Vidas: Nelson Rodrigues

Nelson Falcão Rodrigues (1912-1980)
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Dramaturgo, romancista e jornalista pernambucano. Um dos principais autores do teatro brasileiro, sua obra aborda temas polêmicos, como o tabu do incesto, o adultério e a morte.
Nasce no Recife e muda-se ainda criança para o Rio de Janeiro. Aos 13 anos começa a trabalhar em jornal. Em 1941 escreve a primeira peça, A Mulher sem Pecado. Revoluciona o teatro nacional com Vestido de Noiva (1943). O texto fragmentário apresenta ações simultâneas em tempos diferentes e a coexistência de três planos (realidade, memória e alucinação). Sua obra teatral é assim classificada pelo crítico Sábato Magaldi: peças psicológicas (nas quais se incluem as duas primeiras), peças mitológicas (Anjo Negro e Álbum de Família) e tragédias cariocas (A Falecida e O Beijo no Asfalto). Suas obras causam polêmica ao abordar temas sexuais e morais, como incesto e virgindade, infidelidade e traição, de forma mórbida, obsessiva e moralista. Sua vida pessoal é marcada por tragédias, como o assassinato do irmão e o filho torturado pelo regime militar de 1964, que ele defendia. Escreve os romances Meu Destino É Pecar e O Casamento. Deixa 17 peças. Em 1968 publica suas crônicas nos livros As Confissões de Nelson Rodrigues e O Óbvio Ululante. Escreve a sua última grande peça, A Serpente, em 1978 e falece dois anos depois.

Ao longo de sua trajetória artística, Nelson Rodrigues é alvo de uma polêmica que o faz conhecer tanto o sucesso absoluto, como em Vestido de Noiva, 1943, cuja encenação por Ziembinski marca o surgimento do teatro moderno no Brasil, quanto a total execração, como em Anjo Negro, 1948, ousada montagem para a época pelo Teatro Popular de Arte. Distante de qualquer modismo, tendência ou movimento, cria um estilo – e quase um gênero – próprio e é hoje considerado o maior dramaturgo brasileiro.

A primeira peça de Nelson já traz uma evidente carga psicológica, em que o jogo neurótico invade e transforma as relações. O que move a ação de A Mulher sem Pecado é o ciúme, doença aceita nos extratos mais recatados da sociedade. A narrativa se mantém dentro do comportamento social e dos cânones realistas, só permitindo ao espectador acesso ao mundo interior das personagens através desse filtro. Na encenação do texto pela bem comportada companhia Comédia Brasileira, em 1942, o que é o latente estilo rodriguiano passa despercebido.

Em Vestido de Noiva, Nelson cria um artifício dividindo a ação em três planos – a memória, o coma e o real – permitindo ao espectador acessar toda a complexidade da psique da personagem central. O texto sugere insuspeitas perversões psicológicas, mas a temática não ultrapassa a traição entre irmãs e o apelo da vida mundana sobre a fantasia feminina. A encenação realizada por Ziembinski com o grupo Os Comediantes, em 1943, torna-se um marco histórico, passando por várias remontagens no decorrer das próximas décadas.

Em Álbum de Família, texto seguinte, escrito em 1945, Nelson elabora um mergulho radical na inconsciência primitiva de suas personagens, que se tornam arquétipos, trabalhando sua narrativa sobre as verdades profundas e inimagináveis do ser humano a partir da célula da família. Aqui o tema se aloja em um dos maiores tabus sociais – o incesto em todas as direções, entre irmãos, mãe e filho, pai e filha. O autor nomeia seu estilo de “teatro desagradável” e reconhece que este teatro, que se inicia a partir de Álbum de Família, inviabiliza a repetição do sucesso de Vestido de Noiva, porque “são obras pestilentas, fétidas, capazes, por si só, de produzir o tifo e a malária na platéia”.

A rejeição à obra de Nelson Rodrigues, de motivação eminentemente moral, começa com a censura a algumas de suas peças. Álbum de Família, de 1945, só virá a ser encenada 22 anos depois de escrita. Anjo Negro, de 1946, sofre tentativas de censura religiosa, mas consegue ir à cena dois anos depois, polêmica montagem, novamente encenada por Ziembinski, pelo Teatro Popular de Arte, encabeçados por Maria Della Costa e Sandro Polloni.

