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Trecho do Livro: Emprego de A a Z | Max Gehringer

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A de Assédio Moral

Um empregado que é humilhado pelo chefe está sendo vítima de assédio moral. E isso é bem mais comum do que parece. Existe há muitos e muitos anos. Provavelmente, do dia em que o primeiro patrão contratou o primeiro empregado. Mas milênios se passaram até que, finalmente, a Justiça do Trabalho começasse a punir as empresas que toleram o mau comportamento dos chefes. A CLT, o conjunto de leis que regula as relações entre empregador e empregado, não menciona diretamente o assédio moral. Desde o final da década de 1990, a justiça vem aceitando causas por assédio moral. São as sentenças dos juízes que estão servindo de base para futuros processos.

O assédio moral ocorre quando um chefe abusa do poder de seu cargo para humilhar um subordinado, ou todos os subordinados, de maneira constante e contínua. Essas duas palavrinhas são importantes. Constante e contínua. O assédio moral não é uma única explosão de mau humor por parte do chefe. Não é algo que acontece de vez em quando. É perseguição, que ocorre praticamente todos os dias e durante bom período de tempo. Por exemplo: o chefe grita em vez de falar. O chefe chama o subordinado de burro na frente dos colegas. O chefe coloca um apelido maldoso em um subordinado. O chefe obriga sua equipe a uma situação ridícula e constrangedora quando não atinge a meta. O chefe isola um subordinado em um canto, não fala com ele, e não permite que converse com os colegas. Com o tempo, o subordinado assediado começa a ter problemas de saúde, física e mental. Sente-se envergonhado e deprimido. Seu relacionamento com a família começa a deteriorar.

Até pouco tempo atrás, esse empregado tinha apenas um caminho: baixar a cabeça e pedir a conta. Agora, começou a ser amparado pela lei para denunciar o abuso. Quem está sofrendo assédio moral deve acumular provas. Registrar datas e guardar receitas e atestados médicos. A denúncia deve ser feita à empresa. Somente depois deve ser procurado o caminho judicial.

Combater o assédio moral não é tirar do chefe o respeito que ele merece como chefe. Nenhuma empresa iria conseguir sobreviver sem hierarquia. Chefes sempre existiram e sempre vão existir. Mas o respeito tem mão dupla. O subordinado tanto deve respeitar o chefe, quanto ser respeitado por ele. Por isso, boas empresas orientam seus chefes para os riscos de assédio moral. Esse é o melhor caminho. A prevenção agora para evitar a condenação depois.

E a culpa é do café

O assédio moral ocorre sempre que um chefe, usando seu cargo hierárquico como escudo, abusa verbalmente de um funcionário bem qualificado, ou ofendendo, ou dando ordens sem sentido. Chefes assediadores fazem isso porque são inseguros, ou porque têm raiva de funcionários que conseguiram tirar os diplomas que os chefes gostariam de ter tirado, ou por qualquer outro motivo. O fato é que o abuso existe.

Minha percepção é que isso nãovai acabar tão cedo, porque há empresas que fecham os olhos e toleram o abuso. Conheço um caso desses. Um gerente machão, o Xuxão, tinha uma funcionária superqualificada, a Fernandinha. Ela era eficiente em tudo o que fazia, e o Xuxão, por algum motivo, ficava chateado com tanta eficiência. Para mostrar quem mandava, pedia à Fernandinha para que pegasse um café na cozinha. A Fernandinha ia. Certo dia, a copeira faltou e o Xuxão pediu que Fernandinha fizesse o café. Ela fez. O Xuxão provou e disse que estava amargo. A Fernandinha foi buscar o açúcar. O Xuxão provou de novo e disse que estava frio. E perguntou por que a Fernandinha tinha tanto diploma se não sabia nem fazer café direito. Delicadamente, a Fernandinha pegou a xícara, despejou o café na mesa do Xuxão e pediu a conta.

