Foto Pics O Opositor Luis Fernando Verissimo Primeiro Capitulo LivroPrimeiro Capítulo: O Opositor | Luis Fernando Verissimo

Livro: O Opositor
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– 1º Capítulo –

Caju

A cachaça fala com a língua dos homens. Não sei quanto desta história é da cachaça e quanto é do homem. Também não garanto que ouvi tudo o que conto. O chauasca aumenta a sensibilidade dos ouvidos. Na metade do tempo, além da voz do Polaco, eu ouvia o rumor das galáxias de Perseus e o zunir dos peixes no rio Negro, e nos afluentes dos afluentes dos afluentes dos seus afluentes. Talvez você também deva tomar alguma coisa antes de começar a leitura. Recomendo suco de sapiri.

O homem disse que se chamava Jósef Teodor. Só quando soube que eu estava transcrevendo o que ele me contava mostrou como se escrevia seu nome, com a ponta do dedo no tampo da mesa. Acento no primeiro ó. Efe, não ph, no fim de Jósef. Teodor sem agá. Mas no bar em que o conheci, em Manaus, ele era chamado de Polaco.

– Deixa o moço em paz, Polaco!

Foi o que o dono do bar, Hatoum, gritou quando ele se aproximou da minha mesa com o copo vazio numa mão e arrastando sua cadeira com a outra.
Fiz um sinal de “tudo bem” para Hatoum e o homem alto com uma grande cara vermelha sentou-se à minha frente, depois de empurrar as outras cadeiras da mesa. Passava de mesa em mesa arrastando sempre a mesma cadeira. Dormia sentado na cadeira, com a cabeça aninhada nos braços sobre uma mesa. Levava-a com ele até quando ia ao banheiro do bar. Quando, confuso com os detalhes da sua biografia, perguntei qual era a sua pátria, afinal, ele levantou-se e indicou a cadeira. Aquela era a sua pátria. Mas isso veio depois. A primeira coisa que ele me disse foi:

– Existem 21 maneiras de matar alguém só com as mãos. Conheço todas.

Tinha cabelos vermelhos como a sua pele e uma voz rouca. Falava um português crocante, que parecia sair da sua boca em barras. Eu já o notara, ao me dirigir para uma mesa com o suco de caju que Hatoum recomendara ao ver minha cara com uma frase que não entendi (“Para começar, caju”). Com aquele tamanho e o cabelo desalinhado em chamas, era impossível não notá-lo. Não era uma pessoa, era uma conflagração. Estava sentado com outros dois homens e desenhava alguma coisa no tampo da mesa com o dedo. Os outros dois sorriam como se sorri, precavidamente, para um possível louco, antes de se ter certeza. As demais pessoas do bar não lhe davam atenção. Deviam conhecê-lo de muito tempo. Ele nunca abandonava o bar. Não consegui convencê-lo a deixar sua cadeira para trás, subir o rio Negro comigo e mostrar o local onde sepultara o Dr. Curtis ? ou talvez não sepultara. Se aceitasse o meu desafio, seria a primeira vez em que sairia do bar em cinco anos. A primeira vez em cinco anos em que deixaria para trás a sua pátria de quatro pernas.

– Existem 21 maneiras de matar alguém só com as mãos. Conheço todas.

Eu disse alguma coisa como “Ah, é?”, e também sorri como se sorri para os possíveis loucos. Ele examinou meu rosto com seus olhos injetados de bêbado por um longo tempo. Como se ponderasse se eu merecia saber mais do que aquilo a seu respeito. Depois olhou meu suco de caju e fez um ruído de desdém sem abrir a boca.

Estendeu a mão e disse:

– Jósef Teodor.

Apertei sua mão e disse meu nome. Ele não largou minha mão. Puxou-me em sua direção e disse, com a boca a centímetros do meu nariz:

– Que idade você tem?

Disse a minha idade e ele fez outro som de desprezo.

– Rá! Você não sabe de nada.

– Polaco! – gritou o Hatoum, de trás do balcão. – Deixa o homem em paz.
Pelo tom de Hatoum, deduzi que aquilo acontecia sempre. O Polaco vivia importunando os fregueses novos do bar. Ele não deu atenção a Hatoum.

Perguntou:

– O que você sabe?

– O que eu deveria saber?

