Foto Pics Book Livro His Dark Materials The Golden Compass Philip Pullman A Bussola de Ouro Northern Lights Livro Primeiro Capitulo Livros BooksPrimeiro Capítulo: A Bússola de Ouro | Philip Pullman

Livro: A Bússola de Ouro
Brasil | World

– 1 –

A GARRAFA DE TOKAY

LYRA e seu daemon atravessaram o Salão, já bastante escuro, tomando cuidado para seguirem junto à parede, fora de vista da Cozinha. As três mesas grandes ao longo do Salão já estavam arrumadas e os bancos compridos estavam afastados, esperando os comensais.
No alto, ao longo das paredes, os retratos de antigos
Reitores estavam na penumbra. Lyra chegou ao tablado e
voltou-se para olhar a porta aberta da Cozinha; não vendo
ninguém, subiu para junto da mesa principal.
Ali os talheres eram de ouro, não de prata, e os 14 lugares não
eram num banco de carvalho, mas sim em cadeiras de mogno com
almofadas de veludo. Lyra parou junto à cadeira do Reitor e deu um
peteleco de leve na taça maior; o som percorreu todo o Salão.
— Você está de brincadeira. Comporte-se! — cochichou o
daemon.
O nome do daemon era Pantalaimon, e, no momento, ele tinha
a forma de uma mariposa marrom para não se destacar na penumbra
do Salão.
— Lá na Cozinha estão fazendo barulho demais — Lyra cochichou
de volta. — E o Administrador só aparece depois do primeiro
sino. Deixe de ser ranzinza.
Mas, em todo caso, ela colocou a palma da mão sobre o cristal
que vibrava; Pantalaimon esvoaçou à frente dela, atravessando a
extensão do tablado, e entrou pela porta entreaberta da Sala Privativa,
no outro extremo. Logo depois tornou a aparecer.
— Está deserta — sussurrou. — Mas temos que agir depressa.
Quase agachada, escondida pela mesa, Lyra venceu rapidamente
a distância e entrou na Sala Privativa, onde tornou a ficar de pé e
olhou em volta. A única luz vinha da lareira; a pilha de lenha em
brasa desabou enquanto ela estava olhando, fazendo subir uma coluna
de faíscas pela chaminé. Ela havia passado a maior parte da
vida na Faculdade, mas nunca tinha visto a Sala Privativa; só os Catedráticos e seus convidados podiam entrar ali, e nunca uma mulher.
Nem as criadas entravam para limpar; esse trabalho só quem
fazia era o Mordomo.
Pantalaimon acomodou-se no ombro dela.
— Está satisfeita agora? Podemos ir? — cochichou.
— Não seja medroso! Ainda quero dar uma espiada!
Era uma sala ampla, com uma mesa oval de madeira vermelha
encerada e sobre ela várias garrafas e taças de cristal, e uma tabaqueira
de prata com uma pequena estante de cachimbos. Num aparador
vizinho, havia um pequeno aquecedor de pratos e uma cesta com
botões de papoula.
— Eles se tratam bem, hein, Pan? — ela comentou baixinho.
E foi sentar-se numa das poltronas de couro verde, tão funda
que ela ficou quase deitada, mas endireitou-se e encolheu as pernas.
Depois pôs-se a examinar os retratos nas paredes: mais Catedráticos,
com certeza; barbados e melancólicos, de dentro de suas molduras,
eles lançavam olhares de solene desaprovação.
— Que acha que eles conversam aqui? — a garota perguntou,
ou começou a perguntar, pois, antes de terminar a frase, ela ouviu
vozes do lado de fora da porta.
— Para trás da poltrona. Depressa! — sussurrou Pantalaimon.
Como um raio, Lyra pulou da poltrona e foi se esconder atrás
dela. Não era o melhor esconderijo: ela havia escolhido logo a poltrona
que ficava bem no meio da sala, e se não ficasse quietinha…
A porta se abriu, e a iluminação da sala mudou: um dos
recém-chegados trazia uma lamparina, que ele colocou sobre o apa-
rador. Lyra via as pernas dele, as calças verde-escuro e os sapatos
pretos bem encerados: um criado.
Então uma voz grossa perguntou:
— Lorde Asriel já chegou?
Era o Reitor. Lyra prendeu a respiração ao ver o daemon do
criado (um cão, como os daemons de todos os criados) entrar trotando
e sentar-se em silêncio aos pés dele, e então os pés do Reitor
ficaram visíveis também, metidos nos sapatos velhos que ele sempre
usava.
— Não, Reitor — disse o Mordomo. — Também não chegou
notícia das Docas Aéreas.
— Imagino que ele vai chegar com fome. Leve-o direto para o
Salão, está bem?
— Está bem, Reitor.
— E já separou um pouco do Tokay especial?
— Já, sim, Reitor. O 1898, como o senhor mandou. Lorde
Asriel aprecia muito essa safra, se bem me lembro.
— Ótimo. Agora vá, por favor.
— Vai precisar da lamparina, Reitor?
— Sim, pode deixá-la aí. Durante o jantar, venha ajeitar o pavio,
está bem?
O Mordomo fez uma mesura leve e virou-se para sair, e seu
daemon seguiu-o obedientemente. De seu precário esconderijo, Lyra
ficou observando enquanto o Reitor ia até um grande armário de
carvalho a um canto da sala, tirava a sua beca de um cabide e vestia-a
com dificuldade — o Reitor tinha sido um homem muito forte, mas
agora tinha bem mais de 70 anos e seus movimentos eram rígidos e
lentos. O daemon do Reitor era uma fêmea de corvo, e assim que ele
terminou de vestir a túnica o daemon saltou de cima do armário e foi
se acomodar no seu lugar de costume: o ombro direito dele.
Lyra sentia a aflição de Pantalaimon, embora este não emitisse
um único som. Ela própria estava achando delicioso aquele friozinho
na barriga…
Lorde Asriel, o visitante mencionado pelo Reitor, era tio dela,
um homem a quem ela muito admirava… e temia. Diziam que ele
estava envolvido em altas políticas, explorações secretas, guerras dis-
tantes, e ela nunca sabia quando ele ia aparecer. Ele era muito bravo;
se a apanhasse ali, ela seria severamente castigada, mas conseguiria
agüentar.
Porém, o que ela viu em seguida mudou completamente as
coisas.
O Reitor tirou do bolso um papel dobrado e colocou-o sobre a
mesa. Tirou a rolha de uma garrafa que continha um vinho quase
dourado, desdobrou o papel e deixou cair lá dentro um jorro fino de
pó branco; depois amassou bem o papel e jogou-o no fogo da lareira.
Então tirou um lápis do bolso e mexeu o vinho até dissolver todo
o pó, e depois recolocou a rolha.
Seu daemon soltou um grasnido curto; o Reitor respondeu
num murmúrio, e olhou em volta com os olhos semicerrados e severos,
antes de sair pela porta por onde tinha entrado.
Lyra cochichou:
— Viu isso, Pan?
— Claro que vi! Agora saia depressa, antes que o Administrador
chegue!
Mas, enquanto ele falava, ouviu-se um sino tocando uma badalada
na outra ponta do Salão.
— É o sino do Administrador! — Lyra exclamou. — Pensei
que a gente ia ter mais tempo…
Pantalaimon esvoaçou até a porta do Salão e voltou correndo.
— O Administrador já está lá — avisou. — E você não vai poder
sair pela outra porta…
A outra porta, aquela por onde o Reitor tinha entrado e saído,
abria-se para o movimentado corredor entre a Biblioteca e a Sala de
Estar dos Catedráticos. A essa hora do dia, esse corredor estava
cheio de homens indo vestir suas becas para o jantar, ou correndo
para deixar papéis ou pastas na Sala de Estar antes de ir para o Salão;
sabendo disso, Lyra tinha planejado sair por onde entrara, contando
com mais alguns minutos antes do sino do Administrador.
Se ela não tivesse visto o Reitor colocar aquele pó no vinho,
poderia até ter desafiado a cólera do Administrador ou tentado passar
despercebida no corredor movimentado. Mas estava confusa, e
isso fez com que hesitasse.
Então ouviu passos pesados sobre o tablado: era o Administrador
vindo verificar se a Sala Privativa estava pronta, com as papoulas e
o vinho que os Catedráticos beberiam depois do jantar. Lyra correu
para o armário de carvalho, abriu-o e escondeu-se lá dentro, puxando
a porta bem no momento em que o Administrador entrou. Ela não se
preocupou com Pantalaimon: a sala era toda de cores escuras, e ele
podia muito bem entrar debaixo de uma poltrona.
Ela escutou o resfolegar forte do Administrador e, pela fresta da
porta, viu-o ajeitar os cachimbos na estantezinha junto à tabaqueira,
lançando um olhar de relance para os frascos de bebida e as taças.
Depois alisou os cabelos sobre as orelhas com ambas as mãos e disse
algo ao seu daemon. Era um criado, de modo que ele era uma cadela;
mas um criado de alta categoria, de modo que o cão também era
superior — um setter vermelho. O daemon parecia suspeitar de alguma
coisa e ficou olhando em volta como se sentisse uma presença
intrusa, mas não foi até o armário, para grande alívio de Lyra. Ela
temia muito o Administrador, que duas vezes lhe dera uma sova.
Lyra ouviu um sussurro bem fraquinho; obviamente Pantalaimon
tinha se enfiado no armário.
— Agora vamos ter que ficar aqui. Por que você nunca escuta o
que eu digo?
Lyra só respondeu depois que o Administrador saiu. Cabia a
ele supervisionar os que serviam a mesa principal; ela ouviu os Catedráticos entrando no Salão, o murmúrio de vozes, o arrastar de pés.
— Ainda bem que não escutei — ela cochichou em resposta.
— Senão não teríamos visto o Reitor colocar veneno no vinho. Pan,
era o Tokay que ele tinha pedido ao Mordomo! Vão assassinar
Lorde Asriel!
— Você não sabe se aquilo é veneno.
— Claro que é! Você não se lembra? Ele esperou o Mordomo
sair da sala; se fosse inocente, não se importaria que o Mordomo
visse. E eu sei que está acontecendo alguma coisa. Alguma coisa política.
Os criados só falam sobre isso. Pan, nós podíamos impedir
um assassinato!
— Nunca ouvi tamanha bobagem — cortou ele. — Como
acha que vai conseguir ficar quatro horas imóvel neste armário aper-
tado? Deixe que eu vá vigiar o corredor; quando estiver deserto, eu
aviso.
Ele voou do ombro dela, e ela viu a sombra minúscula aparecer
na fresta de luz.
— Não adianta, Pan, vou ficar aqui — declarou. — Há outra
túnica ou sei lá o que aqui dentro; vou colocar isto no chão do armário
e me acomodar. Tenho que ver o que eles fazem!
Até então ela estava agachada; ficou em pé com cuidado,
tateando à procura dos cabides para não fazer barulho, e descobriu
que o armário era maior do que pensara. Havia várias becas acadêmicas
e capuzes, alguns orlados de pele, a maioria com forro de
seda.
— Será que são todos do Reitor? — ela sussurrou. — Quando
ele recebe diplomas honorários de outros lugares, talvez eles lhe
dêem becas que ele guarda aqui para usar… Pan, você acha mesmo
que aquilo no vinho não é veneno?
— Não; assim como você, eu acho que é veneno. E acho que
isso não é da nossa conta. E acho que interferir seria a mais idiota de
todas as coisas idiotas que você já fez na sua vida. Não temos nada a
ver com isso.
— Não seja estúpido! — Lyra exclamou. — Não posso ficar
aqui sentada vendo darem veneno a ele!
— Então vá para outro lugar.
— Você é um covarde, Pan.
— Claro que sou. Posso perguntar o que você pretende fazer?
Vai dar um salto e arrancar a taça dos dedos trêmulos dele? Qual é a
sua idéia?
— Não tenho idéia, e você sabe muito bem — ela respondeu
em voz baixa. — Mas agora que vi o que o Reitor fez, não tenho
escolha. Pensei que você conhecesse a existência da consciência.
Sabendo o que vai acontecer, como é que eu posso ir me sentar na
Biblioteca ou em qualquer outro lugar e ficar tamborilando os dedos?
Isso eu não pretendo fazer, juro!
— Era isso que você queria o tempo todo — ele disse depois
de um momento. — Queria se esconder aqui e assistir a tudo. Por
que eu não percebi antes?
— Está certo, eu quero mesmo — ela confessou. — Todo
mundo sabe que eles vêm fazer uma coisa secreta. Têm um ritual,
ou alguma coisa assim. E eu só queria saber o que é.
— Não é da nossa conta! Se eles querem ter seus segredinhos,
você devia apenas se sentir superior e deixá-los em paz. Esconder-se,
espiar, tudo isso é coisa de criança boba.
— Sabia que você ia dizer isso. Agora pare de resmungar.
Os dois ficaram em silêncio por algum tempo, Lyra desconfortável
no chão duro do armário e Pantalaimon pousado num cabide
com ar contrariado, vibrando suas antenas temporárias. Lyra sentia
vários pensamentos brigando dentro da sua cabeça e adoraria poder
compartilhá-los com o seu daemon, mas era também orgulhosa e
achou melhor tentar clarear os pensamentos sem a ajuda dele.
O que predominava era a aflição, e não por si própria — de tanto
passar por situações difíceis, já estava acostumada. Dessa vez, estava
