Foto Pics Mentiras no Diva Irvin D Yalom Capitulo LivroPrimeiro Capítulo: Mentiras no Divã | Irvin D. Yalom

Livro: Mentiras no Divã
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– 1º Capítulo –

Ernest adorava ser psicoterapeuta. Dia após dia, os pacientes o convidavam a entrar nos recantos mais íntimos de suas vidas. Dia após dia, ele os confortava, cuidava deles, aliviava seu desespero. E, em troca, eles o admiravam e o tratavam com carinho. Também pagavam bem, embora, Ernest muitas vezes pensava, se não precisasse do dinheiro, ele faria psicoterapia de graça. Feliz é aquele que ama seu trabalho. Ernest sentia-se um felizardo, claro. Mais que felizardo. Abençoado. Era um homem que tinha encontrado sua vocação, um homem que poderia dizer: estou exatamente no lugar ao qual pertenço, no turbilhão dos meus talentos, meus interesses, minhas paixões.
Ernest não era religioso. Mas toda manhã, quando abria sua agenda e via os nomes de oito ou nove pessoas queridas com quem passaria o dia, sentia-se dominado por um sentimento que só conseguia descrever como religioso. Nestes momentos, tinha o mais profundo desejo de agradecer a alguém, a alguma coisa por tê-lo conduzido até sua vocação.
Havia manhãs em que ele olhava para o alto, do outro lado da clarabóia de seu prédio vitoriano na rua Sacramento, atravessando a névoa matutina, e imaginava os antecessores da psicoterapia suspensos no raiar do dia.
— Obrigado, obrigado — ele entoava. Agradecia a todos eles, a todos os curadores que tinham se ocupado do desespero. Primeiro, os precurssores, seus perfis celestiais quase invisíveis: Jesus, Buda, Sócrates. Abaixo deles, um pouco mais nítidos, os grandes progenitores: Nietzsche, Kierkegaard, Freud, Jung. Mais perto ainda, os avós dos terapeutas: Adler, Horney, Sullivan, Fromm e o doce rosto sorridente de Sandor Ferenczi.
Alguns anos atrás, eles responderam ao seu grito de agonia, quando, depois de sua residência, ele se viu numa fileira cerrada na companhia de todos os jovens e ambiciosos neuropsiquiatras e se dedicou às pesquisas em neuroquímica — a face do futuro, a arena dourada da oportunidade pessoal. Os antecessores sabiam que ele estava perdido. Não pertencia a laboratório científico. Nem à prática psicofarmacológica de prescrição de remédios. Eles enviaram uma mensagem — um debochado mensageiro de poder — para oferecer a travessia que o conduziria ao seu destino. Até hoje, Ernest não sabia como tinha decidido tornar-se terapeuta. Mas lembrava quando.
Lembrava-se do dia com uma assombrosa clareza. Lembrava-se também do mensageiro: Seymour Trotter, um homem que só viu uma única vez, que mudou sua vida para sempre.
Seis anos antes, o chefe do departamento de Ernest o tinha nomeado para trabalhar por um mandato no Comitê de Ética Médica do Hospital Stanford, e a primeira ação disciplinar de Ernest foi o caso do dr. Trotter. Seymour Trotter, de 71 anos de idade, era um patriarca da comunidade de psiquiatria e ex-presidente da Associação Americana de Psiquiatria, a APA. Fora acusado de má conduta sexual com uma paciente de 32 anos.
Naquela época, Ernest era professor assistente de psiquiatria que tinha terminado a residência há apenas quatro anos. Pesquisador de neuroquímica em tempo integral, era inteiramente inexperiente no mundo da psicoterapia — inexperiente demais para saber que ele tinha sido designado a este caso porque ninguém mais queria ter qualquer contato com isso: todo psiquiatra mais experiente do norte da Califórnia venerava e temia Seymour Trotter. Ernest escolheu um austero escritório administrativo do hospital para a entrevista e tentou parecer oficial, olhando o relógio enquanto aguardava o dr. Trotter, a pasta com os documentos da queixa na mesa à sua frente, fechada.
Para manter-se imparcial, Ernest tinha decidido entrevistar o acusado sem nenhum conhecimento prévio e, portanto, ouvir a história dele sem preconceitos.
Leria o arquivo mais tarde e agendaria um segundo encontro, se necessário.