Ele largou a minha mão e fez um rápido desenho com o dedo no tampo da mesa. E exigiu:

– Me diga o que é isto.

Eu mal tinha visto o que ele desenhara. Pareciam três letras. Ou algum tipo de símbolo. Disse:

– Não sei.

Ele atirou-se para trás na sua cadeira, como quem desiste.

– Você não sabe de nada – repetiu.

Eu tinha confirmado as suas piores expectativas sobre os tomadores de suco de caju.

Eu tinha entrado no bar porque precisava tomar um líquido. Qualquer líquido menos a mineral do frigobar do hotel, que custava um absurdo. Passara a tarde bebendo chá de uasca com a Serena, no colchão que era a única alternativa a ficar de pé na sua casa. Além de me fazer viajar sem sair do colchão e ouvir cochichos na lua, o chauasca me dava uma sede danada. O bar ficava perto do hotel. Eu estava em Manaus fazendo uma reportagem sobre ervas e frutas alucinógenas da Amazônia. A diária paga pelo jornal era pequena. Eu pedira para ficar mais tempo em Manaus, para aprofundar minha pesquisa. Queria mesmo era ficar mais tempo com a Serena, que era metade índia e metade dinamarquesa. Literalmente. Vista de um lado, ela era branca com mechas negras no cabelo loiro, do outro lado, índia, com estrias loiras no cabelo preto. Sua voz era de seda. E quando ela gozava fazia “gögre, gögre”, que (dizia) é o que fazem todas as dinamarquesas quando gozam. Mas ela não tinha certeza do trema. O filho-da-mãe do Alvarinho, meu editor, concordara em me dar mais tempo, desde que o jornal não precisasse mandar mais dinheiro. E foi minha decisão de evitar a água mineral cara do hotel que me fez entrar no bar, e nesta história, e neste labirinto.

Vinha pela rua entre exausto e extasiado depois de dormir até as quatro da tarde com Serena, que tem os polegares amputados e segurava meu * como segurava as xícaras de chauasca, delicadamente, com as duas mãos, a branca e a morena. Seus polegares amputados tinham algo a ver com uma seita e com o polegar esquerdo de Fra Angelico num certo mural da Itália, mas na hora sua explicação se perdera na névoa cerebral em que eu vivia, induzida pelo chá e pelo calor de Manaus. Eu já passara pelo bar várias vezes, vindo da casa de Serena, e naquele dia espiei pela porta e vi Hatoum atrás do balcão emoldurado por frutas de todos os tipos, como numa alegoria tropical. Uma alegoria do Brasil: o gordo Hatoum, filho de imigrantes árabes, cercado pela extravagante fruição da Amazônia, e tão integrado no cenário que sua cara também parecia uma fruta. Era um grande jambo de bigode. Atrás dele, escrita em branco num fundo preto, uma lista dos sucos da casa, a maioria com nomes que eu não conhecia. Açaí, serigüela, buriti, bacuri, patavá, sapiri… Não, o sapiri eu conhecia. Serena me falara dele. Mas me dissera que eu não estava pronto para o sapiri. Dissera, misteriosamente, que o sapiri ficaria para o fim.

Quando levei meu conservador suco de caju para a mesa, avistei o Polaco importunando os dois fregueses e riscando a mesa com o dedo indicador, e sua figura me intrigou. Soube depois que ele tomava banho num chuveiro improvisado atrás do bar do Hatoum. E que pagava a tolerância do Hatoum, e as roupas velhas que este lhe dava, funcionando como um vigia informal do bar. Nunca saía de lá, nem quando Hatoum fechava as portas e ia para casa. Mesmo que estivesse sempre bêbado, seu tamanho e sua grande cara vermelha bastavam para espantar os ladrões e os arruaceiros e talvez até os insetos. Varria o bar todas as manhãs, em troca de comida. Era um espantalho de muitas utilidades. Pagava sua cachaça com o que conseguia arrancar de fregueses interessados, ou resignados, ou zonzos, como eu. E nunca, em cinco anos, se aproveitara das suas noites sozinho no bar, sentado na sua cadeira inseparável com a cabeça vermelha sobre uma mesa, para roubar cachaça do Hatoum. Foi o que Hatoum me contou, quando perguntei se as histórias do Polaco poderiam ser verdadeiras. Querendo dizer que, mesmo se fosse um mentiroso, era um mentiroso honesto. De qualquer maneira, nunca deixei minha câmera ao alcance da sua mão.