aflita por causa de Lorde Asriel, e do que aquilo tudo queria dizer. Ele
não costumava visitar a Faculdade, e o fato de estarem numa época de
alta tensão política significava que ele não estava vindo simplesmente
para comer, beber e fumar com um punhado de velhos amigos. Ela
sabia que tanto Lorde Asriel quanto o Reitor eram membros do
Conselho do Gabinete, que era o órgão especial de assessoria ao
Primeiro-ministro, de modo que a visita podia ter alguma coisa a ver
com isso; mas as reuniões do Conselho do Gabinete eram feitas no
Palácio, não na Sala Privativa da Faculdade Jordan.
Além disso, havia o boato que estava provocando cochichos entre
os criados da Faculdade: dizia-se que os tártaros tinham invadido
Moscóvia e estavam avançando rumo ao Norte, para São Petersburgo,
de onde poderiam dominar o Mar Báltico e acabar conquistando
todo o oeste da Europa. E Lorde Asriel estivera no Extremo Norte:
na última vez em que ela o vira, ele estava preparando uma expedição
para a Lapônia…
— Pan… — ela cochichou.
— Que é?
— Você acha que vai haver guerra?
— Ainda não. Lorde Asriel não estaria jantando aqui se a guerra
fosse explodir na semana que vem.
— É o que eu acho. Mas depois?
— Psiu. Vem vindo alguém.
Ela sentou-se ereta e encostou o olho na fresta da porta. Era
o Mordomo, entrando para verificar o pavio da lamparina, como o
Reitor ordenara. A Sala de Estar e a Biblioteca eram iluminadas por
luz anbárica, mas, na Sala Privativa, os Catedráticos preferiam as
lâmpadas de nafta, mais antigas e mais suaves. Isso não mudaria enquanto
o Reitor estivesse vivo.
O Mordomo aparou o pavio e colocou outra acha de lenha na
lareira, depois escutou cautelosamente junto à porta antes de surrupiar
um punhado de folhas da tabaqueira.
Mal tinha recolocado a tampa quando a maçaneta da outra
porta girou, e ele deu um pulo, sobressaltado. Lyra tentou não rir.
O Mordomo enfiou às pressas as folhas de fumo no bolso e virou-se
para o recém-chegado.
— Lorde Asriel! — exclamou.
Um arrepio de surpresa gelou as costas de Lyra. Ela não conseguia
vê-lo e tentou dominar a vontade de mudar de posição para
avistá-lo.
— Boa-noite, Wren — disse Lorde Asriel, naquela voz áspera
que Lyra sempre escutara com uma mistura de prazer e apreensão.
— Cheguei atrasado para o jantar. Vou esperar aqui.
O Mordomo parecia constrangido; só se entrava na Sala Privativa
a convite do Reitor, e Lorde Asriel sabia disso. Mas o Mordomo
viu também o olhar de Lorde Asriel fixo em seu bolso estufado e resolveu
não protestar.
— Devo avisar ao Reitor que o senhor chegou?
— Não seria mau. Pode me trazer café.
— Muito bem, senhor.
O Mordomo saiu apressado, seu daemon trotando obedientemente
atrás. O tio de Lyra foi até a lareira e estendeu os braços por
cima da cabeça, espreguiçando-se e bocejando como um leão. Estava
usando roupas de viagem. Como sempre acontecia quando
tornava a vê-lo, Lyra lembrou-se de quanto ele a assustava. Agora
estava fora de questão sair sem ser percebida: ela teria que esperar e
torcer.
O daemon de Lorde Asriel, uma pantera branca, postou-se
logo atrás dele.
— Vai mostrar as projeções aqui? — ele perguntou em voz
baixa.
— Vou. Vai ser menos confuso do que irmos para o Auditório.
Vão querer ver os espécimes também; daqui a pouco vou mandar
chamar o Porteiro. São tempos ruins, Stelmaria.
— Você devia descansar.
Ele esticou-se numa das poltronas, de modo que seu rosto ficou
escondido de Lyra.
— É, sim. E também mudar de roupa; com certeza, existe alguma
regra de etiqueta que permite que eles me dêem uma multa de
uma dúzia de garrafas por entrar aqui sem estar vestido adequadamente.
Eu precisava dormir uns três dias. Mas o caso é que…
Houve uma batida na porta, e o Mordomo entrou, trazendo
um bule de café e uma xícara numa bandeja de prata.
— Obrigado, Wren — disse Lorde Asriel. — Aquilo ali sobre
a mesa é Tokay?
— O Reitor mandou separá-lo especialmente para o senhor —
informou o Mordomo. — Há só três dúzias de garrafas do ’98.
— Não há bem que sempre dure. Deixe a bandeja aqui ao meu
lado. Ah, peça ao Porteiro para mandar as duas caixas que deixei na
Portaria.
— Para cá, senhor?
— Sim, para cá, ora. E vou precisar de uma tela e uma lanterna
de projeção, também aqui, também agora.
O Mordomo mal conseguia segurar o queixo de surpresa, mas
conseguiu engolir a pergunta ou o protesto.
— Wren, você está esquecendo o seu lugar — disse Lorde
Asriel. — Não me questione; apenas faça o que eu lhe ordeno.
— Muito bem, senhor — replicou o Mordomo. — Se posso
dar uma sugestão, senhor, talvez seja melhor avisar o Sr. Cawson do
que o senhor está planejando, senhor, senão ele ficará um tanto perplexo, se é que me entende.
— Está bem. Avise a ele, então.O Sr. Cawson era o Administrador. Havia uma rivalidade antiga
e bem-estabelecida entre ele e o Mordomo; o Administrador era
mais graduado, porém o Mordomo tinha mais oportunidades de
insinuar-se com os Catedráticos, e aproveitava cada uma delas. Ele
ia adorar a oportunidade de mostrar ao Administrador que sabia
mais do que ele sobre o que acontecia na Sala Privativa.
Fez uma mesura e saiu. Lyra observou o tio servir-se uma xícara
de café, bebê-la de uma vez e servir-se outra, que passou a beber
mais devagar. Ela estava perplexa: caixas de espécimes? Uma lanterna
de projeção? Que teria ele de tão urgente e importante para mostrar
aos Catedráticos?
Então Lorde Asriel levantou-se e virou as costas ao fogo. Ela
o viu de corpo inteiro, e maravilhou-se com o contraste que ele fazia
com o Mordomo gorducho, os Catedráticos curvados e lânguidos:
Lorde Asriel era um homem alto, de ombros largos, fisionomia
soturna e feroz, olhos que pareciam cintilar com um humor
selvagem. Tinha o rosto de uma pessoa a quem se obedecia ou
combatia — nunca poderia ser tratada como inferior ou digna de
compaixão. Todos os seus movimentos eram largos e possuíam um
equilíbrio perfeito, como os de um animal selvagem; dentro de
um aposento como aquele, ele parecia uma fera presa numa jaula
pequena demais.
No momento, sua expressão era distante e preocupada. O
daemon aproximou-se e encostou a cabeça na cintura dele, e ele baixou
os olhos para a pantera com um olhar enigmático, antes de
voltar-lhe as costas e encaminhar-se para a mesa. Lyra de repente
sentiu o estômago dar um nó, pois Lorde Asriel havia tirado a tampa
do frasco de Tokay e estava enchendo uma taça.
— Não!
O grito abafado saiu antes que ela pudesse contê-lo. Lorde
Asriel ouviu-o e virou-se imediatamente.
— Quem está aí?
Ela não conseguiu controlar-se: saltou para fora do armário e
correu para arrancar a taça das mãos dele. O vinho voou, molhando
a borda da mesa e o tapete, e a taça caiu e despedaçou-se. Ele agarrou
a menina pelo pulso, torcendo-o com força.— Lyra! Que diabos está fazendo aqui?
— Me solte e eu lhe conto!
— Primeiro vou lhe quebrar o braço. Como ousa entrar aqui?
— Acabei de salvar a sua vida!
Por um segundo os dois ficaram imóveis, ela a se retorcer de
dor e fazendo uma careta para reprimir os gemidos, ele inclinado sobre
ela, de testa franzida, como um trovão anunciando tempestade.
— Que foi que disse? — ele perguntou, em voz mais baixa.
— O vinho está envenenado — ela resmungou, quase sem
abrir a boca. — Vi o Reitor colocar um pó branco dentro dele.
Lorde Asriel soltou-a e ela caiu no chão; nervoso, Pantalaimon
esvoaçou para o ombro dela. O tio baixou os olhos com uma raiva
controlada, e ela não ousou encará-lo nos olhos.
— Entrei só para ver como era esta sala — ela contou. — Sei
que não devia ter feito isso. Ia sair antes que alguém entrasse, mas o
Reitor apareceu e fiquei encurralada. O armário era o único esconderijo.
E vi quando ele colocou o pó no vinho. Se eu não tivesse…
Bateram na porta.
— Deve ser o Porteiro — disse Lorde Asriel. — Volte para o
armário. Se eu ouvir o menor barulho, vou fazer você ter vontade de
morrer.
Ela correu a se esconder, e mal fechara a porta do armário
quando Lorde Asriel falou em voz alta:
— Pode entrar!
Como ele tinha dito, era o Porteiro.
— Coloco aqui, senhor?
Lyra viu o velho parado à porta com ar indeciso, e atrás dele a
ponta de um grande caixote de madeira.
— Isto mesmo, Shuter. Traga as duas para dentro e coloque no
chão perto da mesa.
Lyra acalmou-se um pouquinho e permitiu-se sentir a dor no
ombro e no pulso. Ela teria chorado de dor se fosse outro tipo de
menina; mas só o que fez foi cerrar os dentes e movimentar de leve
o braço até senti-lo mais leve.
Então ouviu o ruído de vidro quebrado e o borbulhar de um líquido
que se derramava.— Maldição! Shuter, seu velho descuidado! Veja o que você
fez!
Lyra conseguia ver mal e mal. O tio dera um jeito de derrubar a
garrafa de Tokay, fazendo parecer que tinha sido o Porteiro. O velho
pousou com cuidado o caixote no chão e começou a se desculpar.
— Sinto muito, mesmo, senhor. A mesa estava mais perto do
que eu pensava…
— Arrume alguma coisa para limpar esta sujeira. Vá depressa,
antes que o tapete fique impregnado!
O Porteiro e seu jovem ajudante saíram apressados. Lorde
Asriel aproximou-se do armário e falou num cochicho:
— Já que está aí, pode fazer alguma coisa útil. Vigie atentamente
o Reitor. Se me contar alguma coisa interessante a respeito
dele, vou impedir que você tenha mais problemas do que os que já
vai ter. Entendeu?
— Sim, titio.
— Se fizer um barulho sequer aí dentro, não vou ajudá-la.
Você está por sua conta.
Ele afastou-se, e estava novamente parado de costas para a lareira
quando o Porteiro voltou com uma vassoura e uma pá para os
cacos de vidro, além de um pano e uma tigela para o líquido.
— Só posso pedir desculpas mais uma vez, senhor; juro que
não sei o que me…
— Limpe isto aí e pronto.
Enquanto o Porteiro enxugava o vinho do tapete, o Mordomo
bateu e entrou com o criado de Lorde Asriel — um homem chamado
Thorold. Os dois carregavam um caixote pesado, de madeira encerada
e alças de bronze. Viram o que o Porteiro estava fazendo e
estacaram.
— Era o Tokay, sim — disse Lorde Asriel. — Uma pena. A
lanterna está aí? Coloque-a perto do armário, Thorold, por favor.
A tela vai ficar no outro lado.
Lyra percebeu que pela fresta da porta conseguiria ver a tela e o
que fosse projetado nela, e ficou curiosa em saber se o tio tinha feito
de propósito. Protegida pelo barulho que o criado fazia ao desenrolar
o linho rígido e montar a tela e sua armação, ela cochichou:— Está vendo? Não valeu a pena?
— Pode ser que sim… — disse Pantalaimon em tom severo,
com sua vozinha de mariposa — … e pode ser que não —
completou.
Lorde Asriel ficou parado perto da lareira bebericando o resto
do café e observando com ar sisudo enquanto Thorold abria a caixa
da lanterna de projeção e desencapava as lentes antes de verificar o
tanque de óleo.
— Há bastante óleo, senhor — disse. — Quer que eu mande
chamar um técnico para fazer a projeção?
— Não, eu mesmo farei isso. Obrigado, Thorold. Eles já terminaram
o jantar, Wren?
— Creio que estão quase terminando, senhor — respondeu o
Mordomo. — Se entendi direito o que o Sr. Cawson disse, o Reitor
e seus convidados vão se apressar quando souberem que o senhor está
aqui. Posso levar a bandeja do café?
— Pode levar.
— Muito bem, senhor.
Com uma mesura leve, o Mordomo pegou a bandeja e saiu, e
Thorold foi com ele. Assim que a porta se fechou, Lorde Asriel
olhou diretamente para o armário no outro lado da sala, e Lyra sentiu
a força daquele olhar quase como se ele tivesse uma forma física,
como se fosse uma flecha ou uma lança. Então ele desviou os olhos e
falou baixinho com seu daemon.
A pantera veio sentar-se calmamente ao lado dele, alerta, elegante
e perigosa, os olhos verdes examinando o aposento antes de se
voltarem, como os olhos negros dele, para a porta que dava para o
Salão, no momento em que a maçaneta girou. Lyra não conseguia
ver a porta, mas escutou uma respiração profunda quando o primeiro
homem entrou.
— Estou de volta, Reitor — disse Lorde Asriel. — Por favor,
traga os seus convidados; tenho algo muito interessante para
mostrar.
2