Nelson volta mais uma vez a ser encenado por Ziembinski em 1950, com Dorotéia. A encenação e o texto, da intitulada “farsa irresponsável” pelo autor, não são compreendidos pelo público, saindo rapidamente de cartaz. Em 1951 é a vez de Valsa Nº 6, um monólogo em que uma jovem de 15 anos, golpeada mortalmente, recupera, em estado de choque, o mundo a sua volta. A peça é escrita para ser interpretada por Dulce Rodrigues, irmã do autor, e é dirigida por Henriette Morineau.

Em 1953, A Falecida, primeira tragédia carioca de Nelson retratando a peculiaridade da Zona Norte do Rio de Janeiro, é encenada por José Maria Monteiro, com a Companhia Dramática Nacional – CDN, tendo Sônia Oiticica e Sergio Cardoso como protagonistas. Na seqüência, surge Senhora dos Afogados, escrito antes de Dorotéia e Valsa Nº 6, em 1947. A montagem que, inicialmente estrearia no Teatro Brasileiro de Comédia – TBC, tem seu curso interrompido após meses de ensaios, sendo retomada em 1954 pela CDN, com direção de Bibi Ferreira. Ao final da estréia, ao subir, em uma extremidade do palco, o autor, e, na outra, a diretora, o público vira-se na direção dele e vaia, volta-se para ela e aplaude, exaltando o espetáculo para repudiar o texto. A causa do horror do público é outra vez a relação incestuosa, o amor da filha pelo pai, que faz com que a mãe se vingue traindo o marido com o noivo da filha, motivando assassinatos entre os membros da família.

Perdoa-me por me Traíres, a história de uma órfã adolescente que vive sob a repressão de um casal de tios, que ao final descobre ser fruto de um incesto, causa escândalo na cena carioca, em 1957. Sendo produzida pelo ator e autor Glaucio Gill, o elenco traz o próprio Nelson Rodrigues e Abdias do Nascimento, líder do Teatro Experimental do Negro – TEN.

Ainda em 1957, Nelson escreve Viúva, porém Honesta, outra “farsa irresponsável”, sátira violenta tendo como alvo os jornalistas e a crítica especializada. Menos de dois meses após o lançamento de Perdoa-me, a produção de Viúva, com direção do alemão Willy Keller e cenários e figurinos de Fernando Pamplona, vem a ser a resposta do autor à má recepção da opinião pública à peça anterior.

Em 1958, a Companhia Nydia Licia-Sergio Cardoso retoma Vestido de Noiva, numa versão renovada, bem distinta da primeira de Ziembinski, merecendo elogios dos jornais.

Os Sete Gatinhos, “a divina comédia”, retoma o tema de família suburbana carioca, agora se decompondo drasticamente a partir da revelação de que a única filha acima de qualquer suspeitas é, em realidade, uma pervertida. A peça tem novamente Willy Keller na encenação, e é produzida pelo irmão de Nelson, Milton Rodrigues.

Em 1961, José Renato, fundador do Teatro de Arena, encena, no Teatro Nacional de Comédia, TNC, a próxima peça de Nelson, Boca de Ouro, escrita em 1959, e que, em 1969, tivera uma estréia mal-sucedida na mão de Ziembinski, que cismara em interpretar o papel-título. As várias faces de Boca de Ouro, o bicheiro cafajeste da Zona Norte, que surgem de conhecidos seus a partir de depoimentos após a sua morte, ganham brilho e verossimilhança na interpretação de Milton Moraes.

O Beijo no Asfalto é escrita sob encomenda de Fernanda Montenegro a Nelson. Em 21 dias, o autor apresenta mais uma de suas tragédias cariocas, agora abordando a sordidez não só da imprensa, mas também da polícia, numa trama forjada que destrói a reputação de um homem, acusado de homicida e homossexual. O Teatro dos Sete estréia o espetáculo em 1961, sob a direção de Fernando Torres, com cenografia de Gianni Ratto, contando com Fernanda, Sergio Britto, Oswaldo Loureiro, Ítalo Rossi, entre outros.

Martim Gonçalves, animador do Teatro Novo, monta em 1962 Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas Ordinária. A trama gira em torno das hesitações de um humilde contínuo, entre casar-se com a filha de um magnata e vítima de um estupro bárbaro, ou manter-se fiel a seus sentimentos por uma prostituta pobre que sustenta a mãe louca e as três irmãs, papel reservado a Tereza Raquel, que se destaca no conjunto.

