Bill Gates: “Não há vida fora da Internet”

Bill Gates é o terceiro homem mais rico do mundo, com uma fortuna estimada em 58 bilhões de dólares (2008). Se uma pessoa ganhasse um dólar por segundo, levaria cerca de 2.000 anos para acumular tal fortuna.

Segue abaixo a entrevista de Bill Gates (William Henry Gates III) concedida a revista Veja em 22/11/1995, no momento em que o governo americano movia processo de formação de monopólio contra a Microsoft.

Bill GatesVeja – Dentro de alguns dias o computador pessoal, o PC, será a mais extraordinária máquina do século passado. A era do computador pessoal está no fim?
GATES – O motor da indústria de computadores sempre foi a reinvenção, a transformação de velhas abordagens em idéias novas. Fazemos isso desde o ano zero de criação do PC. Esperar algo mágico de uma simples virada de página do calendário, uma coisa totalmente arbitrária, é inconseqüente. Avanços revolucionários marcaram a indústria nos anos ímpares e pares e não apenas naqueles terminados em números redondos. Independentemente dos dígitos que identificam o ano em que estamos, a internet vai continuar sua expansão fenomenal. A próxima década será muito, muito interessante e continuaria sendo tão vibrante mesmo que não estivéssemos às portas do ano 2000.

Veja – A idéia do ano 2000 não é tão arbitrária assim, tanto que há enorme expectativa com relação ao bug do milênio. Há algo a temer?
GATES – O grande problema do bug do milênio já passou. Foi seu custo. Para abrir os programas, consertar as coisas lá dentro, foram gastos centenas de bilhões de dólares no mundo todo. É provável que ainda ocorram algumas perturbações em determinados programas de cobrança ou de controle de estoque. Mas eu ficaria muito surpreso se houvesse alguma pane significativa nos sistemas de transporte, energia, na infra-estrutura, enfim, nos Estados Unidos ou em qualquer outro país industrializado. A verdade é que a maioria dos problemas que poderiam ocorrer, pela lógica, já teria aparecido, digamos, quatro ou cinco anos atrás. O bug teria dado as caras quando alguém tentasse em 1996, por exemplo, fazer a projeção de dez anos de uma apólice de seguros. Faço uma ressalva sobre os mercados de dinheiro. Realmente a complexidade dos programas financeiros em Wall Street é tamanha que não faço nenhuma previsão sobre o que pode ocorrer. Mas, de modo geral, acredito que o medo do bug do milênio é exagerado.

Veja – Pessoalmente, o senhor vai tomar alguma precaução especial – como não viajar de avião no dia 31 de dezembro?
GATES – Não. Já sei que vou viajar no dia 31, mas no dia seguinte estarei em casa, como todo mundo. A Microsoft vai manter o serviço de atendimento ao consumidor funcionando durante os feriados do fim de ano, de modo que nossos clientes tenham respostas rápidas para os problemas que possam ocorrer. Claro que não vou me conter e vou ligar para a empresa no dia 1º de janeiro para saber se houve algo de anormal. Mas essa será a única mudança na minha rotina.

Veja – O senhor não acha que boa parte dos compradores de computadores pessoais subutilizam seus aparelhos?
GATES – Não acredito. A maioria dos usuários está se beneficiando grandemente do uso dos computadores pessoais. As possibilidades gráficas, a capacidade de armazenamento de dados, a riqueza dos programas e a conexão com a internet impulsionam a indústria de PC de um modo formidável. A maneira como o Windows resolveu os grandes problemas de utilização dos computadores pessoais certamente será lembrada como um avanço histórico. Claro que o PC ainda exige certo domínio de operações muito complexas e há queixas e frustrações de pessoas que simplesmente não conseguem tirar da máquina tudo que gostariam. Elas têm de aprender comandos e, às vezes, são surpreendidas por inesperadas mensagens de erros. O Windows 2000 vai eliminar um bocado dessas coisas negativas. Vamos simplificar as experiências das pessoas com o software e livrá-las dos incômodos mais comuns, como os congelamentos do computador. Não vejo motivo para pessimismo quanto ao futuro da indústria de computadores pessoais. Desculpe-me, mas essa história da chegada de uma era pós-PC, do triunfo no mercado dos aparelhos não-PC, parece-me muito mais uma denominação criada por jornalistas do que um reflexo fiel do que está ocorrendo na realidade.