A IDÉIA DO NORTE

LORDE Asriel! — o Reitor exclamou em tom
alto, e avançou para apertar-lhe a mão.
De seu esconderijo, Lyra observava os olhos do
Reitor, e de fato, por um segundo, eles foram até a
mesa onde o Tokay estivera. Lorde Asriel falou:
— Reitor, cheguei tarde demais, não quis atrapalhar seu jantar,
de modo que me acomodei aqui. Olá, Vice-reitor. É bom vê-lo com
tão boa aparência. Perdoem-me os trajes, acabei de chegar. Sim,
Reitor, o Tokay se foi. Acho que o senhor está parado em cima dele.
O Porteiro derrubou-o da mesa, mas a culpa foi minha. Olá, Capelão.
Li seu último artigo com grande interesse…
Ele afastou-se com o Capelão, deixando a Lyra uma visão perfeita
do rosto do Reitor. Este estava impassível, mas o daemon em
seu ombro arrepiava as penas e movia-se inquietamente de um pé
para o outro. Lorde Asriel já estava dominando o ambiente, e, embora
tivesse o cuidado de ser cortês com o Reitor no território do
próprio Reitor, era óbvio onde estava o poder.
Os Catedráticos saudaram o visitante e espalharam-se pela sala,
alguns indo sentar-se em volta da mesa, outros procurando as poltronas,
e logo o zumbido das conversas enchia o ar. Lyra percebia
que eles estavam muito intrigados com a caixa de madeira, a tela e a
lanterna de projeção. Conhecia muito bem os Catedráticos: o Bibliotecário, o Vice-reitor, o Inquiridor e o resto. Durante toda a vida, ela convivera com esses homens; eles a ensinavam, a castigavam, a consolavam, davam-lhe presentinhos, proibiam-na de
chegar perto das frutas no Pomar; eram toda a sua família. Ela podia
até amá-los como se fossem mesmo a sua família se soubesse o que
era uma família, embora nesse caso fosse mais provável que ela
sentisse isso pelos criados da Faculdade; os Catedráticos tinham coisas
mais importantes a fazer do que dar afeto a uma garota meio selvagem,
meio civilizada, que o acaso colocara entre eles.
O Reitor acendeu o pavio sob o pratinho de prata e aqueceu um
pouco de manteiga antes de abrir com uma faca meia dúzia de botões
de papoula e jogá-los no prato. Depois de um jantar, sempre se servia
papoula; ela clareava a mente e estimulava a língua, favorecendo a riqueza da conversa. A tradição era o próprio Reitor torrá-las.
Sob o chiar da manteiga no calor e o zumbido das conversas,
Lyra mexeu-se, procurando uma posição mais confortável. Com
enorme cuidado, ela tirou do cabide uma das becas — uma túnica
de pele que ia até o chão — e estendeu-a no chão do armário.
— Você devia usar uma velha e áspera — sussurrou Pantalaimon.
— Se ficar confortável demais, vai pegar no sono.
— Se isso acontecer, você tem obrigação de me acordar — ela
respondeu.
Sentou-se e ficou a ouvir a conversa. Uma conversa bastante
chata, por sinal; quase toda sobre política, e ainda por cima política
de Londres, nenhum assunto excitante como os tártaros. O cheiro
agradável de papoula fritando na manteiga e de folha de tabaco penetrava pela fresta da porta do armário, e mais de uma vez Lyra percebeu que estava quase cochilando. Finalmente, porém, ouviu que
alguém dava pancadinhas na mesa. As vozes silenciaram, e então o
Reitor falou.
— Cavalheiros, tenho certeza de que falo por todos ao dar as
boas-vindas a Lorde Asriel. As visitas dele são raras, porém imensamente
preciosas, e sei que esta noite ele tem algo de grande interesse
para nos mostrar. Como todos sabemos, estamos numa época de
grande tensão política; Lorde Asriel tem que estar amanhã cedo em
White Hall, e há um trem esperando com a caldeira cheia de vapor
para levá-lo a Londres assim que tivermos terminado esta conversa; portanto, devemos utilizar o tempo com sabedoria. Imagino que
quando ele terminar de falar haverá algumas perguntas; por favor,
que sejam breves e relevantes. Lorde Asriel, gostaria de começar?
— Obrigado, Reitor — disse Lorde Asriel. — Para começar,
tenho alguns fotogramas para lhes mostrar. Vice-reitor, acho que vai
enxergar melhor daqui. Talvez o Reitor queira sentar-se ali perto do
armário.
O velho Vice-reitor era quase cego, de modo que era uma
questão de cortesia arranjar-lhe um lugar perto da tela, e isso fez
com que o Reitor acabasse sentado ao lado do Bibliotecário, a menos
de um metro do armário onde Lyra estava acocorada. Ela ouviu
o Reitor murmurar enquanto se acomodava na poltrona:
— Esse demônio! Ele sabia do vinho, tenho certeza.
O Bibliotecário cochichou de volta:
— Ele vai pedir dinheiro. Se forçar uma votação…
— Se ele fizer isso, temos que nos opor, com toda a eloqüência
que pudermos.
A lanterna começou a chiar enquanto Lorde Asriel bombeava-a
com força. Lyra moveu-se ligeiramente para conseguir enxergar a
tela, onde agora brilhava um círculo branco. Lorde Asriel pediu:
— Alguém pode diminuir a luz da lamparina?
Um dos Catedráticos levantou-se para fazer isso, e o aposento
escureceu. Lorde Asriel começou:
— Como alguns de vocês já sabem, há 12 meses parti para o
Norte numa visita diplomática ao Rei da Lapônia. Pelo menos é o
que eu fingia que ia fazer. Minha verdadeira intenção era chegar ainda
mais ao norte, até o gelo, para tentar descobrir o que aconteceu
com a expedição Grumman. Uma das últimas mensagens de
Grumman para a Academia em Berlim falava de um certo fenômeno
natural que só é visto nas terras do Norte. Eu estava decidido a
investigar isso, e também a descobrir o que pudesse sobre Grumman.
Mas a primeira figura que vou lhes mostrar não se refere a
qualquer dessas coisas.
E ele colocou o primeiro slide na armação e deslizou-o para
trás da lente. Um fotograma circular em preto-e-branco bem contrastado
apareceu na tela. Tinha sido tirado à noite, sob a lua cheia,
e mostrava um casebre de madeira a meia distância, as paredes escuras
contra a neve que o rodeava e jazia espessa no telhado. Ao lado
do casebre, havia uma série de instrumentos filosóficos que aos
olhos de Lyra eram como alguma coisa do Parque Anbárico na estrada
para Yarnton: antenas, fios, isoladores de porcelana, tudo brilhando
ao luar e pesadamente coberto de gelo. Um homem envolto
em peles, o rosto mal visível pela abertura do capuz, postava-se em
primeiro plano, com a mão erguida como numa saudação. Ao lado
dele, podia-se observar uma figura menor. A lua banhava tudo na
mesma claridade pálida.
— Este fotograma foi feito com uma emulsão padrão, de nitrato
de prata — Lorde Asriel informou. — Quero que vejam outro,
tirado no mesmo local apenas um minuto depois, com uma nova
emulsão, de preparo especial.
Ele retirou o primeiro slide e colocou outro no lugar. Esse era
bem mais escuro; era como se o luar tivesse sido bloqueado por
um filtro. O horizonte ainda estava visível, com a sombra escura
do casebre e o telhado coberto de neve clara destacando-se, porém
a complexidade dos instrumentos estava oculta na escuridão. Mas
o homem havia mudado inteiramente: estava banhado em luz, e
uma fonte de partículas cintilantes parecia jorrar da sua mão
erguida.
— Esta luz está subindo ou descendo? — perguntou o
Capelão.
— Está descendo — respondeu Lorde Asriel. — Mas não é
luz. É Pó.
Alguma coisa no modo como ele disse isso fez Lyra imaginar
“Pó” com letra maiúscula, como se não fosse uma poeira comum. A
reação dos Catedráticos confirmou sua sensação, porque as palavras
de Lorde Asriel provocaram um silêncio súbito e coletivo, seguido
por exclamações de incredulidade.
— Mas, como…
— É claro que…
— Não se pode…
— Cavalheiros! — fez-se ouvir a voz do Capelão. — Vamos
deixar Lorde Asriel explicar.
— É Pó — repetiu Lorde Asriel. — É registrado como luz porque
as partículas de poeira afetam essa emulsão como os fótons afetam
a emulsão de nitrato de prata. Foi em parte para testar isso que
a minha expedição ao Norte foi montada. Como podem perceber, a
figura do homem está perfeitamente visível. Agora quero que observem
a figura à esquerda dele.
Indicou a sombra desfocada da figura menor.
— Pensei que era o daemon do homem — disse o Inquiridor.
— Não. O daemon estava enrolado no pescoço dele em forma
de serpente. A figura que os senhores não conseguem ver muito bem
é uma criança.
— Uma criança seccionada? — perguntou alguém; a maneira
como essa pessoa se interrompeu mostrava que ela sabia que aquilo
era uma coisa que não devia ter sido dita.
Houve um silêncio intenso. Então Lorde Asriel disse
calmamente:
— Uma criança completa. O que, dada a natureza do Pó, é
exatamente o xis da questão, não é?
Durante vários segundos ninguém falou. Então ouviu-se a voz
do Capelão.
— Ah — fez ele, como um homem sedento que, tendo acabado
de beber à vontade, baixa o copo para poder soltar a respiração
que estava prendendo enquanto bebia. — E os rios de Pó…
— Caem do céu e o banham no que parece ser luz. Podem examinar
este fotograma com toda minúcia. Vou deixá-lo com vocês.
Estou mostrando agora para demonstrar o efeito dessa nova emulsão.
Mas gostaria de lhes mostrar outro.
Ele mudou o slide. O fotograma seguinte também tinha sido
tirado à noite, mas dessa vez sem lua. Mostrava um grupo de tendas
em primeiro plano, vagamente delineadas contra o horizonte baixo,
e atrás delas um monte de caixotes e um trenó. Mas o maior interesse
da figura estava no céu. Jorros e véus de luz pendiam como cortinas,
enlaçando-se e enfestoando ganchos invisíveis com centenas de
quilômetros de altura ou deslizando de lado no sopro de um vento
inimaginável.
— Que é aquilo? — fez a voz do Vice-reitor.
— É um retrato da Aurora Boreal.
— É um lindo fotograma — disse o Catedrático de
palmeriano. — Dos melhores que já vi.
— Perdoe minha ignorância — interpôs a voz trêmula do velho
Diretor do Coral. — Mas se eu algum dia já soube o que é a Aurora
Boreal, já esqueci. É o que eles chamam de Luzes do Norte?
— É. Ela tem muitos nomes. É composta de tempestades de
partículas carregadas e raios solares de força intensa e extraordinária.
São invisíveis, mas provocam esta irradiação luminosa quando interagem
com a atmosfera. Se houvesse tempo, eu teria mandado pintar
este slide para lhes mostrar as cores; verde e rosa claros, na maior
parte, com um toque de escarlate ao longo da borda inferior daquela
formação que parece uma cortina. Isto foi tirado com emulsão comum.
Agora quero que vejam uma imagem tirada com a emulsão
especial.
Ele retirou o slide. Lyra ouviu o Reitor dizer baixinho:
— Se ele forçar uma votação, podemos tentar invocar a cláusula
de residência. Ele ficou fora da Faculdade durante 30 das últimas
52 semanas.
— Ele já tem o apoio do Capelão… — murmurou em resposta
o Bibliotecário.
Lorde Asriel colocou um novo slide atrás da lente. A cena era a
mesma: como acontecera com o outro par de fotos, muitas coisas visíveis
à luz comum eram muito mais escuras neste, assim como as
cortinas de luz no céu.
Mas, no centro da Aurora, bem acima da paisagem sombria,
Lyra distinguia alguma coisa sólida. Pressionou o rosto na fresta para
ver melhor e constatou que os Catedráticos perto da tela também se
inclinavam para a frente. Seu assombro cresceu ao ver ali no céu o
contorno inconfundível de uma cidade: torres, domos, muralhas…
prédios e ruas, suspensos no ar! Ela quase engasgou-se de susto.
O Catedrático de cassington comentou:
— Aquilo ali parece… uma cidade!
— Exatamente — confirmou Lorde Asriel.
— Uma cidade em outro mundo, sem dúvida? — o Decano
falou, em tom de desprezo.
Lorde Asriel ignorou-o. Havia um frêmito de excitação entre
alguns Catedráticos, como se, tendo escrito tratados sobre a existência
do unicórnio sem jamais terem visto um, lhes fosse apresentado
um exemplar vivo, recém-capturado.
— É aquele negócio do Barnard-Stokes? — quis saber o Catedrático
de palmeriano. — É, sim, não é?
— É isto que eu quero descobrir — disse Lorde Asriel.
Ele postou-se a um lado da tela iluminada. Lyra via seus olhos
escuros observando os Catedráticos que contemplavam o slide da
Aurora; ela via também, ao lado dele, o brilho verde dos olhos de
seu daemon. Todas as cabeças veneráveis estavam eretas, os óculos
brilhando; apenas o Reitor e o Bibliotecário estavam recostados em
suas poltronas, com as cabeças muito juntas.
O Capelão estava dizendo:
— O senhor diz que estava procurando notícias da expedição
Grumman, Lorde Asriel. O Dr. Grumman também estava investigando
este fenômeno?
— Acredito que sim, e acredito também que conseguiu bastante
informação sobre isso. Mas ele não vai poder nos contar, porque
está morto.
— Não! — exclamou o Capelão.
— Infelizmente sim, e eu tenho a prova aqui comigo.
Uma onda de excitada apreensão percorreu a Sala Privativa enquanto,
sob ordens de Lorde Asriel, dois ou três Catedráticos mais
jovens carregaram a caixa de madeira para a frente da sala. Lorde
Asriel retirou o último slide, mas deixou a lanterna acesa e, no brilho
teatral do círculo de luz, inclinou-se para abrir a caixa com um
pé-de-cabra. Lyra ouviu o rangido de pregos saindo de madeira úmida.
O Reitor ficou de pé para enxergar, tapando a visão de Lyra. O
tio dela tornou a falar:
— Se vocês se lembram, a expedição de Grumman desapareceu
há 18 meses. A Academia Alemã mandou-o avançar para o
norte até chegar ao pólo magnético, e ali fazer várias observações
astronômicas. Foi durante essa viagem que ele observou o curioso
fenômeno que acabamos de ver. Logo depois, ele desapareceu;
supõe-se que tenha tido um acidente, e seu corpo esteja todo esse
tempo caído numa fenda qualquer. Na verdade, não houve acidente
algum.
— O que você tem aí? — perguntou o Decano. — É um saco
de lixo de um aspirador de pó?
Lorde Asriel não respondeu logo. Lyra ouviu o estalido de
presilhas de metal e um sibilo de ar penetrando num objeto, e depois
houve silêncio. Mas o silêncio não durou muito; depois de um
instante, Lyra ouviu uma explosão de exclamações confusas: gritos
de horror, protestos veementes, vozes alteadas de raiva e medo.
— Mas o que…
— … não é humano…
— … ele foi…
— Mas que foi que aconteceu com ele?
A voz do Reitor calou todas as outras:
— Lorde Asriel, em nome de Deus, o que o senhor tem aí?
— Esta é a cabeça de Stanislaus Grumman — a voz de Lorde
Asriel disse.
Acima do ruído de vozes, Lyra ouviu alguém ir tropeçando até
a porta e sair, soltando gemidos incoerentes. Ela desejou poder ver o
que eles estavam vendo. Lorde Asriel continuou:
— Encontrei o corpo dele conservado no gelo perto de
Svalbard. Os assassinos fizeram isto na cabeça dele. Reparem no padrão
de escalpelo característico. Acho que o senhor deve estar familiarizado
com isto, Vice-reitor.
A voz do ancião era firme ao responder:
— Já vi os tártaros fazerem isso. É uma técnica encontrada entre
os aborígenes da Sibéria e do Tungusk. De lá, naturalmente, essa
prática espalhou-se para as terras dos escraelingues, embora eu acredite
que ela agora esteja proibida na Nova Dinamarca. Posso examinar
de perto, Lorde Asriel?
Depois de um silêncio breve, ele tornou a falar.
— Minha visão não é muito nítida, e o gelo está sujo, mas me
parece que há um buraco no alto do crânio. Estou certo?
— Está, sim.
— Uma trepanação?
— Exatamente.Isso provocou um murmúrio de excitação. O Reitor saiu da
frente, e Lyra tornou a enxergar a cena. O velho Vice-reitor, no círculo
de luz do lampião, segurava um pesado bloco de gelo bem perto
dos olhos, e Lyra conseguiu ver o objeto dentro dele: uma bola
sanguinolenta quase irreconhecível como uma cabeça humana.
Pantalaimon esvoaçou em volta de Lyra, e sua aflição perturbou-a.
— Psiu, escute — ela sussurrou.
— O Dr. Grumman já foi Catedrático nesta Faculdade — disse
o Decano em tom veemente.
— Cair nas mãos dos tártaros…
— Mas tão ao norte?
— Eles devem ter penetrado mais do que se imaginava!
— Será que ouvi o senhor dizer que o encontrou perto de
Svalbard? — perguntou o Decano.
— Isso mesmo.
— Então está querendo dizer que os panserbjornes têm algo a
ver com isto?
Lyra não reconheceu aquela palavra, mas obviamente os Catedráticos
sim.
— Impossível — disse o Catedrático de cassington com firmeza.
— Eles nunca se comportariam assim.
— Então não conhece Iofur Raknison — retrucou o Catedrático
de palmeriano, que tinha feito ele próprio várias expedições às regiões
árticas. — Não me surpreenderia que ele tenha começado a
escalpelar as pessoas à moda dos tártaros.
Lyra tornou a olhar para o tio, que observava os Catedráticos
com um brilho de humor sardônico, sem nada dizer.
— Quem é Iofur Raknison? — alguém perguntou.
— O rei de Svalbard — esclareceu o Catedrático de palmeriano.
— Sim, é isso mesmo, um dos panserbjornes. Ele é uma espécie
de usurpador; chegou ao trono através de truques, pelo que
sei; mas é uma figura poderosa, nem um pouco tolo, apesar de suas
afetações ridículas: construir um palácio de mármore importado,
criar o que ele chama de uma universidade…
— Para quem? Para os ursos? — interpôs outra pessoa, e todos
riram.

