Trecho do Livro: O Mago (Paulo Coelho) | Fernando Morais

Livros O Mago Paulo Coelho Fernando Morais Biografias Biography BooksLivro: O Mago
Brasil | World

Mobilizar e comover multidões pelo mundo afora, a ponto de ter editores piratas se digladiando para publicar suas obras até mesmo num país de enormes contingentes de pobres e analfabetos, como o Egito, não foi algo que caiu do céu para Paulo Coelho. É verdade, o sonho de ser um escritor lido no mundo inteiro e de ter “fama, fortuna e poder” conduziu sua vida, de forma pertinaz, desde a adolescência. Mas esse sonho só começaria a se realizar em 1987, quando, já quarentão, publicou O Diário de um Mago. Em menos de um ano o autor havia vendido 40 mil exemplares do célebre relato de sua trajetória pelo Caminho de Santiago. As vendas seriam poderosamente alavancadas pelo segundo livro, O Alquimista, editado em 1988. No final do ano seguinte os dois juntos haviam batido na astronômica cifra de meio milhão de exemplares. O sucesso transformou Paulo Coelho em um nome nacional e abriu as portas de editoras nos Estados Unidos, da Europa e de outras paragens. Vinte anos depois de lançar seu primeiro livro fora do Brasil, ele seria o único autor vivo a ser traduzido em mais línguas do que William Shakespeare.

Até escrever o Diário de um Mago, porém, o garoto magricela criado nos bairros do Botafogo e da Gávea, no Rio, percorreria uma trajetória mirabolante. Aluno rebelde e relapso, sob os rigores de um pai severíssimo e implacável, acabou sendo internado à força por três vezes num hospício, e submetido a brutais sessões de eletrochoque. Confuso com sua própria identidade sexual, tomou a iniciativa de ir para a cama com homens, para só então decidir que aquele não era seu caminho. O jovem com tantas dificuldades para lidar com as mulheres na adolescência daria lugar, depois de adulto, a um colecionador de conquistas amorosas – algumas das quais transbordariam para a mídia. Fez de tudo nesse terreno, como participar de orgias e praticar sexo com uma garota num cemitério. Sua peculiar forma de encarar e relacionar-se com as mulheres não impediu, nem impede, que mantenha um sólido casamento de 28 anos com a artista plástica Christina Oiticica, de quem, assegura ele, nada nem ninguém fará “jamais” com que se separe. O homem que há mais de três décadas deixou a cocaína e há muitos anos não fuma maconha chegou a mergulhar fundo, e por muito tempo, no mundo das drogas, sem excluir praticamente nada. O tédio diante dos estudos formais, razão de seu permanente insucesso escolar, não impediu que Paulo se tornasse voraz consumidor de livros. A leitura indiscriminada, que incluía clássicos irretocáveis e bobagens sem valor, ajudaria sua incursão no mundo com que ele sonhava, e que começou pelo teatro infantil com pequenos papéis não-remunerados, para com o tempo arriscar-se a, já profissional, escrever e depois também dirigir e produzir pequenos espetáculos. Paralelamente, começou a viajar e arranjou bicos na imprensa alternativa – e foi como editor de uma revisteca underground que seria procurado por alguém que marcaria sua vida, o hoje mitológico roqueiro Raul Seixas, de quem viria a ser parceiro e letrista durante seis anos e 41 canções. Com isso ganhou mais fama, dinheiro e poder do que sonhara até então – e muito, muito menos do que ainda viria a ganhar.

Antes e durante a vigência da parceria com Raul, a ânsia permanente por novas experiências, de um lado, e sua tendência onívora à leitura, por outro, levaram-no a mergulhos assustadores. Ainda adolescente, flertou com o suicídio e acabou degolando um animal doméstico para que “o Anjo da Morte” tivesse alguma alma para levar que não fosse a sua. Já adulto, apoiou a decisão de uma namorada de se suicidar, traumatizada após abortar um filho dele. Ao transpor as fronteiras do misterioso universo das trevas ele chegaria a perigosos extremos e incorreria em práticas quase inacreditáveis, como ter como escravo, com contrato assinado, um jovem estudante que se iniciava no esoterismo. Fazia invocações ao demônio enquanto tomava banhos de ervas, e chegou a propor um pacto formal ao Diabo: entregar sua alma em troca de poderes absolutos. Sua carreira no satanismo chegou ao fim após um pavoroso e arrepiante episódio que durou doze intermináveis horas e que Paulo descreve como sendo seu encontro com o Demônio. A terrível visão, compartilhada pela namorada, representaria o início do retorno de Paulo à fé cristã incutida pelos rigorosos padres jesuítas do colégio em que fora educado. Ainda assim continuava acreditando ter encontrado formas de atingir o sobrenatural e agir sobre as forças da natureza, fazendo, por exemplo, ventar e chover com a força do pensamento.

O fato de ter sido um adolescente e depois um jovem adulto alienado e infenso à política não impediu que fosse preso duas vezes pela ditadura militar e, num terceiro episódio, seqüestrado pelo DOI-Codi, o mais brutal instrumento da repressão – o que lhe deixou profundas marcas e acentuou traços de uma ancestral paranóia. Outro tipo de perseguição, o da crítica brasileira, que, com raríssimas exceções, despreza seus livros e o trata como subliterato, não parece afetá-lo. Ele só se declara indignado quando as restrições a seu trabalho implicam menosprezo a uma entidade que cultiva com dedicação plena e paciência oriental: seus leitores. Para contrabalançar o desdém da crítica brasileira, não faltam a Paulo manifestações em sentido contrário para exibir. E não se fala, aqui, de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras ou mesmo de condecorações indiscutivelmente honrosas que lhe foram conferidas no exterior, como a Légion d’Honneur da França, mas de um maciço, consistente elenco de elogios recebidos de críticos de dezenas de países, entre os quais o venerado escritor e semiólogo italiano Umberto Eco.

Esses fatos da vida de Paulo são apenas uma amostra modesta da trajetória extraordinária de um brasileiro cujo trânsito internacional só se compara ao de Pelé. Por um triz, no entanto, nada disso teria sido possível, pois Paulo nasceu morto.

—–
+ Veja também:


About these ads