redor da mesa de jogo ou no jardim, durante a nossa vida de boa vizinhança campestre. E com tudo isto, de tal modo se enchera o envoltório corporal de nosso amigo, bem como de algumas recordações relativas a seus pais, que este Swann se tornara um ser completo e vivo – e eu tenho a impressão de deixar uma pessoa para ir me encontrar com outra bem distinta quando, na minha memória, passo do Swann que conheci mais tarde em detalhe para esse primitivo Swann – no qual reencontro os erros encantadores da minha juventude, e que aliás se parece menos com o outro do que com as pessoas que conheci na mesma época, como se ocorresse em nossa vida o mesmo que num museu, onde todos os quadros de uma mesma época têm um ar de família, uma mesma totalidade -, esse primitivo Swann cheio de lazeres, perfumado pelo aroma do grande castanheiro, do cestinho de framboesas e de um tantinho de estragão.

No entanto, um dia em que minha avó tinha ido pedir um obséquio a uma dama que conhecera no Sacré-Coeur (e com a qual, devido à nossa concepção de castas, não quisera mais ter relações apesar de uma simpatia recíproca), a marquesa de Villeparisis da célebre família de Bouillon, esta lhe dissera: “Creio que você conhece bem o Sr. Swann, que é um grande amigo dos meus sobrinhos de Laumes.” Minha avó regressara da visita entusiasmada com a mansão que dava para jardins e onde a Sra. de Villeparisis lhe aconselhara que alugasse casa, e também com um alfaiate e sua filha, cuja loja ficava no pátio e onde ela entrara para pedir que lhe dessem um ponto na saia, que fora rasgada na escadaria. Minha avó achara-os perfeitos, declarando que a menina era uma pérola e que o alfaiate era um homem muito distinto, o melhor que ela já vira.

Pois para ela a distinção era algo absolutamente independente do nível social. Extasiava-se com uma resposta que o alfaiate lhe dera, dizendo a mamãe: “Sevigné não teria dito melhor!” e, por outro lado, a respeito de um sobrinho da Sra. de Villeparisis que encontrara em sua casa: “Ah, minha filha, como ele é vulgar!”

Ora, a referência a Swann teve por efeito, não o de elevá-lo na consideração de minha tia-avó, e sim o de diminuir a Sra. de Vileparisis. Parecia que a consideração que, confiantes na minha avó, tributávamos à Sra. de Villeparisis lhe criasse o dever de não fazer coisa alguma que a tornasse menos digna, e a esse dever ela faltara ao tomar conhecimento da existência de Swann, ao permitir que seus parentes o freqüentassem. “Como, então ela conhece Swann? Para uma pessoa que você pretende seja parente do marechal de Mac-Mahon!” Essa opinião de meus pais sobre as relações de Swann lhes pareceu logo depois confirmada pelo seu casamento com uma mulher da pior sociedade, quase uma cocote que, aliás, ele nunca procurou apresentar, continuando a nos visitar sozinho, embora cada vez menos, mas segundo a qual julgavam poder avaliar – na suposição de que lá a fora buscar – o meio, desconhecido deles, que ele freqüentava habitualmente.

Mas, uma vez, o meu avô leu num jornal que o Sr. Swann era um dos mais fiéis convivas dos almoços dominicais do duque de X…, cujo pai e tio tinham sido os homens de Estado de maior evidência do reinado de Luís Filipe. Ora, meu avô era curioso de todos os pequenos fatos que poderiam auxiliá-lo a penetrar, em pensamento, na vida privada de homens como Molé, como o duque Pasquier, como o duque de Broglie. Ficou encantado ao saber que Swann freqüentava pessoas que os haviam conhecido. Ao contrário, minha tia-avó interpretou as novidades num sentido desfavorável a Swann: alguém que escolhesse suas relações fora da casta em que nascera, fora da sua “classe” social, sofria a seus olhos desqualificação lastimável. Parecia-lhe que desse modo se renunciava, de vez, aos frutos de todas as boas relações com pessoas bem situadas, que as famílias precavidas cultivavam e guardavam com honra para os filhos (minha tia-avó chegara ao ponto de ter deixado de ver o filho de um tabelião de nossos amigos porque se casara com uma alteza, e assim, descendo do nível respeitável, para ela, de filho de tabelião para o de um desses aventureiros, antigos mordomos ou moços de estrebaria, para quem se conta que as rainhas tinham às vezes algumas facilidades). Ela censurava o projeto de meu avô, que consistia em interrogar Swann, na primeira noite em que viesse jantar conosco, acerca desses amigos que lhe acabávamos de descobrir. Por outro lado, as duas irmãs de minha avó, solteironas que tinham o nobre caráter dela, mas não o seu espírito, declararam não compreender a satisfação que o cunhado podia achar em falar de semelhantes ninharias. Eram pessoas de aspirações elevadas e, por isso mesmo, incapazes de se interessar pelo que se chama uma bisbilhotice, ainda que de interesse histórico, e, de um modo geral, por tudo aquilo que não se ligasse diretamente a um objetivo estético ou moral. O desinteresse de seu pensamento era tal, quanto a tudo o que, de perto ou de longe, parecesse estar relacionado com a vida mundana, que o seu senso auditivo – tendo por fim compreendido sua inutilidade momentânea desde que, ao jantar, a conversa assumia um tom frívolo ou unicamente terra-a-terra, sem que elas pudessem fazê-la retornar aos assuntos que lhes eram caros -, deixava portanto em repouso os seus órgãos receptores, fazendo-os sofrerem um verdadeiro princípio de atrofia.