Mas o Catedrático de palmeriano prosseguiu:
— Eu lhes digo que Iofur Raknison seria capaz de fazer isso a
Grumman. Ao mesmo tempo, a poder de lisonjas, pode-se fazer
com que ele se comporte de maneira bem diferente.
— E o senhor sabe fazer isso bem, não é, Trelawney? — comentou
o Decano com zombaria.
— Claro que sei. Quer saber o que ele deseja acima de tudo? Até
mais do que um diploma honorário? Ele quer um daemon! Se alguém
descobrir um meio de lhe dar um daemon, ele fará qualquer coisa.
Os Catedráticos riram com vontade.
Lyra acompanhava isso tudo com perplexidade: o que o Catedrático
de palmeriano tinha dito não fazia sentido. Além disso, ela estava
impaciente para ouvir mais sobre o escalpelamento, e as Luzes do
Norte, e aquele Pó misterioso. Mas ficou decepcionada, pois Lorde
Asriel havia terminado de mostrar suas relíquias e suas fotos, e a conversa logo se transformou num debate acadêmico sobre a conveniência
ou não de lhe dar dinheiro para outra expedição. Os argumentos
eram disparados de um lado para outro, e Lyra sentiu os olhos pesarem.
Logo estava dormindo a sono solto, com Pantalaimon enrolado
em seu pescoço, na sua forma de dormir favorita: como um arminho.
Ela despertou com um susto quando alguém a sacudiu pelo
ombro.
— Quieta! — ordenou o tio. A porta do armário estava aberta,
e ele estava agachado na frente da luz. — Foram todos embora, mas
ainda há alguns criados por aí. Vá para o seu quarto agora, e cuide
para não falar a ninguém sobre isso.
— Eles resolveram lhe dar o dinheiro? — ela perguntou com
voz sonolenta.
— Sim.
— Que é Pó? — ela continuou, esforçando-se para ficar de pé
depois de passar tanto tempo apertada.
— Não lhe interessa.
— Interessa, sim — ela retrucou. — Se queria que eu fosse
uma espiã no armário, devia me contar sobre o que eu estou espionando.
Posso ver a cabeça do homem?

A alva pelagem de arminho de Pantalaimon arrepiou-se; ela
sentiu cócegas no pescoço. Lorde Asriel soltou uma risada curta.
— Não seja mórbida — disse, e começou a guardar os slides e
a caixa de espécimes. — Vigiou o Reitor?
— Sim, e ele procurou o vinho antes de qualquer outra coisa.
— Ótimo. Por enquanto eu o derrotei. Agora faça o que mandei,
vá para a cama.
— Mas para onde o senhor vai?
— De volta para o Norte. Parto em dez minutos.
— Posso ir junto?
Ele interrompeu o que estava fazendo e olhou-a como se fosse a
primeira vez. Seu daemon também voltou para ela os enormes olhos
verdes de pantera, e, sob os olhares concentrados de ambos, Lyra
enrubesceu. Mas encarou-os com firmeza.
— Seu lugar é aqui — disse o tio finalmente.
— Mas por quê? Por que meu lugar é aqui? Por que não posso
ir para o Norte com o senhor? Quero ver as Luzes do Norte, os ursos,
os icebergs e tudo mais. Quero conhecer o Pó. E aquela cidade
no ar. É um outro mundo?
— Você não vai, garota. Tire isso da cabeça; estamos numa
época perigosa demais. Faça o que lhe mando e vá para a cama; se se
comportar, trago-lhe uma presa de leão-marinho entalhada pelos esquimós.
Não discuta mais, ou vou ficar muito zangado.
E o daemon dele rosnou com tal ferocidade que Lyra de repente
tomou consciência de como seria sentir aqueles dentes na
garganta.
Lyra apertou os lábios e olhou de cara feia para o tio. Ele estava
retirando o ar do compartimento de vácuo e não percebeu; era
como se já a tivesse esquecido. Sem uma palavra, mas com os lábios
apertados e o olhar furibundo, a garota e seu daemon saíram e foram
para a cama.
O Reitor e o Bibliotecário eram velhos amigos e aliados, e tinham
o costume, depois de um episódio difícil, de beber uma taça
de brantwijn e consolar-se mutuamente. Assim, depois que se despediram
de Lorde Asriel, eles foram até os aposentos do Reitor e se

acomodaram no escritório dele; com as cortinas fechadas e o fogo na
lareira reforçado, seus daemons nos lugares de costume, sobre o joelho
ou o ombro, eles se prepararam para conversar a respeito do que
acabara de ocorrer.
— Acredita mesmo que ele sabia do vinho? — perguntou o
Bibliotecário.
— Claro que sabia! Não imagino como, mas ele sabia, e derrubou
a garrafa. Claro que foi.
— Perdão, Reitor, mas não consigo deixar de me sentir aliviado.
Não estava gostando da idéia de…
— De envenená-lo?
— Sim. De assassinato.
— Acho que ninguém gosta disso, Charles. O caso era se fazer
isso seria pior do que as conseqüências de não fazer. Bom, alguma
Providência interveio, e não aconteceu. Só lamento ter perturbado
você com essa informação.
— Não, não — protestou o Bibliotecário. — Mas eu queria
que o senhor tivesse me contado mais.
O Reitor ficou em silêncio por um instante, antes de dizer:
— É, talvez eu devesse mesmo. O aletiômetro avisa que as conseqüências
serão funestas se Lorde Asriel continuar com sua pesquisa.
Além do mais, a criança será envolvida e quero mantê-la a salvo
enquanto for possível.
— As atividades de Lorde Asriel têm alguma coisa a ver com
essa nova iniciativa do Tribunal Consistorial de Disciplina? Aquele
tal de… como é mesmo o nome?… Conselho de Oblação?
— Lorde Asriel… não, não. Pelo contrário. Também o Conselho
de Oblação não está totalmente subordinado ao Tribunal
Consistorial. É uma iniciativa semiprivada; está sendo dirigida por
alguém que não gosta de Lorde Asriel. Entre os dois, Charles, eu
tremo.
O Bibliotecário ficou calado. Desde que o Papa João Calvino
havia transferido a sede do Papado para Gênova e criado o Tribunal
Consistorial de Disciplina, o poder da Igreja sobre todos os aspectos
da vida tinha sido absoluto. O próprio Papado fora abolido após a
morte de Calvino, e em seu lugar crescera um emaranhado de tribu-
nais, colegiados e conselhos, conhecidos coletivamente como o
Magisterium. Esses órgãos nem sempre eram unidos; às vezes crescia
entre eles uma amarga rivalidade. Durante grande parte do século
anterior, o mais poderoso deles tinha sido o Colegiado dos Bispos,
porém, nos anos mais recentes, o Tribunal Consistorial de Disciplina
tinha se tornado o mais atuante e o mais temido de todos os órgãos
da Igreja.
Mas era sempre possível que entidades independentes crescessem
sob a proteção de outra facção do Magisterium, e o Conselho
de Oblação mencionado pelo Bibliotecário era uma dessas. O Bibliotecário
não sabia muita coisa sobre ele, mas as coisas que ouvira
causavam-lhe desagrado e temor, de modo que ele compreendia perfeitamente
a aflição do Reitor.
— O Catedrático de palmeriano citou um nome — disse, depois
de um instante. — Barnard-Stokes? Que negócio é esse de
Barnard-Stokes?
— Ah, não é da nossa esfera, Charles. Pelo que entendi, a Santa
Igreja ensina que existem dois mundos: o mundo de tudo que podemos
ver, ouvir e tocar, e outro mundo, o mundo espiritual do céu
e do inferno. Barnard e Stokes eram dois teólogos… como posso dizer?…
dois teólogos renegados, que postulavam a existência de vários
outros mundos como este aqui, nem céu nem inferno, mas materiais
e pecaminosos. Estão aqui, bem próximos, mas invisíveis e inatingíveis.
Naturalmente a Santa Igreja desaprovou essa heresia abominável,
e Barnard e Stokes foram silenciados. Mas, infelizmente
para o Magisterium, parece haver sólidas provas matemáticas a favor
dessa teoria dos outros mundos. Eu próprio nunca as estudei, mas o
Catedrático de cassington me disse que são muito sólidas.
— E agora Lorde Asriel tirou uma foto de um desses outros
mundos — completou o Bibliotecário. — E nós lhe demos financiamento
para ir procurá-los. Entendo.
— Isso mesmo. O Conselho de Oblação e seus protetores poderosos
irão pensar que a Faculdade Jordan é um antro de apoio à
heresia. E entre o Tribunal Consistorial e o Conselho de Oblação,
Charles, tenho que manter o equilíbrio; enquanto isso, a criança está
crescendo. Sei que não a esqueceram; mais cedo ou mais tarde, ela

seria envolvida, mas será arrastada agora, com ou sem a minha
proteção.
— Mas, pelo amor de Deus, como é que o senhor sabe disso?
Foi o aletiômetro de novo?
— Foi, sim. Lyra tem um papel importante a desempenhar.
A ironia é que ela tem que fazer tudo sem saber o que está fazendo.
Mas pode ser ajudada, e se meu plano com o Tokay tivesse dado
certo, ela ficaria em segurança por mais algum tempo. Eu gostaria
de lhe poupar uma viagem para o Norte. Acima de tudo, eu queria
poder explicar a ela…
— Ela não ia prestar atenção — contrapôs o Bibliotecário. —
Conheço muito bem o jeito dela. Se alguém tentar lhe dizer qualquer
coisa séria, ela escuta mal e mal por cinco minutos e aí começa
a se distrair. E não adianta lhe fazer perguntas depois, porque ela
terá esquecido tudo.
— E se eu conversasse com ela sobre o Pó? Não acha que ela
iria prestar atenção?
O Bibliotecário fez um ruído indicando até que ponto achava
isso improvável.
— Por que ela iria prestar atenção? — perguntou. — Por que
um enigma teológico distante interessaria a uma criança cheia de
saúde e de instintos?
— Por causa do que ela terá que viver. Inclusive uma grande
traição…
— Quem é que vai atraiçoá-la?
— Não, não, essa é que é a coisa mais triste: ela é quem vai trair,
e a experiência será terrível. É claro que ela não pode saber disso, mas
não há uma razão para ela não saber sobre o problema do Pó. E você
pode estar enganado, Charles; ela pode muito bem interessar-se, se lhe
for explicado de maneira simples. E pode ser que isso a ajude depois.
Certamente ajudaria a diminuir a minha ansiedade.
— Este é o dever dos velhos: ter ansiedade por causa dos jovens
— comentou o Bibliotecário. — E o dever dos jovens é desdenhar a
ansiedade dos velhos.
Depois de algum tempo, os dois se despediram, pois era tarde e
eles eram velhos e ansiosos.

3

A JORDAN DE LYRA

A Faculdade Jordan era a mais imponente e mais rica
faculdade de Oxford. Era provavelmente a maior,
também, embora ninguém tivesse certeza disso. Os prédios,
agrupados ao redor de três quadriláteros irregulares,
datavam de todas as épocas, do início da Idade Média até
meados do século XVIII. Sua arquitetura não tinha sido planejada;
ela crescera aos poucos, com o passado e o presente misturando-se a
cada esquina, e o efeito final era de uma imponência confusa e decadente.
Sempre havia uma parte quase desabando, e, durante cinco
gerações, a mesma família — os Parslow — trabalhava para a Faculdade
em tempo integral, como pedreiros. O Sr. Parslow atual estava
ensinando a profissão ao filho; os dois, com mais três empregados,
subiam como formigas pelos andaimes que tinham erigido na esquina
da Biblioteca, ou sobre o telhado da Capela, e puxavam para
cima blocos de pedra, rolos de chumbo brilhante, vigas de madeira.
A Faculdade possuía fazendas e propriedades por toda a
Britânia. Dizia-se que era possível caminhar de Oxford a Bristol,
numa direção, ou de Oxford a Londres, em outra, e nunca sair das
terras da Jordan. Em toda parte do reino, havia fornos a lenha e tanques
de tintura, florestas e oficinas de naves atômicas que pagavam
aluguel à Jordan, e todo primeiro dia de cada trimestre o Tesoureiro
e seus funcionários somavam tudo, anunciavam o total ao
Concilium e encomendavam um par de cisnes para o Banquete.

