Foto Pics Book Livro A Cidade do Sol Khaled Hosseini Livro Primeiro Capitulo Livros BooksPrimeiro Capítulo: A Cidade do Sol | Khaled Hosseini

Livro: A Cidade do Sol
Brasil | World

1

Mariam tinha cinco anos quando ouviu pela primeira vez a palavra harami.

Foi numa quinta-feira. Não poderia ter sido em outro dia, porque ela se lembrava de estar inquieta e preocupada, e só ficava assim às quintas-feiras, quando Jalil vinha visitá-la na kolba onde morava. Para passar o tempo, até a hora em que finalmente o veria, atravessando a grama da clareira, que lhe batia nos joelhos, e acenando para ela, Mariam desceu da prateleira o serviço de porcelana chinesa de Nana. Esse serviço de chá era a única relíquia que sua mãe tinha herdado de sua avó, que morreu quando Nana tinha dois anos de idade. Ela adorava cada uma daquelas peças de porcelana azul e branca: a curva graciosa do bico do bule, os pássaros e os crisântemos pintados à mão, o dragão do açucareiro, destinado a espantar os maus espíritos.

Foi esta última peça que escapuliu das mãos da menina e se espatifou no chão da kolba.

Quando Nana viu o açucareiro, seu rosto ficou vermelho, seu lábio superior começou a tremer e seus olhos, tanto o vesgo quanto o bom, se detiveram em Mariam de um jeito inexpressivo, sem sequer piscar. A mãe parecia tão furiosa que Mariam teve medo de que um jinn fosse se apoderar de seu corpo novamente. Mas o gênio não veio, não desta vez. O que aconteceu foi que Nana agarrou Mariam pelos pulsos, puxou-a para bem perto de si e disse, entre dentes:

– Você é uma harami desastrada. Vejam só a minha recompensa por tudo o que tive de agüentar: uma harami desastrada, que quebra a louça de família.

Na hora, Mariam não entendeu nada. Não conhecia aquela palavra, harami, e não sabia que significava “bastarda”. Tampouco tinha idade suficiente para avaliar aquela injustiça, para ver que a culpa é dos que geram os harami, e não dessas crianças cujo único pecado foi ter nascido. É claro que, pelo jeito como Nana disse aquela palavra, a menina deduziu que ser harami era uma coisa ruim, repugnante, como um inseto, como aquelas baratas que a mãe estava sempre maldizendo e varrendo para fora da kolba.

Tempos depois, já mais velha, entendeu enfim. Foi o jeito como Nana pronunciou a palavra – quase como se a cuspisse na sua cara – que fez com que Mariam se sentisse atingida por ela. Então entendeu o que a mãe estava querendo dizer, que um harami era algo indesejável, que ela, Mariam, era um ser ilegítimo que nunca teria condições de exigir o que as outras pessoas possuíam, como amor, família, aceitação ou mesmo um lar.

Jalil nunca a chamava assim. Dizia que ela era a sua florzinha. Gostava de pegá-la no colo e lhe contar histórias, como daquela vez que lhe contou que Herat, a cidade onde Mariam nasceu em 1959, foi o berço da cultura persa, onde viviam escritores, pintores e sufis.

– Era impossível esticar a perna sem dar um chute no traseiro de um poeta – disse ele, rindo.

Jalil lhe contou também a história da rainha Gauhar Shad, que, no século XV, mandou erguer os célebres minaretes da cidade como uma ode de amor a Herat. Ele descreveu os trigais verdejantes que a cercavam, os seus pomares, os seus vinhedos carregados de frutos, os seus bazares abobadados e repletos de gente.

– Há um pé de pistache, Mariam jo – disse-lhe um dia Jalil -, debaixo do qual está enterrado ninguém menos que o grande poeta Jami. – Inclinou-se para frente e sussurrou: – Jami viveu há cerca de quinhentos anos. É verdade. Levei você até lá uma vez, para ver a árvore. Você era bem pequena. Não deve se lembrar.

Ele tinha razão. Mariam não se lembrava disso. E, embora tenha passado os primeiros 15 anos de sua vida nos arredores de Herat, nunca viu essa célebre árvore. Nunca viu os famosos minaretes de perto, nunca colheu frutos dos pomares da cidade ou passeou pelos seus campos de trigo. Mas sempre que Jalil contava aquelas histórias, Mariam o ouvia, encantada. Admirava Jalil pelo tanto que conhecia do mundo. Estremecia de orgulho por ter um pai que sabia tantas coisas.

– Quantas mentiras! – exclamou Nana depois que Jalil tinha ido embora. – Um ricaço mentiroso, é isso que ele é! Nunca levou você para ver árvore nenhuma. E não se deixe seduzir. O seu adorado paizinho nos traiu. Ele nos expulsou, nos botou para fora da sua bela casa como se não valêssemos nada. E fez isso feliz e contente.

