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Livro: O Portal do Corvo
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– 1º Capítulo –

O Armazém

Matt Freeman sabia que estava cometendo um erro.
Estava sentado num muro baixo do lado de fora da Estação Ipswich, usando um agasalho cinza com capuz, jeans velhos e desbotados e tênis com cadarços puídos. Eram seis da tarde e o trem de Londres tinha acabado de chegar. Atrás dele passageiros lutavam para sair da estação. A rua era um emaranhado de carros, táxis e pedestres, todos tentando encontrar o caminho de casa. Um sinal de trânsito passou de vermelho para verde, mas nada se mexeu. Alguém se apoiou na buzina, e o ruído explodiu, atravessando o ar úmido da tarde. Matt ouviu e levantou a cabeça brevemente. Mas a multidão não significava nada. Ele não fazia parte. Nunca fizera — e algumas vezes achava que nunca faria.
Dois homens de guarda-chuva passaram e o olharam com reprovação. Provavelmente acharam que não estava envolvido com coisa boa. O modo como se sentava — curvado para a frente com os joelhos separados — o fazia parecer meio perigoso e mais velho do que 14 anos. Tinha ombros largos, corpo bem desenvolvido e musculoso, olhos azuis luminosos e inteligentes. O cabelo era preto, bem curto. Dali a cinco anos poderia ser jogador de futebol, modelo ou, como muitos outros, as duas coisas.
Seu nome era Matthew, mas ele sempre se chamava de Matt. Quando os problemas passaram a se multiplicar na vida, tinha começado a usar o sobrenome cada vez menos, até que, um dia, não fazia mais parte dele. Freeman era o sobrenome na ficha da escola e na lista dos que matavam aula. E era um nome bem conhecido pelo serviço social da região. Mas Matthew nunca o escrevia e raramente o pronunciava. “Matt“ era suficiente. O nome lhe servia. Afinal de contas, desde que podia se lembrar, as pessoas vinham passando por cima dele.
Olhou os dois homens com guarda-chuva atravessarem a ponte e desaparecerem na direção do centro da cidade. Matt não havia nascido em Ipswich. Fora levado para lá e odiava tudo no local. Para começar, não era uma cidade. Era pequena demais. Porém não tinha o charme de um vilarejo ou de uma cidade-mercado. Na verdade não passava de um grande shopping center, com as mesmas lojas e supermercados que se viam em todos os outros lugares. Não tinha nem um time de futebol decente. Dava para nadar na Piscina Crown ou assistir aos filmes no multiplex. Se você pudesse pagar, havia ainda uma pista de esqui artificial e uma de kart. Mas só isso.
Matt estava com apenas três libras no bolso, economizadas de suas entregas de jornais. Havia mais vinte libras em casa, escondidas numa caixa embaixo da cama. Precisava de dinheiro pelo mesmo motivo de todos os outros adolescentes de Ipswich. Não só porque seus tênis estavam caindo aos pedaços e porque os jogos de seu Xbox estavam seis meses desatualizados. Dinheiro era poder. Dinheiro era independência. Ele não tinha ganhado nenhum e estava aqui esta noite porque queria um pouco.
Mas já desejava não ter vindo. Era errado. Era idiota. Por que tinha concordado?
Olhou o relógio. Seis e dez. Tinham combinado se encontrar às quinze para as seis. Bem, era uma desculpa suficiente. Desceu do muro e começou a andar, atravessando a frente da estação. Tinha dado apenas alguns passos quando outro garoto, mais velho, apareceu do nada, bloqueando seu caminho.
— Está indo embora, Matt? — perguntou o garoto.
— Achei que você não vinha.
— Ah, é? E por que achou isso?
Porque você está 25 minutos atrasado. Porque estou com frio. Porque você é quase tão confiável quanto o ônibus do bairro. Era isso que Matt queria dizer. Mas as palavras não saíram. Ele apenas deu de ombros.
O outro garoto sorriu. Seu nome era Kelvin e ele tinha 17 anos. Era alto, magro, com cabelos claros, pele pálida e espinhas. Vestia roupas caras, um jeans de marca e jaqueta de couro macio. Mesmo quando estava na escola, Kelvin sempre usava as melhores roupas.
— Fiquei preso — disse ele.
Matt não disse nada.
— Você não amarelou, não é?
— Não.
