Trecho do Livro: 1968 | Zuenir Ventura

Livro 1968 Zuenir Ventura BookLivro: 1968
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A culpa é de 68

Como ainda dói nos filhos a lembrança do que os pais sofreram.

Há os que têm toda a razão de odiar 1968, apesar da ligação sentimental e da afinidade, ou por isso mesmo. Não se fala apenas dos que sofreram traumas em conseqüência de violências contra os pais — prisão, tortura, exílio —, mas também dos que, tendo que disputar a atenção paterna ou materna com a atividade política, se sentiram preteridos e sofreram crises de carência afetiva, ciúme, rejeição.

Eu não tinha visto ainda A culpa é do Fidel, de Julie Gavras, quando minha filha Elisa, nascida em 1964, me disse que se identificara muito com a personagem principal, Anna, de 9 anos. E me recomendava o filme como imperdível. Dias depois estávamos lá numa sessão, minha mulher e eu, perseguidos o tempo todo pela curiosidade de descobrir por que nossa filha se via tão refletida na personagem daquela menina que levava uma vida tranqüila em Paris com os pais, o irmão caçula e uma hilária babá cubana, para quem a culpa do que de ruim acontecia no mundo era de Fidel Castro. Até que, em decorrência de mudanças nos hábitos de sua casa e de seus pais, o humor de Anna vai se tornando divertidamente iracundo. Primeiro, um tio comunista é preso na Espanha e o pai decide acolher a irmã e a sobrinha fugidas de Franco. Depois, o casal viaja ao Chile e, como era o momento da eleição de Salvador Allende, volta cheio de propostas revolucionárias.

Movidos pelas novas idéias, os pais de Anna a obrigam a deixar de freqüentar as aulas de religião de que gostava tanto, trocam o apartamento confortável por um bem mais modesto, demitem a babá que vivia advertindo contra os perigos do comunismo, e a menina, cada vez mais revoltada, vê o seu mundo invadido por uma gente estranha e antipática que afasta os pais dela. Freqüentemente acorda à noite, se esgueira até a sala e surpreende reuniões em que homens barbudos meio suspeitos conspiram, preparam manifestações e falam de assuntos que ela não conhece. Tomada por uma irritação crescente, mas ao mesmo tempo fascinada por aquela inesperada movimentação, ela passa a buscar explicações para palavras novas que vai ouvindo, às vezes escondida: aborto, revolução, passeata, feminismo e, principalmente, solidariedade — a solidariedade pregada pelo grupo diante da solidão dela.

Baseado no livro autobiográfico da jornalista italiana Domitilla Calamai, o filme é uma simpática sátira aos clichês e lugares-comuns ideológicos da esquerda, dirigido pela filha do realizador grego Constantin Costa-Gavras, autor de uma importante obra cinematográfica voltada para temas políticos. Julie retratou situações parecidas com as que deve ter presenciado na sua infância, passada nos anos 70, como a de Anna e de tantos outros filhos e filhas dos que tiveram alguma participação política naqueles tempos.

Foi com tudo isso — a aflição da personagem em entender as conversas dos adultos, a sensação de abandono, a “invasão” da casa pelos amigos dos pais — que Elisa se identificou. Muitas vezes saindo do seu quarto de noite, ela também viu reuniões políticas ou festivas como as do filme. Só que não eram necessariamente homens barbudos ameaçadores, mas pessoas que ela conhecia ou iria conhecer em seguida: Paulo Francis, Glauber Rocha, Fernando Gabeira, Leon Hirszman, Hélio Pellegrino, Joaquim Pedro de Andrade. “Quase chorei quando vi no filme aquela menina meio perdida entre os adultos, querendo entender o que se passava e se sentindo, como eu, excluída do mundo deles”, queixa- se Elisa.

A rejeição maior, porém, que a traumatizou mais do que as reuniões noturnas das quais não podia participar, se deu em outra situação. Quando ela ia me visitar no quartel da PM Caetano de Farias, no centro do Rio, eu, para tranqüilizá-la, dizia que estava muito bem ali na prisão, podia até jogar basquete com Ziraldo durante os banhos de sol. Só muito tempo depois soube que essas revelações provocavam nela um efeito paradoxal e lhe faziam muito mal. Ela concluía que eu havia feito uma opção voluntária entre a nossa casa e a prisão. Se eu me dizia tão satisfeito, era porque preferia a cadeia a voltar para junto dela, do irmão e de minha mulher.