Em 1965, Ziembinski retoma a parceria com Nelson, para lançar Toda Nudez Será Castigada, a história de um homem conservador que se apaixona por uma prostituta, que acaba por traí-lo com o próprio filho. Ela suicida-se após a fuga do rapaz com um outro homem, e deixa uma gravação revelando toda a verdade ao marido. Para incorporar a protagonista Geni, muitas atrizes são consultadas, mas recusam o papel, que é tomado com paixão por Cleyde Yáconis.

Tendo encenado cinco peças de Nelson Rodrigues, Ziembinski é aquele que, entre os diretores que realizam as primeiras encenações do autor, não se limita a montar o texto mas se serve dele para construir uma linguagem própria, na maioria das vezes em busca de um expressionismo que, em vez de situar a ação em ambientes decorativos, cria, com auxílio primordial da cenografia e da iluminação, espaços a serem utilizados pela marcação cênica.

Em 1967, é a vez de subir a cena a terceira peça de Nelson, Álbum de Família, escrita em 1945 e logo proibida pelos censores, liberada somente 20 anos depois. O Teatro Jovem, de Kleber Santos, assume a montagem, tendo Vanda Lacerda, José Wilker e Thelma Reston, entre outros, no elenco.

Os compromissos jornalísticos, a decepção com a receptividade de suas peças e os problemas de saúde fazem com que Nelson deixe de escrever para o teatro durante oito anos. Seu penúltimo texto dramático é Anti-Nelson Rodrigues, de 1973, e, ao contrário das anteriores, dá um final feliz aos protagonistas da trama. Neila Tavares, responsável por convencer o dramaturgo a escrever para ela, incorpora a personagem Joice, sob a direção de Paulo César Pereio.

A última peça de Nelson Rodrigues, A Serpente, é escrita em 1978. Duas irmãs casam-se no mesmo dia, uma é feliz no casamento e a outra não consegue sequer perder a virgindade em sua lua-de-mel. A bem-sucedida empresta o marido à irmã, trazendo paixão, ciúmes e morte para a relação fraternal. Sobre a peça paira um certo rótulo de “maldita”, superstição conhecida dentro da classe teatral, tendo, no mínimo, três expectativas de montagem frustradas. O espetáculo acaba por estrear em 1980, dirigida por Marcos Flaksman, no Teatro do BNH, no Rio de Janeiro, casa de espetáculos que ganha o nome de Teatro Nelson Rodrigues, após a morte do autor.

Os textos de Nelson Rodrigues ganham dezenas de remontagens ao longo das próximas décadas. Léo Jusi, Ivan de Albuquerque, Osmar Rodrigues Cruz, Roberto Lage, Eduardo Tolentino de Araújo, Emílio Di Biasi, Antunes Filho, Antônio Abujamra, Antônio Pedro, Paulo Betti, Gabriel Villela, Moacyr Góes, Luiz Arthur Nunes e Marco Antonio Braz, são alguns diretores que encenam a sua própria versão das obras de Nelson, às vezes até adaptando seus romances, contos e crônicas jornalísticas para o teatro.

Nelson Rodrigues tem vinte de suas histórias transpostas para a tela do cinema, algumas em duas versões, como Boca de Ouro, de Nelson Pereira dos Santos, 1962, e de Walter Avancini, 1990, e Bonitinha, mas Ordinária, de R. P. de Carvalho, 1963, e de Braz Chediak, 1980. Algumas das realizações mais bem-sucedidas são A Falecida, de Leon Hirszman, 1965, e O Casamento, de Arnaldo Jabor, 1975. Suas crônicas para O Jornal, sob o pseudônimo de Suzana Flag, são publicadas em livros, como Meu Destino é Pecar, As Escravas do Amor e O Homem Proibido. Escreve também para os periódicos Última Hora, Flan, Correio da Manhã, O Globo e Manchete Esportiva. Assinando artigos sobre esporte, não priva o leitor de seu estilo dramático, atendo-se muitas vezes ao sentido da rivalidade, ao significado do gol, ao efeito do suor sobre a subjetividade da platéia brasileira.