— Não precisa se preocupar, Matt, meu chapa. Vai ser fácil. O Charlie disse…
Charlie era o irmão mais velho de Kelvin. Matt não o conhecia, o que não era de surpreender. Charlie estava na prisão,numa instituição para jovens infratores perto de Man­chester. Kelvin não falava muito sobre ele. Mas Charlie é que tinha ouvido falar primeiro sobre o armazém.
Ficava a 15 minutos da Estação Ipswich, numa área industrial. Um armazém atulhado de CDS, videogames e DVDs. Espantosamente não tinha sistemas de alarme e havia apenas um segurança, um policial aposentado que ficava cochilando a maior parte do tempo, com os pés para cima e a cabeça enfiada num jornal. Charlie sabia tudo isso porque um amigo dele tinha ido lá fazer um serviço de eletricidade. Segundo Charlie, dava para invadir o lugar usando um clipe de papel amassado e provavelmente sair com umas duzentas pratas em equipamentos. Era moleza, um serviço que só estava esperando por alguém.
Por isso os dois tinham combinado se encontrar aqui. Matt concordou com a idéia quando conversaram a respeito, mas metade dele achou que Kelvin não estava falando sério. Os dois haviam feito muitas coisas juntos. Sob orientação de Kelvin, tinham roubado coisas em supermercados. Uma vez tinham fugido no carro de alguém. Mas Matt sabia que isso era muito pior. Era sério. Era invasão de propriedade. Roubo. Crime verdadeiro.
— Tem certeza? — perguntou finalmente.
— Claro que tenho. Qual é o problema?
— Se apanharem a gente…
— Não vai acontecer. Charlie disse que eles nem têm câmeras de circuito interno. — Kelvin apoiou um dos pés no muro. Matt notou que ele estava usando tênis Nike novos em folha. Freqüentemente perguntava-se como Kelvin podia comprar aquelas roupas. Agora achava ter descoberto. — Qual é, Matt! — continuou Kelvin. — Se vai bancar o otário não sei se quero andar com você. Qual é a encrenca?
Um ar de exasperação tomara o rosto de Kelvin. Neste momento, Matt percebeu que teria de ir. Se não fosse, perderia o único amigo. Quando entrara para a escola St Edmund’s Comprehensive, em Ipswich, Kelvin lhe dera proteção. Alguns garotos achavam Matt esquisito. Outros tinham tentado pegar no pé dele. Kelvin tinha ajudado a mantê-los a distância. E como a casa de Kelvin era pertinho de onde Matt morava com a tia e o companheiro dela, em Eastfield Terrace, isso ajudava muito. Quando as coisas ficavam ruins de verdade, sempre havia aonde ir. E ele precisava admitir que era lisonjeiro andar com um cara três anos mais velho.
— Não tem encrenca — respondeu Matt. — Eu vou.
E foi isso. A decisão estava tomada. Matt tentou sufocar a sensação de medo crescente. Kelvin lhe deu um tapa nas costas. Os dois partiram juntos.
A escuridão chegou muito depressa. Era fim de março, mas praticamente não havia sinal da primavera. Tinha chovido forte o mês inteiro e a noite ainda parecia começar antes da hora. Quando chegaram à área industrial as lâmpadas das ruas se acenderam, lançando focos de uma desagradável luz laranja no chão. A área era cercada e tinha placas alertando que se tratava de propriedade particular, mas a cerca estava enferrujada e cheia de buracos, e a única outra barreira era o capim e os espinheiros que brotavam ao redor, onde o asfalto acabava. Trilhos de trem se estendiam acima, sobre uma série de pilastras de tijolos, e enquanto os dois garotos se aproximavam em silêncio, esgueirando-se entre as sombras, uma composição passou chacoalhando ruidosamente a caminho de Londres.
Ao todo, havia cerca de uma dúzia de construções. Algumas tinham anúncios pintados na lateral. C de Couro Móveis de Escritório. J. B. Strkyer Engenharia Automotiva. Spit & Polish Limpeza Industrial. O armazém de Kelvin não tinha qualquer marca. Era um comprido bloco retangular com paredes de aço corrugado e teto inclinado de telhas. Fora construído ligeiramente separado dos vizinhos e estava isolado por uma fileira de pilhas de garrafas e montes de caixas de papelão e pneus velhos. Não havia ninguém à vista. Toda a área parecia deserta e esquecida.