Parte do dinheiro era reinvestida — o Conselho acabara de aprovar
a compra de um prédio de escritórios em Manchester —, e o resto
era usado para pagar os modestos salários dos Catedráticos e os salários
dos criados (e dos Parslow, e de mais de uma dúzia de famílias
de artesãos e comerciantes que serviam à Faculdade), para manter a
adega bem provida de vinhos, para comprar livros e anbarógrafos
para a imensa Biblioteca — que ocupava um lado inteiro do Quadrilátero
Melrose e se estendia, como a toca de uma toupeira, por
vários andares no subsolo — e também para comprar o equipamento
filosófico mais moderno para a Capela.
Era importante manter a Capela na vanguarda do progresso,
porque a Faculdade Jordan não tinha rival, na Europa ou na Nova
França, como centro de teologia experimental. Lyra sabia disso, pelo
menos. Tinha orgulho da proeminência da sua Faculdade e gostava
de se vangloriar disso com os vários moleques com quem brincava
junto ao Canal ou nos Barreiros; e olhava para os eruditos e professores
visitantes com desprezo e piedade, porque eles não pertenciam
à Jordan, portanto deviam saber menos, coitados, do que o mais humilde
Professor-assistente da Jordan.
O que era essa teologia experimental, Lyra sabia tão pouco
quanto os moleques da rua. Tinha formado a idéia de que era algo
relacionado à magia, aos movimentos das estrelas e dos planetas, a
minúsculas partículas de matéria — mas tudo isso era apenas palpite,
na verdade. Com certeza, as estrelas tinham daemons, como os
humanos, e na teologia experimental conversava-se com eles. Lyra
imaginava o Capelão falando solenemente, escutando os comentários
dos daemons das estrelas e depois assentindo com ar sábio, ou
sacudindo a cabeça com tristeza. Mas o que se passava entre eles ela
não conseguia imaginar.
E nem estava particularmente interessada. De certo modo,
podia-se dizer que Lyra tinha alma de moleque; o que ela mais gostava
de fazer era subir nos telhados da Faculdade com Roger, o ajudante
da Cozinha que era seu amigo, para cuspir caroços de ameixa
nas cabeças dos Catedráticos que passavam lá embaixo, ou piar
como corujas do lado de fora da janela de uma sala de aula, ou apostar
corrida nas ruas estreitas, roubar maçãs no mercado, brigar. Assim
como ela não tinha consciência das forças políticas ocultas que
agiam sob a superfície do cotidiano da Faculdade, também os Catedráticos,
por sua parte, não conseguiriam enxergar o caldo fervilhante
de alianças, inimizades, guerras e acordos que era a vida de
uma criança em Oxford. Crianças brincando juntas: que cena agradável!
Existe alguma coisa mais inocente e encantadora que isso?
Na verdade, Lyra e seus amiguinhos estavam travando uma
guerra mortal, naturalmente. Primeiro, as crianças de uma faculdade
— serviçais jovens, filhos de criados, Lyra — declaravam guerra às
de outra, mas essa inimizade era esquecida quando as crianças da cidade
atacavam uma criança de faculdade; então todas as faculdades
uniam-se e lutavam contra as crianças da cidade. Essa rivalidade tinha
cem anos e era bastante profunda e apreciada.
Mas até isso era esquecido quando outros inimigos ameaçavam.
Um inimigo era eterno: os filhos dos oleiros, que viviam perto
dos Barreiros e eram desprezados tanto pelas crianças das faculdades
como pelas da cidade. No ano anterior, Lyra e algumas crianças da
cidade tinham concordado numa trégua provisória e atacaram os
Barreiros, atirando grandes pedaços de argila sobre os filhos dos fabricantes
de tijolos e derrubando o castelo de barro que eles haviam
construído; depois rolaram cada um deles na substância pegajosa de
onde eles tiravam o sustento, até que todos — vencidos e vencedores
— ficaram parecendo um bando de bonecos animados.
O outro inimigo regular tinha sua época: as famílias de gípcios,
que moravam em balsas, iam e vinham com as feiras de primavera
e outono, e estavam sempre dispostos a brigar. Havia uma
família em particular que voltava regularmente para seu atracadouro
na parte da cidade conhecida como Jericó, com quem Lyra
vinha lutando desde a primeira vez que conseguiu jogar uma pedra.
Na última vez em que essa família esteve em Oxford, ela,
Roger e alguns dos outros ajudantes da Cozinha da Jordan e da
Faculdade St. Michael’s prepararam uma emboscada, jogando
lama na barcaça pintada de cores brilhantes, até que a família inteira
desembarcou para expulsá-los — e nesse momento o esquadrão
de reserva, sob as ordens de Lyra, invadiu o barco e desatracou-
o da margem, deixando que a embarcação flutuasse canal

abaixo, atrapalhando os barcos que passavam, enquanto os soldados
de Lyra revistavam a barcaça de uma ponta a outra, procurando
a rolha. Lyra acreditava firmemente nessa rolha e assegurou à
sua tropa que se a puxassem o barco afundaria no mesmo instante;
não a encontraram, e tiveram que abandonar o barco quando os
gípcios apareceram; acabaram fugindo, pingando água e em meio
a gritos de triunfo, pelas ruas estreitas de Jericó.
Aquele era o mundo e o reino de Lyra. Na maior parte do tempo,
ela era uma selvagenzinha ambiciosa e grosseira, porém sempre
tivera uma sensação vaga de que aquele não era o seu mundo inteiro,
que uma parte de si pertencia à solenidade e aos rituais da Faculdade
Jordan; e que, em algum lugar de sua vida, havia uma ligação
com o elevado mundo da política representado por Lorde Asriel. Essa
intuição apenas fazia com que ela se desse ares de superioridade e
mandasse nos outros moleques; nunca lhe ocorrera tentar descobrir
alguma coisa sobre isso.
De modo que assim, como um gato selvagem, ela passara a infância.
A única variação em seus dias acontecia nas visitas irregulares
de Lorde Asriel à Faculdade. Ter um tio rico e poderoso era muito
bom para se vangloriar, mas o preço disso era ter que ser agarrada
pelo Catedrático mais ágil e levada à Governanta para ser lavada e
vestida num traje limpo, sendo em seguida acompanhada (com várias
ameaças) à Sala de Estar dos Decanos para tomar chá com Lorde
Asriel. Alguns Catedráticos mais velhos também eram convidados.
Lyra, rebelde, jogava-se numa cadeira até o Reitor lhe ordenar severamente
que se sentasse direito, e ela então fazia uma cara tão zangada
que até o Capelão achava graça.
Essas visitas formais e constrangedoras nunca variavam; depois
do chá, o Reitor e o punhado de Catedráticos convidados deixavam
Lyra e o tio a sós, e ele a chamava para ficar de pé à sua frente e contar
o que aprendera desde a última visita dele. Ela então resmungava
tudo que conseguia recordar sobre geometria, ou árabe, ou história
ou anbarologia, e ele, recostado, pernas cruzadas, observava-a enigmaticamente
até ela ficar sem palavras.
No ano anterior, antes da expedição ao Norte, ele tinha perguntado
também:

— E como você passa o tempo quando não está estudando
esforçadamente?
E ela respondeu:
— Eu brinco, só isso. Por aí pela Faculdade. Só… brincadeira.
Ele então pediu:
— Deixe-me ver suas mãos, garota.
Ela estendeu as mãos para serem inspecionadas, e ele as virou,
para ver as unhas. Seu daemon estava deitado como uma Esfinge no
tapete, sacudindo a cauda ocasionalmente e encarando Lyra sem
pestanejar.
— Sujas — declarou Lorde Asriel, empurrando as mãos dela.
— Aqui neste lugar não lhe fazem tomar banho?
— Sim, mas as unhas do Capelão estão sempre sujas. Até mais
que as minhas.
— Ele é um homem culto. Qual é a sua desculpa?
— Devo ter sujado depois que lavei.
— Onde é que você brinca, para se sujar tanto assim?
Ela o encarou com suspeita. Tinha o palpite de que subir ao telhado
era proibido, embora ninguém tivesse lhe dito isso com todas
as letras.
— Em algumas salas velhas — respondeu afinal.
— E onde mais?
— Nos Barreiros, às vezes.
— E?
— Em Jericó e Port Meadow.
— Mais algum outro lugar?
— Não.
— Está mentindo. Ontem mesmo vi você no telhado.
Ela mordeu o lábio e ficou calada. Ele a observava ironicamente.
— Quer dizer que brinca no telhado também? — continuou.
— Costuma entrar na Biblioteca?
— Não. Mas encontrei um corvo no telhado da Biblioteca.
— Foi mesmo? E o pegou?
— Ele tinha uma pata machucada. Eu ia matar e assar ele, mas
Roger disse que tínhamos que cuidar dele. Então lhe demos restos
de comida e um pouco de vinho, e ele melhorou e fugiu voando.

— Quem é Roger?
— Meu amigo. O ajudante da Cozinha.
— Entendo. Então você andou pelo telhado inteiro…
— Não o telhado inteiro. Não dá para chegar no Prédio
Sheldon porque é preciso dar um pulo da Torre do Peregrino, por
cima de um buraco. Há uma clarabóia que se abre para lá, mas não
tenho altura para alcançá-la.
— Você andou pelo telhado inteiro, exceto o Prédio Sheldon;
e quanto aos subterrâneos?
— Subterrâneos?
— Para baixo do chão a Faculdade é tão grande quanto para
cima. Estou surpreso de ver que você ainda não tinha descoberto isso.
Bem, já estou de partida. Você parece bastante saudável. Tome
aqui.
Tirou do bolso um punhado de moedas, de onde separou e entregou
a ela cinco dólares de ouro.
— Não lhe ensinaram a agradecer? — perguntou.
— Muito obrigada — ela resmungou.
— Você obedece ao Reitor?
— Ah, sim.
— E respeita os Professores?
— Sim.
O daemon de Lorde Asriel riu baixinho. Era o primeiro som
que ele fazia, e Lyra enrubesceu.
— Então vá brincar — disse Lorde Asriel.
Lyra virou-se e disparou para a porta, aliviada, lembrando-se de
parar e dizer até logo.
Assim tinha sido a vida de Lyra antes do dia em que ela resolveu
esconder-se na Sala Privativa e pela primeira vez ouviu falar no
Pó.
E naturalmente o Bibliotecário estava enganado ao dizer ao
Reitor que ela não prestaria atenção; ela teria ouvido ansiosamente
quem quer que pudesse lhe falar do Pó. Nos meses seguintes, iria
ouvir muita coisa sobre o assunto, e finalmente iria saber mais sobre
o Pó do que qualquer outra pessoa no mundo; mas, enquanto isso,

havia toda aquela variada vida da Jordan desenrolando-se à sua
volta.
De qualquer maneira, havia outra coisa para se pensar. Nas últimas
semanas, um boato vinha se espalhando pelas ruas — um boato
que fazia algumas pessoas rirem e outras silenciarem, assim como
algumas pessoas riem de fantasmas e outras os temem: sem que
qualquer pessoa pudesse imaginar o motivo, estavam começando a
desaparecer crianças.
Eis como acontecia: ao longo da margem oriental da grande rodovia
que é o Rio Ísis, apinhado de barcaças de tijolos, asfalto ou
milho navegando devagar, abaixo de Henley e Maidenhead até
Teddington, onde a maré do Oceano Germano alcança, e ainda
bem mais abaixo até Mortlake, passando pela casa do grande mago
Dr. Dee, por Falkeshall, onde os parques-jardins ostentam seus chafarizes
e suas bandeirolas durante o dia, e seus lampiões nas árvores e
seus fogos de artifício à noite; e passando pelo Palácio de White
Hall, onde o Rei comanda semanalmente o Conselho de Estado;
pela Torre Shot, a pingar seu infindável chuvisco de chumbo derretido
nos barris de água escura; e ainda mais abaixo, até onde o rio,
agora largo e imundo, faz uma grande curva para o sul.
Ali fica o bairro de Limehouse, e lá está a criança que vai
desaparecer.
É um menino chamado Tony Makarios. A mãe pensa que ele
tem nove anos de idade, mas ela tem memória fraca, destruída pela
bebida; ele deve ter oito, ou dez. Seu sobrenome é grego, porém, assim
como a idade, trata-se de mero palpite da mãe dele, porque ele
parece mais chinês que grego, e pelo lado da mãe ele tem sangue
irlandês, escraelingue e lascar. Tony não é muito inteligente, mas
tem uma espécie de ternura desajeitada que às vezes o leva a dar um
abraço rude na mãe e plantar um beijo pegajoso em seu rosto. A pobre
mulher geralmente está tonta demais para tomar uma iniciativa
dessas, mas corresponde com carinho, quando percebe o que está
acontecendo.
No momento, Tony está vagando pelo mercado na rua Pie. Está
com fome; é de noitinha e ele não vai encontrar comida em casa.

Tem no bolso um xelim que um soldado lhe deu para levar um recado
à sua garota favorita, mas Tony não vai desperdiçar seu dinheiro
em comida, quando se pode conseguir tanta coisa de graça.
De modo que ele vagueia pelo mercado com seu pequeno
daemon — uma pardoca — no ombro observando tudo, por entre
as barracas de roupas usadas e as de papéis-da-sorte, os vendedores
de fruta e o vendedor de peixe frito; e quando uma barraqueira e seu
daemon estão ambos olhando para o outro lado, a pardoca dá o sinal,
e as mãos de Tony vão à frente e voltam para dentro da camisa
larga com uma maçã ou um punhado de castanhas, e finalmente
com um pastelão quentinho.
A barraqueira o vê e dá um grito, e seu daemon-gato salta, mas
a pardoca de Tony está voando, e o próprio Tony já está quase na
esquina. Palavrões e pragas o acompanham, mas não até muito longe;
ele pára de correr junto à escada do Oratório de Santa Catarina,
onde se senta e pega seu troféu quente e amassado, deixando um rastro
de molho na camisa.
E ele está sendo observado; uma dama usando um casaco longo
de pele de raposa amarela e vermelha, uma linda jovem, cujos cabelos
castanhos brilham delicadamente dentro da sombra de seu capuz
forrado de pele, está parada à porta do Oratório, alguns degraus acima
do garoto. Talvez o ofício esteja terminando, pois pela porta
atrás dela jorra luz, lá dentro um órgão está tocando, e a dama está
segurando um livro de orações ornado de pedras preciosas.
Tony nada percebe. Feliz, com o rosto enterrado no pastelão,
os dedos dos pés curvados para dentro e as solas juntas, ele mastiga e
engole enquanto seu daemon se transforma numa ratazana alisando
os bigodes.
O daemon da jovem dama está se destacando do casaco de pele
de raposa. Ele tem a forma de um macaco, mas não um macaco comum:
tem os pêlos compridos e sedosos, de um tom dourado forte
e lustroso. Com movimentos sinuosos, ele desce lentamente a escadaria
na direção de Tony e se senta no degrau acima do garoto.
Então a ratazana percebe alguma coisa e se transforma outra
vez em pardoca, virando a cabecinha de lado e saltando dois
degraus.