No presente momento, ele ouvia o som de batidas ecoando pelo corredor.
Seria o dr. Trotter cego? Ninguém o tinha preparado para isso. As batidas, acompanhadas de um arrastar de pés, se aproximavam cada vez mais. Ernest levantou-se e saiu até o corredor.
Não, não cego. Coxo. O dr. Trotter cambaleava pelo corredor, equilibrava-se desconfortavelmente entre duas bengalas. Vergava-se na cintura e segurava as bengalas bem separadas uma da outra, com os braços quase na horizontal.
As maçãs do rosto e o queixo, belos e vigorosos, ainda se sustentavam, mas todo o terreno mais mole tinha sido colonizado por rugas e placas senis.
Dobras profundas da pele pendiam do pescoço e tufos de pêlos brancos se projetavam das orelhas. Ainda assim, a idade não tinha subjugado este homem — algo de jovem, mesmo de menino, sobrevivia. O que era? Talvez seus cabelos, grisalhos e grossos num corte à escovinha, ou quem sabe seu traje, uma jaqueta azul de jeans cobrindo um suéter branco de gola alta. Eles se apresentaram junto à porta. O dr. Trotter entrou na sala com alguns passos vacilantes, ergueu repentinamente as bengalas, girou vigorosamente e, como se pelo mais puro acaso, fez uma pirueta pousando em seu assento.
— Na mosca! Peguei-o de surpresa, hein? Ernest não se deixaria distrair.
— O senhor sabe qual é a finalidade desta entrevista, dr. Trotter, e entende por que a estou gravando?
— Ouvi dizer que a administração do hospital está pensando em me indicar para o prêmio de Trabalhador do Mês.
Ernest, olhando fixamente sem piscar através dos grandes óculos, nada disse.
— Desculpe, sei que o senhor tem um trabalho a fazer, mas, quando a gente já passou dos 70 anos, ri à toa com gracejos desse tipo. Sim, senhor, 71 anos
na semana passada. E quantos anos tem, doutor…? Esqueci seu nome. — A cada minuto — disse ele enquanto dava batidinhas na têmpora —, uma dúzia de neurônios corticais zumbem como moscas agonizantes. A ironia é que publiquei quatro artigos sobre Alzheimer, e naturalmente esqueci onde, mas em bons periódicos científicos. Sabia disso?
Ernest meneou a cabeça.
— Bom, o senhor nunca soube e eu esqueci. Isto nos torna iguais. Sabe quais as duas coisas boas do Alzheimer? Os velhos amigos se tornam novos amigos e você pode esconder seus próprios ovos de Páscoa.
Apesar da irritação, Ernest não conseguiu evitar o sorriso.
— Seu nome, idade e convicções.
— Sou dr. Ernest Lash, e talvez o resto não seja pertinente neste momento, dr. Trotter. Temos muito terreno a cobrir hoje.
— Meu filho tem 40 anos. O senhor não deve ter mais que isso. Sei que fez residência em Stanford. Ano passado, assisti a uma palestra sua nos grandes ciclos de seminários. Saiu-se bem. Apresentação bem lúcida. Hoje tudo é psicofármaco, não é? Que tipo de estágio prático em psicoterapia vocês estão fazendo hoje em dia? Chegam a fazer algum?
Ernest tirou o relógio do pulso e colocou sobre a mesa.
— Numa outra ocasião, terei prazer em lhe enviar uma cópia do currículo da residência em Stanford, mas, por ora, passemos ao assunto em questão, dr. Trotter. Talvez fosse melhor se o senhor me contasse sobre a sra. Felini à sua própria maneira.
— Tá, tá, tá. O senhor me quer sério. Quer que eu lhe conte a minha versão.
Sente-se, garoto, e vou lhe contar uma história. Começaremos pelo começo.
Foi cerca de quatro anos atrás — pelo menos quatro anos atrás… Arquivei em algum lugar errado todos os meus prontuários desta paciente… qual data era dada segundo a sua ficha de acusação? O quê? Você não a leu. Preguiça? Ou está tentando evitar um viés não-científico?
— Por favor, dr. Trotter, continue.
— O primeiro princípio da arte de entrevistar é forjar um ambiente cordial, confiável. Agora que o senhor já o conseguiu com tanta astúcia, sinto-me muito mais à vontade para falar sobre o material doloroso e constrangedor.