A entrada principal do armazém — uma grande porta deslizante — ficava na frente. Não havia janelas, mas Kelvin guiou Matt até uma segunda porta na lateral. Agora os dois estavam agachados, movendo-se pela escuridão nas pontas dos pés. Matt tentou relaxar, curtir o que estavam fazendo. Era uma aventura, não era? Dali a uma hora estariam rindo, com os bolsos cheios de grana. Mas estava inquieto. Quando Kelvin enfiou a mão no bolso e pegou um canivete, seu estômago se apertou e ele se sentiu ainda pior.
— Para que é isso? — sussurrou.
— Não se preocupe. É só para a gente entrar.
Kelvin enfiou a ponta da lâmina na fenda entre a porta e o portal e começou a forçar a lingüeta da fechadura. Matt ficou olhando sem dizer nada, torcendo secretamente para que a porta não se abrisse. A tranca parecia bem firme, e de algum modo era improvável que um garoto de 17 anos pudesse abri-la com uma coisa tão impiedosa quanto um canivete. Mas então houve um estalo. A luz espalhou-se para fora quando a porta se abriu. Kelvin recuou e Matt viu que ele estava igualmente surpreso, mesmo tentando não demonstrar.­
— Estamos dentro — disse.
Matt concordou com a cabeça. Por um momento imaginou se Charlie não estaria certo, afinal de contas. Talvez isso fosse tão fácil quanto Kelvin tinha dito.
Passaram pela porta.
Dentro, o armazém era gigantesco — muito maior do que Matt esperava. Quando Kelvin tinha falado do lugar, ele imaginou algumas estantes com DVDs e o resto do espaço vazio. Mas aquilo parecia não ter fim, com centenas e centenas de prateleiras numeradas e divididas em corredores que formavam um complexo sistema de grades, tudo iluminado por um sem-número de lâmpadas industriais penduradas por correntes. E, além dos jogos e DVDs, havia caixas de equipamento de informática, Gameboys, aparelhos de MP3 e até celulares, tudo embrulhado em plástico, pronto para as lojas.
Matt levantou os olhos. Não havia câmeras de segurança — exatamente como Kelvin dissera.
— Vá por ali — apontou Kelvin. — Pegue as coisas pequenas e caras. Encontro você aqui.
— Por que não ficamos juntos?
— Não se preocupe, Mattzinho. Não vou embora sem você!
Os dois se separaram. Matt se viu num corredor estreito com DVDs dos dois lados. Tom Cruise, Johnny Depp, Brad Pitt… todos os rostos familiares nos filmes mais recentes estavam ali. Estendeu a mão e pegou um punhado, sem mesmo olhar o que era. Tinha certeza de que havia coisas mais caras no armazém, mas não se importou. Só queria ir embora.
Tudo deu errado ao mesmo tempo.
Começou com um cheiro que subitamente invadiu sua narina, tomando conta do ambiente, vindo de lugar nenhum.
Cheiro de torrada queimada.
E uma voz. Venha, Matthew. Vamos nos atrasar.
Um clarão colorido. Uma parede amarela e luminosa. Armário de pinho. Um bule de chá na forma de um urso de brinquedo.
O cheiro lhe indicava que havia algo errado do mesmo modo que um cão costuma latir antes que o perigo apareça de verdade. Matt sabia que aquilo era estranho, mas nunca havia realmente questionado. Era uma habilidade, uma espécie de instinto. Um alerta. Só que desta vez tinha vindo tarde demais. Antes que ele soubesse o que estava acontecendo, uma mão pesada apertou seu ombro, girando-o, e uma voz exclamou:
— Que diabo você acha que está fazendo?
Matt sentiu os braços enfraquecerem e os DVDs esparramarem-se no chão, fazendo barulho ao redor de seus pés. De repente, estava diante do rosto de um segurança, nada parecido com o velho idiota que Kevin tinha descrito. Era um homem alto, sério, usando uniforme preto e prata com um transmissor de rádio preso a uma espécie de coldre no peito. Tinha uns cinqüenta anos, mas parecia em forma, como um jogador de rúgbi.
— A polícia já está vindo — disse ele. — Você disparou o alarme quando abriu a porta. Não tente nenhuma gracinha…
Matt não conseguia se mexer. Estava chocado demais com o aparecimento do guarda. Seu coração martelava no peito, tornando difícil respirar. De repente estava se sentindo apenas um garotinho de novo.
— Qual é o seu nome? — perguntou o guarda.
