A Bossa Nova comemora os seus 50 anos
por Jean-Pierre Langellier

Em 1958, é lançado no Rio um disco que conquista um imenso sucesso. Intitulada “Chega de Saudade”, a música é interpretada por um cantor e violonista baiano, João Gilberto. O disco desorienta ou contraria alguns puristas, mas ele define, sobretudo, um gênero musical inédito, a bossa nova, da qual o Brasil celebra os cinqüenta anos de existência.

Derivada do samba, essa “nova bossa” (gíria para “novo jeito”) estabelece uma ruptura em relação ao gênero que está na sua raiz. As percussões se apagam. O compasso tem o seu ritmo reduzido. A interpretação torna-se intimista. João Gilberto sussurra com uma voz frágil, suave, melancólica, reconhecível entre mil. Ele imprime com o seu violão um ritmo original e sincopado, a “batida”, e não hesita a incluir acordes dissonantes.

Com “Chega de Saudade”, João Gilberto leva ao conhecimento dos brasileiros, e depois do mundo, o trabalho do compositor Tom Jobim (1927-1994), e do poeta e diplomata Vinicius de Moraes (1913-1980). Juntos, eles criarão ao longo de 25 anos, a grande maioria dos clássicos da bossa nova. Entre estes, pode ser mencionada, incluída na trilha sonora do filme “Orfeu Negro“, de Marcel Camus (1959), a célebre “A Felicidade”, ou ainda, em 1962, “A Garota de Ipanema”, que muito em breve se tornará um sucesso mundial graças à voz de Astrud Gilberto e ao saxofone de Stan Getz. A bossa nova passa a incorporar então o patrimônio musical universal, como reação em relação ao samba tradicional, mas, também, no contrapé das danças que estavam em voga naquela época (cha-cha-cha, twist). Ela ainda acabará influenciando profundamente o jazz.

Meio século mais tarde, ela continua sendo um gênero bastante peculiar, mas ela não deixa de ser também uma música tipicamente carioca que canta o esplendor da cidade, a beleza da mulher amada, e toda uma arte de viver. Portanto, é muito normal que a mais bela homenagem lhe tenha sido prestada no Rio, no sábado, 1º de março. Na praia de Ipanema, mais de 30 mil pessoas ouviram durante duas horas cerca de quinze artistas, entre os quais alguns antigos companheiros de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, como Oscar Castro Neves e Roberto Menescal.

Fonte: Le Monde

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