Mariam só ficava ouvindo, sem nenhuma convicção. Nunca teve coragem de dizer a Nana que não gostava nada, nada de vê-la falar assim de Jalil. Na verdade, perto dele, não se sentia uma harami. Toda quinta-feira, por uma ou duas horas, quando Jalil vinha vê-la, todo sorrisos e cheio de presentes e carinhos, Mariam se sentia digna das belezas e das coisas boas que a vida tinha para oferecer. E, por isso, amava Jalil.

Mesmo tendo que dividi-lo com outras pessoas.

Jalil tinha três esposas e nove filhos, nove filhos legítimos, e Mariam não conhecia nenhum deles. Era um dos homens mais ricos de Herat. Era dono de um cinema, que Mariam jamais tinha visto, mas que Jalil descreveu para ela depois de muita insistência da menina. Portanto, conhecia a fachada de azulejos azuis e terracota, sabia que tinha um balcão com lugares privativos e um teto de treliça. E conhecia também as portas de duas folhas que se abriam para um saguão azulejado onde havia pôsteres de filmes indianos em vitrines emolduradas. Às terças-feiras, segundo lhe disse Jalil, as crianças podiam tomar sorvete de graça na bombonière.

Nana ouviu isso com um sorriso de desdém. Esperou ele sair da kolba para dizer, com uma risadinha:

– Os filhos dos estranhos ganham sorvete. E para você, Mariam, o que ele tem a dar? Histórias de sorvete…

Além do cinema, Jalil também era proprietário de terras em Karokh e em Farah, tinha três lojas de tapetes, uma de roupas e um Buick Roadmaster preto, modelo 1956. Era um dos homens mais bem relacionados de Herat, amigo do prefeito e do governador da província. Tinha uma cozinheira, um motorista e três empregadas.

Nana havia sido uma dessas empregadas. Até a sua barriga começar a crescer.

Quando isso aconteceu, nas palavras da própria Nana, a sufocação coletiva da família de Jalil foi tão grande que parecia até que toda Herat tinha ficado sem ar. Seus sogros e cunhados juraram que haveria derramamento de sangue. Suas esposas exigiram que ele a pusesse para fora daquela casa. O próprio pai de Nana, um humilde entalhador de Gul Daman, uma aldeia vizinha, a repudiou. Vendo-se caído em desgraça, fez as malas e embarcou num ônibus para o Irã. E nunca mais se ouviu falar dele.

– Às vezes – disse-lhe Nana certa manhã, bem cedinho, enquanto alimentava as galinhas no quintal da kolba – gostaria que meu pai tivesse sido homem bastante para afiar um dos seus cinzéis e tomar a atitude mais honrada. Teria sido melhor para mim. – Atirou mais um punhado de grãos no cercado, fez uma pausa, e olhou para a filha. – E acho que não só para mim. Você teria sido poupada da dor de saber que é o que é. Mas meu pai era um covarde. Não tinha dil, não tinha coragem para tanto.

Nem Jalil, acrescentou Nana. Ele também não teve coragem de agir como um homem honrado, enfrentando a família, as esposas, os sogros e os cunhados, e assumindo a responsabilidade por seus atos. Tudo o que fizeram foi chegar a um acordo, a portas fechadas, para salvar as aparências.

Logo no dia seguinte, Jalil mandou que ela juntasse os seus poucos pertences lá no quarto das empregadas e fosse embora.

– Sabe o que ele disse às suas esposas para se defender? Que fui eu quem forcei aquela situação. A culpa era minha. Didi? Está vendo só? Isso é que é ser mulher neste mundo.

Nana pôs no chão a tigela com a comida das galinhas e ergueu o rosto de Mariam com um dos dedos.

– Olhe para mim.

A menina obedeceu, com alguma relutância.

– Aprenda isso de uma vez por todas, filha: assim como uma bússola precisa apontar para o norte, assim também o dedo acusador de um homem sempre encontra uma mulher à sua frente. Sempre. Nunca se esqueça disso, Mariam.

2

– PARA JALIL E SUAS ESPOSAS, eu era uma erva-de-passarinho. Uma ciganinha. Nós duas éramos. E olhe que você ainda nem tinha nascido.

– O que é uma ciganinha? – indagou Mariam.

– É uma planta – disse Nana. – Daquelas que a gente arranca e joga fora.

Mariam fez cara feia por dentro. Jalil não a tratava como uma planta assim. Nunca. Mas a menina achou que era melhor ficar calada.

– Só que, à diferença dessas ervas daninhas, eu tinha de ser replantada, entende, e tinha que receber água e comida. Por sua causa. Foi isso que ele combinou com a família – disse Nana, acrescentando que tinha se recusado a ficar morando em Herat. – Para quê? Para vê-lo passar de carro pela cidade, com suas esposas kinchini?

Disse ainda que tampouco quis morar na casa de seu pai, na aldeia de Gul Daman, que ficava no alto de uma colina, a dois quilômetros ao norte de Herat. Preferiu ir viver num lugar afastado, distante, onde os vizinhos não ficariam olhando para a sua barriga, apontando para ela na rua, rindo, ou, o que seria ainda pior, cercando-a de uma gentileza que não era sincera.