Alguns anos depois, encontrei por acaso o Xuxão. Ele estava igualzinho. O mesmo penteado anos 70, a mesma camisa desabotoada, a mesma barba por fazer. Comentei que a Fernandinha havia tido uma carreira incrível depois que deixara de trabalhar com ele. Havia tido promoções freqüentemente, viajava com constância ao exterior para fazer apresentações na matriz da empresa. E o Xuxão, o protótipo perfeito do assediador, cuja ficha não cai nunca, disse: “Pois é, imagine onde essa menina poderia ter chegado se soubesse, além de tudo, fazer um café decente”.

Comando feito sob ameaça

A batalha contra todos os tipos de assédio entrou em moda nas empresas pouco tempo atrás. O primeiro a ganhar notoriedade foi o mais óbvio deles, o sexual. É claro que muita gente exagera um pouco quando se trata desse assunto. Tive uma colega de trabalho que achava que tudo era assédio sexual. Se alguém chegasse e perguntasse: “Sônia, você viu meu pincel atômico?”, ela saía correndo para denunciar o agressor. Felizmente, as empresas já admitem que assédio sexual é crime e pronto.

Outro tipo de assédio tão antigo quanto o sexual e tão doloroso quanto é o assédio moral. Menos escandaloso que o sexual, o moral deixa também seqüelas sérias. É o caso do chefe que administra sua equipe por meio do medo, sempre ameaçando os que se atrevem a contrariá-lo. É o chefe que não permite que seus funcionários se desenvolvam.

Em empresas que toleram o assédio moral, além do ambiente de trabalho ser uma lástima, a produtividade geral é baixa, já que aquele sentimento de orgulho por estar trabalhando ali simplesmente não existe. Há, entretanto, uma sutil diferença entre o assédio moral e a pressão por resultados. A pressão existe em todo lugar e é normal. Por isso, o chefe que pressiona por melhores resultados é diferente do chefe que pressiona porque é inseguro. E a diferença é fácil de ser percebida: o chefe que pressiona também sabe reconhecer quando um trabalho está bem-feito. Não com elogios e sorrisos, porque chefes que botam pressão quase nunca têm esse estilo amigo e camarada, mas com avaliações honestas de desempenho. A Sônia, aquela minha colega de trabalho que via maldade em tudo, tinha um chefe assim. Mas ela não conseguia perceber isso. Tanto que, um dia, entrou em pânico quando o chefe disse que ela estava precisando apenas de uma cenoura.

Sacrifício dos pioneiros

O assédio moral acontece quando, sem necessidade, o chefe grita, ofende, e dirige um palavrão a um funcionário. E esse tipo de comportamento é repetitivo, como se fosse um estilo de chefiar. A simples existência de um assediador é sinal evidente de que a empresa não está nem aí se o funcionário sofre humilhação. Resta a ele, então, a via legal. O processo pode ser trabalhista. Juízes do trabalho, em alguns estados, estão condenando empresas por prática de assédio moral.

Durante o processo, o juiz pode determinar uma avaliação psicológica do reclamante para entender o estrago que o assédio causou. Por exemplo, o assediado tornou-se dependente de calmantes para poder suportar o assédio. No final, a pena é uma indenização em dinheiro. Evidentemente, a empresa irá recorrer da sentença e o processo se arrastará por vários anos.

O que acontece com o funcionário que abriu o processo? É difícil dizer. Provavelmente, sairá da empresa, porque não terá ambiente para continuar nela. E poderá, ou não, ser contratado por outra. Vai depender da postura ética de cada empresa. Funcionários que movem processo contra assédio moral irão beneficiar mais as futuras gerações do que a si mesmos. Quanto mais ações na justiça, mais empresas decidirão implantar normas internas para prevenir o assédio moral. Esse sacrifício pessoal é o preço que os pioneiros terão que pagar. Mas, é bom lembrar, o progresso nunca foi feito pelos que sofrem calados.

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