O macaco observa a pardoca; o pássaro observa o macaco.
O macaco estende a mão devagar. Tem a mão pequena e preta,
as unhas são garras perfeitas e resistentes, os movimentos são suaves
e convidativos. A pardoca não consegue resistir; aproxima-se com
mais alguns saltos e então esvoaça para a mão do macaco.
O macaco a ergue e a estuda de perto antes de se levantar e voltar
para junto do seu ser humano, levando consigo o daemonpardoca.
A dama baixa a cabeça perfumada para lhe sussurrar alguma
coisa. E então Tony se vira; não consegue evitar.
— Rateira! — chama, de boca cheia, com certo susto.
— Olá! — diz a linda dama. — Qual é o seu nome?
— Tony.
— Onde é que você mora, Tony?
— Na alameda Clarice.
— De que é este pastelão?
— De carne.
— Gosta de chocolate?
— Gosto!
— Por acaso tenho mais chocolatl do que poderia beber. Quer
vir me ajudar a acabar com ele?
Tony já está perdido — desde o momento em que seu daemon
insensato saltou para a mão do macaco. Ele acompanha a jovem e o
macaco dourado ao longo da rua Dinamarca, passando pelo Cais do
Enforcado e descendo a Escadaria do Rei George, até uma portinhola
verde na parede de um armazém de teto alto. Ela bate, a porta
é aberta; eles entram, a porta se fecha. Tony nunca mais sairá —
pelo menos por aquela entrada; e nunca mais vai ver a mãe; e ela,
pobre bêbada, vai pensar que o filho fugiu, e, quando pensar nele,
vai achar que a culpa foi sua e vai se desmanchar em lágrimas.
O pequeno Tony Makarios não foi a única criança capturada
pela mulher com o macaco dourado. No porão do depósito, ele encontrou
uma dúzia de outras, meninos e meninas, nenhuma delas
com mais de 12 anos — apesar de que, tendo todos eles uma infância
parecida, ninguém tinha certeza da própria idade. O que Tony
não percebeu, naturalmente, era o fator que todos tinham em co-
mum: nenhuma criança naquele porão quentinho tinha chegado à
puberdade.
A gentil dama acomodou-o num banco ao longo da parede e
lhe mandou, por uma criada silenciosa, uma caneca de chocolatl tirado
da panela sobre o fogão de ferro. Tony comeu o resto do pastelão
e bebeu o líquido quente e doce sem prestar muita atenção ao
que o cercava, como também o que o cercava não prestava muita
atenção nele: era pequenino demais para ser uma ameaça e demasiado
imperturbável para desempenhar satisfatoriamente o papel de
vítima.
Foi outro menino quem fez a pergunta óbvia.
— Ei, dona! Por que trouxe todos nós para cá?
Era um moleque de ar durão, com um bigode de chocolatl e
uma ratazana preta e magricela como daemon. A dama estava parada
perto da porta, conversando com um homem corpulento com ar
de capitão de navio; quando se virou para responder, ela tinha uma
aparência tão angelical à luz sibilante da lamparina a nafta que todas
as crianças silenciaram.
— Queremos a sua ajuda — ela disse. — Vocês não se importam
em nos ajudar, não é?
Ninguém conseguia dizer uma palavra. Tímidos de repente,
limitavam-se a contemplá-la. Nunca tinham visto uma mulher assim;
ela era tão graciosa, simpática e boazinha que elas sentiam que
não mereciam tamanha sorte, e fariam com prazer tudo que ela
pedisse, apenas para ficar mais um pouco na presença dela.
Ela revelou que iam fazer uma viagem; as crianças seriam bem
alimentadas e vestidas, e aquelas que quisessem poderiam mandar
uma mensagem para a família dizendo que estavam em segurança.
Logo o Capitão Magnusson as levaria para o seu navio, e quando a
maré estivesse propícia, iam sair velejando rumo ao Norte.
Logo as poucas crianças que queriam mandar um recado para
casa estavam sentadas em volta da linda dama, que escrevia o que
elas lhe ditavam e deixava que desenhassem um X desajeitado no final,
dobrava a folha, colocava-a dentro de um envelope perfumado e
escrevia nele o endereço que lhe davam. Tony teria gostado de mandar
alguma coisa para a mãe, mas era realista: a mãe não ia conseguir

ler. Deu um puxão na pele da manga do casaco da dama e cochichou
que queria que ela dissesse à sua mãe aonde ele estava indo; ela
inclinou a cabeça graciosa para bem perto do corpinho malcheiroso
do menino, acariciou-lhe a cabeça e prometeu levar o recado.
Então as crianças se amontoaram para despedir-se. O macaco
dourado acariciou os daemons de todas, e todas elas tocaram na pele
de raposa para dar sorte, ou como se estivessem recebendo alguma
força ou esperança ou bondade emanando da mulher, e ela despediu-
se de todas e levou-as até uma lancha a vapor parada no cais,
deixando-as aos cuidados do valente capitão. O céu já estava escuro,
o rio era uma massa de luzinhas saltitantes. A dama ficou parada no
cais acenando até não conseguir mais ver os rostos das crianças.
Então voltou para dentro do depósito, com o macaco dourado
aninhado em seu seio, e jogou a pequena pilha de cartinhas na
fornalha antes de sair por onde tinha entrado.
Era muito fácil atrair as crianças dos bairros miseráveis, mas finalmente
começou-se a perceber, e a polícia teve que entrar em
ação, embora com relutância. Por algum tempo, não houve mais desaparecimentos.
Mas o boato tinha nascido e, aos poucos, foi mudando,
crescendo e se espalhando, e quando, passado algum tempo,
umas crianças desapareceram em Norwich, e depois em Sheffield, e
depois em Manchester, as pessoas nesses lugares que sabiam dos desaparecimentos
em outras cidades acrescentavam novos fatos à história,
dando-lhe novo vigor.
E assim cresceu a lenda de um misterioso grupo de feiticeiros
que roubavam crianças. Alguns diziam que o chefe era uma linda
mulher, outros falavam num homem alto, de olhos vermelhos, ao
passo que uma terceira versão falava num rapaz que ria e cantava
para suas vítimas, que o seguiam como carneirinhos.
Quanto ao local para onde levavam essas crianças perdidas, não
havia duas versões que concordassem. Alguns diziam que era para o
Inferno, para o subsolo, para a Terra Encantada. Outros afirmavam:
para uma fazenda onde as crianças eram confinadas e engordadas
para serem servidas à mesa. Outros diziam que as crianças eram
vendidas como escravas para tártaros ricos…

Mas uma coisa em que todos concordavam era o nome desses
raptores invisíveis. Tinham que ter um nome, ou então não poderiam
ser mencionados, e falar sobre eles — especialmente para quem
estava a salvo em casa, ou na Faculdade Jordan — era delicioso. E o
nome com que eles aparentemente foram batizados, sem que ninguém
soubesse por quê, foi os Papões.
— Não fique fora até tarde, senão os Papões vão pegar você!
— Minha prima em Northampton conhece uma mulher cujo
filho foi roubado pelos Papões…
— Os Papões estiveram em Stratford. Dizem que eles estão
vindo para o sul!
E inevitavelmente:
— Vamos brincar de crianças e Papões!
Foi o que Lyra disse a Roger, o ajudante de Cozinha da Faculdade
Jordan. Ele a teria seguido até o fim do mundo.
— Como é que se brinca disso?
— Você se esconde e eu o encontro e o abro ao meio, como os
Papões fazem.
— Você não sabe o que eles fazem. Pode ser que não façam
nada disso.
— Você está com medo deles. Estou vendo! — disse ela.
— Não estou. Aliás, nem acredito neles.
— Eu acredito — ela retrucou com firmeza. — Mas também
não tenho medo. Faço o que o titio fez na última vez que veio a
Jordan. Eu vi. Ele estava na Sala Privativa e havia um convidado que
não foi delicado, e titio só fez olhar para ele com força, e o homem
caiu morto na hora, espumando pela boca.
— Duvido — fez Roger em tom de dúvida. — Nunca falaram
sobre isso na Cozinha. De qualquer maneira, você não pode entrar
na Sala Privativa.
— Claro que não falaram. Eles não iam contar esse tipo de coisa
aos criados. E eu estive na Sala Privativa, sim. De qualquer modo,
titio está sempre fazendo isso. Fez com uns tártaros que o agarraram
certa vez. Amarraram o meu tio e iam tirar as tripas dele, mas, quando
o primeiro se aproximou com uma faca, titio olhou bem para

ele, e ele caiu morto, então veio outro, e titio fez a mesma coisa, e
no final só sobrou um. Titio disse que ia deixar o homem escapar se
ele o desamarrasse, e foi o que ele fez, e então titio matou ele mesmo
assim, para lhe dar uma lição.
Roger duvidava desse caso ainda mais do que dos Papões, mas
era uma história boa demais para ser desperdiçada, de modo que os
dois se revezaram sendo Lorde Asriel e os tártaros que iam morrer;
em lugar da espuma, os dois usaram sorvete.
No entanto, houve uma interrupção. Lyra estava concentrada
fazendo o papel dos Papões e tinha conseguido encurralar Roger na
adega do porão, onde eles entraram com o chaveiro de reserva do
Mordomo. Juntos atravessaram os grandes domos onde o Tokay e o
Canary da Faculdade, o Burgundy e o brantwijn jaziam sob as teias
de aranha de muitos anos. Os antigos arcos de pedra erguiam-se acima
deles, apoiados em colunas grossas como dez árvores juntas; o
chão era de pedras irregulares, e por toda parte havia estantes de garrafas
e barris. Era fascinante. Esquecendo-se dos Papões, as duas crianças
foram de uma ponta à outra, cautelosamente, segurando uma
vela com dedos trêmulos, tentando enxergar em cada canto escuro,
com uma única pergunta cada vez mais forte na mente de Lyra: qual
era o gosto do vinho?
Havia um modo fácil de responder. Lyra — apesar dos protestos
veementes de Roger — escolheu a garrafa mais velha, retorcida e
verde que conseguiu encontrar, e, não tendo como extrair a rolha,
quebrou a garrafa no gargalo. Encolhidos no canto mais escondido,
os dois bebericaram o líquido púrpura, curiosos para ver quando ficariam
embriagados e como saberiam que estavam. Lyra não gostou
muito do sabor, mas tinha que admitir que era um sabor solene e
complicado. O mais engraçado era observar os dois daemons, que
pareciam ficar cada vez mais tontos: caíam, davam risadinhas sem
sentido e mudavam de forma imitando monstros, cada um tentando
ficar mais feio que o outro.
Finalmente, e quase ao mesmo tempo, as crianças descobriram
como era ficar embriagado.
— Eles gostam disso? — ofegou Roger, depois de vomitar
copiosamente.

— Gostam, sim — disse Lyra, nas mesmas condições. — E eu
também — acrescentou teimosamente.
A única coisa que Lyra aprendeu nesse episódio foi que brincar
de Papões levava a lugares interessantes. Lembrou-se das palavras do
tio na sua última conversa e começou a explorar o subsolo, pois o
que havia acima do solo era apenas uma pequena fração do todo;
como um enorme fungo cujas raízes se estendem por muitos quilômetros,
a Jordan, ao se ver brigando por espaço com a Faculdade St.
Michael’s de um lado, a Faculdade Gabriel do outro e a Biblioteca
da Universidade atrás, começara, ainda na Idade Média, a espalhar-
se por baixo do solo. Túneis, poços, domos, porões, escadarias
— tudo isso tinha escavado tanto a terra abaixo da Jordan e por
centenas de metros ao redor dela que havia quase tanto ar debaixo
da terra quando acima dela; a Faculdade Jordan ficava sobre uma espécie
de espuma de pedra.
Tendo provado o gostinho de explorar o subsolo, Lyra abandonou
seu território de costume, os Alpes irregulares que eram os
telhados da Faculdade, e mergulhou com Roger no limbo. Brincar
de Papões foi substituído por caçá-los, pois o que seria mais provável
do que haver Papões escondidos no subsolo, à espreita?
De modo que certo dia ela e Roger desceram para a cripta sob
o Oratório. Era ali que as gerações de Reitores tinham sido enterradas,
cada um em seu caixão de carvalho forrado de chumbo. Os
caixões ficavam dentro de nichos ao longo das paredes de pedra.
Uma placa de pedra abaixo de cada um dava os nomes deles:
Simon Le Clerc, Reitor 1765-1789 Cerebaton
Requiescant in pace
— Que quer dizer isso? — Roger perguntou.
— A primeira linha é o nome dele, e a segunda é romano. E as
datas no meio da linha são quando ele foi Reitor. E o outro nome
deve ser o daemon dele.
Saíram caminhando ao longo da cripta silenciosa, lendo mais
inscrições:

Francis Lyall, Reitor 1748-1765 Zohariel
Requiescant in pace
Ignatius Cole, Reitor 1745-1748 Musca
Requiescant in pace

Lyra achou interessante constatar que, em cada caixão, uma
placa de bronze trazia uma imagem diferente: num era um basilisco;
no outro, uma mulher loura; no outro, uma serpente; no outro, um
macaco. Percebeu que eram imagens dos daemons dos mortos.
Quando as pessoas chegavam à idade adulta, seus daemons já tinham
perdido o poder de transformar-se e ficavam com uma forma
única e permanente.
— Esses caixões têm esqueletos dentro! — Roger sussurrou.
— Carne em putrefação — Lyra sussurrou de volta. — E vermes,
lombrigas se retorcendo nos buracos dos olhos deles…
— Deve ter fantasmas por aqui… — disse Roger, arrepiando-se
prazerosamente.
Atrás da primeira cripta, eles encontraram um corredor orlado
de prateleiras de pedra. Cada prateleira era dividida em quadrados, e
em cada quadrado descansava uma caveira.
O daemon de Roger, com o rabo entre as pernas, estremeceu
de encontro a ele e soltou um uivo breve e fraco.
— Psiu! — fez ele.
Lyra não enxergava Pantalaimon, mas sabia que, em sua forma
de mariposa, ele estava descansando em seu ombro e com certeza arrepiado
também.
Estendendo a mão, ela pegou a caveira mais próxima e tirou-a
do lugar.
— O que está fazendo? Não pode tocar nelas! — Roger protestou.
Sem lhe dar atenção, ela ficou girando a caveira nas mãos. De
repente alguma coisa saiu pelo buraco na base do crânio, passou entre
os dedos dela e caiu no chão ruidosamente. Com o susto, ela
quase deixou cair a caveira.
— É uma moeda! — Roger exclamou, tateando no chão. —
Pode ser um tesouro!

Ele ergueu a moeda à luz da vela e ambos a contemplaram de
olhos arregalados. Não era uma moeda, e sim um pequeno disco de
bronze com um entalhe grosseiro representando um gato.
— Como os dos caixões — disse Lyra. — É o daemon dele. Só
pode ser.
— É melhor levar de volta — Roger, inquieto, aconselhou.
Lyra girou a caveira e deixou o disco cair de volta em seu lugar
imemorial antes de recolocá-la na prateleira. Os dois descobriram
então que cada um dos crânios tinha sua moeda-daemon mostrando
a companheira da vida do dono ainda perto dele na morte.
— Que acha que estes eram quando estavam vivos? — Lyra
perguntou. — Provavelmente Catedráticos, imagino. Só os Reitores
ganham caixões. Com certeza, foram tantos Catedráticos durante
todos esses séculos que não haveria lugar para enterrar todos, de
modo que eles cortam a cabeça e guardam. É mesmo a parte mais
importante deles…
Não encontraram Papões, mas as catacumbas sob o Oratório
mantiveram Lyra e Roger ocupados durante muitos dias. Certa vez,
ela tentou fazer uma brincadeira com alguns dos Catedráticos mortos,
trocando os discos dentro dos crânios, dando-lhes daemons errados;
Pantalaimon ficou tão agitado com isso que se transformou
num morcego e pôs-se a voar para cima e para baixo soltando gritos
agudos e batendo as asas no rosto dela, mas ela não deu atenção; a
brincadeira era boa demais. Porém ela pagou por isso mais tarde. Na
cama, em seu quartinho apertado no topo da Escadaria Doze, ela foi
visitada por uma assombração e acordou gritando por causa das três
figuras de túnica paradas à cabeceira da cama apontando os dedos
ossudos antes de jogar para trás os capuzes e mostrar os tocos sangrentos
onde deveriam estar as cabeças. Só quando Pantalaimon
transformou-se num leão e rugiu foi que eles recuaram, fundindo-se
à matéria da parede até que só restavam de fora os braços, depois as
mãos engelhadas, cinzentas, depois os dedos em contorções, depois
nada. De manhã, a primeira coisa que ela fez foi correr para as
catacumbas e devolver as moedas-daemons para seus lugares, sussurrando
“Perdão! Perdão!” às caveiras.