Ah… isto o atingiu. Precisa ter cuidado comigo, dr. Lash, tenho quarenta anos de prática na leitura de rostos. Sou muito bom nisso. Mas, se o senhor já acabou com as interrupções, vou começar. Pronto?
Anos atrás, digamos uns quatro anos, uma mulher, Belle, entra, ou talvez eu devesse dizer, se arrasta para dentro do meu consultório, ou se introduz num rastejo — rastejo, isso é melhor. Existe essa palavra, rastejo? Entre 30 e 40 anos, de uma família abastada — suíço-italiana —, deprimida, usando uma blusa de mangas longas em pleno verão. Uma automutiladora, obviamente, os pulsos com cicatrizes. Se você vir mangas longas em pleno verão, paciente perplexa, sempre pense em pulsos cortados e injeções de drogas, dr. Lash.
Bem-apessoada, ótima pele, olhos sedutores, elegantemente vestida. Classuda, mas em vias de descompensar.
“Longa história de autodestruição. Tudo que você consiga imaginar: drogas, experimentou de tudo, não deixou passar nenhuma. Na primeira vez que a vi, ela estava de volta ao álcool e usando um pouco de heroína. Ainda não estava realmente viciada. Não sei por que, ela não tinha o dom para isso, algumas pessoas gostam disso, mas ela estava trabalhando nisso. Transtorno de alimentação, também. Principalmente anorexia, mas purgação bulímica ocasionalmente. Já mencionei as mutilações, muitas delas, de cima a baixo nos dois braços e pulsos — gostava da dor e do sangue; era a única hora em que se sentia viva. Você ouve os pacientes dizerem isso o tempo todo. Meia dúzia de internações em hospital; breves. Ela sempre recebia alta em um dia ou dois. O pessoal do hospital fazia festa quando ela ia embora. Ela era boa; um verdadeiro prodígio, no jogo sexual Uproar. Lembra do Jogos da vida de Eric Berne? Não?
Imagino que seja de antes da sua época. Deus, sinto-me velho. Bom material.
Berne não era estúpido. Leia-o; não deve ser esquecido.
“Casada, sem filhos. Recusava-se a tê-los, dizia que o mundo era um lugar horripilante demais para infligir às crianças. Bom marido, relacionamento em frangalhos. Ele queria muito ter filhos e tiveram muitas brigas sobre o assunto.
Era um banqueiro de investimentos, como o pai dela, sempre viajando. Depois de alguns anos de casamento, sua libido acabou ou talvez tenha sido canalizada para ganhar dinheiro. Ganhou um bom dinheiro, mas realmente nunca chegou ao auge como o pai dela. Ocupado, ocupado, ocupado, dormia com o computador.
Talvez ele tenha fodido com tudo, quem sabe? Certamente não fodia
Belle. Segundo ela, ele a tinha evitado por anos, provavelmente por ficar furioso com a questão de não ter filhos. Difícil dizer o que os manteve casados. Ele foi criado num lar da Ciência Cristã e recusava sistematicamente a terapia de casais ou qualquer outra forma de psicoterapia. Mas ela admite que nunca insistiu muito. Vejamos. O que mais? Me dê uma dica, dr. Lash.
“A terapia anterior dela?”, continuou o dr. Trotter. “Bom. Pergunta importante.
Sempre pergunto isso nos primeiros trinta minutos. Terapia contínua, ou tentativas de terapia, desde a adolescência. Passou por todos os terapeutas de Genebra e, durante um certo tempo, viajava até Zurique para fazer análise.
Veio fazer faculdade nos Estados Unidos, Pomona, e foi a um terapeuta atrás de outro, muitas vezes para uma única sessão. Insistiu com três ou quatro deles por até alguns meses, mas nunca realmente adotou nenhum. Belle era, e é, muito arrogante. Ninguém é bom o bastante, ou pelo menos ninguém era certo para ela. Algo de errado com todo terapeuta: formal demais, pomposo demais, julgava demais, condescendente demais, exageradamente orientado pelos negócios, frio demais, apressado demais com o diagnóstico, excessivamente orientado por fórmulas. Psicofármacos? Testes psicológicos? Protocolos comportamentais? Esqueça. Bastava que alguém os sugerisse e era imediatamente uma carta fora do baralho. O que mais?