Na maioria das obras do autor, a realidade tem apenas o papel de situar a ação, que se concentra de fato sobre o universo interior das personagens. O jogo entre a verdade interior – nem sempre psíquica – e a máscara social é outro elemento recorrente em sua dramaturgia. as personagens podem se desmascarar ao longo da narrativa – como em Beijo no Asfalto ou Toda Nudez Será Castigada – ou estarem francamente libertos de qualquer censura interna ou externa como em Álbum de Família – e, nesse caso, a supressão das leis da conveniência que permite o convívio termina em tragédia absoluta, restando pouca vida ao final da narrativa. A morte, como em toda a tragédia, ronda as tramas do autor e, via de regra múltipla, marca o último ato. Com exceção de Viúva, porém Honesta e Anti-Nelson Rodrigues, a morte, nas demais 15 peças, atinge as personagens centrais e toda a narrativa se desenha em torno da inevitabilidade desse destino.

Sobre a assimilação e receptividade da obra rodriguiana na cena nacional, escreve seu maior estudioso, o crítico Sábato Magaldi: “Nelson Rodrigues tornou-se desde a sua morte, em 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos de idade (ele nasceu em 23 de agosto de 1912), o dramaturgo brasileiro mais representado – não só o clássico da nossa literatura teatral moderna, hoje unanimidade nacional. Enquanto a maioria dos autores passa por uma espécie de purgatório, para renascer uma ou duas gerações mais tarde, Nelson Rodrigues conheceu de imediato a glória do paraíso, e como por milagre desapareceram as reservas que, às vezes, teimavam em circunscrever sua obra no território do sensacionalismo, da melodramaticidade, da morbidez ou da exploração sexual.

Parece que, superado o ardor polêmico, restava apenas a adesão irrestrita. As propostas vanguardistas, que a princípio chocaram, finalmente eram assimiláveis por um público maduro para acolhê-las. Ninguém, antes de Nelson, havia apreendido tão profundamente o caráter do país. E desvendado, sem nenhum véu mistificador, a essência da própria natureza do homem. O retrato sem retoques do indivíduo, ainda que assuste em pormenores, é o fascínio que assegura a perenidade da dramaturgia rodrigueana”.

Entrevista concedida a revista Veja em 13/03/1974, ao lançar a peça O Anti-Nelson Rodrigues.

Veja – Por que o título O Anti-Nelson Rodrigues?
Nelson Rodrigues – Minha carreira no teatro tem sido um esforço para contrariar minha imagem tradicional. Disse o poeta Rainer Maria Rilke que a celebridade é a soma de mal-entendidos criados e recriados em torno de uma pessoa e de sua obra. Entendo que sou uma vítima de equívocos. Talvez um outro equívoco seja o título O Anti-Nelson Rodrigues. Desta vez, creio que mostro um ângulo de minha personalidade que ninguém reconhece. Ou que poucos reconhecem.

Veja – E qual é este ângulo?
Nelson Rodrigues – Uma profunda e inconsolável nostalgia da pureza. Eu digo pureza em todos os sentidos. Inclusive a física. Por exemplo: eu acredito na virgindade. Acho e sempre achei que a virgindade pode ter o sentido de uma doação ao ser amado. É perfeitamente idiota achar que ser ou não ser virgem seja um fato físico. Pode ser físico para os gatos de telhado e as cadelas de esquina, mas não para o ser humano. Acredito, inclusive, que o homem seria menos infeliz, menos sofrido, menos marcado, se o mundo levasse a sério a virgindade masculina. Lembro-me de um senhor ilustre que, em discurso, fazia, não uma declaração de bens, mas uma declaração de costumes: Eu me casei virgem. Acho perfeitamente cabível que o homem se case virgem.

Veja – Mas, voltando à peça…
Nelson Rodrigues – Ela mostra de uma maneira mais sensível uma coisa que existe em todo meu teatro: uma imensa compaixão por meus personagens. Muitas vezes, fazendo uma peça, num momento de crueldade eu vacilo e tenho vontade de amenizar a violência de certas situações. Mas a verdade é que escrevo, não para negar as atrocidades da vida, mas para ter pena – e pena da cabeça aos pés – por todos que matam e por todos que se matam, pelos homicidas e pelos suicidas. Isto está presente e visível em O Anti-Nelson Rodrigues.

Veja – Qual foi sua sensação de voltar a escrever para o teatro?
Nelson Rodrigues – Eu queria fazer O Anti-Nelson Rodrigues. Mas, diante da peça viva, desencadeada no palco, sinto que devo ser Nelson Rodrigues até o fim.