– E acredite – acrescentou Nana -, o seu pai ficou muito aliviado por me ter bem longe. Foi a decisão perfeita para ele.

Foi Muhsin, o filho mais velho de Jalil com sua primeira esposa, Khadija, quem sugeriu aquela clareira que ficava nos arredores de Gul Daman. Para se chegar até lá, era preciso pegar uma estradinha de terra que subia morro acima saindo da estrada que ligava Herat ao vilarejo. A tal estradinha era bordejada de um capim alto, pontilhado de flores brancas e amarelas. Ia serpenteando pela encosta da colina até desembocar num terreno plano recoberto de choupos, faias e tufos de arbustos silvestres. Lá de cima, avistavam-se as pás enferrujadas do moinho de vento de Gul Daman, à esquerda, e, à direita, estendia-se a cidade de Herat. O caminho ia dar pertinho de um riacho bem largo e repleto de trutas que descia das montanhas Safid-koh ao redor de Gul Daman. Cerca de duzentos metros acima, havia um pequeno bosque de salgueiros-chorões e, bem no meio, à sombra das árvores, ficava a clareira.

Jalil foi até lá para ver o local. Quando voltou, disse Nana, parecia um carcereiro se vangloriando das paredes impecáveis e do piso reluzente da sua cadeia.

– E foi assim que o seu pai construiu essa toca de ratos para nós.

Quando tinha 15 anos, Nana quase se casou. O pretendente era um rapaz de Shindand, um jovem vendedor de periquitos. Foi ela própria quem contou essa história a Mariam e, embora a mãe parecesse menosprezar o episódio, a menina bem sabia, pelo brilho melancólico que via em seus olhos, que ela tinha sido feliz. Pela única vez na vida, talvez, nos dias que antecederam esse tal casamento, Nana tinha sido genuinamente feliz.

Quando a mãe lhe contou essa história, Mariam se sentou no seu colo e ficou imaginando Nana sendo preparada para se vestir de noiva. Pôde vê-la a cavalo, sorrindo timidamente sob o véu de seu traje verde, as palmas das mãos pintadas com hena vermelha, o repartido do cabelo enfeitado com purpurina prateada, as tranças impregnadas de seiva de árvore. Viu também músicos tocando a flauta shahnai e os tambores dohol, as crianças gritando e acompanhando o cortejo pelas ruas.

Só que, uma semana antes da data marcada, um jinn penetrou no corpo de Nana. Ninguém precisava descrever para Mariam essa parte da história, pois a menina já havia testemunhado a cena com os próprios olhos, inúmeras vezes: Nana caindo no chão de repente, com o corpo todo se enrijecendo, os olhos se revirando, os braços e as pernas tremendo, como se algo a estivesse sufocando por dentro, e, nos cantos da boca, aquela espuma branca, por vezes rosada de sangue. Depois, vinha aquele torpor, aquele desnorteamento assustador, aqueles murmúrios incoerentes.

Quando a notícia chegou a Shindand, a família do vendedor de periquitos cancelou o casamento. “Eles ficaram apavorados”, como disse a própria Nana.

O vestido de noiva foi enfurnado em algum lugar. E, desde então, não apareceu mais nenhum pretendente.

Na clareira, Jalil e dois de seus filhos, Farhad e Muhsin, construíram a pequena kolba onde Mariam viveria os primeiros 15 anos de sua vida. O casebre era feito de tijolos rústicos e recoberto de barro com punhados de palha. Lá dentro, havia dois catres, uma mesa de madeira, duas cadeiras de encosto reto, uma janela e algumas prateleiras pregadas na parede, onde Nana guardava os potes de argila e o seu tão amado jogo de porcelana chinesa. Jalil instalou ali um fogareiro de ferro para o inverno e fez uma cerca de toras de madeira nos fundos da cabana. Pôs ainda um tandoor no quintal, para elas assarem o pão, e fez um galinheiro com uma cerca. Comprou uns poucos carneiros e construiu um cocho para os animais. Mandou Farhad e Muhsin cavarem um buraco bem fundo a uns duzentos metros do círculo de salgueiros, e construiu uma latrina no local.

Jalil podia ter contratado operários para a construção da kolba, observou Nana, mas não contratou.

– Para ele, aquilo era uma espécie de penitência – disse ela.

Pelo que Nana dizia, no dia em que Mariam nasceu não apareceu ninguém para ajudar. Foi num daqueles dias úmidos e nublados da primavera de 1959, no vigésimo sexto dos quarenta anos, em sua maioria tranqüilos, do reinado de Zahir Shah. Jalil não se deu o trabalho de chamar um médico, ou sequer uma parteira, acrescentou ela, embora soubesse que o jinn poderia penetrar no seu corpo e provocar uma daquelas convulsões no momento do parto. Nana ficou ali sozinha, deitada no chão da kolba, com uma faca ao seu lado e o corpo banhado em suor.