Como ela me escolheu? Excelente pergunta, dr. Lash. O foco cai sobre nós e acelera nosso ritmo. Ainda faremos de você um psicoterapeuta. Tive essa sensação sobre o senhor quando assisti às suas apresentações nos grandes ciclos de seminários. Cabeça boa, incisiva. Esta se revelava à medida que o senhor apresentava os dados. Mas gostei mesmo foi da sua apresentação do caso, em particular, da maneira como o senhor deixava que os pacientes o afetassem.
Vi que tinha todos os instintos certos. Carl Rogers costumava dizer:
Não desperdice seu tempo treinando terapeutas — você gastará melhor o tempo selecionando-os. Sempre achei que havia muita verdade nisso.
Vejamos, onde eu estava? Ah, como ela me pegou? A ginecologista dela, a quem ela adorava, foi uma ex-paciente minha. Disse a ela que eu era um cara normal, não perdia tempo com bobagens e estava disposto a sujar minhas mãos.
Ela me investigou na biblioteca e gostou de um artigo que escrevi 15 anos atrás, discutindo a noção de Jung de inventar uma nova linguagem terapêutica para cada paciente. Conhece esse trabalho? Não? Journal of Orthopsychiatry. Vou te enviar uma separata. Fui mais longe ainda que Jung. Sugeri que inventemos uma nova terapia para cada paciente, que levemos a sério a noção de unicidade de cada paciente e desenvolvamos uma psicoterapia exclusiva para cada um.
Café? É, quero sim. Preto. Obrigado. E foi assim que ela me escolheu. E qual seria a próxima pergunta que o senhor deveria fazer, dr. Lash? Por quenessa ocasião? Precisamente. É essa a pergunta. Sempre uma pergunta muito produtiva a fazer a um novo paciente. A resposta: uma perigosa dramatização sexual. Mesmo ela sabia disso. Sempre fez um pouco dessa coisa, mas estava ficando muito pesado. Imagine dirigir ao lado de furgões ou caminhões em estradas de alta velocidade — perto o bastante para que o motorista visse dentro, e então levantar a saia e se masturbar — a 130 quilômetros por hora. Loucura.
Então, ela pegava a saída seguinte e, se o motorista a seguisse, ela parava, subia na cabina dele e lhe fazia um boquete. Coisa letal. E muito disso. Ficava tão fora de controle que, quando ficava entediada, entrava em algum bar sórdido em San Jose, às vezes de mexicanos, às vezes de negros, e escolhia alguém. Ficar em situações perigosas, cercada por homens desconhecidos, potencialmente violentos, a excitava. E havia o perigo não só dos homens, mas das prostitutas que ficavam ofendidas por ela roubar seus negócios. Elas ameaçavam sua vida e ela tinha de continuar indo de um lugar a outro. E AIDS, herpes, sexo seguro, camisinhas?
É como se nunca tivesse ouvido falar dessas coisas.“Portanto”, prosseguiu, “era mais ou menos assim que Belle estava quando começamos. Pegou o quadro geral? Tem alguma pergunta ou devo continuar?
O.k. Então, de alguma maneira, na nossa primeira sessão, fui aprovado em todos os testes dela. Ela voltou uma segunda e uma terceira vez e começamos o tratamento, duas vezes, às vezes três vezes por semana. Gastei uma hora inteira tirando uma história detalhada do trabalho dela com todos os seus terapeutas anteriores. Essa é sempre uma boa estratégia quando você está examinando um paciente difícil, dr. Lash. Descubra como eles o tratavam e depois tente evitar os erros deles. Esqueça aquela bobagem sobre o paciente não estar pronto para a terapia! É a terapia que não está pronta para o paciente. Mas é preciso ser bem ousado e criativo para moldar uma nova terapia para cada paciente.
Belle Felini não era uma paciente a ser abordada com a técnica tradicional.
Se eu ficasse no meu papel profissional normal, tirando uma história, refletindo, empatizando, interpretando, puf! e ela sumia. Acredite em mim.
Sayonará. Auf Wiedersehen. É o que ela fez com todos os terapeutas com quem já consultou; e muitos deles com uma boa reputação. Você conhece a velha história: a operação foi um sucesso, mas o paciente morreu.
Que técnicas empreguei? Temo que você não tenha entendido meu raciocínio.