O Polaco tinha olhos americanos. As íris muito azuis e o branco e o vermelho disputando o resto do espaço. A barba, o nariz e as bochechas da mesma cor davam ao seu rosto o aspecto de uma aquarela malfeita, em que a tinta escorrera e invadira os olhos em filetes vermelhos. Idade indefinida, entre 50 e 60 anos, mais ou menos o dobro da minha. Falava com correção e até um certo cuidado formal, como as pessoas costumam ter quando usam uma língua que não é a delas. Seu sotaque era indefinível, e notei que às vezes esquecia o sotaque e às vezes o enfatizava. Era um ator. Naquele primeiro dia, depois de concluir que eu não sabia nada e provavelmente nunca aprenderia nada, depois de desistir de toda a minha geração, ele pareceu decidir que merecíamos outra chance. Levantou a mão esquerda, com a palma virada para mim e os dedos estendidos, e perguntou:

– O que você vê aqui?

– Cinco dedos?

Ele usou o indicador da outra mão para bater na ponta dos dedos da mão aberta. Um, dois, três, quatro.

– São as quatro organizações que dominam o mundo.

Segurou a ponta de cada dedo de uma vez e o sacudiu, como se o estivesse castigando.

– Um… dois… três… quatro… As quatro têm representantes no Grupo Meierhoff. Você já ouviu falar no Grupo Meierhoff?

Não, eu nunca ouvira falar no Grupo Meierhoff. Ele atirou-se para trás outra vez, com a boca aberta, numa exagerada pantomima de espanto.

– Onde você vive? O que você faz? – perguntou, depois de se recuperar do falso choque.

– São Paulo. Jornalista.

– Um jornalista que não sabe de nada…

Era inútil. Eu era irrecuperável. Por um instante ele ficou com a cabeça pendida, olhando para o seu copo, como se tentasse decidir se valia a pena continuar. Quando levantou a cabeça, foi para procurar o Hatoum com o olhar. Precisaria de um reforço para me agüentar.

– Hatoum, traga outro copo. Este está vazio. O moço paga.

Hatoum o ignorou. Ele abriu a mão esquerda outra vez, com a palma na minha direção. Ia repetir a lição.

– Preste atenção. São quatro organizações. No máximo 17 pessoas entre elas. Algumas pertencem a mais de uma organização. E sabe o que elas decidem?

– O quê?

– Tudo.

– Tudo?

– Tudo.

O efeito do chauasca estava passando. Eu já não ouvia a voz do Polaco misturada com todos os sons da cidade, da floresta e dos rios. Não tinha mais nada para fazer em Manaus. Depois de começar a tomar o chá da Serena e a viajar no seu colchão, passara a inventar a reportagem sobre as ervas. Abandonara a pesquisa entre os ervários da cidade e fazia minha investigação entre os braços da Serena, o loiro e o moreno. Serena prometia me levar em incursões pela floresta mas eu ainda não saíra de Manaus. Prometia me levar Negro acima, e explorar o labirinto dos afluentes dos afluentes dos seus afluentes. Me falava de um afluente de um afluente de um afluente do Negro que não existia, ou só existia nos mitos da região. O Iguê-ago, que quer dizer rio da Solidão, ou rio que Não Existe, ou o último rio. Quem se perdia no labirinto dos afluentes dos afluentes dos afluentes do Negro se arriscava a entrar no Iguê-ago e dar com si mesmo pelas costas. Mas nós não saíamos de Manaus.

Depois das tardes de amor suado e chauasca eu ia para o hotel e escrevia o que Serena me contava, e minhas alucinações. Nem sempre conseguia distinguir uma coisa da outra. Eu ouvira de Serena ou alucinara que existiam não só plantas medicinais como plantas cirúrgicas que, deixadas a sós com um paciente, enroscavam-se nele, descobriam seu tumor e o extraíam através da carne e da pele? E uma fruta carnuda cujo sumo fazia voar quem o bebia e substituía a canoa como principal meio de transporte de algumas tribos da Amazônia? E o sapiri, que, dependendo do espírito com que fosse ingerido, matava, hipnotizava ou levava ao paraíso do esquecimento, e para o qual eu ainda não estava pronto? Serena me contara mesmo que tinha uma amiga, chamada Adi, que era metade mulher e metade sucuri, e que ela prometia trazer para o nosso colchão, ou eu alucinara aquilo? E os botos galantes? E os sapos do tamanho de cachorros?