Por coincidência, Daniela Thomas sentiu essa mesma rejeição quando o pai, o humorista Ziraldo, se mostrou feliz na prisão. Ela conta: “Lembro da primeira visita ao DOPS. Um prédio de filme de terror, com elevador de ferro batido e tudo. Lembro do papai todo alegrinho contando que tinha aprendido a jogar mau-mau, que era um jogo fantástico que ele ia ensinar pra gente assim que saísse de lá, e que a prisão era uma festa. Eu fiquei chateada, pensando que talvez ele gostasse mais da cadeia do que da nossa casa e que não iria mais querer voltar”.

Como o cartunista foi preso três vezes, Daniela, que é hoje cineasta, cenógrafa e designer, tem uma coleção de más lembranças. A primeira foi no Forte de Copacabana. “Demorei a entender por que ele ficou preso ali por um mês inteiro. Lembro de ir visitá-lo com a mamãe e de ele me mostrar uns desenhos que fazia com as imagens que a sombra da árvore e as grades pintavam na parede do quarto. Eu achei que ele tinha ficado louco. Dormi chorando baixinho.”

“Num outro ano, me lembro de abrir a porta para uns soldados saídos de um filme da sessão da tarde — farda verde, capacete, fuzil — e do papai fazendo a mala, e de eu me agarrar na calça dele e ele me empurrar pra eu soltar a calça (não entendia por que na hora). Lembro da mamãe berrando coisas estapafúrdias: ‘Não voto mais neste país!’ (como se fosse possível votar numa ditadura), e de ela chorar copiosamente depois que a porta se fechou.”

Daniela também chorou muito quando teve que passar dois natais e dois réveillons longe dos pais. Ela fora levada com a irmã Fabrizia para Belo Horizonte e depois para São Paulo, para ficar com os tios até que “as coisas se resolvessem”.

Quando Ziraldo e a turma do Pasquim estiveram presos na Vila Militar de Marechal Hermes, subúrbio do Rio, em 1970, as mulheres puderam visitá-los um dia com os filhos. Estavam todos num salão ouvindo o relato da “batalha das baratas” que tinham travado na véspera, num noite de tempestade, no escuro, quando uma centena delas tinha invadido as celas fugindo do ralo. Para enfrentá-las, Luiz Carlos Maciel se armou de creme de barbear, achando que era spray inseticida.

“Estávamos todos às gargalhadas”, recorda Daniela, “quando o meu irmão Antonio, do alto dos seus 2 anos de idade, entrou pelo salão marchando como um soldadinho, portando um quepe enorme que carregava todo orgulhoso. No meu primeiro ataque de ira, voei até ele, puxei com toda a força o quepe e o lancei ao chão. O treco saiu quicando pelo parquet. Antonio uivava de tanto chorar. Faço idéia do mal-estar que causei, mas por alguns segundos fiz as pazes com a infância que os desgraçados tinham maculado.”

Foi a primeira desforra de Daniela. “Depois, na adolescência, virei a mais leninista das leninistas.”

Um dos companheiros de prisão de Ziraldo era o pai do governador do Rio Sérgio Cabral Filho, que também ficou marcado. Ele conta:

“Em 1970, vivi um dos momentos mais traumáticos da minha vida por conta dos atos da ditadura. Naquele ano, meu pai foi preso, e me recordo que, por ser o irmão mais velho, fui o único a visitá-lo junto com minha mãe, Magaly. Morávamos na Rita Rudolf, no Leblon, e jamais esqueci o ritual de sair de casa, comprar um mil-folhas, que era o doce preferido de meu pai, e ir até a prisão. Eu era criança e não entendia como uma pessoa de bem estava na cadeia! Foi, sem dúvida, o Natal mais triste da minha vida, e um dos momentos-chave da minha iniciação política”.

Também em 2007 foi lançado outro filme importante, este brasileiro, tratando de temática parecida: O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger. A história se passa durante a Copa do Mundo de 70: um menino cujos pais, militantes de esquerda perseguidos pela polícia, têm que partir para a clandestinidade é deixado com o avô, que morre em seguida. Por coincidência, o protagonista se chama Mauro e é judeu, como meu filho, nascido em 1963. Por isso, o Mauro da vida real se identificou com o personagem, se comoveu vendo o filme e, como jornalista, acabou entrevistando o ator-menino.

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