Se meu avô então tivesse necessidade de atrair a atenção das duas irmãs, precisava recorrer a essas advertências físicas, usadas pelos médicos alienistas no caso de certos maníacos distraídos: golpes repetidos num copo, com a lâmina de uma faca, coincidindo com uma brusca interpelação da voz e do olhar, meios violentos que os psiquiatras empregam muitas vezes nas relações comuns com pessoas sãs, seja por hábito profissional, seja por julgarem todo mundo um tanto louco.

Elas ficaram mais interessadas quando, na véspera do dia em que Swann devia vir jantar, e lhes enviara pessoalmente uma caixa de vinho de Asti, minha tia, estendendo um número do Figaro onde, ao lado do nome de um quadro que estava numa exposição de Corot, figuravam as seguintes palavras: “da coleção do Sr. Charles Swann”, nos disse: “Viram que Swann tem ‘as honras’ do Figaro?” – Mas eu sempre afirmei que ele tinha muito bom gosto – disse minha avó. “Naturalmente, você, desde o momento em que se trata de ter uma opinião diversa da nossa”, retrucou a minha tia-avó, que, sabendo que minha avó nunca era da mesma opinião que ela, e não tendo certeza que fosse a ela mesma que nós déssemos sempre razão, queria nos arrancar uma condenação em bloco das opiniões da minha avó, contra as quais procurava solidarizar-nos à força com as suas. Mas nós ficamos em silêncio.

Tendo as irmãs de minha avó manifestado a intenção de falar a Swann sobre as palavras do Figaro, minha tia-avó as desaconselhou. Cada vez que ela descobria nos outros uma vantagem, por menor que fosse, e que ela descobria não possuía, persuadia-se que essa vantagem era um mal e, para não ter de invejá-los, lamentava-os. “Creio que não lhe dariam nenhum prazer; sei muito bem que me seria desagradável ver meu nome impresso com tanta evidência no jornal, e absolutamente não ficaria lisonjeada se me falassem nisso.” No entanto, não se empenhou muito em persuadir as duas irmãs de minha avó, pois elas, por horror à vulgaridade, levavam tão longe a arte de dissimular sob perífrases engenhosas uma alusão pessoal que esta quase sempre passava desapercebida da própria pessoa a quem se referia. Quanto à minha mãe, só pensava em conseguir de meu pai que consentisse em falar a Swann, não de sua mulher, mas de sua filha, que ele adorava e por causa de quem se dizia que afinal acabara por fazer aquele casamento. “Poderias lhe dizer só uma palavra, perguntar como vai ela. O caso deve ser tão cruel para ele.” Mas meu pai se aborrecia: “Não! Tens idéias absurdas. Seria ridículo.”