Veja – O que é que isto quer dizer?
Nelson Rodrigues – A peça sou eu mesmo. Me deixa uma certa perplexidade constatar que sou fiel a tudo que já fiz e que pertence á minha vida. A vida de todo o mundo. A personagem Teresa, esta pobre espantosa senhora*, como se parece com as senhoras da vida real! É a mãe devoradora, mutiladora em seu amor assassino. Eu a sinto como a mãe geral, a mãe do Dia das Mães, a mãe do ano.

Veja – Sua mãe era assim?
Nelson Rodrigues – Digo isso e, ao mesmo tempo, penso em minha mãe, tão diferente. Tão absurdamente boa, solidária, irmã. Meiga, prostrada em adoração. Realmente, nem todas as mães são assim, mas as mães que não são assim constituem uma seletíssima minoria. É uma em dez mil. Uma em vinte mil. E Gastão, o pai, odiado por seu filho e marcado pela obsessão da morte, não tem medo da morte. Pelo contrário, a deseja. Não conheço nada mais falso do que o instinto de conservação. É um instinto que Deus negou ao homem. Na verdade, cada um de nós vive criando pretextos para morrer. O cigarro que se fuma, a cerveja que se bebe, que é isso, senão a nostalgia da morte? O homem é triste, não porque morre, mas porque vive. * Teresa (interpretada pela atriz Sônia Oiticica) é a mãe pela qual Oswaldinho (José Wilker) tem desejos incestuosos ao mesmo tempo que vota um ódio cansativo ao seu pai, o milionário Gastão (Nelson Dantas). Por outro lado, Oswaldinho persegue Joice (Neila Tavares), uma recatada donzela suburbana, filha de Salim Simão (Paulo César Peréio). Ela acaba se entregando a Oswaldinho por amor e não pelos 350 000 cruzeiros oferecidos.

Veja – Quanto tempo levou para escrever O Anti-Nelson Rodrigues?
Nelson Rodrigues – Um mês.

Veja – E foi fácil?
Nelson Rodrigues- A peça já estava dentro de mim. Eu só começo a escrever uma peça quando a tenho na carne e na alma.

Veja – Que foi que fez o senhor voltar a escrever para o teatro?
Nelson Rodrigues – Primeiro foi uma jovem atriz – Neila Tavares que eu chamo – ponha aspas – Minha Duse. Começou a me perseguir. Queria uma peça porque queria. E a peça tinha que ser de Nelson Rodrigues. Eu tinha a peça nas minhas entranhas. Só faltava escrevê-la. O trabalho mais simples foi a execução.

Veja – O que o senhor achou da encenação?
Nelson Rodrigues – Achei Paulo César Peréio, o diretor, um homem de extrema sensibilidade e imaginação. A maioria absoluta dos novos diretores brasileiros imita os defeitos de José Celso Martinez Corrêa. José Celso imita, também, os próprios defeitos. Por isso são raros os que têm criação própria, como Antunes Filho e, agora, Paulo César de Campos Velho, que nós chamamos de Peréio. Ele salvou-se de José Celso.

Veja – Fez falta passar oito anos sem escrever para o teatro?
Nelson Rodrigues – Fez uma falta desesperadora.

Veja – E por que não escrevia? A gente de teatro não o procurava?
Nelson Rodrigues – Todos me procuravam. Por fim, instalou-se nos meios teatrais esta falsa verdade: eu não voltaria mais ao teatro. A verdade é que tenho mil projetos dramáticos. Se pudesse, faria uma peça por dia.

Veja – É verdade que o senhor está pensando em escrever uma peça de nove atos? Qual seria o tema?
Nelson Rodrigues – Estou apaixonado por essa idéia. Seria uma peça feita com a memória do autor. Profunda, desesperadamente autobiográfica. Resta saber se tenho pureza bastante para escrevê-la.

Veja – Por que pureza?
Nelson Rodrigues – Digo pureza porque uma confissão plena, integral, exige um santo.