Minha técnica é abandonar todas as técnicas! E não estou sendo apenas um espertinho, dr. Lash. É essa a primeira regra de uma boa terapia. E essa deve ser a sua regra também, se o senhor se tornar um terapeuta. Tentei ser mais humano e menos mecânico. Não crio um plano terapêutico sistemático.
Isso não se faz, mesmo depois de quarenta anos de profissão. Simplesmente confio na minha intuição. Mas isto não é justo com o senhor, um principiante.
Imagino, olhando para trás, que o aspecto mais impressionante da patologia de Belle era a sua impulsividade. Ela sente um desejo. Bingo! Ela precisa agir sobre esse desejo. Lembro-me de querer aumentar a tolerância dela à frustração.
Foi esse meu ponto de partida, meu primeiro, talvez meu principal, objetivo na terapia. Vejamos, como começamos? É difícil lembrar o começo, tantos anos atrás, sem as minhas anotações.
Já lhe contei que as perdi. Vejo a dúvida em seu rosto. As anotações sumiram.
Desapareceram quando mudei o consultório há uns dois anos. Você não tem outra escolha senão acreditar em mim.
As lembranças mais importantes que tenho são que, no início, as coisas foram muito melhores do que eu poderia ter imaginado. Não sei bem por que, mas Belle me adotou imediatamente. Não poderia ter sido pela minha aparência. Tinha acabado de fazer a cirurgia de catarata e meu olho estava com uma aparência horrível. E minha ataxia não melhorava meu poder de sedução…é uma ataxia cerebelar familiar, se o senhor quer saber. Sem dúvida progressiva… um andador no meu futuro, mais um ou dois anos, e uma cadeira de rodas em três ou quatro. C’est la vie.
Acho que Belle gostou de mim porque eu a tratava como uma pessoa. Fiz exatamente o que o senhor está fazendo agora, e quero lhe dizer, dr. Lash, que gosto de como o senhor o faz. Não olhei nenhum dos gráficos dela. Fui às cegas, queria ser inteiramente novo. Belle nunca foi um diagnóstico para mim, não era uma personalidade limítrofe, nem um transtorno alimentar, nem um transtorno compulsivo ou anti-social. É como abordo todos os meus pacientes.
E espero que nunca me torne um diagnóstico para o senhor.
O quê, se acho que existe espaço para o diagnóstico? Bem, sei que vocês que estão se formando agora e toda a indústria de psicofármacos vivem pelo diagnóstico. As revistas de psiquiatria estão repletas de discussões sem sentido sobre as nuances do diagnóstico. No futuro, destroços de naufrágio. Sei que é importante em algumas psicoses, mas tem um papel pequeno, na verdade, um papel negativo, na psicoterapia do dia-a-dia. Já pensou sobre o fato de ser mais fácil fazer um diagnóstico na primeira vez que examinamos um paciente e que fica mais difícil quando melhor o conhecemos? Pergunte confidencialmente a qualquer terapeuta, e eles lhe dirão o mesmo! Em outras palavras, a certeza é inversamente proporcional ao conhecimento. Bela ciência, hein?
O que estou lhe dizendo, dr. Lash, não é simplesmente que não fiz um diagnóstico sobre Belle; não pensei em diagnose. Ainda não penso. Apesar do que aconteceu, apesar do que ela fez comigo, ainda não penso. E acho que ela sabia disso. Éramos apenas duas pessoas fazendo contato. E gostei de Belle. Sempre gostei. Gostei muito dela! E ela sabia disso, também. Talvez seja essa a coisa mais importante.
Pois bem, Belle não era uma paciente boa de conversa e de terapia, por nenhum padrão. Impulsiva, orientada por ação, sem curiosidade sobre si mesma, não-introspectiva, incapaz de fazer associação livre. Sempre se saía mal nas tarefas tradicionais da terapia — auto-exame, insight — e, então, se sentia pior consigo mesma. É por este motivo que a terapia sempre fracassava. E é por este motivo que eu sabia que tinha que conquistar sua atenção de outras maneiras. É por isto que tive de inventar uma nova terapia para Belle.