– Quando a dor piorava, eu mordia um travesseiro e gritava até ficar rouca. Mesmo assim, não aparecia ninguém para enxugar o meu rosto ou me dar um gole de água. E você, Mariam jo, parecia não ter pressa alguma. Por quase dois dias, você me fez ficar ali deitada, naquele chão frio e duro. Não comi nem bebi nada. Só fazia força e rezava para você sair.

– Sinto muito, Nana.

– Cortei o cordão que nos ligava. Foi para isso que peguei a faca.

– Sinto muito, Nana.

Nesse momento, Nana sempre esboçava um sorriso sofrido, e Mariam não sabia ao certo se aquilo significava uma recriminação persistente ou um perdão relutante. Não passava pela cabeça da menina como era injusto pedir desculpas pela maneira como nasceu.

Quando isso finalmente aconteceu, lá por volta dos seus dez anos, Mariam deixou de acreditar naquela história do seu nascimento. Acreditava sim na versão de Jalil que lhe disse que, mesmo estando longe, tinha conseguido mandar Nana para um hospital em Herat, onde ela seria atendida por médicos e teria uma cama limpa e decente num quarto bem iluminado. Jalil abanou a cabeça tristemente quando a garota mencionou o detalhe da faca.

Mariam passou também a duvidar de que tivesse feito a mãe sofrer por dois dias seguidos.

– Pelo que me contaram o parto durou, ao todo, menos de uma hora – disse Jalil. – Você sempre foi uma boa filha, Mariam jo. Mesmo na hora de nascer foi uma boa filha.

– Ele nem estava aqui! – esbravejou Nana. – Estava em Takht-e-safar, andando a cavalo com seus amiguinhos queridos.

Quando lhe disseram que era uma menina, acrescentou Nana, Jalil deu de ombros, continuou a escovar a crina do cavalo e ficou mais duas semanas em Takht-e-safar.

– Na verdade, ele sequer a pegou no colo até que você tivesse completado um mês. E, mesmo assim, apenas a olhou, comentou que você tinha um rosto comprido e a devolveu para mim.

Mariam acabou desacreditando também dessa parte da história. Jalil admitia que estava cavalgando em Takht-e-safar, mas, quando chegou a notícia, não se limitou a dar de ombros. Pulou no cavalo e voltou para Herat. Embalou a filha nos braços, passou o dedo por aquelas sobrancelhas ralas, cantarolou uma cantiga de ninar. Mariam não conseguia imaginar Jalil dizendo que ela tinha um rosto comprido, embora fosse verdade.

Nana disse que foi ela que escolheu o nome Mariam, porque era o de sua mãe.

– Quem escolheu fui eu – disse Jalil -, porque, na nossa língua, esse é o nome de uma linda flor.

– A sua favorita? – indagou a menina.

– Bom, uma delas – respondeu ele, sorrindo.

3

UMA DAS LEMBRANÇAS MAIS REMOTAS de Mariam era o chiado das rodas de um carrinho de mão sacolejando pelas pedras do chão. Uma vez por mês, lá vinha ele, carregado de arroz, farinha, chá, açúcar, óleo, sabão, pasta de dentes. Dois de seus meio-irmãos o traziam; geralmente, Muhsin e Ramin, às vezes Ramin e Farhad. Na estradinha de terra, passando por pedras e seixos, contornando buracos e arbustos, os meninos se revezavam empurrando o carrinho até chegarem ao riacho. Ali, paravam e tinham que atravessar, levando os pacotes nos braços. Depois, era a vez do carrinho que, ao chegar do outro lado, voltava a ser carregado. Tinham, então, mais uns duzentos metros pela frente, desta feita empurrando o veículo em meio ao mato alto, denso, e por entre as moitas cerradas. Sapos pulavam à sua frente. Os dois irmãos tinham que se abanar com as mãos, para afastar os mosquitos do rosto suado.

– Ele tem empregados – observou Mariam. – Podia mandar um deles…

– Para ele, isso é uma espécie de penitência – retrucou Nana.

O barulho do carrinho levava mãe e filha lá para fora. Mariam nunca se esqueceria do jeito que Nana ficava no dia em que os mantimentos chegavam: aquela mulher alta e magra, descalça, apoiada no umbral da porta, com aquele olho meio fechado, parecendo apenas uma fenda, e os braços cruzados, numa pose desafiadora e debochada. Já que ficava com a cabeça descoberta, o sol batia em seu cabelo crespo, cortado curtinho e despenteado. Usava uma bata cinza mal-ajambrada e abotoada até o pescoço. E tinha os bolsos cheios de pedras grandes como nozes.

Os rapazes ficavam sentados no chão, junto do riacho, esperando que mãe e filha levassem os mantimentos para dentro da kolba. Sabiam que era mais prudente manter uma distância de uns trinta metros, embora a pontaria de Nana fosse bem ruim, e a maioria das pedras caísse longe do alvo visado. Enquanto ia levando as coisas para casa, a mulher ficava gritando, chamando os meninos de uns nomes que Mariam não conhecia. Amaldiçoava suas mães, fazia caretas terríveis para os dois. Nenhum deles jamais revidou aqueles insultos.