Eu só precisava de algum tempo para me recuperar e ingerir líquidos, no caminho entre os braços da Serena e o meu notebook, e o bar era mais fresco do que o quarto do hotel. Por isso ficara no bar, naquele primeiro dia, no começo daquela semana estranha. Na entrada do labirinto. E porque o Polaco me intrigava. Estava curioso para saber como aquele bêbado imenso de origem desconhecida acabara ali, arrastando sua cadeira num bar de Manaus e importunando estranhos. A sua era certamente uma história com possibilidades latejantes.

Possibilidades latejantes. O filho-da-mãe do Alvarinho pregara no quadro de avisos da redação a minha primeira matéria assinada com a frase “possibilidades latejantes” sublinhada e anunciara que havia um estilista, um poeta do cotidiano, solto no jornal, antes de quase desabar no chão de tanto rir. A partir daí, sempre que me pautava dizia que a matéria tinha possibilidades latejantes, mesmo que fosse sobre salões de beleza para animais domésticos. “Explore todas as possibilidades latejantes”, dizia, ao me mandar fazer uma reportagem para o caderno de cultura e futilidades que editava. A biografia daquele espantalho vermelho devia ser mais fascinante do que qualquer história improvável que ele tivesse para me contar em troca da cachaça. As possibilidades latejantes de Jósef Teodor eram óbvias.

Naquele primeiro dia, à beira do labirinto, eu disse que, pelo que sabia, quem decidia “tudo” era o G-7, o grupo dos sete países mais ricos do mundo, ou, por trás da cena, a Comissão Trilateral, e por trás da Comissão Trilateral os Rockefellers. Ele hesitou. Eu não tinha a menor idéia do que estava dizendo. Apenas ouvira falar da tal Comissão Trilateral e queria mostrar que não era um inocente completo. Mas a sua hesitação durou pouco. Fez um gesto que varreu do ar as minhas teorias ingênuas.

– Esses não mandam nada. São só uma frente. Quem decide tudo, ou tenta decidir tudo, desde o fim da Segunda Guerra, é o Grupo Meierhoff. Eles se reúnem num hotel nos arredores de Vilvoord, e decidem o que deve acontecer no mundo. Às vezes fazem reuniões de emergência. Foi depois de uma reunião de emergência que eles…

– Quem são eles?

O Polaco se impacientou com a minha interrupção.

– Você não os conheceria. São as 17 pessoas que contam, no mundo, hoje. As únicas que contam. Nove são americanas. Juntas, elas controlam 73 por cento da riqueza da Terra.

A cifra variaria, nos dias seguintes, cada vez que era citada. De 65 a 88 por cento.

– E quem são os…

– Stop! – disse o Polaco. – Você quer ouvir a história ou não quer?

– Está bem – disse eu, me esforçando para não rir. – Continue.

O Polaco levantou seu copo vazio na direção de Hatoum como se lhe dirigisse um brinde. Hatoum olhou para mim. Fiz sinal com a cabeça de que abonava o pedido silencioso. Hatoum saiu de trás do balcão com uma garrafa de cachaça e encheu o copo do Polaco. Me perguntou:

– Ele está lhe incomodando?

– Não, não.

O brinde do Polaco, agora, era para mim. Com o copo cheio.

– Obrigado, amigo. Vou lhe contar a história mais extraordinária que você já ouviu. Pena que seu jornal não a publicará.

– Por quê?

– Porque é uma história extraordinária. As histórias extraordinárias são perigosas. Elas ameaçam as histórias ordinárias, as histórias de fachada, que são as que mantêm as pessoas ignorantes e sob controle. As histórias extraordinárias só são admissíveis como ficção, não como fato. Só como histórias contadas por bêbados em bares. Jamais como fato. A verdade é perigosa.

Preparei-me, então, para ouvir a história de como um pequeno grupo de poderosos domina o mundo, apenas outra tese paranóica de um bêbado sobre o que está por trás de tudo, inclusive da sua miséria pessoal. Nada muito extraordinário. Outra alucinação. Outro efeito do calor de Manaus. Ou talvez não.

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