Por exemplo? Bem, deixe-me dar um exemplo do início da terapia, talvez no terceiro ou quarto mês. Eu vinha me concentrando no seu comportamento sexual autodestrutivo e perguntando-lhe sobre o que ela realmente queria dos homens, inclusive o primeiro homem da sua vida, o pai. Mas eu não estava chegando a lugar nenhum. Ela realmente resistia a falar sobre o passado, tinha feito muito disso com outros psiquiatras, ela disse. Também tinha a noção de que xeretar nas cinzas do passado era meramente uma desculpa para escapar da responsabilidade pessoal por nossas ações. Ela tinha lido meu livro sobre psicoterapia e me citou dizendo exatamente isso. Detesto isso. Quando os pacientes resistem citando nossos próprios livros, eles nos pegam de jeito.
Numa das sessões, pedi que falasse de alguns dos primeiros devaneios ou fantasias sexuais e finalmente, para me agradar, ela descreveu uma fantasia recorrente da época em que estava com 8 ou 9 anos: uma tempestade lá fora, ela entra num aposento com frio e molhada até os ossos e um velho a aguarda.
Ele a abraça, tira suas roupas molhadas, seca-a com uma grande toalha quente, lhe dá um chocolate quente. Então sugeri que fizéssemos uma encenação:
pedi-lhe que saísse do consultório e voltasse a entrar, fingindo estar molhada e com frio. Pulei, é lógico, a parte de despi-la, arranjei uma toalha de bom tamanho do banheiro e a sequei vigorosamente — permanecendo não-sexual, como sempre fiz. ‘Sequei’ suas costas e cabelos, depois a enrolei na toalha, coloquei-a sentada e fiz uma xícara de chocolate quente instantâneo.
Não me pergunte por que ou como decidi fazer isso naquela ocasião.
Quando você tiver os anos de prática que tenho, saberá confiar na sua intuição.
E a intervenção mudou tudo. Belle ficou sem fala por algum tempo, as lágrimas brotaram de seus olhos e, então, berrou como um bebê. Belle nunca tinha chorado numa terapia. Nunca. A resistência simplesmente se dissipou.
O que quero dizer com a resistência se dissipando? Quero dizer que ela confiou em mim, que acreditou que estávamos do mesmo lado. O termo técnico, dr. Lash, é ‘aliança terapêutica’. Depois disso, ela se tornou uma verdadeira paciente. O material importante simplesmente saiu dela, como numa erupção. Começou a viver pela sessão seguinte. A terapia tornou-se o centro da sua vida. Muitas vezes ela me contou o quanto eu era importante para ela.
E isto ocorreu depois de apenas três meses.
Se eu era importante demais? Não, dr. Lash, o terapeuta não pode ser importante demais no início da terapia. Mesmo Freud usou a estratégia de tentar substituir uma psiconeurose por uma neurose de transferência; é uma maneira poderosa de ganhar controle sobre os sintomas destrutivos.
Isto parece tê-lo desconcertado. Bem, o que acontece é que o paciente se torna obcecado com o terapeuta, fica ruminando vigorosamente sobre cada sessão, tem longas conversas fantasiosas com o terapeuta entre as sessões.
Finalmente, os sintomas são dominados pela terapia. Em outras palavras, os sintomas, em vez de serem impelidos por fatores neuróticos internos, começam a flutuar de acordo com as exigências do relacionamento terapêutico.
Não, obrigado, não quero mais café, Ernest. Mas tome você. Você se importa se eu chamá-lo de Ernest? Ótimo. Então, para continuar, capitalizei este desenvolvimento. Fiz tudo o que pude para me tornar ainda mais importante para Belle. Respondi a todas as perguntas que ela me fez sobre minha própria vida, dei apoio às partes positivas dela. Disse-lhe o quanto ela era uma mulher inteligente, bem-apessoada. Que detestava o que ela estava fazendo a si mesma e disse-lhe isto com grande franqueza. Nada disso foi difícil: tudo o que precisei fazer foi dizer a verdade.
Você me perguntou há pouco qual foi a minha técnica. Talvez minha melhor resposta seja simplesmente: eu disse a verdade. Comecei, gradualmente, a ter um papel maior na sua vida de fantasias. Ela mergulhava em longos devaneios sobre nós dois; simplesmente estarmos juntos, abraçando-nos reciprocamente, eu jogando jogos de bebê com ela, eu a alimentando. Certa vez, ela trouxe um copinho de gelatina e uma colher ao consultório e me pediu que lhe desse de comer, o que eu fiz, para seu grande deleite.
Soa inocente, não soa? Mas eu sabia, mesmo no início, que havia uma sombra se avultando. Soube disso então, soube disso quando ela falou sobre o quanto ela ficava excitada quando eu a alimentava. Soube disso quando ela falou sobre fazer canoagem por longos períodos, dois ou três dias por semana, apenas para que pudesse ficar sozinha, flutuar nas águas e deleitar-se com seus devaneios sobre mim. Sabia que minha abordagem era arriscada, mas foi um risco calculado. Iria permitir que a transferência positiva crescesse para que eu pudesse usá-la para combater sua autodestrutividade.
E, depois de poucos meses, eu tinha me tornado tão importante para ela que poderia começar a me debruçar sobre a sua patologia. Em primeiro lugar, concentrei-me na questão de vida ou morte: HIV, a cena do bar, as felações do anjo da misericórdia das estradas. Ela fez um teste de HIV; negativo, graças a Deus. Lembro-me de ficar esperando duas semanas pelos resultados do teste do HIV. Vou confessar: suei frio tanto quanto ela.
Você já trabalhou com pacientes quando eles estão esperando pelos resultados do teste do HIV? Não? Bem, Ernest, esse período de espera é uma janela de oportunidade. Você pode usá-la para fazer muito trabalho. Durante alguns dias, os pacientes se vêem face a face com sua própria morte, possivelmente pela primeira vez. É um período em que você pode ajudá-los a examinar e a organizar suas prioridades, para basear suas vidas e seu comportamento nas coisas que realmente contam. Terapia de choque existencial, é como eu chamo às vezes. Mas não Belle. Não a desconcertou. Simplesmente tinha negação demais. Assim como tantos outros pacientes autodestrutivos, Belle sentia- se invulnerável na mão de qualquer outro quanto na sua própria.
Ensinei a ela sobre o HIV e sobre herpes, milagrosamente, ela não tinha, nenhum deles, e também sobre os procedimentos de sexo seguro. Fui seu técnico sobre os lugares seguros para pegar homens se ela tivesse uma necessidade absoluta: clubes de tênis, reuniões da associação de pais e mestres, sessões de leituras em livrarias. Belle era uma coisa — tão empreendedora! Conseguia arrumar um encontro com alguém bonito totalmente estranho em cinco ou seis minutos, às vezes acompanhado de uma esposa a apenas três metros que de nada suspeitava. Tenho de admitir que eu a invejava. A maioria das mulheres não dá valor à sua boa sorte neste aspecto. Você vê homens — particularmente um estropiado como eu — fazendo isso a seu bel-prazer?“Uma coisa surpreendente em Belle, levando em consideração aquilo que já lhe contei até agora, era sua absoluta honestidade. Nas nossas primeiras duas sessões, quando estávamos decidindo trabalhar juntos, expus minha condição básica da terapia: total honestidade. Ela tinha de se comprometer a contar sobre todos os eventos importantes da sua vida: uso de drogas, encenação sexual impulsiva, mutilações, orgias de comida, fantasias, tudo. Do contrário, eu lhe disse, estaríamos desperdiçando o tempo dela. Mas, se fosse franca comigo sobre tudo, ela poderia contar comigo em absolutamente tudo para passar por isto com ela. Ela prometeu e apertamos solenemente as mãos para firmar nosso contrato.
E, tanto quanto sei, ela manteve a promessa. De fato, isto foi parte do meu trunfo, porque, se houvesse deslizes importantes durante a semana — se, por exemplo, ela arranhasse os pulsos ou fosse até um bar —, eu analisaria a questão até a morte. Eu insistia numa investigação profunda e minuciosa do que tinha acontecido até logo antes do deslize. ‘Por favor, Belle’, eu diria, ‘preciso saber de tudo o que antecedeu o evento, tudo que possa nos ajudar a entendê-lo: os eventos anteriores do dia, seus pensamentos, seus sentimentos, suas fantasias.’ Isso fazia Belle subir pelas paredes. Ela tinha outras coisas sobre as quais queria conversar e odiava gastar grande parte do seu tempo de terapia nisto. Só isso já a ajudava a controlar sua impulsividade.