Veja – Não me parece que tudo seja apenas uma questão de nomenclatura…
GATES – Bem, eu vou continuar chamando de PC aquele aparelho de tela grande que as pessoas têm em casa e os funcionários das empresas utilizam para realizar seu trabalho. O que se está dizendo é que esses aparelhos de tela grande vão acabar? Sinceramente, não entendo o que querem dizer quando falam no fim da era do PC. O computador pessoal é o produto que sofreu as mutações mais rápidas que o mundo já viu. A questão é se ele vai continuar mudando. A resposta é sim. Agora, se as pessoas quiserem dar um nome novo para esse aparelho, tudo bem, mas é uma distinção um tanto tola. As vendas de computadores têm aumentado bastante e temos de ter em mente que quase todas as novas idéias tecnológicas que estão surgindo exigem que as pessoas tenham PCs poderosos em casa e máquinas sólidas estáveis sustentando o tráfego nas redes. Não fica de pé a idéia de que as pessoas vão prescindir da capacidade de processamento e de armazenamento de seus computadores e usar terminais burros ligados à internet. Ocasionalmente, as pessoas vão mesmo buscar um programa na internet e utilizá-lo apenas por algum tempo, em vez de ir à loja e comprar o produto numa caixa. A Microsoft terá um serviço assim.

Veja – O senhor acha justo dizer que está aí uma idéia que Bill Gates copiou de empresas pioneiras em vender software pela internet?
GATES – De maneira alguma. Não existem idéias novas de como utilizar a rede. Isso tudo já era sabido nos anos 70. Apenas não era economicamente viável. A internet foi crescendo e, de repente, boom!, descobrimos que tinha massa crítica suficiente para ser utilizada como canal de distribuição de programas comerciais. Tudo isso tem suas raízes no passado, no tempo em que os computadores eram tão caros que vários usuários eram obrigados a compartilhar a mesma máquina. Por essa razão, se alguém lhe disser que inventou algo muito novo na área da ciência da computação, desconfie. Toda idéia brilhante de hoje já foi uma idéia impraticável no passado. Quando nós criamos a Microsoft, há 25 anos, as pessoas riam de nós. Todo mundo da indústria achava impraticável que as pessoas pudessem ter computadores individuais com um razoável poder de processamento. Mas os tempos são outros e o computador pessoal é apenas parte do cenário de nossas possibilidades como empresa. O PC não é a única coisa que nos move.

Veja – O senhor está dizendo que a Microsoft sobreviverá à era PC?
GATES – Lá vem você de novo com esse conceito vago. Haverá nas casas do futuro diversos aparelhos eletrônicos para fazer conexão com a internet. Mas sempre haverá nas casas e nos escritórios um aparelho principal que podem chamar do que bem entenderem, mas para mim ele será um PC. O teclado poderá ter sido abolido pelo uso das tecnologias de reconhecimento de voz e de caligrafia. Provavelmente o aparelho não terá mais aquele monitor grande e desengonçado de raios catódicos. Ele terá sido substituído por uma tela plana de cristal líquido. Mesmo o disquete deverá ter desaparecido por causa da facilidade de estocar e recuperar dados de algum site da internet. Mas aposto que essa máquina terá capacidade de processamento e vai rodar programas poderosos como os que produzimos. Certamente não existirá, nos próximos trinta anos, uma barreira capaz de impedir o desenvolvimento dos PCs, seja ela econômica, seja tecnológica.

Veja – Para muita gente, a definição de PC é uma máquina que leva uma eternidade para começar a funcionar e apenas um átimo para congelar. O PC do futuro se livrará desses pecados originais?
GATES – Sistemas operacionais mais avançados como o Windows 2000 vão acabar com o congelamento das máquinas. Mas vamos conviver ainda uns cinco anos com os discos rígidos. São eles os responsáveis pelo tempo de inicialização de um computador. O disco precisa ser ligado e começar a girar para que o PC funcione. Não vejo nenhuma tecnologia economicamente viável de substituição do disco para uso imediato. Na verdade, as pessoas não estão muito incomodadas com isso. Os consumidores têm consistentemente escolhido comprar computadores com discos, preferindo-os aos de inicialização instantânea, que já vêm com programas pré-instalados.

Veja – O senhor costuma dizer que há sempre o perigo de que um garoto numa garagem esteja inventando algo que vai tornar a Microsoft obsoleta. O sistema operacional Linux, que é eficiente e gratuito, pode ser essa ameaça?
GATES – Não. Acho um erro desprezar qualquer concorrente, mas o Linux não ameaça justamente porque não existe apenas um Linux. O ponto mais forte do Windows foi sempre ter sido único. Hoje existem milhares de versões do sistema Linux. Todo mundo acha que pode fazer sua própria versão. Isso gera incompatibilidades que assustam os usuários. Brincar com o código-fonte de sistemas operacionais é divertido para hackers e programadores, mas não para a maioria das pessoas.

Veja – O senhor acredita que a internet pode contribuir para diminuir o fosso entre os países pobres e ricos?
GATES – O surgimento da internet é uma notícia boa para todas as pessoas em qualquer lugar do mundo. Ela permite compartilhar instantaneamente resultados de testes com novos remédios, pesquisas e ajuda tremendamente o desenvolvimento da ciência. Além disso, ela alarga as fronteiras do próprio capitalismo, dando um poder inusitado aos consumidores. Isso torna a economia dramaticamente mais eficiente. O mundo como um todo está se beneficiando da internet. Os países em desenvolvimento que mais investiram em educação e comunicação serão os maiores beneficiados. O caso da Índia é interessante. O cidadão indiano médio não tem acesso a um sistema educacional maravilhoso, mas tem o legado britânico que privilegia a qualidade. O resultado disso é que atualmente há cerca de 1 milhão de pessoas trabalhando na indústria de software na Índia. Graças à internet eles estão próximos dos consumidores de seus produtos. Isso tem um efeito equalizador. Por causa da internet, o salário de um criador de software na Índia, que costumava ser um décimo do que se paga nos Estados Unidos, hoje é quase equiparado ao que pagamos.