Veja – Seu recesso teatral não foi motivado por um certo boicote?
Nelson Rodrigues – Não foi bem isso. Durante cerca de vinte anos, fui o único autor obsceno do Brasil. Os atores me representavam com o maior desprezo e ressentimento. Faziam uma concessão ao meu nome, que supunham importante. A minha peça Senhora dos Afogados. por exemplo, foi ensaiada durante um mês no Teatro Brasileiro de Comédia. Diga-se de passagem que o TBC foi o maior mistificador do teatro brasileiro. Tinha horror de nossos autores, não fez absolutamente nada por nossa dramaturgia. O problema do TBC era um só: bilheteria. No fim de um mês de ensaios, dirigidos por Ziembinsky, a grande atriz Cacilda Becker, minha amiga pessoal, declarou: Eu não faço esta peça. Digo isto com absoluta ternura e admiração pela sua memória. Mas é um fato histórico que pode e deve ser contado. E assim, Senhora dos Afogados foi expulsa do TBC com grande vantagem para a peça.

Veja – Quando falei de boicote não estava pensando no TBC. Não houve, ou há, uma certa má vontade dos diretores mais jovens para consigo?
Nelson Rodrigues – O que há é o seguinte: umas cinco peças minhas foram levadas em São Paulo por cinco diretores novos. Foi um massacre teatral. Fui incompreendido, como se escrevesse em chinês de cabeça para baixo. Antunes Filho é que iniciou um novo período para minhas peças no teatro paulista.

Veja – Há uma crise no teatro brasileiro?
Nelson Rodrigues – O que há é que Marx e Brecht realmente cretinizaram toda uma geração de diretores, atores e autores brasileiros. Evidentemente não são todos. Mas é uma sólida e abundantíssima maioria.

Veja – Que considera o senhor um reacionário?
Nelson Rodrigues – Muitos me chamam de reacionário. É exatamente o que sou: um reacionário. Já disse na televisão – e, portanto, para 1 milhão de pessoas – que sou reacionário. Reacionário porque não tenho nada de estalinista.

Veja – Mas, além de não ser estalinista, o que é ser reacionário?
Nelson Rodrigues – Faço este comentário sabendo que reacionário – sublinhe a palavra – é o termo mais sujo, mais corrompido, mais idiota… Reacionária, de fato, seria a Rússia, que assassinou todas as liberdades e matou a pauladas 90 milhões de sujeitos desde 1917. A Rússia que enfia nos hospícios os intelectuais vagamente dissidentes. Ou a China, cuja Revolução Cultural acha a música de Beethoven capitalista. Portanto, como não sou estalinista, acho justo que me chamem de reacionário e que eu próprio me confesse reacionário. Tanto mais que acho a liberdade mais importante do que o pão.

Veja – O que acha o senhor do momentoso assunto da volta dos anjos, que Veja tem destacado em alguns de seus últimos números?
Nelson Rodrigues – Sou a favor dos anjos. Acredito que tenho o meu anjo da guarda e creio plenamente na proteção que ele me assegura.

Veja – Pesquisas e estudos recentes, nos Estados Unidos e na Inglaterra, têm indicado a possibilidade de novos tempos para o homem, graças às fórmulas de combate ao Mal apresentadas pelo monge Falcus. O senhor crê nelas?
Nelson Rodrigues – Sou um homem de absoluta fé e de uma credulidade infinita. Torço pela viabilidade dessas fórmulas salvadoras.

Veja – Foi o senhor que introduziu o palavrão no teatro brasileiro?
Nelson Rodrigues – Fui. Só que eu não fazia o palavrão gratuito, do som pelo som. O outro era chamado nome feio e tinha maior justificativa psicológica e poética.

Veja – Qual era seu valor literário?
Nelson Rodrigues – O valor do palavrão… conseguiram degradá-lo. Havia, antes, uma certa cerimônia, uma certa compostura entre o palavrão e o brasileiro. Agora, meninas de doze anos, até mesmo dez, dizem palavras que fariam corar Bocage.

Veja – O que o senhor sente não será uma nostalgia do pecado? Da coisa proibida?
Nelson Rodrigues – Eu tenho uma profunda nostalgia do velho palavrão. Quando percebi que as mulheres começavam a dizer palavrões, eu me tornei na vida real o homem mais antipornográfico do Brasil. Eu não digo mais palavrões.

Veja – Por que?
Nelson Rodrigues – Tiraram a dignidade e o dramatismo do palavrão.