Mariam tinha pena dos garotos. “Deviam ficar com as pernas e os braços tão cansados empurrando aquela carga pesada…”, pensava ela. Adoraria poder lhes oferecer um copo de água. Mas não dizia nada, e, se os dois acenavam na hora de ir embora, nem respondia. Uma vez, para agradar Nana, chegou até a gritar com Muhsin, dizendo que sua boca parecia o traseiro de um lagarto. Depois, ficou com vergonha, culpadíssima, e teve medo que ele contasse tudo para Jalil. Já Nana riu tanto, mostrando todos aqueles dentes da frente estragados, que Mariam achou que ela poderia ter um dos seus ataques. Depois que parou de rir, olhou para a menina e disse:

– Você é uma boa filha.

Quando o carrinho estava vazio, os meninos o apanhavam e iam embora. Mariam ficava parada ali, esperando eles desaparecerem em meio ao mato alto e florido.

– Vamos entrar?

– Claro, Nana.

– Eles estão rindo de você. Estão, sim. Dá para ouvir daqui.

– Já estou indo.

– Não acredita, não é?

– Pronto, Nana.

– Amo você, sabe, Mariam jo?

Toda manhã, as duas acordavam com o balido dos carneiros, ao longe, e o som estridente da flauta que os pastores de Gul Daman tocavam ao levar seus rebanhos para pastar nas colinas. Mariam e Nana ordenhavam as cabras, davam comida às galinhas e recolhiam os ovos. Faziam pão juntas. A menina aprendeu com Nana a sovar a massa, acender o tandoor e espalhar a massa lá dentro. Com ela também aprendeu a costurar e a fazer arroz com vários acompanhamentos: shalqam cozido com nabos, sabzi de espinafre, couve-flor com gengibre.

Nana não escondia de ninguém o quanto lhe desagradava a idéia de receber visitas – na verdade, não gostava de gente em geral -, mas abria uma exceção para uns poucos escolhidos. Havia Habib Khan, o arbab da aldeia, o líder da comunidade de Gul Daman, um sujeito barbudo, com uma cabeça miúda e uma barriga proeminente, que vinha vê-las mais ou menos uma vez por mês, sempre acompanhado de um criado que trazia uma galinha, uma tigela de arroz kichiri ou um cesto com ovos tingidos para Mariam.

Havia uma velha rechonchuda, que Nana chamava de Bibi jo, cujo falecido marido também tinha sido entalhador e amigo de seu pai. Bibi jo andava sempre acompanhada por uma de suas noras e um ou dois de seus netos. Lá vinha ela até a clareira, mancando e resmungando, e, invariavelmente, fazia uma verdadeira encenação, esfregando os quadris e gemendo, ao se sentar na cadeira que Nana lhe oferecia. Bibi jo também trazia alguma coisa para Mariam, como uma caixinha de balas dishlemeh ou uma cesta de marmelos. Para Nana reservava, antes de mais nada, suas queixas sobre problemas de saúde, e, depois, mexericos envolvendo gente de Herat e Gul Daman, histórias que ela narrava em detalhe e com o maior prazer, enquanto sua nora ficava às suas costas, só ouvindo, com ar de incredulidade.

Mas a visita preferida de Mariam, além de Jalil, é claro, era o mulá Faizullah, o mais velho dos akhund, os guardiães do Corão na aldeia. Uma ou duas vezes por semana, ele vinha de Gul Daman para ensinar a Mariam as cinco preces namaz diárias e iniciar a menina na recitação do Corão, exatamente como havia feito quando Nana era criança. Foi o mulá Faizullah quem ensinou Mariam a ler. Ficava parado ali, atrás dela, olhando com toda paciência por cima de seus ombros enquanto os lábios da menina iam articulando as palavras, sem emitir som algum, fazendo tanta força com o dedo que a unha chegava a ficar esbranquiçada, como se fosse possível espremer assim o sentido de cada um daqueles símbolos. Foi o mulá Faizullah quem pegou a mão de Mariam, guiando o lápis para traçar o contorno de cada alef, a curva de cada beh, os três pontinhos de cada seh.