Mas eu era o único de todos para quem a visita de Swann era motivo de uma dolorosa preocupação. Isto porque nas noites em que havia estranhos, ou somente o Sr. Swann, mamãe não subia para o meu quarto. Eu jantava antes de todos e a seguir vinha sentar-me à mesa, até às oito horas, quando estava convencionado que deveria deitar-me; esse beijo precioso e frágil que mamãe me dava de costume na cama, no momento em que ia dormir, era-me necessário transportá-lo da sala de jantar ao meu quarto e guardá-lo todo o tempo em que me despia, sem que sua doçura se partisse, sem que sua virtude se espalhasse e evaporasse, volátil, e justamente nessas noites em que precisava recebê-lo com as maiores precauções, via-me obrigado a pegá-lo, roubá-lo de súbito, publicamente, sem nem mesmo ter o tempo e a liberdade de espírito necessários para dar ao que fazia a atenção dos maníacos que se esforçam por não pensar em outra coisa enquanto fecham uma porta, para poderem, quando a incerteza malsã lhes volta, lhe opor vitoriosamente a lembrança do momento em que fecharam. Estávamos todos no jardim quando ressoaram os dois toques hesitantes da sineta. Sabia-se que era Swann; entretanto, todos se entreolharam interrogativamente e minha avó foi enviada para um reconhecimento. “Tratem de lhe agradecer de modo inteligível pelo vinho; sabem muito bem que é delicioso e que a caixa é enorme”, recomendou meu avô às duas cunhadas.

“Não comecem a cochichar”, disse minha tia-avó. “Há de ser bem agradável chegar a uma casa onde todos falam baixinho!” – “Ah! eis aqui o Sr. Swann. Vamos lhe perguntar se acha que vai fazer bom tempo amanhã”, disse meu pai. Minha mãe julgava que só uma palavra sua poderia desfazer toda a mágoa que nossa família tivesse causado a Swann desde o seu casamento. Achou uma forma de desviar sua atenção por um momento. Mas eu segui-a; não podia me resolver a separar-me dela um só passo, pensando que daí a pouco teria de deixá-la na sala de jantar e subir para o meu quarto sem ter, como nas outras noites, o consolo de que ela fosse me dar um beijo. “Vamos, Sr. Swann”, disse ela, “fale-me um pouco de sua filha; tenho certeza de que ela já tem gosto pelas obras de arte como o pai.” – “Mas venham sentar-se conosco na varanda”, disse meu avô, aproximando-se.

Minha mãe foi obrigada a se interromper, mas até soube tirar desse contratempo mais um pensamento delicado, como os verdadeiros poetas a quem a tirania da rima obriga a fazer seus melhores achados: “Voltaremos a falar da sua filha quando estivermos sozinhos”, disse ela a Swann, a meia voz. “Só mesmo uma mãe há de ser digna de compreendê-lo. Estou certa de que a mãe dela será da mesma opinião.” Todos nos sentamos ao redor da mesa de ferro. Desejaria não pensar nas horas de angústia que iria passar sozinho no quarto sem poder dormir, procurava me convencer de que elas não tinham nenhuma importância, visto que as esqueceria na manhã seguinte, e tratava de me apegar a coisas futuras que me levariam, como uma ponte, para além do abismo próximo que me aterrorizava. Porém meu espírito tenso com essa preocupação, convexo como o olhar que eu dardejava sobre minha mãe, não se deixava permear por nenhuma impressão estranha. Na verdade os pensamentos entravam nele, mas sob a condição de deixarem do lado de fora todo elemento de beleza ou simplesmente de diversão que me distraísse ou emocionasse.

Como um enfermo que, graças a um anestésico, pode assistir em plena lucidez à operação que nele é praticada, sem sentir coisa alguma, eu podia recitar para mim mesmo versos que apreciava e observar os esforços de meu avô para falar a Swann do duque de Audiffret-Pasquier, sem que os primeiros me causassem qualquer emoção e os segundos qualquer alegria. Tais esforços foram inúteis. Mal meu avô fizera a Swann uma pergunta relativa àquele orador, quando uma das irmãs de minha avó, a cujos ouvidos aquilo soara como um silêncio profundo mas inoportuno e que seria educado quebrar, interpelou a outra. “Imagina, Céline, que travei conhecimento com uma jovem governanta sueca que me deu detalhes muito interessantes sobre as cooperativas nos países escandinavos. Precisamos convidá-la qualquer dia desses para jantar aqui.”

– “Acredito!”, respondeu sua irmã Flora, “mas eu também não perdi meu tempo. Encontrei, na casa do Sr. Vinteuil, um velho sábio e conhece muito Maubant, e a quem este explicou nos mínimos detalhes como se faz para preparar um papel. Nada mais interessante. É um vizinho do Sr. Vinteuil, eu não sabia; e é muito amável.”