Veja – Que conselhos o senhor daria a um jovem empreendedor brasileiro?
GATES – É preciso querer fazer algo novo, inédito, grandioso. Nos Estados Unidos há a sensação agora de que qualquer coisa relacionada à internet vai gerar uma empresa da noite para o dia que logo estará com ações na bolsa, deixando seus fundadores ricos. Essa situação não vai durar. Logo vão prosperar apenas as empresas que realizarem coisas únicas e valiosas. As cópias, as imitações, não vão durar muito, em benefício do consumidor. A internet dá muito mais poder aos consumidores do que às empresas. Obviamente, isso significa que a competição tende a aumentar e as margens de lucro, a cair neste novo ambiente de negócios. Por outro lado, é uma época fascinante para pessoas com queda para estratégia empresarial. A internet é onde todo jovem empreendedor deve estar. É o lugar certo para encontrar outras pessoas, um emprego ou para construir uma empresa. A verdadeira revolução está apenas no começo. Mas é um erro achar que a internet vai pulverizar os negócios estabelecidos e transformar o mundo num lugar onde só existam pequenas empresas. Uma das situações mais interessantes agora pode ser fazer parte de uma grande empresa que ensaia seus primeiros passos na internet. Ser o agente de mudança de uma grande empresa, ajudá-la a entender o real impacto da internet e se reinventar pode ser excitante e menos arriscado do que se aventurar de peito aberto num negócio próprio com a ilusão de que, por estar na internet, vai ser um sucesso imediato. Talvez para muitos jovens possa ser mais vantajoso aproveitar os recursos financeiros e materiais de uma grande empresa para explorar as grandes possibilidades abertas pela internet.

Veja – Como o senhor encara o processo por monopólio que o governo americano move contra a Microsoft?
GATES – Não existe liderança duradoura no mundo da tecnologia. Mesmo uma empresa dona de larga fatia do mercado por muitos anos pode rapidamente ser varrida do mapa se não desenvolver vigorosamente o produto e baixar constantemente seu preço. Portanto, se nós não desenvolvermos o Windows algum de nossos competidores vai tomar o lugar no mercado. Obviamente, queremos manter nossa posição de liderança e, por isso, investimos em pesquisa básica mais do que qualquer outro produtor de software. Mas nosso negócio não pode ser comparado aos monopólios tradicionais. Fabricar um produto líder como o Windows não é a mesma coisa que ser dono, por exemplo, de todas as minas de cobre do mundo. Nesse caso, seu poder é inabalável. Não vai aparecer da noite para o dia outra pessoa com outra montanha de cobre para competir com a sua. Com o Windows é diferente. Nosso mercado é o mais dinâmico da história do capitalismo. Por isso o fato de termos liderado o mercado por mais de vinte anos diz muito sobre nossas qualidades, mas não é uma garantia de futuro. Temos de nos reinventar todos os dias.

Veja – Quem o senhor escolheria como o maior homem de negócios do século: Bill Gates, Thomas Watson Jr, da IBM, ou Henry Ford?
GATES – Por mais simplista que pareça escolher um único nome, na minha opinião o empreendedor do século é, provavelmente, Alfred Sloan Jr. Ele pegou a General Motors quando a empresa não passava de um amontoado de unidades que haviam sido adquiridas desorganizadamente por seus antecessores. Sloan encarnou as melhores idéias nascentes em sua época: o senso de medida das coisas, de contato íntimo com o consumidor, o gerenciamento de grandes organizações, a necessidade de redes de apoio financeiro. Ele criou uma organização que, pela primeira vez, entendeu como é vital ser sensível às preferências do mercado.

Veja – O senhor já doou 17 bilhões de dólares para as fundações que levam seu nome. Planeja alguma grande doação para países como o Brasil no futuro próximo?
GATES – Sim. Estou muito interessado em incentivar a pesquisa de vacinas que ajudem a debelar doenças em países não tão afortunados quanto os Estados Unidos. Essas novas vacinas podem salvar 1 milhão de vidas no mundo a cada ano. Quero incentivar a pesquisa de vacinas contra a Aids e contra a malária. Estamos contribuindo consideravelmente para uma equipe da Universidade Colúmbia que trabalha com a erradicação da mortalidade infantil em diversos partes do mundo. Eventualmente vamos investir fora dos Estados Unidos em fornecer meios de acesso à internet para pessoas que não têm como custear um provedor. Mas, por enquanto, quero manter o foco de minhas doações em atividades ligadas à saúde.

Dicas de leitura:

—–
+ Veja também: