Poemão do Chico Faminto na hora da Fome Zero | Millôr Fernandes

E, como é, onde é que estamos?
Estamos numa floresta
Em que até santo não presta
Quem puder que se defenda
Quem não compra que se venda
Acho que é um mar profundo
Mais que isso, até sem fundo,
Do meio pra cima imundo.
Robalo come tainha
Tubarão come cação
Bonito come sardinha
E traíra o próprio irmão
Depois todos são comidos
Por cação e tubarão
E esses reis da crueldade
Tudo que comem descomem
Através do próprio homem
Nos mercados da cidade.
Tem razão o bom patrão
Viver não é só comida
Estive fazendo as contas
É só metade da vida
Mas eu ficava contente
Comendo só uma vez
Bem, uma vez por mês,
Só quem não vê nem miséria
No banquete universal
Só eu nessa comilança
Não ponho nada na pança
E sou muito boa boca
Como o fino, o trivial,
O que me vier eu traço
Olha aqui, meu pai do céu,
Qualquer coisa, sabe, vai,
Quero a fruta e o bagaço
Como a casca e o caroço
Só não quero coisa pouca
Menos do que o essencial
Como até açúcar sem sal
Qualquer coisa dá pra mim
Do refinado ao chinfrim
Aqui como como aqui,
E a vocês que são cabanos
Eu digo sem desdenhá-los
Em Roma eu como os romanos.

Millôr Fernandes
Brasil | World

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