O País da Megadiversidade

por João Paulo Capobianco

A biodiversidade é a grande riqueza nacional. Os autores de livros escolares que gostam de exaltar a dimensão continental do Brasil, a riqueza de suas jazidas minerais ou a pujança do parque industrial brasileiro, ainda não perceberam o quanto poderiam se vangloriar da enorme diversidade biológica do País. Só na Amazônia existem 55 mil espécies de plantas, 428 de mamíferos, 1.622 de aves, 467 de répteis e 516 de anfíbios.

Numa comparação com outros países da América do Sul, o Brasil é o primeiro colocado em número de espécies de mamíferos, répteis e anfíbios. Em termos de espécies endêmicas, ou seja, que não podem ser encontradas em nenhum outro lugar do planeta, o País é campeão também em aves. Em termos mundiais, o País ocupa o primeiro lugar em anfíbios, terceiro em aves e quarto em mamíferos e répteis.

Estes números constam da Global Diversity – Status of the Earth’s Living Resources, a mais importante obra sobre o tema, publicada em 1992 pelo World Conservation Monitoring Centre, em cooperação com diversas outras instituições.

Como o Brasil ainda conhece muito pouco sua biodiversidade e novas espécies continuam sendo descobertas, a tendência é de que alcance uma posição ainda melhor no ranking internacional. Trabalhos mais recentes indicam que o País é o segundo do mundo em número de espécies de mamíferos.

A enorme diversidade biológica brasileira é uma decorrência da dimensão continental do País e de sua localização na região tropical do globo terrestre, onde a vida encontrou as melhores condições para se diversificar. Os ecossistemas reúnem mais de 10% das cerca de 1,4 milhão de espécies vivas já descritas pela ciência.

Estes números, entretanto, parecem ser considerados pouco importantes para os brasileiros. O ritmo impressionante com que está se destruindo os ambientes naturais, que têm como símbolos mais trágicos a Mata Atlântica e o Cerrado, ameaça destruir o que parece ser a galinha dos ovos de ouro do País.

Novas espécies estão sendo descobertas e imediatamente consideradas ameaçadas de extinção. São os casos, entre muitos outros, do mico-leão-caissara e do bicudinho-do-brejo, recentemente descobertos no litoral paranaense. Outras espécies estão no limiar da extinção. Caso da ararinha-azul, cujo último exemplar em liberdade é alvo de um dos mais fantásticos projetos de mobilização popular para conservação em desenvolvimento no País. Outras, ainda, infelizmente não serão descobertas antes de serem extintas. Nossa ignorância não é apenas quanto ao número de espécies, mas, também, quanto ao papel que desempenham nos ecossistemas naturais e o potencial de uso para o homem.

Os estudos nesta área são novos e ainda incipientes, mas já são capazes de mostrar que espécies, aparentemente de pouco valor, podem ter utilidade inimaginável. São centenas de casos, entre os quais muitos inusitados, como a possibilidade da fruta-do-lobo contribuir para a produção de diversos medicamentos, a hortelã ser usada no combate à esquistossomose, o caju, na cura do câncer e os fungos, na produção de ração para animais, além do abacaxi gigante, recém-descoberto na Amazônia, e de tantos outros exemplos que demonstram que o uso da biodiversidade pode ser a chave para um futuro mais promissor. Desde que saibamos preservá-la.

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