Era um homem magro e encurvado, com um sorriso desdentado e uma barba branca que lhe batia no umbigo. Em geral, vinha sozinho até a kolba; às vezes, porém, trazia consigo o filho Hamza, um menino de cabelo avermelhado, pouco mais velho que Mariam. Quando o mulá chegava, Mariam beijava a sua mão – era como beijar um feixe de gravetos recoberto por uma fina camada de pele – e ele lhe dava um beijo na testa. Só então entravam, para começar a lição do dia. Mais tarde, sentavam-se ambos do lado de fora da kolba, comendo pinhões, tomando chá verde e observando os pássaros bulbuls que voavam apressados de uma árvore a outra. De vez em quando, iam passear em direção às montanhas, margeando o riacho, andando por entre os tufos de amieiro e pisando nas folhas de bronze caídas pelo chão. O mulá Faizullah ia desfiando as contas do rosário tasbeh e, com aquela voz trêmula, contava à menina histórias de coisas que tinha visto na juventude, como a cobra de duas cabeças que encontrou no Irã, na ponte dos Trinta e Três Arcos, em Isfahan, ou a melancia que cortou diante da Mesquita Azul, em Mazar, e cujas sementes escreviam as palavras Allah, de um lado, e Akbar, do outro, formando a expressão Allah-u-Akbar, “Deus é grande”.

O mulá admitiu para Mariam que, por vezes, não compreendia o sentido das palavras do Corão, mas gostava dos sons encantatórios das palavras árabes que pareciam rolar em sua língua. Disse ainda que elas lhe traziam conforto, apaziguavam o seu coração.

– Elas vão fazer isso por você também, Mariam jo – observou ele. – Sempre pode evocá-las em caso de necessidade, e elas não vão lhe faltar. As palavras de Deus nunca vão traí-la, minha menina.

Além de contar histórias, o mulá também sabia ouvi-las. Quando Mariam falava, sua atenção nunca se desviava. Ele ficava assentindo ligeiramente com a cabeça, e sorria com um ar de gratidão, como se estivesse sendo digno de um privilégio dos mais cobiçados. Era fácil lhe contar coisas que nunca teria coragem de dizer a Nana.

Um dia, quando passeavam, Mariam lhe disse que adoraria poder ir para um colégio.

– Um colégio de verdade, akhund sahib, daqueles que têm salas de aula. Como fazem os outros filhos de meu pai.

O mulá parou.

Uma semana antes, Bibi jo tinha contado que Saideh e Nahid, filhas de Jalil, iam para a Escola Mehri, um colégio para meninas em Herat. Desde então, começaram a passar pela cabeça de Mariam imagens de salas de aula e professores, cadernos com páginas pautadas, colunas de números e canetas que traçavam linhas fortes e escuras. Podia ver a si mesma numa dessas salas, junto com outras garotas da sua idade. Morria de vontade de pôr uma régua numa página em branco e traçar, ali, aquelas linhas que pareciam tão importantes.

– É isso que você quer? – indagou o mulá Faizullah, fitando-a com aqueles seus olhos brandos e úmidos, as mãos cruzadas nas costas encurvadas e a sombra do turbante se projetando sobre um canteiro cheinho de botões-de-ouro.

– É.

– E quer que eu peça permissão para sua mãe?

Mariam sorriu. Além de Jalil, achava que não havia ninguém no mundo capaz de entendê-la tão bem quanto o seu velho professor.

– Então, o que posso fazer? Deus, em sua sabedoria, deu a cada um de nós algumas fraquezas, e, entre as tantas que possuo, está a incapacidade de recusar algo a você, Mariam jo – disse ele, dando-lhe umas palmadinhas no rosto com os dedos deformados pela artrite.

Mais tarde, porém, quando o mulá tocou no assunto com Nana, a mulher largou a faca que estava usando para cortar cebolas e perguntou:

– Para quê?

– Se a menina quer aprender, minha cara, deixe que faça isso. Deixe que ela tenha instrução.

– Aprender? Aprender o quê, mulá sahib? – indagou Nana rispidamente. – O que há para ser aprendido? – E voltou os olhos para a filha.

Mariam ficou fitando as próprias mãos.

– Que sentido faz dar instrução a uma garota como você? – prosseguiu a mulher. – É como lustrar uma escarradeira. E, nessas escolas, você não vai aprender nada que preste. Só há uma coisa na vida que mulheres como você e eu precisamos aprender, e ninguém ensina isso nas escolas. Olhe para mim.

– Você não devia falar assim com ela, minha filha – observou o mulá Faizullah.

– Olhe para mim – insistiu Nana.

Mariam obedeceu.

– Só uma coisa: tahamul. A capacidade de suportar.

– Suportar o quê, Nana? – indagou a menina.

– Não se aflija com isso – retrucou Nana. – Não vão faltar exemplos.

E prosseguiu contando que as esposas de Jalil diziam que ela era feia, uma mísera filha de entalhador. Mandavam que ficasse lavando roupa do lado de fora, no frio, até o seu rosto ficar entorpecido e os seus dedos, queimados.

– É isso que a vida reserva para nós, Mariam – acrescentou. –

Para as mulheres como nós. E suportamos. Temos de suportar. Está me entendendo? Além do mais, vão rir de você na escola. Vão, sim. Vão chamá-la de harami. Vão dizer coisas horríveis a seu respeito. Não vou permitir isso.

Mariam fez que sim com a cabeça.

– E não se fala mais nessa história de escola. Você é tudo o que tenho. Não quero perdê-la para essa gente. Olhe para mim. Não se fala mais nisso.

– Ora, vamos, seja sensata – principiou o mulá. – Se a menina quer…

– E o senhor, akhund sahib, com o devido respeito, não tem nada que ficar incentivando essas idéias bobas. Se quer realmente o bem de Mariam, deve lhe fazer ver que o lugar dela é aqui, nesta casa, com sua mãe. Não há nada que possa lhe interessar lá fora. Nada além de rejeição e sofrimento. Sei muito bem disso, akhund sahib. E como…

MARIAM ADORAVA QUANDO TINHA VISITA na kolba. O arbab do vilarejo com seus presentes, Bibi jo com seus quadris doloridos e seus intermináveis mexericos, e, é claro, o mulá Faizullah. No entanto, não havia ninguém, mas ninguém mesmo, que ela gostasse mais de ver do que Jalil.

A ansiedade começava nas noites de terça-feira. Mariam dormia mal, com medo de que algum problema nos negócios pudesse impedir Jalil de aparecer na quinta, pois, se isso acontecesse, ela ficaria mais uma semana inteira sem vê-lo. Na quarta-feira, a menina ficava andando de um lado para o outro no quintal, atirando a comida das galinhas para dentro do cercado sem prestar a mínima atenção ao que fazia. Saía para passeios sem rumo, e ia apanhando pétalas de flores e espantando os mosquitos que pousavam em seus braços. Finalmente, na quinta-feira, tudo o que conseguia fazer era ficar sentada, recostada na parede, com os olhos pregados no riacho, esperando. Se Jalil se atrasava um pouco, um medo terrível ia se apossando dela aos pouquinhos, até que sentia as pernas bambas e tinha de ir se deitar em algum lugar.

Finalmente, Nana gritava:

– Pronto, seu pai chegou. Em toda a sua glória…

Mariam se levantava de um salto assim que o avistava pulando sobre as pedras do riacho, todo sorrisos e acenos carinhosos. A menina sabia que Nana ficava de olho, espreitando cada reação sua, e ter de ficar parada ali, na porta, esperando, vendo-o se aproximar lentamente e não sair correndo ao seu encontro era algo que exigia um esforço considerável. Conseguia porém se conter e, com toda paciência, ficava observando Jalil atravessar o mato alto, com o paletó do terno pendurado no ombro e a brisa balançando a gravata vermelha.

Quando ele penetrava na clareira, atirava o paletó em cima do tandoor e abria os braços. Só então a menina se mexia, correndo enfim para ele a pegar por baixo dos braços e jogá-la para o alto. E Mariam gritava.

Lá de cima, via o rosto de Jalil ao contrário, o seu sorriso largo e meio retorcido, o seu bico-de-viúva, o furinho no queixo – perfeito para ela pôr a ponta do mindinho ali dentro -, e aqueles dentes tão brancos se destacando num mundo de molares cariados. Ela gostava daquele bigode caprichado e gostava também do fato de seu pai usar sempre o mesmo terno quando vinha visitá-la, fosse qual fosse o tempo que estivesse fazendo – um terno marrom-escuro, sua cor favorita, com o triângulo branco do lenço saindo do bolso do paletó -, além de abotoaduras e gravata, em geral vermelha, cujo nó ele afrouxava. Mariam também podia ver a si própria, refletida nos olhos castanhos de Jalil: o cabelo ondulado, o rosto radiante de empolgação e o céu às suas costas.

Nana dizia que, qualquer dia desses, Jalil ia errar e Mariam ia escorregar por entre os seus dedos, cair no chão e quebrar um osso. Mas a menina não acreditava que Jalil fosse deixá-la cair. Tinha certeza de que sempre voltaria ao chão, com toda segurança, pelas mãos limpas e bem tratadas de seu pai.

Sentavam-se no quintal da kolba, à sombra, e Nana lhes servia chá. Os dois se cumprimentavam com um sorriso constrangido e um aceno de cabeça. Jalil nunca mencionou as pedras que Nana atirava, nem seus xingamentos.

Embora resmungasse muito quando Jalil não estava por perto, Nana se mostrava contida e delicada quando ele vinha visitar a filha. Estava sempre de cabelo lavado, escovava os dentes e usava seu melhor hijab. Sentava-se numa cadeira defronte dele, calada, com as mãos cruzadas no colo. Não o olhava diretamente e nunca usava expressões grosseiras quando ele estava por perto. Se ria, tapava a boca com a mão para esconder os dentes estragados.

Perguntava como iam os negócios. Perguntava também por suas esposas. Quando ela lhe disse que tinha ficado sabendo, por Bibi jo, que Nargis, a esposa mais jovem, estava esperando o terceiro filho, Jalil sorriu polidamente e assentiu com um gesto.

– Bom, você deve estar feliz – observou Nana. – Quantos são ao todo? Dez, não é? Mashallah! São dez?

Jalil confirmou.

– Onze, contando com Mariam, é claro! – acrescentou Nana.