Insight? Não é um elemento importante na terapia de Belle. Ah, ela começou a admitir que era mais freqüente que seu comportamento impulsivo fosse antecedido por um estado emocional de enorme vazio ou de falta de vida e que o comportamento de risco, as mutilações, o sexo, os excessos compulsivos, tudo era tentativa de se ocupar o máximo possível ou de levá-la de volta à vida.
Mas o que Belle não compreendia era que essas tentativas eram em vão. Cada uma delas era um tiro pela culatra, já que acabavam resultando numa profunda vergonha e, então, em tentativas mais frenéticas, e mais autodestrutivas, para se sentir viva. Belle sempre foi estranhamente obtusa em apreender a idéia de que seu comportamento tinha conseqüências.
Portanto, insight não adiantava. Tive que fazer alguma outra coisa, e experimentei todos os expedientes regulamentares e mais alguns, para ajudá-la a controlar a impulsividade. Fizemos uma lista de seus comportamentos impulsivos destrutivos e ela concordou em não embarcar em nenhum deles antes de me telefonar e me dar uma chance de convencê-la do contrário. Mas ela raramente telefonava. Não queria me importunar no meu tempo. Lá no fundo, ela estava convencida de que meu compromisso com ela era frágil e que eu logo me cansaria e me livraria dela. Não consegui convencê-la do contrário. Ela pediu alguma lembrança minha concreta para levá-la com ela. Isto lhe daria mais autocontrole. ‘Escolha alguma coisa do consultório’, disse a ela.
Ela puxou o lenço do meu paletó. Dei-o a ela, mas antes escrevi nele um pouco da dinâmica importante dela:
Sinto-me morta e me machuco para saber que estou viva.
Sinto-me morta e devo assumir riscos perigosos para me sentir viva.
Sinto-me vazia e tento me encher de drogas, comida, sêmen.
Mas estes consertos têm vida curta. Acabo me sentindo envergonhada
— e ainda mais morta e vazia.
Instruí Belle a meditar sobre o lenço e as mensagens a cada vez que se sentisse impulsiva.
Você parece sarcástico, Ernest. Você desaprova? Por quê? Ardiloso demais?
Não é. Parece ardiloso, concordo, mas são medidas desesperadas para situações desesperadas. Para os pacientes que parecem que nunca desenvolveram um nítido senso de constância de objeto, descobri que uma certa possessão, algum lembrete concreto, é muito útil. Um dos meus professores, Lewis Hill, que era um gênio no tratamento de pacientes esquizofrênicos gravemente doentes, costumava respirar dentro de um frasco pequeno e dá-lo para que os pacientes usassem ao redor dos pescoços quando ele saía de férias.
Você acha isto também ardiloso, Ernest? Vamos substituir por outra palavra, a palavra correta: criativo. Lembra-se do que disse antes sobre criar uma nova terapia para cada paciente? É exatamente isto que eu quis dizer. Além disso, você não fez a pergunta mais importante.
Funcionou? Exatamente, é isso mesmo. É essa a pergunta certa. A única pergunta. Esqueça as regras. Sim, funcionou! Funcionou para os pacientes do dr. Hill e funcionou para Belle, que carregava por toda a parte o meu lenço e ganhou cada vez maior controle sobre a sua impulsividade. Seus “deslizes” tornaram- se menos freqüentes e logo pudemos começar a voltar nossa atenção para outros lugares nas nossas horas de terapia.
O quê? Meramente uma cura por transferência? Existe algo nisto que está realmente afetando-o, Ernest. Isso é bom. É bom questionar. Você tem um senso para as verdadeiras questões. Deixe-me dizer, você está no lugar errado da sua vida. Seu destino não é ser um neuroquímico. Bem, o menosprezo de Freud pela ‘cura por transferência’ tem quase um século. Existe alguma verdade nisso, mas está basicamente errado.
Acredite em mim: se você interromper um ciclo autodestrutivo de comportamento, não importa como você o faça, você terá realizado algo importante.
O primeiro passo tem de ser interromper o ciclo vicioso do ódio de si mesmo, autodestruição e, depois, mais ódio de si mesmo por causa da vergonha do seu próprio comportamento. Embora ela nunca tenha dito expressamente, imagine a vergonha e o autodesprezo que Belle deve ter sentido com seu comportamento degradado. Cabe ao terapeuta ajudar a reverter esse processo.
Karen Horney certa vez disse… conhece o trabalho de Horney, Ernest?

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