As catacumbas eram muito maiores do que a adega, mas também
tinham um limite. Depois que Lyra e Roger exploraram cada
canto delas e se certificaram de que não havia Papões por lá, voltaram
a atenção para outra coisa — mas não antes de terem sido vistos
saindo da cripta pelo Intercessor, que os chamou ao Oratório.
O Intercessor era um ancião gorducho conhecido como Padre
Heyst. Sua função era dirigir todos os ofícios da Faculdade, pregar,
orar e ouvir confissões. Tinha se interessado pelo bem-estar espiritual
de Lyra quando ela era criança, tendo sido desencorajado pela indiferença
e pelos arrependimentos hipócritas dela. Finalmente chegara
à conclusão de que espiritualmente ela não era promissora.
Ouvindo o chamado dele, Lyra e Roger viraram-se com relutância
e se encaminharam, arrastando os pés, para dentro do
Oratório com sua penumbra recendendo a mofo. Aqui e ali tremulavam
chamas de velas diante das imagens dos santos; um ruído suave
e distante vinha do poço do órgão, onde alguns reparos estavam
sendo efetuados; um criado polia o púlpito de bronze. Padre Heyst,
na porta da sacristia, acenou-lhes.
— Onde estiveram? — perguntou-lhes. — Já vi vocês saindo
de lá mais de uma vez. O que estão tramando?
Seu tom não era de acusação; ele parecia genuinamente interessado.
Empoleirado em seu ombro, seu daemon estendeu para eles a
língua de lagarto. Lyra respondeu:
— Queríamos ver a cripta.
— Por que motivo?
— Os… os caixões. Queríamos ver todos os caixões — ela
disse.
— Mas por quê?
Ela deu de ombros — sua resposta costumeira quando se sentia
pressionada.
— E você? — ele continuou, voltando-se para Roger. O
daemon do rapaz pôs-se a balançar a cauda, tentando acalmá-lo. —
Qual é o seu nome?
— Roger, Padre.
— Se é um criado, onde trabalha?
— Na Cozinha, Padre.

— Não devia estar lá agora?
— Sim, Padre.
— Então vá.
Roger virou-se e saiu correndo. Lyra arrastou o pé de um lado
para o outro no chão.
— Quanto a você, Lyra, fico contente em ver que está se
interessando pelas coisas do Oratório. É uma menina de sorte, por
ter tanta História à sua volta.
— Hum — fez ela.
— Mas me espanta a sua escolha de companheiros. É uma criança
solitária?
— Não — ela disse.
— Sente… sente falta da companhia de outras crianças?
— Não.
— Não estou falando de Roger, o ajudante da Cozinha. Estou
falando de crianças como você. Crianças de berço nobre. Gostaria
de ter alguns companheiros desse tipo?
— Não.
— Outras meninas, talvez…
— Não.
— Sabe, nenhum de nós quer que você perca todos os prazeres
e divertimentos comuns da infância. Às vezes penso que sua vida
aqui deve ser solitária, no meio dos velhos Catedráticos. Sente isso?
— Não.
Ele juntou os polegares sobre os outros dedos entrelaçados, incapaz
de pensar em outra coisa para perguntar àquela criança obstinada.
— Se estiver com algum problema, sabe que pode me contar
— disse finalmente. — Espero que sempre saiba disso.
— Sim.
— Tem feito suas orações?
— Sim.
— Muito bem. Agora vá.
Com um suspiro de alívio mal disfarçado, ela virou-se e saiu.
Não tendo conseguido encontrar Papões debaixo da terra, Lyra
voltou para as ruas. Era onde se sentia em casa.

Então, quando ela tinha quase perdido o interesse neles, os
Papões apareceram em Oxford.
A primeira notícia que ela teve foi quando sumiu um menino
de uma família gípcia que ela conhecia.
Foi na época da Feira de Cavalos, e a bacia do canal estava apinhada
de barcos e barcaças, com mercadores e viajantes, e os trapiches
ao longo do cais em Jericó cintilavam com os arreios brilhantes
e ressoavam com o ruído de ferraduras e o clamor das barganhas.
Lyra sempre gostara da Feira de Cavalos; além da chance de
um passeio clandestino em algum cavalo mal vigiado, havia inúmeras
oportunidades para provocar uma batalha.
E esse ano ela forjara um ótimo plano; inspirada pela captura
do barco no ano anterior, dessa vez ela pretendia navegar um pouco
mais antes de ser escorraçada. Se ela e os amigos das cozinhas das faculdades
pudessem chegar até Abingdon, poderiam fazer uma grande
bagunça no dique…
Mas nesse ano não haveria guerra. Enquanto percorria a borda
do estaleiro de Port Meadow ao sol da manhã com dois moleques,
passando um para o outro um cigarro roubado e soprando a fumaça
com bastante ostentação, ela escutou um grito e reconheceu a voz.
— Bem, que foi que fez com ele, seu bunda-mole?
Era uma voz poderosa, voz de mulher — mas uma mulher com
pulmões de couro e cobre. Lyra na mesma hora virou-se à procura
dela, pois tinha reconhecido a voz de Mãe Costa, que, em duas ocasiões,
tinha deixado Lyra quase desmaiada com uns pescoções, mas
em três dera-lhe pãezinhos quentes, e cuja família era famosa pelo
luxo e pela imponência de seu barco. Eram príncipes entre os
gípcios, e Lyra admirava muito Mãe Costa, mas pretendia passar
ainda algum tempo cautelosa, pois era deles o barco que ela havia
roubado.
Um dos moleques companheiros de Lyra pegou automaticamente
uma pedra no chão quando ouviu a gritaria, mas Lyra
ordenou:
— Pode ir soltando. Ela está nervosa. Pode quebrar você ao
meio como um graveto.

Na verdade, Mãe Costa parecia mais ansiosa do que zangada.
O homem com quem falava, um mercador de cavalos, dava de ombros
e espalmava as mãos.
— Bom, eu não sei — dizia ele. — Ele estava aqui e no minuto
seguinte tinha sumido. Não cheguei a ver para onde ele foi…
— Ele estava ajudando você! Estava segurando seus malditos
cavalos!
— Bom, ele devia ter ficado aqui, não é? Sair correndo no
meio do trabalho…
O homem não chegou a terminar a frase, pois Mãe Costa lhe
pregou um tremendo tabefe na lateral da cabeça, acompanhado de
tantos xingamentos e safanões que ele berrou e virou-se para fugir.
Os outros mercadores de cavalos zombaram, e um potro assustadiço
empinou, sobressaltado.
— O que está acontecendo? — Lyra perguntou a um menino
gípcio que a tudo assistia, boquiaberto. — Por que ela está com tanta
raiva?
— É o filho dela — explicou o menino. — Billy. Com certeza,
ela acha que os Papões pegaram o garoto. E pode ser verdade, mesmo.
Eu não vejo o Billy desde…
— Os Papões? Então eles chegaram a Oxford?
O menino gípcio deu-lhes as costas para gritar para os amigos,
que estavam observando Mãe Costa:
— Ela não sabe de nada! Nem sabe que os Papões estão aqui!
Meia dúzia de moleques viraram-se para ela com expressão de
desprezo, e Lyra jogou fora o cigarro, reconhecendo a deixa para
uma boa briga. No mesmo instante, os daemons de todos se prepararam
para a guerra: cada criança era acompanhada por dentes, ou
garras, ou pêlos eriçados, e Pantalaimon, desprezando a imaginação
limitada daqueles daemons gípcios, transformou-se num dragão do
tamanho de um cão veadeiro.
Antes, porém, que a batalha começasse, Mãe Costa se imiscuiu,
empurrando dois gípcios e confrontando Lyra como se fosse uma
lutadora profissional.
— Sabe dele? — ela interpelou Lyra. — Viu o Billy?
— Não. Acabamos de chegar. Não vejo o Billy há meses.

O daemon de Mãe Costa fazia círculos no ar acima da cabeça
dela — um falcão de olhos amarelos e ferozes que olhavam para todos
os lados sem piscar. Lyra ficou com medo; ninguém se preocupava
quando uma criança sumia por algumas horas, principalmente
uma gípcia: no mundinho dos barcos gípcios, todas as crianças eram
preciosas e intensamente amadas, e cada mãe sabia que, se seu filho
estivesse longe de sua vista, não estaria longe da vista de outra mãe,
que o protegeria instintivamente.
No entanto, ali estava Mãe Costa, rainha entre os gípcios, aterrorizada
pela ausência de uma criança. Por quê?
Mãe Costa olhou sem ver o grupinho de crianças, virou-se e
saiu tropeçando por entre a multidão, indo na direção do ancoradouro,
sempre gritando pelo filho. No mesmo instante, as crianças
esqueceram a briga, diante daquele sofrimento.
— Esses Papões são o quê, afinal? — perguntou Simon
Parslow, amiguinho de Lyra.
O primeiro menino gípcio respondeu:
— Você sabe. Eles estão roubando crianças por toda parte. São
piratas…
— Eles não são piratas — corrigiu outro gípcio. — São canibais.
É por isso que o nome deles é Papões.
— Eles comem crianças? — perguntou outro amigo de Lyra:
Hugh Lovat, ajudante de Cozinha na St. Michael’s.
— Ninguém sabe — disse o primeiro menino. — Levam a criança
e ninguém mais tem notícia dela.
— Isso nós todos sabemos — disse Lyra. — Há meses estamos
brincando de crianças e Papões, antes de vocês, aposto. Mas aposto
que ninguém já viu um Papão.
— Já viram — disse um garoto.
— Quem? — Lyra insistiu. — Você já viu? Como é que sabe
que não é só uma pessoa?
— Charlie viu eles em Banbury — disse uma menina gípcia.
— Eles ficaram falando com uma mulher enquanto outro homem
tirou o filho dela do jardim.
— É, eu vi eles fazerem isso! — confirmou Charlie, um menino
gípcio.

— Como é que eles eram? — Lyra quis saber.
— Bom, eu não vi direito — Charlie confessou. — Mas vi o
caminhão deles — acrescentou. — Eles chegam num caminhão
branco. Colocam o menino no caminhão e saem disparados.
— Mas por que o nome deles ficou sendo Papões? — Lyra
insistiu.
— Porque eles papam as crianças — disse o primeiro garoto
gípcio. — Nos contaram lá em Northampton. Eles estiveram por lá.
Tinha uma garota em Northampton, levaram o irmão dela e ela disse
que os homens que levaram ele disseram que iam comer ele.
Todo mundo sabe disso. Eles comem as crianças.
Uma menina gípcia começou a chorar alto.
— É a prima de Billy — Charlie informou.
Lyra perguntou:
— Quem viu o Billy por último?
— Eu! — uma dúzia de vozes exclamou.
— Eu vi o Billy segurando aquele pangaré do Johnny Fiorelli.
— Eu vi ele perto do vendedor de maçã caramelada.
— Eu vi ele se balançando no guindaste…
Depois que conseguiu destrinchar aquilo, Lyra ficou sabendo
que Billy tinha sido visto mais de duas horas antes.
— Então, nas últimas duas horas, os Papões estiveram por
aqui…
Todos olharam em volta, estremecendo, apesar do sol quente,
do porto apinhado, do cheiro familiar de alcatrão, cavalos e
folha-de-fumo. O problema era que, já que ninguém sabia como
eram esses Papões, qualquer pessoa podia ser um Papão, como Lyra
declarou ao bando de crianças perplexas, todas elas — as das faculdades
e as gípcias — já agora sob o seu domínio.
— Eles têm que parecer pessoas comuns, senão seriam logo
descobertos — ela explicou. — Se só aparecessem à noite, podiam
ter qualquer aparência. Mas, se aparecem à luz do dia, têm que parecer
gente normal. Então qualquer pessoa aqui pode ser um
Papão…
— Não são, não — disse um gípcio em tom hesitante. — Conheço
elas todas.

— Está certo, não estas aqui, mas qualquer outra — disse Lyra.
— Vamos procurar os Papões! E o caminhão branco também!
Aquilo provocou um estouro de boiada. Outros logo se juntaram
aos primeiros, e, em pouco tempo, havia umas trinta ou mais
crianças gípcias correndo de uma ponta à outra dos ancoradouros,
entrando e saindo dos estábulos, subindo pelos guindastes para dentro
dos pátios, saltando por cima da cerca para junto da margem, 15
crianças ao mesmo tempo agarradas à corda que se usava para
atravessar o rio de águas verdes, e correndo a toda pelas ruas estreitas
de Jericó, por entre as casinhas de tijolos, e entrando no grande oratório
de St. Barnabas, o Químico, com sua torre quadrada. Metade
delas não sabia o que estavam procurando e achava que se tratava
apenas de uma brincadeira, porém as mais próximas a Lyra sentiam
medo e aflição de verdade cada vez que avistavam uma figura solitária
num beco ou na penumbra do Oratório: seria um Papão?
Mas, naturalmente, não era. Finalmente, sem sucesso e com a
sombra do desaparecimento verdadeiro de Billy pesando sobre todo
mundo, o entusiasmo foi desvanecendo. Quando Lyra e os dois jovens
das faculdades saíam de Jericó perto da hora do jantar, viram
os gípcios reunidos no ancoradouro vizinho àquele em que o barco
dos Costa estava atracado. Algumas mulheres choravam em voz alta,
e os homens, furiosos, formavam grupinhos; todos os seus daemons
estavam agitados, erguendo-se em vôos nervosos ou rosnando para
as sombras.
— Aposto que os Papões não teriam coragem de vir aqui —
Lyra disse a Simon Parslow quando os dois atravessavam a soleira
do grande saguão da Jordan.
— Não… — ele concordou com hesitação. — Mas sei que sumiu
uma garota do Mercado.
— Quem?
Lyra conhecia a maioria das crianças do Mercado, mas não tinha
ouvido essa notícia.
— Jessie Reynolds, da selaria. Ontem ela saiu só para buscar
um pedaço de peixe para o chá do pai, mas na hora de fechar ainda
não tinha aparecido. E ninguém viu ela. Procuraram no Mercado
inteiro e em toda parte.