Mais tarde, depois que ele já tinha ido embora, mãe e filha tiveram uma discussão por causa desse episódio. Mariam disse que ela tinha agido de má-fé.

Quando acabavam de tomar chá com Nana, Mariam e Jalil iam pescar no riacho. Ele lhe ensinou como lançar o anzol, como enrolar a linha para fisgar a truta. Ensinou-lhe ainda o jeito certo de abrir uma truta para limpá-la e separar a carne da espinha de uma só vez. Desenhava para a filha enquanto esperavam que algum peixe mordesse a isca, e lhe mostrou como fazer um elefante com um único traço, sem sequer tirar a caneta do papel. Também lhe ensinava cantigas. Juntos cantavam:

Bem no meio do caminho

Tinha um tanque de passarinho.

Com muita sede,

Dona carpa foi se chegando,

Mas escorregou na borda do tanque

E acabou afundando.

Jalil trazia recortes do Ittifaq-i Islam, o jornal de Herat, e lia as notícias para a filha. Ele era a sua ligação com o mundo lá fora, a prova de que havia muito mais coisas além da kolba, além de Gul Daman e até de Herat; havia um mundo com presidentes de nomes impronunciáveis, com trens, museus, futebol e foguetes que giravam pela órbita da Terra e aterrissavam na lua. Toda quinta-feira Jalil trazia consigo um pedacinho desse mundo para a kolba.

Foi ele quem lhe contou, no verão de 1973, quando Mariam estava com 14 anos, que o rei Zahir Shah, que havia governado o país por quarenta anos, tinha sido deposto por um golpe sem derramamento de sangue.

– O primo do rei, Daoud Khan, articulou o golpe enquanto Zahir Shah estava na Itália, para tratamento de saúde. Você se lembra de Daoud Khan, não é? Já lhe falei a seu respeito. Era o primeiro-ministro quando você nasceu. Bom, seja como for, o Afeganistão deixou de ser uma monarquia, Mariam. Agora, é uma república, e Daoud Khan é o presidente. Dizem que os socialistas de Cabul o ajudaram a tomar o poder. Não que ele próprio seja socialista, veja bem, mas eles o ajudaram. Pelo menos, é o que andam dizendo por aí.

Mariam lhe perguntou o que era um socialista, e Jalil começou a lhe explicar, mas a menina mal prestou atenção ao que ele dizia.

– Está me ouvindo?

– Estou.

Jalil percebeu que ela tinha os olhos pregados no volume do bolso de seu paletó.

– Ah, é claro – exclamou ele. – Bom, aqui está. Não vamos discutir por isso…

Pegou uma caixinha e entregou-a à filha. De vez em quando, trazia um presentinho para ela. Certa feita, foi uma pulseira de cornalinas, outra, um colar com contas de lápis-lazúli. Nesse dia, ao abrir a caixa, Mariam viu um cordão com um pingente em forma de folha do qual pendiam moedinhas minúsculas com luas e estrelas gravadas.

– Vamos lá, experimente, Mariam jo.

A menina obedeceu.

– O que acha? – indagou ela.

– Você está parecendo uma rainha – respondeu Jalil, todo sorridente.

Depois que ele já tinha ido embora, Nana notou o pingente no pescoço da filha.

– Isso é coisa dos nômades – exclamou. – Já os vi fazendo isso. Eles recolhem as moedas que as pessoas jogam fora e fazem bijuterias com elas. Quero só ver se o seu querido paizinho vai lhe trazer alguma coisa de ouro da próxima vez. Quero só ver…

Quando chegava a hora de Jalil ir embora, Mariam ficava parada na porta e o via se afastar pela clareira, infeliz com a idéia daquela semana inteira que, como algo imenso e irremediável, a separava da próxima visita de seu pai. Invariavelmente, prendia a respiração enquanto o via indo embora. Prendia a respiração e, mentalmente, contava os segundos. Fazia de conta que, para cada segundo que conseguisse ficar sem respirar, Deus lhe daria mais um dia com Jalil.

À noite, deitada na cama, ficava tentando imaginar como seria a casa dele em Herat. Tentava imaginar como seria morar ali, estar com ele diariamente. Podia até se ver estendendo-lhe a toalha quando ele acabasse de fazer a barba, avisando-o se por acaso se cortasse. Faria chá para ele. Pregaria os botões das suas roupas. Juntos, passeariam por Herat, passando pelas arcadas daquele bazar onde Jalil dizia que era possível encontrar qualquer coisa que se desejasse. Andariam de carro e, ao vê-los passar, as pessoas diriam: “Lá vai Jalil, com a filha.” Ele lhe mostraria a célebre árvore debaixo da qual o poeta está enterrado.

Logo, logo, decidiu Mariam, contaria tudo isso a Jalil. E, quando ele a ouvisse, quando compreendesse como ela sentia a sua falta, com certeza a levaria consigo. Ia levá-la para Herat, para morar em sua casa, exatamente como os seus outros filhos.

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