Veja – O senhor declarou, há pouco tempo, em uma entrevista, que, quando há amor, o sexo só atrapalha. Na mesma entrevista, disse que só concebe o sexo havendo amor. Não haverá uma contradição nisso?
Nelson Rodrigues – O sexo atrapalha, mas isso não quer dizer que ele impeça. Não há problema. O homem só começa a ser homem depois dos instintos e contra os instintos. Ou ignorando-os, ou tomando uma posição contra. Até hoje eu não sei por que os temos, por que os toleramos.

Veja – E que há de mal com eles?
Nelson Rodrigues – Eles são próprios de cães de rua, de gatos de telhado, de preás, de bezerras…

Veja – De gente não?
Nelson Rodrigues – Não. O homem não deseja uma mulher só pelo fato de ele ser homem e de ela ser mulher. Mas porque há entre ele e ela uma série de afinidades. Há uma escolha. Mas para o cachorro, na hora do cio, qualquer cachorra serve. Nada é mais absurdo do que a educação sexual. Ela só tem sentido se os alunos fossem gatos, preás, bezerros e vacas premiadas. Para o ser humano se deve dar educação para o amor. Mas falar em sexo, sem uma palavra sobre amor, é de uma mistificação e de uma burrice inomináveis.

Veja – E castidade? Ultimamente o senhor tem falado muito nela.
Nelson Rodrigues – É absolutamente impossível a satisfação sexual. A atividade sexual só leva ao desespero, á angústia, á procura de algo que jamais será encontrado.

Veja – E o senhor não vê nela nenhum prazer?
Nelson Rodrigues – Há prazer. Mas não há satisfação. O sujeito continua cada vez mais insatisfeito. O desejo é triste.

Veja – O jeito, então, seria ignorar o desejo?
Nelson Rodrigues – Seria. A única coisa que pode pacificar o sexo é o amor.

Veja – O senhor disse que a tragédia não é morrer, mas estar vivo. A vida, então, não tem jeito?
Nelson Rodrigues – Só tem jeito pelo amor. A única solução vital é o amor. O homem que ama é eterno, porque seu amor continua para além da vida e para além da morte.

Veja – O senhor fala, às vezes, de seus inimigos íntimos. Quais são os principais?
Nelson Rodrigues – Eu nunca falei de inimigos íntimos. É uma expressão muito convencional. Falo, sim, de irmãos íntimos. Você sabe que os irmãos são sempre íntimos. E falo, também, do desconhecido íntimo. É o sujeito que eu encontro na rua e que me chama de Nosso Nelson…

Veja – O que quer dizer que o senhor não tem inimigos?
Nelson Rodrigues – Me recuso a ter inimigos. Acho que o ódio de um homem para com outro homem cria entre eles uma relação, uma dependência homossexual.

Veja – O senhor não sente uma certa saudade de quando era escritor maldito?
Nelson Rodrigues – Mas, meu bem, eu continuo sendo um autor maldito. Ninguém é menos oficial do que eu. Não sei o que é a glória, porque nunca provei de seu mel. Sou contestado pelos imbecis de todas as tendências.

Veja – Há futuro para o teatro no Brasil?
Nelson Rodrigues – Acho que nossos dramaturgos têm que trabalhar. Façam peças. O futuro do teatro brasileiro é o trabalho de seus autores. Só assim teremos um repertório nacional.

Veja – Repito a pergunta: há futuro?
Nelson Rodrigues – O negócio deles é Marx, José Celso, Brecht e politização.

Veja – Política em vez de teatro?
Nelson Rodrigues – É todo mundo preocupado com o Terceiro Mundo. São todos alienados. Nas passeatas, que foi um momento sublime do ridículo, falavam de tudo, menos do Brasil. Nunca um negro entrou numa passeata. Era o filho da alta burguesia, filho das classes dominantes fazendo uma brincadeira ideológica.

Veja – O senhor diz que só há sentimentos profundos nos subúrbios, na zona norte. Isso não faz parte do Terceiro Mundo?
Nelson Rodrigues – Eu sou um homem que só se interessa pelo Brasil. O Terceiro Mundo só me dá tédio. A fome da África não me interessa. Só a nossa.

Veja – Por falar em Brasil: como vai ele?
Nelson Rodrigues – Acho que está formidável. Começou, finalmente, o nosso desenvolvimento. Quem não vê isso nega a evidência objetiva e até espetacular.

Fonte: Abril e Itaú

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