— Ninguém me contou isso! — disse Lyra indignada. Achava
um lapso deplorável de seus súditos não a manterem sempre informada
de tudo.
— Bom, foi ontem que aconteceu. Ela pode já ter aparecido.
— Vou perguntar — disse Lyra, virando-se para tornar a sair.
Mas ainda não tinha passado pelo portão quando o Porteiro a
chamou.
— Venha cá, Lyra! Você não pode sair esta noite. Ordens do
Reitor.
— Por que não?
— Já disse, ordens do Reitor. Ele disse que se você voltasse,
para não sair de novo.
— Então me pegue — ela o desafiou, e saiu correndo.
Atravessou em disparada a rua estreita e entrou no beco onde os
caminhões descarregavam mercadoria para o Mercado Coberto. Sendo
hora de fechar, havia poucos caminhões por ali, mas um grupinho
de jovens fumava e conversava perto da porta central, em frente ao
alto muro de pedra da Faculdade St. Michael’s. Lyra conhecia um deles,
um rapaz de 16 anos, a quem ela admirava porque ele conseguia
cuspir mais longe que qualquer outra pessoa que ela conhecia; foi até
lá e ficou esperando humildemente que ele a percebesse.
— Ei, o que você quer? — ele finalmente perguntou.
— A Jessie Reynolds sumiu?
— Foi. Por quê?
— Porque um menino gípcio sumiu hoje, e tudo.
— Estão sempre sumindo esses gípcios. Depois de toda Feira
de Cavalos eles somem.
— Os cavalos também — comentou um dos amigos dele.
— Mas é diferente — Lyra protestou. — Era um menino. Ficamos
procurando ele a tarde toda, e as outras crianças disseram que
os Papões pegaram ele.
— Os quê?
— Os Papões — ela repetiu. — Nunca ouviu falar dos Papões?
Aquilo era novidade também para os outros rapazes, e, com exceção
de alguns comentários grosseiros, eles escutaram com atenção
o que ela lhes contou.

— Papões… — fez o conhecido de Lyra, cujo nome era Dick.
— Que coisa idiota. Esses gípcios vivem com essas idéias idiotas.
— Disseram que os Papões apareceram em Banbury há poucas
semanas e levaram cinco crianças — Lyra insistiu. — Com certeza,
vieram para Oxford agora para pegar as nossas. Devem ter sido eles
que pegaram a Jessie.
— Sumiu um menino lá para as bandas de Cowley — contou
um dos rapazes. — Agora me lembro. Minha tia, ela veio aqui ontem,
porque vende peixe e batata frita numa barraquinha, e ouviu
contar isso… Um menino pequeno… Mas não sei dessa história de
Papões. Não existem Papões. É só uma história.
— Existem sim! — contestou Lyra. — Os gípcios já viram
eles. Acham que eles comem as crianças que eles pegam e…
Ela parou a frase no meio, porque de repente tinha se lembrado
de uma coisa. Durante aquela noite estranha que ela passara
escondida na Sala Privativa, Lorde Asriel tinha mostrado um slide
de um homem segurando um bastão com jorros de luz entrando
nele; e ao lado do homem havia uma figura pequena com menos
luz em volta; e Lorde Asriel tinha dito que era uma criança; e alguém
perguntara se era uma criança seccionada, e o tio tinha dito
que não, que essa era a questão. Lyra sabia que “seccionada” queria
dizer cortada.
E então uma coisa lhe atingiu o coração: onde estava Roger?
Ela não o via desde de manhã…
De repente ficou com medo. Pantalaimon, como um leão em
miniatura, saltou para os seus braços e grunhiu. Ela se despediu dos
rapazes junto ao portão e caminhou de volta para a rua Turl, depois
correu o mais que podia até a Faculdade Jordan, entrando pela porta
um segundo antes do daemon, agora em forma de leopardo.
O Porteiro mostrou-se severo.
— Tive que ligar para o Reitor e contar a ele — declarou. —
Ele não gostou. Eu não queria estar no seu lugar, mocinha, por dinheiro
nenhum.
— Onde está o Roger? — ela quis saber.
— Não vi. Ele também vai levar. Ah, quando o Sr. Cawston o
pegar…

Lyra correu para a Cozinha e penetrou naquela agitação barulhenta
e fumegante.
— Onde está o Roger? — berrou.
— Some daqui, Lyra! Estamos ocupados!
— Mas onde é que ele está? Você deve saber! — Lyra gritou
para o Chefe da Cozinha, que lhe deu um tapa na orelha e expulsou-
a de lá.
Bernie, o Confeiteiro, tentou acalmá-la, mas não conseguiu.
— Eles pegaram o Roger! Aqueles Papões malditos, alguém devia
pegar e matar eles! Eu odeio eles! Vocês não se importam com o
Roger…
— Lyra, todos nós nos importamos com o Roger…
— Não, porque senão paravam o trabalho e iam procurar por
ele nesse instante! Odeio vocês!
— Podia haver muitos motivos para o Roger ter sumido. Escute
a voz da razão. Temos o jantar para preparar e servir em menos de
uma hora; o Reitor tem convidados na Residência e ele também vai
jantar lá, o que significa que o Chefe da Cozinha vai ter que mandar
a comida para lá bem depressa, para não esfriar; com uma coisa e
outra, Lyra, a vida tem que continuar. Tenho certeza de que o
Roger vai aparecer…
Lyra saiu correndo da Cozinha, derrubando uma pilha de tampas
de bandeja de prata e ignorando o rugido de raiva que isso provocou.
Correndo, desceu os degraus e atravessou o Quadrilátero,
passou entre a Capela e a Torre Palmer’s e entrou no Quadrilátero
Yaxley, onde ficavam os prédios mais antigos da Faculdade.
Pantalaimon corria de um lado para o outro na frente dela
como um leopardo em miniatura e disparou escada acima até o último
andar, onde ficava o quarto de Lyra. A menina abriu a porta de
sopetão, arrastou a cadeira cambaleante para perto da janela, abriu a
persiana e passou para o lado de fora. Logo abaixo da janela havia
uma calha de pedra forrada de chumbo com uns 30 centímetros de
largura, para recolher a água da chuva; de pé sobre ela, Lyra virou-se
e subiu pelas telhas até chegar à cumeeira do telhado. Ali ela abriu a
boca e gritou. Pantalaimon, que sempre se transformava em pássaro

quando estava no telhado, voava em círculos ao redor dela, acompanhando-
a com seu grasnar agudo de gralha.
O céu do final de tarde tingia-se de cores — pêssego, abricó,
creme, delicadas nuvens de sorvete num largo céu alaranjado. As
torres e os campanários de Oxford erguiam-se em volta deles, na
mesma altura; os bosques verdes de Château-Vert e White Ham
mostravam-se a cada lado — um a leste, outro a oeste. Em algum
lugar, havia gralhas grasnando e sinos tocando, e dos Currais dos
Bois as batidas ritmadas de um motor a gás anunciavam a decolagem
diária do zepelim do Correio Real para Londres. Lyra ficou
vendo-o subir acima do campanário da Capela de St. Michael’s, a
princípio do tamanho da ponta do dedo mindinho dela quando ela
estendia o braço, depois ficando cada vez menor, até virar um pontinho
no céu perolado.
Ela virou-se e baixou o olhar para o Quadrilátero envolto em
sombras, onde os Catedráticos, vestindo suas becas pretas, já começavam
a chegar, sozinhos ou aos pares, para a Dispensa, seus
daemons caminhando ou voejando ao lado deles, ou então calmamente
empoleirados em seus ombros. Estavam acendendo as luzes
no Salão; ela via os vitrais da janela começando a brilhar um a um à
medida que um criado percorria o aposento acendendo as lamparinas
sobre as mesas. O sino do Administrador pôs-se a tocar, anunciando
a meia hora antes do jantar.
Aquele era o mundo dela. Ela queria que ele permanecesse a
mesma coisa para sempre, mas ele estava mudando ao seu redor,
pois alguém lá fora estava roubando crianças. Ela se sentou na
cumeeira do telhado, o queixo apoiado nas mãos.
— É melhor irmos socorrer o Roger, Pantalaimon — declarou.
Ele respondeu da chaminé, com sua voz de gralha:
— Vai ser perigoso.
— Claro! Eu sei disso.
— Lembre-se do que eles disseram na Sala Privativa.
— O que foi?
— Alguma coisa sobre uma criança lá no Ártico. Aquela que
não estava atraindo o Pó.
— Disseram que era uma criança completa… E daí?

— Pode ser isso que vão fazer com o Roger, os gípcios e as outras
crianças.
— Como é?
— Bom, o que completa quer dizer?
— Sei lá. Com certeza, cortam elas no meio. Acho que elas viram
escravas. Isso seria mais útil. Com certeza, eles têm minas por
lá. Minas de urânio para as naves atômicas. Aposto que é isso. Se
mandassem adultos para o fundo das minas, eles morreriam, de
modo que usam crianças porque elas são mais baratas. Foi isso que
fizeram com ele.
— Eu acho…
Mas a opinião de Pantalaimon teve que esperar, porque uma
voz que vinha de baixo começou a gritar:
— Lyra! Lyra! Desça daí neste instante!
Alguém batia na janela. Lyra reconheceu a voz e a impaciência:
era a Sra. Lonsdale, a Governanta. Impossível esconder-se dela!
De rosto tenso, Lyra escorregou pelo telhado até a calha e tornou
a entrar pela janela. A Sra. Lonsdale estava enchendo de água
uma pequena bacia descascada, com o acompanhamento de gemidos
e batidas que o sistema hidráulico produzia.
— Quantas vezes já lhe disseram para não ir ao telhado… Veja
o seu estado! Veja esta saia: está imunda! Tire a roupa imediatamente
e se lave enquanto eu procuro alguma coisa decente que não esteja
rasgada. Não sei por que você não consegue ficar limpa e
arrumada…
Lyra estava deprimida demais até para perguntar por que tinha
que se lavar e se vestir, e nenhum adulto fornecia uma razão por iniciativa
própria. Ela puxou o vestido pela cabeça e deixou-o cair sobre
a cama estreita, e pôs-se a se lavar com má vontade enquanto
Pantalaimon, agora um canário, saltava cada vez mais para perto do
daemon da Sra. Lonsdale, um impassível cão de caça, tentando em
vão implicar com ele.
— Veja o estado deste guarda-roupa! Faz semanas que você
não pendura um vestido! Veja como este está amassado…
Veja isso, veja aquilo… Lyra não queria ver. Ela fechou os olhos
enquanto esfregava o rosto com a toalha fina.

— Vai ter que usar este assim mesmo. Não dá tempo de passar.
Deus me perdoe, menina, veja os seus joelhos, veja o estado deles…
— Não quero ver nada — Lyra resmungou.
A Sra. Lonsdale deu-lhe um tapa na perna.
— Lave — ordenou com ferocidade. — Tire toda esta sujeira.
— Por quê? — Lyra finalmente perguntou. — Eu nunca lavo
os joelhos. Ninguém vai olhar para os meus joelhos. Por que tenho
que fazer isso tudo? A senhora também não liga para o Roger, igual
ao Cozinheiro Chefe. Eu sou a única que…
Outro tapa, na outra perna.
— Chega dessa bobagem. Sou uma Parslow, como a mãe do
Roger. Ele é meu primo em segundo grau. Aposto que não sabia
disso, porque aposto que você nunca perguntou, Srta. Lyra. Aposto
que isso nunca lhe passou pela cabeça. Não me acuse de não gostar
do menino. Deus sabe que eu gosto até mesmo de você, que me dá
poucos motivos para isso e nenhuma gratidão.
Ela pegou a flanela e esfregou os joelhos de Lyra com tanta força
que deixou a pele rosada e ardendo, porém limpa.
— O motivo disso é que você vai jantar com o Reitor e os convidados
dele. Peço a Deus que você se comporte. Fale somente
quando falarem com você, seja discreta e educada, sorria e nunca
diga “Sei lá” quando lhe perguntarem alguma coisa.
Ela enfiou o melhor vestido de Lyra no corpo magro da menina,
ajeitou-o, pescou na confusão de uma gaveta uma fita vermelha
e escovou os cabelos dela com uma escova de cerdas duras.
— Se tivessem me avisado antes, eu podia ter lavado os seus cabelos.
Bom, é uma pena. Tomara que não olhem muito de perto…
Pronto. Agora sente-se direito. Onde estão aqueles sapatos bons, de
verniz?
Cinco minutos mais tarde, Lyra estava batendo na porta da Residência
do Reitor, a casa imponente e um pouco lúgubre que se
abria para o Quadrilátero Yaxley e dava fundos para o Jardim da Biblioteca.
Pantalaimon, que por polidez se transformara num arminho,
esfregou-se na perna dela. A porta foi aberta por Cousins, criado
do Reitor e velho inimigo de Lyra; mas ambos sabiam que aquilo
era uma trégua.

— A Sra. Lonsdale disse para eu vir — Lyra explicou.
— Sim — fez Cousins, pondo-se de lado. — O Reitor está na
Sala de Estar.
Ele a levou para o aposento amplo que dava para o Jardim da
Biblioteca. Os últimos raios de sol ali entravam através do vazio entre
a Biblioteca e a Torre Palmer’s, e iluminava os quadros pesados e
a prataria severa que o Reitor colecionava. Iluminava também os
convidados, e Lyra entendeu por que não iam jantar no Salão: três
deles eram mulheres.
— Ah, Lyra! Que bom que pôde vir! — exclamou o Reitor. —
Cousins, arranje uma coisa que ela possa beber. Dama Hannah,
acho que não conhece Lyra… A sobrinha de Lorde Asriel, a senhora
sabe.
Dama Hannah Relf, Diretora de uma das faculdades femininas,
era uma senhora de cabelos grisalhos cujo daemon era um
sagüi. Lyra cumprimentou-a com toda educação e depois foi apresentada
aos outros convivas, que eram, como Dama Hannah, estudiosos
de outras Faculdades e bastante desinteressantes. Então o
Reitor chegou ao último convidado.
— Sra. Coulter, esta é a nossa Lyra. Lyra, venha cumprimentar
a Sra. Coulter.
— Olá, Lyra — disse a Sra. Coulter.
Era linda e jovem. Os cabelos negros e lisos emolduravam o
rosto dela, e seu daemon era um macaco dourado.

—–
+ Veja também:

Anúncios