– “Não é só o Sr. Vinteuil que tem vizinhos amáveis”, exclamou minha tia Céline, com uma voz que a timidez fazia forte e a premeditação, falsa, lançando a Swann o que ela chamava de olhar significativo. Ao mesmo tempo, minha tia Flora, que compreendera que esta frase era o agradecimento de Céline pelo vinho de Asti, olhava também para Swann com um ar misto de congratulação e ironia, ou simplesmente para sublinhar o rasgo de espírito da irmã, seja por invejar a Swann o tê-lo inspirado, seja ainda por não poder deixar de rir à sua custa por julgá-lo na berlinda. “Acho que poderemos conseguir que esse senhor venha jantar”, continuou Flora, “quando a gente lhe dá corda sobre Maubant ou a Sra. Materna, ele fala horas sem parar.”

– “Deve ser delicioso”, suspirou meu avô, em cujo espírito a natureza infelizmente se esquecera por completo de incluir a possibilidade de se interessar apaixonadamente pelas cooperativas suecas ou pela composição dos papéis de Maubant, assim como se esquecera de fornecer ao das irmãs de minha avó o grãozinho de sal que nós mesmos devemos acrescentar, para achar algum sabor, às narrativas sobre a vida íntima de Molé ou do conde de Paris. “Veja bem”, disse Swann a meu avô, “o que vou lhe dizer tem mais relações do que parece com o que o senhor me perguntava, pois, sob certos aspectos, as coisas não mudaram muito. Esta manhã, eu estava relendo em Saint-Simon algo que o teria divertido. Está no volume sobre sua embaixada na Espanha; não é dos melhores, não passa de um diário, mas ao menos é um diário maravilhosamente bem escrito, o que já faz uma diferença em relação a esses diários aborrecidos que nos sentimos obrigados a ler de manhã e à noite.”

– “Não sou de sua opinião, há dias em que a leitura dos jornais me parece bem agradável…”, interrompeu minha tia Flora, para mostrar que havia lido a frase sobre o Corot de Swann no Figaro. “Quando falam de coisas ou de pessoas que nos interessam!”, encareceu minha tia Céline. “Não digo que não”, respondeu Swann espantado. “O que censuro nos jornais é o fato de nos obrigar a prestar atenção, todos os dias, em coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais. Uma vez que rasgamos febrilmente, todas as manhãs, a faixa que envolve o jornal, então as coisas deviam ser mudadas e pôr no jornal, digamos, as Pensées de Pascal! (acentuou o título com ênfase irônica para não dar a impressão de pedantismo).

E no volume de corte dourado, que só abrimos uma vez a cada dez anos”, acrescentou, testemunhando pelas coisas mundanas esse desdém que certas pessoas da sociedade afetam, “é que leríamos que a rainha da Grécia foi a Cannes ou que a princesa de Léon deu um baile à fantasia. Assim, estaria restabelecida a proporção justa.” Mas, lamentando ter-se permitido falar de coisas sérias, mesmo de passagem, disse ironicamente: “Grande conversa a nossa! Não sei por que tocamos nesses ‘cumes”‘ – e, voltando-se para meu avô: “Portanto, Saint-Simon conta que Maulévrier é o tal de quem ele diz: ‘Nunca vi nessa garrafa ordinária mais que mau humor, grosseria e asneiras.”‘ – “Ordinárias ou não, conheço garrafas em que há coisas bem diversas”, disse Flora vivamente, fazendo questão de, ela também, agradecer a Swann, pois o vinho de Asti era presente para ambas as irmãs. Céline se pôs a rir. Swann, atrapalhado, prosseguiu: “‘Não sei se foi ignorância ou esperteza’, escreve Saint-Simon, ‘mas a verdade é que ele pretendeu dar a mão a meus filhos. Percebi logo e pude evitá-lo.”‘ Meu avô já se extasiava com o ‘ignorância ou esperteza’, mas a Srta. Céline, em quem o nome de Saint-Simon – um literato – impedira a anestesia completa das faculdades auditivas, já se mostrava indignada: “Como? Você admira isso? Muito bem! Mas o que poderá isso querer dizer; que um homem não vale tanto quanto outro? Que importância tenha que seja duque ou cocheiro, se possui inteligência e bom coração? Boa maneira tinha o seu Saint-Simon de educar os filhos, se não lhes dizia que dessem a mão a todos os homens honestos. Mas é simplesmente abominável. E o senhor ousa citar uma coisa dessas?” E meu avô, consternado, sentindo, diante dessa obstrução, a impossibilidade de conseguir que Swann contasse as histórias que poderiam diverti-lo, dizia em voz baixa a mamãe: “Lembra-me então aquele verso que me ensinaste e que tanto me alivia em momentos assim. Ah, sim! ‘Senhor, quantas virtudes me fazeis odiar.’ Ah, como é bom!”

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