Matt ficou quieto.
— Você está sozinho? — Desta vez a voz foi um pouco mais gentil. Ele devia ter visto que Matt não representava ameaça. — Quantos de vocês estão aí?
Matt respirou fundo.
— Eu…
E então, como se um interruptor tivesse sido acionado e o mundo inteiro fosse posto para girar, o verdadeiro horror teve início.
O corpo do guarda se esticou bruscamente, os olhos se arregalando, a boca se abrindo. Ele soltou Matt e começou a cair de lado. Matt olhou para além do homem e viu Kelvin imóvel, com um sorriso no rosto. A princípio não entendeu o que tinha acontecido. Então viu o cabo do canivete se projetando das costas do guarda, logo acima da cintura. O segurança não parecia ferido. Apenas surpreso. Dobrou-se lentamente para baixo e apoiou-se nos joelhos. Em seguida tombou para a frente, caindo no chão, e ficou imóvel.
Toda uma eternidade pareceu se passar. Matt estava congelado. Sentiu que algo o sugava para uma espécie de buraco negro. Então Kelvin o agarrou.
— Temos de andar… — disse ele.
— Kelvin…? — Matt lutou para recuperar o controle. — O que você fez? — perguntou em voz baixa. — Por que teve de fazer isso?
— O que mais eu podia fazer? Ele tinha visto você.
— Sei que ele tinha me visto. Mas não precisava dar uma facada no cara! Sabe o que você fez? Sabe o que…?
Matt estava mudo, horrorizado, e antes de cair em si, já tinha se jogado sobre Kelvin, lançando-o contra uma estante. Kelvin se recuperou depressa. Era maior e mais forte do que Matt. Dobrou-se para a frente e disparou um soco na lateral da cabeça de Matt, que caiu para trás, atordoado.
— O que está acontecendo com você, Matt? — rosnou Kelvin. — Qual é o problema?
— É você! Não precisava ter feito isso! Deve ter pirado de vez!
A cabeça de Matt girava. Ele não sabia o que dizer.
— Eu só estava pensando em você, cara. — Kelvin apontou um dedo. — Só fiz isso por você.
O guarda gemeu. Matt se obrigou a olhar para baixo. O sujeito continuava vivo. Mas estava deitado numa poça de sangue que parecia aumentar a cada segundo.
— Vamos! — gritou Kelvin.
— Não. Não podemos deixar esse cara assim.
— O quê?
— Cadê o seu celular? Temos de pedir ajuda…
— Está louco! — Kelvin passou a língua nos lábios. — Fique, se quiser. Eu estou indo.
— Você não pode fazer isso!
— Não? Então olha só!
E então ele se foi, desaparecendo pelo corredor. Matt o ignorou. O segurança gemeu pela segunda vez e tentou dizer alguma coisa. Sentindo um enjôo, Matt se agachou ao lado dele e pôs a mão em seu braço.
— Não se mexa — disse. — Vou pedir ajuda.
Mas a ajuda já havia chegado. Matt escutou as sirenes segundos antes que o som de pneus anunciasse a chegada da polícia. A corrida até o armazém devia ter começado no instante em que Kelvin arrombara a porta. Deixando o guarda, Matt se levantou e foi para a saída. Toda uma seção da parede deslizou de lado subitamente. Podia ver o armazém inteiro e olhar para a escuridão lá fora, onde as luzes azuis piscavam sem parar. Havia três carros parados na entrada. Um jogo de luzes de teto se acendeu e um facho ofuscante disparou pela escuridão e se cravou em seus olhos. Ao mesmo tempo, meia dúzia de policiais — não mais do que silhuetas — foi em sua direção. Dava para ver que todos usavam equipamentos de proteção. Alguns seguravam armas.
Já haviam apanhado Kelvin. Matt o viu sendo levado pela entrada, entre dois homens muito maiores do que ele. Estava reclamando e gritando. Ao ver Matt, virou-se de repente e apontou.
— Não fui eu! — gritou numa voz aguda e gemida. — Foi ele! Ele me obrigou a vir! E matou o guarda!
— Não se mexa! — gritou alguém, quando dois outros homens foram na direção de Matt.
Matt ficou onde estava. Lentamente ergueu os braços. As mãos foram torcidas às costas e algemadas. Ouviu o estalo de metal e soube que não havia o que fazer. Então foi arrancado do chão e arrastado para a noite, quieto e sem resistir.

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